O CEO que Eu Paguei
240 Herança
POV HUMBERTO MONTEIRO
Eu estava olhando os bichinhos flutuando acima de mim. Eles ficavam balançando devagar, indo para um lado e para o outro, como se estivessem brincando. Eu estiquei minhas mãozinhas para tentar pegá-los, mas eles continuavam longe. Tentei de novo e mais uma vez.
Eles simplesmente não deixavam eu alcançar! Então desisti por um instante e virei a cabeça para o lado.
Meu papai estava ali.
Ele estava me olhando daquele jeito que sempre olha para mim, como se eu fosse a coisa mais interessante do mundo. Eu sorri para ele imediatamente e ele sorriu de volta.
Olha, papai, meu sorriso é igual ao seu! Eu ainda não sei muitas coisas, mas tenho quase certeza de que é igual, eu tento sorrir grandrão do mesmo jeito que ele. Isso fez ele rir, e eu gostei tanto que sorri mais ainda. Adoro quando ele faz isso. A risada dele é boa, quentinha. Faz eu sentir que está tudo certo.
Mas os bichinhos continuavam ali.
Voltei a olhar para eles e depois para o papai.
Agora, papai, pode me ajudar com isso? Fiquei encarando ele para ver se entendia.
— Quer esse, garotão? — perguntou ele, encostando a mão em um dos bichinhos.
Isso mesmo!
Sabia que você ia entender.
Não sei o que ele fez, mas os bichinhos vieram parar bem mais perto de mim. Tão perto que quase encostavam na minha barriga. Estiquei as mãos novamente para pegar um deles. Só que minhas mãos ainda são estranhas. Às vezes elas fazem exatamente o que eu quero. Outras vezes parecem ter planos próprios. Eu mando elas fecharem e elas ficam abertas. Eu mando pegarem alguma coisa e elas vão para outro lugar. Estou começando a desconfiar que minhas mãos não me escutam muito bem.
Olhei para elas com atenção. Depois olhei para a mão do meu pai.
Era enorme. Muito maior que a minha.
Na verdade, tudo no meu pai é grande. As mãos, os braços, os dedos. Eu fiquei olhando de uma mão para a outra e tentando entender.
Papai, as minhas vão ficar iguais às suas algum dia? Porque eu acho que seria muito útil. Talvez elas obedecessem melhor.
Fiquei explicando isso para ele do meu jeito.
— O que você está falando com o papai? — perguntou ele. — Tá empolgado para hoje?
Não, papai.
Estou falando das minhas mãos.
Você não está prestando atenção.
Elas precisam crescer.
Meu pai continuou sorrindo e pegou um dos bichinhos. O amarelinho. Aquele que tem uma barrigona redonda.
Igual a minha.
Mas então uma coisa muito diferente aconteceu.
Eu olhei para um lado. Depois para o outro. Demorou um pouco porque olhar para todos os lados ainda não é tão fácil quanto parece. Então olhei de novo, prestando bastante atenção desta vez.
E não encontrei.
Meu sorriso desapareceu.
Espera.
Onde está a minha mamãe?
Procurei outra vez. Olhei ao redor. Os bichinhos estavam aqui. Meu papai estava aqui. Eu estava aqui.
Mas a mamãe não.
Virei a cabeça imediatamente para o meu pai.
Papai, cadê a mamãe?
Alguma coisa está errada.
Muito errada.
Procurei mais uma vez para ter certeza. Não achei. Voltei a olhar para ele, cada vez mais desconfiado. O papai só estava sorrindo, como se nada estivesse acontecendo.
Mas estava acontecendo.
A mamãe tinha sumido.
E isso era um problema muito sério. Muito mais sério do que as minhas mãos não funcionarem direito.
O papai começou a rir.
Eu fiquei olhando para ele sem entender.
Não é para rir, papai. É para encontrar a mamãe.
— Hoje é um dia muito importante. Acho que você sabe disso, não é? Eu tô muito orgulhoso de você.
O papai trouxe o rosto para perto do meu e eu aproveitei para observar uma coisa muito estranha. O papai tem cabelo no rosto. Eu não sei por quê. Ninguém mais tem cabelo no rosto igual ao dele. Pelo menos ninguém que eu tenha visto.
Sempre que ele chega perto, minhas mãozinhas vão direto para lá. É mais forte do que eu. Eu seguro, puxo e aperto aquele cabelo estranho para tentar entender o que ele é. Parece diferente do cabelo da cabeça dele. Faz cócegas nos meus dedos e dá uma sensação engraçada nas minhas mãozinhas. Talvez seja por isso que eu gosto tanto de mexer nele.
— Amo você, campeão.
Então ele beijou meu braço.
Eu conheço isso.
Ainda não entendo a maioria das palavras, mas essa eu conheço.
Papai, eu também amo você.
O papai esfregou o nariz na minha barriga e eu me mexi todo. Isso é muito engraçado.
Depois ele segurou meus bracinhos e fez eles se moverem. Eu fiquei impressionado. Minhas mãos não costumam me obedecer tão bem assim. Mas quando o papai segura meus braços, tudo funciona. É incrível. Talvez ele saiba conversar melhor com as minhas mãos do que eu.
Foi então que me lembrei de uma coisa importante.
Muito importante.
Talvez a coisa mais importante de todas.
Procurei mais uma vez só para ter certeza e realmente, ela não estava lá.
Porque isso acontece bastante. Um minuto ela está aqui. Está me segurando, conversando comigo, me beijando e dizendo um monte de coisas importantes. No outro minuto ela simplesmente desaparece. Eu não entendo como isso funciona. Já pensei bastante sobre o assunto e não encontrei uma explicação boa. Talvez a mamãe tenha algum poder secreto. Talvez ela consiga aparecer e desaparecer quando quiser. Ou talvez os adultos saibam para onde ela vai e só não queiram me contar.
Eu sempre pergunto para o papai, mas ele nunca parece preocupado. Na verdade, ele costuma sorrir. O que é estranho, porque eu acho que alguém deveria estar preocupado. Eu estou preocupado. Eu gosto quando a mamãe está por perto. Acho que ela deveria ficar comigo o tempo todo. Seria muito mais fácil para todo mundo.
O papai começou a falar um monte de coisas. Eu não entendi quase nada, mas ouvi com atenção mesmo assim. Talvez ele estivesse explicando onde a mamãe foi. Enquanto falava, ele brincava com os bichinhos pendurados acima de mim. Os bichinhos são engraçados. Eu acho que eles são muito tímidos. Eles só conversam quando o papai está por perto. Quando estamos sozinhos, ficam quietinhos o tempo inteiro. Eu já tentei ensinar eles a conversar melhor, porque eu sou muito bom nisso. Converso praticamente o dia todo. Mas eles não aprendem. Acho que não são muito inteligentes.
Então o papai me pegou no colo.
Eu gosto muito do colo do papai.
Quando ele me levanta, tudo parece diferente. Mais alto. Maior. Eu me sinto grandão também. Como se fosse quase do tamanho dele. Consigo enxergar coisas que não via antes e tudo parece mais interessante. Talvez seja isso que crescer significa.
— É isso. Pronto? — perguntou ele, me olhando.
Pronto para quê?
Onde a gente vai, papai?
Mas ele não respondeu de verdade.
— Então, vamos lá.
Eu devia imaginar. O papai adora fazer surpresa.
Essa deve ser mais uma delas.
Nós saímos da caixa e eu fiquei observando tudo ao redor. Eu gosto da caixa. Ela é uma das coisas mais misteriosas do mundo. A gente entra nela em um lugar e, depois de um tempo, sai em outro completamente diferente. Não sei como ela faz isso. Não vejo pernas nela. Também não vejo um rabinho igual da AuAu. Mesmo assim funciona.
Talvez seja mágica.
Na verdade, tenho quase certeza de que é.
Porque ninguém nunca conseguiu me dar uma explicação melhor.
É a primeira vez que eu saio da caixa só com o papai. Eu gosto disso. Quer dizer, eu gostaria mais se a mamãe estivesse aqui também, mas tudo bem.
Tem gente andando para todo lado. Um monte. Eu nem sabia que existia tanta gente assim. Algumas olham para mim e sorriem. Eu sorrio de volta porque sou educado. Outras passam reto. Como se eu não estivesse aqui. Eu fiquei olhando. Talvez elas não tenham me visto.
Deve ser isso.
Mas aí outra pessoa passou, outra, e mais outra. Ninguém falou comigo.
Ué.
Olhei para o papai.
Papai, tem alguma coisa errada. Eu estou aqui. Bem aqui. Você tá me segurando. Como elas não estão me vendo?
O papai continuou andando.
— Chegamos, moleque. Esse lugar vai ser sua segunda casa e não só quando for adulto. Desde agora, quero você sempre por aqui.
Ouvi "moleque".
Esse sou eu.
Depois ouvi um monte de outras coisas que não entendi, mas parecia importante pelo jeito que meu papai estava estava sorrindo.
Enquanto isso minha mão encontrou a gola da camisa dele. Muito mais interessante…
Eu puxei.
Nada.
Puxei de novo.
Nada.
Papai. Continua quebrada. Você precisa resolver isso.
Mas o papai pegou meu paninho, limpou minha boca e deu um beijo na minha bochecha. Eu sorri e já tinha esquecido da gola.
Aí entramos naquele lugar gigante e tudo mudou. Porque agora as pessoas me viam. Todo mundo me via. Uma moça passou e sorriu. Depois outra. Depois mais um monte. Eu gostei imediatamente daquele lugar.
— Que lindo!
Oi. Esse sou eu.
— Que fofinho!
Também sou eu.
— Bom dia, campeão!
Esse também.
— Olha o príncipe!
Outro dos meus nomes.
— Como ele está sorridente!
Sim.
Esse também sou eu.
Eu gosto quando as pessoas sabem meus outros nomes. Significa que elas gostam de mim.
Tinha muita gente. Muita mesmo. Mais gente do que eu já tinha visto na vida inteira. Por um instante fiquei quietinho. Só olhando. Não porque estivesse com ‘medo’. Era porque tinha muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Muitas vozes. Muitos rostos. Muitas pessoas sorrindo para mim.
Então olhei para o papai.
O papai estava feliz. Muito feliz. Então fiquei feliz também.
Porque quando eu não sei o que fazer, eu olho para o papai ou para a mamãe. Se eles estão felizes, normalmente significa que está tudo bem. E quando não estão, é a minha vez de sorrir para eles e tudo ficar bem também.
Então comecei a conversar com todo mundo.
Contei várias coisas importantes.
Contei que era a primeira vez que estava ali.
Contei que nunca tinha visto tanta gente.
Perguntei se tinha AuAu naquele lugar.
Gostei muito do cabelo de uma moça porque ele balançava. Eu queria ver ele melhor, mas ela não chegou muito perto.
E perguntei para praticamente todo mundo onde a mamãe estava.
Demorou bastante para atravessar aquele lugar porque as pessoas continuavam aparecendo. Algumas falavam com o papai. Outras falavam comigo. Mas ninguém conseguia parar a gente por muito tempo porque o papai é enorme. Eu já tinha percebido isso antes, mas naquele dia tive certeza. O papai é muito maior do que quase todo mundo. Eu gostei disso. Faz parecer que nada de ruim pode acontecer.
Depois fomos para outro lugar e aí eu esqueci que a mamãe sumiu, mas foi só por um pouquinho. Porque aquele lugar era incrível.
Assim que entramos, meu nariz percebeu primeiro. Tinha um monte de cheiros diferentes misturados no ar. Eu fiquei sentindo para tentar entender o que estava acontecendo.
Não era cheiro da mamãe. Não era cheiro do papai. Não era cheiro de banho. Nem do meu cobertorzinho. Nem de leite. Com toda certeza não era de leite.
Isso eu teria percebido na mesma hora. Eu gosto muito de leite. Na verdade, pensando bem, talvez eu ame leite, acho que é porque é a mamãe que faz para mim.
Mas aqueles eram outros cheiros. Cheiros que eu ainda não conhecia. Então fiquei tentando descobrir o que eram, mesmo sem fazer a menor ideia. Talvez os adultos gostem dessas coisas. Talvez eu goste também quando crescer.
Depois vieram as cores.
Tinha cores em todo canto. Nas paredes. No chão. Em desenhos pendurados. Em brinquedos espalhados. Em umas coisas redondas flutuando lá em cima que eu queria muito puxar para descobrir o que eram.
Mas nada disso era a melhor parte.
A melhor parte eram as pessoinhas.
Tinha muitas.
Muitas mesmo.
Pequenas.
Grandes.
Algumas quase do tamanho dos adultos. Outras pareciam mais parecidas comigo.
Elas corriam para todos os lados. Riam. Pulavam. Brincavam. Falavam tão alto que às vezes eu nem conseguia entender quem estava falando com quem.
Eu fiquei olhando sem acreditar.
Olha só.
Um lugar cheio de pessoas pequenas.
Meu corpinho inteiro começou a se mexer sozinho. Balancei as pernas. Balancei os braços. Dei uma empurradinha no colo do papai.
Papai, papai. Olha! Eu quero ir também. Me coloca lá.
Eu não sei exatamente o que eles estão fazendo, mas parece muito divertido.
Uma pessoinha passou correndo tão rápido que eu perdi ela de vista. Depois apareceu outra carregando um negócio colorido. Depois outro. Depois mais três.
Era impossível acompanhar.
Eu queria muito participar. Mas o papai continuava me segurando.
Então apareceu um homem para falar com ele. Eu nem prestei muita atenção. Os adultos gostam de ficar parados conversando quando poderiam estar brincando.
Enquanto eles falavam, eu continuei olhando tudo.
Foi então que eu vi. Tinha um homem parado perto de uma porta. Mas ele era estranho. Muito estranho. O nariz dele era de bolinha. O cabelo parecia ter explodido e o rosto tinha um monte de cores.
Eu arregalei os olhos. O que aconteceu com ele?
Fiquei encarando. Sem piscar. Nem um pouquinho.
— E nem é Dia das Crianças, mas mesmo assim o pessoal caprichou. — ouvi o papai dizer para o outro homem.
Eu não sabia do que eles estavam falando. Eu só continuava olhando para o homem colorido. Ele estava sorrindo. Eu sorri de volta. Ele acenou para mim. Eu queria acenar de volta, mas como sempre, minha mãozinha não funcionou.
Ele fez uma careta engraçada.
Eu ri.
Ele fez outra.
Eu ri mais ainda.
Papai, papai. Olha esse homem!
Meu corpinho inteiro voltou a se mexer de animação. Eu queria olhar para o homem colorido. Queria olhar para as crianças. Queria olhar para os brinquedos. Queria olhar para as comidas.
Tinha coisa demais acontecendo ao mesmo tempo.
E eu estava começando a achar que aquele talvez fosse o melhor lugar em que já tinha estado na minha vida inteira. Até aquele momento, pelo menos. Porque se a mamãe aparecesse, aí sim ele ficaria perfeito.
O homem engraçado chegou mais perto e eu fiquei observando com bastante atenção. Quanto mais ele chegava, mais estranho ele ficava. O nariz era grandão mesmo.
Eu olhei para o papai. O papai continuava conversando. Olhei para o homem engraçado e também olhei para o papai.
Papai! Papai! Papai!!!
Eu fiquei chamando do meu jeito até que finalmente ele olhou para mim.
— O que foi, campeão? — perguntou sorrindo.
Papai, olha ali.
Eu virei a cabeça na direção do homem engraçado para mostrar exatamente de quem estava falando.
O papai acompanhou meu olhar.
— Você gostou do palhaço? — perguntou antes de olhar para ele. — Ei, amigo, vem cá.
Ele veio na nossa direção e, quando chegou perto, colocou as duas mãos na frente do rosto.
Eu fiquei olhando. Então ele tirou as mãos rapidamente.
— Achou!
Eu arregalei os olhos.
Onde ele tinha ido?
Ele repetiu a brincadeira.
Escondeu o rosto.
Depois apareceu de novo.
— Achou!
Eu comecei a rir. Todo mundo sabe fazer isso de se esconder, mas a mamãe é a melhor nisso sem nenhuma dúvida.
Então ele pegou uma flor colorida presa na roupa dele e apertou.
Ela espirrou água.
Eu dei um pulo.
Ele arregalou os olhos como se tivesse se assustado mais do que eu.
Eu ri mais ainda.
Depois ele tirou uma bolinha vermelha do próprio nariz.
Eu vi ele tirar.
A bolinha desapareceu da mão dele, depois apareceu atrás da minha orelha.
Eu não tinha ideia de como ela foi parar lá.
Olhei para o papai.
Papai, você viu isso?
O homem fingiu procurar alguma coisa pelos bolsos. Tirou um lenço colorido. Depois outro. Depois outro. Depois mais outro. Os lenços não acabavam nunca. Eu já estava convencido de que ele guardava um universo inteiro dentro daquela roupa.
Quando eu ria, ele ria também.
Quando eu arregalava os olhos, ele arregalava os dele.
Quando eu balançava os braços, ele balançava os dele.
Era a pessoa mais estranha que eu já tinha conhecido e eu gostei muito dele. Depois de um tempo, o papai se despediu.
— Valeu, amigo.
O homem fez uma reverência exagerada e colocou a mão no coração como se tivesse recebido um prêmio importante.
O papai começou a andar novamente. Eu virei a cabeça para trás o máximo que consegui. O homem já estava brincando com outras pessoinhas. Mas antes de eu perder ele de vista, ele olhou para mim e fez um tchauzinho.
Eu tentei responder.
Juro que tentei.
Mas meu braço ainda não faz exatamente o que eu mando.
Então só consegui abrir e fechar os dedinhos na camisa do papai.
Espero que ele tenha entendido.
Continuamos andando e eu descobri que aquele lugar era ainda maior do que parecia. Toda hora aparecia alguma coisa nova para olhar. Pessoinhas correndo. Brinquedos coloridos. Pessoas conversando. Música. Bolas voando.
Era muita responsabilidade para dois olhos só.
Além disso, todo mundo queria falar comigo.
Eu gostei dessa parte.
As pessoas falavam com o papai. Depois falavam comigo. Acho que essa é a ordem correta das coisas.
Eu tentava responder todas elas. Algumas pareciam entender perfeitamente o que eu dizia. Outras claramente precisavam treinar mais.
Foi então que alguém colocou uma coisa na minha mão.
Eu gostei imediatamente.
Não sabia o que era. Mas eu tinha um método muito eficiente para descobrir.
Levei direto para a boca e quase consegui.
Quase.
Porque o papai foi mais rápido.
— Não.
Papai! Isso era meu!
Meu!
Você ganhou um também. Por que está pegando o meu?
Fiz um bico enorme para deixar bem claro o tamanho da minha indignação. O papai não ficou nem um pouco impressionado.
Nem um pouquinho.
Ele simplesmente pegou minha chupeta e colocou na minha boca.
Problema resolvido, ou pelo menos resolvido para ele.
O papai tem muitos truques. Não gosto muito disso…
Quando estou prestes a ganhar uma discussão, ele sempre usa algum.
Depois ele colocou um chapéu na minha cabeça.
Eu vi que várias pessoinhas estavam usando chapéus também. Então achei que talvez fosse uma regra daquele lugar. Minha mãozinha finalmente resolveu colaborar e foi até a minha cabeça. Eu agarrei o chapéu e tentei puxar.
Nada.
Tentei de novo.
Nada.
Muito difícil. Olhei para o papai. Como ele faz essas coisas parecerem tão fáceis? Os adultos realmente recebem poderes muito estranhos quando crescem.
Passeamos mais um pouco e eu continuei olhando para tudo. Tinha tanta coisa acontecendo que eu já nem sabia para onde olhar primeiro. Toda vez que eu encontrava alguma coisa interessante, apareciam outras três logo depois. Era um lugar muito complicado de acompanhar.
Mas então aconteceu uma coisa muito importante. Muito importante mesmo. Eu encontrei alguém que conhecia. Alguém que eu gosto muito. O meu vovô!
Eu vi ele antes dele me ver. Na mesma hora comecei a me mexer todo, balancei os braços e balancei as pernas.
Quase me joguei do colo do papai.
Aqui!
Vovô!
Eu tô aqui!
Olha para mim!
O vovô finalmente me viu e abriu um sorriso enorme. Eu gosto quando as pessoas fazem isso. Significa que me encontraram. Ele veio na nossa direção falando alguma coisa para o papai, mas eu nem prestei atenção.
O importante era que ele tinha chegado.
Logo fui parar no colo dele.
Eu amo o vovô.
O colo dele é diferente do colo do papai. Não sei explicar como. Só sei que é diferente. Além disso, o vovô costuma prestar bastante atenção em mim. O que é uma qualidade muito importante.
— Já vejo ele indo fiscalizar a obra com um chapéu igual a esse.
O vovô mexeu no meu chapéu enquanto falava.
Eu imediatamente aproveitei a oportunidade.
Isso mesmo, vovô. Continua. Talvez você consiga tirar ele. Eu já estava trabalhando nesse problema há algum tempo.
Infelizmente o chapéu continuou exatamente onde estava.
Uma pena.
— Ele tá adorando a empresa. Já se sente em casa.
— Isso é muito bom. E a Helena?
— Foi no oftalmo. Disse que ia aproveitar para fazer os exames de vista. Ela quer um óculos de luz azul para proteger a vista no computador.
Os dois continuaram conversando.
Blá blá blá.
Blá blá.
Mais blá blá blá.
Os adultos gostam muito disso.
Eles ficam olhando um para o outro fazendo sons por bastante tempo. Às vezes parece importante. Às vezes não parece. Dessa vez eu não fazia a menor ideia do que eles estavam falando.
Então resolvi ajudar.
Bati minha mãozinha no peito do vovô.
Uma vez.
Depois outra.
E mais uma.
Vovô.
Vovô.
Você já falou bastante com o papai. Agora fala comigo. Eu também estou aqui. Aliás, estou bem mais perto.
O vovô olhou para mim e eu imediatamente comecei a contar tudo o que tinha acontecido. Falei do homem colorido. Falei das pessoinhas correndo. Falei dos meus nomes. Falei das pessoas que finalmente perceberam que eu existia quando entramos ali. Falei do chapéu. Principalmente do chapéu.
Porque eu continuo tentando tirar ele da minha cabeça e até agora ninguém resolveu esse problema.
Na minha opinião, isso era muito mais importante do que qualquer coisa que o papai e o vovô estavam discutindo. Afinal, eles pareciam estar conversando sobre seja lá o que fosse há vários minutos.
E o chapéu continuava lá.
Ficamos todos juntos em um lugar com várias cadeiras. Um monte de pessoas sentadas, olhando para frente, conversando baixinho ou prestando atenção em alguma coisa que eu ainda não tinha descoberto o que era. Eu fiquei observando aquilo por um tempo. Os adultos são muito estranhos. As pernas deles funcionam perfeitamente. Eu já vi. Eles andam para todo lado. Alguns até correm quando estão com pressa. Então por que gostam tanto de ficar sentados? Não faz sentido. Se eu tivesse pernas que me obedecessem daquele jeito, acho que passaria o dia inteiro andando por aí. Mas pensando bem... eu também não consigo sentar sozinho ainda. Talvez seja uma dessas coisas de adulto que eu vou entender quando crescer.
Enquanto eu tentava resolver esse mistério, uma pessoinha apareceu na minha frente tão rápido que eu nem vi de onde ela tinha vindo. Ela era pequena. Muito menor que os adultos. Tinha um cabelo bonito e um sorriso enorme.
— Oii, neném! — ela disse.
Eu sorri imediatamente. Gostei dela na mesma hora. Ela parecia simpática. Além disso, era rápida. Muito rápida. Eu nem tinha percebido ela chegando. Comecei a contar várias coisas importantes. Contei que aquele lugar era enorme. Contei que tinha um homem colorido andando por aí e que eu ainda não tinha entendido exatamente o que aconteceu com o rosto dele. Contei que existiam muitas pessoinhas correndo por todos os lados. Também perguntei se ela costumava perder a mãe dela às vezes, porque a minha tinha o estranho hábito de desaparecer e reaparecer quando bem entendia. Achei que talvez ela pudesse me ajudar a entender isso.
— O neném pode brincar? — ela perguntou olhando para o papai.
— Ele é muito pequeno ainda, mas gosta muito de conversar.
Meu pai parecia estar gostando da nossa conversa, ele até resolveu participar. Foi então que outro adulto apareceu correndo. Parecia um pouco preocupado.
— Desculpa, senhores Monteiro. Ela não quis atrapalhar. Vem, Flávinha.
— Espera. É Lucas, certo?
— Sim, senhor.
— Deixa ela brincar à vontade. E o Humberto parece ter gostado dela.
A pessoinha ficou ali comigo e eu gostei bastante disso. Ela me entregou uma coisa engraçada para segurar. Eu não fazia ideia do que era, mas gostei imediatamente. Eu gosto de segurar coisas. Principalmente quando ainda não sei o que elas são. Ficamos juntos enquanto ela conversava. Ou melhor, eu conversava. Porque depois de alguns minutos percebi que ela estava falando muito mais com o papai do que comigo. O que foi um pouco decepcionante, já que eu claramente era a pessoa mais interessante daquele grupo.
— Toma pipoca, neném.
Ela esticou a mão na minha direção e eu fiquei interessado imediatamente. Muito interessado. Aquilo parecia importante. Parecia tão importante que eu já estava preparando minhas mãos para pegar quando o papai resolveu interferir.
— Pipoca ele não pode ainda. Pode comer tudo. Aposto que está muito gostosa.
Eu olhei para a coisa. Depois para a pessoinha . Depois para o papai. Depois para a coisa de novo.
Isso não me pareceu justo.
Nem um pouco.
A pessoinha colocou uma na boca. Depois outra. Depois mais uma. E então ainda ofereceu algumas para o papai.
Ai não.
Agora vocês estão exagerando.
Primeiro não me deixam experimentar. Depois ficam pondo na boca bem na minha frente. Eu gostaria de registrar oficialmente a minha insatisfação com essa situação.
O vovô continuava ali também. Ele conversava com o papai, conversava com a pessoinha e às vezes falava comigo. Os três ficavam fazendo sons de adulto enquanto eu participava da conversa do meu jeito. Acho que aquilo era uma roda de adultos. O papai gosta muito de rodas de adultos. Pelo que observei até agora, elas consistem basicamente em ficar parados durante bastante tempo falando coisas que ninguém parece achar urgente.
De repente a pessoinha saiu correndo. Simplesmente saiu. Assim. Sem aviso. Eu acompanhei ela com os olhos até onde consegui. Depois olhei para o papai.
Papai! Ela esqueceu de voltar. Pode buscar ela?
Mas o papai apenas colocou minha chupeta na boca e beijou minha testa. É impressionante como os truques dele funcionam. Por alguns segundos eu realmente esqueci que estava reclamando.
Foi então que algumas pessoas começaram a falar lá na frente. Eu não entendi o motivo. Mas todo mundo pareceu achar importante porque ficaram olhando para elas. Os adultos continuavam sentados enquanto algumas pessoas permaneciam de pé. Eu tentei prestar atenção para descobrir o que estava acontecendo. Juro que tentei.
Mas meus olhos começaram a ficar pesados.
Muito pesados.
Eu piscava e demorava um pouco mais para abrir. Depois piscava de novo. E demorava mais ainda. O colo do vovô continuava bom, mas agora já não parecia tão confortável quanto antes. Comecei a me mexer bastante. Primeiro um pouco. Depois mais. Depois muito. Reclamei para o papai da melhor forma possível.
Olha só, está funcionando!
O papai levantou.
O vovô também.
Excelente.
Estamos avançando.
O papai pegou meu paninho e colocou na minha mão. Ah... meu paninho. Eu adoro meu paninho. As coisas sempre ficam melhores quando ele aparece. Então o papai foi lá para frente e todo mundo começou a olhar para ele. Ele falou um monte de coisas. Muitas mesmo. Eu não fazia ideia do que significavam, mas pareciam importantes porque ninguém interrompia.
Só que eu tinha um problema maior.
O paninho era ótimo.
Mas não era o papai.
Papai, me pega. Eu quero você, papai.
Comecei a me mexer daquele jeito que faço quando estou muito decidido sobre alguma coisa. O papai olhou para mim. Sorriu. E, para minha surpresa, um monte de gente sorriu junto. Alguns até riram. Eu queria rir também. Mas precisava me manter firme. Era uma negociação séria. Se eu começasse a rir, talvez ele não entendesse que eu queria colo.
Por sorte, o papai finalmente cedeu. Ele me pegou no colo e tudo voltou ao normal imediatamente. Pronto. Agora sim estava certo. Muito melhor. Eu encostei a cabeça nele enquanto ele continuava falando. A voz dele ficou mais distante. O barulho das pessoas também. Meu paninho estava comigo. Meu papai estava comigo. Ainda faltava a mamãe, mas eu sei que o papai vai achar ela para mim. E, sem que eu percebesse exatamente quando, ficou difícil demais manter os olhos abertos.
Depois disso, eu não lembro de mais nada.
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