O CEO que Eu Paguei
46 Um problema que você quer beijar
O dia foi longo. Longo e... insuportável.
Helena teve que aturar as risadinhas do Hugo e da Júlia o expediente inteiro. Sorrisos maliciosos, cotoveladinhas silenciosas e até olhares disfarçados quando ela levantava da cadeira.
Como se não bastasse, alguns funcionários mais novos da Monteiro Inc. — gente que ela nem sabia o nome direito — ficaram cochichando nos corredores. Como se ela carregasse uma plaquinha luminosa: a funcionária que o CEO comeu no carro. Parecia que todo mundo tinha visto o vídeo.
E o pior?
Heitor não apareceu.
Ela não sabia onde ele estava. Ninguém sabia. Ele não deu as caras, nem mandou mensagem durante o dia. Ela até pensou em ligar, em perguntar. Só que riu de si mesma antes de sequer destravar a tela.
— Tá maluca, Helena? Foi só uma transa. Só isso. Vai com calma.
Até parece que ele não ia te zoar se visse uma mensagem dessas.
Mas então o celular vibrou. E quando ela viu o nome dele na notificação, um sorriso escapou. Um sorriso involuntário, pequeno, mas teimoso.
Eles trocaram algumas mensagens, até chegar a última.
“Você sabe que eu só fico assim por sua causa, né?”
Ela ficou olhando a tela.
Era o tipo de mensagem que ele poderia mandar pra qualquer mulher, né?
Ou não?
Talvez não. Talvez fosse só pra ela.
Bufou. Releu mais umas três vezes. O coração palpitava de um jeito que ela odiava admitir. Então digitou, com o rosto esquentando mesmo sozinha dentro do Uber:
Helena:
“Você é um idiota. E se continuar desse jeito, vou esquecer como você beija. Aí você vai perder o único talento que tem.”
Pensou em apagar. Mas mandou assim mesmo. Do jeitinho dela: espinhosa, provocante… e entregue demais nas entrelinhas.
Quando o carro virou na rua de casa, ela já se preparava para fingir que o dia tinha sido normal.
Mas então...
Ela viu.
O carro dele.
Parado em frente ao portão de casa. Como se fosse a coisa mais natural do mundo.
O coração dela pulou. O estômago deu um giro. E, mesmo tentando controlar, o pensamento foi direto:
— O que esse desgraçado tá fazendo aqui?
O Uber encostou, e Helena desceu como quem já estava armada pra guerra. Os saltos batendo firme no chão, a bolsa atravessada no ombro.
O Uber mal parou e Helena já avistou a silhueta dele parada no portão.
Heitor Monteiro.
Camisa polo cinza clara ajustada nos ombros largos, calção de moletom azul marinho e aquele maldito sorrisinho de canto que fazia as pernas dela ameaçarem dobrar — e a paciência, sumir.
Ele estava ali, de braços cruzados, como se tivesse todo o direito do mundo de parecer tão à vontade na frente da casa dela.
— Boa noite — ele disse, abrindo o portão pra ela com a mão leve, mas o olhar afiado como sempre.
— Você não trabalha mais não? — ela soltou, ao se aproximar.
— Trabalhei muito hoje — ele respondeu, olhando pra ela de cima a baixo com calma. — Conquistar sogra conta como expediente?
Helena parou com um pé no chão, outro quase travado. Ela arregalou um pouco os olhos, mas disfarçou na hora.
— Você tá ficando louco, é isso?
Heitor deu dois passos na direção dela. Os olhos azuis mais intensos que ela se lembrava. A respiração dela deu uma oscilada que ela se esforçou pra fingir que não aconteceu.
— Só vim te receber. Tô com saudade — ele falou, simples assim.
— A gente transou uma vez — ela rebateu, tentando manter o tom ácido. — Uma vez, Heitor. Não inventa filme.
— Uma vez por enquanto — ele respondeu, inclinado pra ela com aquele sorriso canalha que ela conhecia tão bem.
Helena apertou a alça da bolsa.
— Você é um problema.
— Um problema que você quer beijar agora mesmo — ele provocou, mais perto.
Ela odiava que ele tinha razão.
Mas em vez de responder, cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha.
— Vai ficar parado aqui feito enfeite de vitrine ou vai sair da frente do portão?
Heitor soltou uma risada baixa.
— Tá me expulsando?
— Tô pedindo passagem. O portão é pequeno. E você é grande demais pra ficar me bloqueando.
Ele abriu espaço, mas não antes de soltar:
— Pode passar. Mas só se prometer que vai me puxar pra entrar junto.
Ela passou por ele, batendo de leve o ombro no peito dele de propósito. Ele sentiu. Sorriu.
— Espera — ele chamou, já alcançando. E então pegou a mão dela.
Foi um toque diferente. Calmo. Quente. Familiar.
— Eu pensei em você o dia inteiro, Helena — disse com a voz mais baixa, grave, como se estivesse falando só pra ela, como se o mundo não existisse fora dali. — Juro. Eu tava contando os minutos pra te ver de novo.
Helena travou o maxilar. Não sabia se dava um soco ou se mordia o lábio. Acabou escolhendo o sarcasmo:
— Parece que tá com tempo sobrando mesmo, né? Porque trabalhar que é bom...
Mas antes que terminasse, ele já estava puxando a mão dela com carinho.
Devagar. Sem força. Mas com presença.
Ela não resistiu. Não de verdade.
E ele, com aquele maldito sorriso bonito, cochichou:
— Fico feliz de saber que você também pensou em mim. Mesmo que tenha passado o dia fingindo que não.
O coração dela ameaçou fazer uma lambança ali mesmo.
E antes que ela dissesse mais alguma coisa, ele a puxou pela cintura.
Aquela pegada. A que desmontava. A que esquentava o corpo dela de dentro pra fora.
E então ele a beijou.
Um beijo firme. Gostoso. Que exigia entrega. Que pedia pra ser lembrado com o corpo inteiro. A mão dele estava quente nas costas dela, e a outra firme na cintura, segurando como se ela fosse dele.
E, porra, ela odiava admitir... mas por um instante? Ela se deixou ser.
Respondeu com a boca, com a língua, com o peito.
Foi quando ouviu o som.
— Hm-hm.
Os dois se afastaram rápido.
Helena virou o rosto, já sabendo.
Ali, na porta de casa, Dona Olívia, encostada no batente com uma sobrancelha arqueada e a expressão de quem viu exatamente tudo.
E do lado dela?
Totó.
Que parecia tão chocado quanto a avó, mesmo sendo só um vira-lata caramelo.
Dona Olívia segurava a coleira do cachorro e a dignidade da neta ao mesmo tempo. E Helena sentiu o rosto pegar fogo.
Ela empurrou Heitor pelo peito — que nem se mexeu muito, pra piorar.
— Boa noite, vó — disse, tentando soar normal. Quase conseguiu. — Oi, Totó...
Totó abanou o rabo como se nada tivesse acontecido. Já Dona Olívia... cruzou os braços e ficou calada.
O que, vindo dela, era sinal de perigo iminente.
Helena quis sumir.
Mas Heitor?
Heitor apenas ajeitou a camisa amassada do beijo, limpou a boca com o dorso da mão como quem era só um bom rapaz... e sorriu.
Maldito.
E irresistível.
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