O CEO que Eu Paguei

189 Um Passo Mais Próxima De Você


Isaac estava sentado na beirada da cama, ao lado da mãe. Os olhos ainda vermelhos. Sentia um nó preso na garganta desde o momento em que Helena desabou na sala. Ele não havia conseguido fazer nada. Só ficou parado. Só viu.

O silêncio entre ele e Lorena pesava. E, por dentro, ele se culpava.

Devia ter previsto. Devia ter feito alguma coisa.

Ele devia ter ouvido o Jonas. Devia ter ligado para Heitor. Devia, devia, devia… Mas não fez nada.

Com os olhos marejados, ele envolveu a mãe com o braço, puxando-a para um abraço apertado, como se quisesse protegê-la de tudo, mesmo que já fosse tarde demais.

— Mãe… o que a gente vai fazer? — a voz dele saiu quase como um sussurro, quebrada, frágil.

Lorena demorou a responder. Parecia em outro tempo, presa em lembranças que ardiam. Mas, aos poucos, ergueu o rosto do peito do filho. Os olhos vermelhos, inchados. E, mesmo assim, ela forçou um sorriso triste, cansado.

— Zac… meu amor… me perdoa por isso. Não era pra você carregar esse peso. — a mão dela tocou o rosto dele com cuidado, como quando ele era criança.

Ela acariciou a bochecha do filho com ternura, com culpa.

— Eu fiz muitas escolhas erradas. Muitas. A Helena foi vítima dessas escolhas… ela é minha filha. E eu a amo. Com todo o meu coração. Assim como amo você. E o seu irmão.

— Mas ela tá com tanta raiva… — Isaac desviou o olhar, com os olhos cheios d’água. — Eu fiquei tão feliz quando descobri que ela era minha irmã… Eu só queria que ela também tivesse ficado. Só queria que fosse bonito…

Lorena sentiu o peito apertar ainda mais.

— Ela tem todo o direito de sentir o que está sentindo — sussurrou. — Eu escondi dela uma vida inteira. E mesmo que tenha sido por medo… eu me calei. E o silêncio é cruel, Zac. É traição também.

Isaac abaixou a cabeça, mordendo o lábio inferior, tentando segurar o choro.

— A Helena é maravilhosa, mãe… ela é forte, gentil, determinada… Eu amo ela. E amo você também.

Ele levantou o olhar.

— Vocês só estão machucadas.

Lorena se levantou, com um suspiro pesado, e depositou um beijo longo na testa dele.

— Obrigada por ser assim. Por me lembrar disso.

Ela ajeitou os cabelos dele com carinho, como se quisesse guardar o filho naquela memória de afeto.

— Mas agora… é minha hora de consertar. Isso é entre mim e ela.

— Mas eu posso ajudar… — ele se levantou, olhos arregalados, querendo fazer alguma coisa.

Lorena negou com a cabeça, com suavidade.

— Você já ajudou bastante. É o homem que eu criei. Mas agora… agora é a mãe que precisa agir. E encarar as consequências da própria covardia.

Isaac engoliu em seco. O coração apertado. Ele odiava se sentir impotente. Mas sabia que era verdade.

Ela precisava encarar Helena sozinha.

E ele só podia torcer, do fundo da alma, para que a irmã um dia a perdoasse.

Lorena estava a caminho da porta, tentando manter a compostura, quando ela se abriu de repente. Do outro lado, estavam seu marido — Paulo — e sua melhor amiga, Celina.

Ela travou. A vontade de desabar era quase insuportável, mas se conteve.

Você é a mãe, repetia para si mesma. Precisa ser firme. Precisa sustentar o que ainda resta.

— O médico falou como a Helena tá? — perguntou com a voz falha, tentando parecer firme, olhando diretamente para o marido.

Os olhos marejados denunciavam sua fragilidade. Paulo conhecia bem aquele olhar. Sem dizer uma palavra, ele ajeitou a postura, caminhou até ela e beijou sua bochecha com suavidade — como quem diz: eu sei que você está no limite, mas estou aqui por e para você.

— Está bem — disse ele, com calma. — Está com o Heitor no quarto. O bebezinho está bem também. A ginecologista dela está a caminho, mandei o motorista buscá-la.

Lorena soltou o ar, sentindo o peito aliviar por um instante. Mas era um alívio curto, quase cruel, porque logo o peso da culpa voltava com ainda mais força.

Paulo, percebendo a tensão de Isaac no canto do quarto, se virou para o filho, pousou a mão sobre seu ombro e o conduziu discretamente até a janela.

— Preciso da sua ajuda, filho — disse com o tom sereno que costumava usar nas situações mais difíceis. — O médico falou termos muito confusos, você conhece seu velho pai… não entendo nada dessas coisas. Pode conversar com ele por mim? Ver direitinho o que aconteceu, o que estão fazendo e o que mais precisam?

Isaac assentiu com um meio sorriso. Aquele era o dom de Paulo — transformar desespero em tarefa, dor em movimento.

Enquanto os dois se afastavam em uma conversa, Celina, com olhos atentos, se aproximou de Lorena. Pegou sua mão e, sem dizer nada, a puxou para fora do quarto.

Assim que a porta se fechou atrás delas, Lorena perdeu o controle. As lágrimas que estavam represadas romperam como uma represa estourada. O corpo cedeu, o ar ficou preso na garganta e um soluço profundo escapou. Celina a envolveu num abraço forte, seguro, sem fazer perguntas.

Lorena desabou nos braços da amiga.

— Eu… eu tentei, Lili… — disse entre soluços. — Eu juro que tentei. Fiz tudo que podia. Me esforcei tanto. Me humilhei. Aguentei calada tanta coisa... achei que… que talvez agora ela pudesse me perdoar... Mas foi pior. Foi muito pior do que eu imaginei.

Ela se agarrou ao tecido da blusa de Celina como se estivesse se afogando.

— Ela me odeia — chorava. — E ela tem razão, tem razão em tudo que disse... Mas mesmo assim... dói tanto... meu Deus, como dói...

Celina apenas a segurava, a embalando com carinho. Esperou o tempo que a amiga precisou para despejar cada lágrima. Para tirar aquele peso do peito. Para quebrar.

Quando Lorena, ofegante, já não tinha mais forças para chorar, Celina falou com gentileza, mas sem hesitação:

— Agora que você colocou tudo para fora... é hora de ir falar com a Helena.

Lorena balançou a cabeça com força, quase em pânico, a voz falhando:

— Eu não consigo… eu não consigo, Lili...

— Consegue sim — retrucou a amiga, com firmeza, segurando o rosto dela entre as mãos.— Você já passou por coisas muito piores do que isso. Você vai lá, sim.

Lorena fechou os olhos, apertando as pálpebras, como se tentasse afastar o mundo inteiro.

— Ela... ela me odeia demais... — murmurou, quebrada. — E eu... eu não sei mais o que dizer. Eu não sei o que fazer. Não sei como consertar.

— Você sabe sim. — Celina apertou suas mãos. — Vai fazer o que sempre fez: encarar de frente. Resolver. Do seu jeito. Mesmo tremendo por dentro.

— E se... e se ela nunca me perdoar? E se... e se eu só piorar tudo?

— Então pelo menos você tentou. — Celina disse com os olhos cheios. — Agora mais do que nunca essa situação precisa ser resolvida. Helena é minha nora. É mãe do meu netinho. E ela merece paz. Merece uma gravidez tranquila. E uma vida de felicidade.

Lorena soluçou baixo. Envergonhada. Cansada. Machucada.

— E se ela disser que me odeia? Que eu sou nada pra ela?

Celina passou a mão com carinho pelos cabelos da amiga.

— Então você escuta. Mesmo que doa. Mesmo que te destrua. Mas você fica. Você mostra que não vai mais fugir. E que está ali... como mãe.

Lorena demorou, respirando com dificuldade. Depois, com os olhos ainda vermelhos, assentiu com um leve aceno de cabeça.

Ela não sabia se ia conseguir.

Mas ia tentar.

As duas seguiram em silêncio até a porta do quarto.

Lorena parou, respirou fundo, e limpou o rosto com as costas da mão, tentando disfarçar o inchaço dos olhos. Mas Celina conhecia bem a amiga — aquela dor não se apagaria com um pano molhado ou um suspiro fundo. Ainda assim, ela a deixou reunir o pouco de força que ainda restava.

Celina tomou a frente e bateu na porta.

Poucos segundos depois, a maçaneta girou, e Heitor apareceu.

O olhar dele encontrou o da mãe primeiro. E ali ficou, firme, como se ambos trocassem palavras sem abrir a boca. Celina apenas o encarou.

Heitor desviou o olhar. Seus olhos encontraram Lorena.

Ela parecia menor que o normal. Mais frágil. Mas ele não cedeu.

Inspirou fundo e soltou o ar com lentidão. O maxilar cerrando de leve.

— Agora não é o melhor momento — ele disse, a voz firme, o tom gelado.

Celina soltou um suspiro pesado e cruzou os braços.

— Não é você que decide isso, meu filho.

Heitor franziu o cenho.

— Com todo respeito, mãe... a senhora viu tudo que aconteceu?

— Vi. E por isso mesmo eu sei que está sendo protetor. Mas esse assunto não é seu. É entre as duas.

Heitor travou a mandíbula. Os olhos frios.

Ele odiava aquela situação. Mas no fundo... sabia que ela tinha razão.

Muito tempo atrás, ele mesmo disse que não podia interferir no que era entre Helena e a mãe dela.

— Um momento. — disse por fim, sem esconder a contrariedade no rosto.

Antes que fechasse a porta, Celina o lançou um olhar cheio de significados.

Aquele olhar que dizia mais que mil palavras.

Aquele que ele conhecia desde criança.

“A gente conversa mais tarde.”

Heitor engoliu em seco, pigarreou discretamente, e sumiu porta adentro.

Lorena manteve os olhos fixos na porta. O coração em disparada. As mãos frias.

Ela quase quis sair correndo... mas ficou.

Pouco depois, a porta se abriu novamente.

Heitor saiu, com o semblante contido.

— A Helena... quer ouvir você.

Lorena sentiu as pernas enfraquecerem.

Celina deu um pequeno sorriso e passou o braço pelo de Heitor.

— Vamos deixá-las. Vai dar tudo certo. — disse, com gentileza firme, puxando o filho para longe dali.

Lorena ficou parada diante da porta.

Sozinha.

Ela a encarou por alguns segundos.

Como se do outro lado estivesse não só a filha…

…mas todo o passado que ela precisava enfrentar.

E então, com o coração apertado no peito, ela ergueu a mão e girou a maçaneta.

Lorena entrou devagar, fechando a porta atrás de si. Quando virou, encontrou Helena sentada na beira da cama.

Não havia ódio no rosto dela — o que era pior.

Havia cansaço. Dor.

Um vazio de quem teve o chão arrancado e estivesse sem saber se um dia encontraria terra firme novamente..

Lorena sentiu as pernas tremerem.

Ela ficou perto da porta, como se fosse uma estranha no lugar onde deveria ter pertencido desde sempre.

— Oi, Helena — disse, a voz pequena, quase um sussurro.

Helena inspirou fundo, como se precisasse de força até para respirar. Não respondeu. Só ergueu o olhar um pouco mais firme.

O silêncio era pesado, como se esmagasse.

Lorena respirou fundo e deu dois passos tímidos, testando o território.

Ela parecia pedir permissão ao chão para continuar ali.

Parecia estar atravessando um campo minado — qualquer passo errado e tudo explodiria.

— Eu… graças a Deus você está bem. Você e o bebê — ela disse, tentando manter a voz firme.

Helena piscou devagar. E então, com a voz fraca, mas carregada de mágoa, disse:

— Lorena. Sem conversa fiada… por favor.

Lorena levou a mão ao peito, como se tivesse levado um golpe. Piscou, tentando não desmoronar.

Mas ela merecia. Sabia que merecia. E não recuou.

— Eu vim… porque… — a voz falhou. — Porque eu preciso te pedir perdão.

O riso que saiu de Helena não teve humor.

Foi um riso ferido, descrente, cansado demais para ser cruel.

— Perdão?

Só uma palavra.

Mas carregada de ferida profunda e aberta.

Lorena assentiu, com os olhos marejados. Deu mais um passo. Não ousou ir além.

— Eu sei que errei com você. De uma forma que nenhuma palavra… nunca vai consertar.

Eu não estive lá. Eu não te segurei quando você caiu. Eu não ouvi você chorar. Eu não te vi crescer.

A respiração de Helena tremeu. Ela apertou os olhos, tentando manter o controle. Desviou seus olhos para o chão, não aguentava olhar nos olhos daquela mulher e ver o que nunca teve.

Lorena continuou, a voz enroscando no peito:

— E mesmo sem merecer, eu vejo. Eu vejo quem você se tornou. Eu vejo uma mulher forte. Linda. Brilhante. Boa. E eu me orgulho tanto… tanto de você, mesmo sabendo que não tenho nenhum direito de dizer isso.

Ela engoliu o choro, mas ele vazou assim mesmo.

Helena mordeu o lábio para não desabar. Estava difícil demais.

— Eu passei anos dizendo que tive meus motivos. Que fiz o que fiz porque achei que era o certo… Porque seus avós te amavam… porque eu era jovem… porque estava perdida… porque a vida foi dura demais.

Ela balançou a cabeça, com vergonha de si mesma.

Helena passou a mão pelos olhos, um gesto pequeno, quase infantil.

Lorena viu e seu peito se partiu mais um pouco.

— Mas essas são desculpas. E desculpas não seguraram o meu bebê no colo. Não curam uma menina machucada. Não te devolvem seu pai. Não… — a voz quebrou — não consertam sua alma. Sei que te abandonei duas vezes: quando fui embora e quando demorei demais pra voltar.

Helena engoliu um soluço.

Lorena deu um passo à frente, mas parou — como se o chão tivesse avisado que ela não tinha o direito de chegar mais perto sem ser convidada.

— Eu tive medo. Medo de olhar nos seus olhos e ver tudo que eu tirei de você. Medo de você me odiar. Então… eu fugi. E eu continuei fugindo mesmo quando te reencontrei. Tentando te amar no seu silêncio… sem coragem de dizer quem eu era.

Ela levou a mão ao peito, apertando o próprio coração, como se quisesse impedir que ele caísse.

Helena apertou as mãos entre as pernas, o peito subindo e descendo rápido.

Ela sempre achou que era de pedra… ela realmente queria ser de pedra.

Mas não era. Nunca foi.

Lorena deu outro passo — devagar, com medo de assustar, medo de invadir.

— Você tem todo o direito de me odiar. Todo. Mas eu estou aqui. Não para pedir que você me ame. Não para pedir para ser chamada de mãe. Só para dizer que… eu quero tentar. Sendo ignorada. Sendo rejeitada. Sendo punida, se for o que você precisa. Mas eu quero tentar. Por você. Pelo seu filho. Pela mãe que eu devia ter sido para você.

Silêncio.

Um silêncio pesado, doído, que preenchia todo o cômodo.

Lorena baixou os olhos, sentindo a alma inteira sangrar.

Ela começou a dar um passo para trás — pronta para ouvir o pior.

Helena inspirou, a voz saindo como um sussurro quebrado:

— Ainda dói… Dói tanto… que eu não sei nem por onde respirar.

Lorena levou a mão à boca, para conter o soluço que escapou.

Uma dor surda rasgou o peito dela.

— Eu sei. — ela respondeu em quase choro. — E é tudo culpa minha. Mas se você… se você permitir… nem que seja um passo por dia… eu quero ficar. Eu não vou mais fugir. Eu quero ficar… se você deixar.

Helena respirou fundo, a voz embargada:

— Eu não sei como te perdoar.

— Então não tenta agora — Lorena respondeu, dando finalmente o passo mais próximo. Não tocou. Só chegou perto. — Só… deixa eu tentar ser alguém que mereça esse perdão algum dia.

Helena fechou os olhos.

Duas lágrimas desceram.

Uma de tristeza.

E, talvez — só talvez — uma de esperança onde nem ela sabia que ainda existia.

Helena não disse para ela ir embora.

Ela apenas chorou — devagar, dolorido e silencioso — como se permitisse pela primeira vez que a ferida respirasse.

E isso… já era alguma coisa.

Estavam tão próximas.

Lorena, com o coração implorando para abraçá‑la, permaneceu onde estava.

Não tocou.

Só ficou.

Porque, naquele momento, ficar era tudo que uma mãe podia fazer.

E tudo que uma filha, ferida e cansada, conseguia permitir.

Notas finais
Não resisti, chorei demais enquanto escrevi esse capítulo.