O CEO que Eu Paguei

190 O Começo de Nós


As duas ainda estavam no quarto. O silêncio permanecia, mas agora carregava uma densidade diferente — não mais como uma parede intransponível, e sim como um véu espesso, que começava aos poucos a clarear.

Lorena se moveu com cuidado, sentando-se na poltrona mais próxima. Não disse nada de imediato. Apenas observou. Helena já não chorava, mas seus olhos estavam vermelhos e fundos, e ela passava a mão lentamente pela barriga, com os pensamentos distantes.

Lorena corou, baixando o olhar por um instante. Mesmo naquela fragilidade, Helena era linda. Forte. Impossível não se impressionar. Mas não era justo dizer que a filha era sua cópia.

— Você se parece muito com seu pai… — deixou escapar, sem pensar.

Helena ergueu os olhos, surpresa.

— Com meu pai? Todo mundo diz que sou igual a você.

— É, você lembra… mas o jeito... — Lorena sorriu com nostalgia, se ajeitando na poltrona. — Esse seu olhar de “vou fingir que você não tá aí” é todo dele.

Helena franziu a testa e arqueou a sobrancelha.

— Que bobagem…

Lorena riu baixinho, um som que escapou antes que pudesse contê-lo.

— Tá rindo do quê?

— Do jeito que você levanta a sobrancelha. — Ela apoiou o queixo na mão, copiando o gesto da filha. — Igualzinho.

O sorriso de Lorena aumentou.

— Posso ver seu sorriso? — disse cheia de expectativa.

Helena desviou o olhar, mordendo de leve o lábio. O coração doía. Mas... era estranho. Aquela mulher, que ela deveria odiar, parecia familiar demais. Como se algo dentro dela reconhecesse a presença, como se seu corpo soubesse algo que sua razão ainda se recusava a aceitar. E isso a irritava profundamente. Mas, por alguma razão, também aquecia.

Era cedo demais. Aquela ferida dentro dela — a ferida da ausência, do abandono — ainda estava aberta. E por mais que houvesse instinto, carinho, até uma pontinha de alívio… não era o suficiente para apagar a dor.

— Não quero sorrir agora. — Disse, repetindo a pose. — Que coisa mais ridícula.

— Isso também era coisa dele… — Lorena respondeu, com doçura. — Rabugento do jeito mais charmoso possível.

Helena soltou um suspiro impaciente e abafado. Mas não retrucou. E aquilo… já era um começo.

— Gostou desse quarto? — Lorena perguntou, mais suave.

Helena piscou devagar. Só agora percebeu onde estava de verdade.

Não era um quarto.

Era um palácio.

O teto parecia tocar o céu, ornado com molduras douradas e esculturas detalhadas. Um lustre gigantesco pendia como uma cachoeira de cristais, espalhando luzes cintilantes pelo ambiente. Cortinas de tecidos pesados, em camadas, moldavam janelas enormes que deixavam entrar uma brisa fresca e o som distante da natureza. Tapetes macios, cores que se casavam em azul e dourado, móveis de madeira clara esculpida à mão, um espelho que refletia mais do que sua imagem — refletia a vida que ela poderia ter tido.

Helena engoliu em seco, apertando o lençol de seda entre os dedos.

— É bem… extravagante. Bonito. Demais, até.

Lorena sorriu.

— Paulo mandou fazer tudo. Disse que o quarto precisava refletir a princesa que você é.

— Por que ele faria isso?

— Porque ele sempre soube que eu tinha uma filha. — A resposta veio carregada de ternura. — Por ele, você teria sido criada com a gente. Ele... sempre te amou, mesmo sem te conhecer. Esse espaço... sempre foi seu.

Ela parou um instante, respirando fundo.

— E eu não quero substituir a imagem do seu pai. Sei que o Henrique... foi importante. E ainda é. Mas se, um dia, existir um espacinho aí dentro... o Paulo merece estar nele. Como um segundo pai. Sei que é estranho, ouvir isso de uma mulher que nunca esteve na sua vida, mas ele… ele merece mais que eu.

Helena ficou em silêncio. Aquilo era muito para digerir.

— Você... amou meu pai?

Lorena sorriu com pesar, mas com doçura nos olhos.

— Foi meu primeiro amor. E mesmo com tudo que aconteceu... nunca deixei de sentir gratidão. Ele foi a primeira pessoa que me olhou como alguém inteira. — Seus olhos marejaram, mas ela piscou, mantendo o controle. — Mas eu amo o Paulo também. Ele é meu segundo e último amor.

— Como se pode amar duas pessoas assim?

— Eu não sei, filha... só aprendi que um amor não apaga o outro. Que às vezes o coração cresce em vez de escolher. E que amor de verdade... sempre encontra espaço.

Helena permaneceu calada, com os olhos baixos. Ainda não estava pronta para responder.

Mas Lorena não a pressionou. Naquela calma silenciosa, mãe e filha seguiram respirando no mesmo espaço — dividindo, enfim, um pouco de vida em comum.

O silêncio no quarto era como um véu delicado que cobria tudo. Ainda havia peso no ar, mas agora… era outro tipo de peso. Aquele que resta depois da tempestade: o cansaço, a quietude do luto e do reencontro.

Lorena continuava sentada na poltrona, com as mãos entrelaçadas no colo. Helena estava mais calma, a mão acariciando a barriga com movimentos lentos, quase instintivos. As duas respiravam fundo, absorvendo o que ainda não tinham palavras para dizer. Era o silêncio de uma ponte começando a ser construída.

E então — THUD.

Um som estranho contra a porta fez as duas se virarem ao mesmo tempo, assustadas. Não era uma batida comum, e sim como se algo — ou alguém — tivesse esbarrado nela. Ficaram imóveis por um segundo, e logo em seguida... vieram os murmúrios abafados.

— Porra, Heitor, eu não tô ouvindo nada! — sussurrou Jonas, com sua voz irritadiça e alta demais para alguém tentando ser discreto.

— É claro que não. Você não cala a boca. — respondeu Isaac, igualmente abafado.

Helena arregalou os olhos. Lorena, contendo um riso, fez um gesto para ela esperar. Levantou-se devagar e andou até a porta, encostando-se de leve. Os sussurros estavam mais claros agora.

— Shh! Acho que ouvi a Helena falando... — sussurrou Heitor, colado à porta.

— Caralho, acho que você ouviu foi meu osso estalando, tá me esmagando aqui. — reclamou Jonas.

— Minha perna tá formigando. — Isaac choramingou.

— Tio Renato, pai! Vocês não deviam tá ouvindo atrás da porta, que feio, hein... — veio a voz sussurrada de Jonas de novo, quase rindo.

— Pai, o senhor tá me empurrando! — Heitor reclamava agora.

— Eu devia ter mandado fazerem uma porta dupla... — murmurou Paulo.

— É o tipo de maldade que pai de menina tem que ter, Paulo. — respondeu Renato, em tom grave.

— Espera aí... era por isso que meu quarto tinha uma porta dupla?! — a voz indignada de Celina surgiu do nada.

Um “shhhhhhhh” coletivo ecoou do outro lado.

Lorena fechou os olhos e riu silenciosamente antes de abrir a porta de uma vez.

Um caos.

Três corpos despencaram porta adentro como peças de dominó: Jonas, Heitor e Isaac caíram juntos no chão, meio embolados, meio desesperados. Paulo e Renato tropeçaram logo atrás. Lorena deu três passos para trás, incrédula, com a mão na cintura.

Helena, pasma, levou a mão ao rosto.

— Heitor?! — a voz dela cortou o silêncio. — O que você acha que tá fazendo?!

Heitor se levantou num pulo, tentando recuperar a dignidade. Pigarreou.

— É uma história bem engraçada, Helê... — tentou sorrir com cara de anjo.

— Estamos ansiosas pra ouvir — Lorena cruzou os braços, olhando cada um deles entrar com o rabo entre as pernas. — Entrem todos logo.

Jonas ainda estava no chão, com Isaac por cima.

— Sai de cima seu mané!

— Tô com câimbra, não consigo me mover! — Isaac se queixou.

Renato ajeitou a gravata e tentou manter a pose, enquanto Celina apareceu atrás e o empurrou gentilmente para dentro com um sorrisinho maternal.

Agora estavam todos lá, amontoados como garotos pegos espiando atrás da cortina.

— Alguém vai me explicar? — Helena perguntou, incrédula.

— Amor, como eu disse... é uma história engraçada. — Heitor sorriu com falsa inocência.

— Então conta, ué. Tô morrendo de rir com essa cena. — ela cruzou os braços.

— Estávamos... verificando a qualidade da madeira da porta. — disse Heitor, erguendo o queixo com dignidade inventada. — Tava vendo se achava a assinatura do marceneiro pra fazer contrato com a Monteiro Inc.

— Isso! A gente tava analisando a porta. — Isaac complementou, ainda massageando a perna.

Jonas riu, debochado.

— O projeto “marcenaria oculta”... genial.

— Bom, eu só passei pra dizer que contratei um chef pessoal pra você, Helena. — Renato aproveitou para mudar o foco. — Qualquer refeição que quiser, ele vai fazer todas para você..

— Pô, pai... eu que queria fazer isso! — Heitor reclamou.

— Fica tranquilo, filho. Ele é o melhor chef pra gestantes do Rio. Vou garantir que vire o melhor do Brasil, já matriculei o homem em três cursos. — Renato respondeu, convencido.

— E eu remarquei com a consultoria lifestyle pra amanhã, Heitor. — Celina entrou na conversa. — E tem mais: mandei novos móveis para o apartamento de vocês. Devem chegar à tarde.

Heitor fechou os olhos e passou a mão nos cabelos, derrotado.

— Mãe, isso também era coisa minha...

— E o apartamento tá pequeno demais pra uma família. — Paulo disse, puxando Lorena pela cintura com carinho. — Por que não ficam aqui com a gente? Eu só tenho que trocar essa porta antes, a certa é uma dupla. — Lorena bateu de leve no braço dele e ele continuou — Mandei preparar o quarto ao lado pro bebê. O arquiteto vem amanhã, filha, pra fazer do jeito que você quiser.

Helena olhou para todos, confusa, emocionada, quase sem palavras.

Heitor se aproximou e sentou ao seu lado, o olhar azul atravessando o dela.

— Tá tudo bem agora, amor?

Todos silenciaram. Esperavam a resposta como se fosse a primeira nota de um concerto.

Helena respirou fundo. Olhou um por um. Seus olhos pararam em Lorena — que a olhava com expectativa—, e, depois, voltaram para Heitor. Um sorriso tímido escapou.

— Sim... tá tudo bem agora.

Heitor sorriu largo, aliviado, e a abraçou com tanta força e carinho que a fez rir. Encheu seu rosto de beijos, entre a bochecha e o ombro, como uma criança com medo de perder o brinquedo preferido.

Helena revirou os olhos, ainda sorrindo.

Ela olhou ao redor.

Quando foi que isso tudo aconteceu? Quando foi que ela deixou de estar sozinha no mundo… e passou a ser rodeada por tanta gente que a amava? Era absurdo. E maravilhoso.

Para ficar perfeito, só se sua avó também estivesse ali junto à todos.

— Pera aí! — Jonas entrou no meio da sala com as mãos erguidas. — Falta algo essencial aqui. Uma coisa muito importante.

— O quê? — Helena arqueou a sobrancelha, empurrando Heitor de leve.

Jonas fez um sinal para Isaac.

— Vem cá, Zac.

Isaac se aproximou, desconfiado.

— Que foi agora?

Jonas pôs a mão no ombro dele.

— Vai. Fala. Você sabe.

— Falar o quê...?

— Tu sabe, mané.

Isaac bufou, franziu o nariz, suspirou, e encarou todos no quarto com um olhar de derrota.

— Tá bom... — murmurou. — O Jonas é o irmão mais bonito e brilhante da família...

Jonas sorriu triunfante, cruzando os braços como um campeão olímpico.

— ...depois da Helena. — completou Isaac, com um sorriso sacana.

— Ei! — Jonas arregalou os olhos. — Que palhaçada é essa?!

— Ela ganhou o posto. Por mérito. Você agora é só o segundo lugar. — disse Isaac.

— Por tipo… uns 0,5% no máximo! Nem é tanta diferença assim — Jonas rebateu franzindo o nariz.

— Não seja modesto, a diferença é de mil por cento, Jonas. — Heitor disse entre risos.

Helena franziu o nariz daquele jeito tão típico dela e dos irmãos.

— Pô, galera, se liga só. — Heitor disse apontando — Eles fazem o mesmo biquinho. Os três. Idênticos.

Todos caíram na gargalhada. Exceto Jonas e Helena, que se entreolharam sérios por um instante… e então, com uma piscadinha cúmplice de Isaac, também cederam ao riso.

Heitor tombou na cama rindo alto. Helena empurrou ele de leve, rindo também.

— Você é um idiota, Heitor Monteiro.

— Seu idiota, você sabe.

Uma nova família começava a se costurar de verdade. E, no meio dela, Helena finalmente se sentia... em casa.