O CEO que Eu Paguei
228 Tudo que é Nosso… e o que Ainda Vem
Helena ainda estava com o celular na mão quando releu a mensagem dele mais uma vez.
“Me dá uns minutos, tô chegando aí.”
Ela já tinha perdido a conta de quantas vezes tinha voltado ali, como se aquilo diminuísse a distância entre eles. Um sorriso bobo insistia em permanecer no rosto, aquecendo as bochechas, e ela nem fazia questão de esconder. Era inevitável quando se tratava do homem que ela amava. As fotos que ele tinha mandado ainda estavam vivas demais na memória dela — rápidas, intensas, provocantes do jeito que só ele sabia ser — e aquilo só aumentava a expectativa. Uma pena terem sido de visualização única… mas tudo bem. Daqui a pouco ela teria ele ali, inteiro, só dela.
Helena levou o celular até o peito por um instante, como se segurasse aquele momento junto com ele, e soltou um suspiro leve. O dia tinha sido bom. Leve, até. Ela saiu com as amigas, foi ao salão, andou pelo shopping, riu… tentou, por algumas horas, não pensar em nada que pesasse. Nem em tudo que ainda estava mal resolvido. Nem em Ana Alice.
E talvez esse fosse o ponto.
Porque evitar pensar nela tinha sido, ao mesmo tempo, um alívio… e um incômodo silencioso. A situação com Isaac ainda mexia com ela, e por mais que tentasse ignorar, aquilo ficava ali, no fundo, esperando. Mesmo assim, ela se permitiu não tocar nesse assunto naquele dia. Só existir um pouco fora do problema.
Mas nem tudo foi leve.
Em algum momento, no meio daquele passeio, Helena se trancou no banheiro do shopping e chorou. Chorou de saudade. Do Humberto… isso ela entendia, era um aperto no peito que vinha sem aviso. Mas a saudade do Heitor… aquilo ainda a surpreendia. Era estranho perceber como ele tinha se tornado essencial tão rápido, como se sempre tivesse existido ao lado dela.
Helena respirou fundo, afastando aquele pensamento antes que ele puxasse outros, e voltou a olhar em volta. A casa estava com aquele clima acolhedor que ela gostava, com cheiro de café fresco e pão de queijo quente se espalhando por todo ambiente. Ela passou os olhos pela mesa da entrada mais uma vez, ajeitando algo que nem precisava ser ajustado, só pelo prazer de fazer tudo perfeito.
Heitor tinha comentado dias atrás que estava com vontade de comer pão de queijo de Minas Gerais, e ela guardou aquela informação para quando tivesse a oportunidade. Quando foi ao shopping, fez questão de passar no supermercado, algo que fazia meses que não fazia. Desde que passou a morar com Heitor, tudo vinha pronto, resolvido e entregue. Entrar ali, escolher os ingredientes, pegar o queijo canastra com as próprias mãos… parecia uma coisa tão simples, mas deu a ela uma sensação boa.
Depois chamou a avó, e as duas fizeram a massa juntas, conversando, rindo, enquanto aguardavam o escalde. Helena cronometrou tudo para que, quando Heitor chegasse, os pãezinhos ainda estivessem quentinhos. Fez até o café do jeito que ele gostava, forte e com quase nada de açúcar. Era simples… mas era feito com carinho. E isso, para ela, fazia toda diferença.
Um barulhinho suave desviou a atenção dela.
Helena virou o rosto e o sorriso mudou na hora.
Humberto estava no carrinho, completamente entretido com as próprias mãozinhas. Helena se aproximou devagar, já sentindo o peito amolecer daquele jeito que sempre acontecia quando era com ele.
Se agachou ao lado do carrinho e beijou o rostinho macio do filho, demorando um pouco mais, sentindo aquele cheirinho de bebê que parecia acalmar tudo dentro dela.
— O que você está fazendo, filhinho? — perguntou, curiosa de verdade.
Humberto olhou para ela por um segundo, depois voltou o olhar para a própria mão, abrindo e fechando os dedinhos com concentração.
— Aaa! — soltou, animado.
Helena riu baixinho, completamente envolvida.
— Tem razão… elas estão bem fortes mesmo.
Pegou o chocalho de coelhinho ao lado e balançou suavemente na frente dele. O som chamou atenção na mesma hora. Os olhinhos azuis focaram, curiosos, atentos, e Helena esperou o momento certo. Quando ele abriu a mãozinha, ela apoiou o brinquedo ali com cuidado. Humberto fechou os dedos… e parou.
A expressão mudou completamente.
Era surpresa.
Era descoberta.
Era encantamento puro.
— Ehhh! — ele soltou, impressionado, mexendo o bracinho, e o chocalho fez barulho.
Ele olhou para Helena como se pedisse confirmação de que aquilo era real.
Helena levou a mão à boca, segurando o riso.
— Eu ouvi! Foi você! — disse, animada, com os olhos brilhando. — De novo, faz de novo pra mamãe!
Humberto começou a balbuciar, empolgado, tentando repetir o movimento. Helena segurou com cuidado o bracinho dele e ajudou, fazendo o som sair outra vez. Ele abriu um sorriso enorme, todo orgulhoso e balançando mais forte, completamente fascinado com a própria descoberta.
— Aguu! Ahh!
Ele continuava “conversando”, como se estivesse explicando tudo para ela, até levar o chocalho direto para a boca.
Helena riu, passando o dedo com carinho na bochecha dele.
— Já sabia que isso ia acontecer…
Ficou ali por um instante, só olhando. O jeitinho dele. Tão pequeno… e já tão cheio de personalidade.
Helena passou a mão pelos cabelinhos escuros dele, com cuidado. O coração dela acelerou no mesmo instante em que ouviu o som do carro entrando no pátio.
O sorriso veio mais aberto, mais vivo, e ela nem tentou segurar.
— Filho… o papai chegou! — disse, baixinho, mas com uma empolgação que não cabia na voz.
Humberto continuou concentrado no chocalho, a boquinha ocupada, completamente alheio ao que estava prestes a acontecer. Helena riu sozinha com aquilo, já empurrando o carrinho até a porta, sentindo o coração aquecer de um jeito que só acontecia quando os dois mundos dela se encontravam.
Abriu a porta e viu o carro elegante fazendo a curva no jardim.
Helena levantou a mão e acenou, já sem conter a animação.
— Ei! Para aqui!
A voz saiu mais alta do que ela esperava, mas ela não se importou. Viu o carro parar, dar ré, obedecendo ao chamado dela, e aquilo, por si só, já fez as bochechas dela doerem de tanto sorrir.
Travou o carrinho e desceu os degraus quase apressada, o corpo leve, o peito cheio.
Quando o vidro abaixou…
Ela esqueceu de tudo por um segundo.
Porque era ele com aquele sorriso, aquele olhar. Aquele jeito de olhar pra ela como se… só existisse ela.
— Uau… — ele disse, assobiando de leve — Eu passo o dia inteiro fora… e ainda volto pra isso? Dei foi sorte demais na vida.
Helena riu, se apoiando no carro, sentindo o rosto esquentar.
— Saiu rápido da academia mesmo… nem trocou a roupa.
Mas ele já estava saindo do carro.
E vindo até ela. Quando ele chegou… não teve espaço e nem tempo. Ele simplesmente a puxou e apertou, daquele jeito firme, quente se seguro.
— Que saudade eu tava de você, mulher…
A voz veio mais baixa, mais próxima, e ele beijou o ombro dela, abraçando ainda mais forte, como se quisesse compensar cada minuto longe.
Helena fechou os olhos por um instante, se entregando completamente àquele abraço. Era impressionante como o corpo dela reconhecia o dele, como tudo se encaixava sem esforço. Ela sentia as mãos dele firmes nas costas, o calor, o cheiro… e quando ele a levantou um pouco do chão, mesmo que rápido, ela soltou uma risada leve, completamente rendida.
Ela se esticou para alcançar o ouvido dele, sentindo a pele quente e levemente salgada.
— Já que não deu tempo de tomar banho… — sussurrou, com um tom que não deixava dúvidas — que tal a gente subir e eu te dar um?
Sentiu a mudança nele na mesma hora. No olhar. No sorriso. No jeito que ele a olhou de lado.
Helena desceu a mão devagar pela barriga dele, sentindo o corpo firme sob a roupa de treino, até alcançar a bermuda.
— Você malhou foi aqui, né?
Ele riu baixo. Aquele riso dele… E então a beijou bem demorado. Como se tivesse esperado aquilo o dia inteiro.
— Essa parte… — ele disse, ainda perto dela, com um sorriso de lado — eu só treino com você.
Helena sentiu o arrepio subir.
— E hoje eu tô bem dedicado.
Ele a puxou de novo, envolvendo ela, e por um instante, Helena esqueceu de tudo ao redor. Era só ele. Era sempre assim.
Quando ele a soltou, veio mais calmo, mais próximo, e segurou o rosto dela com cuidado, como se fosse algo precioso.
— Gostei do cabelo… — disse, observando — não vou mexer com a mão porque tô suado… mas tá bonito. Tá macio, né?
Ele se inclinou, cheirando o pescoço dela, e Helena fechou os olhos, soltando um suspiro leve.
— E esse cheiro… — ele murmurou — você tá… absurda hoje. Tá com cheiro de coisa gostosa.
Ela sorriu, sentindo o peito aquecer.
— Era surpresa… fiz pão de queijo pra você.
— Pelo jeito… — ele disse, com aquele olhar que não escondia nada — não é só isso que eu vou comer hoje.
Helena riu, desviando o olhar por um segundo, mas ele já tinha pegado a mão dela.
E aquilo… sempre fazia alguma coisa dentro dela.
A mão grande dele envolvendo a dela, firme e quente… ela se sentia feminina, protegida de um jeito que não sabia explicar.
— Essas unhas… — ele comentou, passando o polegar devagar — ficaram lindas. Essa cor… combina com você. Minha pantera.
— Estão curtinhas… por causa do Humberto. Tenho medo de arranhar ele.
— Então ele tá roubando tudo de mim agora? — ele disse, divertido — seus beijos, seus carinhos… e até as unhas?
Ela riu.
— Ciumento.
— Muito.
Eles começaram a subir juntos, e Helena já sentia o corpo leve, o coração tranquilo, como se tudo estivesse exatamente onde deveria estar.
— E o que você malhou hoje? — ela perguntou, só pra ouvir ele falar.
— Costas — ele respondeu, exibido.
E ela sabia exatamente como ele ficava se achando quando ela se interessava.
Antes que ela pudesse dizer algo, ele parou.
— Esqueci uma coisa no carro… você me distraiu com sua beleza.
Ele deu um beijo rápido nela e voltou.
Helena ficou ali por um segundo, olhando ele se afastar, o corpo ainda quente do toque dele, o sorriso ainda nos lábios… e então olhou para o carrinho.
Humberto ainda não tinha percebido o pai, o brinquedo estava bem mais interessante.
Ela riu baixo.
Mas não demorou.
Heitor voltou, agora com uma caixa e algumas trufas na mão, com aquele ar de quem gosta de dividir os momentos.
— Ganhei presente da empresa — disse, orgulhoso — meu primeiro Dia dos Pais.
Helena pegou, curiosa, abrindo com cuidado. O copo personalizado, o chaveiro com o capacete de obras, o cubo com a filial da Califórnia desenhada por dentro… ela sorriu, imaginando o quanto aquilo significava pra ele.
E então ele chamou.
— Humbeertoo!
Foi instantâneo, Humberto virou e o rostinho se abriu inteiro em um sorriso, seu corpinho se mexendo todo na mais pura empolgação. O chocalho caiu no chão, completamente esquecido.
Helena sentiu o coração se aquecer da forma mais bonita possível.
Heitor já estava lá, pegando o filho no colo, enchendo de beijos, daquele jeito intenso, presente e completamente entregue.
— Oi, garotão… que saudade de você, filho…
O olhar dele mudou, ficou mais profundo, mais cheio e mais…pai.
Helena ficou ali, parada, observando os dois.
Sentindo os olhos marejarem de felicidade.
— Aahh! Aaa! — Humberto respondia, todo animado, mexendo as mãozinhas, como se tivesse mil coisas pra contar.
E Heitor escutava como se entendesse. Como se cada som tivesse sentido.
— Eu demorei… mas cheguei, tá? — ele disse, sorrindo — hoje eu vou compensar. Vamos jogar bolinha com a Au Au, o que acha?
Humberto levou as mãozinhas babadas até o rosto dele, apertando a barba, e Heitor soltou um riso.
— Tá bom… mereci isso.
Helena respirou fundo, segurando aquele momento dentro de si.
— Vem… — ela disse, suave — fiz tudo pra você.
E ele olhou pra ela daquele jeito.
Aquele jeito que fazia qualquer mulher esquecer do resto do mundo.
— Eu sei… — respondeu baixo — e eu vou aproveitar cada segundo.
Eles entraram juntos, e Helena sentiu aquela sensação familiar de casa preenchida se encaixar de vez quando a porta se fechou atrás deles. O cheiro do pão de queijo ainda estava mais forte ali dentro, misturado com o café fresco, e ela nem precisou olhar para saber que ele tinha percebido — ouviu antes. A barriga dele roncou alto.
Ela virou o rosto na hora, segurando o riso, mas não completamente.
Era tão… ele.
Grande, imponente, seguro de tudo — e completamente rendido a um pão de queijo feito por ela.
Helena colocou a caixa e as trufas sobre a mesa enquanto ainda observava ele com aquele olhar leve, quase carinhoso demais para quem, minutos antes, estava provocando ele sem dó.
— Deixa eu segurar o Humberto pra você lanchar… — disse, já estendendo as mãos — só não come até se empanturrar, porque eu não consigo esperar até você fazer o quilo.
Ela ainda mostrou a língua pra ele no final, divertida, daquele jeitinho que ele gostava.
Heitor sorriu.
Mas não entregou o filho.
Deu um passo para trás, ajustando o corpo, firme.
— Pode deixar ele comigo.
Helena cruzou os braços de leve, inclinando a cabeça.
— Ele vai ficar com vontade.
— Ele nem sabe o que é isso ainda, Helê… relaxa.
Ela revirou os olhos, mas o sorriso não saiu do rosto.
— Tá… mas vai lavar essas mãos antes, seu porquinho.
E passou as mãos pelas costas dele enquanto falava, sentindo o corpo firme, quente ainda do treino, os músculos sob a camisa levemente úmida. Aquilo fez alguma coisa dentro dela se acender de novo, mais baixa e mais íntima.
— Aquele banho ainda tá de pé? — ele perguntou, ajeitando a postura de propósito, como se soubesse exatamente o que estava fazendo com ela.
Helena deixou o olhar descer por ele, sem pressa, sem vergonha, sentindo o calor subir pelo corpo.
— Com esses músculos aqui… pode ter certeza.
Mas então…
Ele a olhou diferente. Não foi imediato, mas foi perceptível.
Heitor respirou fundo. E não foi aquele suspiro leve de sempre. Foi mais pesado. Mais… contido.
Helena viu na hora. Ela conhecia ele. Talvez melhor do que ele mesmo percebia.
A expressão dela mudou, ainda suave, mas mais atenta.
— Foi tudo bem no trabalho hoje? — perguntou, tentando manter o tom leve, mas sem conseguir esconder completamente a preocupação.
Ele respondeu rápido.
— Deu sim… consegui ótimas taxas com o prefeito.
Mas teve uma pausa.
— Mas tem uns detalhes… que eu queria conversar com você.
Helena precisou se controlar para não sorrir demais.
Era isso.
Era exatamente isso.
Ela não era só a mulher dele. Não era só a mãe do filho dele. Ela era alguém que ele queria ouvir a opinião, alguém que ele considerava profissionalmente, alguém que ele trazia pra dentro e aquilo, para ela, tinha um significado enorme.
Porque, no fundo, ela já se sentia parte daquilo tudo. Da empresa. Das decisões. Do futuro. Do império que ele construía… e que, agora, de alguma forma, também era dela.
— Claro, amor… — respondeu, com uma firmeza doce — vou deixar o Humberto com a minha avó.
Ele assentiu, entregando o filho para ela com cuidado, e Helena sentiu o calor do corpo pequeno contra o dela, tão familiar, tão necessário. Antes de se afastar, ela se aproximou mais um pouco, esperando, e ele entendeu na mesma hora.
O selinho veio quase que instantâneo.
— Tudo bem ser no meu escritório? — ele perguntou.
Helena sorriu, já imaginando.
— Perfeito… a gente vai ter privacidade lá.
Ela gostava disso. Gostava da ideia de estar naquele espaço com ele. Gostava do que aquilo significava. De como ele estava querendo a trazer para o mundo dele.
— Já te encontro, ok?
Ele concordou, já se afastando um pouco.
— Vou levar os pães de queijo e o café pra lá… e passo no banheiro antes.
Helena mordeu o lábio, segurando o riso quando viu a barba dele ainda levemente babada pelo Humberto.
— Vai mesmo… — murmurou, mais para si do que para ele.
Ela se virou com o bebê nos braços e caminhou até a sala, onde a avó estava, completamente envolvida com a novela, comentando sozinha como se estivesse participando da cena.
Helena sorriu com aquilo, aquele tipo de cena simples que fazia tudo parecer… normal.
Seguro.
— Vó, você pode ficar um pouquinho com ele pra mim?
A avó pegou Humberto com carinho, já falando com ele como se estivesse entendendo tudo.
Helena ficou mais um segundo ali, ajeitando a roupinha dele, passando a mão leve pelo cabelinho, dando um beijinho rápido na testa.
— A mamãe já volta, tá?
Ele respondeu com um som baixo, tranquilo, completamente confortável.
E aquilo deu a ela a paz que precisava.
Quando se afastou, sentiu algo diferente crescer dentro dela.
Expectativa.
Mas não ansiedade.
Era algo mais… firme.
Mais seguro.
Ela caminhou até o escritório do Heitor com passos calmos, mas por dentro tudo estava mais acelerado. Não pelo que ele tinha dito exatamente… mas pelo que aquilo representava.
Ela não estava indo só conversar, e sim indo participar. E isso, para Helena, significava tudo.
Quando Helena abriu a porta do escritório, encontrou Heitor do jeito mais previsível possível, camisa ainda levemente grudada no corpo, cabelo bagunçado do treino, uma xícara de café numa mão e metade de um pão de queijo na boca.
Ele levantou o olhar na mesma hora e sorriu.
— Chegou na melhor parte… — falou com a voz ainda meio abafada, apontando com o queixo pra mesa — isso aqui tá um absurdo.
Helena cruzou os braços, encostada na porta, observando ele daquele jeito… tão normal, tão dele, que por um segundo tudo parecia leve.
— Eu avisei que tinha uma surpresa.
— Se eu soubesse que tinha isso tudo me esperando, tinha corrido mais.
Ela riu pelo nariz, mas já se aproximando, e foi aí que percebeu. O sorriso dele tava ali, mas tinha alguma coisa diferente.
Ele engoliu rápido, limpou a boca com a mão e se levantou, vindo até ela sem falar nada e quando chegou perto, não pediu, não explicou… só puxou ela pra um abraço forte, apertado e demorado demais pra ser só saudade.
Helena travou um segundo antes de abraçar de volta, não por estranhar… mas porque reconheceu na hora que alguma coisa tinha acontecido.
Ela passou os braços pelas costas dele, devagar, sentindo o corpo ainda quente do treino, e ficou ali. Sem pressa. Esperando.
— Heitor… — murmurou baixo — o que foi?
Ele soltou o ar perto do pescoço dela. Mas não respondeu e ela não insistiu, só apertou um pouco mais.
Quando ele se afastou, ainda segurou as mãos dela, como se não quisesse perder o contato, e Helena levantou o olhar pra ele, já séria agora.
Ela não gostava de sentir que tinha algo errado e não saber.
— Fala comigo — disse, simples, sem rodeio — você não tá assim por nada.
— É um assunto delicado… — Heitor começou, a voz mais baixa do que o normal — mas já passou da hora de falar sobre isso.
Helena ainda o observava, tentando ler o rosto dele antes mesmo da resposta. Ele estava sério… mais do que o normal. E isso, vindo dele, nunca era pouca coisa.
— Sobre o quê? — perguntou, já sentindo um leve aperto no peito.
— Sobre os Fortenelle.
Helena arregalou os olhos, o corpo reagindo antes da mente conseguir acompanhar. As mãos se fecharam automaticamente uma na outra, como se precisasse se segurar fisicamente para não recuar. Ela não estava pronta para aquilo.
Não estava.
Heitor levou a mão até as dela, envolvendo com firmeza, chamando a atenção dela de volta.
— Ei… — disse, com mais cuidado agora — Helena, eu preciso que você escute tudo o que eu vou te dizer, tá?
Ela demorou um segundo. Mas assentiu.
— Como você sabe… — ele continuou, mantendo o contato — eu sou sócio majoritário da FORT GROUP.
Ela assentiu de novo, em silêncio.
— E por isso, consegui na justiça tirar todas as ações do Fortenelle. Ele não tem mais participação nenhuma na empresa.
Helena piscou, absorvendo.
— Além disso, o apartamento dele vai a leilão… pra custear o processo. Nossos advogados fizeram um ótimo trabalho.
Ela o olhava com atenção, sem interromper. E, no meio de tudo aquilo… uma sensação estranha passou pelo peito dela.
Não era felicidade.
Mas também não era dor.
Era… justiça.
Uma pontada silenciosa, quase amarga.
— Isso… — ela respirou fundo antes de completar — isso é uma boa notícia.
Heitor soltou os ombros quase no mesmo instante, como se não tivesse percebido o quanto estava tenso até ouvir aquilo dela.
— É sim, Helê…
Ele passou a mão pelo rosto rapidamente antes de continuar.
— Eu só não mexi nas ações da Viviane.
Helena levantou levemente o olhar.
— O Antônio destruiu o próprio relacionamento com ela… e isso… — ele deu um pequeno suspiro — já foi punição o suficiente. Agora que eu sou pai… eu entendo ela um pouco mais. Eu também faria qualquer coisa pelo Humberto.
Helena desviou o olhar por um instante, pensando.
— Eu gostava da Viviane… — disse, sincera, sem esforço — ela me tratou bem. Me estimava. — ela respirou fundo, sentindo aquele gosto amargo voltar. — Eu nunca consegui agradecer… e depois de tudo que ela falou de mim na mídia… — balançou levemente a cabeça — nem vontade de ver ela eu tenho mais.
Voltou o olhar para ele.
— Espero que a gente nunca se esbarre por aí. E… eu concordo com você. O que aconteceu com o Antônio foi punição o suficiente.
Ela apertou levemente os próprios dedos.
— A culpa foi dele. Se ele não tivesse mentido pra ela…
— Eu penso o mesmo. — Heitor respondeu, direto.
Ele então abriu a pasta que estava ao lado, puxando um amontoado de folhas com mais calma agora, como se o peso daquela segunda parte fosse diferente.
— Helena… — ele começou, folheando — uma coisa que me dá muita satisfação… de verdade… é ser o provedor da nossa família. Dar pra vocês tudo que querem… garantir que não falte nada.
Ele encontrou a página, parou e então a entregou para ela.
— O que é isso? — Helena perguntou, já pegando, os olhos passando por cima do documento sem ainda entender.
— É a sua parte da FORT GROUP.
Ela franziu a testa, sem compreender de imediato.
— 23% das ações.
Helena parou de ler.
— O quê?
— O dinheiro dessas ações é totalmente seu. — ele continuou, agora olhando direto pra ela — e desde o dia que eu adquiri, ele já está separado pra você. Eu só… estava esperando o momento certo pra te contar.
Helena arregalou os olhos.
Agora lendo de verdade linha por linha e quanto mais lia… mais o peito apertava.
Não era só a porcentagem.
Era a cláusula. Era a segurança. Era o detalhe. Era a assinatura dele ali embaixo garantindo que, mesmo em uma separação… aquilo continuaria sendo dela para sempre.
Ela levantou o olhar devagar.
Sem saber exatamente o que dizer.
— Não entenda errado… — Heitor falou, passando a mão pelos cabelos — nunca que eu me separaria de você. Tudo que eu tenho… é nosso. Mas isso aqui… é seu.
Ele respirou fundo.
— Eu sei que você tá comigo porque me ama. Nunca duvidei disso. — os olhos dele não saíram dela. — Mas eu acredito que uma mulher tem que ter independência.
Ele parou um pouco antes de continuar.
— Eu só peço que, mesmo com isso… você me deixe continuar cuidando de você. — ele deu um sorriso de canto, quase sem graça. — Eu sou um homem meio antiquado, você sabe.
Helena entendeu cada esforço e cada contradição dele ali. Ela conhecia Heitor.
Sabia o quanto controle fazia parte dele. Sabia o quanto aquilo… custava.
— Isso foi difícil pra você, não foi, amor?
Heitor soltou o ar devagar.
— Você não faz ideia.
Ele levantou o olhar pra ela e sorriu, dessa vez mais leve.
— Você merece isso. Pelas coisas que fizeram você passar… e também porque você merece ter o que é seu.
Helena se levantou e o abraçou.
— Obrigada, Heitor… — disse contra ele — isso foi incrível.
Ele a abraçou de volta, ainda sentado, envolvendo a cintura dela com firmeza.
E Helena passou os dedos pelos cabelos dele, devagar, com carinho.
Sabendo exatamente… o tamanho daquele gesto.
— Não se preocupa, vou adorar continuar gastando o seu dinheiro. — ela disse, divertida.
Heitor soltou um riso curto pelo nariz.
— Pode até aumentar os gastos, não estamos na época das vacas magras. Amor…
Ela se afastou um pouco, estreitando os olhos para encará-lo.
— Tem mais algumas coisas que preciso te falar.
— Então vou me sentar de novo. — disse Helena, com um sorriso de lado, já desconfiada.
Heitor puxou o ar com calma, como se organizasse os pensamentos.
— Quando eu saí do hospital aquela vez… eu fui atrás do Fortenelle. Queria acabar com ele. Descobri muita coisa. Coisas bem piores do que eu imaginava.
Helena cruzou os braços, atenta.
— Que tipo de coisa?
Ele hesitou por um segundo.
— O Antônio… teve um filho.
O silêncio caiu entre eles.
Helena franziu o cenho, como se não tivesse ouvido direito.
— Isso não faz sentido. O Antônio nunca… — ela balançou a cabeça — tem certeza?
— Tenho. — Heitor sustentou o olhar. — Ele fez fertilização in vitro. Pagou uma clínica fora do país… barriga de aluguel, tudo planejado.
Helena ficou alguns segundos em silêncio, assimilando.
— E… a criança?
Heitor passou a mão no rosto antes de responder.
— Ele desistiu.
— Desistiu? — a voz dela saiu mais baixa.
— Sim. — ele tirou o celular do bolso, mas não entregou ainda. — Eu acabei me envolvendo… e hoje nasceu. É um menino. Se chama Augusto.
Helena piscou devagar.
— Você… se envolveu como?
— Eu não podia simplesmente ignorar. — ele deu de ombros, desconfortável. — Arrumei um lugar pra ele ficar até ser adotado. Um bom orfanato. Ele é recém-nascido… tem boas chances.
Ela soltou o ar, passando a mão pelo rosto.
— Heitor…
Ele falou rápido, como se tentasse se explicar antes que ela reagisse pior.
— Eu vou ajudar financeiramente. Já organizei tudo. O James está cuidando disso.
Helena levantou o olhar para ele, agora mais firme.
— E você fez tudo isso… sem me contar?
Heitor tentou um sorriso, sem muito sucesso.
— Eu queria que sua gravidez fosse tranquila. Sem esse tipo de coisa.
Ela ficou em silêncio por um momento, processando. Depois assentiu de leve.
— Eu não vou ficar brava… dessa vez. — respirou fundo — Você tem razão, isso teria me afetado.
Uma pausa.
— Mas eu preciso ser sincera com você. — ela continuou, mais firme — Eu não vou criar o filho do Antônio.
Heitor arregalou os olhos, surpreso.
— Não, Helê, calma… eu nunca pensei nisso.
Ela relaxou um pouco os ombros, mas ainda o observava.
— Eu sei que a criança não tem culpa. Eu sei disso. Mas eu… não conseguiria olhar pra ele e não lembrar de tudo.
— Eu entendo. — ele respondeu, mais baixo.
O silêncio voltou, mais pesado dessa vez.
— E a Viviane? — ela perguntou.
— Não quer saber dele. Disse que é uma vergonha.
Helena fechou os olhos por um segundo, como se aquilo a cansasse.
— E o Antônio? Ele pode ir atrás dessa criança.
— Não vai. — Heitor respondeu, firme. — Eu consegui uma ordem judicial. Ele não pode se aproximar.
Ela abriu os olhos, surpresa.
— Você resolveu tudo isso… sozinho?
— Resolvi. — ele sustentou o olhar, mas havia um traço de insegurança ali.
Helena desviou o olhar, pensativa.
— E o Augusto… vai saber de alguma coisa?
Heitor hesitou dessa vez.
— Não… não diretamente. — ele começou — Eu… só fiz uma coisa que agora não tenho certeza se foi a melhor decisão.
Ela voltou a encará-lo, tensa.
— O que você fez?
— Eu separei algumas ações da FORT GROUP pra ele. — disse, mais devagar — Ele só vai ter acesso aos trinta anos. Tem cláusulas… faculdade, nada de ficha criminal… um trustee vai administrar tudo até lá.
Helena ficou imóvel por um instante.
— Você fez isso… por ele?
— Nenhuma criança pede pra nascer. — Heitor respondeu, mais sério agora — E ele… menos ainda.
O olhar dela suavizou por um segundo, mas logo voltou à preocupação.
— Heitor… isso não é um problema nosso. — ela disse, com cuidado — E quando ele descobrir?
Ele franziu o cenho.
— Descobrir o quê?
— Tudo. — ela respondeu, direta — Quem ele é. Quem é o pai dele. E quem acabou com o pai dele.
O silêncio pesou.
Heitor se recostou na poltrona, pensativo pela primeira vez.
— Eu… não tinha pensado nisso.
— Pois deveria. — Helena respondeu, mais firme — Isso é exatamente o tipo de história que termina em vingança.
Ele soltou um ar nervoso, passando a mão no cabelo.
— Eu posso explicar. Posso conversar com ele. Talvez ele entenda… talvez até seja grato.
Helena negou devagar, aproximando-se um pouco.
— Gratidão não se constrói com dinheiro, Heitor. — disse, mais baixa — Se você quer que ele confie em você… vai ter que ser presente na vida dele.
— Eu não posso fazer isso. Além dele ser filho do Fortenelle… — Heitor passou a mão no cabelo, já impaciente — eu já sou ocupado demais. O pouco tempo que tenho, eu quero passar com você e com a nossa família.
Helena o observou por um instante, em silêncio.
— Heitor… — ela disse, mais devagar — você se envolver assim só reforça ainda mais a história de que existe alguma ligação entre mim e o Antônio. Vão achar que tá escondendo um filho ilegítimo.
Ele não respondeu.
E foi exatamente isso que a fez estreitar os olhos.
Havia algo errado.
— Heitor Monteiro… — o tom dela ficou mais baixo, perigoso — o que você não está me contando?
Ele travou por um segundo.
Engoliu seco.
— Não é nada demais—
— Heitor. — ela cortou, firme.
O silêncio se estendeu por alguns segundos antes dele ceder.
— Ele queria me atingir. — disse, evitando o olhar dela — Te atingir, na verdade.
Helena já sentiu o estômago revirar antes mesmo de ouvir o resto.
— Então ele… — Heitor hesitou — ele comprou um óvulo de uma mulher… parecida com você.
Por um segundo, o mundo pareceu parar.
Helena piscou, sem reagir.
Como se não tivesse entendido.
— Como é que é? — a voz saiu baixa demais.
A informação pareceu demorar a encaixar.
Quando encaixou…
Ela deu um passo para trás, a expressão mudando completamente.
— Não… — murmurou, balançando a cabeça — Não, isso não…
Heitor tentou amenizar, rápido:
— Só fisicamente. Não tem nada de você além disso. E, pra falar a verdade… nem é tão parecida assim—
— COMO ASSIM, HEITOR? — a voz dela subiu, carregada de revolta.
Ele recuou um pouco, surpreso.
Helena levou a mão ao peito, respirando mais rápido, claramente afetada.
— Ele tentou me substituir? — disse, incrédula — Criar uma… versão minha?
— Não é isso—
— É exatamente isso! — ela rebateu, agora com os olhos brilhando de raiva — Que tipo de pessoa faz uma coisa dessas?
O silêncio caiu pesado.
Heitor passou a mão no rosto, mais sério agora.
— Um doente.
Helena ficou parada por alguns segundos, assimilando.
A raiva ainda estava ali… mas agora misturada com algo mais desconfortável.
Ela cruzou os braços, como se estivesse se protegendo.
— Isso é muito errado, Heitor. — disse, mais baixa, mas firme — Muito.
Ele assentiu de leve.
— Eu sei. — respondeu — E foi por isso que eu fui atrás de tudo.
Ele respirou fundo antes de completar:
— Mas escuta… a mulher nem é tão parecida assim com você. — tentou suavizar — E o bebê… muito menos. Não tem nada que lembre você de verdade.
Helena negou devagar, ainda incomodada.
— Não importa.
Ela levantou o olhar para ele.
— Ele pensou em mim pra fazer isso. Já é suficiente.
O silêncio voltou, pesado.
Ela então franziu o cenho, encarando-o com mais atenção.
— E você sabia disso… e não me contou?
— Helê… você lembra que disse que não ia ficar brava?
Do jeito que ele falou, só a deixou mais irritada.
Helena fechou os olhos por um segundo, respirando fundo antes de responder.
— Heitor… você é o homem mais inteligente que eu conheço. — ela começou, controlada — Mas, às vezes, faz umas coisas que parecem um completo apagão de bom senso.
Ele ficou sem graça, coçando a nuca.
— Achei que eu era um idiota. — disse, fazendo uma expressão leve, tentando quebrar o clima.
Helena suspirou, ainda irritada.
— Hoje, no shopping, eu vi uma criança chamando o pai de barrigudo. — ela disse, desviando um pouco o olhar — A mãe explicou que ela mesma chamava o marido assim, e a criança aprendeu.
Heitor arqueou a sobrancelha, sem entender onde ela queria chegar.
— Eu não quero que o Humberto repita esse tipo de coisa. — continuou, mais baixa — Então… não vou te chamar mais de idiota.
Ele a encarou, surpreso.
Helena desviou o olhar na mesma hora, sentindo o rosto esquentar. Ainda estava brava… mas o jeito que ele a olhava só piorava tudo.
Um canto do sorriso dele apareceu.
— Gostei disso… “o homem mais inteligente que você conhece”. — disse, com um leve charme — Devia falar mais vezes.
Ela sentiu o rosto queimar ainda mais.
— Não muda de assunto, Monteiro.
Ele soltou um suspiro, agora mais sério.
— Eu… — hesitou — Eu me importo com esse garoto, Helê. Mesmo sabendo que, talvez, eu não devesse.
Ela o observou em silêncio.
— Dizem que a fruta não cai longe do pé. — ele continuou — Mas isso não é verdade. Não sempre.
Heitor apoiou os braços nos joelhos, olhando para o chão por um instante antes de voltar a encará-la.
— O Augusto pode ser diferente. — disse, firme — As chances são pequenas, eu sei… mas existem.
Helena não interrompeu.
— Ele pode ser adotado por gente boa. Pode crescer direito, virar um homem decente. — a voz dele suavizou — E eu… quero ajudar nisso. Quero dar uma chance pra esse garoto.
Um silêncio se instalou entre os dois.
— Nem que seja só… pra garantir que ele tenha a oportunidade que nunca pediram pra ele ter.
Helena respirou fundo e segurou a mão de Heitor.
— Eu te amo, Monteiro. — disse, mais calma — Se isso é importante pra você, pode contar comigo. Como eu posso te ajudar?
Heitor soltou o ar devagar, aliviado. O peso nos ombros pareceu diminuir.
Helena sorriu de leve ao perceber a mudança na expressão dele.
— Só fica comigo nisso. — ele respondeu — Vamos acompanhar o garoto… de longe, até ele encontrar uma família.
— Em que país ele está?
— Nos Estados Unidos.
Helena ficou pensativa por um instante.
— A gente vai estar lá quando a filial da Califórnia inaugurar. — comentou — Se você quiser… podemos ir visitar.
Heitor negou de leve, com um meio sorriso.
— Acho que até lá ele já vai ter sido adotado. Mas… foi uma ótima ideia, amor.
Ele se levantou e beijou a testa dela com carinho.
— Você tem uma foto dele? — Helena perguntou.
Heitor desbloqueou o celular e entregou para ela.
Helena pegou o aparelho com cuidado. Assim que viu a imagem, seus lábios se curvaram automaticamente em um sorriso.
O bebê era pequeno, gordinho, carequinha… e sem sobrancelhas. Bem bebê fofinho. Ela soltou um sopro leve pelo nariz, quase rindo.
— Realmente… não se parece com o Antônio. — murmurou — E, graças a Deus, nem comigo.
Passou o dedo para o lado, vendo mais fotos.
“Claro que não pareceria”, pensou. “A mãe é só alguém que lembra.”
As imagens continuaram passando, e sem perceber, sua mente foi longe.
Lembrou de Humberto recém-nascido. Pequenininho nos braços dela. O coração apertou… mas de um jeito bom.
— Ele é fofinho mesmo… — disse, com um sorriso nostálgico — Lembrei do Humbertinho. Lembra como ele era todo rosadinho?
Heitor sorriu, olhando para ela.
— Eu nunca vi um bebê tão lindo. — respondeu, mais baixo — Até hoje eu lembro do corpinho dele no meu colo.
Helena voltou a olhar para a tela.
O sorriso dela diminuiu aos poucos.
Um aperto diferente surgiu no peito.
A ideia de que… talvez ninguém estivesse olhando aquele menino daquele jeito agora.
Sem carinho. Sem pertencimento.
Sem ninguém.
Ela engoliu seco.
Por mais estranho que fosse… uma parte dela queria proteger aquele garoto.
— Ele vai conseguir um bom lar. — disse Heitor, acariciando as costas dela, percebendo a mudança — Você vai ver.
Ela assentiu de leve, ainda olhando a foto.
— Agora… — ele continuou, com um tom diferente, mais leve — já que sobrevivemos a essa conversa difícil… aquele banho que você ia me dar ainda tá de pé?
Helena revirou os olhos, mas um sorriso escapou.
— Termina de comer primeiro… aí eu penso.
Heitor abriu um sorriso satisfeito, indo até a mesa. Pegou mais um pão de queijo e começou a comer.
— Eu prometi jogar bolinha com o Humberto pra Melzinha. — disse, de boca cheia — O que acha de ir com a gente?
Ele olhou por cima do ombro, já com aquele ar provocador.
— Depois… você pode cumprir a outra parte.
Helena balançou a cabeça, rindo baixo.
— Você não presta, Monteiro.
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