O CEO que Eu Paguei
229 Noite Estrelada
A água continuava caindo sobre eles, quente, constante, enquanto Helena tentava recuperar o fôlego apoiada na parede do box, ainda sentindo o corpo sensível, leve daquele jeito bom… completamente entregue depois do que tinham acabado de fazer.
Ela ainda nem tinha conseguido organizar os pensamentos direito quando sentiu Heitor se aproximando de novo.
— Vai, amor… fala, vai — ele disse, já colando o corpo no dela outra vez, a voz baixa, provocando.
Helena fechou os olhos por um segundo, sentindo o rosto esquentar.
— Para… — murmurou, virando um pouco o rosto — que vergonha…
Ele abraçou ela por trás, firme, encaixando o corpo com naturalidade..
— Por favooor… — insistiu, quase rindo.
Ela soltou o ar devagar.
— É constrangedor…
Heitor riu alto, sem o menor pudor, e ela abriu os olhos na hora, fazendo um gesto rápido.
— Heitor! Fala baixo!
— Amor… — ele aproximou o rosto do dela, ainda sorrindo — você esqueceu o que a gente fez na hidromassagem agora há pouco?
A voz dele ficou mais grave.
— Depois de você sentando na minha cara daquele jeito… você ainda vem falar de constrangimento?
Helena mordeu o lábio, o corpo se ouriçando na mesma hora só de lembrar.
Era humilhante o quanto ele conseguia mexer com ela.
Ela apoiou a mão no braço dele, sentindo o músculo firme debaixo da pele molhada.
— Heitor…
Ele encostou a boca perto da orelha dela, falando baixo.
— Se você não falar… a gente volta pra banheira agora. Porque olha a situação que eu já tô…
Ele pressionou o corpo contra o dela de leve, sem disfarçar.
Helena abaixou o olhar.
Sentiu o estômago apertar junto com aquele calor subindo de novo, mesmo sentindo as pernas bambas.
— Não sei que porra você fez comigo… — ele murmurou, rouco — mas eu olho pra você e meu pau fica assim.
Helena respirou fundo.
Tentou se recompor.
Mas era difícil com ele daquele jeito.
Sempre foi.
Ela juntou coragem, não que fosse difícil, mas ela não queria errar nada ali.
— I still feel you inside me… — disse, por fim, mais baixo do que pretendia.
Heitor ficou em silêncio por um segundo.
Só olhando pra ela.
E então abriu um sorriso lento, satisfeito.
— Olha isso… — murmurou — minha mulher falando inglês…
A mão dele subiu até o queixo dela, segurando com firmeza.
— E ainda falando sacanagem para mim… gostei.
Ele se aproximou, os lábios quase encostando nos dela.
— Naughty… — disse, roçando a boca na dela antes de beijar — quer dizer sacanagem em inglês, uma palavra nova para você, minha gostosa.
O beijo veio quente, lento, aprofundando fácil, como se não tivesse existido pausa nenhuma entre eles.
Helena respondeu na hora, puxando ele mais perto sem perceber.
Era automático.
Sempre era.
Ele passou a mão pelo rosto dela, descendo pelo pescoço, pelo corpo, sem pressa, sentindo cada reação involuntária.
O olhar dele já tinha mudado de novo, mais escuro e mais intenso.
— Fala mais… — ele murmurou contra a boca dela — quero ouvir você falando as coisas em inglês. É sexy demais.
Helena riu baixo, ainda meio sem jeito, mas já entregue.
— You’re impossible…
Ele sorriu de lado.
— E você gosta.
A mão dele desceu pela cintura dela, puxando para subir no colo dele, guiando o corpo dela sem pedir muito.
— Come here… — ele disse, a voz baixa — senta em mim.
Helena olhou pra ele por um segundo.
Ainda sentia o corpo sensível, ainda tinha um resquício de vergonha… mas ele estava ali, daquele jeito que desmontava qualquer resistência.
Ela passou a mão pelo peito dele, devagar.
— Whatever you want…
A resposta saiu mais fácil do que ela esperava.
E o sorriso dele abriu, satisfeito.
Orgulhoso.
Do jeito que ela sabia que ele ficava quando ela se soltava com ele.
— Assim que eu gosto… — ele murmurou — sem travar.
Ele se abaixou um pouco e segurou atrás da coxa dela a trazendo para cima, a outra mão firme na cintura.
— Agora me mostra… — disse, olhando direto pra ela — quero ver você falando… e fazendo.
Helena ainda estava inclinada na direção dele, com aquele meio sorriso nos lábios, pronta para beijá-lo de novo, quando sentiu algo diferente, uma sensação conhecida, antiga, que veio sem aviso. Foi quase automático: ela olhou para baixo, e ali, misturado com a água que escorria pelo corpo, um traço de sangue descia pela coxa misturado com a água.
— Ah, não… — soltou o ar, frustrada, fechando os olhos por um segundo, já se afastando.
Heitor franziu o cenho, sem entender, ainda com o corpo tenso, puxado por outro ritmo.
— O quê? — disse com um meio sorriso implicante — não vai me dizer que já cansou?
Helena passou a mão no rosto, fechando os olhos por um segundo, tentando aceitar o timing péssimo daquilo.
— Pausa técnica de alguns dias… — disse, levantando as mãos como quem pede tempo — minha menstruação desceu.
Ele olhou pra baixo, acompanhou, ficou em silêncio um segundo… e então deu de ombros.
— Ah… isso.
E virou o corpo.
— Já volto.
Helena franziu a testa.
— Vai onde?
— No quarto. — apontou com a cabeça — pegar a capa de chuva do meu pau, relaxa, vou lá rapidinho.
Ele já ia virar quando Helena arregalou os olhos.
— Heitor!
Ele parou, olhando de volta, como se não tivesse entendido o problema.
— O quê?
— Do que você tá falando? Você não ouviu o que eu disse?
— Ouvi. — respondeu simples — por isso mesmo que eu não joguei as camisinhas fora.
Helena continuava o observando, sem entender se ele tava brincando.
— Você tá falando sério?
Ele inclinou a cabeça de leve, estudando ela, o olhar ainda quente.
— Tô. — respondeu simples — qual o problema?
Helena ficou olhando pra ele por um segundo, incrédula, e levou a mão até a têmpora, massageando devagar.
— Heitor… — respirou fundo — isso é sangue, seu doido.
— E daí? — ele rebateu na mesma hora — Você tá com dor?
— Não.
— Tá se sentindo mal?
— Não.
Ele deu um meio sorriso de canto. Se aproximou e colocou a mão na cintura dela.
— Então… Eu tenho camisinha. Se você não tá com dor… qual o problema gatinha?
Ela soltou um riso curto, nervoso.
— Eu vejo vários.
Ele encostou a testa de leve na dela, a voz mais baixa, quase paciente.
— Não muda nada pra mim, Helê… só não dá pra ir sem.
O olhar dele desceu, sem vergonha, depois voltou.
— E eu ainda tô duro… pra caralho.
Helena respirou fundo, sentindo o corpo reagir ao toque dele mesmo assim, o problema nunca foi falta de vontade. Mas, ela não estava pronta para aquele tipo de experiência.
— Não. Hoje não.
Ele ficou parado um segundo, absorvendo. O polegar ainda desenhando um movimento leve na lateral da cintura dela.
— Nem uma mamadinha? — tentou ainda, apontando com a cabeça — eu sento ali, você só…
— Heitor. — cortou ela, já saindo de perto e indo se limpar.
Ele passou a mão pelo próprio cabelo, já claramente incomodado, o corpo ainda denunciando exatamente o contrário.
— A gente já transou muito hoje. Você sobrevive.— ela falou enquanto levantava a sobrancelha.
Ele soltou um riso sem humor, olhando pra baixo por um segundo, depois voltou.
— Tá… beleza.
Ficou quieto alguns segundos, se recompondo, até a cabeça dele mudar de assunto sozinha.
— Mas pera aí… — olhou pra ela de novo — por que desceu agora?
Helena já tinha pegado um lenço umedecido, começando a se limpar com calma.
— Não sei… — respondeu distraída, até lembrar — ah.
Levantou um pouco o braço.
— Deve ser o chip. A médica falou que podia dar escape.
E então como em um estalo, a cabeça da Helena já não estava mais ali.
O corpo ainda estava leve, relaxado, quente do banho e do que tinham acabado de fazer, mas a mente… voltava sempre pro mesmo lugar. Aquela imagem insistente, incômoda, atravessando qualquer tentativa de distração.
Antônio.
A ideia absurda de ele ter procurado uma mulher parecida com ela… pra ter um filho.
Ela tentou afastar.
De verdade.
Passou a noite com o Heitor, com o Humberto, riu, se permitiu estar presente… depois que o filho dormiu, deixou Heitor puxar ela pro banheiro, pra hidromassagem, para diminuirem um pouco da saudade. Por algum tempo, tinha conseguido esquecer.
Mas agora, no silêncio depois… voltava tudo.
E ela sabia que não ia ser uma noite fácil. Nem era por causa do Humberto.
Ela só percebeu o Heitor quando sentiu a toalha nos cabelos, os dedos dele passando devagar, secando com cuidado.
— No que você tá pensando? — a voz dele veio mais baixa, mais suave — me desculpa… eu não quis te deixar chateada. Só quis tentar te convencer.
Helena ergueu o olhar pra ele.
Tentou sorrir.
— Eu sei, amor… — disse, com um sopro leve — foi exatamente assim que você me engravidou.
Ela fechou os olhos por um segundo, tentando deixar o tom mais leve do que realmente estava se sentindo.
Heitor soltou um sorriso de lado, tranquilo, sem se abalar.
— Na minha defesa… — respondeu, passando os dedos pelo cabelo dela — você não pediu pra eu parar naquela vez.
O olhar dele caiu direto no dela.
— Então a culpa não é só minha.
Helena se aproximou, envolvendo ele em um abraço, sentindo o corpo ainda úmido, o calor familiar, confortável.
Era ali que ela sempre voltava.
— Tá animado pra amanhã? — perguntou, desviando o assunto.
Ele respirou fundo, satisfeito, abraçando ela de volta.
— Pra caralho. — respondeu com um sorriso — primeira vez que você vai ver o seu homem em campo.
A voz dele carregava um orgulho quase infantil.
— Depois tem churrasco, a galera toda… e aquele passeio de iate.
Ele se afastou um pouco só pra olhar pra ela.
— E na festinha… eu quero você bem coladinha em mim.
Helena deu um sorriso leve, mas o olhar já tinha outra preocupação.
— E seus pais vão ficar com o Humberto o dia todo mesmo?
Heitor assentiu, tranquilo.
— Vão.
Aproximou um pouco mais, a mão subindo pelo braço dela.
— Não é festa de criança, Helê… a gente também precisa ter um tempo nosso.
Deu um meio sorriso.
— Mas se acontecer qualquer coisa… eles ligam e a gente volta na hora. Eu prometo.
Helena soltou o ar devagar.
Ela sabia que ele tinha razão.
Mas ainda assim… era difícil.
— É isso que tá te incomodando? — ele perguntou, em um tom carinhoso, a observando com muita atenção, tentando descobrir a resposta pelo rosto dela .
Ela olhou pra ele. Sabia que não adiantava segurar. O nome do Augusto veio na garganta.
Mas antes que conseguisse falar, o choro do Humberto cortou o silêncio, alto e urgente.
O corpo dela entrou em alerta na hora.
Ela já puxava a toalha, pronta pra sair, quando Heitor segurou o rosto dela e deu um selinho rápido.
— Eu cuido disso.
Ela hesitou.
— Heitor…
— Descansa um pouco — ele disse com calma — quando ele acalmar, eu te procuro… e você me conta, tá?
Mas Helena mal escutava direito. O choro do filho puxava ela inteira.
— Não quer que eu ajude? — perguntou, cruzando os braços — pode ser fome.
Heitor deu um meio sorriso, daquele jeito dele, aproximando só um pouco mais.
Levou os dedos até o peito dela, apertando de leve, sem malícia exagerada, algo mais íntimo do que provocativo.
— Confia em mim — murmurou — se for fome, eu resolvo. Tem bastante leite na geladeira dele.
Piscou pra ela.
Pegou a toalha, se secando rápido, sem cerimônia, o cabelo ainda pingando, depois vestiu a bermuda com pressa.
Helena ainda olhava pra ele, dividida.
— Tá… — disse por fim — vou lá pra baixo. Qualquer coisa, me chama.
— Na hora. — respondeu, já se virando — te amo, tá?
Olhou pra ela mais uma vez, antes de sair.
— E não deixa o Humberto te ver saindo, ai vamos ter um escândalo de verdade.
Mandou um beijo no ar.
E saiu.
Helena só conseguia ouvir o choro do Humberto. Não era só um som — era como se puxasse algo dentro dela, como se alguém estivesse apertando por dentro e não soltasse. O instinto reagia antes de qualquer pensamento, os braços queriam ir, pegar, acolher, fazer parar. Ela ficou parada por um instante no meio do banheiro, respirando fundo, tentando segurar esse impulso que vinha tão forte que chegava a doer.
Precisava deixar o Heitor agir.
Ele era pai e sempre a ajudava quando o filho acordava de madrugada. Ela sabia disso, repetia isso para si mesma, mas saber não fazia o corpo obedecer. Ainda assim, terminou de se enxugar rápido, vestiu a roupa sem nem pensar direito, ignorou completamente o cabelo úmido e saiu do banheiro quase no automático.
Quando passou pelo quarto, o choro estava alto ainda. Heitor estava com o Humberto no colo, falando com ele, tentando acalmar e balançando. Helena parou por um segundo na porta. Foi o suficiente para sentir tudo nela pedir para ir até lá, pegar o filho, resolver, fazer do jeito dela. Mas não foi. Ficou só olhando, respirou fundo e saiu em silêncio, fechando a porta com cuidado.
Foi andando até a varanda dos fundos, precisava de ar. Pegou a primeira manta que viu no armário aberto e jogou sobre os ombros, mais por conforto do que por frio, e se sentou no degrau, deixando o corpo descansar ali enquanto o olhar se perdia nas estrelas.
O silêncio do lado de fora parecia estranho depois do choro do filho. Ela tentou escutar, prestou atenção por alguns segundos, mas não ouviu mais nada. Não sabia se ele tinha parado ou se ela só estava longe demais para ouvir. Soltou o ar devagar, tentando se acalmar.
E então, sem aviso, o pensamento veio para outro bebê, Augusto.
A imagem dele apareceu na cabeça dela de um jeito incômodo. Ele sozinho. Em um lugar que nunca seria a sua casa. Sem alguém que realmente fosse dele. Sem aquele tipo de amor que ela sentia pelo Humberto, tão instintivo, tão imediato e tão visceral.
Helena franziu levemente a testa, incomodada com a própria mente.
Por que ela estava pensando nisso?
Por que agora?
Talvez fosse impossível separar as coisas depois do que ela tinha descoberto. O fato de Antônio ter procurado alguém com a aparência dela ainda estava ali, mal digerido, atravessando tudo. Aquilo mexia com ela de um jeito difícil de organizar, como se tivesse bagunçado alguma coisa que antes era muito clara.
Veio uma sensação estranha, pesada, quase como uma culpa que ela sabia que não fazia sentido, mas que ainda assim aparecia. O que ela tinha feito para aquilo acontecer? Nada. Ela sabia disso. Sabia mesmo. Mas o pensamento não ia embora com facilidade.
O bebê não parecia com ela.
E isso era um alívio.
Um alívio maior do que ela gostaria de admitir.
Mas e se um dia parecesse? E se alguém resolvesse olhar mais de perto, comparar, criar história onde não existia? E se, no futuro, aquele menino crescesse e começasse a procurar, a perguntar, e por fim, chegasse até ela que não tinha nada haver com a história?
Helena puxou a manta um pouco mais contra o corpo, sentindo o incômodo crescer.
Com o Heitor envolvido… ajudando… qualquer coisa podia ser interpretada de forma errada. Ela conhecia bem o mundo em que vivia, sabia como as coisas eram distorcidas, como histórias eram montadas em cima de quase nada.
Por um momento, pensou em procurar a Viviane. Conversar, tentar entender melhor a situação, talvez a convencer. O pensamento veio com uma intenção boa, quase impulsiva, e logo foi ficando mais complicado.
E então surgiu outra ideia.
Mais absurda.
Mais estranha.
Ela mesma cuidar do menino.
O pensamento não veio como algo planejado, foi rápido, quase instintivo… e ficou ali por alguns segundos a mais do que deveria. O suficiente para incomodar de verdade.
Helena balançou levemente a cabeça, como se pudesse afastar aquilo.
Não fazia sentido.
O bebê não tinha culpa de nada, disso ela sabia. Mas ele ainda era filho do Antônio. E isso carregava um significado que não dava para ignorar.
Sem contar tudo o que viria junto.
Exposição.
Julgamento.
Histórias inventadas.
Ela já conseguia imaginar as versões distorcidas, os comentários, as pessoas ligando coisas que não existiam, colocando ela no meio de algo que não era dela.
E aquilo não afetaria só ela.
Afetaria o Heitor.
A família.
O Humberto.
Helena passou a mão pelo rosto, cansada, sentindo o peso de tudo aquilo se acumular sem solução clara.
— Lelê?
A voz veio baixa, mas foi o suficiente pra arrancar Helena daquele turbilhão. Ela virou o rosto devagar e encontrou Jonas parado alguns passos atrás, de terno, gravata meio frouxa, o rosto cansado de quem tinha vindo direto de algum compromisso. Mesmo assim, os olhos dele estavam atentos, focados nela.
Fazia tempo que ela não o via.
Jonas olhou rápido ao redor, como se checasse o ambiente por instinto, e então começou a se aproximar.
— O que houve? — perguntou, já mais perto — o que você tá fazendo aqui fora a essa hora… e sozinha?
O tom não era só curioso.
Era protetor.
Helena tentou responder, mas sentiu os olhos encherem antes mesmo de conseguir organizar qualquer palavra. Foi involuntário. Só aconteceu.
E Jonas percebeu na hora.
O corpo dele mudou.
— Cadê o Heitor? — a voz dele endureceu — foi ele?
As mãos dele já tinham fechado em punho.
Helena se levantou rápido, antes que aquilo fosse pra um lugar que não precisava ir, e foi até ele, envolvendo o irmão num abraço apertado. Jonas respondeu na mesma hora, forte, envolvendo ela como se quisesse proteger de qualquer coisa que estivesse ali.
— Eu tô aqui… — ele murmurou, mais baixo agora, tentando se controlar — relaxa… respira…
A mão dele subiu pras costas dela, firme, constante.
— Me fala o que aconteceu.
Helena tentou segurar, de verdade, tentou se recompor ali mesmo… mas quando encostou o rosto no peito dele, o choro veio. Baixo, abafado, mas veio.
Jonas fechou os olhos por um segundo.
E a paciência dele foi embora junto.
— Mas que porra é essa… — a voz saiu carregada, irritada — quem foi que te fez chorar?
Ela respirou fundo, tentando se controlar, e aos poucos foi se afastando, ainda com o rosto baixo. Quando levantou o olhar, encontrou o dele completamente tomado por preocupação e raiva misturadas.
Antes que ela fizesse qualquer coisa, Jonas já tinha tirado o paletó e levado até o rosto dela.
— Limpa isso aqui.
— Vai sujar… — ela murmurou, fungando.
— Foda-se a roupa. — respondeu na hora, sem nem pensar — eu compro outra.
Ela acabou cedendo, segurando o tecido e limpando o rosto com cuidado.
— Obrigada… — disse, ainda meio sem ar — e desculpa…
Jonas deu um passo mais perto.
— Me agradece depois que eu quebrar a cara de quem fez isso.
O jeito dele era sempre assim.
Direto.
Sem filtro.
Helena abaixou o olhar por um segundo, respirou fundo, e então voltou a encarar ele.
— Promete guardar segredo?
Jonas franziu o nariz na hora, desconfiado.
— Depende.
Ela soltou um suspiro cansado.
— Jonas…
— Eu vou ouvir primeiro — ele cruzou os braços — depois eu vejo se merece segredo.
Ela balançou a cabeça, quase sem paciência.
— É sério. Isso não pode sair daqui.
Ele ainda tava com a expressão dura, irritada… mas depois de um segundo, soltou o ar pesado.
— Tá. — disse por fim — fala.
Helena mordeu o lábio, tentando encontrar por onde começar. Só de olhar pra ele, dava pra ver a tensão no rosto, a raiva ainda ali, pronta pra sair.
— O Antônio… — começou, a voz mais baixa — ele fez uma fertilização in vitro… com o óvulo de uma mulher parecida comigo.
Jonas ficou parado.
Escutando.
— O bebê nasceu hoje.
O silêncio durou um segundo.
Dois.
E, aos poucos, a expressão dele foi mudando. A tensão não sumiu… mas saiu daquele lugar explosivo.
— Nasceu? — ele soltou, incrédulo — que filho da puta…
Passou a mão pelo rosto e se sentou no degrau, puxando o ar.
— O desgraçado quase escapou disso aí… o Heitor teve que correr atrás pra caralho na justiça pra alguma coisa acontecer.
Helena franziu a testa, surpresa.
— Você sabia?
— Sabia. — respondeu, olhando pra frente — o pai me contou.
Deu de ombros.
— Eu não podia me meter. Se eu entro nisso, ele ia achar um jeito de usar contra. — então olhou pra ela de lado. — Foi o Heitor que te contou?
Helena engoliu em seco.
— Foi… — ela ainda parecia mexida. — Mas… isso não é grave pra vocês? Por que parece que tá todo mundo… tranquilo?
Jonas soltou um meio riso pelo nariz, sem humor.
— Porque a gente já tá mastigando essa merda há meses.
Ele bateu de leve no chão ao lado.
— Senta aqui. — ele esticou a mão apontando para o paletó.
Ela entregou pra ele, que ajeitou melhor no chão com a mão, e então se sentou ao lado, ainda envolta na manta, os dois olhando pro céu por um momento.
Jonas apoiou os braços atrás, mais relaxado agora.
— Não esquenta com a criança… — disse, mais calmo — o Heitor já garantiu que ele vai pra um lugar bom.
Ele virou o rosto pra ela.
— Vai ser adotado rápido. Por gente boa. — ele fez uma careta leve. — Pelo menos vai se livrar desse sobrenome de merda.
Helena continuava olhando pras estrelas, mas a mente ainda girava.
— Por que você acha que ele fez isso?
Jonas nem pensou muito para responder.
— Porque você não quis ele. — ele se virou olhando direto pra ela. — E escolheu o Heitor.
Ele deu um meio sorriso de lado, mas sem humor.
— Isso mexe com o ego de homem fraco.
Helena ficou em silêncio por um instante e então virou o rosto pra ele.
— E… você acha que tem algo que eu posso fazer por ele? — A voz dela saiu mais baixa. — Pelo Augusto.
Jonas segurou o olhar dela por um segundo e respondeu com calma, diferente de antes.
— Não. E eu sei que parece cruel falar isso… mas ele não é problema seu. — a expressão dele suavizou um pouco. — Você já tem o seu filho. — fez um gesto leve com a cabeça. — E é nele que você tem que pensar.
Ele tomou um pouco de ar antes de continuar.
— Isso aí… — deu um leve aceno com a mão, como se se referisse à situação inteira — foi coisa do Antônio.
Jonas olhou direto pra ela de novo.
— E se tem uma coisa que ele queria… era justamente isso.
Helena franziu a testa.
— O quê?
— Fazer você se sentir culpada. — a voz dele veio mais baixa agora. — E você não vai cair nessa.
Helena puxou o ar devagar, deixando o peito encher e esvaziar com mais calma. Ainda tinha um resto de peso ali dentro, mas já não era aquela coisa sufocante de antes. As palavras do Jonas tinham entrado. Talvez ela estivesse mesmo exagerando… ou só tentando dar sentido pra algo que não tinha.
Jonas soltou um riso baixo, quebrando o silêncio.
— Ufa… — passou a mão no rosto — ainda bem que era isso.
Virou a cabeça pra ela, com um meio sorriso.
— Achei que era hoje que eu e o Heitor íamos sair no braço.
Helena, mesmo com os olhos ainda pesados, acabou sorrindo.
— Por favor… não bate no meu noivo.
Jonas abriu um sorriso maior, daqueles cheios de provocação.
— Sorte dele, viu… — levantou o braço, flexionando de leve — eu tô malhando menos por causa da campanha, tá puxado pra caralho… mas ainda dava uma surra bonita nele.
Deu um empurrãozinho de leve com o ombro no dela.
Helena riu, se inclinando um pouco com o impacto.
— Eu senti sua falta… — disse, olhando pra ele — você sumiu.
O sorriso dela era pequeno, mas verdadeiro.
— Como estão as coisas na campanha?
Jonas apoiou os cotovelos nas pernas, olhando pro chão por um segundo antes de responder.
— Cansativas. — fez um barulhinho com a boca, pensativo — a gente tá trabalhando pra caralho.
Soltou o ar.
— Mas… sendo bem sincero… o pai tá bem atrás nas pesquisas.
Ele deu de ombros.
— Não vai pro segundo turno.
Helena sentiu aquilo como um baque. Paulo era… bom. Presente. Dedicado.
Era estranho pensar que aquilo não estava sendo reconhecido.
— E não tem nada que dê pra fazer? — perguntou, mais baixo.
Jonas balançou a cabeça.
— Pior que não… — respondeu, tranquilo, mas cansado — a gente já esperava.
Ele virou o rosto pra ela.
— Essa campanha é mais pra apresentar ele pro país. — ele deu um meio sorriso. — Na próxima a gente vem mais forte.
Helena assentiu devagar.
— Entendo… mas ainda assim é triste.
Ele deu de ombros.
— Quem mais tá sofrendo são eles. — ele parou um pouco a frase antes de continuar — o pai vive falando que tá com saudade de você… e do Humberto.
Aquilo pegou ela desprevenida.
Helena desviou o olhar por um instante.
A relação com Paulo ainda era… nova. As pessoas falavam de Paulo ser o pai dela com tanta naturalidade que, aos poucos, aquilo deixou de soar estranho. No início, Helena até sentia vergonha ao imaginar a avó ouvindo aquilo, mas nem Dona Olívia parecia se incomodar — pelo contrário, gostava dele.
E, por mais confuso que fosse admitir, Helena começou a enxergá-lo como um pai.
Ainda não tinha coragem de dizer isso em voz alta, mas sentia. Sentia no jeito como ele se preocupava, no esforço constante para estar presente. Mesmo com a campanha a todo vapor, Paulo sempre encontrava um tempo para mandar mensagens ou ligar. E, quando a via, nunca chegava de mãos vazias, não que Helena se importasse com os presentes em si, mas com a consideração em se lembrar dela.
Helena se sentia amada. Havia um calor tranquilo no peito, o mesmo que sentia quando estava com o avô — um conforto silencioso, quase impossível de explicar.
— A gente vai se vê segunda… — disse, tentando manter leve — hoje a gente ia se encontrar, mas ele ficou preso numa reunião.
Olhou de lado pra Jonas.
— Amanhã eu vou sair com o Heitor… o Isaac vai. Você devia ir também.
Jonas passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro.
— Eu e o Isaac… estamos meio brigados.
Helena virou na hora.
— Por quê?
Ele soltou um riso sem humor.
— Por causa daquela escrota do caralho. — gesticulou irritado. — Falei que a namorada dele é interesseira, ele não gostou. Disse que eu tô jogando contra.
Ele deu uma risada curta, incrédula.
— Logo eu… que fiz tudo por aquele moleque. — passou a mão na nuca — Eu entendo de mulheres, só de bater o olho, ele devia também entender. Agora ele age como se fosse a primeira foda da vida dele.
Helena arregalou os olhos na hora.
Jonas travou um segundo… percebendo que estava saindo do tom.
— Tá… — levantou a mão — foi mal.
Ele respirou fundo.
— Mas você conhece ela, né? Como você não percebeu que ela é golpista? Eu bati o olho e já vi.
Helena desviou o olhar por um segundo.
— Eu sei que ela é… — ela falou baixo. — Mas eu não quero magoar o Isaac.
Ela suspirou.
— Ainda bem que eu não falei isso pra ele… vai que ele fica com raiva de mim também.
Jonas soltou uma risada sem graça.
— Muito bom… ótimo plano. — ele balançou a cabeça. — Mas a gente tem que dar um jeito de tirar ele dessa. — quase xingou, mas se segurou no meio. — Dessa… golpista.
Helena olhou pra ele de lado, já um pouco mais animada.
— Eu tô pensando em um plano.
Ele virou na hora, interessado.
— O Heitor vai me ajudar… o Isaac vai enxergar quem ela é.
Jonas ficou olhando ela falar, prestando atenção de verdade.
— Só toma cuidado… — disse ele depois, mais sério — pra essa garota não aparecer grávida.
Helena soltou um sorriso pequeno.
— Eu converso sobre isso com o Isaac.
Jonas riu, debochado.
— Você não é exatamente a melhor pessoa pra esse tipo de orientação, né…
Ela já sentiu o rosto esquentar.
— Eu sempre fui rígida com isso.
— O Humberto discorda. — ele levantou a mão — calma, não precisa se explicar.
Jonas deu um meio sorriso, mais leve.
— Naquela época você não tinha um irmão responsável pra te orientar. E toda vez que eu penso nisso… me dá vontade de enforcar o Heitor.
Helena riu, meio sem graça, mas confortável.
Era fácil estar ali com ele.
Leve, mesmo no meio de tudo.
— E pensar que você achava que eu não era adequada pra ele…
Jonas virou o corpo um pouco mais na direção dela, com aquele sorriso convencido.
— Lelê… eu sou o grande herói dessa história. — apontou pra si mesmo. — Bati o olho na sua foto e já senti que te conhecia.
Deu um empurrão leve nela de novo.
— Eu sou um irmãozão, respeita.
Helena deu um sorriso largo. O corpo já não estava mais rígido, e ela deixou a cabeça encostar de lado no ombro do Jonas, olhando o céu sem pressa. As estrelas estavam nítidas, o ar mais leve… e finalmente ela não estava pensando em nada específico.
Só… estava ali.
Jonas também ficou em silêncio por um tempo, mas não era o silêncio inquieto dele. Ele parecia mais quieto do que o normal, como se estivesse organizando alguma coisa por dentro.
Até que soltou um suspiro curto.
— Eu quero te contar uma coisa.
Helena virou o rosto devagar, ainda encostada nele.
— Fala.
Ela já esperava algo sobre o Isaac. Jonas parecia ter ficado muito sentido.
— Mas antes… — passou a mão na nuca — promete que não vai contar pra ninguém?
Ela franziu o cenho, agora mais atenta.
— Prometo.
— Nem pro Heitor.
Helena torceu o nariz na hora.
— Eu não tenho segredo do Heitor. — falou enquanto fitava o rosto do irmão.
Jonas soltou um riso baixo pelo nariz.
— Eu sei… vocês dois são quase um comunicado oficial conjunto.
Ela deu um leve empurrão nele com o ombro. Ele sorriu de lado, mas insistiu:
— Só não conta por enquanto. Depois ele vai saber.
Helena ficou em silêncio por um instante. Não gostava disso. Com o Heitor, tudo era direto, aberto… ela não precisava esconder nada.
Mas… era o Jonas. O irmão dela.
Ela olhou pra ele de lado.
Ele não estava zoando.
Estava pedindo de verdade.
Ela soltou o ar.
— Tá… eu prometo.
Jonas ergueu o dedo mindinho na direção dela.
— Então jura de mindinho.
Um calor suave se espalhou pelo corpo de Helena, quase inesperado. Aquilo a puxou de volta a lembranças que nunca foram suas — cenas de infância que ela só conhecia de longe, observando outras crianças fazendo promessas assim, simples e absolutas. Durante muito tempo, acreditou que nunca teria aquilo.
E agora estava ali, prestes a jurar de mindinho com o próprio irmão.
Ela levantou a mão, o sorriso nascendo devagar, como se ainda estivesse aprendendo a caber naquele momento.
Quando seus dedos se entrelaçaram, pareceu bobo por um segundo — leve, quase infantil. Mas, ao mesmo tempo, havia algo sólido ali. Tão sério quanto qualquer contrato.
— Eu juro — disse, por fim.
Jonas sorriu. Havia algo travesso nele, um brilho quase menino. Por um instante, Helena teve a estranha sensação de que eram crianças outra vez — como se o tempo pudesse ter sido diferente.
O desejo veio fundo, silencioso e intenso: queria ter crescido ao lado dele. Ao lado deles.
Seus olhos se encheram, mas ela conteve as lágrimas.
— Agora eu confio. Se você contar para alguém, eu nego tudo. — Jonas falou tentando soar engraçado.
Helena riu pelo nariz, balançando a cabeça.
— Fala logo, vai.
Ele respirou fundo, e aí sim falou:
— Eu conheci uma mulher.
O jeito que ele disse fez Helena sorrir na hora.
— Eu imaginei.
Jonas passou a mão pela nuca, meio inquieto, meio… estranho nele.
— Foi na campanha… — ele deu um riso baixo. — E não, antes que você pense, eu não tava dando em cima de ninguém. Eu tava trabalhando.
Helena arqueou a sobrancelha.
— Uau.
— Respeita minha evolução. — disse ele.
Jonas estava com o rosto um pouco vermelho, um sorriso meio perdido.
— Ela é muito inteligente, sabe? E… calma. Linda… gentil…
Ele deu uma risada baixa, meio sem saber como continuar.
— Encantadora.
Helena ficou olhando ele falar. Nunca tinha visto ele daquele jeito.
— Tem foto?
Ele já puxou o celular.
— Tenho, pera.
Procurou rápido, a língua pressionando o canto da boca, e então mostrou.
Helena pegou o celular. Era uma foto de equipe, várias pessoas e nenhuma mulher próxima do Jonas.
— Qual é ela?
— Essa.
Ele apontou.
Helena aproximou a imagem, observando com mais atenção. A mulher era discreta, sem exageros, com traços delicados, um sorriso com covinhas e óculos. Ela era bonita, mas Helena tinha que confessar, nunca imaginou que Jonas se interessaria tanto por uma mulher tão normal. Ela era diferente do padrão que ele sempre exibiu com as suas acompanhantes. E Helena estava aliviada por isso.
— Ela parece ser ótima… — murmurou — tem outra? Aqui eu não consigo ver muito bem.
Jonas soltou um suspiro, abaixando um pouco o olhar.
— Não… e esse é o problema.
Helena virou mais o corpo na direção dele.
— Como assim?
Ele apoiou os cotovelos nas pernas, juntando as mãos.
— Eu acho que ela tem vergonha de mim — ele disse, olhando para as próprias mãos. — Não quer ser vista comigo. Nem foto ela aceita tirar.
Helena se virou totalmente para ele.
— Isso é um absurdo. Por que ela teria vergonha de você? Tem algo errado aí.
— É que eu tenho uma… certa fama… — ele hesitou, desconfortável. — E ela é toda certinha. Acho que tem medo do que vão falar.
Ele soltou um suspiro curto.
— Isso me deixa mal, sabe? Eu nunca tratei nenhuma mulher mal. Tá, nunca tive um relacionamento sério… mas isso não quer dizer que eu não possa ser um bom namorado.
Ele fez uma pausa antes de continuar.
— Acho que ela nem quer me passar o Instagram… porque se alguém vir a gente se seguindo, vira fofoca. E ela se separou há pouco tempo. O pessoal adora falar quando uma mulher segue em frente… ainda mais com um cara como eu.
Helena franziu o cenho.
— Não tem nada de errado com você, Jonas. Você mudou muito. Ninguém mais te vê em festa, nem com um monte de mulher. Se ela tem vergonha de você… — ela hesitou, mas foi firme — então ela não te merece.
— Você não entende, Helena.
— Então me explica. Eu sei que você gosta dela, mas ela te esconder? Isso não parece coisa de quem gosta.
— A gente trabalha junto. Eu tenho má fama. Ela se separou faz pouco… — ele levantou o olhar. — Quando você e o Heitor começaram… todo mundo sabia?
A pergunta a pegou totalmente desprevenida.
Na época, ela tinha tanto medo do julgamento que evitava até cruzar com Heitor nos corredores da empresa. Antes dele assumir tudo, ela queria manter o relacionamento escondido. Como se sentir algo por ele fosse errado.
O calor da vergonha subiu pelo seu rosto.
Ela tinha feito exatamente a mesma coisa.
E ela amava Heitor — mesmo sem saber lidar com isso.
Será que alguém já disse a ele que ela não gostava? Provavelmente.
— No começo… não — ela respondeu, mais baixa. — Eu não queria que ninguém soubesse. Tinha medo do que iam dizer.
Jonas assentiu devagar.
— Então você entende ela… — disse, e um brilho de esperança surgiu. — Você podia me ajudar. Falar com ela, virar amiga… talvez ela perceba que não precisa ter medo.
Helena o encarou por um instante.
— Jonas… me responde uma coisa. Você gosta dela de verdade? Quer mesmo um relacionamento?
— Quero — ele disse, sem hesitar. — Eu só preciso que ela me dê uma chance.
Helena respirou fundo.
— Tudo bem. Conta comigo. Eu vou falar com ela.
Jonas deu um largo sorriso e passou o braço ao redor dos ombros dela.
— Valeu, maninha.
Helena sorriu de volta e deitou a cabeça no ombro dele.
— Qual o nome dela? Vou procurar na internet.
— Amanda Oliveira da Silva.
— Ok, amanhã eu procuro.
Jonas soltou um riso.
— Sempre me falaram que onde se ganha o pão não se come a carne…
Virou o rosto para ela, provocando:
— Você claramente não levou isso a sério… e agora eu também não. Você é uma péssima influência.
Helena beliscou a costela dele na hora.
— Ai!
— Não me provoca — ela riu. — Eu ainda sou a mais velha.
Jonas mostrou a língua para ela.
— E por que o Heitor não pode saber? — perguntou, curiosa.
— É que… eu zoei muito ele quando disse que estava apaixonado por você. Não quero que ele me zoe de volta — respondeu, sem jeito.
— Ah… então você era o diabinho no ombro dele.
— Nada disso, eu sou o porta-voz da verdade.
Jonas passou o braço ao redor dela.
— Sabe, Lelê… ainda bem que você apareceu. Gosto de você na minha vida.
Helena sentiu o coração aquecer. Ela já imaginava aquilo, mas ouvir era ainda melhor.
— Eu também gosto de ter você aqui.
— Agora, vamos falar de outra coisa. — ele disse alegre.
— Vocês parecem estar se divertindo — disse uma voz atrás deles.
Helena virou o rosto devagar. Conheceria aquela voz em qualquer lugar.
Heitor.
Ele estava parado na porta, sorrindo, agora vestindo uma regata branca que fez Helena esquecer por um instante onde estava.
Helena sorriu, sem perceber.
— Amor! Você demorou. Deu tudo certo com o Humbertinho?
Heitor deu alguns passos em direção a eles.
— Ele ficou falando um tempo comigo até cair no sono.
Jonas se levantou.
— Acho que é a minha deixa. Tô cansadão. Boa noite, maninha.
— Ah… boa noite. E o seu paletó?
Jonas fez um gesto para ela deixar pra lá.
— Relaxa, aproveita. O chão tá bem gelado.
Heitor abriu os braços, indo em direção a Jonas.
— Já vai? A gente mal se falou ultimamente. Como estão as coisas? E a campanha?
— Tá de boa — disse Jonas, afrouxando ainda mais a gravata enquanto caminhava. — A gente se fala depois, cara. O dia foi foda.
— Pô, cara…
— Até amanhã — disse Jonas, passando direto.
Heitor o acompanhou com o olhar e, quando ele sumiu pelo corredor, comentou ainda olhando naquela direção:
— Dá pra acreditar nesse cara? Sinto falta de ser o irmão e não o cunhado.
— Eu sinto falta é do meu noivo — disse Helena, observando as costas dele. Ela mordeu o lábio.
Quando Heitor voltou o olhar para ela, se aproximou com um sorriso bobo — que logo deu lugar à preocupação.
— Ei… você tava chorando? — perguntou, agachando-se ao lado dela. — O que houve, Helê? Você tá com cólica?
Ele levou a mão ao rosto dela.
— Não tá doendo, não. É só que eu estava conversando com o Jonas sobre o Augusto.
Heitor se sentou atrás dela e a puxou para um abraço.
— Poxa… era isso que tava te chateando?
Ela assentiu com a cabeça.
— Eu conversei a respeito com o Jonas e me sinto melhor agora. Eu tinha ficado um pouco perturbada com a história toda.
Heitor a envolveu nos braços, e Helena sorriu, sentindo o calor dele.
— Devia ter me falado, amor… — ele suspirou. — Eu nem tinha percebido que era isso… Vou ficar mais atento.
Helena ficou acariciando o antebraço dele.
— Eu queria aproveitar o tempo com você e o Humberto. Só depois que o assunto voltou na minha cabeça. Você percebeu quando eu fiquei chateada, lembra?
— Eu vou dar um jeito, não se preocupa. Ele não vai ser um problema.
— Heitor… tá tudo bem. Agora eu só quero ficar um pouco aqui com você. Tô carente.
Heitor puxou a manta, cobrindo-a melhor, e beijou o topo da cabeça dela.
— Vou resolver isso então. Quer entrar? Podemos abrir o armário dos doces ou eu faço um chocolate quente.
— Podemos ficar aqui mais um pouco, só aproveitando a noite?
Heitor sorriu de lado.
— Claro. Apoia a cabeça no meu peito, vou fazer cafuné em você.
Helena se ajeitou nele. Enquanto Heitor acariciava seus cabelos, ela aproveitava o momento: sentia o cheiro dele, ouvia o som da respiração e o vento passando pela grama. A noite estava tão bonita, tão estrelada.
Ela pensou em ver o filho e sentir o cheirinho de bebê antes de dormir, mas estava tão cansada — de corpo e de mente — que acabou cochilando ali.
Fale com o autor