O CEO que Eu Paguei
230 O Dia do Jogo
Era domingo de manhã, e Ana Alice estava sentada no lounge com vista direta para o campo. A posição não era por acaso, dali ela via tudo e, mais importante, era vista.
As outras mulheres estavam espalhadas, algumas sentadas, outras em pé, conversando baixo. Todas bem vestidas, discretas, seguras de si de um jeito que não precisava de esforço. Aquilo não era o ambiente que Ana Alice estava acostumada… e justamente por isso ela estava ainda mais atenta.
Ela não podia errar.
O olhar seguiu para o campo.
Os homens jogavam, ou pelo menos tentavam. A maioria já passava dos quarenta, corpos pesados e o fôlego curto. Alguns corriam poucos metros e já diminuíam o ritmo, outros praticamente caminhavam atrás da bola, rindo, mais pelo encontro do que pelo jogo.
Aquilo não impressionava.
Mas dois destoavam.
E um deles… ela já sabia onde encontrar.
Heitor.
O olhar dela o achou com facilidade, como se já estivesse condicionado a isso. Ele corria com outra disposição, outro corpo e outro ritmo. Ele ocupava o campo como se fosse dele.
O sorriso largo quando recebia a bola, a forma como falava alto, como se quisesse ser ouvido… como se quisesse ser visto. E era exatamente isso que ele queria.
Ana Alice percebeu isso com clareza. Ele não estava jogando só pelo jogo. Ele estava se exibindo. E aquilo mexeu com ela de um jeito que ela não gostava de admitir.
O coração acelerou, e ela sentiu aquele calor subir pelo corpo, irritante e viciante ao mesmo tempo. Desde o jantar, aquilo não saía da cabeça dela. A forma como ele se impunha, o dinheiro que carregava sem precisar mostrar, a presença… tudo nele parecia maior do que o ambiente.
Era o tipo de homem que mudava o lugar. E era exatamente esse tipo de homem que ela queria.
O olhar dela desviou, quase por obrigação, até encontrar Isaac no campo.
Alto, magro, os movimentos meio desalinhados. Ele tentava acompanhar o jogo, mas não conseguia, assim como os outros.
E, ainda assim, quando olhou na direção dela, sorriu.
Um sorriso tímido, quase sem graça.
Acenou com a mão, como se aquele pequeno gesto já fosse muito.
Ana Alice sorriu de volta, apenas o suficiente. Ela sentia os olhares das outras mulheres ao redor, e cada reação dela precisava ser julgada.
Isaac era… conveniente.
Gentil, disponível e apaixonado. Filho de um homem que podia chegar à presidência.
Ela gostava disso.
Gostava do lugar que aquilo oferecia.
Mas, olhando para ele ali em campo, tentando acompanhar um jogo que não era para ele… ficou claro.
Ele ainda estava construindo algo.
Heitor já era.
O olhar dela voltou sem esforço.
Heitor pediu a bola, correu com intensidade, desviou de um, de outro… e ria. Ria alto, com prazer, como alguém que gostava de ser visto fazendo aquilo.
E Ana Alice percebeu que aquilo não era para qualquer um, parecia estar querendo chamar a atenção de alguém. Ela sentiu o peito apertar de leve e o rosto aquecer.
Por um segundo, ela realmente acreditou que ele estava olhando para ela.
E então ele parou, levou as mãos à boca e gritou:
— HELENAAA! OLHA AGORA!
O nome caiu como uma parede de concreto.
Ana Alice piscou, como se tivesse se enganado o tempo todo.
Helena.
Ela estava ali.
— EU TÔ OLHANDO DESDE O COMEÇO!
A resposta veio animada, viva, sem nenhum tipo de contenção.
Aquilo incomodou.
Não só pela voz, mas pelo jeito.
Helena não se controlava.
Não parecia se preocupar com quem estava vendo.
E, ainda assim… era ela que ele chamava.
Heitor acenou com o braço, largo, aberto, como se não houvesse ninguém mais ali.
Helena respondeu igual.
— EU TÔ ESPERANDO O GOL! O SEU TAMBÉM, ISAAC!
Isaac deu um joinha, sorrindo, claramente feliz por ser incluído.
Heitor parou, riu alto.
— PÔ, AMOR! ELE É DO OUTRO TIME!
Helena riu sem segurar.
E ele… passou a mão no cabelo, voltando para o jogo com ainda mais energia.
Mais empenhado.
Mais exibido.
Para ela.
Aquilo ficou claro.
Ana Alice respirou fundo, ajeitando a postura, tentando reorganizar a própria expressão. Aquela cena tinha sido rápida, mas suficiente para deslocar tudo dentro dela.
Ela não era a mulher que estava sendo olhada.
Não era a mulher que ele queria impressionar.
E aquilo… incomodava mais do que ela gostaria.
Foi então que ouviu as vozes ao lado.
— Nossa… ela é bem povão, né?
— Tá no começo da relação… depois isso passa.
— Muito aparecida.
Ana Alice não virou o rosto, mas ouviu cada palavra.
E, por um instante, aquilo trouxe um certo alívio. Como se alguém estivesse dizendo o que ela precisava ouvir para equilibrar o que estava sentindo.
Sim.
Era como as outras diziam Helena era diferente, fora do padrão e exposta demais.
Mas… mesmo assim…
Heitor era dela.
— Tânia, você só fala isso porque o Heitor enche a boca pra falar da vida sexual dele e quando seu marido tenta acompanhar, você não dá conta.
A resposta de Paula veio direta, cortando o tom das outras.
O grupo silenciou.
Ana Alice desviou o olhar por um instante, sentindo o ambiente mudar.
Quando voltou a olhar para o campo, Heitor ainda corria, ainda jogava, ainda se destacava.
Ana Alice olhou para Helena sem disfarçar muito, mas com cuidado suficiente para não ser percebida. Helena parecia completamente alheia às conversas atrás dela. Não estava preocupada com postura, com impressão, com quem estava olhando. Estava, de fato, assistindo ao jogo.
Ela vibrava, gritava, reagia a cada lance como se aquilo fosse a copa do mundo. Como se o jogo fosse só deles.
Ana Alice observava aquilo com um certo incômodo crescente.
Porque não era só o que Helena fazia.
Era o efeito que aquilo causava.
Alguns homens começaram a sair do campo, cansados, rindo, ajeitando a respiração. O suor marcava as camisas, os corpos pesados, o esforço que não combinava com a imagem de poder que carregavam fora dali. Ana Alice quase desviou o olhar, incomodada com a comparação inevitável.
Foi quando um deles se aproximou da área onde estavam sentadas.
— Puta que pariu, Michelle!
A voz veio irritada, sem filtro.
A mulher virou o rosto, incomodada.
— O que foi?
— Olha a vergonha que você tá me fazendo passar.
Ana Alice manteve o olhar à frente, mas a atenção foi inteira para a conversa.
— Do que você tá falando, Cláudio?
— A mulher do Heitor ali, torcendo desse jeito… pelo menos me olha, né.
Michelle bufou, claramente contrariada.
— Eu não vou passar essa vergonha.
— Vergonha quem tá passando sou eu. O Monteiro fica se exibindo como se a mulher dele fosse a única que ama ele nesse lugar. Me ajuda uma vez.
Ana Alice olhou discretamente ao redor e percebeu que não era um caso isolado. Outras conversas parecidas, outros homens incomodados, outras mulheres sendo puxadas para um papel que não estavam dispostas a cumprir.
E, no centro disso tudo…
Helena.
Heitor não estava só jogando.
Ele estava mostrando.
Mostrando o corpo, o fôlego, o controle… e, principalmente, mostrando a mulher dele.
E Helena correspondia.
Ana Alice respirou fundo, absorvendo aquilo como informação.
Então era isso.
Era isso que ele gostava.
Era isso que fazia ele se destacar ainda mais.
E, se era isso… ela podia fazer também.
Ela sabia fazer qualquer papel que fosse necessário.
Infelizmente… não seria para ele.
O pensamento veio com um gosto amargo.
Enquanto ela observava as mulheres ao redor, algumas claramente contrariadas, outras tentando disfarçar, ela se distraiu por um segundo.
Quando voltou a atenção para o campo, Heitor já estava perto.
Muito perto.
Ele se aproximava da Helena com o corpo ainda quente do jogo, o cabelo escuro completamente úmido de suor, a respiração mais pesada — e ainda assim… inteiro para ela.
— Helê! Tá me vendo, né? Vou fazer logo um gol pra você!
Ele chegou sem pedir espaço, passou o braço pela cintura dela e a levantou um pouco do chão.
— Ei! Assim não, Monteiro! — Helena riu, sem se afastar de verdade.
— O quê? Não ouvi… você tá muito alta!
E ele levantou mais.
Sem cerimônia.
Sem vergonha.
Dessa vez não foi só incômodo que Ana Alice sentiu, foi algo mais fundo.
Mais feio.
Uma inveja limpa, direta, sem justificativa elegante. Diferente das outras vezes, dessa ela sabia que sentimento era.
Ela não acreditava em energia, em essas coisas… mas, naquele instante, desejou — de verdade — que Helena perdesse aquilo. Nem que fosse por um momento.
Só para ver como seria.
— Tá gostando do jogo, amor?
A voz de Isaac veio perto demais, quebrando o pensamento dela.
Ana Alice virou o rosto, surpresa.
Ele estava ali, ofegante, o corpo suado, mas com aquele sorriso aberto e sincero. Antes que ela respondesse, ele se inclinou e deu um selinho rápido nela.
— Não imaginei que você ia gostar tanto de me ver — ele disse, ainda sorrindo.
Ana Alice sustentou o olhar dele por um segundo e então sorriu.
— Nem eu… você me surpreendeu com a sua habilidade.
A mentira saiu suave.
Isaac corou na hora, até as orelhas.
— Eu nunca fui muito bom em esporte… mas, sei lá… com você olhando… parece que eu consigo mais.
Aquilo era tão honesto que quase a desarmou.
Quase.
Ela ergueu a taça e ofereceu para ele. Isaac aceitou sem hesitar, bebeu tudo de uma vez, satisfeito.
— Continua torcendo, amor…
Ele se aproximou mais, a voz baixando.
— Quero um prêmio especial se eu ganhar.
Ana Alice manteve o sorriso e olhou direto nos olhos dele.
— Você vai ganhar todos os prêmios que quiser. Vai lá ganhar para mim.
Isaac inflou o peito na mesma hora, como se aquelas poucas palavras dela já fossem o suficiente para sustentar ele ali dentro. Ana Alice acompanhou o movimento com um olhar atento, quase avaliando. Ela gostava daquilo nele. Da forma como ele respondia fácil, como precisava pouco para se sentir maior.
Os cabelos castanhos claros brilhavam sob o sol, e por um instante ela se permitiu enxergar o que tinha ali.
Isaac era bom.
Gentil, educado e trabalhador. Tinha futuro, tinha nome e tinha um caminho. E, mais do que isso, ele gostava dela de um jeito limpo e sem joguinhos.
Aquilo era raro.
Depois de tudo que viveu, da forma como foi criada, das cobranças, da sensação constante de não ser suficiente… aquilo parecia, finalmente, um lugar seguro. Um lugar onde ela era escolhida.
Ela merecia aquilo.
Merecia ser bem tratada.
Merecia um homem que olhasse para ela daquele jeito.
E, por alguns segundos, isso bastou.
Até não bastar mais.
O pensamento veio sozinho, incômodo, impossível de ignorar.
Se Isaac era tudo isso… por que ainda parecia pouco?
Por que ainda parecia… segundo?
Ana Alice manteve o olhar nele enquanto ele voltava para o campo, mais confiante, mais ereto, carregando o efeito dela no corpo.
E mesmo assim…
Não era ele que chamava atenção.
Não era ele que mudava o ambiente.
Não era ele que fazia os outros olharem.
O olhar dela deslizou, inevitável.
Heitor e Helena ainda estavam próximos, rindo, se tocando sem esforço, como se não existisse mais ninguém ali. Helena reclamava do suor, mas não se afastava. Ele provocava, perguntava se ela queria que ele soltasse… e ela negava.
Ana Alice sentiu o estômago apertar de leve.
Uma lembrança antiga veio sem pedir, incômoda.
Ela mais nova, em um canto da quadra, assistindo as outras serem escolhidas. As populares, as desejadas… e ela sempre fora da cena, observando, tentando entender o que faltava.
Agora não faltava mais.
Ela não estava mais de fora.
E, ainda assim… não era o suficiente.
Os pensamentos dela começaram a se organizar com mais frieza.
Ela tinha dois planos.
O primeiro era se aproximar de Helena usando a história de Gaspar como pretexto — pedir ajuda, conselhos e fingir vulnerabilidade. Aos poucos, mesmo que contra a vontade de ambas, acabariam se tornando “amigas”. Com isso, Ana Alice passaria a frequentar mais a casa, circular pela rotina de Helena… e, inevitavelmente, ver mais Heitor. Criar oportunidades. Quem sabe, com um pouco de sorte, conseguiria até dormir na imensa e impecável mansão. Imaginava-se acordada de madrugada, deslizando pelos corredores em lingerie, como quem não quer nada, torcendo para encontrá-lo na cozinha, assaltando a geladeira no silêncio da noite.
O segundo plano era mais direto e mais arriscado. Naquela mesma noite, quando todos já estivessem alterados pela bebida, Ana Alice pensava em interferir discretamente nas bebidas com remédios para dormir. Se desse certo, Heitor ficaria confuso, vulnerável… e algo poderia acontecer. E, mesmo que não acontecesse de fato, bastaria que acordassem juntos, próximos demais, com lacunas na memória. Às vezes, a dúvida era mais poderosa que a própria verdade.
Então Heitor fez o gol.
Ele saiu correndo pelo campo com uma energia que parecia sobrar no corpo, levantou as mãos e formou um “H” com os dedos, rápido, espontâneo, como se aquilo já estivesse pronto na cabeça dele desde o começo. Ana Alice nem entendeu direito como ele pensou nisso no meio do jogo.
Mas ele pensou.
E fez.
Depois disso, ficou ainda pior.
Heitor passou a provocar os colegas com aquele sorriso largo, confiante, falando alguma coisa que dali não dava pra ouvir, mas dava pra sentir.
Na lateral, Helena vibrava sem filtro nenhum.
Batendo palma, rindo, chamando por ele, como se aquilo fosse o jogo mais importante do mundo. As outras mulheres ao redor acabaram entrando na animação dela, puxadas pela energia, rindo juntas, comentando, se envolvendo.
E Heitor… retribuía.
Virava na direção dela, apontava, sorria, fez até um coração com as mãos, sem o menor constrangimento.
Como se todo mundo ali fosse só cenário.
O jogo desandou de vez depois disso.
Veio mais um gol dele, mais provocação, mais risada. Os outros já estavam cansados, errando passe, andando mais do que correndo.
Até que, numa jogada mais organizada, puxada pelo outro jogador em ótima forma física — Isaac junto — saiu um gol do outro time.
Isaac ficou visivelmente animado.
Comemorou meio sem jeito, rindo, tentando fazer alguma coisa com as mãos… uma letra “A”, talvez. Se embolou todo no processo, riu de si mesmo, e acabou sendo ajudado por um dos colegas, que entrou na brincadeira.
Foi leve e sincero.
Ana Alice bateu palmas.
E, para ela, aquilo já era bastante.
Mas o que incomodou não foi o gol.
Foi Helena.
Helena vibrou por Isaac também.
Com o mesmo entusiasmo, com a mesma naturalidade, chamando o nome dele, sorrindo, como se aquilo fosse… normal. Como se ele fosse parte do mesmo espaço que Heitor ocupava.
O jogo ainda seguiu por mais alguns minutos, já sem muita força. Os homens estavam claramente cansados, o ritmo caiu de vez, até que o apito final veio quase como um alívio.
Terminou em 2 a 1.
Vitória do time do Heitor.
Helena estava radiante.
Ver o Heitor em campo tinha sido… mais do que ela esperava. Ele não estava só jogando — ele estava vivo ali dentro, solto, feliz, daquele jeito que fazia o peito dela apertar tão bom. Orgulhoso de si, exibido como sempre, mas completamente entregue.
E, no fim, ele veio direto pra ela.
Sem desviar, sem pensar duas vezes.
As mãos firmes na cintura dela, o corpo ainda quente do jogo, o cheiro de suor misturado com o perfume dele… e os beijos.
Muitos.
Espalhados pelo rosto, pela bochecha, pela testa — rápidos e intensos, como se ele não conseguisse se segurar. Helena já estava com as bochechas doendo de tanto sorrir quando ele finalmente parou.
— Viu? Eu disse que ia fazer um gol pra você. Fiz dois! — ele falou, segurando a cintura dela. — Eu tô bem fedido — acrescentou com um sorriso travesso. — Vou tomar um banho e volto pra você, gatinha.
Helena passou os braços ao redor do pescoço dele, perdida no rosto do homem que amava.
— Eu amo você, mesmo fedido — disse, puxando-o para um beijo.
O beijo era quente, conhecido, do jeito que sempre era com eles. Heitor não demorou a aprofundar, a mão firme na cintura, puxando ela mais pra perto.
— Mesmo se eu cheirasse as fraldas do Humberto? — ele murmurou, ainda sorrindo contra a boca dela.
Helena fingiu pensar.
— Aí… talvez eu teria que repensar.
Ela tentou manter a seriedade, mas não conseguiu. O riso escapou, leve, e ele riu junto, baixinho, antes de voltar a beijá-la.
Dessa vez mais devagar e mais demorado.
A língua dele invadiu a boca dela com naturalidade, e a mão começou a descer discretamente.
— MONTEIRO! — Davi berrou, e os dois interromperam o beijo e olharam. — Pô, meu irmão… arruma um quarto pelo menos, né? Tá achando que isso aqui é o quê? Respeita a casa, cachorrão.
Heitor soltou uma risada baixa, sem se abalar nem um pouco.
— Qual foi, Davi? — disse ele, rindo de canto, ainda com a mão na cintura dela. — Tô com a minha mulher, pô. Desde quando eu preciso me esconder? — deu de ombros. — Relaxa aí e vai arrumar o que fazer.
Helena sentiu o rosto esquentar. Percebeu os olhares, as risadas ao redor, e apoiou a mão no peito dele, empurrando de leve.
— Heitor… — murmurou, baixa, toda corada.
Ele a olhou por alguns instantes com um olhar tão apaixonado e entregue que mal cabia nele.
— Tá bom, entendi, Dona Helena… — ele disse, aproximando um pouco mais o rosto, a voz abaixando. — Mas…
O sorriso que veio depois era puro perigo.
— Me encontra nos chuveiros? Dá uns minutos pros caras saírem… vou te mostrar uma cobra enorme aqui dessa chácara.
Helena não conseguiu segurar.
Riu alto.
— Deixa essa cobra bem guardada. Quem sabe de noite você ganha alguma coisa.
E piscou pra ele.
— Mal posso esperar pela noite então… — ele respondeu, baixo, aproximando de novo. — Mas já te aviso… a cobra não tem veneno. Só leite.
Ela revirou os olhos, rindo.
— Vai lá tomar banho, Heitor.
Ele fez uma careta, olhando na direção dos vestiários.
— Me desanima só de pensar que o banheiro tá cheio de homem pelado… credo.
Mas logo sorriu de novo.
— Que tal a gente ir tomar um banho juntos em um dos quartos?
— Você não queria jogar futebol? — ela respondeu na mesma hora. — Então agora aguenta o vestiário.
Ele suspirou, dramático.
— Eu pensei que ganharia uma visitinha sua no vestiário…
— Pensou errado, Monteiro.
— Sou tão maltratado por você…
Ele fez aquela cara de cachorro pidão que sempre a derretia.
Helena só balançou a cabeça, sorrindo, e empurrou ele de leve na direção dos vestiários.
— Anda. Não quero que descubram que eu sou a sua encantadora de cobras.
Heitor parou, olhou pra ela e começou a rir. Gargalhou de verdade, dobrando um pouco o corpo, o rosto ficando vermelho, os olhos marejados.
Helena até se preocupou por um segundo.
Mas logo veio outra coisa.
Vontade de rir também.
Vontade de chamar ele de idiota.
Vontade de puxar ele de volta.
Mas ela não fez nada.
Só ficou ali, olhando.
Demorou alguns segundos até ele conseguir se recompor, ainda rindo baixo, antes de finalmente ir.
Helena ficou olhando ele ir.
Mesmo depois que ele já tinha atravessado o gramado, mesmo quando já estava longe o suficiente pra não conseguir mais ver direito o sorriso dele. Ainda assim, ela continuou ali, com aquele sorriso bobo preso no rosto.
Ela apoiou levemente o peso no corrimão do lounge, soltando um suspiro baixo, quase sem perceber.
Engraçado… ela nunca foi o tipo de mulher que gostava de esporte.
Na escola, fazia de tudo pra escapar. Sempre tinha uma desculpa pronta — ajudar na biblioteca, organizar alguma coisa, ou simplesmente ficar sentada no pátio conversando com a Júlia enquanto o resto da turma corria atrás de bola.
Educação física era, de longe, a pior parte do dia.
E agora…
Agora ela tinha ficado ali, de pé, vibrando, gritando e acompanhando cada movimento por causa dele.
Helena riu sozinha, balançando a cabeça de leve. Será que eles se apaixonariam se tivessem estudado juntos?
A ideia veio leve, quase divertida.
Ela tentou imaginar os dois no mesmo colégio, na mesma idade… e não conseguiu segurar o sorriso que veio logo depois.
Não fazia sentido nenhum.
No mundo real, não funcionaria.
Heitor… jamais olharia duas vezes pra uma garota que odiava educação física e fugia de qualquer atividade física possível.
Ele devia gostar de outro tipo de mulher naquela época.
Alguém mais… ativa, talvez.
Mais confiante.
Mais presente.
Helena mordeu o canto do lábio, pensativa.
E se perguntou, de verdade, como ele era no colégio.
Que tipo de garoto ele foi.
Quem ele olhava.
Quem olhava pra ele.
Na época dela… era simples.
Zac Efron.
Ela soltou um suspiro pequeno, nostálgico, lembrando da fase em que aquilo parecia o auge de tudo.
Agora ela estava ali com um homem de verdade e completamente apaixonada por ele.
Quem sabe ela perguntasse pros amigos dele depois… alguma história, alguma coisa da adolescência. Ela gostava de descobrir essas partes dele que ainda não conhecia.
Helena se virou no lounge, procurando as amigas e percebeu que estava sozinha.
Franziu levemente o nariz, tentando lembrar quando elas tinham saído. Provavelmente tinham falado alguma coisa enquanto ela estava com o Heitor… e ela simplesmente não ouviu.
Ela pegou o celular e tinha uma mensagem.
O nome da Celina apareceu na tela, e o coração dela apertou na hora, aquele susto automático de mãe.
Abriu rápido e então relaxou. Eram fotos do Humberto dormindo, tranquilo, a boquinha levemente aberta, o rostinho sereno.
Helena soltou o ar devagar, o peito aliviando.
— Ai, meu amor…
Os dedos dela já começaram a digitar antes mesmo de pensar. Respondeu na hora, e Celina respondeu de volta no mesmo ritmo, como sempre fazia.
Elas trocaram algumas mensagens, comentários bobos, pequenos detalhes… e Helena percebeu que estava sorrindo de novo.
Ela abriu a galeria e mandou algumas fotos do Heitor em campo.
— Olha o pai dele — digitou, com um orgulho que nem tentou esconder.
Ficou ali mais alguns minutos, distraída, confortável naquele pequeno momento. Até perceber movimento ao longe. Alguns homens começaram a sair do vestiário.
Helena ergueu o olhar, automaticamente.
— Nem pensar…
Ela já conhecia o suficiente do Heitor pra saber que se ela ficasse ali… ele ia dar um jeito.
E ela não estava com a menor vontade de ser arrastada pra dentro de um vestiário masculino.
Helena soltou um suspiro, meio cansado, meio rindo sozinha da própria situação.
Levi apareceu ao longe, acenando pra ela.
Ela sorriu e acenou de volta, educada.
Então olhou ao redor.
Aquele lugar era grande demais.
Por um instante, pensou em pedir ajuda pra algum dos homens que vinham saindo… mas a imagem de si mesma andando no meio de um grupo deles, recém-saídos do banho, já foi suficiente pra ela desistir na hora.
— Não… não.
Virou o rosto, decidida.
Precisava sair dali antes que o Heitor resolvesse “ajudar”.
Escolheu uma entrada mais afastada, ao norte, e começou a andar rápido, quase escapando.
Assim que entrou, o ambiente ficou mais silencioso. Ali dentro seria mais fácil achar alguém da equipe pra pedir orientação. Enquanto caminhava, pegou o celular de novo, já sorrindo sozinha.
Digitou rápido: “Cuidado pra não deixar o sabonete cair viu 😂😂”
Enviou.
Helena segurou a risada, já imaginando exatamente a cara do Heitor quando lesse aquilo. Conhecia bem o suficiente para prever o segundo de indignação.
Guardou o celular ainda sorrindo e continuou andando pela sala de descanso da chácara do Raul e da Paula. O espaço era grande, elegante, com quadros bonitos nas paredes que prenderam a atenção dela por um instante. Helena diminuiu o passo, observando, e aquilo a levou direto para outra lembrança, Celina, a primeira vez que saíram juntas.
Ainda formais, cuidadosas, quase se analisando… e agora eram próximas de um jeito tão natural que parecia impossível lembrar como começou. Helena sorriu sozinha. A vida tinha mudado muito mais do que ela às vezes percebia.
Foi então que algo mais baixo chamou sua atenção.
Uma menina.
Pequena, delicada e com traços asiáticos, sentada à mesa, completamente concentrada em um desenho. Helena franziu levemente a testa, surpresa. Não era dia de ter criança ali. A casa estava preparada para um almoço cheio de bebida, conversa alta e adultos soltos. Até os filhos da Paula tinham sido mandados para os avós.
Curiosa, ela se aproximou com passos leves.
— Oii…
A menina levantou o rosto, olhando com curiosidade, mas sem muita animação.
— Oi…
Helena manteve o sorriso, daquele jeito fácil que vinha sem esforço.
— Uau… esse desenho parece muito legal. Posso ver?
Se inclinou um pouco, com cuidado, sem invadir demais. Observou as mãozinhas pequenas soltando as canetinhas, o olhar da menina indo do papel para ela.
— É o papai. Eu vi ele jogando bola pela janela.
Helena olhou melhor. Era um desenho simples, infantil, mas cheio de intenção. Cabelo marrom, olhos bem marcados e um sorriso grande.
— Você desenha muito bem — disse com sinceridade. — Olha só, até o tênis você pintou de laranja. Não sabia que tinha uma artista por aqui.
A menina soltou uma risadinha tímida, quase escondida.
— Olha esse.
Pegou outro papel e mostrou.
Agora era um jardim, cheio de borboletas arredondadas, coloridas.
— Esse ficou ainda melhor. Você é muito boa mesmo.
A menina sorriu um pouco mais aberta dessa vez, claramente gostando de ouvir aquilo.
Helena apoiou a mão na mesa, entrando no ritmo dela.
— Já que você é uma super desenhista… que tal desenhar a minha família?
A menina assentiu na hora.
Helena pegou o celular e mostrou a foto — ela, Heitor e Humberto. A menina ficou olhando por alguns segundos, quieta, analisando cada detalhe.
E então levantou o rosto.
— Por que você é marrom?
A pergunta veio direta.
Helena se surpreendeu por um instante, mas não havia maldade ali. Só curiosidade.
Ela sorriu, suave.
— Porque as pessoas têm cores diferentes. Igual olhos e cabelos. A minha é marrom, a sua é branca… e todas são bonitas.
A menina ficou pensativa, o olhar caindo um pouco.
— E o que você faz quando riem de você?
Aquilo mudou o ar.
— Eu gosto de quem eu sou — respondeu com calma. — Então não me importo.
A menina abaixou a cabeça.
— Eu não gosto… — a voz saiu baixa — Eu não gosto quando riem de mim.
Helena se aproximou mais, agora com atenção de verdade.
— Por que alguém riria de você? Você é tão lindinha.
A menina levou as mãos aos olhos.
— Eu odeio meus olhos…
Aquilo apertou o peito da Helena. Ela não pensou muito. Só agiu.
Segurou as mãozinhas dela com cuidado.
— Quer me contar por quê?
— São diferentes dos olhos do meu pai… todo mundo ri.
Helena puxou ela um pouco mais pra perto.
— Eles são diferentes, sim… e isso é normal. As pessoas da mesma família podem ser diferentes.
Pegou o celular de novo e mostrou a foto.
— Olha o meu bebê. Ele é bem diferente de mim, se parece mais com o pai dele. E isso não é ruim.
Sorriu, mais suave.
— É bonito. Porque quando eu olho pra ele… eu lembro da pessoa que eu amo.
A menina fungou, os olhos já cheios.
— Você ama o seu pai?
Ela assentiu.
— Então pronto. Aposto que ele ama os seus olhos pelo mesmo motivo.
A menina não segurou mais. Começou a chorar.
E Helena simplesmente a puxou para o colo, envolvendo com cuidado, como se aquilo fosse instinto.
— Ei… calma…
A voz saiu baixa, acolhendo. Passou a mão nas costas da menina, repetindo que ela era linda, especial, importante… até o choro ir diminuindo, até o corpinho relaxar.
Ficaram assim por alguns instantes.
Em silêncio.
Quando a menina já estava mais calma, Helena afastou só um pouco, sorrindo.
— Você não me contou o seu nome.
A menina fungou.
— Helena.
Helena arregalou os olhos e riu na mesma hora.
— Não acredito… o meu também!
A menina piscou.
— Mesmo?
— Mesmo. Então você é a Helena pequena… e eu sou a Helena grande.
A menina riu.
Helena sentou na cadeira ao lado, pegou uma canetinha vermelha e desenhou um “H” pequeno na mão dela.
— Esse é o seu.
Depois desenhou outro na própria mão.
— E esse é o meu.
A menina olhou, encantada.
— Pode fazer um coração?
Helena sorriu.
— Claro.
Desenhou um coração na mão dela.
E outro na própria.
Como se, naquele gesto simples… as duas tivessem criado algo só delas.
Passos mais pesados ecoaram pela sala, quebrando o silêncio confortável que tinha se formado ali entre ela e a pequena.
Helena virou o rosto automaticamente e um homem vinha na direção delas.
Alto e com a postura firme. Estava vestido de forma confortável — shorts, chinelo, regata — mas não tinha nada de desleixado.
Ela franziu levemente o cenho.
Achava que já conhecia todo mundo ali. Amigos do Heitor, conhecidos e as acompanhantes… mas aquele, ela nunca tinha visto.
Ele também pareceu surpreso ao ver as duas.
Helena automaticamente fechou um pouco o semblante, instintiva. Estava só ela e a menina ali e, por um segundo, o corpo dela já ficou alerta.
Mas antes que qualquer palavra saísse—
— Papai!!
A menina saltou do colo dela como um foguete.
Correu direto até ele e Helena piscou, surpresa.
O homem a pegou no colo com facilidade.
— Oi, filhota… — a voz dele saiu grave, mas suave. — Tá tudo certo?
O olhar dele passou por Helena, rápido e avaliativo.
Helena relaxou os ombros, soltando um pequeno suspiro que nem percebeu que estava segurando. O rosto suavizou, e ela ofereceu um sorriso educado.
— Tudo! — a menina respondeu animada. — Eu fiz uma amiga! Ela tem o mesmo nome que eu!
— É mesmo? — ele olhou para a filha com um meio sorriso, depois voltou para Helena. — Olha só…
— E olha isso! — a menina esticou a mão. — H de Helena pequena… — apontou para si — e ela é a Helena grande!
Ele analisou a mão dela, depois ergueu o olhar para Helena com um interesse mais claro agora.
— Entendi…
Helena sustentou o olhar, tranquila.
— Sua filha é muito fofa. Parabéns.
A menina abriu um sorriso, e ele beijou o rosto dela com carinho.
— Ela é mesmo… — respondeu, com um tom mais baixo, mais íntimo. — Filhota, vai lá juntar suas coisas. A gente já tá indo.
— A Helena pode ir com a gente?
Helena arregalou levemente os olhos, surpresa, e respondeu antes que a situação crescesse.
— Não posso, querida. Meu noivo já já me sequestra pra almoçar.
Ela olhou para o homem.
— Vocês não vão ficar? Disseram que vai ter um churrasco daqueles.
Ele abaixou a filha com firmeza, mas sem perder a leveza.
— Vai lá, princesa. Junta tudo direitinho.
A menina fez uma careta, cruzou os braços, mas acabou indo, resmungando baixo.
Ele acompanhou com o olhar até ter certeza de que ela estava distante o suficiente.
— Desculpa… — ele disse, soltando um meio sorriso. — Essa fase de testar limite parece que não acaba nunca.
Helena fez um gesto leve com a cabeça, indicando o espaço ao lado.
— Vem comigo um minuto.
Ele arqueou levemente a sobrancelha, curioso.
Mas foi.
Assim que se afastaram o suficiente, Helena mudou o tom.
— Eu estava conversando com a sua filha… — disse, mais baixa, direta — e acho que ela pode estar sofrendo bullying.
Ele travou por um segundo e então o semblante fechou.
— Impossível — respondeu na hora, firme. — Ninguém mexe com a minha filha.
Helena sustentou o olhar.
— Então talvez ninguém tenha contado pra você.
Ela continuou, mais calma, mas sem suavizar demais.
— Ela disse que riem dela por causa dos olhos. Porque são diferentes dos seus.
O maxilar dele tensionou, o olhar caiu por um instante.
— …entendi.
Helena respirou, um pouco mais cuidadosa agora.
— Você e a mãe dela ainda estão juntos? Ela está aqui? Eu posso conversar, ajudar de alguma forma…
Ele passou a mão pelo rosto, pensativo.
— Não… — a voz saiu mais baixa. — A mãe dela faleceu no parto.
— Eu… sinto muito. De verdade.
— Tá tudo bem — ele respondeu, rápido, mas não frio. — Você não tinha como saber.
Fez uma pausa, olhando de lado.
— Foi complicado. Ela pegou COVID na época… parto de emergência. Foi tudo muito rápido.
Helena assentiu, mais contida agora.
— Mesmo assim… — ela disse, com cuidado — sua filha sente falta.
Ele soltou um ar pelo nariz.
— Eu sei.
— E talvez… — ela completou — mais de você do que da mãe.
Aquilo ficou pesado no ar.
— Ela fez um desenho seu — Helena continuou. — Te viu jogando e quis colocar no papel.
Ele desviou o olhar.
Claramente desconfortável.
— Eu trabalho muito… — disse, meio defensivo. — Sou empresário. Não dá pra…
Helena cruzou os braços.
— Olha… não é da minha conta — começou, mas já sem voltar atrás — mas tá parecendo.
Ele levantou o olhar.
— Você deixou sua filha sozinha aqui. Num ambiente cheio de adulto, bebida, gente que ela nem conhece.
Ele respirou fundo.
— Eu—
— E ainda diz que não tem tempo? — ela continuou, firme. — Tempo você tem. Seu corpo mostra isso. Academia em dia, rotina organizada… falta prioridade.
Ele passou a mão no rosto de novo.
— Ela é muito parecida com a mãe… — disse, mais baixo. — Às vezes… ainda machuca.
Aquilo fez Helena travar por um segundo.
Mas não recuou.
— Ela não é a dor que você perdeu — disse, direta. — Ela é o que você ganhou.
Ele ficou quieto.
— Você devia ter vergonha de tratar isso como peso — completou. — Sua filha não pode crescer achando que é um lembrete ruim.
Helena massageou as têmporas, soltando o ar.
— Faz terapia. Resolve isso. Porque se você não resolver… ela vai crescer e cobrar. E vai estar certa.
Ele a encarou por alguns segundos.
E então soltou, com um meio sorriso incrédulo:
— Caramba… você é direta, hein.
Helena deu de ombros.
— Não era pra falar tudo isso. Mas falei.
Ele soltou um riso curto.
— Foi assim que você pegou o Monteiro?
Ela levantou a sobrancelha.
— Não muda de assunto.
Ele riu de leve.
— É que ele fala de você.
Aquilo chamou a atenção dela.
— Fala?
— Fala. — ele inclinou um pouco a cabeça. — Disse que você é brava… mas que foi a melhor coisa que aconteceu na vida dele.
Helena piscou.
— Só isso?
Ele soltou um sorriso de canto.
— O Monteiro é exibido… mas até ele tem limite. Homem nenhum sai por aí falando muito da mulher.
Ela ficou em silêncio por um segundo.
— Mas uma coisa ele deixou bem clara — o homem completou, olhando direto pra ela. — Ele tá feliz pra caramba.
Helena acabou deixando escapar um sorriso.
— E eu entendo — ele continuou, com um tom mais leve. — Com todo respeito… você é uma mulher muito bonita.
Helena levantou a mão, mostrando a aliança sem perder a educação.
— Agradeço. Mas para por aí.
Ele ergueu as mãos, tranquilo.
— Justo. Só educação mesmo.
Helena cruzou os braços de leve, ainda com a atenção nele, mas sem perder a naturalidade natural.
— Eu não perguntei o seu nome.
Ele estendeu a mão, direto, firme.
— Otávio Brandão.
Helena pegou a mão dele, sentindo o aperto seguro, típico de homem que sabe exatamente quem é.
— Helena. Mas, isso você já sabe.
Ele assentiu.
— Você conhece o Heitor faz tempo?
— Desde o fundamental — respondeu ele, sem rodeio.
Helena abriu um sorriso imediato.
— Ah… então é você mesmo que vai me contar como o Heitor era na adolescência.
Otávio inclinou levemente a cabeça, um sorriso de canto surgindo.
— Hm… não sei se devo.
Helena estreitou os olhos, desconfiada.
— O que quer dizer com isso?
— Você sabe… — ele deu de ombros, relaxado — lealdade masculina.
Helena soltou um riso baixo.
— Ele era tão terrível assim?
— Não… — ele respondeu, simples. — Ele era igual é hoje. Extrovertido, cheio de energia… e completamente maluco por futebol.
— E ele teve muitas namoradas? — perguntou, casual demais para quem queria parecer casual.
Otávio riu pelo nariz.
— Adolescente, Helena… hormônio no talo. Ele ficava com umas garotas, sim.
Ela assentiu devagar.
Já esperava.
Mas ainda assim… Se sentiu chateada.
— E como elas eram?
Otávio pensou por um segundo, escolhendo o que vale a pena dizer.
— Ele tinha as ficantes… mas não era de namorar, não. — olhou pra ela — Era até meio babaca às vezes. Deixava claro que não queria nada sério. Sempre foi muito intenso.
Helena ouviu em silêncio.
— Quando ele falou de você… — Otávio continuou, agora mais direto — foi diferente.
Ela ergueu o olhar.
— Diferente como?
— Ele não fala assim de ninguém. — respondeu, firme. — Quando ele disse que tava apaixonado… que você era a mulher da vida dele… eu sabia que era sério.
Otávio colocou a mão direita no bolso do short.
— O Monteiro pode ser um monte de coisa… — ele completou — mas ele não consegue mentir sentimento.
Helena não conseguiu evitar o sorriso.
Saber que Heitor falava dela assim… com os amigos… sem filtro… sem medo…
Aquilo aquecia o seu coração.
A menina apareceu correndo, quebrando o momento.
— Papai! Por que vocês estão escondidos aqui?
Otávio virou o rosto na hora, o tom mudando completamente.
— Não estamos escondidos, princesa.
Ele abaixou um pouco o corpo, já entrando no ritmo dela.
— A Helena me deu uma ideia melhor… que tal a gente almoçar no shopping hoje?
— Obaaa!!
A menina levantou os braços, pegou a mão dele e começou a puxar com toda a empolgação que o corpo pequeno permitia.
— Vamos papai! Vamos logo!
Helena sorriu vendo a cena.
Otávio voltou o olhar pra ela por um instante.
— Quem sabe a gente se vê no próximo encontro da turma.
— Vou esperar atualizações da minha xará — Helena respondeu, fingindo seriedade.
Ele riu de lado, aquele riso contido de quem entendeu.
E ele se foi, levado pela filha, que já estava tão animada que nem lembrou de se despedir.
Helena ficou ali observando e pensando.
Pensou em Humberto quando estivesse daquele tamaninho, falando daquele jeito e correndo atrás dela a chamando para ir nos parquinhos.
E, logo depois…
pensou nela mesma.
Se alguém tivesse tido aquela conversa com o pai dela…
Será que alguma coisa teria sido diferente?
Helena soltou o ar devagar.
Afastou o pensamento. Não valia a pena ficar remoendo.
Mas a sensação ficou, aquela antiga cicatriz estava um pouco dolorida.
O celular vibrou na mão dela.
Heitor.
Ela atendeu com um sorriso automático.
— Alô?
— Amor, onde você tá? — a voz dele veio viva, urgente daquele jeito típico. — Já vai começar a sair a carne aqui.
— Eu tava conversando com um amigo seu… Otávio. Ele tem uma filha chamada Helena, acredita?
— Onde vocês estão? Já vou aí.
— Ele já foi. Eu tô aqui na parte de cima… vou ver se acho alguém pra me ajudar a te encontrar.
Heitor soltou uma risada do outro lado.
— Helê… eu te encontro pelo cheiro. Não tem como você se esconder de mim.
Helena riu, andando devagar pelo cômodo.
— Ah é? Nesse lugar enorme?
— Até na floresta. — a voz dele abaixou, divertida — Eu sou tipo um tigre faminto… e você uma gazela linda perdida.
Helena mordeu o sorriso.
— Então vem me encontrar, tigrão.
Helena desligou o telefone ainda sorrindo, sentindo aquele calor gostoso no peito que ele sempre deixava.
Ela podia simplesmente voltar pelo caminho mais óbvio.
Ir direto para a área do campo, atravessar, encontrar ele em poucos minutos.
Mas…
Qual seria a graça?
Helena mordeu o canto do lábio, já sentindo a vontade de rir crescer.
Começou a andar sem direção muito definida, passando pelos corredores como quem não devia estar ali, mas também sem fazer questão de parecer discreta demais. Era quase como voltar a ser criança — aquela sensação de estar fazendo uma pequena travessura.
Ele tinha dito que encontrava ela pelo cheiro.
Que era um “tigre faminto”.
Ela soltou um riso baixo, balançando a cabeça.
— Quero ver então…
Continuou andando, virando em outro corredor, depois em mais um, sem saber exatamente onde estava indo. O casarão parecia maior por dentro, cheio de caminhos que se cruzavam, portas entreabertas, janelas grandes deixando a luz entrar.
Por um instante, ela realmente não fazia ideia de onde estava.
E isso só deixou tudo mais divertido.
Imaginou o Heitor do outro lado, procurando, andando mais rápido do que devia, passando a mão no cabelo, impaciente… talvez já resmungando.
Talvez chamando por ela.
Talvez reclamando que ela tinha sumido de propósito.
Helena sorriu sozinha.
Queria ver a cara dele.
Ela desacelerou os passos, quase como se estivesse se escondendo de verdade agora, encostando de leve na parede por um segundo, ouvindo o silêncio ao redor.
Enquanto Helena caminhava pelos corredores sem saber, Ana Alice já estava em um dos quartos da chácara.
Um ambiente que parecia feito exatamente para aquilo: mulheres se arrumando, se avaliando e se comparando.
Adriana estava de costas, terminando de trocar de roupa, enquanto Letícia se inclinava levemente diante do espelho, retocando a maquiagem com movimentos precisos. Ana Alice observava as duas pelo reflexo enquanto reaplicava o gloss, ajustando o próprio rosto com cuidado.
Ela gostava daquele tipo de ambiente.
Gostava mais ainda da companhia refinada.
— Não entra na minha cabeça… — Adriana começou, ajeitando o cabelo — como uma mulher tão inferior conseguiu segurar o Monteiro.
Ana Alice não respondeu de imediato. Mas o canto da boca dela subiu.
— Sorte da Dona Celina — Letícia completou, com um riso curto — que o filho nasceu branquinho.
Aquilo arrancou um som baixo de aprovação de Adriana.
Ana Alice abaixou o olhar para a própria bolsa, fingindo procurar algo, mas o sorriso ainda estava ali.
Era confortável.
Ali… ela não precisava fingir tanto.
— Deve ter sido magia negra — ela soltou, como quem comenta algo óbvio. — Gente assim sabe mexer com essas coisas. Vocês tinham que ver a avó… é ainda mais escura.
O silêncio que veio depois não foi de choque.
Foi de aceitação e de concordância.
— Vocês são da mesma cidade, não são? — Adriana perguntou, casual.
Ana Alice travou por um segundo.
— Somos… — respondeu rápido demais. — Mas nunca fomos próximas.
Letícia soltou um “hum” arrastado, como quem já imaginava.
— O Heitor foi lá naquele fim de mundo e trouxe ela pra cá… — disse, encostando na bancada. — Engraçado, né? Podia ter conhecido você primeiro.
E então sorriu, de leve.
— Nada contra o Isaac… mas ele ainda é muito… novo.
Ana Alice respirou fundo, sutil.
— O Isaac é muito responsável — respondeu, ajustando o tom. — Já está em posição de confiança no banco. Comprou o próprio apartamento… com o salário dele.
Era quase automático, justificar e validar.
Letícia inclinou a cabeça, analisando.
— Mas não é o Monteiro…
— Imagina… — Adriana completou, agora de frente pra elas — você sendo a senhora Monteiro. Dona da Monteiro Inc.
Ana Alice baixou o olhar.
Não por humildade.
Mas porque a imagem veio.
Nítida.
— Isso é outro nível de poder.
E era.
Ela sabia.
Letícia se aproximou, ficando atrás dela, passando os dedos pelo cabelo longo e preto de Ana Alice, alisando com um cuidado quase avaliativo.
— Você é linda, Ana Alice… — disse, quase como um veredito. — Combina muito mais com ele.
Ana Alice não se mexeu.
— Aquela Helena… — Letícia continuou, com desprezo aberto agora — se largou completamente. Tá enorme.
Ana Alice sabia.E principalmente sabia o motivo.
Gravidez.
Mudança no corpo. Mas aquilo não impediu o leve sorriso que puxou no canto da boca.
— Deve ser constrangedor pro Heitor — Letícia levou a mão à boca, fingindo conter o riso. — Parece uma vaca leiteira.
Adriana riu baixo.
E, dessa vez…
Ana Alice riu junto.
Baixo.
Mas riu.
Porque ali… naquele espaço… aquilo não era errado.
Era normal.
Era aceito.
Era compartilhado.
Adriana cruzou os braços, olhando direto pra ela.
— E você? — perguntou, sem rodeio. — Ficaria com o Monteiro?
Ana Alice sustentou o olhar de Adriana pelo espelho, devagar, como quem não via motivo para esconder.
E então deu um meio sorriso.
— O Heitor… — ela começou, passando o gloss nos lábios com calma — não é um homem como os outros.
Letícia virou o rosto na hora, curiosa.
— Finalmente alguém falou.
Ana Alice apoiou a mão na bancada, olhando para o próprio reflexo, mas claramente vendo outra coisa.
— Ele é grande… — disse, sem rodeio. — Alto, ombros largos..
Adriana soltou um riso curto.
— Aquilo ali não passa despercebido nem se quiser.
— E bonito — Ana Alice completou, agora mais baixa, quase como se estivesse saboreando a ideia. — Mas não é só bonito… é aquele tipo de homem que se cuida, que se impõe… que sabe que pode ter o que quiser.
Letícia cruzou os braços, inclinando a cabeça.
— E ele sabe.
— Sabe — Ana Alice respondeu na mesma hora.
O olhar dela mudou um pouco.
Mais denso.
Mais interessado.
— O jeito que ele anda… o jeito que ele olha… — ela continuou — é o tipo de homem que não precisa falar muito. Todo mundo já entende.
Adriana trocou um olhar rápido com Letícia.
E então veio, sem filtro:
— Você já reparou no volume na calça dele?
Letícia soltou um riso abafado.
— Adriana…
Mas já estava rindo também.
Ana Alice não desviou.
Nem fingiu.
Só inclinou levemente a cabeça.
— Já.
— E? — Letícia se aproximou um pouco mais, interessada de verdade agora.
Ana Alice deu um sorriso pequeno.
— Ele não decepciona nem nisso.
As três riram.
— É um desperdício daquele tamanho todo… — Adriana comentou, sem pudor — com aquela ali.
— Total — Letícia concordou. — Uma mulher que claramente não acompanha.
Ana Alice respirou fundo, devagar.
— Homem como o Heitor não foi feito pra ficar com mulher comum… — disse, olhando direto para o espelho. — Ele é nível alto. Status, presença, poder… isso exige uma mulher à altura.
Ela virou o rosto levemente.
— Não alguém que veio de lugar nenhum e simplesmente… caiu ali.
— Você combinaria muito mais com ele — Letícia reforçou, olhando ela de cima a baixo.
Ana Alice absorveu aquilo.
— Eu sei — respondeu, sem falsa modéstia.
Adriana apoiou o corpo na bancada, cruzando os braços.
— E se ele te desse abertura?
Ana Alice não hesitou.
— Eu não perderia. Homem assim não aparece duas vezes na vida — ela continuou. — E quando aparece… ou você sobe com ele… ou fica assistindo outra ocupar o lugar que deveria ser seu.
Letícia soltou um “exatamente” baixo.
E Ana Alice… já não estava mais só falando.
Estava convencida.
Convencida de que aquilo fazia sentido.
Convencida de que merecia mais.
Convencida de que Helena… estava no lugar errado.
— Sério… não entra na minha cabeça — Adriana voltou ao assunto, balançando a cabeça — um homem daquele nível… daquele porte… ficar com uma mulher daquelas.
Letícia soltou um riso curto, puxando o batom mais uma vez.
— Não é só aparência… — disse, encarando o próprio reflexo — é tudo. Postura, origem, jeito… não combina.
Ana Alice encostou levemente na penteadeira, observando as duas pelo espelho, sentindo aquele lugar… confortável.
— Ela não acompanha — falou, sem hesitar. — Em nada.
Adriana assentiu na hora.
— Nada. Nem socialmente. Dá pra ver que ela tá deslocada… o tempo inteiro.
— Parece que entrou ali por engano — Letícia completou, com um meio sorriso — e ficou.
As três riram em completo desprezo.
Ana Alice cruzou as pernas devagar.
— O Heitor é um homem que chama atenção em qualquer lugar… — continuou, com o tom mais baixo, mais carregado — ele entra e domina o ambiente.
— E ela? — Adriana arqueou a sobrancelha.
Ana Alice deu um sorriso pequeno.
— Ela acompanha… tentando.
Letícia soltou uma risada abafada.
— Tentando é ótimo.
— É nítido — Ana Alice continuou, agora mais fria — que ela não veio daquele meio. Isso aparece em tudo… no jeito de falar, de se portar… até no jeito que se veste.
Adriana fez uma careta leve.
— E ainda assim se acha no direito de ocupar aquele lugar.
— Porque deram pra ela — Letícia respondeu. — Não é mérito… é oportunidade.
Ana Alice inclinou a cabeça.
— E oportunidade mal aproveitada.
Letícia então soltou, mais baixo, quase como um comentário venenoso:
— E o pior… é que ela ainda acredita que merece.
Ana Alice não respondeu de imediato.
Mas o olhar dela endureceu.
— Ela acha que ganhou — disse, por fim. — Mas não ganhou nada.
Adriana olhou direto pra ela.
— Explica.
Ana Alice respirou fundo, cruzando os braços.
— Ela só está ali… porque ele quis. — deu de ombros — Não porque ela é a melhor opção.
Letícia soltou um “exatamente” quase sussurrado.
— E homem como o Heitor… — Adriana completou — uma hora enjoa.
Ana Alice não desviou o olhar.
— Principalmente quando começa a perceber que pode ter melhor.
Letícia deu um passo mais próximo, observando Ana Alice com atenção.
— E você acha que ele já percebeu?
Ana Alice sustentou o olhar.
E dessa vez, não teve nem sorriso.
— Acho que ele vai perceber hoje.
A porta abriu com tanta força que bateu na parede e fez o quarto inteiro vibrar. As três se viraram no mesmo instante, e foi ali, naquele segundo exato, que o mundo de Ana Alice sentiu a alma sair do corpo. O coração disparou tão rápido que chegou a doer, a garganta secou, e o ar pareceu desaparecer do ambiente.
Helena estava na porta.
Os olhos cravados nelas.
Vermelha de raiva.
— Mas que merda é essa?
A voz veio alta, firme, carregada de uma indignação que não deixava espaço para dúvida. Ela tinha ouvido. Tudo.
Ana Alice sentiu o estômago afundar de um jeito que nunca tinha sentido antes. Um frio subiu pela coluna, pesado, denso, como um aviso tardio de que aquilo tinha passado do ponto.
Helena entrou.
Adriana tentou sustentar a pose, ajeitando o cabelo para trás, abrindo um sorriso cínico que agora parecia mais frágil do que elegante.
— Onde estão seus modos? Abrindo um quarto sem bater, sem ser con—
O tapa veio antes do final da frase.
Seco. Alto. Violento.
O som ecoou no quarto.
A cabeça de Adriana virou com o impacto, o corpo dela demorou um segundo para entender o que tinha acontecido. O silêncio que se seguiu não foi vazio, foi pesado, carregado de choque.
Helena não recuou.
Empurrou Adriana para trás com força, o suficiente para fazê-la perder o equilíbrio por um instante.
— Acham que me conhecem? — a voz saiu firme, tremendo de raiva — Falando esse monte de coisa baixa sobre mim?
— Helena, se controla! — Letícia reagiu, irritada, tentando recuperar algum domínio da situação. — Isso é normal na favela de onde você veio? Porque aqui não é.
Helena virou o rosto lentamente na direção dela.
— Sua jararaca traiçoeira… cala a sua boca, porque o que é seu… tá guardado.
Ana Alice sentiu as mãos gelarem.
O corpo inteiro ficou leve e pesado ao mesmo tempo, como se não respondesse mais direito. Aquela sensação de controle que ela sempre teve… simplesmente não existia ali.
E então Helena olhou para ela.
Naquele instante, Ana Alice entendeu — de verdade — que tinha passado dos limites.
— E o MEU homem vai perceber o QUÊ hoje, Ana Alice?
Helena começou a andar na direção dela.
Ana Alice tentou responder. Qualquer coisa. Uma frase, uma defesa, uma ironia — qualquer coisa que fosse ela.
Mas nada saiu.
A garganta travou.
O ar não vinha.
Era como se a presença de Helena tivesse esmagado tudo.
— Tá querendo o meu homem?
Mais perto.
Ana Alice tentou recuar um passo sem perceber, mas já estava sem saída.
— Já passou da hora de você aprender o seu lugar!
E Helena não esperou resposta.
A mão veio direto nos cabelos de Ana Alice, puxando com força, sem aviso e sem cuidado.
O couro cabeludo ardeu na hora.
Ana Alice soltou um grito involuntário, tentando segurar o braço dela, tentando se soltar, mas o corpo não respondia com a rapidez de antes.
Porque agora não era mais joguinho. Não era mais comentário maldoso. Não era mais indireta.
E Helena… não estava ali para discutir.
Fale com o autor