O CEO que Eu Paguei

231 A Beira do Colapso


Heitor caminhava pelo corredor com um sorriso que simplesmente não saía do rosto. O corpo ainda estava quente do jogo, as pernas mais pesadas do que antes, mas nada daquilo importava. O que ficava mesmo era a imagem da Helena na beira do campo, pulando, gritando o nome dele, vibrando como se fosse a coisa mais natural do mundo alguém torcer daquele jeito. Aquilo tinha mexido com ele de um jeito quase ridículo.

— Porra… — soltou um riso baixo, passando a mão pelos cabelos ainda úmidos — tu me fez correr que nem um garoto, Helê…

Agora ainda tinha a brincadeira.

E ele conhecia aquele joguinho. Não era a primeira vez. Helena gostava de testar, de brincar com o limite, de ver até onde ele ia… e ele ia. Sempre.

Foi dando batidinhas leves nas portas enquanto caminhava, mais por charme do que por necessidade, abrindo uma aqui, outra ali, sem pressa, saboreando o momento.

— Helenaaa… — chamou, arrastando o nome com malícia — amor da minha vida, onde você se meteu?

Ergueu um pouco a bandeja que carregava, como se estivesse apresentando um prêmio.

— Trouxe churrasco pra você… e não é qualquer coisa não… — deu uma risada baixa — tem aquela linguiça bem caprichada, suculenta do jeito que você gosta.

Sorriu sozinho, satisfeito com a própria piada. Sabia que ela não tinha comido direito, ficou o tempo todo ali com ele no campo, animada e envolvida. Conhecia a mulher que tinha. Aquilo ali era isca fácil, sua noiva não resistiria ao cheiro de churrasco.

E, no fundo, ele gostava disso também. De saber conduzir, de saber provocar de volta, de puxar ela para o ritmo dele.

— Tu não me conhece mesmo… — murmurou, quase rindo — fugir de mim…

Foi então que ouviu passos, correndo na direção dele.

Heitor parou no meio do corredor, o sorriso se abrindo mais, largo, confiante, quase predador. Passou a língua pelos lábios num gesto automático, o olhar escurecendo com antecipação.

— Sabia… — soltou baixo — não aguenta…

Acelerou um pouco o passo, olhou rápido ao redor e abriu a porta de um quarto ao lado, entrando sem fazer barulho. Deixou a bandeja sobre a mesa e se posicionou no canto, esperando o momento certo. Já conseguia imaginar a reação dela, o susto, a risada, o jeito que ia tentar se soltar e não ia conseguir.

Os passos vinham mais perto, cada vez mais rápidos.

Mas ele não pensou nisso.

Quando o som ficou próximo o suficiente, ele saiu de uma vez, invadindo o corredor com o corpo inteiro, preparado para agarrar e travou.

Era Adriana, namorada do Oscar.

Ela bateu direto contra ele. O sorriso desapareceu do rosto dele como se nunca tivesse estado ali.

— Porra… — soltou, segurando ela pelos braços para não deixar cair — foi mal, foi mal…

Afastou um pouco, tentando entender.

— Você se machucou?

Mas algo não encaixava.

Ela estava ofegante demais.

O rosto pálido com um vergão vermelho na bochecha.

O olhar… perdido.

Heitor franziu o cenho.

— O que foi?

A voz já não tinha mais leveza nenhuma.

— Aconteceu alguma coisa?

— Heitor… graças a Deus… — ela conseguiu dizer, puxando o ar — a Helena…

Um frio pesado desceu direto pro estômago.

Ele não esperou o resto.

— O que houve com a Helena? — perguntou já sem paciência.

— Ela enlouqueceu! — Adriana disparou, ainda sem fôlego.

Heitor travou por um segundo, tentando encaixar aquilo, mas não encaixava.

Nada fazia sentido.

— Como assim enlouqueceu?

O olhar dele já estava diferente.

— Ela tá por aqui?

Ele perguntou, mas nem esperou a resposta. O corpo já estava em movimento.

— Deixa… eu vou achar.

E saiu andando rápido, quase correndo, os passos pesados ecoando pelo corredor. Adriana vinha atrás, falando, explicando, jogando palavras que ele mal registrava.

Ele não queria explicação.

Não naquele momento.

Tudo que tinha na cabeça agora era uma coisa só.

Helena.

Ele já estava no meio do corredor quando ouviu o primeiro grito.

Parou por um segundo e então veio outro.

E dessa vez ele não teve dúvida nenhuma — era a Helena.

O corpo reagiu antes da cabeça.

Heitor disparou pelo corredor, passos pesados batendo no chão, o coração acelerando de um jeito que não tinha nada a ver com o jogo de antes. A porta estava entreaberta. Ele não pensou. Empurrou com força.

E o que ele viu… travou ele por um minuto inteiro.

Helena estava em cima da Ana Alice.

De joelhos, o corpo inclinado pra frente, a mão cravada no cabelo dela com força enquanto descia soco atrás de soco na cabeça dela.

Ana Alice estava no chão, completamente desorganizada, chorando, tentando se proteger como dava. Uma das mãos presa no cabelo da Helena, puxando de volta, a outra batendo às cegas — no peito, no rosto, onde conseguisse alcançar.

O cabelo das duas já estava embolado, grudando uma na outra. O rosto da Helena vermelho, suado, com arranhões frescos cortando a pele. A respiração dela vinha forte, irregular, e cada golpe carregava uma raiva que não tinha mais freio.

Heitor não se mexeu de imediato.

Não por falta de reação.

Mas porque aquilo não existia no mundo dele.

Nunca tinha visto uma mulher brigar antes.

Nunca tinha visto a Helena tão furiosa assim.

Ele piscou uma vez e então o corpo voltou.

— Ana Alice! — a voz saiu firme, alta — o que você tá fazendo? Solta ela!

Mas nem ele acreditou no que disse. Até parece que iria funcionar.

Uma coisa era certa, ele não queria tocar na Ana Alice. Ele tentou primeiro então pelo mais óbvio. Pegou o braço da Helena, tentando soltar a mão dela do cabelo da outra. Mas ela estava travada, os dedos enroscados com tanta força que a pele já estava ficando vermelha.

— Helena… — chamou, mais perto agora — chega…

Ela não escutava, não respondia.

Ana Alice chorava alto, o rosto já marcado, com algumas mechas no chão, tentando empurrar Helena com o braço livre, acertando golpes fracos, desesperados, mas constantes.

As duas estavam completamente grudadas.

Heitor não queria machucar Helena, então com cuidado puxou o braço de novo.

— Helê… — tentou, mais firme.

O corpo dela estava rígido, travado na raiva. Foi aí que ele entendeu. Não ia ser com jeito.

Ele soltou o ar com força e tomou decisão no impulso. Se ajoelhou ao lado delas e foi entrando com o corpo no meio, abrindo espaço à força, sem apoiar o peso em nenhuma das duas, mas empurrando o suficiente pra quebrar o encaixe.

— Para! — soltou mais alto.

No meio da confusão, levou um golpe perdido.

Depois outro.

Nenhuma das duas estava vendo mais nada.

Mas funcionou.

O movimento bagunçou a posição das duas, o puxão no cabelo cedeu por um segundo — e foi o suficiente.

Ele agarrou a Helena pela cintura com força, puxando pra trás.

— Chega!

Mas ela veio se debatendo.

Gritando.

— Eu vou matar ela! — a voz saiu rouca, tomada de ódio — eu vou matar essa desgraçada!

Ele levantou, praticamente arrastando ela para fora, os braços firmes ao redor da cintura dela, segurando o corpo que ainda tentava voltar.

— Helena! — chamou, mais alto agora.

Ela chutava o ar, tentava se soltar, xingava sem filtro nenhum, palavras que ele nunca tinha ouvido saindo dela daquele jeito, cuspidas, carregadas de tudo que estava preso.

Ele a levou até a varanda do quarto, afastando o máximo possível da outra.

Ali fora o ar era outro.

Mas ela ainda estava tremendo.

— Amor, calma… — disse, segurando firme, mas sem machucar, tentando conter sem esmagar — o que foi que aconteceu?

Heitor a colocou no chão achando que aquilo ia dar um segundo de pausa, mas Helena nem terminou de firmar os pés e já girou o corpo, pronta para voltar para dentro do quarto como uma flecha solta. Ele reagiu no instinto, fechando os braços ao redor dela por trás e puxando de volta contra o próprio corpo.

— ME SOLTA, MONTEIRO!

Ela gritava com tudo, se debatendo de verdade, tentando sair, cotovelos batendo, o corpo inteiro tenso.

— Tô aqui, amor… — ele falou perto do ouvido dela, segurando firme sem machucar — respira…

— RESPIRAR? VOCÊ NÃO SE INTROMETE!

A voz dela vinha rasgada, carregada de uma raiva que ele nunca tinha visto daquele jeito. O peito dele apertou, mas ele não soltou. Se soltasse, ela voltava.

— Heitor! Essa mulher é um animal! Olha o estado da Ana Alice! Coitadinha!

A voz veio de trás, cortando o momento. Ele virou o rosto só o suficiente para ver Adriana parada na porta da varanda, com aquela cara de indignação que, naquele momento, só piorava tudo.

— SUA PIRANHA! AGORA É A SUA VEZ!

Helena tentou se lançar de novo, o corpo todo indo pra frente, mas Heitor travou o movimento com o próprio peso, puxando ela de volta contra o peito dele.

A mandíbula dele endureceu.

Com um braço segurando Helena firme, ele estendeu o outro, apontando direto pra porta.

— Puta que pariu… deixa a gente!

Adriana ainda resmungou alguma coisa, mas o tom dele não deixava espaço. Ela acabou recuando, sumindo da porta para atrás das cortinas.

Heitor voltou a atenção pra Helena na mesma hora, apertando o abraço um pouco mais, sentindo o corpo dela ainda vibrando de raiva, tentando sair, tentando voltar.

— Me solta! — ela insistia, mais fraca agora, mas ainda lutando.

Ele manteve até sentir a mudança.

O corpo dela parou de reagir com a mesma força. A respiração ainda pesada, mas já sem aquele impulso de ataque.

— Me solta… vai… — a voz veio quebrada, baixa, chorosa.

Aquilo quebrou o coração dele em pedacinhos.

— Helena… — ele falou mais calmo, segurando ainda, mas já mais leve — eu solto… mas me promete que vai falar comigo antes, tá?

Ela não olhou pra ele, mas assentiu.

Heitor afrouxou o braço com cuidado, soltando aos poucos, ela foi se virando ficando de frente a ele. O olhar dele correu pelo rosto dela no mesmo instante — arranhões no pescoço, marca na bochecha, o cabelo bagunçado, fios grudados no suor.

E aquilo… desmontou ele por dentro.

Os olhos dela estavam cheios de lágrima, mas não era tristeza.

Era raiva pura.

Ele levou as mãos ao rosto dela, segurando com cuidado.

— Isso é inaceitável… — começou, com a voz mais firme — eu não vou deixar ninguém—

Helena se soltou, foi mais para debaixo do beiral e começou a andar de um lado para o outro. A mão no rosto e a respiração pesada.

— Que ódio… — murmurava, pra si mesma, como se precisasse tirar aquilo de dentro.

Ver Helena machucada daquela forma, era pior do que se tivessem batido na cara dele. Ana Alice ultrapassou todos os limites e havia se comparado ao Antônio. Heitor não a deixaria sair impune.

Heitor puxou o celular do bolso no automático.

— Vou chamar a segurança… vou tirar aquela mulher daqui agora—

— Espera… — Helena cortou, soltando o ar.

Ele parou.

Olhou pra ela.

Ela levantou o rosto, puxou o ar fundo, passou a mão pelos cabelos, tentando afastar os fios grudados na pele.

— Heitooor…

A voz veio de trás, arrastada, doce demais, falsa demais.

Ele não pensou.

Deu dois passos rápidos e já se colocou na frente da Helena, o corpo fechando o espaço entre as duas, protegendo sem nem olhar pra trás primeiro.

— Ana Alice, chega. — ele disse virando o corpo no mesmo lugar, olhando para Ana Alice.

O estado dela era ruim. Rosto marcado, cabelo completamente embolado, olhos vermelhos de choro.

— Você tá descontrolada. Amanhã você vai receber uma ligação dos meus advogados. — a voz saiu fria e sem espaço pra negociação.

— Mas ela que me bateu! — Ana Alice chorava, a voz tremendo — você vai defender essa delinquente? Eu preciso de um médico!

Heitor franziu o cenho por um segundo. Mas não abriu espaço.

Atrás dele, Helena já se movia de novo.

— Vou te mostrar quem é delinquente, sua piranha—

Ele estendeu o braço pra trás, segurando ela sem nem olhar, mantendo ela atrás do corpo dele.

— Para de falar com a Helena assim. Já passou do limite.

E então as outras voltaram.

Adriana e a outra — a noiva do Plínio — surgiram de novo na porta, cheias de indignação.

— Heitor, essa mulher agrediu a Ana Alice! Olha o estado dela!

As vozes começaram a subir de novo, uma por cima da outra, xingamento cruzando o ar, tensão voltando a crescer rápido.

Ele respirou fundo.

E cortou.

— CHEGA!

A voz dele bateu no ambiente.

Alta.

Firme.

Autoritária.

O silêncio veio na hora.

— Nada que venha da Ana Alice eu confio. — disse, olhando uma por uma — e vocês duas estão no meio disso.

— Heitor, essas piranhas estavam incentivando a Ana Alice a tentar ficar com você! — Helena disparou atrás dele, ainda tomada pela raiva.

Ele arregalou os olhos.

Aquilo ele não esperava.

Mas o corpo dele não mudou de lugar.

— Eu não esperava isso de mulheres da classe de vocês. — voltou o olhar para as duas — saiam daqui agora. E não abram a boca pra ninguém sobre isso.

O tom caiu.

— Ou eu vou ter um papo reto com o Plínio e com o Oscar.

As duas se entreolharam, ainda irritadas, ainda querendo falar… mas não falaram.

Resmungaram baixo e saíram.

Deixando o quarto finalmente em silêncio.

Agora os três estavam na varanda.

O ar ali fora era mais fresco, mas não aliviava nada. A tensão ainda estava grudada na pele, pesada, densa, como se o que tinha acontecido lá dentro tivesse seguido junto.

Heitor passou a mão pelo rosto, soltando um suspiro mais longo, tentando organizar aquilo na cabeça.

— Isso é problema de família… — disse, já puxando o celular do bolso — vou ligar pro Isaac.

Nem terminou direito de abrir a tela e a voz veio, rápida.

— Por favor, Heitor… não liga pra ele.

Ana Alice falou com urgência, quase implorando, o corpo ainda tremendo, o rosto marcado, os olhos inchados.

Mas Helena não deixou nem um segundo de silêncio.

— Liga, Heitor!

Ela saiu de trás dele de uma vez, e ele teve que estender o braço na frente, barrando o avanço dela sem tirar o corpo da posição de proteção.

— Sabe por que ela não quer que você ligue? — a voz veio carregada, ferida — porque ela tava aqui tramando ficar com você!

Heitor virou o rosto lentamente para Helena, os olhos brilhando com curiosidade e algo a mais, algo que ele não fez questão de esconder completamente.

— E vocês brigaram por isso?

Helena não pensou.

— Foi porque essa puta tá querendo você!

A frase saiu no impulso e assim que terminou de falar, seus olhos baixaram na mesma hora, a respiração travando por um segundo, como se tivesse percebido o quanto tinha se exposto ali.

E foi ali que algo se encaixou dentro dele.

Heitor ficou surpreso, então aquele era motivo. Helena… com ciúmes. Helena perdendo o controle por causa dele.

Aquilo acendeu um orgulho quente no peito dele, quase vaidoso. Era como se, no meio do caos, ele tivesse ganhado alguma coisa.

Ele não era do tipo que fazia ciúmes, achava isso ridículo. Mas Helena, defendendo o que era dela… ele. Isso era diferente. Isso o fazia se sentir estranhamente satisfeito, porque, no fundo, ele também conhecia — e sentia — aquele mesmo tipo de ciúme.

Ele precisou se segurar para não sorrir.

Levou a mão à boca, pigarreando, disfarçando. Mas o brilho nos olhos traía o quanto ele estava, no fundo, satisfeito. Gostava da ideia. Gostava mais do que deveria.

— Vou chamar o Isaac e a gente resolve isso direito — disse, assumindo um tom firme.

Por fora, postura impecável.

Por dentro, reluzente.

— Helena é minha noiva e mãe do meu filho. Eu não tolero que ninguém desrespeite ela.

Ana Alice soltou um som frustrado, quase choroso.

— Mas ela que me bateu!

— Você que tava espalhando que ia ficar com o Heitor hoje! — rebateu Helena.

Heitor não respondeu nenhuma das duas.

Já estava discando.

Levou o celular ao ouvido, o olhar distante por um segundo, tentando manter o controle daquela situação que já tinha saído demais do lugar.

Chamou.

Chamou de novo.

E então a ligação foi atendida.

— Fala, Heitor— a voz de Isaac veio do outro lado, despreocupada, ainda no clima do pós jogo.

— Moleque, consegue vir onde eu tô? Deu uma treta aqui.

Do outro lado, a resposta veio imediata, mais tensa:

— Que tipo de treta? A Helena tá bem?

Heitor lançou um olhar rápido para ela. Ela

— Tá… — respondeu, contendo um leve sorriso. — Mas vem pra cá. Nem eu tô entendendo direito. É entre ela e a Ana Alice.

— Ana Alice? Como assim?

Heitor passou a mão no rosto, já impaciente.

— Só vem, cara. Lado norte, vai seguindo os corredores infinitos… a gente tá num quarto aberto.

Houve um breve silêncio.

— Porra, Heitor… por que você tá num quarto com a minha namorada?

Ele soltou um sopro pelo nariz, segurando a irritação.

— Não é nada do que você tá pensando. Para de viajar e vem logo.

Do outro lado, Isaac suspirou, claramente contrariado.

— Tô indo.

Heitor desligou.

Enquanto esperavam, o clima não acalmou de verdade. Bastava um olhar atravessado para recomeçar. As duas ainda trocaram farpas, curtas e afiadas, misturadas com choramingos e acusações jogadas no ar. Em mais de um momento, Helena avançou de novo, e Heitor precisou segurá-la pela cintura, puxando para trás, mantendo o corpo dela colado ao dele para impedir que voltasse para cima de Ana Alice.

Ele não sabia o que tinha sido dito. Não sabia exatamente o que levou àquele ponto. Mas uma coisa estava clara demais: alguém tinha ultrapassado um limite sério com a Helena.

Porque aquilo não era o perfil dela.

Helena sempre discutiu, sim. Sempre foi intensa, firme, não levava desaforo. Mas era na palavra. No olhar. Nunca na mão.

Para ela ter chegado ali, alguma coisa tinha saído completamente do aceitável.

E piorava quando ele olhava para o rosto dela.

A bochecha já começava a inchar, os arranhões marcando a pele, o pescoço vermelho.

Aquilo o irritava.

Muito.

Era horrível ver a sua mulher daquele jeito.

No jantar quando ele foi firme com Ana Alice, achou que ela tinha entendido que ele era da Helena. Já tinha passado por algo parecido antes. Quando precisou colocar limites na Marcela, resolveu na conversa. Foi direto, claro, e ela entendeu. Por isso fez o mesmo com a Ana Alice.

Ele podia estar adorando saber que Helena o defendeu, mas ele nunca fez nada e nem se colocava em situações que pudesse despertar ciúmes nela, achava que quem fazia esse tipo de coisa era infantil e ainda acha.

Quando a voz do Isaac finalmente surgiu dentro do quarto, Heitor soltou o ar sem nem perceber que estava prendendo.

— Estamos aqui. — a resposta do Heitor saiu mais alta.

Heitor percebeu a mudança na hora em Ana Alice. O corpo dela cedeu de um jeito teatral. Os ombros caíram, o rosto desmanchou e o choro veio forte e alto.

Heitor sentiu o canto da boca querer subir, não de humor, mas de incredulidade. “Não é possível”, pensou ele.

Isaac atravessou as cortinas rápido, ainda no ritmo despreocupado de quem não fazia ideia do que ia encontrar… até olhar para Helena. O rosto dele mudou na hora. Os olhos arregalaram ao ver os arranhões, o inchaço, o estado dela. Mas antes que dissesse qualquer coisa, Ana Alice se jogou nos braços dele.

Isaac a segurou no reflexo, sem entender direito o que estava acontecendo. Ele ainda olhava por cima do ombro dela, tentando montar o cenário — Helena machucada, respirando fundo, com o rosto marcado; Heitor tenso, ainda com a adrenalina da briga no corpo; e Ana Alice chorando como se fosse a vítima da história.

— Amor… quem fez isso com vocês? — ele perguntou, confuso, passando a mão pelos cabelos dela.

O olhar dele acabou parando em Heitor

Não foi brusco, mas foi claro. O corpo ficou mais firme, o peito abriu, o tom deixou de ser só preocupado.

— Quero uma explicação, Monteiro. E rápido.

Heitor não gostou do tom do Isaac. Mas antes que ele respondesse, Helena entrou.

— Fui eu que bati nela.

A frase saiu limpa, sem desculpa, sem tentativa de suavizar.

Isaac se afastou um pouco de Ana Alice, olhando para Helena como se não estivesse entendendo.

— O quê? Por quê?

— Eu não sei o que deu nela, amor… — Ana Alice disse entre lágrimas, apertando o braço dele — ela tá louca…

Helena deu um passo à frente.

E Heitor já ficou atento.

— Louca? Eu tô louca mesmo! E é de raiva! — a voz dela veio cheia, firme — essa mulher tá te usando! E tá querendo o Heitor!

Isaac soltou um riso curto, meio desacreditado.

— Isso ainda é sobre o jantar? — ele olhou rápido para Heitor, já decidindo a versão da história — já foi explicado. Foi um mal-entendido.

Heitor passou a mão pelos cabelos, já sentindo que aquilo estava indo para um caminho ruim. Sabia que precisava falar. Sabia que, se ficasse quieto, estava escolhendo um lado e não era o da Helena.

— Isaac, não teve mal-entendido. Ela tava flertando comigo.

Isaac virou de volta para ele, fechando o semblante.

— Não se atreve a inventar merda da minha namorada. Não vou tolerar isso.

— Caralho, Isaac… eu não tô inventando.

— Amor… eu não sei por que ele tá falando isso… — Ana Alice se encolheu mais contra ele, como se estivesse se protegendo.

Heitor olhou aquilo com irritação, mas segurou. Ele sabia que, se perdesse a linha, perdia Isaac de vez.

— Zac… me escuta… — Helena entrou de novo, tentando puxar ele de volta.

Ela apontava com os dedos enquanto falava, a respiração ainda acelerada.

— Eu ouvi. Eu tava procurando o Heitor e ouvi tudo. Ela, com aquelas duas, falando que o meu filho teve sorte de não ter minha cor… falando de você… falando dele… e ela mesma disse que hoje ele não escapava.

— Eu nunca falei isso, amor… você sabe… — levou as mãos ao rosto dele — eu tô com muita dor… a gente pode ir pro hospital?

Heitor percebeu a movimentação dela, a forma como puxava Isaac para sair dali, tentando encerrar aquilo antes que ele realmente escutasse.

Ele segurou a mão da Helena de leve.

— Helê… — falou baixo — deixa eu te falar.

Ela ainda estava tensa, mas assentiu.

— Essa é a nossa chance de tirar o Isaac disso. Eu sei que você tá com raiva… eu também tô. Mas a gente precisa falar claro. Sem emoção.

Ela soltou o ar forte.

— Ele não escuta…

— Ele vai ter que escutar. Você é irmã dele.

Ele apertou a mão dela de leve e notou ela se reorganizar por dentro.

Ela respirou fundo.

Uma vez.

Duas.

E quando falou de novo, estava mais controlada.

— Zac… eu sei que é difícil de acreditar… — disse, segurando o próprio impulso — a gente não quis te falar antes pra não te machucar. Eu te amo. Você é meu irmão.

Heitor entrou na sequência, sem deixar o ritmo quebrar.

— Isaac, eu te conheço desde antes de você nascer. Não tenho motivo nenhum pra mentir pra você. — olhou direto para o cunhado. — Eu sei exatamente o tipo da Ana Alice. Ela criou uma competição com a Helena na cabeça dela. Ela quer o que a Helena tem.

Isaac não respondeu, mas não foi embora. E isso já era alguma coisa.

— Ela flertou comigo. Mais de uma vez. — Heitor continuou, sem recuar — eu cortei. Fui direto. E contei pra Helena.

Atrás, Ana Alice puxava Isaac de leve, tentando tirar ele dali. Mas ele não foi, continuou ouvindo.

— Eu ouvi ela falando das partes íntimas do Heitor — Helena completou, mais firme agora — dizendo que tava à altura dele.

— Eu não tô abaixo de ninguém — Ana Alice respondeu, seca, já mudando o tom — foi isso que eu disse. As outras falaram das partes dele, eu não.

— Se toca! — Helena cortou — você disse que ele ia perceber hoje que tinha coisa melhor!

Ana Alice soltou o ar, como se estivesse cansada do assunto.

— Elas estavam falando do Heitor, tá? — virou para Isaac — eu quero ser aceita. Não quis arrumar briga. Só concordei por educação.

Isaac olhou para ela.

— Então você não defendeu o nosso relacionamento?

O silêncio dela durou segundos demais.

— Isaac… não existe chance de eu querer o Heitor… — disse, forçando uma risada leve — ele é velho, arrogante… não faz meu tipo.

Heitor não reagiu. Já tinha ouvido coisa pior, era normal denegrir a imagem dele quando não conseguiam o que queriam.

Mas Helena…

não deixou passar.

— Escuta aqui, sua sonsa… limpa a boca pra falar dele. Ele é um homem maravilhoso e o amor da minha vida.

A voz subiu de novo.

— Quer aprender de novo qual é o seu lugar?

— Tá difícil, né Helena? — Ana Alice respondeu, fria — se falam que ele é bonito você surta… se falam que não é, você surta também.

Virou para Isaac.

— Tá vendo?

Isaac olhou de um para o outro, claramente dividido, mas ainda resistindo a aceitar.

— Sinceramente, Helena… você devia ter vergonha — Ana Alice falou, limpando o rosto, mas já com o tom mais firme. — O Isaac finalmente tá construindo a vida dele e você vem aqui me acusar sem prova nenhuma. Eu amo o Isaac.

Ela olhou direto pra ele quando disse aquilo, segurando o olhar, como se precisasse ancorar ali.

— A gente precisa ir pro hospital… — continuou, a voz trêmula — eu preciso saber se tá tudo bem… porque… eu estou grávida.

Helena levou a mão ao rosto na mesma hora, como se aquilo tivesse sido um tapa.

Isaac não reagiu, ficou travado.

Heitor soltou um riso curto, desacreditado, passando a língua pelos dentes.

— Grávida de onde? — perguntou, direto, sem esforço nenhum pra suavizar — vocês não têm nem um mês direito juntos.

Deu um passo à frente, olhando de cima.

— Se isso for verdade… esse filho não é teu, Isaac.

Ana Alice arregalou os olhos, as lágrimas voltando com força.

— Como você ousa falar isso? — a voz veio mais alta, ferida — vocês já decidiram me odiar, mas não podem inventar esse tipo de coisa!

Heitor não recuou um centímetro.

— Não tô inventando nada. Tô fazendo conta. — falou, seco — quanto tempo vocês estão saindo? Três semanas? Um mês estourando?

Deu uma risada sem humor.

— O Isaac tem super esperma agora? E você já descobriu assim, rápido desse jeito? — balançou a cabeça — isso não é sinal… é sirene. É letreiro piscando: GOLPE.

Helena ainda estava absorvendo aquilo. A ideia de Isaac preso pra sempre a Ana Alice, por um filho, fez o estômago dela virar.

— O Isaac não faria isso — disse, firme, mesmo atordoada — eu tenho certeza.

Heitor soltou o ar pelo nariz, irritado.

— Pois é… que tipo de cara hoje em dia não se protege?

Helena virou o rosto pra ele na hora, lançando um olhar atravessado, Heitor era o menos indicado para falar sobre isso.

Isaac finalmente se mexeu.

Olhou de um para o outro, passando a mão no rosto, como se estivesse tentando reorganizar a própria cabeça.

— Eu preciso falar com a Ana Alice… — disse, mais baixo, mas sério — vocês podem dar um minuto?

Helena deu um passo à frente.

— Zac… você entendeu o que a gente falou? — a voz veio mais suave agora, mas carregada — eu sei que parece absurdo… mas é a verdade. Eu só quero o seu bem.

Isaac soltou o braço de Ana Alice devagar e caminhou até Helena. Parou na frente dela, mais perto, e deu um sorriso pequeno e cansado, mas ainda carinhoso.

— Eu entendi, Lelê.

Falou daquele jeito que só usava com ela.

Depois olhou para Heitor.

— Pode cuidar da minha irmã? Ela vai precisar de gelo.

Heitor entendeu ali que Isaac já tinha escolhido.

Ele não insistiu.

Passou a mão pela cintura da Helena, puxando ela de leve.

— Vem, amor… vamos cuidar disso aqui.

Helena ainda olhou para Isaac por mais um segundo, como se quisesse ter certeza de que ele realmente tinha escutado.

Depois assentiu.

— Tá… só toma cuidado.

Isaac respondeu com um aceno leve de cabeça.

Helena lançou um último olhar para Ana Alice — que agora evitava encarar qualquer um dos dois — e então saiu, deixando o quarto com Heitor ao lado.

A porta fechou.

E o que quer que fosse acontecer ali dentro…

já não estava mais no controle deles.

Assim que saíram do quarto, o corpo do Heitor reagiu antes de qualquer pensamento. Ele puxou Helena para si, envolvendo ela num abraço firme, daqueles que apertam mais do que o necessário, como se ainda precisasse ter certeza de que ela estava ali, inteira.

— Ainda bem que você tá bem… — a voz saiu mais baixa, mais próxima — eu fiquei preocupado pra caralho… na verdade, ainda tô. Tá doendo?

Helena se encaixou nele sem pensar, escondendo o rosto na camisa dele, sentindo o cheiro familiar que, naquele momento, acalmava mais do que qualquer coisa. Passou a mão devagar pelas costas dele, como se também estivesse tentando acalmar.

— Tá ardendo um pouco… — murmurou — mas doer, doer mesmo… não.

A bochecha queimava contra o tecido, pulsando leve, e aquilo lembrava ela de tudo de novo.

Heitor afastou só o suficiente para olhar o rosto dela melhor, o cenho franzido, avaliando cada marca com cuidado.

— Seu corpo ainda tá quente — disse, passando o polegar com delicadeza perto do arranhão — quando esfriar, você vai sentir mais. Vamos pegar um analgésico.

Ela assentiu em silêncio.

Mas não se mexeu.

Ficou ali por mais um segundo, presa naquele abraço, como se sair dali significasse encarar o resto.

— Quero ir embora… — falou por fim, mais baixo — a gente pode sair sem falar com ninguém?

Heitor entendeu na hora. O tom, o peso e o cansaço. Mas também viu mais do que aquilo.

Viu a culpa chegando.

Ela não falou, mas ele conhecia.

Helena tinha passado tanto tempo julgando ele e o Antônio … a violência, a falta de controle… e agora ela mesma tinha cruzado essa linha. E aquilo deveria estar a magoando.

Ele viu quando os olhos dela encheram.

— O que foi, Helê… — perguntou mais suave — tá preocupada com o Isaac?

Ela só assentiu, o queixo ainda encostado no peito dele.

E aquilo apertou nele também.

Mas, como sempre… ele não ficou só na preocupação.

A cabeça dele já estava funcionando.

— Sabe o que a gente pode fazer… — disse, com um leve tom diferente.

Helena levantou o rosto, limpando rápido os olhos, já desconfiada.

Ele sorriu.

Aquele sorriso.

— Lá vem você… — ela murmurou.

— A gente entra no quarto do lado… — ele se inclinou um pouco, falando mais baixo, conspiratório — e escuta.

Ela arregalou um pouco os olhos.

— Ninguém vai nem perceber.

Helena ficou olhando pra ele.

Tentador.

Muito.

Mas…

Ela balançou a cabeça devagar.

— Monteiro… você é muito curioso. — soltou, com um resquício de humor — espero que o Humberto não puxe isso de você.

Ele segurou o riso, mordendo de leve o lábio.

— Já era. É minha mini cópia.

Ela acabou sorrindo.

Sem querer.

A tensão cedendo só um pouco.

Levantou a mão e apertou a ponta do nariz dele com cuidado.

— Coitada de mim então.

Heitor sorriu, inclinou o rosto e beijou a bochecha dela com carinho, bem perto do arranhão, com cuidado de não machucar. Depois entrelaçou os dedos na mão dela e começou a andar com ela pelo corredor, mais devagar agora.

— Chegando em casa… — ele soltou, com um tom mais leve — você me dá umas aulas.

Ela virou o rosto na hora.

— Aulas de quê?

Ele olhou de canto, com aquele ar provocador que voltava aos poucos.

— Porra, você bateu muito na Ana Alice… a mulher não teve nem chance.

Helena sentiu o rosto esquentar de vergonha.

— Para, Heitor… — disse, mais séria — o que eu fiz não foi legal.

Ele não respondeu na hora.

Deixou o silêncio existir.

Depois de alguns passos, apertou a mão dela de leve.

— Confia no Isaac… — disse, mais calmo — ele vai fazer o certo.

Helena respirou fundo.

— Espero que sim… — murmurou.