O CEO que Eu Paguei

177 Tudo Que Ainda Sou


Helena nunca foi o tipo de mulher que se derretia fácil. Marrenta, ranzinza e viciada em controle, sempre viveu para o trabalho. O que sentia era reservado, quase sempre trancado a sete chaves — e, se abrisse a boca, era para resolver um problema, não para falar de amor. Mas desde que Heitor entrou na vida dela, as coisas começaram a sair do eixo. Primeiro um desvio leve, depois um abismo. Hoje, olhando para ele ali, dormindo, com o braço enfaixado e o corpo coberto de curativos, ela já não se reconhecia mais. Heitor tinha o coração dela por completo, com todas as dificuldades que ela podia oferecer.

Pensou que fazia mais de uma semana que não colocava os pés no escritório. Dois dias apenas de trabalho no novo emprego — e lá estava ela, de licença informal, praticamente acampada no hospital. Helena riu baixo de si mesma. Em toda a vida, nunca tinha dado um atestado sequer. Sempre foi aquela funcionária que aparece até doente, que resolve o que for preciso, que não para. Agora, ali estava: faltando dias seguidos por causa do namorado. Nem marido era pra ela poder justificar com alguma formalidade. A sorte é que o “namorado” em questão também era o chefe — o dono da empresa e pai do filho que ela carregava. Pelo menos, dessa vez, ninguém podia reclamar.

Ainda assim, o pensamento a fez rir outra vez. Que loucura. Como as coisas mudaram. Há anos, trabalho era tudo o que importava; agora, era a última coisa na cabeça dela.

Naquela manhã, Helena saíra para caminhar um pouco enquanto Celina e Renato faziam companhia a Heitor. Precisava de ar, de um pouco de silêncio, de um espaço longe do bip constante das máquinas. Foi para um canto mais afastado do hospital e, hesitante, ligou o celular. Encarou os monstros.

Mensagens, comentários, publicações — todos falando dela. Julgamentos, mentiras, insultos. Gente que não a conhecia e mesmo assim se achava no direito de destruir sua reputação. Respirou fundo. Precisava controlar a raiva, ou o bebê sentiria tudo. Estava fragilizada demais para surtar, mas ainda assim, dentro dela, uma irritação crescia. Quase todos pareciam acreditar que ela tinha traído Heitor. Ridículo. Helena nunca o trairia. Não importava quem fosse — não existia espaço no mundo pra outro homem além dele.

Não chegou a assistir ao vídeo de Antônio no hospital, não apareceu para ela, — talvez fosse Deus poupando seus nervos. Mas bastou ler algumas manchetes para se lembrar de Ana Alice. Era o mesmo tipo de inveja, o mesmo veneno disfarçado de virtude. Gente que queria o que os outros tinham de bom, incapaz de se satisfazer com o próprio espelho. A inveja, pensou, era uma fome que nunca se sacia. E o pior castigo que se pode dar a um invejoso é ignorá-lo e continuar vivendo bem.

Com Ana Alice, ela aprendeu isso cedo. Sempre soube lidar com ela — ainda conseguia sentir uma certa simpatia, mesmo conhecendo os defeitos da mulher. Já Antônio… ele também tinha esse charme falso que engana por um tempo, até tocar no que é seu. E ele ousou tocar no homem dela.

As mentiras sobre ela eram absurdas, mas Helena conhecia bem o poder da reputação. Aprendeu observando os colegas de empresa e, depois, com o relacionamento exposto ao público. Heitor tinha enfrentado tudo sozinho quando revelou que estavam juntos. Agora seria diferente. Quando ele saísse do hospital, provavelmente tentaria fazer o mesmo — suportar calado, proteger ela e o bebê de tudo. Mas dessa vez, não. Helena não deixaria. Eles eram uma equipe. E agora, mexer com um, era mexer com o outro.

Pensou em Antônio e o sangue ferveu de novo. Ela não tinha o poder nem o dinheiro dele, mas isso não significava que ficaria de braços cruzados. De algum modo, ia se vingar. Ia deixar claro que ele jamais seria como Heitor.

Apagou todas as mensagens ofensivas. Algumas pessoas desconhecidas tinham descoberto seu número, e aquilo a deixava desconfortável. Respondeu apenas a quem realmente importava — as poucas pessoas que estavam do lado dela, Júlia e Hugo. Ligou para a avó, que estava confusa com tudo o que viu na televisão. Helena hesitou, mas acabou contando a verdade: estava grávida. Não era assim que queria dar a notícia, mas precisava. A reação de Dona Olívia foi uma surpresa boa. A avó suspirou, emocionada, dizendo que já sentia falta de crianças na família. Depois riu, com aquela sinceridade cortante de sempre: “Você é igual ao seu pai, menina. Não resistiu a uma pessoa branca.” Helena ficou sorrindo sozinha. Era a primeira vez que a avó a comparava com o pai e não com a mãe.

Dona Olívia gostava de Heitor, e mandou forças para a recuperação dele. Disse que ia rezar todos os dias. Helena quase contou que planejava ficar no Rio, mas se conteve. Essa seria uma conversa para depois.

Entre as centenas de mensagens, estavam também várias de Lorena. Helena respirou fundo e ligou para ela. Lorena estava preocupada, a voz doce e firme. Disse que não acreditava em nenhuma das mentiras e que ela e o marido estavam fazendo tudo que podiam para ajudar. Que ela sempre estaria do lado dela. Helena se sentiu acolhida de um jeito estranho — reconfortante. Lorena parecia o tipo de mulher que entendia o peso das coisas sem precisar que alguém explicasse. A fazia se sentir especial e importante. Helena chegou a convidá-la para ir ao hospital, mas Lorena recusou, dizendo que estava gripada. A desculpa soou estranha; a voz dela não parecia a de alguém doente. Ainda assim, Helena não insistiu.

Conversou por mensagens com Isaac — sempre gentil, cuidadoso, perguntando se ela estava bem. Descobriu que ele havia mandado alguém levar roupas novas para ela, o que foi uma bênção. Não queria incomodar Celina pedindo que buscasse coisas no apartamento. Isaac comentou que não iriam visitar por enquanto; Jonas estava “agitado”, e ele achava melhor não irem. Helena estranhou, perguntou o motivo, e ele desconversou: “Ele poderia estressar o Heitor.”

Mas a surpresa veio do próprio Jonas. Assim que ela ficou online, o telefone tocou. O nome dele piscou na tela. Atendeu com um sorriso, e logo se arrependeu. Jonas parecia em outro ritmo — falava sem parar, empolgado, dizendo que agora ela era a “irmã do meio” e que ele ia protegê-la. Ficou bravo quando ela disse que era mais velha que ele. “Você pode ser mais velha no papel, mas eu sou o irmão mais velho no dia a dia”, respondeu, ofendido. Disse também que estava preparando algo grande, que ela ia gostar muito. Helena riu. Jonas sempre fora uma mistura caótica de charme, infantilidade e insanidade. Ela gostava muito dele.

Depois, abriu as fotos que a cuidadora de Mel tinha enviado. A cachorrinha estava bem, linda e saudável, e aquilo a acalmou.

O melhor de tudo veio por último: uma matéria positiva sobre ela. Pela primeira vez em dias, alguém escreveu algo gentil, justo e humano. Helena sentiu o peito abrir. Talvez o mundo não estivesse completamente podre. E junto daquele texto, também haviam comentários bons e gentis.

Fechou as notificações, inspirou fundo e procurou no Google “festa de aniversário homem”.

Helena aproveitou que os repórteres pareciam ter se cansado. Já não havia câmeras na porta do hospital nem microfones a perseguindo pelos corredores. Talvez tenham percebido que não dá muito ibope filmar um homem dormindo com o braço enfaixado, pensou com um meio sorriso. Mal sabia ela que o motivo real era outro — os repórteres estavam ocupados cobrindo outro homem acamado, um que, por coincidência, receberia alta naquele mesmo dia.

Aproveitando a sorte, chamou um táxi. Digitou no celular “loja de festas” e clicou na primeira que apareceu no mapa. Passou o endereço para o motorista e recostou no banco, observando pela janela as luzes da cidade passando rápido, borradas pelo vidro.

O plano era simples: comprar algumas coisas e montar uma surpresa pequena. Amanhã seria o aniversário de quarenta anos de Heitor. Celina tinha cancelado a festa enorme que estava organizando — disse que remarcaría —, mas ainda queria fazer algo simbólico entre os quatro: Heitor, Helena, ela e Renato. Mesmo assim, Helena queria algo que fosse dela.

Não era uma mulher romântica, longe disso, mas sentia vontade de fazer algo importante para ele. Algo que mostrasse o quanto aquele homem significava pra ela. Afinal, eles já eram uma família. E, se o destino a tinha feito cruzar o caminho de Heitor Monteiro, então o mínimo que podia fazer era agradecer da forma que sabia: cuidando dele.

Os dias no hospital tinham sido estranhamente bons, mesmo entre os sustos, a preocupação e a exaustão. Heitor, mesmo machucado, ainda conseguia fazer com que ela risse. O bebê parecia mais tranquilo também — as náuseas tinham dado uma trégua, e ela gostava de imaginar que era porque o pequeno estava feliz de estar perto do pai.

Heitor falava com a barriga dela todos os dias, num tom grave e sereno, como se já conversasse com alguém que pudesse ouvi-lo. Às vezes, ela fingia dormir só pra escutar. Ele contava sobre o dia, fazia planos, prometia que iria levá-lo pra andar de kart, jogar futebol e o chamava de “meu campeão” ou “minha campeã”, porque ainda não sabiam o sexo. Aquilo derretia Helena de um jeito que ela não sabia explicar.

“Duas maritacas”, pensou, sorrindo sozinha. “Vai ser eu, ele e duas maritacas falantes dentro de casa.” E, pela primeira vez, a ideia soou boa. Sua vida nunca mais seria a mesma — e ela gostava disso.

O pensamento seguinte a pegou desprevenida: casar com Heitor.

Sentiu o rosto esquentar imediatamente. Ele já havia comentado sobre isso uma ou duas vezes, mas ela desviou do assunto. Casamento era coisa séria demais, pesada demais. Mas agora… com o bebê, com tudo o que eles estavam vivendo… será que Heitor realmente pensava nisso?

A lembrança da avó veio com força: “A mulher tem o poder do corpo, mas o homem tem o poder do casamento.”

Ela seria… Monteiro. Helena Monteiro.

O pensamento fez o coração dela bater mais rápido. O rosto queimou tanto que precisou passar as mãos, fingindo que se coçava, só para o motorista não reparar. Helena Monteiro. O som era bonito e forte, tinha peso. Nunca gostou do sobrenome Ribeiro — herança direta da mãe, uma lembrança constante de tudo o que ela quis deixar para trás e tudo que acreditavam que ela era. Já tinha cogitado tirar, mas nunca teve coragem. Parecia um peso que teria de carregar para sempre.

Mas agora… era diferente. Tinha uma nova vida crescendo dentro dela.

Mas agora, com uma nova vida crescendo dentro dela, com Heitor todos os dias ao lado dela, tudo parecia diferente. Aquele amor que a fazia querer ser melhor. Pela primeira vez, enxergava um futuro que parecia dela de verdade. Era como se finalmente tivesse uma chance de recomeçar. De ser outra. Não mais Helena Ribeiro, a filha de Lorena. Mas Helena Campos, filha de Henrique… e talvez, futura esposa de Heitor Monteiro.

A mão foi parar no rosto, cobrindo o sorriso. Ela estava rindo feito uma adolescente. Desde quando eu fiquei assim?

A resposta veio sozinha, seca e divertida:

— Desde que me meti com Heitor Monteiro.

O motorista olhou pelo retrovisor, curioso. Helena disfarçou com um pigarro, fingindo olhar o celular. As ruas passavam depressa — vitrines, padarias, um ponto de ônibus, o reflexo das luzes se misturando ao entardecer.

O coração dela estava leve, e pela primeira vez em muito tempo, o caos lá fora parecia pequeno. Tudo o que importava agora era chegar naquela loja e encontrar qualquer coisa que a ajudasse a mostrar o que sentia. Não precisava ser perfeito — só precisava ser verdadeiro.

Suspirou, recostando-se no banco, uma das mãos sobre a barriga.

— Vai ser só a gente. Eu, você e ele.

O bebê, é claro, não respondeu. Mas Helena jurava que poderia sentir que ele estava feliz com tudo aquilo.