O CEO que Eu Paguei
178 Parabéns, Amor
A loja era enorme. Helena não esperava por aquilo. Do lado de fora, parecia uma lojinha comum; por dentro, era um labirinto colorido de balões, prateleiras infinitas e papeis coloridos. Mal deu dois passos e já surgiu uma funcionária sorridente, com crachá e energia tão colorida quanto a loja.
— Posso te ajudar? — perguntou, animada.
Helena ajeitou a bolsa no ombro, um sinal claro do seu desconforto.
— Pode. Quero fazer uma festinha… — hesitou, baixando o tom de voz. — Pro meu namorado. Ele tá no hospital.
Os olhos da moça brilharam. — Ai, que lindo! Vai ser surpresa?
Helena assentiu com um leve sorriso.
— É. Amanhã é o aniversário dele.
— E o que ele gosta? — perguntou a atendente, já pronta pra mergulhar nas prateleira.
Helena mexeu distraidamente na aliança.
— Ele ama futebol. E… — pensou um pouco — também gosta muito de carros. Tem uma coleção deles.
— Perfeito! — disse a mulher, empolgada. — Vem comigo, vou te mostrar umas opções.
Andaram pelos corredores cheios de caixas de balas e doces coloridos. Helena não pôde deixar de se impressionar com a quantidade de coisas. Cada prateleira parecia um universo diferente. Passaram por um corredor todo decorado de Natal, e ela parou por um instante. As luzes vermelhas, verdes, azuis e amarelas piscavam. Só então se deu conta de como o ano tinha passado rápido.
No início daquele ano, no próprio aniversário, ela tinha feito um único pedido: ser feliz. E, de alguma forma, por mais caótica que sua vida estivesse, esse desejo tinha se realizado. Não do jeito que imaginou — nunca é. Pensava que seguiria só com a avó, talvez sendo contratada pela Monteiro Inc um dia, ganhando um bom salário. O sindicato do Rio de Janeiro garantia isso, afinal. Nunca pensou em sair da sua cidade natal, muito menos em se apaixonar e nem cogitou em ter um filho.
Mas agora… estava ali, comprando decorações pra um homem que virou o centro do seu mundo.
A voz da atendente a trouxe de volta:
— Olha esse kit aqui! É do Carros, aquele desenho infantil, sabe?
Helena franziu o cenho, olhando o carrinho vermelho sorridente na embalagem.
— Não tem nada mais… adulto?
— Adulto tipo o quê? — perguntou a moça, confusa.
— Sei lá… aquele careca que corre com os carros.
— Careca?
— É, o careca do filme! Aquele careca famoso, dos carros!
A mulher ficou pensativa.
— Velozes e Furiosos?
— Isso! — Helena ergueu o dedo, vitoriosa. — Esse mesmo.
A atendente riu, balançando a cabeça.
— Desculpa, moça. Desse a gente não tem. Só esse dos carrinhos mesmo.
Helena suspirou. Claro. Só faltava isso — o aniversário do homem mais elegante do país com tema do Relâmpago McQueen. Reparou em algumas mães comprando o mesmo kit e pensou que, se tivesse um menino, provavelmente seria ela daqui a alguns anos, discutindo sobre a cor do balão e as bandeirinhas de ‘chegada’. Olhou para o carrinho vermelho estampado e riu sozinha. A gente se vê daqui a um tempo, McQueen.
— Tem uns kits de futebol ali na frente — disse a funcionária, puxando-a adiante. — Qual é o time dele?
— Fluminense — respondeu Helena.
Elas seguiram até a seção esportiva, passando por corredores com temas de super-heróis, unicórnios e festas engraçadas. Helena olhava tudo com curiosidade e uma pontinha de constrangimento. Nunca tinha se visto naquele papel — de mulher apaixonada escolhendo papel de parede temático e enfeite de mesa.
Os kits do Fluminense estavam todos empilhados: bandeirinhas, copinhos, guardanapos e mini faixas. Tudo simples, até meio bobo, mas com as cores certas. Helena suspirou. “Parece festa de criança”, pensou.
Ela analisava as peças tentando imaginar o quarto do hospital. Não podia levar bexigas — não teria tempo de encher. Então faria algo simples, só com as cores do time enfeitando as paredes. A surpresa da revelação da gravidez tinha sido mais fácil que aquilo.
Acabou comprando o kit e tudo o que a atendente sugeriu: toalhas, plaquinhas, mini bandeirinhas e até uns confeitos. Queria fazer bonito.
Depois, foi andando até uma confeitaria próxima que viu pela vitrine. O cheiro doce a guiou pra dentro. Lá, explicaram que tinham bolos prontos e que podiam personalizar na hora se a decoração fosse simples. Helena escolheu um de prestígio, o preferido de Heitor, mas ela ficou tentada em pedir de abacaxi, o sabor favorito dela. E pediu que colocassem o escudo do Fluminense.
Pra sorte dela, o time era um dos grandes do Rio, então já tinham decorações prontas. Enquanto esperava, observou a confeiteira escrever “Heitor” numa plaquinha de açúcar e sorrir.
— Esse nome é muito popular — comentou a mulher. — Tem muito “Heitorzinho” fazendo um aninho.
Helena riu.
— É… o meu já faz quarenta.
Elas riram juntas. A confeiteira ainda colocou uma plaquinha de “40 anos”, e o bolo ficou pronto — pequeno, bonito e absurdamente caro. Helena piscou diante do valor, quase bufou, mas passou o próprio cartão mesmo assim. “Não é justo o Heitor pagar o próprio bolo.”
Voltou para o hospital exatamente no horário em que ele estaria fazendo os exames. O destino parecia conspirar a favor. E, por um milagre ainda maior, o hospital autorizou a pequena comemoração — até se ofereceram para ajudar na decoração. Mas Helena recusou.
Ela queria fazer aquilo sozinha.
Escondeu tudo no armário do quarto, inclusive o bolo, fechando a porta do móvel que ninguém usava.Fechou a janela e ligou o ar condicionado. Olhou para a bagunça disfarçada de planejamento e sorriu satisfeita.
— Missão quase cumprida, Monteiro. — murmurou, fechando o armário.
Quando Heitor voltou para o quarto, veio todo manhoso, como sempre. Tinha aquele ar de vítima irresistível, a voz rouca, o olhar de quem queria colo.
— Você sabe que eu não consigo melhorar sem você, né? — murmurou, jogando charme descarado. — Você sumiu o dia inteiro. Fiquei tão sozinho…
Helena puxou a orelha dele de leve, rindo.
— Para de drama, Monteiro. — e ainda mostrou a língua, só pra provocá-lo.
Ele riu baixinho, e o sorriso que se formou no rosto dele era um perigo. Aquele sorriso safado, preguiçoso, que ela já conhecia bem.
— Tô com calor… — disse, arrastando as palavras. — Acho que preciso de ajuda no banho.
Helena cruzou os braços, fingindo indignação.
— Aham. Até parece. Você só me chama pra isso.
— Claro que não. — ele rebateu, rindo. — Eu também te chamo pra… conversar.
— Conversar, né? — ela retrucou, arqueando a sobrancelha.
Heitor suspirou teatralmente, o olhar ainda travado nela.
— Helena, minha fisioterapia não vai evoluir sozinha. Você não quer ver o papai do seu filho em forma de novo?
Ela soltou um “tá bom, tá bom” e revirou os olhos, mas o canto da boca já denunciava o sorriso. A verdade era que ele não deixava ninguém ajudá-lo, muito orgulhoso pra isso. Só a chamava quando queria tentar alguma gracinha — e ela sempre fingia que caía.
Não conseguiam ir muito longe, por causa dos ferimentos, mas bastava um toque. A mão boa dele parecia ainda mais hábil do que antes, o jeito que deslizava do seio, pela barriga até o meio das pernas dela. Os dedos grossos que afastaram seus grandes lábios e a acariciava, até a invadirem enquanto a voz dele falava as safadezas de sempre. A postura dele dizia tudo — o quanto sentia falta dela, o quanto ainda era ele, mesmo ali. Às vezes, aquele toque era o suficiente pra ela esquecer onde estavam.
Nas últimas noites, ele insistia pra que dormisse ao lado dele, na cama estreita demais pros dois. E, claro, ele dava um jeito — abraçava, puxava, prendia a mão dela até ela desistir. Dormiam assim, espremidos, como dois adolescentes apaixonados.
Levaram uma bronca feia quando os enfermeiros os encontraram juntos de manhã. Helena ficou vermelha de vergonha; Heitor, nem um pouco arrependido. Depois disso, ela arrastou a poltrona pra perto da cama, e foi o máximo que o hospital permitiu. Heitor dizia que não havia câmera, eles podiam ainda ficar deitadinhos, mas dessa vez Helena não cedeu.
Mesmo assim, todas as noites ele esticava a mão boa até encostar nela — na barriga, no braço, no ombro… e, às vezes, até onde não devia.
— Heitor! — ela sussurrava, tentando parecer indignada.
Ele fingia dormir, mas o sorrisinho no canto da boca o entregava e ele a olhava.
Quando Helena olhava pra ele assim, deitado, com o cabelo um pouco bagunçado e aquele olhar azul que parecia enxergar só ela, sentia algo que nem sabia nomear. Era como se, pra ele, ela fosse o mundo inteiro. E, ela precisava ser sincera, ela amava essa sensação.
Helena fingiu que dormia, sentindo a mão boa de Heitor repousar com naturalidade sobre a barriga dela. A mão era pesada e quente. Ele sempre dormia assim — como se precisasse sentir que ela e o bebê estavam ali, perto dele. Esperou mais alguns minutos, observando o peito dele subir e descer devagar, até perceber que ele tinha apagado de vez.
Sorriu sozinha. “Tomara que nosso filho puxe a você”, pensou, ajeitando o travesseiro para apoiar o braço dele. Soltou o ar num sopro cuidadoso e começou seu plano.
Queria ser a primeira a dar parabéns a ele.
Levantou devagar, os pés descalços no chão frio do quarto. Ligou a luz do banheiro e deixou a porta entreaberta, criando uma penumbra suave no quarto. Aquele brilho branco servia de guia. Tirou, uma a uma, as sacolas escondidas dentro do armário — os panos, as faixas, o kit do Fluminense que ela mesma achava meio cafona, mas agora parecia perfeito.
Estendeu o pano com as cores do time sobre a mesa lateral, ajeitou a bandeirinha torta de fábrica que insistia em cair, e pendurou outra na cabeceira da cama, tentando equilibrar o adesivo que não colava direito, torcendo para não despencar na cabeça dele. Em certo momento, soltou um pequeno suspiro. “Decorar não é pra mim”, murmurou, rindo baixinho.
Mas mesmo desajeitada, fazia tudo com cuidado. Cada pequeno detalhe, cada cor posicionada, cada símbolo do time era colocado com um carinho tão sincero que transformava aquele quarto branco em algo quase acolhedor.
Quando terminou, foi buscar o bolo no armário. Quase prendeu a respiração de alívio ao ver que ele ainda estava inteiro. O chantilly parecia um pouco derretido, mas ia ter que dá para o gasto, ela espetou mesmo assim as velinhas, ajeitando como podia. Deu um passo pra trás e observou o resultado. Estava simples, mas bonito. E o mais importante: era feito por ela.
Faltavam dois minutos para a meia-noite, o dia 12.
Helena olhou para ele, ainda dormindo, ele tinha aquele semblante tranquilo que ela tanto amava. O coração se apertou. Como alguém podia amar tanto uma pessoa assim?
— Heitor… — chamou baixinho, se aproximando da cama.
Ele se mexeu, soltando um gemido preguiçoso.
— Hm… o que foi? — murmurou, a voz rouca.
— Acorda um pouquinho. Tenho uma coisa pra te mostrar.
Ainda de olhos fechados, ele sorriu de canto.
— É a chupadinha noturna, finalmente?
Helena riu alto, tampando a boca com a mão pra não acordar o hospital inteiro.
— Para de besteira, Idiota!
— Então o que é? — ele abriu um olho, sonolento, ainda meio confuso. — Você tá sentindo alguma coisa?
— Não. — respondeu com ternura. — Só acorda.
Ele levou a mão ao rosto, tentando espantar o sono. Helena aproveitou e saiu rapidamente, indo até o cantinho onde o bolo esperava. Acendeu as velas, que começaram a tremular, iluminando o quarto com pequenos pontos dourados.
Quando ele finalmente olhou na direção dela, a cena o desarmou completamente: Helena, com aquele seu cabelo rebelde, o avental improvisado do Fluminense amarrado à cintura, segurando o bolo com as velas acesas e um sorriso tão lindo que parecia brilhar mais que as chamas.
— Surpresa! — ela disse, erguendo o bolo com orgulho.
Heitor piscou algumas vezes, atordoado e feliz.
— Você tá brincando…
Ela riu.
— Parabéns, amor.
Ele se endireitou devagar, com cuidado para não mexer demais o braço, mas o sorriso dele era puro encantamento.
— Eu… eu não esperava por isso.
— Eu sei. — ela respondeu, já começando a cantar. — Parabéns pra você… nesta data querida…
A voz dela era baixinha, suave, mas cheia de emoção. Heitor acompanhava com o olhar, bobo, apaixonado, até o fim da música. Quando ela terminou, ele se inclinou pra frente, ainda rindo, e soprou as velas.
— Faz um pedido — disse Helena.
Ele manteve o olhar nela, os olhos azuis fixos e apaixonados, e respondeu num tom baixo:
— Já fiz.
Ela sorriu, sem saber o que dizer. Se aproximou, apoiou o bolo na mesinha e segurou o rosto dele com as duas mãos.
— Parabéns, amor. Queria te desejar o primeiro feliz aniversário do dia. Eu sou muito grata por ter você comigo. Por termos nos conhecido. Por estarmos juntos. — a voz dela vacilou um pouco, mas o sorriso permaneceu. — Você é a pessoa mais importante da minha vida. E fico feliz de saber que a nossa família começa com você.
Heitor encostou a testa na dela, o olhar sereno.
— E eu fico feliz de começar a minha nova vida com você.
Helena fechou os olhos, e o beijo veio simples, leve, cheio de amor. O quarto do hospital, decorado de verde, grená e branco, cheirando a bolo de prestígio, parecia de repente o lugar mais bonito do mundo.
Helena acendeu a luz do quarto, meio receosa, achando que a decoração ficaria brega demais sob claridade. Mas Heitor, assim que viu, abriu um sorriso largo — daqueles que iluminam até as paredes brancas do hospital.
— Meu Deus… — ele riu. — Você fez tudo isso?
— Eu tentei, né? — respondeu, cruzando os braços e tentando conter o riso. — Se disser que tá horrível, vou fingir que não ouvi.
Heitor balançou a cabeça, rindo.
— Tá perfeito.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Perfeito? Duvido que você ache essa bandeirinha do Fluminense bonita.
— Eu acho tudo bonito quando é você quem pendura. — respondeu sem pensar, com aquele tom simples e sincero que a desmontava.
Helena tentou disfarçar o sorriso, mexendo no cabelo.
— Tá, chega de charme. Vamos cortar o bolo antes que ele acabe de derreter.
Pegou uma espátula e colocou nas mãos dele.
— O aniversariante corta o bolo.
Heitor olhou para o braço enfaixado e ergueu uma sobrancelha.
— Pra nossa sorte, sou canhoto. — E piscou.
Ela riu, balançando a cabeça.
— Claro que é.
Ele se levantou devagar, ainda um pouco rígido, mas firme o suficiente pra ir até ela. Chegou por trás, passou a mão pela cintura dela e se encostou, aquele toque quente e familiar que sempre a fazia esquecer o mundo.
— Vamos cortar juntos. — murmurou, guiando a mão dela sobre a dele.
— Que besteira, Heitor. — ela resmungou, mas sem se afastar.
— É tradição, Helena. — insistiu, com aquele sorriso de quem nunca perdia uma provocação. — Tradição a partir de agora.
Ela suspirou e cedeu. Cortaram o bolo juntos, os dois rindo quando o glacê grudento colou na faca e quase tombou o pedaço.
— Ótimo trabalho em equipe — ele disse, rindo.
— É, mas eu ainda corto melhor sozinha. — retrucou.
— Isso é o que você acha.
— Isso é o que eu sei. — respondeu, rindo, e ele aproveitou pra beijar a bochecha dela, lento, demorado, o suficiente pra fazê-la perder a linha de raciocínio.
Helena colocou um pedaço no pratinho com uma colher pequena, se virou com cuidado, não queria trombar como dias atrás no braço direito dele e estragar o clima. Ficaram frente a frente, próximos demais. O ar entre eles era leve, mas cheio daquela familiaridade boa, de quem se ama sem pressa. Ele a olha por cima e abaixou um pouco o tronco para se aproximar mais dela.
— Pronto, agora você entrega o primeiro pedaço. — disse ela, estendendo o prato e o fazendo se endireitar.
Heitor sorriu, franzindo a sobrancelha como se achasse ousado o tom dela.
— Ah, é assim agora? Dando ordens pro aniversariante?
— Sempre dei. — ela rebateu, divertida. — E você sempre obedeceu.
Ele segurou o prato com a mão boa, olhando pra ela. O olhar demorou e Helena o conhecia o suficiente pra saber que ele estava preparando algo.
— Helena… — começou, com a voz baixa. — Você é o meu dia especial. Desde o primeiro “não” que me deu.
Ela não conseguiu segurar a cara amarrada; o sorriso veio sozinho.
Heitor olhou pro bolo, como se pensasse alto, e falou quase num sussurro:
— Quarenta anos… e eu achando que já tinha vivido de tudo. Mas aí você apareceu.
Helena sentiu o coração bater diferente. O tom dele não era brincadeira, era de verdade pura.
— Tudo o que eu achava que era importante — continuou ele — luxo, negócios, rotina… de repente não significou nada.
Levantou o olhar, fixando nos dela.
— Esse pedaço é seu. Porque se não fosse você, Helena, eu nem estaria soprando vela hoje. Você me tirou do abismo, me ensinou a respirar de novo.
Ela abriu a boca pra responder, mas a voz não saiu.
— E pode rir de mim, mas o homem que eu virei depois de você… é o que eu sempre quis ser.
Heitor deu aquele meio sorriso que era a marca registrada dele — seguro, encantador, mas com o coração inteiro exposto.
— Então, parabéns pra mim… por ter encontrado você.
Helena sorriu, emocionada, segurando o riso e as lágrimas ao mesmo tempo.
— Idiota. — murmurou. — Mas meu idiota favorito.
Ele deu de ombros, aproximando o prato.
— Então aceita logo o pedaço, antes que eu coma tudo.
— Nem pensa. — ela respondeu, dando uma risadinha.
Eles comeram o bolo devagar, rindo entre uma colherada e outra. Helena cortava os pedacinhos pequenos, e Heitor, todo manhoso, abria a boca como se fosse uma criança. Usando o braço de desculpa, para Helena já era uma desculpa esfarrapada demais.
— Tá ótimo — disse ele, a voz embargada de riso.
— Não foi da melhor confeitaria do Rio, mas as coisas lá pareciam gostosas. — respondeu, fingindo seriedade.
— Eu compraria lá. — Ele piscou. — Todos os dias.
— Duvido. Você é exigente demais. — retrucou, limpando um restinho de glacê no canto da boca dele com o polegar.
Heitor mordeu o sorriso, os olhos azuis brilhando.
— Eu só sou exigente com o que não amo. E eu amo você.
Helena balançou a cabeça, tentando conter o riso.
— Para com isso, Monteiro, antes que eu coma o resto do bolo sozinha.
Quando terminaram, ela respirou fundo e pegou o envelope que estava escondido no vão da poltrona. O papel branco simples contrastava com o vermelho da fita que ela mesma havia amarrado.
— Eu não sei o que um cara como você ainda pode querer de aniversário — começou, um pouco sem graça, estendendo o envelope — mas isso aqui, eu sei que vai gostar.
Heitor arqueou a sobrancelha, curioso.
— Tem certeza?
— Absoluta. — respondeu, tentando manter a pose.
Ele abriu devagar com a mão dela ainda segurando o envelope, puxou o pequeno papel que estava dentro. Bastou um olhar para o sorriso se abrir de orelha a orelha.
Helena já ficou vermelha antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa.
— Não começa viu, Heitor. — avisou, cruzando os braços.
Ele ergueu o papel entre os dedos, a ponta da língua passando distraidamente pelos lábios enquanto lia.
— Um “voucher que vale você fazer tudo que eu quiser, a ser resgatado à qualquer momento após a alta”?
— Era pra ser engraçado! — ela se defendeu, rindo nervosa. — Não era pra você levar a sério.
Heitor se recostou no travesseiro, o sorriso agora abertamente malicioso.
— Ah, mas eu levo tudo que vem de você muito a sério. Na imaginação eu já fiz cada coisa com você e agora finalmente da imaginação à realidade. — balançava o voucher como se fosse o bilhete dourado.
— Você é impossível.
— E você acabou de me dar o melhor presente do mundo. — Ele piscou. — E só pra constar… esse voucher é vitalício.
Helena soltou uma risada curta, balançando a cabeça.
— Não é, não. Tem uso único.
Heitor inclinou o corpo, aproximando-se dela, o olhar cheio de promessas.
— Então eu vou usar muito bem. Muito bem usado mesmo. Tu nem imagina o quanto.
Ela riu, tentando disfarçar o rubor nas bochechas.
— Você é ridículo.
— Sou o aniversariante, posso tudo. E ainda tenho o Voucher vitalício.
Helena o olhou com aquele misto de amor e irritação que só ele sabia arrancar.
— Feliz aniversário, Heitor.
Ele a puxou pela cintura, encostando a testa na dela.
— Esse já é o melhor de todos os aniversários, amor.
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