O CEO que Eu Paguei
179 Orgulho do Papai
O tempo passou devagar. Helena sabia exatamente quantos dias haviam se acumulado desde o ‘acidente’, desde o medo de perder Heitor, desde aquele primeiro susto que deixou tudo suspenso — a vida dela, a dele e a do bebê.
Desde que o teste deu positivo, Helena não voltou ao consultório da doutora Ana Flávia. Não conseguia sair de perto de Heitor. Não queria, nem por um segundo.
A médica ligou. A secretária também. Mais de uma vez. No fim, Helena respondia tudo pelo WhatsApp, tirava dúvidas, mandava fotos das vitaminas, das embalagens, dos comprimidos… Ana Flávia respondia sempre prontificada e com mensagens de voz com tom educado.
— Você precisa vir, Helena. Essa gravidez não é só sua — dizia em uma das mensagens.
Helena entendia. Mas como poderia? Heitor estava no hospital. Ainda com pontos, ainda limitado, ainda se recuperando de uma briga que quase o levou. Ela não conseguia se imaginar longe.
Heitor, por sua vez, carregava aquela culpa muda, dura, que se instalava nas entrelinhas. Ele via Helena cansada, via as olheiras, o esforço para sorrir. Sabia que ela estava mentindo — não em palavras, mas em omissões. Sabia que ela escondia os sintomas para não preocupá-lo. Sentia um nó no peito toda vez que ela se ajeitava no canto da poltrona, toda vez que levantava antes dele, toda vez que fingia não estar enjoada.
Quando finalmente teve alta — após exames, acompanhamento minucioso e liberação médica com um grifo a mais de responsabilidade — a primeira coisa que fizeram foi seguir direto para a clínica da doutora Ana Flávia.
Nada de casa. Nada de descanso.
Estavam no banco de trás do carro, longe das paredes brancas e do cheiro estéril do hospital. O ar do Rio entrava pelas frestas da janela, morno e úmido, carregando o som distante da cidade viva — tão diferente do silêncio que os envolveu por semanas.
Heitor segurava a mão de Helena como se ainda tivesse medo de soltá-la. Os dedos entrelaçados, o polegar dele deslizando devagar pelas costas da mão dela, num carinho quase inconsciente. Era seu jeito de dizer “tô aqui”, mesmo sem palavras.
Helena se aproximou e repousou a cabeça no ombro dele.
Ali, naquele gesto, havia cansaço. Havia amor. Havia tudo o que sobrevivera à dor.
Heitor virou o rosto e encostou os lábios de leve na testa dela, fechando os olhos por um instante.
Eles estavam exaustos. Mas juntos.
E pela primeira vez em muito tempo, fora da sombra do hospital, o mundo parecia seguir finalmente seu curso natural. Eles estavam de volta.
Quando Ana Flávia os chamou, sorriu como se nada estivesse errado.
— Sr. Monteiro. Helena, minha querida. Que honra — disse, com voz suave, porém firme. O consultório era ainda mais impressionante que a recepção: linho e mármore claro.
Helena, ao entrar, sentou-se devagar na poltrona estofada de couro. Heitor ficou de pé por alguns segundos, como se esperasse instruções.
— Fico feliz que estejam aqui. — Ana Flávia cruzou as pernas com elegância. — Apesar da nossa última consulta ter sido há… — ela fingiu checar a tela do computador, embora soubesse exatamente — quatro semanas, se não me engano?
Helena sorriu sem graça. Heitor abaixou o olhar.
— Doutora, eu queria pedir desculpas. A culpa foi minha. A Helena… ela ficou o tempo todo no hospital comigo. Eu estava...
— Sim. Eu acompanhei. O “acidente”. Lamentável. — disse Ana Flávia, com entonação impessoal, mas cortante. — Imagino que foi um período difícil. Mas ainda assim… — virou-se para Helena — a gestação seguiu. Não desacelera por causa da vida. Muito menos por causa de um homem, por mais importante que ele seja.
Heitor engoliu em seco.
— Eu estava em contato com você, pelo WhatsApp… — defendeu-se Helena.
— Sim. — Ana Flávia sorriu. — Você é a única paciente minha que responde a exames por áudio. Uma verdadeira revolução digital.
Helena corou. Heitor permanecia em silêncio, o olhar fixo nos sapatos.
— A verdade, Helena, — continuou a médica, abrindo o prontuário — é que você está abaixo do peso recomendado para essa fase. A pressão tem flutuado. E, segundo os sintomas que relatou, fadiga, enjoos, dores abdominais, é provável que estejamos diante de uma leve queda no ferro.
Ela girou a tela do computador para eles, como se apresentasse um balanço trimestral.
— Não está ruim. Mas está no limite. O limite entre uma gestação estável… e uma que exige cuidados redobrados.
— Eu estou bem, doutora. Agora que o Heitor teve alta, tudo vai melhorar.
Ana Flávia entrelaçou os dedos e olhou diretamente para ele:
— Espero que sim. Porque, sinceramente, achei que uma mulher com um filho Monteiro na barriga teria acesso a mais recursos, mais descanso e mais estrutura.
Heitor pareceu atordoado.
— Vai ter. A partir de agora… vai ter tudo. Tudo. — disse ele, a voz firme, Helena nunca tinha o visto tão sério quanto nesse momento.
Ana Flávia manteve o sorriso elegante, mas seus olhos diziam outra coisa.
— Ótimo. Porque essa criança precisa de mais que boas intenções. Precisa de presença. E planejamento.
Ela se levantou, pegando uma pasta com o logo dourado da clínica.
— Vamos fazer uma bateria completa agora. Ultrassom morfológico de 12 semanas, exames genéticos não invasivos, sangue, urina, ferro, vitaminas… o pacote inteiro.
Digitou algo rapidamente no computador.
— Também vou encaminhar novamente para a nutricionista perinatal, a Dra. Sofia Lemes. Ela vai montar um cardápio individualizado, com foco em ferro e ômega-3. E, já que o senhor pode proporcionar o melhor, recomendo um chef particular treinado para gestantes. Nada de industrializados, nada de cafeína. Frutas orgânicas, água filtrada, refeições leves a cada três horas.
Heitor assentiu, sem hesitar.
— Vou cuidar disso ainda hoje. E voltou na última consulta, como eu disse da última vez quero a melhor fisioterapeuta pélvica e uma professora de yoga para gestantes. Tudo o que for preciso e tudo que for possível ter.
— Excelente, Sr. Monteiro. — respondeu a médica, sem disfarçar um leve tom de aprovação. — Ah, e incluam sessões de drenagem linfática com a equipe da clínica. E uma psicóloga perinatal. Uma sessão só para a Helena e outra com o casal, principalmente depois do ocorrido e por terem ficado tanto tempo no hospital.
Helena respirou fundo.
— Você não acha demais?
Heitor apertou sua mão, a expressão decidida.
— Nada é demais pra vocês dois.
Ana Flávia observou o gesto com um meio sorriso.
— Bom. Então estamos combinados. Vamos transformar essa gravidez num caso exemplar. Tudo de ponta, tudo monitorado, tudo perfeito.
Ela deu um passo para trás, ainda com o sorriso formal.
— Sejam bem-vindos de volta, vocês dois. E, desta vez… não me façam esperar quatro semanas.
Helena ainda estava se ajeitando atrás do biombo da sala de exames, abrindo o botão da calça jeans que começava a apertar. Já não era mais a barriga lisa de antes — e por mais estranho que fosse, aquilo a fazia sorrir de canto. Era o corpo mudando por dentro. Lá fora, Heitor estava sentado em uma poltrona acolchoada, com o braço esquerdo apoiado e o direito ainda preso na tipóia. Mas o brilho nos olhos dele... aquele sim era de alguém completamente curado.
A Dra. Ana Flávia ajustava os controles do ultrassom com a precisão calma de quem já viu milhares de futuros começarem na tela. Ela sorriu para ele, discreta.
— Sr. Monteiro… pretendem realizar a sexagem fetal?
Heitor esticou as costas com aquele ar natural de dono do mundo e soltou o sorriso torto que sempre usava quando estava animado.
— Então… a ideia é fazer um baita chá revelação. Família toda, torcida organizada, decoração e tudo que tem direito, sabe?
— E como estão as apostas?
— Eu tô neutro — ele respondeu, mas o sorriso entregava. — Mas tô achando que é menina. Todo mundo lá em casa tá apostando nisso. Menos meu avô. Ele vive dizendo que o primeiro Monteiro de cada geração é sempre homem. A avó dela também disse que é menina, por conta dos enjoos. Mas, sinceramente? Eu tenho um palpitezinho de que essa criança, vai ser uma mini Helena, vai ser tão fofinha.
A médica riu.
— E a mamãe?
— A Helena? — ele riu de leve, balançando a cabeça. — Tá fugindo da aposta.
Nesse momento, Helena saiu de trás do biombo, ajeitando a roupinha para o ultrassom. Heitor virou o rosto na hora, como se tivesse levado um choque.
— Olha essa barriguinha de grávida... meu Deus do céu, você tá linda.
— Para com isso, Heitor — ela disse, tentando esconder o sorriso, mas os olhos já brilhavam.
A médica os chamou para o exame e Helena se deitou na maca. Heitor se aproximou, apoiando-se com cuidado. Com a mão esquerda, fez um carinho no rosto dela. Helena estava preocupada, ela devia pelo menos ter ido ao retorno e se não estivesse tudo bem com o bebê? Isso seria por causa dela, por causa da sua teimosia.
— Tá tudo bem. Nosso bebê vai estar ótimo. É filho nosso, lembra?
Helena soltou um suspiro e sorriu. Só Heitor para dizer a coisa certa em um momento daquele.
— Doutora, não fala o sexo, tá? A gente quer fazer o chá.
— Fiquem tranquilos. Com 12 semanas é difícil ver com precisão mesmo. Com 16 dá pra ter uma ideia bem mais clara.
— Maravilha — disse Helena, enquanto recebia o gel gelado na barriga.
— Tem algum palpite, Helena? — perguntou a médica.
Ela olhou para Heitor e respondeu com um meio sorriso:
— Não faço ideia. Mas… se pudesse escolher, acho que queria um mini Heitor correndo pela casa.
Heitor arregalou os olhos e abriu um sorrisão. Parecia um garoto ouvindo o nome dele no jogo da seleção.
A imagem surgiu na tela. E no mesmo instante, Helena arregalou os olhos.
— Aquilo é...?
— Mas é claro! — disse Heitor, com a mão na boca tentando conter a gargalhada. — Esse menino puxou ao pai. ODEIA mistério.
Na imagem, o bebê estava por cima do transdutor, as perninhas bem abertas — como se estivesse deliberadamente exibindo a protuberância.
— Sem um pingo de vergonha na cara — disse Helena, levando a mão ao rosto.
— É meu filho mesmo. Olha isso! Tá literalmente esfregando o patrimônio na câmera! — Heitor estava em êxtase. — É o Humberto Monteiro, com orgulho.
— Vamos manter a cautela — comentou a médica, mesmo rindo. — Ainda é cedo. A sexagem fetal seria mais precisa.
— Doutora... com todo respeito. Olha pra isso! Não tem nem o que duvidar. Isso aí é testosterona pura. Se brincar já tá querendo assistir jogo do Flu e ser jogador de futebol.
Helena riu, meio sem acreditar na cena. Parece que realmente ela veria o Mcqueen novamente e essa não era uma notícia nada ruim. Era mãe de menino.
— Pronto. Lá se foi o chá revelação.
— Nada disso. A gente faz o chá com essa imagem gigante no telão. O meu moleque já se apresentou, pô!
A médica mudou o ângulo, tentando buscar outras medições.
— Vamos ver o rostinho… já que o pequeno Humberto não sabe guardar segredo.
— Isso aí, certeza que puxou a Helena — disse Heitor. — Ela também não tem paciência nenhuma.
Na tela, o bebê começou a se empurrar com as perninhas, escorregando na bolsa amniótica como um peixinho apressado.
— Meu Deus, olha como se mexe! — riu Helena. — Será que ele acha que consegue ir para outro lugar?
Os olhos de Heitor estavam cheios de orgulho.
— Vai ser atacante. Olha essa força nas pernas. Já tô vendo: camisa 10, Humberto Monteiro!
— É um paciente bem arteiro — comentou a médica. — Vamos ver se ele sossega pra gente terminar o exame.
Ela falou com a barriga, com voz doce:
— Fica quietinho pra titia, bebê.
Heitor pediu licença, encostou a mão na barriga dela e se curvou, com aquele sorriso moleque no rosto.
— Oi, meu filho… é o papai! Que isso, hein? Todo mundo te olhando e você aí… pá! Mostrando o pinto. — ele continuou com uma vozinha fofinha — Credo, papai. Ninguém vem me ver. Tô muito bravo com vocês. Que abandono é esse?
— Ele não escuta ainda — disse a médica. — Só sente as vibrações.
— Escuta sim. A gente já conversa todo dia. Ele reconhece a minha voz. Né, filho?
Helena bufou, sem conter a risada.
— Você tá discutindo com a médica agora?
— Eu sou o pai. E esse garoto aqui me escuta, ele sabe muito bem quem eu sou.
A médica sorriu com condescendência.
— Posso continuar?
— Pode. Só queria que o Humberto soubesse que o pai dele tá aqui.
Curiosamente, o bebê pareceu se acalmar. A imagem mostrava agora os bracinhos esticados, como se quisesse colo.
— Olha isso — disse Helena, emocionada, com as mãos no rosto escondendo o choro. — Tá pedindo abraço.
Heitor sentiu a emoção o dominar, os olhos lacrimejaram, ele passou a mão no rosto, tentando se segurar.
— Vai ter, meu. Vai ter meu colo pro resto da vida. Sempre que quiser.
A médica continuou o exame, serena:
— Doze semanas e dois dias. Coração batendo firme. Coluna bem formada. Nada de anomalias. Desenvolvimento normal.
— Tá tudo bem, então? — perguntou Helena, com um fio de voz.
— Perfeito — respondeu a médica. — Inclusive, olha aqui. Agora que ele tá quietinho, dá pra ver bem o narizinho. Igual ao da mamãe.
Heitor deu um beijo leve na têmpora de Helena.
— Lindo demais — murmurou ele, aproximando-se para beijar o rosto dela. — Obrigado, amor. Obrigado por esse presente.
Helena tentava não chorar, mas não conseguia evitar o sorriso.
Ele passou o nariz no dela, carinhoso. E Helena levou as mãos no rosto dele, o acariciando.
A médica pigarreou, rindo:
— Olha... não é todo dia que vejo um casal tão apaixonado assim.
Heitor deu um beijinho no nariz dela, sussurrando:
— Obrigado por me dar isso. Por me dar ele.
— Se comporta — disse Helena, apertando os lábios, mas sem conseguir esconder que estava emocionada.
A médica apontou o monitor.
— Olha o formato do rostinho, esse queixo vem do papai, hein. — Ana Flávia riu baixinho — O rostinho é do pai… o nariz da mãe. Uma mistura bonita.
Heitor estava reluzente.
— E tem mais detalhes?
— Só com vinte semanas vamos conseguir ver melhor o perfil. Mas até aqui... tudo maravilhoso. Vou mostrar o bebê em 4D, ele ainda está em formação, mas dá para termos uma ideia.
Helena olhou fixamente para a tela. O bebê estava lá, completo. Real. E era um menininho.
Ela pousou a mão sobre o ventre e murmurou, com os olhos marejados:
— Humberto Monteiro… seja bem-vindo.
Heitor sorriu como se aquilo fosse o ápice da vida. Passou o braço ao redor dela, puxando devagar, e disse com a maior convicção do mundo:
— Assim que a gente sair daqui… vamos direto na loja oficial do Fluminense. Esse moleque vai sair da maternidade vestindo as três cores sagradas, verde, grená e branco.
— Heitor…
— Sem discussão. Esse uniforme é tão importante quanto a certidão de nascimento.
A loja oficial do Fluminense estava quase vazia naquela manhã de céu limpo no Rio. A brisa do mar chegava de leve pela porta de vidro, e o som ambiente era uma mistura de passos ecoando no piso brilhante e a música institucional do clube tocando baixo ao fundo.
Helena entrou de braços dados com Heitor, que ainda usava a tipoia no braço direito.
— Heitor, a gente só vai comprar um bodyzinho. Um. — Ela reforçou, apontando com o dedo.
Ele sorriu com aquele ar de quem já sabia que ia desobedecer.
— Um não existe, Helena. Isso é o uniforme de entrada do meu filho na vida. Isso faz parte do legado.
Ela bufou, rindo.
— Vai lá, vai. Faz teu show.
E ela não precisava dizer duas vezes.
Com o braço bom, começou a puxar de cabides todas as versões disponíveis: body com o escudo grande no peito, body com o número 10 nas costas, body com “Torcida Baby” bordado, outro com “Filho de Tricolor é Tricolorzinho”.
— Esse. E esse. E esse aqui também. — Ele virou para o vendedor. — Tamanho recém-nascido. Ou menor ainda, se tiver.
— Isso tudo, Heitor?
— Helena, se ele gorfar no primeiro, tem que ter o segundo. E se ele se mijar no segundo, o terceiro tem que estar limpo. Lógica simples.
Ela cruzou os braços.
— E o quarto?
— Backup do backup. Estratégia, amor.
O vendedor, jovem e claramente encantado com a situação, comentou sorrindo:
— Vai nascer um tricolor de peso, hein?
— Com toda certeza, meu filho vai carregar o manto. O nome já vai tá registrado na história — respondeu Heitor, estufando o peito.
Helena se aproximou e ajeitou a gola da camisa dele, com aquele cuidado silencioso de quem já o amava por inteiro.
— Tem certeza que não quer comprar também um boné, uma chuteira número 15 e uma faixa de campeão pra colocar no berço?
Heitor pensou por um segundo.
— A faixa é boa ideia, hein?
— Tava brincando. — Ela riu, apertando a ponte do nariz. — Mas, vamos com calma, eu quero escolher a decoração do quarto.
— Pode deixar meu amor, eu vou dar opiniões, mas a escolha vai ser sua.
— Agora vamos pagar antes que você resolva comprar uma carteirinha oficial de sócio torcedor em nome do bebê.
Heitor deu de ombros.
— Tarde demais.
— O quê?!
— Liguei pro Carlos enquanto você experimentava as suas. Já tá tudo certo. Humberto Monteiro, sócio número 112.308. Com direito a visita guiada no estádio e tudo.
Helena encostou a testa no peito dele e balançou a cabeça, sorrindo em silêncio.
— Não tem como competir com você, né?
— Nem precisa. Você já ganhou. — Ele a abraçou de lado, puxando-a com o braço livre. — Agora vamos pra casa, Helena. Nós três.
Antes de sair da loja, com os bodyzinhos cuidadosamente dobrados dentro da sacola junto as camisas para Helena, Heitor parou diante de um mostrador lateral. Os olhos dele brilharam. Não eram roupas de menino — eram minúsculos vestidinhos tricolores, com lacinhos delicados nas mangas e um escudo bordado no peito em fio dourado.
Ele se aproximou como quem vê uma joia rara. Passou a mão devagar no tecido, encantado.
— Helena...
Ela, que já estava indo na direção da porta, virou-se.
— Hein?
Ele olhou pra ela com aquela expressão que misturava admiração e estratégia, como um garoto prestes a pedir um brinquedo novo.
— Eu quero uma filha também. Uma filhinha pra usar isso aqui. Imagina a Heloísa com um vestidinho desses, entrando com a gente no Maracanã… De mãos dadas com o Humbertinho?
Helena arqueou uma sobrancelha.
— A gente mal teve o primeiro filho e você já tá falando do próximo?
— Planejamento é tudo, vida. — Ele deu um sorriso que só piorava a situação. — A gente já tem o nome, o time, o vestidinho. Só falta... a Heloísa.
Helena riu, mordendo o lábio para não se derreter também.
— Você é impossível.
— Não, eu sou pai. E vou ser um pai babão com um time inteiro de filhos tricolores.
Ela caminhou até ele, tomou o vestidinho da mão dele e pendurou de volta.
— Primeiro o Humberto. Depois, a gente vê se você merece a Heloísa.
— Eu mereço. — Ele piscou, convencido. — E ela vai puxar você. Vai ser mandona, brava e perfeita.
Helena saiu rindo, e ele a seguiu com a sacola, o coração leve e cheio de planos. Porque para Heitor Monteiro, o futuro era vermelho, verde, branco — e cheio de amor.
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