O CEO que Eu Paguei

180 O Lugar Certo


Para Helena, pela primeira vez em muito tempo, parecia que as coisas estavam, enfim, encontrando o lugar certo. Ainda não sentia que o apartamento também pertencia a ela. Estava deitada no sofá com as pernas esticadas sobre as coxas dele, enquanto Heitor massageava devagar seus pés com a mão esquerda. A outra, ainda enfraquecida pelo ataque, se forçava a participar dos movimentos com esforço visível.

As faixas já haviam sido retiradas no hospital. Ele estava sem a tipoia, mas as cicatrizes ainda marcavam sua pele como lembretes recentes. Helena via. Via o quanto ele rangia os dentes quando movimentava o ombro direito. Via o quanto fingia que não doía. Heitor tentava esconder, mas ela conhecia. Conhecia como se o tivesse desenhado.

Eram dois teimosos. Teimosos demais. Só restava para Humberto ser o teimosinho.

Mel, deitada em cima do pé dele, roncava baixinho. Mais cedo, a golden estava toda dengosa, choramingando e sem sair de perto, ela tinha ficado com muita saudade da família.

Helena fechou os olhos, rendida ao carinho, sentindo o toque quente e paciente de Heitor. Até que ele falou, com a voz baixa, rouca, do jeito que ela conhecia tão bem.

— Ei, Helê...

Ela abriu os olhos e encontrou os dele. Os azuis carregados, cansados, mas tão doces quando olhavam para ela.

Heitor manteve o movimento nos pés dela, apertando de leve.

— Meu amigo me ligou… Aquele que pedi pra procurar umas casas. Ele quer marcar umas visitas amanhã. Só queria saber se você tá bem pra ir ou prefere outro dia.

Ela piscou devagar, surpresa.

— Casas?

— É.

— Mas por quê? Esse apartamento é lindo, confortável, tem uma vista espetacular...

Heitor deu um sorriso curto e balançou a cabeça.

— Eu sei. Mas… é pequeno pra uma criança. Já acho pequeno pra Mel. — Ele riu, cutucando com o pé a cadela dorminhoca. — Eu cresci numa casa com quintal, Helê. Com espaço pra correr, jogar bola, cair, ralar o joelho e levantar. Eu quero isso pro Humberto. Quero que ele cresça livre. Com espaço pra ser criança.

Helena o encarou em silêncio por um momento, e então falou, baixinho:

— Eu quero ter uma casa com você… pra gente formar a nossa família.

O olhar de Heitor brilhou. Não foi um sorriso comum o que ele deu. Foi um daqueles raros, de quem se sente honrado. Como se ela tivesse acabado de lhe dar o mundo.

— Então eu já ganhei meu dia.

Ela estendeu a mão e tocou o ombro dele com cuidado.

— Como tá o braço? Vou passar o creme em você, tá?

Heitor fez que não com a cabeça, mantendo a mão na perna dela.

— Tá tudo bem, amor. Eu que tenho que cuidar de você agora. E… eu acho que me recupero antes dos dois meses que os médicos falaram.

Helena riu, debochada.

— Eu acredito. Você é doido, mas eu acredito.

Ele levou a mão até a barriga dela, pousando com cuidado como se tocasse o centro do universo.

— Humberto Monteiro... — murmurou com um sorriso bobo no rosto. — Então é isso. A gente vai ter um menininho.

Helena sorriu e acariciou os cabelos dele.

— E parece que vai ser agitado… igual ao pai dele.

— Ele vai ser meu melhor amigo — disse Heitor, com os olhos fixos na barriga dela. — Igual meu pai foi pra mim. Mas… mais presente. Eu quero estar em tudo. Quero ser pai.

— Você já é.

Ele ergueu os olhos. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. Depois, ele suspirou.

— Amanhã vou chamar uma empresa de lifestyle, dessas que cuidam da parte gestacional. Especialista mesmo. Eu tô meio perdido com tudo isso… e sinto que vocês não têm tudo que eu posso oferecer.

— Heitor…

Ele desviou o olhar, envergonhado. A mão ainda sobre a barriga dela.

— Eu só… não queria que você tivesse passado por tudo aquilo no hospital. Tantos dias ali, por minha causa…

— Ei, olha pra mim. — Ela se ergueu um pouco, séria. — Foi minha escolha. Eu fiquei do lado do homem que eu amo. E eu não sofri.

— Mas eu sofri por você. — Ele engoliu em seco. — Eu queria que fosse diferente. E por isso eu quero que o resto da gravidez seja perfeito. Tranquilo. Do jeitinho que você merece.

Helena sorriu e encostou a testa na dele.

— Você já cuida muito bem de mim. Não falta nada.

Heitor ficou quieto. Por dentro, ele sentia que faltava. E muito.

— Eu não queria tocar nesse assunto agora, mas não vai ter jeito...

Ela franziu o cenho, atenta.

— Fala logo, Heitor.

Ele suspirou fundo, os olhos baixos. Quando voltou a encará-la, havia algo de duro ali. Determinação. E um pouco de receio.

— A gente precisa falar sobre o Fortenelle.

O estômago de Helena revirou.

— O que tem ele?

— Eu… eu só queria que você soubesse que eu não acreditei em nenhuma das mentiras que ele disse. A gente brigou porque ele desrespeitou a sua honra. E eu não admito isso. Nunca vou admitir.

— O que ele disse?

— O que você já sabe. Que o Humberto era filho dele.

Helena deu uma risada indignada, sem qualquer humor.

— Isso é ridículo.

— É. Mas ele falou. E eu perdi a cabeça. Achei que ele fosse parar. Mas ele piorou.

O rosto de Helena se fechou. Os olhos castanhos queimando.

— Ele é um doente. Um invejoso patético! — A voz saiu mais alta, cheia de raiva, e ela se endireitou no sofá. — Ele é obcecado, Heitor. E perigoso. Ele te atacou, te feriu, tentou nos separar… Ele é um verme.

Heitor assentiu, firme.

— Helê, eu sou seu homem. O pai do seu filho. E eu vou defender minha família. Você e o Humberto estão acima de tudo.

— Ele merece pagar. Mas eu não quero te perder pra cadeia.

Heitor deu um sorriso de lado, breve, tocado pela preocupação dela.

— Fico feliz que você se preocupe tanto comigo.

— Claro que eu me preocupo, idiota. Você é o meu homem.

Ele sorriu largo. Um sorriso tão fora de tom para aquele momento que só podia ser explicado por dentro — pela felicidade genuína de ouvir ela dizer isso.

Ele voltou a acariciar a barriga dela com carinho.

— Eu já falei com os advogados. A gente vai fazer o teste de paternidade, só por causa do processo. Você não precisa se preocupar. Eu vou fazer o Fortenelle pagar.

Helena suspirou.

— Você sendo você… já é a melhor vingança. Ele vai ver o quanto você é feliz. O quanto é amado.

Heitor esticou o braço direito com dificuldade e segurou a mão dela. A dor passou pelo seu rosto como um raio, mas ele não soltou.

— É por isso que eu tô fazendo isso. Porque você tem razão.

Ela apertou a mão dele.

— Vamos usar a justiça, Heitor. Vamos acabar com o Fortenelle da forma certa. Mas eu quero viver essa fase com felicidade, não com raiva. Eu odeio ele. Mas eu… não quero mais lidar com isso.

Heitor assentiu.

— Você não vai. Meu pai, Paulo Medeiros e eu estamos cuidando de tudo. O processo já tá bem adiantado.

Helena sorriu, sentada com as pernas cruzadas em cima do sofá.

— Vamos falar de coisa boa… — ela começou, animada. — Quero falar mais do nosso menininho.

Heitor se ajeitou no sofá ao lado, apoiando o braço bom nas costas do encosto, completamente entregue a ela.

— Ele é um exibido, igual a mãe. — Ele provocou com um sorriso moleque.

— Ah, claro que é igual a mim. — ela revirou os olhos — Ele passou o ultrassom todo de bracinhos abertos, está doidinho para nascer.

— Mas você viu? — Heitor abriu um sorriso babão. — Quando a doutora encostou o aparelho e ele tava lá, todo serelepe… mas aí ouviu minha voz e ficou quietinho.

— Como se estivesse ouvindo, né? — Helena suspirou, emocionada. — Ele ouviu o papai. Meu filho é um grude desde o útero.

— Vai ser mesmo. — Heitor pegou o celular e colocou a imagem do exame 4D, ele observa todo orgulhoso — Olha a carinha dele, mesmo em desenvolvimento dá para ver o seu narizinho aqui nele mesmo.

Helena riu, mas logo suspirou com um leve tom melancólico.

— Eu queria ter feito um chá revelação… sabe? Com balões, fumacinha azul, algo bonito…

Heitor a olhou de lado, como quem quer animar.

— A gente ainda pode fazer. Finge que não sabe de nada, explode o balão e todo mundo comemora.

— Heitor… todo mundo já sabe! — Ela riu alto. — Você contou pra todo mundo!

— Não consegui aguentar. — Ele disse com um sorrisão culpado. — Eu vi aquele molequinho com o pintinho no meio das pernas, todo feliz… não dava pra segurar!

— Todo mundo sabe do pinto do meu filho. — Helena escondeu o rosto nas mãos, entre risos.

— E é algo que deve ser exaltado! — Heitor declarou, rindo com orgulho.

— Você é um idiota. — Ela respondeu, com os olhos sorrindo.

Ele virou um pouco mais sério, ainda com aquele brilho bonito no rosto.

— Eu quero ter mais filhos, Helena. Queria conversar isso com você.

Ela o olhou com surpresa contida.

— Sempre sonhei com uma família grande. Meus pais sempre me deram amor, tudo que eu precisava, mas… eu sentia falta de um irmãozinho, sabe? Um parceiro. É por isso que o Jonas e o Isaac são tão importantes pra mim. Sempre foram. Fiquei sentido deles não terem ido me ver no hospital.

— O Jonas tá naquela fase agitada, sabe como ele é. — Helena disse, tocando de leve a mão de Heitor. — E o Isaac falou que assim que você tivesse alta, ele vinha ver você.

Heitor assentiu devagar, o olhar um pouco distante.

— Espero que sim.

Ela inclinou o corpo até encostar a cabeça no ombro dele.

— Eu nunca pensei em ser mãe… — ela disse com a voz mansa. — Mas agora… agora eu tô gostando muito disso. Ver o Humbertinho dentro de mim, mexendo… me deixou tão feliz. Eu quero muito ter ele nos braços, sentir o cheirinho dele, encher de beijo… — ela ficou vermelha, mas seguiu — tirando os enjoos e algumas outras coisinhas… eu tô gostando bastante de ser mãe. E… eu não sei como vai ser… mas… eu queria ter mais filhos com você.

Heitor a olhou surpreso. Helena percebeu e corou ainda mais, querendo enfiar a cabeça dentro do sofá.

— Mas não é pra entender errado! — ela rebateu rápido. — Não é por pensão nem nada disso, tá? Eu amo você. Quero estar com você. Sempre.

Ele ficou todo derretido, o peito se aquecendo como se tivesse sido abraçado por dentro. Se aproximou e a envolveu com o braço que conseguia, puxando-a para o peito.

— Eu te amo, Helena. Você é o maior acerto da minha vida. Depois do Humberto, claro.

Ela deu uma risadinha com os olhos fechados.

— Também te amo, Heitor. Mas… pensando bem… acho que quem deu o golpe foi você.

— Eu? — Ele arregalou os olhos com falsa indignação.

— É. Quem era que nunca usava camisinha mesmo?

Heitor riu, culpado. Depois passou a mão com carinho na nuca dela.

— A natureza sempre dá um jeito, vida.

— Uhum. A natureza chamada Heitor Monteiro.

Eles riram juntos, aconchegados, como se o mundo lá fora tivesse finalmente ficado em silêncio. O futuro já começava a ganhar forma — bem ali, entre eles.