O CEO que Eu Paguei

181 Pena e Fúria


Vestir a camisa ainda era um desafio. Cada movimento do ombro fazia os pontos esticarem, a pele tensionar, a cicatriz pulsar como um lembrete cruel do que quase foi perdido. Mas Heitor Monteiro não era homem de reclamar. A tipóia? Jogada de lado. Ele não se permitiria mais parecer frágil. Não quando sua mulher havia o visto no pior estado possível.

Estava grato por ela ter ficado. Envergonhado por tê-la feito passar por aquilo. E determinado a nunca mais deixá-la vulnerável novamente.

Ele não a acordou naquela manhã. Ela estava linda, enroscada nos lençóis, com a mão repousada na barriga. Heitor sabia que ela reclamaria por ter sido deixada, mas lidaria com isso mais tarde. Helena precisava descansar. Ele precisava trabalhar. Era hora de garantir que sua mulher e seu filho nunca precisassem se preocupar com nada.

Na Monteiro Inc., o saguão o esperava decorado com uma faixa elegante — “Bem-vindo de volta, Heitor Monteiro” — e um mar de rostos emocionados. Sócios, acionistas, diretores, funcionários de todos os níveis. O CEO voltava, e com ele, a ordem da casa.

Houve aplausos, abraços formais, apertos de mãos respeitosos. Seu pai, Renato, estava lá, firme e sóbrio, mas com um brilho raro nos olhos. Entregaram-lhe uma placa de bronze, celebrando sua recuperação. Heitor agradeceu, surpreso. Aquela cerimônia repentina. Talvez merecida. Talvez um lembrete de que ele era mais do que pensava.

Passou pelos clientes e os acolheu com a elegância calculada de quem nasceu para liderar. Firmou contratos com os olhos, não com as palavras. Enquanto isso, uma culpa o beliscava por dentro: os canapés estavam impecáveis. Helena teria adorado. Devia tê-la acordado.

Horas depois, sentado na sala de reuniões, participou da extensa apresentação do projeto da nova filial nos Estados Unidos. Além de Helena, apenas estar ali o fazia se sentir mais vivo. Ele se reencontrava consigo mesmo. O CEO voltava ao seu trono.

Ao terminar, olhou para o quadro em sua sala. O bodyzinho branco e os sapatinhos minúsculos, emoldurados com delicadeza. Um esboço de nome: “Humberto Monteiro”. Heitor sorriu de lado. A imagem do filho o ancorava. Ele queria ser o melhor pai do mundo para aquela criança.

Seu celular vibrou. Relatórios do advogado Chagas. Heitor deslizou o dedo pela tela, lendo com atenção:

O processo foi enquadrado como lesão mútua em legítima defesa, e não tentativa de homicídio.

Laudos, depoimentos, vídeos… tudo pesa ao seu favor.

Uma ação civil por difamação já tramitava contra Viviane e a Fort Group, em sigilo.

A perícia apontava seus ferimentos como mais graves — um enfraquecimento na tese de “violência recíproca”.

O Ministério Público abria agora um segundo inquérito, por falsa imputação de paternidade.

Um exame de DNA, já agendado por ordem judicial, selaria a verdade.

E o mais estratégico: a Monteiro Inc. movia ação por danos empresariais — alegando manipulação de mídia e ataque à reputação.

Mas o que mais chamou sua atenção foi o que seu pai vinha movimentando nos bastidores.

Renato Monteiro não era um homem qualquer. Criara um comitê jurídico paralelo, mobilizou bancos para suspenderem crédito à Fort Group e mantinha sob seu controle o xadrez político que cercava Paulo Medeiros — o governador, e agora, aliado silencioso. Tudo por Helena. Tudo por Humberto.

Viviane estava acuada. Suspendera eventos, demitira assessores e recuava publicamente.

Mas para Heitor… não era o bastante.

A justiça era só uma das peças. Heitor queria algo mais profundo. Queria arruinar de Fortenelle, para que nunca mais ousasse tocar no nome da mulher que ele amava.

Levantou-se. Caminhou até a parede de vidro da sala. A cidade do Rio de Janeiro se estendia diante dele, ensolarada e dourada. Maravilhosa. Mas por trás daquela beleza havia guerra que eles haviam travado.

Ele não podia se permitir a visão idealista de Helena. Ela queria viver, esquecer o nome de Antônio Fortenelle. E ela merecia isso. Mas ele — o homem da casa, o protetor — não podia dar esse luxo a si mesmo. Fortenelle era como um rato. E ratos se eliminam.

Heitor se sentou à frente do computador. Abriu o relatório confidencial enviado por um detetive particular. Mandou ele vasculhar tudo sobre Fortenelle.

Heitor abriu o relatório do detetive e encostou-se na cadeira de couro, o olhar preso à tela. As linhas frias do documento revelavam algo que o tempo havia apagado da memória: o nome Gregório Borborema, pai biológico de Antônio.

Gregório.

O homem que quase destruiu a própria família antes de ser engolido pelo sistema que tanto acreditava controlar.

O arquivo era brutal — traições, humilhações, denúncias. Depois de vencer um câncer, Gregório voltou a viver como se tivesse recebido uma segunda vida para arruinar as pessoas ao redor. Traía Viviane com funcionárias da própria empresa, expunha a esposa em público, humilhava o filho com gritos e comparações. Quando ela reagiu, ele respondeu com o que sabia fazer de melhor: violência.

Acusações de agressão doméstica. Violência psicológica contra o próprio filho. Prisão.

Um fim digno de um monstro.

Heitor deixou o corpo recostar na poltrona, os olhos fixos no teto.

Por um segundo, apenas um, sentiu algo que não sentia há muito tempo quando o nome de Antônio Fortenelle era mencionado: pena.

Pena de um menino que cresceu em meio ao ódio, ao medo, à humilhação.

Um menino que talvez tivesse visto o pai bater na mãe e nunca pôde fazer nada.

Um menino que herdou o sobrenome dela, Fortenelle, como uma tentativa de apagar o sangue do monstro — e mesmo assim, falhou.

Heitor respirou fundo.

Mas logo a compaixão se desfez.

Não.

Aquilo não era desculpa.

Viviane foi uma boa mãe. Dedicada, presente, inteligente. Fez tudo por aquele garoto.

Antônio teve educação, oportunidades, amor.

E mesmo assim escolheu ser cruel.

Escolheu ser igual ao pai que dizia odiar.

Não existe justificativa pra isso.

Heitor se lembrava perfeitamente da infância.

Tinha uns seis anos quando conheceu Antônio.

Tentou ser amigo dele. Chegou até a levar lanche extra pra dividir no recreio, chamava pra jogar bola, tentava incluí-lo.

Mas Antônio sempre olhava com aquele desprezo silencioso, o tipo de olhar de quem já odiava o mundo antes mesmo de entender o que era ser amado.

Com o tempo, o que era indiferença virou rivalidade.

Na adolescência, o que era rivalidade virou ódio.

E agora — depois do sangue, da briga, das mentiras — era guerra.

Heitor odiava Antônio Fortenelle com uma pureza quase sagrada.

Não aquele ódio teatral, mas o tipo que se constrói em camadas: lembrança após lembrança, golpe após golpe.

O ódio de quem tentou entender, de quem tentou perdoar — e descobriu que não havia nada a entender.

Odeava o jeito como ele falava o nome de Helena. Odeava a arrogância, o sorriso torto, a maneira de sempre querer provar superioridade.

Odeava o fato de Antônio ter tocado o nome da mulher dele com desrespeito.

Odeava ter manchado a gravidez dela com uma mentira.

Odeava mais ainda que ele ainda respirasse o mesmo ar que ela.

Heitor apoiou os cotovelos na mesa e encarou a cidade lá fora.

— Você podia ter sido diferente, Antônio — murmurou. — Podiamos ter sido amigos.

Lembrou-se de quando eram garotos.

Antônio era reservado, sempre com aquela sombra no olhar. Heitor se aproximava, tentava entender, mas ele se afastava.

Se Antônio tivesse aceitado, talvez tivesse encontrado um refúgio.

Talvez tivesse escapado do veneno do pai.

Mas não.

Antônio escolheu o caminho mais fácil: o de destruir quem representava tudo que ele nunca teve.

Pais amorosos. Um lar.

O respeito das pessoas.

E foi aí que Heitor entendeu.

A inveja de Antônio não era por Helena. Nem pela empresa. Nem pelo dinheiro.

Era por ele.

Por ter sido tudo o que Antônio nunca conseguiu ser.

Por um instante, Heitor ficou imóvel.

O vento do alto da torre batia nos vidros da sala, e até a cidade parecia quieta demais.

Ele baixou os olhos, e o pensamento anterior voltou com força:

— Não. Isso não é desculpa.

Gregório Borborema foi um monstro.

Mas Antônio Fortenelle é pior.

Porque teve uma chance. E escolheu ser igual.

Heitor passou a mão pelos cabelos, respirando fundo.

Toda e qualquer fagulha de compaixão sumiu.

O passado de Antônio podia explicar, mas nunca absolver.

— Você teve uma mãe boa, Antônio. E escolheu ser um desgraçado.

E, enquanto observava o reflexo da própria cicatriz no vidro, Heitor tomou uma decisão silenciosa, quase fria:

Não deixaria Antônio arruinar mais nada.

Nem o nome da mulher que amava.

Nem o futuro do filho que ela carregava.

Ele o destruiria.

Lenta e meticulosamente.

E quando terminasse, Antônio Fortenelle não teria mais o que odiar — porque não teria mais nada.

Heitor apertou os olhos, passando a mão pela própria boca, tentando conter os pensamentos. Continuava clicando nos arquivos como se buscasse algo concreto para justificar o ódio que sentia. Mas ele não precisava de justificativa. Ele sentia — com o corpo inteiro — como se tivesse pólvora correndo no lugar do sangue.

O PDF seguia com mais anexos. Relatórios. Planilhas. Prints. Trechos de conversa entre Antônio e médicos estrangeiros. E então, uma ficha clínica completa apareceu diante dos olhos de Heitor.

Ele franziu o cenho.

Era o relatório de uma clínica de fertilidade norte-americana. Mas não era apenas uma tentativa qualquer de reprodução assistida.

Não.

Era uma aberração.

Heitor não conseguia acreditar no que estava lendo. Estalou os dedos duas vezes. Seu coração disparava. Ele sentia o peito subir e descer com mais força. O nome de Antônio Fortenelle estava lá — no topo do contrato. O documento listava os critérios para a doadora de óvulos.

Eram tantos.

QI acima de 140.

Universidade internacional de ponta.

Zero histórico psiquiátrico familiar por três gerações.

Ex-atleta de alto rendimento.

Pele mulata clara.

Cabelos castanhos escuros.

Altura exata. IMC específico.

E como se não fosse grotesco o suficiente — havia uma imagem.

Uma foto de Helena.

“Quero alguém que lembre isso. O tipo que combina força e docilidade. Nada exagerado. Beleza funcional.”

Beleza funcional.

Heitor gritou um “filho da puta” entre os dentes.

Se levantou da cadeira de uma vez, afastando-a com os pés, tropeçando nela ao recuar, os punhos cerrados. Precisou parar, caminhar em círculos, respirar, antes de retornar à tela.

Ele continuava lendo. A barriga de aluguel era uma socialite falida dos Estados Unidos, contratada com uma cláusula de anonimato total após o parto. Ela havia sido obrigada a seguir uma dieta exata, sem glúten, sem cafeína, sem açúcar. Antônio a proibia de aparecer em redes sociais, de sair em fotos, de frequentar determinados lugares.

Relatórios médicos semanais. Monitoramento fetal constante.

O feto era tratado como um produto.

E então — como se a mente doentia de Antônio não tivesse atingido o fundo do poço — Heitor clicou em um último anexo.

Um retrato digital.

A estimativa de como o filho nascido daquela combinação genética pareceria no futuro.

Era uma criança com os traços de Antônio e… de quase Helena.

Os olhos eram bem parecidos.

Heitor afastou o computador, como se o retrato fosse um inseto nojento.

Tombou o corpo na cadeira.

As mãos foram ao rosto, abafando um grito silencioso. Ele precisava de ar.

Estava ofegante.

“Ele criou uma criança... com o único objetivo de me ferir.”

Era isso. Antônio havia criado uma criança para simbolizar aquilo que nunca poderia ter com Helena.

O que jamais foi dele.

O que era de Heitor.

A família que ele construiu. O amor que conquistou.

E aquilo — aquilo era a mais pura perversidade.

A vontade de matar voltou. Era tão forte, tão primitiva, tão incontrolável que seus olhos lacrimejaram de raiva, não de tristeza. Ele queria estraçalhar Antônio. Queria socá-lo até não restar mais dente, mais orgulho, mais mentira, mais vida.

Mas ele não podia.

Não por covardia — mas por amor.

Não podia deixar que Helena o visse como assassino.

Nem que seu filho crescesse com a sombra de um pai ausente.

Heitor ficou ali, quieto por longos minutos. Os olhos vermelhos, a respiração irregular.

E então, como se um interruptor tivesse sido ligado, ele se recompôs.

“Se eu não posso matá-lo... então vou fazer pior.”

Ele se virou para a tela com frieza. Passou os dedos pelos arquivos.

Copiou tudo.

Organizou os documentos.

Imprimiu os exames de ultrassom.

Separou o print da conversa entre Helena e Antônio no avião — prova de que se conheceram ali, e não antes.

Inseriu no dossiê a estimativa da data de concepção.

Fez questão de anotar com marca-texto:

IMPOSSÍVEL SER O PAI.

Com precisão cirúrgica, ordenou todos os dados no arquivo principal. Não era apenas vingança agora — era justiça. Heitor sabia exatamente o que fazer.

Heitor entendia que destruir Antônio começava por romper seus laços mais poderosos. E Viviane é o maior deles — a mãe que o protege, financia e faz o mundo girar a seu favor.

Imprimiu tudo.

Áudios transcrevidos de Antônio armando com advogados contra Helena.

Provas da mentira sobre a paternidade.

Transações financeiras feitas às escondidas, inclusive movimentações suspeitas com verba da empresa da mãe.

E claro — tudo sobre a criança “fabricada” com requintes de insanidade.

Quando terminou, respirou fundo.

Pegou o telefone.

Ligou para alguém de confiança de Viviane.

Sua voz estava firme.

— Preciso marcar um encontro. Formal. Com sua patroa. Agora, de preferência.

Heitor não queria apenas vencer.

Ele queria acabar com Antônio. De forma pública, definitiva e cruel.

E iria conseguir.