O CEO que Eu Paguei
122 Tô Aqui. Por Sua Culpa
A escada móvel mal tinha encostado no chão e Helena já estava lá.
Ela era a primeira. Queria ser.
Queria correr, se pudesse.
O coração batia tão rápido que parecia tentar alcançar os próprios passos antes dela.
O ar do Rio bateu quente no rosto quando a porta abriu, e Helena sentiu a pele formigar. Ninguém mentiu, o lugar era quente mesmo.
Ela ajeitou o cabelo, apertou os dedos na alça da bolsa e respirou fundo, mas o peito não desceu.
Era saudade demais.
No saguão do aeroporto, Heitor estava parado, imponente, elegante… mas com o sorriso mais bobo e mais lindo do mundo estampado no rosto.
A camisa de linho branca de manga curta deixava os braços musculosos à mostra, o relógio de pulseira marrom, a calça de alfaiataria clara… e os olhos, meu Deus, os olhos, estavam azuis de saudade.
Ele a viu.
E o sorriso dele ficou maior, se é que isso era possível.
Helena sentiu os olhos arderem na hora. Não tinha controle.
O corpo se moveu sozinho.
Ela só conseguiu deixar tudo cair.
A compostura, o controle e o ar nos pulmões.
Ela correu.
Heitor largou tudo o que segurava. Os passos dele avançaram. O braço esquerdo levantou, o direito se abriu, e quando ela chegou… ele a ergueu do chão.
— Você tá aqui... — ele sussurrou no ouvido dela, girando o corpo levemente com ela nos braços. — Porra… você tá aqui mesmo…
Helena se agarrou ao pescoço dele com tanta força que parecia que o mundo ia escorregar se ela soltasse.
— Tô aqui — ela respondeu com a voz embargada e um riso leve e molhado. — Por sua culpa.
Heitor enterrou o rosto no pescoço dela, sentindo o perfume que ele adorava. Passou o nariz ali, roçou a barba que estava começando a crescer de novo, e disse baixinho, com a voz grave e quente:
— Ainda bem.
Ela puxou o rosto dele pelo queixo e olhou dentro dos olhos.
— Tô com tanta saudade… que tô até com raiva.
Heitor soltou um sorriso rouco.
— Avisa antes, porra… que eu já chegava nu no aeroporto.
— Idiota. — Helena riu entre as lágrimas. — Você tá muito lindo.
— Você que tá, Helê. Uau, que sortudo que eu sou por ter você — Ele a olha com carinho o rosto dela, como se verificasse se tudo estava no lugar — O gloss, o perfume, o cabelo solto… Isso foi golpe baixo.
Ele segurou o rosto dela com as duas mãos.
— Vem cá.
E a beijou.
O tipo de beijo que para o aeroporto. Que faz a moça da limpeza sorrir escondida. Que os turistas acham bonito e observam como um ponto turístico. Que as crianças param e apontam mostrando aos pais. Que o segurança fica até sem jeito de interromper.
Helena estava colada no peito dele, o corpo inteiro arrepiado.
Quando se afastaram, ele encostou a testa na dela e sussurrou:
— Nunca mais me deixa tanto tempo assim, não. Tô falando sério.
— Quem sumiu foi você — ela rebateu baixinho.
— É. Mas agora você tá aqui. E, porra... Eu tô inteiro de novo. — ele se afastou um pouco, a olhou de baixo até cima e passou a língua nos lábios — Caralho Helena, tu tá muito gostosa.
Ela deu um sorriso largo, como sentiu falta daquele homem, do abraço que a fazia se sentir a única, do beijo que a deixava de pernas bambas, do sorriso que a fazia sorrir junto, dos olhos azuis que a devoravam e daquele cheiro amadeirado que ela tanto amava.
— Na moral, tu tá muito gostosa MESMO! — continuou com um sorriso safado e o olhar cheio de intenções — Não sei se consigo me controlar.
Ela arregalou os olhos vendo o volume se destacar na calça branca dele.
— Heitor! — ela colocou a mochila na frente tampando o volume — Se controla! Não quero que seja preso por atentado ao pudor. Você é muito irritante mesmo.
Ele suspirou com um ar de decepcionado.
— Poxa amor, tô com tanta saudade, olha o que faz comigo! Preciso muito de você — ele se aproxima ainda com a mochila na frente, e fala com o sotaque bem carregado e o hálito quente no ouvido dela a fazendo arrepiar — Quero você Helena, seu homem quer te encher de leitinho a noite toda.
Ela solta um gemido baixo e sente a calcinha molhar.
— Heitor…
— Eu sei…. Vem — ele disse, pegando a mochila leve das mãos dela. — Quero você em casa. Você no meu sofá. No meu banheiro. Na minha cama. Comigo imediatamente.
Helena deu um risinho.
— Tô começando a achar que cê só me trouxe pro Rio por isso.
— Não é — ele respondeu, puxando ela pela cintura com firmeza. — Mas se fosse, você ia mesmo me culpar?
Helena mordeu o lábio. Olhou pro rosto dele e, de repente, o aeroporto inteiro desapareceu.
Só existia ele.
E ele era dela.
— Não — ela disse. — Eu ia deixar.
A mão de Heitor envolvia a dela com firmeza e carinho.
Era quente e protetora.
Era o novo lar.
Helena o olhava como se não conseguisse acreditar. Ele estava mesmo ali, inteiro, lindo… sorrindo daquele jeito que só sorria pra ela.
E, mesmo tentando se segurar, ela sentia o olhar molhar de novo.
— Droga... — resmungou baixo, levando a mão livre até os olhos, limpando as lágrimas que teimavam em cair.
— Vem cá. — Heitor parou de andar e a puxou com cuidado, virando-se pra ela.
Ele passou a alça da mochila pelo ombro para carregar nas costas. Depois, ergueu a mão grande e com os dedos firmes — mas absurdamente gentis — foi limpando, um por um, os vestígios de lágrima no rosto dela.
Os olhos castanhos estavam tão cheios de brilho…
Helena tentou disfarçar. Quis resmungar, dizer que ele estava exagerando.
Mas não conseguiu.
Ela só queria mais daquilo.
— Essas suas lágrimas… — ele murmurou, com os olhos presos nos dela — mesmo sendo de felicidade… doem no meu peito, sabia?
Helena apertou os lábios. O coração estava batendo forte demais.
— Eu tô parecendo uma idiota. — falou com a voz embargada, forçando um meio sorriso debochado. — Nem parece que só faz três dias.
Heitor se aproximou, encurtando o máximo a distância entre eles.
Com a mão na nuca dela, abaixou o rosto e beijou o topo da cabeça com tanta delicadeza que Helena sentiu o corpo inteiro arrepiar.
— Tês dias longos pra caralho, Helê. Pra mim… parecia um ano.
Helena fechou os olhos por um segundo. A respiração prendeu.
— E agora? — ela perguntou, baixinho.
Heitor encostou a testa na dela.
— Agora a gente tá junto. Você chegou. E eu tô aqui pra te lembrar todos os dias que é onde tu tem que estar.
Helena soltou um riso fraco, passando o dedo de leve no maxilar dele.
— Que brega, Heitor…
— É — ele deu um sorriso enviesado, os olhos brilhando. — Brega e apaixonado por você.
— Tsc… — ela desviou o olhar, mas não conseguia parar de sorrir.
Ele voltou a segurar a mão dela.
— Vamos? Tem um carro te esperando. E, dentro dele, um homem disposto a passar o resto da vida lambendo essas lágrimas todas.
— Você é um ridículo.
— E você fica linda mesmo chorando. Mas é mais linda ainda sorrindo pra mim.
Helena parou de andar de novo.
— Fala mais uma dessas… e eu não vou aguentar. Vou te beijar aqui, com câmera, com segurança, com quem for.
Heitor se aproximou do rosto dela devagar, olhos fixos nos lábios, até sussurrar:
— Então faz isso. O primeiro beijo não tampou nem um pouco da minha vontade.
Ela sorriu, rendida.
E beijou.
Como se não existisse aeroporto, nem fila, nem cidade.
Como se o Rio de Janeiro inteiro fosse só os dois.
— Heeeeeitor! — a voz veio rápida, debochada, cheia de ironia conhecida.
Helena mal teve tempo de se afastar do beijo — ou recuperar o ar — quando viu os três parados a poucos metros: Ana Alice com as mãos nos quadris e a sobrancelha arqueada; Hugo com um sorrisão pronto pro caos; e Júlia já com o celular na mão em direção a eles, e com um sorriso de quem estava aprontando.
Heitor olhou na direção deles e arqueou as sobrancelhas, como se só naquele momento tivesse lembrado que a equipe da Plano & Forma também havia desembarcado com Helena.
Ainda com o braço firme na cintura dela, deu aquele sorriso bonito, largo, quase provocador:
— Olha só quem apareceu.
— Aham. — Ana Alice cruzou os braços. — Então é esse o nível de integração que a terceirizada tá tendo com a Monteiro?
— Acho ótimo — disse Hugo, rindo. — Se eu soubesse que era assim, já tinha dado uns olhares pro CEO também.
Helena ficou vermelha num nível que nem ela acreditava.
Se afastou só um pouco, tentando se desvencilhar do abraço de Heitor — que, claro, não deixou.
— Ai, meu Deus… — sussurrou, tentando fazer o Heitor parar. — Você é impossível.
— O impossível é seu. — ele respondeu de imediato, com aquele tom de cafajeste apaixonado, e a puxou de novo.
Antes que ela protestasse, ele abaixou o rosto devagar… e beijou a linha do maxilar dela, ali, perto do pescoço.
Devagar. Proposital.
Helena fechou os olhos por um segundo.
Quase esqueceu o nome.
— HEITOR! — ela murmurou, empurrando o ombro dele, ainda colada. — Eles estão olhando!
— E achando lindo, tenho certeza. — Ele piscou para os amigos dela.
Ana Júlia continuava gravando enquanto narrava a cena como estivesse em live.
Ana Alice virou para o lado e fingiu que o vento era mais interessante.
Hugo só aplaudiu devagar, como quem viu um grande momento da televisão brasileira.
— Gente, pelo amor de Deus. — Helena tentou desviar, ainda presa ao namorado, mas o sorriso não escondia nada. Ela estava feliz. Muito.
— Tô brincando, amor — Heitor disse, finalmente a soltando um pouco. — Mas só um pouco.
Ele se virou para os três.
— Preparei tudo pra vocês. Sexta-feira, né? Não vou botar ninguém pra trabalhar hoje não. Só vou deixar vocês no hotel. Depois, se quiserem, a gente combina algo.
— “A gente” quem, Heitor? — Hugo perguntou, rindo. — Porque eu não quero ser vela nesse jantar não.
— Vocês que escolhem — disse Heitor, colocando os óculos escuros, a luz do sol batendo no rosto dele. — Mas eu trouxe estilo pra isso.
Eles começaram a andar pelo saguão, puxando as malas.
Quando chegaram ao estacionamento… lá estava ela.
Uma limusine preta reluzente, estendida como uma declaração de poder.
— Mentira… — Júlia falou, parada.
— Não. Não é possível. — Ana Alice arregalou os olhos.
— O cara trouxe uma limousine. — Hugo quase tropeçou na própria mala. — Que tipo de filme de casamento é esse?
Helena até tentou disfarçar…
Mas não conseguiu esconder o sorriso ao ver.
— Você é doido.
— Sou seu. — Heitor respondeu, já abrindo a porta da limusine com toda a pompa. — E vocês… — ele olhou pros amigos dela — vão chegar no Rio como se deve. Com estilo.
Helena revirou os olhos.
Mas o coração estava dançando dentro do peito.
Era isso.
A vida tinha mudado.
E ela estava exatamente onde deveria estar.
O chofer desceu da cabine com rapidez assim que a limousine estacionou no ponto de embarque.
— Deixa comigo, senhor Monteiro — disse, já abrindo o porta-malas e começando a colocar as bagagens com destreza.
Do outro lado, Heitor girou a maçaneta da porta com a mão direita e a abriu, estendendo a esquerda para Helena, como era de praxe.
— Primeiro a dama. A minha dama — ele murmurou, com aquele sorriso de canto que ela conhecia tão bem.
Helena subiu com um sorrisinho debochado no rosto.
— Você parece até personagem de filme. Daqueles que a mocinha desconfia no início.
— E depois ela se apaixona perdidamente? — ele perguntou, já sabendo a resposta.
Helena apenas arqueou a sobrancelha com charme e entrou na limousine.
Os amigos vieram logo atrás, ainda boquiabertos com o luxo. Era impossível não notar o impacto da chegada ao Rio: palmeiras recortavam o céu, o sol refletia nos vidros espelhados dos prédios altos e o ar úmido carregava o cheiro salgado do mar.
A viagem seguiu animada.
Com o teto solar aberto, Júlia foi a primeira a colocar metade do corpo para fora, gritando para o céu do Rio de Janeiro:
— RIOOOOO! A MAMÃE CHEGOU!
Ana Alice a puxou de volta, morrendo de vergonha.
Hugo, claro, registrava tudo com o celular em modo retrato.
Helena riu, mas o sorriso ficou maior ainda quando Heitor cutucou seu braço:
— Vai lá, princesa. Vai ver a sua cidade nova.
Ela hesitou. Mas subiu.
O vento jogou os cabelos dela para trás. Os olhos se encheram de brilho. Lá estava: o Rio, com seu azul de céu absurdo, as montanhas ao fundo, o Pão de Açúcar surgindo entre os prédios, o vai-e-vem de pessoas na orla, os ambulantes, as bicicletas, o mar riscando o horizonte com tons de prata.
Ela se sentiu viva. E feliz.
De volta ao banco, Heitor pegou uma pasta na lateral.
— Muito bem, senhoras e senhores — disse com ares de executivo galanteador — Como combinado com a Plano & Forma, a estadia está sob responsabilidade da Monteiro Inc.
Abriu a pasta e retirou três envelopes pretos, com o logo da empresa em dourado.
— Aqui estão os cartões de alimentação de vocês. São válidos para qualquer restaurante ou cafeteria cadastrada no sistema. R$140 por dia, sem necessidade de prestação de contas. — Entregou um por um, com uma inclinação exagerada.
— No envelope também está o cartão de acesso ao hotel. Cada um com seu quarto individual. Vista para a praia.
Hugo gritou:
— Ah, moleque! Era esse tratamento que eu nasci para ter!
Júlia abriu o envelope como quem abre um convite de casamento.
Ana Alice agradeceu educadamente, mas não escondia a empolgação.
Helena, por sua vez, olhava com a expressão meio torta.
— Uai. Cadê o meu?
Heitor fez cara de quem foi pego de surpresa. Colocou a mão no peito.
— Amor… eu sabia que tava esquecendo de alguma coisa.
— Heitor… — ela já entortava os olhos, desconfiada.
— É que… — ele coçou a nuca, dramático — houve um problema no sistema do hotel. Só conseguimos três reservas no mesmo lugar.
— Você tá de brincadeira — ela rebateu, mantendo o tom contido. — Você comprou uma passagem de primeira classe e esqueceu de reservar um quarto?
— Exatamente — ele respondeu, com a cara mais cínica do planeta. — Acontece nas melhores famílias.
Ela cruzou os braços.
— E eu vou dormir onde, então? Na praça?
Heitor soltou um suspiro exagerado.
— Fiquei desesperado, claro. Então, dei um jeito.
— Tive que colocar você em outro hotel. É uma pena, mas… é o que tinha.
Helena já estava prestes a retrucar quando ele completou:
— No caso… o hotel é o meu apartamento. E o quarto é o meu quarto.
Ela engoliu a resposta.
Os amigos começaram a gargalhar.
Júlia gritou:
— AI, EU NÃO AGUENTO MAIS ESSES DOIS!
Ana Alice:
— Isso foi baixo nível, Heitor!
Hugo completou:
— Lêlê, me ensina a jogar esse jogo aí, que eu tô ficando pra trás.
Helena virou o rosto para a janela, mas dava pra ver o sorrisinho bobo escapando.
Heitor se aproximou, sussurrou no ouvido dela:
— Você não queria tratamento diferente?
— Achei que ia ganhar um kit com sabonete e toalha bordada — ela respondeu, mantendo o sarcasmo, mas já derretida por dentro.
— Eu te dou isso. E muito mais. Mas vai ter que dividir a cama comigo.
Ela revirou os olhos.
— Presunçoso.
Ele sorriu.
— Doido pra te mostrar o Rio inteiro, começando por mim.
Helena suspirou.
E o coração dela, mais uma vez, se rendeu.
A limousine deslizou suavemente pela orla de Ipanema, até parar diante de um hotel elegante com colunas claras, espelhos altos e arranjos tropicais na entrada. O mar brilhava do outro lado da rua, e a brisa soprava forte — com cheiro de sal, calor de verão e movimento constante.
— Chegamos, senhores — anunciou o chofer com uma leve inclinação de cabeça.
Hugo, Júlia e Ana Alice se entreolharam com os olhos brilhando. Era ali mesmo: Copacabana.
O chofer desceu primeiro, abrindo a porta para eles. E quando foi a vez de Helena, Heitor desceu primeiro, a ajudando a descer, os olhos grudados nela. Ele entrou novamente, a deixando um tempo com os amigos.
— Tá parecendo até que tá entregando uma princesa — murmurou Hugo, ajeitando a gola da camisa.
Quando Helena terminou de descer, foi abraçada por Júlia.
— Aproveita, viu? Mas manda notícia. Nem que seja um "tô viva".
— Pode deixar — respondeu Helena com um sorriso sincero. — Mas já tô sentindo saudade de vocês, caramba.
— Ah, ela tá falando isso com um CEO a esperando numa limusine — grunhiu Hugo. — Usa o meu quarto, tá? Se ele cansar de você.
— Idiota — riu Helena, empurrando ele de leve.
Ana Alice, com aquele jeitão meio dramático, abraçou Helena e murmurou:
— Não esquece da gente quando estiver cercada de caviar e lençol de mil fios.
— Você come miojo com mostarda, Ana Alice — retrucou Helena, rindo.
Eles se despediram com abraços, comentários debochados e risadas abafadas de quem, no fundo, torcia por ela.
Quando Helena voltou para a limousine, Heitor já estava com o braço apoiado no encosto, olhando pra ela como se fosse a melhor vista do Rio.
Ela sentou, ajeitou a barra da calça e perguntou, tentando parecer casual:
— Então é isso mesmo? Eu vou ficar com você?
Heitor mordeu o lábio inferior, segurando o sorriso de cafajeste apaixonado.
— Claro que vai. Mas... profissionalmente falando — ele puxou um envelope da lateral do banco, fingindo seriedade — Eu realmente reservei um hotel pra você.
— Ah é? — arqueou a sobrancelha.
— Uhum. Fica do outro lado da rua do meu apartamento. No Leblon. Você pode até ir andando. Bem prático, né?
Helena o encarou com aquela cara dela que misturava ceticismo com sarcasmo.
— Sei. Prático pra você me sequestrar no meio da noite, né?
— Não precisa de sequestro, princesa. Você já é minha.
Ela desviou o olhar, mas sorriu, toda boba.
Heitor, claro, percebeu.
Ele se aproximou um pouco mais, o joelho tocando o dela.
— Agora fala. Fez boa viagem?
— Fiz — respondeu, animada. — A primeira classe foi surreal, Heitor. Até espumante me deram! Eu fiquei com medo de derrubar no colo, mas deu tudo certo.
— Tá vendo? — ele se encostou com um sorrisão satisfeito. — Só o melhor pra minha garota.
— Foi tudo ótimo... só teve um negócio que estragou — comentou, cruzando os braços com leveza.
Ele franziu o cenho.
— O quê?
Endireitou a postura, os olhos atentos.
— Passou mal? Dormiu mal? Faltou algo?
— Um cara — disse ela, simples. — Sentou do meu lado quando o avião parou em São Paulo. Um homem estranho. Fala mansa demais pro meu gosto. Não parava de puxar assunto.
Heitor imediatamente contraiu a mandíbula.
— Que tipo de assunto?
Helena queria contar tudo o que aconteceu, mas não queria estragar o momento. Então decidiu não contar exatamente o que aconteceu.
— Tentei ignorar, mas ele era insistente. Até falou que o meu jeito entregava que eu era do interior. Quase voei nele. — Ela riu. — Falei que até Uber entende quando a pessoa quer silêncio.
— E ele não entendeu?
— Não. Ele não sabia respeitar o espaço alheio e nem sabe que “não” é “não”.
Heitor passou a mão pelo maxilar, sério.
— Quem era esse homem?
— Eu não sei, não cheguei a perguntar.
— Conheço o dono da companhia, vou ligar para ele. Vou descobrir quem é. E garantir que ele entenda que espaços devem ser respeitados.
— Não precisa — ela gesticulou com as mãos — Eu mandei ele parar. Disse que meu namorado era bravo. E que estaria me esperando quando o avião pousasse. — um sorriso se formou no rosto dele — Ai ele me deixou em paz.
Heitor respirou fundo.
— É, não quero mais isso.
— O quê?
Ele virou o corpo todo pra ela, os olhos firmes e a voz baixa:
— Você viajar sozinha.
— Ah, Heitor... — tentou protestar, mas ele continuou.
— Próxima vez, eu compro dois assentos. Um pra você, um pra mim. E você vai com a cabeça no meu ombro.
— Ah, claro. Você vai largar sua agenda de CEO pra viajar comigo.
— Largo sim. Ligo pro Jonas, deixo ele no meu lugar. Ele adora fingir que manda em alguma coisa.
Ela soltou uma risada.
Ele a olhou com ternura, como se o coração estivesse se ajeitando só de tê-la ali.
— Você chegou, Helê. Agora o Rio tá bonito.
Ela virou o rosto, mas não escondeu o sorriso.
Não tinha jeito.
Ela estava muito apaixonada por ele.
E o pior — ou melhor — é que ele sabia disso.
E faria questão de mostrar, com cada gesto, que ela era o motivo daquele céu estar tão azul.
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