O CEO que Eu Paguei
28 Só Por Hoje
O cheiro de café coado pela avó se misturava ao som das risadas altas da vizinha da casa de cima. Mais uma manhã sem paz.
Helena apertou os olhos contra a luz da janela. Não tinha dormido direito. A discussão com Heitor ainda rodava pela cabeça como uma música desafinada.
“Eu não sinto nada por você!”
A frase que ela falou ecoava… mas ela só lembrava do tom da voz dele, a forma como os olhos azuis escureceram, a raiva contida, da decepção — aquilo ficou. E pesava.
“Por que ele ficou tão puto?”
Ela sabia a resposta. Sabia que tinha jogado sujo. Mas também... o que esperava? Que ele a respeitasse? Que não brincasse com ela como se fosse só um capricho?
Ela esfregou o rosto com as duas mãos.
— Chega, Helena. Hoje é sábado.
O telefone vibrou.
Júlia: “MULHER, hoje a boate PULSAR vai ferver. Tô te esperando aqui às 18h pra se arrumar juntas, hein. Sem desculpa.”
Helena encarou a tela por um segundo.
Depois digitou devagar: “Estarei aí.”
Porque era isso.
Ela precisava esfriar a cabeça. Beber. Rir. Fingir que não existia Heitor Monteiro e aquela maldita boca dele.
Antes de sair, havia muito a fazer.
Vestiu o short velho de moletom, amarrou o cabelo pra cima e partiu pra limpeza da casa como se pudesse esfregar da alma também o que sentia.
Varreu. Lavou a varanda. Trocou a água das plantas da avó.
Botou roupa na máquina.
Fez um arroz soltinho com carne acebolada e abóbora refogada — do jeito que a avó gostava.
Depois pegou o Totó, que estava todo manhoso no tapete da sala, e o arrastou pra varanda.
— Vai reclamar, mas vai ficar cheiroso — avisou.
Ele se debateu, claro. Mas no fim saiu com o pelo limpo, os olhos de pidão e a língua de fora.
Ela riu sozinha. Pelo menos alguém amava ela independente do que ela fazia.
Às 16h, Helena tomou banho longo.
Separou uma bolsa com maquiagem, escova e a roupa que Júlia tinha praticamente ordenado que ela usasse.
Um vestido preto curto que mal tinha coragem de olhar direito. Ela colocou na bolsa, a avó não podia nem sonhar com ela vestida assim.
Na porta, a avó veio recebê-la, com o chinelo arrastando no chão.
— Já vai sair?
— Vou. É com o pessoal do trabalho, vó. Coisa rápida.— Ela pegou o telefone e a bolsa, evitando o olhar julgador da avó.
— Vai voltar que horas?
— Umas duas ou três no máximo.
— Uhum. — Olívia cruzou os braços. — E vai assim? Com roupa de ficar em casa?
Helena travou no meio da porta e suspirou.
— É que vamos nos arrumar juntas na casa dela. Não é nada demais. É a inauguração de uma boate nova. Só isso. Todo mundo vai.
A avó franziu o cenho, depois pegou os óculos pendurados no pescoço com aquele ar julgador clássico de quem criou uma neta desde bebê.
— Helena Campos… Eu te conheço. Depois daquele show na porta da minha casa, agora vai sair para vadiar?
— Eu tô indo me divertir, vó. É só isso.
— Cuidado com esses prazeres mundanos. — A voz saiu mais baixa, mas certeira. — Você não é mulher disso.
Helena ficou em silêncio. Por dentro, doía.
Mas por fora, ela já estava no modo armadura.
— Eu sei me cuidar, tá?
— Eu sei que sabe. Mas não custa lembrar que você vale mais do que vai encontrar por aí na rua. No seu trabalho não tem ômi solteiro?
Helena soltou o ar de uma forma cínica. Depois sorriu, triste.
— Te amo, viu?
— Também te amo. Mas volta inteira.
Ela assentiu, com o coração mais apertado que a cintura ia ficar com o vestido. O uber já estava na porta. E foi para à casa da Júlia.
Quando chegou na porta.
— Finalmente! — Júlia abriu a porta com uma BRAHMA na mão. — A morena mais ranzinza da cidade resolveu dar o ar da graça!
Helena entrou com o rosto sério, mas os ombros carregavam o peso de quem precisava daquela noite.
Soltou a bolsa no sofá e soltou o cabelo num coque alto.
— Cheguei. Agora vou vestir esse vestido indecente que me arrumaram.
— O quarto é todo seu — disse Clara, sentada no chão com o babyliss ligado. — E olha… vai ficar perfeito em você, mesmo sem provar.
— Já imaginei — comentou Hugo, de cueca samba-canção e camisa aberta, passando hidratante nos braços como se fosse desfile. — Eu sou viado, mas até eu queria te pegar com aquele look. Se prepara.
Helena bufou rindo, mas não tinha forças pra reclamar de verdade.
Ela entrou no quarto que estava com a luz baixa, tirou o vestido preto. Curto. Justíssimo. Decote nas costas. E as alças finas. Ela mordeu o canto do lábio.
“É só um vestido. Que eu nunca usaria, mas vou usar hoje.”
Mas aquele pano vestia como se tivesse sido moldado no corpo dela.
Colocou a peça com calma. Subiu o zíper, ajeitou no peito, e olhou no espelho.
As curvas estavam perfeitas, o quadril largo marcado, as pernas alongadas com os saltos finos, os ombros nus dando um ar perigoso e elegante.
Voltou pro banheiro improvisado da Júlia e se encarou no espelho de luz branca. Sardinhas leves no nariz, pele mulata bem cuidada, olhos castanhos profundos, delineador puxado no canto. Clara a estava maquiando, passou nos lábios, o vermelho escuro — vivo e provocante. E depois passou o gloss transparente por cima. O efeito era imediato. A boca parecia uma maçã coberta de melado.
Soltou o cabelo. Os fios ondulados e volumosos caíram sobre os ombros como uma moldura de fogo morno.
— Tô pronta — disse, firme.
Mas Júlia apareceu na porta com a boca aberta.
— Você tá uma desgraça.
— Hein?
— Isso aí, minha filha… nem parece que tem vinte e nove.
— Concordo — disse Hugo, já com uma calça de alfaiataria escura e camisa estampada aberta até o meio do peito. — Gente da sua cor parece ser bem mais nova, daria uns vinte e um.
— Eu falei que ela ia arrebentar — disse Clara, ajeitando os cabelos de Helena. — Dá até para seduzir um ricaço para sustentar você e nós, os seus amigos.
— Cala a boca — ela respondeu, ajeitando os brincos de argola.
Todos estavam muito bem arrumados, Helena puxou da bolsa o perfume caro que usava em ocasiões especiais, o Paradoxe da Prada. Pulverizou o perfume no pescoço, entre os seios, nos pulsos. O cheiro preencheu o ar — quente, luxuoso, impossível de ignorar.
Helena se virou olhando. O vestido se ajustava como se tivesse sido feito pra ela.
— Jesus… — sussurrou Júlia. — A mulher vai matar um hoje.
— Palmiteira do caralho — disse Hugo, com um sorrisinho maldoso. — Vamos pegar vários boys hoje!
— Cadê sua família Júlia? — Helena perguntou mudando o assunto.
— Me abandonaram aqui — respondeu passando um brilho abaixo dos olhos azuis — a Jéssica vai levou todo mundo para Caldas Novas.
Helena estava olhando na sala um porta-retrato na sala e sorriu. A foto com os três — Júlia, Hugo e Helena, no ensino médio e de uniforme escolar.
— Porque não foi junto?
— E deixar vocês com toda a diversão do final de semana? NUNQUINHA!
Ela riu, Júlia nunca mudou, mesmo com todo o bullying que sofreu durante a vida, ela era uma mulher magra, olhos azuis, cabelos loiros e o nariz adunco que era o motivo de tudo de ruim que já sofreu. Helena sempre achou Júlia uma mulher exoticamente linda, ela queria que a amiga percebesse isso também.
— Para de me olhar assim Lêlê. — Júlia dizia enquanto passava o batom — Você tá linda, mas sem pegação entre amigos, por favor.
— Poxa, achei que ganharia uns beijinhos da Clarinha hoje — disse Hugo fazendo beicinho.
— Final da noite Huguinho, como combinamos — ela piscou.
Helena se sentia grata, eles eram as melhores pessoas que ela poderia ter como amigos.
— Galera, coloquem o celular para vibrar, não esqueçam. — disse Clara.
Ela puxou o celular, mas ela não queria ser incomodada, então colocou no silencioso.
Porque essa noite estava apenas começando.
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