O CEO que Eu Paguei

102 Sotaques, Segredos e Soluções


O pastel já tinha esfriado no prato, mas Helena nem ligava. A vibração do celular foi mais forte que a fome.

Heitor 🥰💖

Ela atendeu com um sorriso contagiante no rosto.

— Tá me ligando pra saber se eu tô comendo direito, Monteiro?

— Não. Tô te ligando pra dizer que eu devia ter te contado da viagem antes do Dudu. — ele respondeu na lata, com aquele sotaque carioca preguiçoso, mas a voz carregada de dono.

— Quase que você me conta mesmo. Só faltou aparecer no telão no meio da reunião.

— E ainda teria sido mais bonito, vai. Eu ia colocar uma trilha sonora maneira. Mas tudo bem. Pelo menos agora tu sabe que pode contar com teu namorado pra resolver as coisas.

Helena apoiou o cotovelo na mesa e mexeu no canudinho dentro do copo de suco.

— Pode se gabar, vai. Eu deixo. A viagem tá fechada, sim. Mas sabe o que me deixou mais feliz?

— O quê?

Helena não respondeu de cara. Estava com a mão apoiada no queixo agora e o olhar longe, mas o sorriso no canto da boca já denunciava.

— Lembra aquele projeto meu? De controle interno? Aquele que ficou em terceiro lugar no concurso da empresa?

— Claro que lembro. Tu me explicou tudo com uma empolgação de quem tava apresentando no “Shark Tank”.

— Então... uma empresa viu. Pediu pra aplicar com eles. E me querem como responsável principal.

Heitor ficou em silêncio por um segundo.

— Pera… como assim? Eles vão usar seu projeto?

— Vão. Querem ele do jeito que eu desenhei. Com a minha supervisão. Disseram que foi o mais completo da categoria. A Plano aceitou. E eu... aceitei também.

— Porra… — ele soltou, com aquele sotaque carioca carregado que só aparecia quando ele se emocionava ou perdia o filtro. — Cê não cansa de me deixar mais apaixonado, não?

— Ah, pronto. Lá vem. — ela sorriu, meio encabulada.

— Sério, Helê. Eu já sabia que tu era braba. Mas agora eu quero ver se a empresa que teve esse privilégio sabe valorizar do jeito certo.

— Vai ter que confiar. E parar de puxar assunto como se fosse fiscal da minha carreira.

— Impossível. Agora que tu é minha namorada, tudo me interessa. Até a marca da sua caneta.

Ela rolou os olhos.

— E eu achando que você era CEO. Descobri que é bisbilhoteiro.

Heitor fez uma pausa.

— Empresa que viu? Qual é?

— Ah, não. Não é que é bisbilhoteiro mesmo?

— Lógico. Tô namorando uma executiva de elite e ela sai recebendo proposta misteriosa assim?

Helena riu.

— Vai ficar na curiosidade, Monteiro.

— Tá… — ele pigarreou. — Mas só por curiosidade administrativa mesmo… essa empresa vai usar os dias de hospedagem da Monteiro Inc., alimentação da Monteiro Inc., e o descanso da minha namorada... pra receber serviço?

Helena soltou uma gargalhada.

— Olha o tom, Heitor. Você fala como se a Plano fosse um bando de encostado. E outra… quem tá me emprestando é a Plano. Vocês só tão... gentilmente pagando a conta.

— Gentilmente, é? — ele fingiu indignação. — Tão é se aproveitando da minha boa vontade.

— Sua boa vontade foi aprovada pelo conselho, viu? Então aceita.

— Aceito. Mas só porque é você.

— E porque eu vou brilhar. Admite.

— Sempre admiti. Desde o dia que tu me deixou naquele hotel de p4u duro e ainda falou que ninguém resolveria como você.

Ela sorriu, satisfeita.

— Isso foi charme.

— Isso foi a faísca da minha ruína.

— Dramático.

— Apaixonado. — ele rebateu, mais baixo. — E com essas mensagens que a gente andou trocando… vou te falar: tô contando os minutos pra gente se ver depois do expediente.

Helena sentiu o calor subir nas bochechas, mas manteve a voz firme:

— Se controla, Monteiro. Se alguém escuta você falando assim, eu que me complico.

— Ninguém vai escutar. Mas se escutar... vai entender por que tu anda sorrindo desse jeito.

Ela mordeu o canto da boca, disfarçando o riso.

— Tchau, Heitor.

— Até mais tarde, amor.

— Heitor…

— Tá bom. Até mais tarde, senhorita Helena.

Ela desligou com o coração leve e o sorriso preso na cara.

O pastel tinha esfriado de vez, mas agora… ela nem ligava.

Tinha coisa muito mais quente esperando por ela depois do trabalho.

O dia escorreu rápido — numa mistura de tarefas, mensagens e sorrisos contidos por trás da tela do computador. Mas agora, o sol já tinha se despedido e a cidade ganhava seu tom alaranjado, quase nostálgico.

No carro, o som de um sertanejo romântico tocava baixinho, só o suficiente pra preencher o silêncio. Helena estava com o rosto virado pra janela, os olhos fixos nas luzes dos postes passando — como se cada uma trouxesse um pensamento diferente.

Cansada… mas inquieta.

Como se o corpo estivesse aqui, e a cabeça já soubesse que as coisas estavam mudando.

Do lado de cá, Heitor dirigia com uma mão só — a outra descansava solta sobre a coxa dela. Os dedos dele tamborilavam devagar, como se estivessem dizendo alguma coisa que ele ainda não tinha coragem de falar em voz alta.

Até que falou.

— Vou ter que ir antes, Helê. — disse num suspiro. O sotaque carioca dele parecia ainda mais presente. — Quarta-feira, no máximo, eu tô embarcando.

Helena não respondeu de imediato.

— Já organizei tudo. Companhia aérea, hospedagem, recepção… as equipes. Vou deixar tudo certo pra tua avó também e pro Totó no condomínio. Tudo no esquema quando você chegar. — ele pigarreou. — Só queria que você soubesse que… essa viagem, pra mim, não é só viagem.

Helena virou devagar, encarando o perfil dele. O maxilar firme, o olhar focado na estrada, mas a mão quente ainda ali, na perna dela.

— Eu sei, Heitor. — disse baixo, mas com aquela firmeza que sempre surgia quando mais importava. — E obrigada por cuidar de tudo. Mas... não me trata como se eu fosse fraquejar. Se eu to indo… é porque eu escolhi. Tá?

Heitor assentiu, mordendo o canto da boca como quem engole um sorriso de alívio.

O carro parou em frente à casa da avó dela.

Ele virou o rosto devagar, o olhar agora só pra ela.

— Quer que eu vá contigo? Ou prefere entrar sozinha e conversar com a dona Olívia?

Helena já estava com a mão no cinto. Mas parou.

Normalmente, ela daria conta sozinha. Sempre deu.

Mas agora… não era só sobre dar conta.

Era sobre não precisar mais fazer tudo sozinha.

Ela olhou pra ele, os olhos castanhos brilhando no escuro do carro.

E disse, simples:

— Vem comigo.

Heitor piscou. Por um segundo, o homem seguro e provocador virou só alguém que tinha acabado de receber um convite que não esperava — e que não queria desperdiçar.

— Sério?

— Tô falando à toa, por acaso? — ela ergueu uma sobrancelha. — Desce antes que eu me arrependa.

Ele saiu do carro tão rápido que quase esqueceu de puxar o freio de mão.

Deu a volta, abriu a porta pra ela, e quando ela desceu, entrelaçou os dedos nos dela como se aquilo fosse o jeito mais natural de caminhar pelo mundo.

— Tu sabe que isso aí… é quase um “te amo”, né?

— Heitor…

— Tô falando sério, pô. Tu me chamando pra conversar junto com tua avó? Isso aí é reunião formal com a rainha.

— Menos. — ela riu, balançando a cabeça. — Não vai falar isso pra ela não, que a velha já se acha demais.

— Ah, mas ela me adora. — ele rebateu com um sorriso. — Eu sou educado, cheiroso, salvo você das piores e ainda te beijo do jeito certo. Como que não vai gostar?

Helena apertou os dedos dele com leveza.

E seguiu em frente.

Com ele ao lado.

Com o mundo mudando devagar.

Com a coragem que só se tem quando se sabe que tem pra onde voltar — ou melhor: pra quem.

E ali, na porta da casa onde tanta coisa começou…

Ela soube.

Ela não tava mais indo sozinha.