O CEO que Eu Paguei
97 Sol e Salmão
A trilha era curta, mas cercada de verde por todos os lados. O som da água correndo ficava mais alto a cada passo.
Heitor segurava a mão de Helena com firmeza, mas o toque era leve — como quem guia, não como quem puxa.
— Você tem certeza que sabe o caminho? — ela perguntou, desconfiada, desviando de um galho.
— Eu sou carioca. — ele respondeu, debochado. — Nunca me perco, sempre estou no lugar certo.
— Olha… qualquer coisa, se eu cair, você que vai me carregar.
Heitor virou de lado, olhando pra ela de cima abaixo, e soltou:
— Ia ser um prazer. Inclusive, se quiser fingir um desmaio agora…
— Heitor! — ela riu, empurrando o ombro dele. — Para de palhaçada.
Poucos minutos depois, a trilha terminou.
A cachoeira apareceu como um presente no meio da mata, um véu de água cristalina caindo sobre pedras grandes, com uma piscina natural de água verde-clara. Havia uma ou duas pessoas por ali, mas nada que roubasse o encanto do lugar.
Helena parou com a boca entreaberta.
— Nossa…
— Gostou?
— É lindo.
Heitor largou a mochila numa pedra e tirou a camisa.
Helena fingiu que não olhou, mas os olhos escorregaram.
Peitoral marcado, ombros largos, costas largas... e aquele sorrisinho idiota de quem sabe o efeito que causa.
Ela começou a tirar o vestido devagar. E Heitor… travou.
O biquíni, justo, o corpo moreno, a pele molhada de leve pelo suor do caminho. As pernas, os quadris dela e os olhos brilhando por trás dos óculos escuros.
Ele assobiou baixo, do jeito típico.
— Isso é… uau.
— Isso é o mínimo — ela rebateu, ajeitando o cabelo. — Você que escolheu esse biquíni.
— Eu realmente sempre faço as melhores escolhas.
Ambos entraram juntos, devagar, os pés sentindo as pedras e a pele reagindo ao toque gelado da água. Helena gritou baixinho quando a água tocou sua barriga. Heitor gargalhou.
— Não é possível, você é criada no interior e tá gritando com água fria?
— Água fria é pra plantar, não pra entrar, seu idiota.
Ele riu mais ainda e foi até ela, mergulhando rápido e subindo do outro lado. Quando ela tentava se afastar, ele apareceu e jogou água nela, de propósito.
— Heitor, se você me molhar mais uma vez...
— Opa, agora é tarde!
Ela mergulhou atrás dele e os dois começaram a brincar na água. Riam, corriam, um jogando água no outro, até que Heitor segurou ela pela cintura e a levantou.
— Olha a sereia do cerrado!
— Me põe no chão!
— Vai ter que pedir com jeitinho.
Helena agarrou o pescoço dele e sussurrou:
— Se eu te der um beijo, você me solta?
Heitor piscou, safado.
— Só se o beijo for com língua.
Ela riu, mas beijou. Um beijo molhado, com gosto de água e de riso. Ele a soltou devagar, e os dois ficaram parados, ali, com as testas encostadas.
Por um instante, tudo se calou.
Helena olhou nos olhos dele.
— Obrigada por me trazer aqui.
Heitor passou os dedos pelo rosto dela.
— Você é meu descanso no meio da guerra.
Helena revirou os olhos.
— Que brega.
— E você gosta.
— Gosto. — ela disse, baixinho.
Ele a puxou de novo. E no abraço dentro da água, com o som da cachoeira e o vento entre as árvores, Helena sentiu algo novo.
Não era só tesão.
Não era só carinho.
Era o conforto de saber que alguém ali… sabia que ela valia o mundo inteiro.
O sol já estava alto.
A luz batia direto nas costas de Helena, que agora se sentava em uma pedra próxima à margem.
A água ainda pingava do cabelo preso no alto, e a pele morena parecia brilhar com mais força naquele cenário verde e vivo.
— Passa protetor solar em mim? — ela pediu, entregando o frasco.
Heitor pegou e olhou a embalagem com desconfiança, como se fosse veneno.
— Fator cinquenta? Tá tentando me apagar do mapa?
— Não, tô tentando te salvar da insolação. Você é branco, Heitor.
— Eu sou moreno, mulher. — ele falou indignado apontando para a própria pele — Sou mais moreno que você.
— Você é quase rosa. Parece um salmão. Eu vou ter que te virar de lado no sol pra grelhar igual.
Ele riu, se ajoelhando atrás dela, e começou a espalhar o protetor.
Os dedos passavam lentos pelos ombros, pelas costas, e vez ou outra desciam mais do que deviam.
— Isso aí é para me proteger ou tentativa de me distrair? — ela perguntou, sem se mover.
— Um pouco dos dois.
Ele deixava beijos leves na nuca entre um toque e outro.
Ela fingia que não gostava. Mas o sorriso nos cantos da boca denunciava tudo.
— Agora você. — ela disse, pegando o frasco de volta.
Heitor deitou de barriga pra baixo na toalha, os braços dobrados sob a cabeça.
As costas largas, brancas, quase brilhando sob o sol.
Helena se ajoelhou ao lado dele e soltou, debochada:
— Parece que eu vou passar protetor em uma tábua de frios.
— Respeita. Isso aí é pele de homem sério.
— Isso aí é pele de quem vive em sala com ar-condicionado.
Ela espremeu o creme nas mãos e espalhou, devagar, começando pelos ombros.
A pele dele era quente, firme e macia, e a cada passada, os dedos dela escorregavam um pouco mais — mais lentamente do que o necessário.
Heitor soltou um suspiro abafado.
— Tu tá querendo me deixar de pau duro no meio do mato?
— Não tô querendo. Já deixei. — ela rebateu, com um sorriso cínico, massageando as costas dele com a palma cheia.
Ela passou pelas escápulas, desceu pelas costelas até a cintura.
Os dedos foram mais ousados, chegando na linha do cós da sunga.
A pontinha do dedo mínimo chegou a roçar ali, só pra provocar.
— Helena…
— O que foi?
— Mais um centímetro e eu viro de barriga pra cima.
Ela deu um tapinha leve.
— Vai dar trabalho pra esconder esse “centímetro” todo, hein?
— Tu que começou.
— Eu só tô cuidando da sua saúde, Monteiro. Prevenção é tudo. Principalmente pra pele clara e safada.
Heitor virou um pouco o rosto, espiando por cima do ombro com aquele sorriso de canto, meio rindo, meio ferrado.
— Tu me provoca desse jeito e ainda quer que eu volte pra água?
— Não quero. Quero que você fique de pau duro em silêncio, enquanto eu passo protetor como uma dama.
Ela deslizou as mãos de novo pelas costas dele, fazendo círculos lentos, e depois subiu até os ombros, deixando um beijo ali, quente, perto do pescoço.
— Pronto. Já tá protegido. Do sol. Do resto, você se vira.
Heitor virou de lado e puxou ela pela cintura.
— Tu me dá vontade de cometer pecado no meio da natureza.
— E você me dá vontade de te jogar na água gelada antes que me agarre aqui mesmo.
— Melhor não se esfregar muito em mim, mulher. Ou eu não respondo por mim.
Ela levantou, satisfeita, e respondeu com aquele olhar de canto que acabava com ele:
— Aproveita que eu tô te ajudando a não morrer de insolação. Mas se tu pedir com jeitinho... eu passo nas partes que o sol nem chega.
Heitor deitou de costas de novo, olhando pro céu, rindo:
— Eu vou casar contigo, Helena Ribeiro Campos.
— Por enquanto, só passa protetor. O resto a gente negocia.
Depois de um tempo deitados ali, com o sol aquecendo as peles e o som da água sendo a trilha sonora da paz, Heitor levantou animado:
— Bora pular daquela pedra ali?
Helena arqueou uma sobrancelha, já conhecendo o tom de voz.
— Heitor… você tem trinta e nove anos.
— E um espírito de vinte.
— E uma coluna de cinquenta.
Ele gargalhou.
— Confia em mim. Eu já pulei de pedra muito pior.
— Só quero que saiba que se você bater a cabeça, eu vou terminar com você antes de chamar ajuda.
— Então é bom eu cair bonito.
Heitor correu pela trilha pequena e subiu na pedra com a mesma confiança de um menino tentando impressionar a garota da escola. Helena observava com os braços cruzados, já sabendo que ele ia fazer alguma merda.
— Avisa quando for pular! — ela gritou.
— Tô esperando você dizer: “vai, meu gostoso!”
— Vai, meu velho teimoso!
Ele riu e saltou. A queda foi limpa, perfeita. Ele emergiu da água sacudindo o cabelo e gritando:
— Tu viu isso?! Acho que bati até um record!
— Vi. E tô com vergonha alheia até agora.
— Mas se eu tivesse quebrado o pescoço, tu ia chorar, né?
Helena deu um sorriso de canto, tentando esconder que sim.
— Helê.
— Que foi?
— Vem, entra comigo.
— Pra pular? Nem fodendo.
— Não. Só vem.
Ela hesitou, cruzou os braços, olhou a água como se ela tivesse culpa.
— Tá muito gelada.
— Tá perfeita. — ele respondeu, ainda com o cabelo pingando e aquele sorriso de quem já sabia que tinha vencido.
Helena mordeu o lábio, analisou o caminho com o olhar.
Deu um passo. Depois outro.
Quando a água tocou os joelhos, ela prendeu o ar.
— Cacete… tá muito fria!
— Eu te esquento. Entra comigo vai.
Ela foi mais um pouco, a respiração acelerando.
— Heitor, se você me molhar de uma vez eu juro que…
Ele já estava vindo.
Braçadas lentas, a água cortando ao redor dele como se o corpo fosse feito pra estar ali.
O olhar preso nela.
— Eu não vou molhar. — ele falou, parando perto, ainda com um metro de distância. — Eu só quero tu aqui.
Helena parou. A água já batia na coxa.
O coração batendo mais que o frio.
— Você é ridículo.
— E tu é linda. Vem logo.
Ela balançou a cabeça, fechou os olhos por um segundo.
E entrou. Devagar.
Quando a água subiu pela barriga, ela soltou um gritinho fino.
— PUTA QUE PARIU!
— Bem-vinda. — ele sorriu.
Ela chegou perto dele com cara de brava e corpo inteiro arrepiado.
— Tá feliz agora?
— Tô. — ele respondeu sério. — Porque agora cê tá do meu lado.
Ela ia rebater com algum deboche, mas ele não deu tempo.
Puxou ela pela cintura e encostou o corpo no dela, molhado contra molhado.
O toque quente da mão dele compensando a água fria.
O silêncio entre os dois sendo quebrado só pelo som da cachoeira e das respirações.
Helena encostou a cabeça no ombro dele.
E ali, naquele instante, sentiu tudo.
Sem aviso. Sem cena.
Só verdade.
Foi aí que ele segurou ela mais firme.
E disse:
— Tu tem ideia do que tu virou pra mim, Helê?
Ela olhou pra cima, os olhos semicerrados por causa do sol.
E pela primeira vez… não tinha resposta na ponta da língua.
Ela passou os braços ao redor do pescoço dele e o beijou com um sorriso nos lábios.
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