Helena ainda estava com os braços ao redor do pescoço dele, os dois dentro d’água, colados, respirando fundo depois de mais uma rodada de riso e beijo.

Ele encostou a testa na dela.

E ficou ali. Só sentindo.

Ela sorriu, os olhos fechados, a pele arrepiada.

— Por que tá me olhando assim? — ela sussurrou.

Heitor passou a mão pela nuca dela, afundando os dedos no cabelo molhado.

— Porque eu não tô com vontade de te largar. Nem agora. Nem amanhã. Nem semana que vem.

Helena mordeu o lábio, sem saber se sorria ou revirava os olhos.

— A água subiu pra sua cabeça?

— Subiu foi tu pra minha vida.

Ela soltou uma risada baixa, meio rendida.

— Heitor…

Ele ficou sério por um segundo.

Os olhos firmes nos dela.

— Fecha os olhos.

— Por quê?

— Fecha, Helê.

Ela fechou, rindo.

Ele encostou a boca na bochecha dela e falou devagar, com a voz rouca, quente:

— Quando tu abrir… a gente vai tá namorando.

Helena arregalou os olhos.

— O quê?

— É isso. Tu já manda em mim, já dorme na minha cama, já me faz sorrir sempre, já me deixa de pau duro sem encostar. E ainda por cima… tá comigo.

Ela apertou os dedos no pescoço dele.

— Isso é uma proposta?

— Não, Helena. Isso é uma constatação. Tu já é minha. Só falta botar nome na coisa.

Ela ficou olhando pra ele.

A água pingando do cabelo. O corpo quente, mesmo dentro d’água.

Os olhos dele estavam ali, completamente dela.

O peito dela subia e descia devagar.

— Então fala direito — ela disse, com a voz baixa. — Do seu jeito. Mas fala.

Heitor suspirou e enfiou a mão na água, segurando firme a coxa dela por baixo.

— Helena Ribeiro Campos… Quer ser minha mulher oficialmente? Me maltratar quando quiser, rir da minha cara, puxar minha orelha e dividir o cobertor? Quer andar de biquíni e óculos escuro do meu lado com pose de rica e cara de brava? — seus olhos azuis brilhavam com seriedade — Porque não tem nenhuma outra mulher neste planeta que possa ocupar essa função. Quer ser minha namorada?

Ela respirou fundo.

A resposta veio rápida e crua.

Como tudo entre eles.

— Já sou, Monteiro. Só não tinha assinado.

Heitor sorriu. Lento.

Um sorriso de quem sabia que, a partir dali, o mundo podia explodir, ele não soltava mais.

— Então assina aqui. — ele puxou o rosto dela com a mão molhada e beijou. Beijou devagar, firme, com a água batendo nos corpos e o tempo parando em volta.

Ali, entre o barulho da cachoeira e os dedos apertando com força a pele um do outro, não tinha anúncio.

Não tinha palco.Só tinha eles.

E agora… com nome.Ela encostou o rosto no ombro dele depois do beijo, respirando fundo.

Os olhos meio fechados, o coração batendo alto demais.

Heitor segurava a cintura dela com força, mas a mão afrouxou só um pouco — como se quisesse memorizar aquele instante com as pontas dos dedos.

— Tu tá rindo, né? — ele murmurou contra o cabelo dela.

— Não tô.

— Tá sim. Te conheço.

— É que… — ela deu de ombros, sem desgrudar dele. — Você me pegou de surpresa, só isso.

— Tu tá feliz, Helê.

— Eu não tô…

Ele afastou só um pouquinho o rosto, e levantou o queixo dela com um dedo.

— Cê tá com essa cara de quem quer rir e fingir que não tá. Tu é péssima atriz.

Ela tentou esconder o sorriso mordendo o lábio.

Falhou.

— Ridículo.

— Apaixonado, você quis dizer.

Helena deu um leve empurrão no peito dele, só de charme.

— Então era por isso, né?

— O quê?

— A aliança.

— Você me deu pra isso. Pra me laçar de vez.

Heitor sorriu, mas o olhar ficou mais sério.

— Eu comprei pra te marcar, sim. Mas também queria que, quando tu olhasse pra ela… Lembrasse de mim. Mesmo longe. Mesmo se a gente brigasse.

Ela ficou quieta por um segundo.

— Mas agora, tu vai olhar… E lembrar que sou teu namorado. Que sou o homem da tua vida.

Helena riu. Baixo.

Mas com aquele brilho nos olhos que ela odiava admitir que tinha.

— Arrogante.

— Realista. Você sabe que sou.

Ela olhou pra própria mão, girando discretamente o aro no dedo.

— Então quer dizer que agora… você é meu?

Heitor arqueou uma sobrancelha.

— Helena… eu sou seu há muito tempo. Tu que demorou pra aceitar.

— Pode parar, Monteiro.

— Minha namorada, pô.

— Não começa.

— MINHA. NA. MO. RA. DA. — ele falou, sílaba por sílaba, com aquele sorriso de quem sabe que venceu.

Ela fechou os olhos e balançou a cabeça, mas não conseguiu conter o riso.

— Se você falar isso em voz alta perto de alguém, eu te dou uma joelhada.

— Pode dar. Mas vou continuar falando. Porque agora tu é minha oficial. Assinada. Reconhecida. Carimbada com beijo molhado.

Helena pegou um pouco de água com a mão e jogou no rosto dele.

— Cala a boca, Heitor.

Ele puxou ela de novo. Beijou a bochecha molhada, o canto da boca.

— Agora tu se fudeu, Helena. Porque eu sou um namorado pegajoso.

— Não é nada.

— Sou sim. Vou postar foto nossa. Vou te chamar de "minha" no grupo da firma. E vou mandar mensagem dizendo “chegou bem?” como um velho apaixonado.

Helena riu alto.

E dessa vez, nem tentou disfarçar.

— Eu odeio você.

— Que nada, cê me ama, namorada.

Ela empurrou ele pela testa.

Mas depois puxou de volta.

E deu mais um beijo.

Porque agora era oficial.

Heitor saiu da água primeiro, subindo pelas pedras com a mão estendida pra ela.

— Vem, Helê. Cuidado aí.

— Se eu escorregar, tu que vai apanhar.

Ela colocou a mão na dele e ele puxou com firmeza.

No meio do movimento, ele segurou pela cintura e levantou no colo, como quem não queria que ela pisasse nem na pedra molhada.

— Que isso? Tá achando que eu sou princesa agora?

— Não. Tô achando que você é minha. E eu quero te carregar, pronto.

Helena cruzou os braços enquanto ele a levava até a toalha estendida na sombra de uma árvore.Mas o rosto? O rosto tava sorrindo.

Ele a colocou sentada com cuidado, pegou a mochila, ajeitou tudo com pressa de quem só queria deitar com ela.

Se jogou de bruços na toalha, com a cabeça no colo dela, o cabelo ainda pingando, os braços estendidos.

— Agora sim. Paz. Namorada e travesseiro de colo tudo no mesmo pacote.

— Você é muito folgado, Monteiro.

— SEU namorado folgado.

Ela pegou o cacho de uva que tava dentro da sacola térmica, tirou uma das frutas e encostou nos lábios dele.

— Abre.

— Vai me alimentar agora? — ele sorriu, os olhos fechados.

— Vai ficar sem se não calar a boca.Ele abriu. Ela colocou a uva.

— Tô vivendo um sonho — ele murmurou com a boca cheia. — Tomando banho de cachoeira, deitado no colo da mulher que eu amo, ganhando uva na boca…

Helena sentiu o rosto queimar de uma forma que nem o protetor de fato cinquenta conseguia segurar.

— Cala a boca, Heitor. Engole primeiro.

Ela deu outra uva.

— Agora que tu é oficialmente minha namorada, tem uma coisa que eu quero.

— Ah não. Lá vem.

— Um apelido.Helena arqueou uma sobrancelha, desconfiada.

— Que tipo de apelido?

— Sei lá. Um nome carinhoso. Um “meu” que só tu me chama.

Ela deu uma risada curta.

— “Heitor” e “Monteiro” já são nomes suficientes pra mim.

— Não. Quero um que só você pode usar. Tipo… “amor”, “vida”, “meu homem”, sei lá.

— Heitor…

— Pensa aí. Me chama de alguma coisa. Inventa um. “Mozão”, “cheiroso”, “deus grego”, “gostoso”…

Helena riu, balançando a cabeça.

— “Cansativo” parece bom.

— Aceito. Se vier da minha namorada, até “chato” vira mel.

Ela mordeu uma uva e fingiu ignorar.

— Tô falando sério, Helê. Quero um apelido. Um que só você usa. Porque agora tu é minha. E eu quero que o mundo saiba… mas também quero que só eu saiba quando você fala assim comigo.

Ela olhou pra ele.

O cabelo molhado, a barba por fazer, os cílios longos de quem parecia em paz pela primeira vez em muito tempo.

— Tá bom. — ela disse, passando os dedos devagar na linha da testa dele. — Eu vou pensar em um.

— Jura?— Juro. Mas se eu achar um ridículo, vou usar só pra te irritar.

— Pode usar. Se for tua voz me chamando… já ganhou.

Helena baixou os olhos, sorriu e colocou mais uma uva na boca dele.

— Toma, namorado exigente.

Heitor mordeu com gosto.E ficou ali, deitado no colo da mulher dele.

O corpo relaxado, o coração entregue.

E o mundo, enfim, no lugar.

Ele ia falar mais alguma besteira quando o celular vibrou na bermuda jogada perto da toalha.

Heitor esticou o braço, viu o nome na tela. “Pai”.

O corpo dele enrijeceu sem querer. Ele respirou fundo.

— Me dá um minuto, amor. — falou mais baixo, já se levantando.

Helena assentiu com a cabeça, tranquila.

Ele caminhou até uma parte mais afastada das pedras e atendeu.