O celular ainda vibrava na mão dele quando atendeu.

Na tela: PAI.

— Fala, pai.

A resposta veio direta, sem boa tarde, sem rodeio:

— Onde tu tá?

— Ué, tô em Uberlândia.

— Uberlândia?! Tu sumiu do mapa, Heitor. É CEO agora e virou espírito?

— Eu tô trabalhando. Home office. Resolvendo tudo remotamente, como a gente combinou.

— CEO de home office é o caralho, porra! — o grito veio tão forte que Heitor afastou o celular do ouvido por reflexo. — Isso aqui não é startup de moleque que dá curso na internet e acha que é bilionário. Você é MONTEIRO. E o nome Monteiro tem peso. Responsabilidade e tradição.

— Tô voltando semana que vem. Segunda eu tô aí.

— Quarta. No máximo. Tem reunião com o Conselho, com os acionistas, com fornecedores. O marketing tá de cabeça pra baixo desde a última campanha e você... sumiu. Pensei que estava trabalhando. Foi brincar de romance no interior?

Heitor fechou os olhos, esfregou a testa com os dedos. O tom do pai já estava anunciando onde aquilo ia chegar.

— Já tá tudo encaminhado. Eu tô cuidando de tudo daqui. Até mais do que quando eu tava no Rio.

— Tua mãe tá decepcionada. Brava. Quase não menciona mais teu nome nos jantares. E sinceramente? Eu entendo ela. Você com quase quarenta anos, sumindo com uma… qualquer... Heitor... tu tá colocando aliança por causa de uma foda?

A frase bateu no peito como uma pedrada.

Heitor não respondeu de imediato. Cerrou os olhos. A mandíbula travou e os olhos se encheram de raiva.

— Cuidado com as palavras, pai. Ela tem nome. Helena. E não é só uma foda. É a mulher que eu escolhi.

— Heitor... — o pai suspirou, o tom agora era ácido — tu pode ter qualquer uma. Qualquer uma. Tua mãe passou anos preparando o caminho. Marcela, a Bianca, até a filha do embaixador. Mulheres lindas, educadas, discretas. Com sobrenome. Do nosso meio. Mas você escolheu justo o tipo de mulher que irrita a sua mãe. Que faz o sangue da Celina ferver.

— Eu não escolhi a Helena pra agradar ninguém. Eu escolhi ela porque ela é a única que faz a porra do meu mundo fazer sentido. Ela me trata como o homem que eu sou. Me vê como eu. E eu não abro mão disso.

— Tá pensando com a cabeça de baixo. Mulher assim… a gente gosta, claro. Mas não põe no altar. Tu sabe disso. Se quer bancar, aluga um apartamento e dá conforto pra ela. Visita quando der. Mas estragar sua vida? Por ela?

Silêncio. Um segundo. Dois. Heitor cerrou os olhos, mordeu o lábio inferior. A respiração veio pesada, como se ele estivesse se segurando pra não dizer mais do que devia.

— Eu não vou alugar apartamento nenhum. Ela não é amante. Ela é minha mulher. E vai ser minha esposa um dia.

— ...

— Se ela te incomoda, o problema é seu. Porque pra mim, ela é tudo que faltava.Eu sou Heitor Monteiro. E eu tenho nome. E esse nome… eu vou dar pra ela. Com orgulho. Quer vocês queiram ou não.

— ...

— E eu espero que um dia o senhor e minha mãe saibam enxergar ela como eu vejo. Mas até lá… não ouse desrespeitar.

Mais um silêncio. Mas agora… mais tenso.

Mais pesado. Mais definitivo.

— Heitor…

— Tô indo quarta. Mas eu não volto sozinho. Ou me aceitam com ela. Ou aprendem a lidar com o vazio da minha cadeira.

E ele encerrou a chamada.

Sem hesitar.

O peito batendo forte. A respiração pesada.

Mas o coração… mais forte do que nunca.

Virou devagar. E ali estava Helena.

Sentada com as pernas dobradas, o vestido subido na lateral, o cabelo preso de qualquer jeito, o celular na mão e um sorriso bobo nos lábios.

A pulseira que ele tinha dado brilhava no braço.

E mesmo sem saber o que tinha acabado de acontecer…

Heitor soube.

Não importava o tamanho do império.

Nem o peso do nome.

Ele estava pronto pra perder tudo.

Menos ela.

O celular ainda estava quente na mão dele quando a ligação terminou.

Heitor soltou um suspiro longo, lento, como se algo pesado tivesse descido pela garganta. Helena, parou o que fazia e olhou pra ele com atenção.

Ele ainda encarava o aparelho, como se a conversa ecoasse ali.

— Era seu pai? — ela perguntou, sem rodeio.

Heitor assentiu, mas sem disfarçar o incômodo no olhar.

Helena não perguntou mais nada de imediato. Só caminhou até ele, devagar. Se sentou ao lado, o joelho esbarrando no dele.

Esperou.

Ele fechou os olhos por um instante, passou a mão no rosto e disse, quase num desabafo:

— Ele quer que eu volte pro Rio.

— E você vai?

— Vou. É coisa da empresa. Meu tuor pelas filiais está mais extensa que o prevcisto. Mas…

Ele olhou pra ela, com mais firmeza agora:

— Eu não volto sozinho.

Helena sustentou o olhar por alguns segundos. Ele continuou.

— Você vem comigo, Helê. Eu quero que venha. Quero te levar pra minha cidade. Pro meu mundo.

Ela demorou um segundo pra reagir.

Não por medo. Mas por história.

— E se o seu mundo não quiser me receber?

— O meu mundo começa onde você entra. O resto… se adapta.

Ela mordeu o lábio inferior, sem desviar o olhar.

— Heitor… e meu emprego? E minha avó? Minha vida tá aqui. Eu lutei muito pra ter o pouco que tenho. Eu não quero abrir mão do que conquistei.

— E eu não quero que faça. Eu não quero que você desista de nada. Seu emprego eu dou um jeito, já pensei em algo. Sua avó se ela quiser ir é muito bem-vinda, mas se ela não quiser — ele desvia o olhar pensativo e depois volta para ela — ela pode ficar com o Tótó na minha casa no condomínio, fazendo companhia para a Cidinha.

Ele pega as duas mãos dela e coloca entre as dele.

— Quero que leve tudo com você. O seu trabalho, sua avó, sua rotina, seu temperamento impossível... Mas leva comigo. Com os dois pés. Não como quem foge, mas como quem escolhe. Escolhe a mim.

Ela engoliu em seco.

— E sua família? Sua mãe?

Ele respirou fundo. Disse com calma, mas sem perder a firmeza:

— Não gostaram. Não da gente. Não da minha demora. Eles esperavam outra mulher. Outra versão de mim.

— Outra mulher tipo... uma que combina com a imagem?

— Uma que não chega no chão que você pisa. Que sabe sorrir em silêncio. Que não me chama de idiota quando eu mereço. Uma que não bate de frente. Uma que nunca me fez sorrir com toda a minha alma, como você faz.

Helena encarou ele por um instante.

— E você? Vai me proteger ou vai me esconder?

Heitor se inclinou um pouco, a voz mais baixa, mas certeira:

— Eu sou Heitor Monteiro. E se esse nome pesa, é porque eu passei a vida carregando sozinho. Agora… você vai carregar comigo.— ele acaricia as mãos dela — Você é Helena Ribeiro Campos — os olhos azuis dele estão densos e decididos — E se alguém ousar achar que você é menos… vai ter que me encarar primeiro. Porque você não ocupa espaço. Você é o espaço inteiro.

Helena abaixou o olhar.

— Eu não quero ser o motivo de briga na sua família, Heitor.

— E eu não vou ser o tipo de homem que abaixa a cabeça só pra agradar quem não se importa de verdade. Eles vão ter que aprender. Ou vão me perder.

Silêncio.

Depois, ela falou com aquele tom firme, mas vulnerável que só aparecia quando o medo encontrava o afeto.

— Você vai mesmo me levar?

— Se você quiser ir… sim. E não pra te obrigar. Mas porque você virou casa. E eu quero que o Rio conheça quem me fez voltar pra mim mesmo.

Ela soltou um riso curto, quase sem querer.

— Ainda bem que você é bonito. Porque esse seu jeito de falar... ia me quebrar de qualquer jeito.

Ele colou a testa na dela, e com um gesto lento, trouxe as mãos dela até seu peito, como se quisesse mostrar que ali batia o coração que agora era dela.

— E eu sou seu namorado agora. Tá ouvindo? Namorado. Me trata com respeito.

— Vou pensar se você merece.

— E pensa num apelido. Porque Heitor e Monteiro tão muito institucionais.

— Vou pensar. Mas se me irritar...

— Viro “ex”?

— Não. Vira “aquele que vai dormir no sofá”.

Eles riram.

Juntos.

Com medo, com planos, com desejo.

Mas, acima de tudo, com verdade.

Heitor não sabia se o Rio tava pronto pra ela.

Mas sabia, com uma clareza que doía, que ele não tava mais disposto a viver em lugar nenhum onde ela não estivesse também.