O CEO que Eu Paguei
100 Ainda Parece Sonho
Helena encostou a testa no vidro da janela enquanto o carro cruzava a avenida principal da cidade. A folhagem das árvores balançavam devagar com o vento daquela manhã de segunda, e o céu ainda estava um pouco nublado, como se o mundo hesitasse em acordar de verdade.
Mas ela já estava desperta.
Desde a noite passada.
Desde o beijo de despedida no portão da casa da avó.
Desde o momento em que se pegou encarando a aliança branca e brilhante no dedo.
Ela era… namorada de Heitor Monteiro.
Deu um sorriso largo e bonito, como quem ri da própria ousadia. Aquilo era real mesmo? Porque tudo ainda parecia sonho. Um sonho bom demais. Um desses que deixam o estômago gelado e o peito quentinho ao mesmo tempo.
Helena olhou de novo para a aliança, delicada, elegante, mas com um brilho sutil demais pra ignorar. Como o próprio Heitor.
Uberlândia tinha sido mais que uma viagem.
Foi um divisor. Uma queda de muro.
E agora... agora ela ia com ele para o Rio.
Conhecer a família dele.
O mundo dele.
Ela engoliu em seco.
Esse era um universo no qual ela nunca nem ousou sonhar em entrar. Mas, de alguma forma, ele puxou sua mão com a maior naturalidade do mundo. Entrou na realidade dela, com o chão de taco, cheirinho de café recém coado e no dia a dia, como se sempre tivesse pertencido ali.
Quando o carro parou em frente ao prédio da Monteiro Inc., Heitor saiu primeiro. Abriu a porta com a naturalidade de quem já fez aquilo muitas vezes, e realmente sempre fazia, para ela. Estendeu a mão em direção a ela. Helena hesitou por dois segundos, mas aceitou.
Mãos entrelaçadas.
O problema é que ele continuou com elas entrelaçadas até o saguão. E seguiu assim. Pela recepção. Até o elevador.
Quando as portas se fecharam, ela murmurou, de canto de boca:
— Heitor… já tá bom, né?
— Que foi? — ele fez aquela cara que misturava malícia com ofensa fingida. — Vai começar a namorar com vergonha de mim?
— Não é isso. — ela riu, mas soltou a mão. — Só… aqui não. Já tá todo mundo olhando.
— Problema de quem olha. — ele deu de ombros. — Se quiser, mando uma nota oficial dizendo que você é minha mulher. Resolve logo.
Helena rolou os olhos, deu um empurrão leve no braço dele e entrou no elevador com um suspiro.
Mas por dentro…
O coração dançava.
Quando as portas se abriram no andar da Plano & Forma, Helena sentiu.
Os olhos.
Os cochichos.
Aquela energia silenciosa que se espalha quando todo mundo viu, mas finge que não viu.
Ela não comentou.
Mas o incômodo veio.
Como uma pedra pequena no sapato: não impede de andar, mas machuca de leve o dia inteiro.
Heitor parecia alheio a tudo. Ainda sorria quando se virou pra ela, já em frente à porta da sala:
— Vai ser um dia puxado. Tenho que alinhar tudo pra gente ir pro Rio.
— Você vai conseguir mesmo?
— Claro que vou. Já tá certo. — ele disse, com aquele olhar firme. — A gente vai junto.
Helena mordeu o lábio inferior.
“A gente vai junto.”
Aquela frase fazia alguma coisa no peito dela.Mistura de alegria, nervoso e um susto leve, do tipo bom, mas que muda tudo.
Heitor deu um beijo demorado na testa dela.
E foi.
Assim que a porta se fechou, ela sentiu.
O peso do ambiente.
O silêncio cheio de subtexto.
Os colegas da Plano estavam todos ali.
Ana Alice com a sobrancelha arqueada.
Hugo e Júlia tentando parecer ocupados, mas com a cara de quem esperava o episódio dois da novela.
Clara com uma expressão neutra — o tipo de neutralidade que só guarda opinião pra usar na hora certa.
Helena respirou fundo.
Endireitou os ombros.
Caminhou até sua mesa com a postura de quem pisa firme pra não afundar, mesmo que por dentro o chão estivesse um pouco escorregadio.
Mas ela era Helena Ribeiro Campos.
E agora, além de tudo o que já era…
Ela também era namorada de Heitor Monteiro.
E isso — gostassem ou não — não era fase.
Era fato.
Helena mal tinha se sentado e ligado o computador quando Hugo apareceu do nada, equilibrando um iogurte na mão e o celular na outra.
— Acordei com o Instagram gritando. — disse, puxando a cadeira da frente sem cerimônia. — Você e o chefe... assim, de casal oficial, mão dada, ALIANÇA e curtindo o sol. Quer me matar?
— Não é culpa minha se você é fraco pra emoção, Hugo. — respondeu Helena, com um sorriso estonteante e sem tirar os olhos da tela.
Júlia chegou logo depois, descabelada e segurando um biscoito de queijo pela metade.
— Tá linda na foto, amiga. Mas eu fiquei olhando pra aliança por cinco minutos. Eu juro. Aquilo é mesmo ouro branco?... Eu pensei: “é isso. Um homem apaixonado e com bom gosto.” Mostra Lêlê.
Helena suspirou, virou levemente o rosto e ergueu a mão esquerda — como se não tivesse esperado ansiosamente para mostrar.
A aliança reluzia no dedo — ouro branco 18k, delicada, mas marcante. Um coração vermelho central, ladeado por zircônias, e um brilho difícil de fingir que não viu.
— Gente do céu… — Júlia sussurrou, ainda mastigando. — Isso aí não é só uma aliança. Isso é uma declaração pública de amor.
— Isso aí diz: “essa mulher não pega fila no banco nem na vida.” — completou Hugo. — Inclusive, se o Monteiro tiver um primo, um irmão, um ex-vizinho… tô disponível.
— Ele é filho único, mas podemos ver se conseguimos algo para você.
— Por isso que eu te amo amiga. — Hugo retrucou, teatral. — Gente, quando for minha vez, o poder vai subir minha cabeça.
Helena riu.
— Vocês tão exagerando. É só uma aliança.
— Só?! — Júlia ergueu uma sobrancelha. — Aquilo ali não é só. É Pandora edição “eu posso e você não”.
Ana Alice passou por trás dos três com uma pasta na mão e um olhar cortante.
— Se a moda pegar, a gente vai ter que colocar dress code no contrato de namoro. A aliança já ofusca o computador.
— Deixa de recalque, Ana. — Júlia falou sem nem olhar. — Vai você lá pegar o CEO, então. Se conseguir.
Ana Alice não respondeu. Mas o andar mais duro foi resposta suficiente.
— Só se for outro, esse aqui já é meu.
Helena abaixou a mão com calma e voltou a digitar. Ainda sorrindo.
— Eu confesso… — disse Hugo, agora abrindo o iogurte. — Ver essa aliança me deu uma crise existencial. A gente fica aqui se matando, dando bom dia pra gerente, e a Helena fecha o pacote completo com jantar, beijo, sexo e joia.
— Meu ex me deu um chaveiro. — murmurou Júlia. — E era do Cruzeiro.
— Pelo menos você teve ex. O meu último date tinha uma tatuagem do Bob Esponja presidiário no peito.
Helena riu alto dessa vez.
— Meu Deus, vocês são um circo.
— E você é a palhaça premiada com o prêmio máximo. — Hugo apontou com a colher. — Mas falando sério… parabéns. Você merece amiga — ele abraça ela de lado — E ele parece que tá louco por você mesmo. Isso a gente viu antes mesmo da aliança.
Helena continuou com o sorriso, tentando se concentrar na planilha aberta.
— Ele é... complicado. Mas é meu.
— Eeee Lêlê, como as coisas mudam, né?. — comentou Júlia com um sorriso cínico — NUN-QUI-NHA, nunca vou ter nada com ele — continuou imitando a voz de Helena.
Helena riu e empurrou Júlia de leve.
O celular de Helena vibrou em cima da mesa. Uma notificação nova.
Heitor 🥰💖— sim, agora o nome do contato mudou :
“Tu nem imagina o que esse sorriso seu faz comigo. Continua assim e vou ter que te chamar para uma reunião particular com portas fechadas😋👉👌”
Helena mordeu o lábio e digitou rapidamente, sem pensar demais:
“Se controla, Monteiro. Finge que é responsável. Mais tarde eu te dou motivo pra me olhar assim.”
Ela olhou para o vidro.
E viu.
Heitor ainda estava sentado, mas o celular já baixava devagar — o polegar deslizando pela tela, o olhar fixo na tela por mais um segundo... até que ele sorriu.
Não o sorriso de homem sério.
Mas o outro.
Aquele sorriso safado, lento, de canto de boca. O tipo de sorriso que dizia sem precisar dizer:
“Hoje tem.”
E tinha.
Ele respondeu a mensagem.
Algo breve. Só um estalo digital que apareceu segundos depois:
Heitor 🥰💖:
“Já to contando os minutos, amor😈”
Em seguida, levantou da cadeira com calma, ajeitou a manga da camisa e seguiu em direção à porta.
Mas antes de virar o corredor, olhou com seus olhos azuis em direção a ela.
Pisou devagar, olhou firme, e piscou.
Helena congelou por um segundo.
A expressão de quem tenta manter a compostura… e falha.
— Iiiihhh, Helenaaaaa... — Hugo alongou o nome dela com gosto, com a colher de iogurte parada no ar. — Teu boy fez carão de safado e piscou, hein? Hoje tu não volta pra casa da vovó.
— Isso aí foi piscada de quem já tem jantar, sobremesa e bônus da firma garantidos. — completou Júlia, rindo alto.
Helena abaixou a cabeça, tentando esconder o rosto corado.
— Vocês são insuportáveis. Cala a boca, Hugo. Júlia… vai trabalhar.
— Trabalhar a respiração talvez, porque o clima aqui tá quente. — Hugo abanou o rosto com um papel qualquer.
Clara, discreta como sempre, apenas sorriu com um canto da boca e murmurou:
— E o pior é que ele nem esconde. Ele olha como quem sabe que é correspondido.
Helena se limitou a resmungar:
— Vocês não prestam.
— Mas a gente avisa. — Hugo completou, estendendo o punho para um soquinho no ar. — Aproveita o love gostosinho, minha filha.
E Helena, mesmo fingindo irritação, mordeu o sorriso nos lábios e voltou pra planilha.
Mas já era tarde.
O dia dela tinha sido feito.
Mais tarde, ela realmente iria dar motivos para ele.
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