O CEO que Eu Paguei

101 Um Nome na Mesa Grande


Ela estava concentrada na tela do computador, quando ouviu uma batida na porta

— Helena... reunião geral agora. Eduardo chamou, bora. — Clara apareceu na porta com o tablet na mão, sobrancelha arqueada.

Helena travou. Engoliu seco.

Estava tão focada nos relatórios que quase não ouviu o aviso da notificação geral.

— Você sabe do que é? — perguntou com um leve desconforto no estômago.

Clara negou com um meio sorriso. — Não sei. Mas se fosse bomba sobre você e o Heitor, acho que eu teria recebido um aviso antes, né?

— Ótimo, então agora me preocupo com outros tipos de bomba. — resmungou Helena, se levantando.

A sala de reuniões estava cheia. Luz apagada, telão ligado. O rosto de Eduardo Moreira apareceu na tela, em home office, com aquele jeito calmo de sempre. Hugo, Ana Alice e Júlia já estavam sentados. Helena entrou, escolheu o canto de sempre, tentando não parecer nervosa.

— Boa tarde, equipe. — Eduardo começou com um tom descontraído. — Sei que é meio do dia, mas prometo ser rápido, e acho que vocês vão gostar.

Alguns risos leves. Todos atentos.

— Vamos lá. Lembram do nosso concurso interno de projetos emergentes? Pois bem, há dois meses premiamos os três primeiros colocados... e eu queria reforçar um deles aqui hoje.

O telão muda. Aparece um slide simples com o título:

Projeto de Controles Internos — Helena Ribeiro

Helena arregalou os olhos.

Júlia soltou um “ihhhh, vai Helenaaa!”

Hugo começou a bater palma devagar, dramático.

Ana Alice sorriu de canto e soltou “Se destacando de novo…”.

Eduardo continuou:

— O projeto da Helena ficou em terceiro lugar no concurso há cinco meses, e sim, ela já ganhou o prêmio, o reconhecimento, os tapinhas nas costas... Mas o que vocês talvez não saibam é que esse projeto foi visto por gente grande. Muito grande.

A tela mudou de novo. Agora só o logotipo da empresa: FORT GROUP.

Um burburinho começou entre os presentes. Até Clara levantou as sobrancelhas.

— Eles nos procuraram, peço que guardem discrição por enquanto. A FORT GROUP uma multinacional familiar do ramo jurídico-tecnológico. Querem contratar a Plano & Forma para implantar controles internos na sede do Rio de Janeiro. Mas… só aceitaram com uma condição. Querem ela.

Os olhos da sala inteira se voltaram para Helena. Ela arregalou os olhos, sem saber se sorria, chorava ou desmaiava.

— Querem a Helena liderando a aplicação do próprio projeto. Com a gente, claro. Ela vai ser a nossa representante técnica principal nesse contrato. E já avisando: o nome dela está na mesa grande.

Helena sentiu as bochechas queimarem. Cruzou os braços, tentando conter o sorriso — sem muito sucesso.

— Mas não é só isso. — Eduardo continuou. — Agora a parte dois. O CEO da Monteiro Inc., o Sr. Heitor Monteiro, nos fez uma proposta de integração para estreitar laços entre os times da Monteiro e da Plano & Forma.

O nome fez os olhos de Clara deslizarem lentamente para Helena. Hugo, então, mordeu os lábios para não rir. Júlia sussurrou um “agora vem”.

— Quatro de vocês foram escolhidos para passar um tempo na sede do Rio. Hospedagem e alimentação por conta da Monteiro. É uma chance de crescimento, aprendizado, troca e... bom, sol também.

E os nomes são: Hugo, Ana Alice, Júlia... e claro, Helena.

Alguns colegas vibraram, outros também, mas com aquela invejinha . Hugo jogou os braços para cima.

— Amém, Leblon, aí vamos nós!

— Finalmente, reconhecimento — Ana Alice aplaudiu.

— Helena, finalmente dividiu a sorte com a gente — Júlia sorriu fazendo uma prece.

Helena olhou para Clara. A gestora sorriu orgulhosa.

Eduardo então finalizou:

— Clara permanece com o time aqui, ela é essencial na base. Mas conto com vocês quatro lá. Especialmente você, Helena. Esse projeto é seu e ele vai dar ainda mais nome à nossa empresa. Obrigado e parabéns.

A tela desligou.

Helena ficou em silêncio, digerindo tudo. Era real. Reconhecimento de verdade. Mérito dela. E a chance de ouro.

Mas no fundo… ela já sabia.

Tudo isso vai ter um preço.

A sala foi se esvaziando devagar, mas o coração de Helena ainda estava batendo acelerado. Quando ela cruzou a porta, sentiu os passos apressados dos três amigos vindo atrás.

— EU TÔ GRITANDO POR DENTRO! — Júlia quase tropeçou no próprio entusiasmo, batendo no ombro de Helena. — Você vai liderar um projeto pra uma multinacional, miga! Pra uma multi! Eu tô toda arrepiada!

— Não é possível que isso foi real... — murmurou Helena, ainda meio aérea.

— Real, oficial! E o melhor: a gente vai junto, amor. — Hugo jogou o braço por cima dos ombros dela. — Lêlê Palmiteira Campos, mulher de negócios, namorada do CEO…mas ainda humilde, né?

— Vou lembrar disso quando vocês pedirem autógrafo no aeroporto. — ela respondeu, tentando soar cínica, mas o brilho no olhar a entregava.

Ana Alice, andava ao lado com o celular na mão, já pesquisando os nomes com atenção de quem sabe o peso que eles têm.

— Gente… vocês têm noção de quem é o CEO da Fort Group? — ela disse, sem levantar os olhos da tela. — Antônio Fortenelle. Trinta e nove anos. Formado em Oxford. Herdeiro direto da família fundadora. O homem é tipo vinho: caro, exigente e difícil de digerir se você não tiver estômago.

— Credo, que medo gostoso. — murmurou Júlia, fazendo cara de quem se assusta, mas gosta — Será que é padrão Heitor Monteiro?

— Deixa esse para nós as suas amigas Lêlê — Hugo disse rindo empurrando Helena de leve.

— Vocês são terríveis — ela respondeu revirando os olhos.

— É sério. — continuou Ana. — Ele não contrata gente que não segura o olhar. Já li entrevistas dele dizendo que "quem engasga com a própria ideia não está pronto pra liderar".

Hugo riu.

— Uau. Vou preparar minha garganta antes de tossir perto dele.

Helena escutava atenta, com os olhos já mais sérios. Mas sem recuar.

— Então ele que venha. Porque se ele quiser testar, vai ver que aqui não tem espaço pra tropeço.

— É disso que eu tô falando! — Hugo apontou, animado. — E olha, Helena, se você fizer esse projeto render lá dentro, não se espanta se abrirem mais vaga. Inclusive, uma vaga pra essa linda aqui que vos fala — Ana Alice levantou a mão, meio rindo, meio falando sério.

Helena olhou pra ela e sorriu, sincera.

— Se abrir, você vai ser a primeira a saber.

Ana assentiu, mas os olhos estavam mais atentos agora.

— Só lembra que o Fortenelle é o tipo de homem que mede as pessoas nos detalhes. Postura, fala, decisão. Ele não avisa que tá te avaliando. Só observa. E quando decide… não volta atrás.

— Igual minha avó. — Helena respondeu com um meio sorriso. — Só que com menos café e mais cifrão.

Os três riram, mas Clara — que observava a conversa mais ao fundo, encostada na parede com o copo de café na mão — completou:

— A diferença é que sua avó te ama. Ele não.

Silêncio por um segundo.

Clara deu um passo à frente, se aproximando de Helena, e disse mais baixo:

— Então seja firme. Seja técnica. Mas seja você. Porque o que te trouxe até aqui não foi fingir que era outra. Foi ser boa do seu jeito.

Helena assentiu. Não sorriu.

Mas os olhos brilharam como quem gravava aquela frase no osso.

— Obrigada.

Júlia, mais leve, voltou ao tom descontraído:

— Agora vamos ao que interessa… A gente vai pra sede da Monteiro, né? Solão quarenta graus, ar-condicionado potente, e quem sabe alguns funcionários gatos…

— Eu vou com roupa de reunião e biquíni por baixo. — disse Hugo. — Se pintar um happy hour no rooftop, eu já tô pronto.

Helena riu. Mas no fundo… o coração batia mais forte.

Ela sabia que estava prestes a entrar num mundo que não perdoava deslize. E ainda assim…

Ela não iria recuar.

Ela ia mostrar que podia não ter pedigree, mas tinha pulso, preparo e coragem.

E era isso que ia fazer o nome dela ecoar naquela mesa grande.