A trilha era curta, mas cercada de verde por todos os lados. O som da água correndo ficava mais alto a cada passo.

Heitor segurava a mão de Helena com firmeza, mas o toque era leve — como quem guia, não como quem puxa.

— Você tem certeza que sabe o caminho? — ela perguntou, desconfiada, desviando de um galho.

— Eu sou carioca. — ele respondeu, debochado. — Nunca me perco, sempre estou no lugar certo.

— Olha… qualquer coisa, se eu cair, você que vai me carregar.

Heitor virou de lado, olhando pra ela de cima abaixo, e soltou:

— Ia ser um prazer. Inclusive, se quiser fingir um desmaio agora…

— Heitor! — ela riu, empurrando o ombro dele. — Para de palhaçada.

Poucos minutos depois, a trilha terminou.

A cachoeira apareceu como um presente no meio da mata, um véu de água cristalina caindo sobre pedras grandes, com uma piscina natural de água verde-clara. Havia uma ou duas pessoas por ali, mas nada que roubasse o encanto do lugar.

Helena parou com a boca entreaberta.

— Nossa…

— Gostou?

— É lindo.

Heitor largou a mochila numa pedra e tirou a camisa.

Helena fingiu que não olhou, mas os olhos escorregaram.

Peitoral marcado, ombros largos, costas largas... e aquele sorrisinho idiota de quem sabe o efeito que causa.

Ela começou a tirar o vestido devagar. E Heitor… travou.

O biquíni, justo, o corpo moreno, a pele molhada de leve pelo suor do caminho. As pernas, os quadris dela e os olhos brilhando por trás dos óculos escuros.

Ele assobiou baixo, do jeito típico.

— Isso é… uau.

— Isso é o mínimo — ela rebateu, ajeitando o cabelo. — Você que escolheu esse biquíni.

— Eu realmente sempre faço as melhores escolhas.

Ambos entraram juntos, devagar, os pés sentindo as pedras e a pele reagindo ao toque gelado da água. Helena gritou baixinho quando a água tocou sua barriga. Heitor gargalhou.

— Não é possível, você é criada no interior e tá gritando com água fria?

— Água fria é pra plantar, não pra entrar, seu idiota.

Ele riu mais ainda e foi até ela, mergulhando rápido e subindo do outro lado. Quando ela tentava se afastar, ele apareceu e jogou água nela, de propósito.

— Heitor, se você me molhar mais uma vez...

— Opa, agora é tarde!

Ela mergulhou atrás dele e os dois começaram a brincar na água. Riam, corriam, um jogando água no outro, até que Heitor segurou ela pela cintura e a levantou.

— Olha a sereia do cerrado!

— Me põe no chão!

— Vai ter que pedir com jeitinho.

Helena agarrou o pescoço dele e sussurrou:

— Se eu te der um beijo, você me solta?

Heitor piscou, safado.

— Só se o beijo for com língua.

Ela riu, mas beijou. Um beijo molhado, com gosto de água e de riso. Ele a soltou devagar, e os dois ficaram parados, ali, com as testas encostadas.

Por um instante, tudo se calou.

Helena olhou nos olhos dele.

— Obrigada por me trazer aqui.

Heitor passou os dedos pelo rosto dela.

— Você é meu descanso no meio da guerra.

Helena revirou os olhos.

— Que brega.

— E você gosta.

— Gosto. — ela disse, baixinho.

Ele a puxou de novo. E no abraço dentro da água, com o som da cachoeira e o vento entre as árvores, Helena sentiu algo novo.

Não era só tesão.

Não era só carinho.

Era o conforto de saber que alguém ali… sabia que ela valia o mundo inteiro.

O sol já estava alto.

A luz batia direto nas costas de Helena, que agora se sentava em uma pedra próxima à margem.

A água ainda pingava do cabelo preso no alto, e a pele morena parecia brilhar com mais força naquele cenário verde e vivo.

— Passa protetor solar em mim? — ela pediu, entregando o frasco.

Heitor pegou e olhou a embalagem com desconfiança, como se fosse veneno.

— Fator cinquenta? Tá tentando me apagar do mapa?

— Não, tô tentando te salvar da insolação. Você é branco, Heitor.

— Eu sou moreno, mulher. — ele falou indignado apontando para a própria pele — Sou mais moreno que você.

— Você é quase rosa. Parece um salmão. Eu vou ter que te virar de lado no sol pra grelhar igual.

Ele riu, se ajoelhando atrás dela, e começou a espalhar o protetor.

Os dedos passavam lentos pelos ombros, pelas costas, e vez ou outra desciam mais do que deviam.

— Isso aí é para me proteger ou tentativa de me distrair? — ela perguntou, sem se mover.

— Um pouco dos dois.

Ele deixava beijos leves na nuca entre um toque e outro.

Ela fingia que não gostava. Mas o sorriso nos cantos da boca denunciava tudo.

— Agora você. — ela disse, pegando o frasco de volta.

Heitor deitou de barriga pra baixo na toalha, os braços dobrados sob a cabeça.

As costas largas, brancas, quase brilhando sob o sol.

Helena se ajoelhou ao lado dele e soltou, debochada:

— Parece que eu vou passar protetor em uma tábua de frios.

— Respeita. Isso aí é pele de homem sério.

— Isso aí é pele de quem vive em sala com ar-condicionado.

Ela espremeu o creme nas mãos e espalhou, devagar, começando pelos ombros.

A pele dele era quente, firme e macia, e a cada passada, os dedos dela escorregavam um pouco mais — mais lentamente do que o necessário.

Heitor soltou um suspiro abafado.

— Tu tá querendo me deixar de pau duro no meio do mato?

— Não tô querendo. Já deixei. — ela rebateu, com um sorriso cínico, massageando as costas dele com a palma cheia.

Ela passou pelas escápulas, desceu pelas costelas até a cintura.

Os dedos foram mais ousados, chegando na linha do cós da sunga.

A pontinha do dedo mínimo chegou a roçar ali, só pra provocar.

— Helena…

— O que foi?

— Mais um centímetro e eu viro de barriga pra cima.

Ela deu um tapinha leve.

— Vai dar trabalho pra esconder esse “centímetro” todo, hein?

— Tu que começou.

— Eu só tô cuidando da sua saúde, Monteiro. Prevenção é tudo. Principalmente pra pele clara e safada.

Heitor virou um pouco o rosto, espiando por cima do ombro com aquele sorriso de canto, meio rindo, meio ferrado.

— Tu me provoca desse jeito e ainda quer que eu volte pra água?

— Não quero. Quero que você fique de pau duro em silêncio, enquanto eu passo protetor como uma dama.

Ela deslizou as mãos de novo pelas costas dele, fazendo círculos lentos, e depois subiu até os ombros, deixando um beijo ali, quente, perto do pescoço.

— Pronto. Já tá protegido. Do sol. Do resto, você se vira.

Heitor virou de lado e puxou ela pela cintura.

— Tu me dá vontade de cometer pecado no meio da natureza.

— E você me dá vontade de te jogar na água gelada antes que me agarre aqui mesmo.

— Melhor não se esfregar muito em mim, mulher. Ou eu não respondo por mim.

Ela levantou, satisfeita, e respondeu com aquele olhar de canto que acabava com ele:

— Aproveita que eu tô te ajudando a não morrer de insolação. Mas se tu pedir com jeitinho... eu passo nas partes que o sol nem chega.

Heitor deitou de costas de novo, olhando pro céu, rindo:

— Eu vou casar contigo, Helena Ribeiro Campos.

— Por enquanto, só passa protetor. O resto a gente negocia.

Depois de um tempo deitados ali, com o sol aquecendo as peles e o som da água sendo a trilha sonora da paz, Heitor levantou animado:

— Bora pular daquela pedra ali?

Helena arqueou uma sobrancelha, já conhecendo o tom de voz.

— Heitor… você tem trinta e nove anos.

— E um espírito de vinte.

— E uma coluna de cinquenta.

Ele gargalhou.

— Confia em mim. Eu já pulei de pedra muito pior.

— Só quero que saiba que se você bater a cabeça, eu vou terminar com você antes de chamar ajuda.

— Então é bom eu cair bonito.

Heitor correu pela trilha pequena e subiu na pedra com a mesma confiança de um menino tentando impressionar a garota da escola. Helena observava com os braços cruzados, já sabendo que ele ia fazer alguma merda.

— Avisa quando for pular! — ela gritou.

— Tô esperando você dizer: “vai, meu gostoso!”

— Vai, meu velho teimoso!

Ele riu e saltou. A queda foi limpa, perfeita. Ele emergiu da água sacudindo o cabelo e gritando:

— Tu viu isso?! Acho que bati até um record!

— Vi. E tô com vergonha alheia até agora.

— Mas se eu tivesse quebrado o pescoço, tu ia chorar, né?

Helena deu um sorriso de canto, tentando esconder que sim.

— Helê.

— Que foi?

— Vem, entra comigo.

— Pra pular? Nem fodendo.

— Não. Só vem.

Ela hesitou, cruzou os braços, olhou a água como se ela tivesse culpa.

— Tá muito gelada.

— Tá perfeita. — ele respondeu, ainda com o cabelo pingando e aquele sorriso de quem já sabia que tinha vencido.

Helena mordeu o lábio, analisou o caminho com o olhar.

Deu um passo. Depois outro.

Quando a água tocou os joelhos, ela prendeu o ar.

— Cacete… tá muito fria!

— Eu te esquento. Entra comigo vai.

Ela foi mais um pouco, a respiração acelerando.

— Heitor, se você me molhar de uma vez eu juro que…

Ele já estava vindo.

Braçadas lentas, a água cortando ao redor dele como se o corpo fosse feito pra estar ali.

O olhar preso nela.

— Eu não vou molhar. — ele falou, parando perto, ainda com um metro de distância. — Eu só quero tu aqui.

Helena parou. A água já batia na coxa.

O coração batendo mais que o frio.

— Você é ridículo.

— E tu é linda. Vem logo.

Ela balançou a cabeça, fechou os olhos por um segundo.

E entrou. Devagar.

Quando a água subiu pela barriga, ela soltou um gritinho fino.

— PUTA QUE PARIU!

— Bem-vinda. — ele sorriu.

Ela chegou perto dele com cara de brava e corpo inteiro arrepiado.

— Tá feliz agora?

— Tô. — ele respondeu sério. — Porque agora cê tá do meu lado.

Ela ia rebater com algum deboche, mas ele não deu tempo.

Puxou ela pela cintura e encostou o corpo no dela, molhado contra molhado.

O toque quente da mão dele compensando a água fria.

O silêncio entre os dois sendo quebrado só pelo som da cachoeira e das respirações.

Helena encostou a cabeça no ombro dele.

E ali, naquele instante, sentiu tudo.

Sem aviso. Sem cena.

Só verdade.

Foi aí que ele segurou ela mais firme.

E disse:

— Tu tem ideia do que tu virou pra mim, Helê?

Ela olhou pra cima, os olhos semicerrados por causa do sol.

E pela primeira vez… não tinha resposta na ponta da língua.

Ela passou os braços ao redor do pescoço dele e o beijou com um sorriso nos lábios.