O CEO que Eu Paguei
134 Sempre Nós Dois
O silêncio do apartamento era tão espesso que dava para ouvir o som da respiração deles e a respiração arfada da Mel. Heitor continuava parado, mas os olhos não desgrudavam de Helena. O semblante dele estava cansado, abatido, como se tivesse atravessado a cidade inteira carregando pedras nas costas.
Helena engoliu em seco. Procurava as palavras certas, qualquer frase que pudesse remendar o estrago, que justificasse o sumiço, que explicasse o quanto o trabalho era importante para ela. Mas nada vinha. Porque, no fundo, só uma coisa gritava em sua cabeça: nada disso importa mais que ele.
Os passos dele quebraram o momento. Fortes, decididos, ecoaram pelo piso até encurtarem a distância entre os dois. O coração dela acelerou, o corpo inteiro reagindo àquela presença que sempre parecia maior do que qualquer ambiente.
O cheiro dele a envolveu primeiro — um misto de perfume amadeirado e o sal leve do suor, como se tivesse corrido até ali. Helena sentiu um arrepio percorrer a espinha, e todas as defesas que costumava erguer se desmontaram sem resistência.
O olhar dele se cravou no dela. Azul intenso, ferido, como o mar em fúria que escondia correntezas perigosas por baixo. Ela abriu a boca, tentou começar a falar, mas não teve tempo.
Heitor se moveu de repente, num gesto rápido e instintivo. A mão grande pousou firme em suas costas e a puxou contra o peito. O abraço foi protetor e desesperado. O tipo de abraço que não dá espaço para fuga, porque carrega a verdade de quem achou que podia perder.
Helena se derreteu ali, rendida. Os braços dela o envolveram com força, e nada mais importava. Nada de empresas, de brigas, de expectativas. Só o calor daquele corpo, o som do coração dele batendo contra o dela, e a certeza absoluta de que estava exatamente onde deveria estar.
Ele demorou a soltá-la. Quando o fez, foi apenas para levar as mãos grandes e ternas ao rosto dela. Os polegares acariciando as bochechas, firmes, mas cuidadosos, como se quisessem gravar a textura da pele nos dedos.
— Que bom que você tá bem… — a voz saiu baixa, rouca, carregada de uma tristeza que Helena nunca tinha ouvido antes. — Eu fiquei tão preocupado.
As palavras dele vinham entrecortadas, como se a qualquer momento fosse desabar. E quando os olhos azuis se encheram de lágrimas, ficando ainda mais claros, ainda mais intensos, ela sentiu o coração partir.
Helena nunca imaginou que veria aquele homem — sempre tão forte, seguro, carismático, o CEO que dominava salas inteiras com um sorriso de canto — exposto desse jeito. Tão humano, tão aflito.
E tudo por causa dela.
A culpa apertou o peito dela com violência. Helena se sentiu a pior pessoa do mundo. Como pôde deixá-lo chegar a esse ponto? Como pôde ser o motivo do medo estampado no olhar daquele homem que parecia carregar o mundo nos ombros?
Heitor respirou fundo, tentando conter-se, mas os dedos dele tremiam levemente contra a pele dela.
As lágrimas subiram pelos olhos dela, a garganta se fechou, e a voz saiu chorosa, trêmula:
— Ah, Heitor… por favor, não fica assim. Me perdoa.
Ela o agarrou com força, como se tivesse medo de cair no chão se não o segurasse. Chorou soluçando no peito dele, o corpo inteiro rendido.
— Não fica triste, por favor… eu te amo. Amo você. — a voz dela saiu carregada.
Ele a envolveu num abraço com a força de quem esperou a vida inteira para ouvir aquelas palavras. Os braços de Heitor se fecharam ao redor dela, e, por um instante, tudo o que era dor se dissolveu no calor daquele toque.
— Me desculpa… — ele sussurrou no ouvido dela, a voz rouca, quebrada. — Eu fui um idiota. Eu não queria te ofender. Eu confio em você, no seu trabalho… você é incrível. Brilhante. É só que… o Fortenelle… ele não é uma boa pessoa. Eu não queria que ele se aproveitasse de você. Não porque eu duvido de você. Mas porque eu conheço ele. E a ideia de uma pessoa como ele te ter tão perto… é insuportável pra mim.
— Eu fiquei tão assustada te vendo bravo daquele jeito… — ela respondeu, soluçando, o rosto escondido no peito dele. — Aquele não é o meu Heitor. O meu Heitor é gentil. É carinhoso.
Ele a apertou mais, colando o corpo dela ao seu, sem dar espaço para o ar.
E foi ali, com o rosto enfiado no pescoço dela, que Helena sentiu as lágrimas dele escorrendo pela pele dela.
Na hora, ela congelou.
— Heitor… — tentou erguer o rosto dele, desesperada. — Amor, olha pra mim.
Mas ele só balançou a cabeça, escondendo-se mais.
— Não.
Ela tentou se afastar para vê-lo, mas ele não cedeu.
— Amor… me desculpa… — ela sussurrou, a voz embargada. — Eu não quero te ver assim nunca mais. Nunca.
Foi a primeira vez que Helena o chamou de amor.
Ele a apertou mais forte, e agora os braços ao redor da cintura dela tremiam, como se tentassem colar os pedaços de um homem que se partiu de medo de perdê-la.
— Amor… — ela repetiu baixinho, os lábios roçando a orelha dele, sentindo a respiração pesada, irregular. — Eu tô aqui. Eu não fui embora. E eu nunca vou.
A mão dela subiu devagar pelas costas dele. Acariciava como quem acalma uma fera ferida. Depois afundou os dedos nos cabelos dele, macios e densos, em movimentos lentos.
— Eu te amo. — disse firme, sem hesitar. — Te amo de verdade. Por favor, não chora mais. Você é meu. Meu amor. Meu namorado. Meu homem.
Ele tentou conter os soluços, mas o som falhou no fundo da garganta.
— A gente tá junto, tá? — ela murmurava, quase como um mantra. — Nada vai mudar isso. Nem as brigas. Nem os medos. Nem o Fortenelle. Eu errei, Heitor. Não só sobre o Fortenelle, mas por te deixar preocupado.
Ele continuava colado no pescoço dela, respirando fundo, pesado, tentando se recompor. Até que, de repente, se afastou. Rápido. Virou o rosto para o lado, envergonhado.
Com o antebraço, limpou as lágrimas que ainda escorriam. Não a deixando ver seu rosto.
— Me desculpa… — murmurou quase sem voz.
Helena viu o gesto. Sentiu o coração apertar. Colocou a mão com delicadeza no braço dele, girando-o de leve.
— Amor… — chamou, suave. — Vem cá. Me olha.
Ele recuou, balançando a cabeça.
— Não… tô parecendo um babaca.
Ela soltou um meio sorriso, firme e doce.
— Heitor Monteiro. Você nunca seria um babaca.
Ela o ouviu soltar um ar em um riso curto, mas ela continuou:
— Agora… um irritante, um insuportável, um ridículo, um idiota … sim. — o canto dos lábios dela se ergueu. — Mas é o meu idiota. O meu homem. E eu nunca abriria mão de você.
Ele deixou escapar uma risada abafada, quase tímida. Aquela risada que só ela conhecia.
Helena sorriu também, puxando-o devagar, até que ele finalmente cedeu e olhou para ela.
Os olhos azuis ainda vermelhos, o rosto vulnerável e um pouco molhado. E, mesmo assim, ele era tão lindo que doía.
Ela ergueu a mão e acariciou o rosto dele, o polegar passando pela pele quente úmida.
— Você é o homem mais lindo, mais incrível, mais forte, mais gostoso e mais importante desse mundo inteiro. E é meu.
Ele fechou os olhos sob o toque, respirando fundo, como se as palavras dela fossem a cura.
— Eu tô com você, Heitor. — ela continuou. — Não importa o que aconteça. Somos nós dois, Monteiro. Desde o dia em que você me puxou daquela boate e me fez te ver de verdade. Estamos juntos. E eu não vou a lugar nenhum. Nunca mais. Só te peço… confie em mim. — ela soltou o ar — Eu vou te provar que ainda pode confiar.
Ele abriu os olhos. Segurou a mão dela contra o próprio rosto.
— Você é muito fofa.
Helena arregalou os olhos.
— Fofa?! Eu? Heitor, a palavra “fofa” não tem absolutamente nada a ver comigo.
Ele sorriu, daquele jeito safado que só ele sabia dar.
— Pra mim, tem tudo a ver.
Ela riu, já rendida, balançando a cabeça.
— Você é realmente insuportável.
Ele encostou a testa na dela, devagar, e a beijou. Um beijo cheio de calma, como quem reencontra o lar depois da tempestade.
O beijo deles terminou suave, e Heitor, ainda colado, não resistiu a cobrir o rosto dela de selinhos — um atrás do outro, rápidos, quase brincalhões, até fazê-la soltar uma risada bonita, leve, que parecia iluminar qualquer espaço.
Helena então contraiu de leve, uma cólica suave a lembrando do corpo.
— Tô meio fraca hoje. — ela confessou, a voz baixa. — Menstruei hoje.
Heitor franziu o cenho na hora, a preocupação estampada.
— Você quer alguma coisa? Tem tudo aqui, menos… ah, merda. — ele olhou ao redor, levando a mão ao próprio rosto. — Não tem absorvente.
Helena riu, mordendo o lábio.
— Seria meio estranho se tivesse, né?
— É… — ele concordou, sem graça.
— Relaxa, tenho uns na bolsa. Amanhã a gente compra. — ela pousou a mão no braço dele, suave. — Além disso, só saiu um pouquinho e não saiu mais.
Ele ficou em silêncio por um instante, os olhos atentos. Pensativo.
— Mas não tá na época ainda. — disse sério. — Deveria vir daqui a umas duas semanas, não?
Ela estreitou os olhos, surpresa.
— Tá acompanhando o meu ciclo, é?
Heitor abriu um sorriso largo, malandro.
— Claro. Eu tenho muito interesse nesse assunto. Prioridade listada pelo meu pau.
Ela riu, empurrando o ombro dele.
— Você é ridículo. — e completou, com naturalidade: — Acho que é a mudança de ambiente. Pode ter desregulado. Isso significa que vamos ter que transar só de camisinha por um tempo.
Heitor fez uma expressão de completo injustiçado, a voz quase um lamento:
— Não brinca, Helê.
— Não é brincadeira.
Ele suspirou fundo, derrotado.
— Coitado de mim e do meu pau. Um mulherão desses na minha cama, e eu restrito. Sem sentir você derretendo em mim.
— Não seja idiota. — ela resmungou, mas com um canto do sorriso denunciando.
Heitor se sentou e a puxou para o colo, deitando o braço firme na cintura dela.
— Então me explica. — ela pediu, séria agora, os olhos fixos nele. — O que aconteceu entre você e o Fortenelle?
Heitor respirou fundo antes de falar, como quem reabriu um baú trancado.
— Eu conheço o Antônio desde os seis anos. — começou, a voz carregada. — A gente estudou junto no colégio mais tempo do que eu gostaria. Desde molequinhos. Ele sempre foi aquele tipo de criança amarga, sabe? Implicava com tudo. E especialmente comigo.
Helena acompanhava cada palavra, séria, absorvendo.
— Eu tentava entender. Juro. — ele passou a mão na nuca, quase impaciente. — Me chamavam de paciente demais. Mas eu só achava que ele era um menino triste. Tentava incluir. Mas parecia que… quanto mais eu tentava me aproximar, mais ele me odiava.
Os dedos dele tamborilaram na coxa dela, até que fechou a mão firme na coxa dela.
— O dia que tudo mudou foi quando a gente tinha 17 anos.
Helena se ajeitou no colo dele, atenta.
— Eu era capitão do time de futebol. Me esforcei como nunca. Treinei os jogadores, fiz tática, liderei. A gente ia jogar o nacional. Até tinha olheiro do Flamengo pra me ver. Era tudo. Tudo pra mim, Helena.
Ela assentiu, sentindo o peso.
— O Antônio fazia parte do grêmio esportivo. Ele ficou responsável por organizar a inscrição. Mas quando a gente chegou no estádio… não me deixaram entrar em campo. Disseram que meu nome não estava inscrito.
Helena arregalou os olhos.
— Ele…?
Heitor soltou uma risada curta, sem humor.
— Ele não me inscreveu. De propósito. Eu fui pra arquibancada em choque. E ele? Ele tava lá, Helena. Com aquela cara de deboche.
A raiva atravessava a voz dele, mesmo tantos anos depois.
— Fui tirar satisfação. Eu tava destruído. E ele disse coisas… que eu nunca mais esqueci. Praticamente riu na minha cara. Falou que eu roubava o espaço dele. Insinuou que tudo que eu conseguia era porque vinha de berço.
Heitor parou um instante, a mandíbula dura.
— Helena, eu nunca liguei pra isso. Mas o futebol era a única coisa que eu tinha conquistado sozinho. E quando ele começou a desrespeitar a minha família… quando xingou a minha mãe… — a voz baixou, áspera — eu perdi o controle. Dei um soco nele com tudo que guardei a vida inteira. Ele caiu sangrando. Precisou levar pontos. A cicatriz tá no rosto dele até hoje.
Helena segurava a mão dele sem perceber, os olhos cheios de empatia e… culpa.
— Desde aquele dia, ele virou meu inimigo. E nunca mais fingimos o contrário.
Ele respirou fundo.
— Então, quando eu te vi com ele… Não foi só orgulho. Não foi só ciúmes. Foi tudo. Foi ver o amor da minha vida com a pessoa que mais me fez mal. E que ainda deseja o pior pra mim. Me descontrolei. Disse coisas que te machucaram. Mas eu nunca quis te diminuir. Nunca. Eu só… queria te proteger. E fiz isso da pior forma possível. Me perdoa, não quis te assustar. Eu passei dos limites.
Heitor virou o rosto para ela, e agora o tom suavizou:
— Eu sei que você é forte, Helena. Que sabe se defender sozinha. Mas… você não tá sozinha. Você me tem. E mesmo que você consiga tudo por conta própria, eu ainda vou querer estar do seu lado. Sempre.
Helena ficou muda por alguns segundos. A mente rodava. Antônio tinha falado com tanta convicção, contado a história como se fosse vítima. E ela… tinha duvidado de Heitor. O coração dela se apertou, uma vergonha quente subindo no peito.
“Eu caí direitinho no papinho dele.”
Ela engoliu em seco, sentindo as palavras de Heitor atravessarem como faca. Queria se encolher. Queria sumir. Mas, acima de tudo, queria provar que ainda merecia a confiança dele.
Foi quando ele prendeu o olhar nela, a voz baixa, carregada de dor e de uma suspeita que pesava no ar:
— Você esteve até agora na empresa dele? Com ele?
Helena sentiu o estômago despencar.
Heitor respirava fundo, como se já soubesse a resposta. O azul dos olhos estava sombrio, ferido.
Ela respirou fundo, o coração acelerado. O nó na garganta queimava.
— Depois do almoço… eu fui pra Fort Group. — disse baixo, a culpa pesando em cada sílaba. — Trabalhei lá até umas duas da tarde.
Heitor manteve os olhos nela, sério, imóvel. Ela engoliu em seco, preparando-se para dizer o que mais a envergonhava.
— E depois… — ela hesitou, as mãos frias, os olhos caindo por um instante. Mas levantou o rosto e encarou o azul dele, mesmo que doesse. — Eu fui num lugar do lado… tomar uma vitamina…
Um silêncio cortante caiu.
— … Com o Fortenelle.
O olhar de Heitor mudou no mesmo instante. Aquele azul firme, que antes a envolvia, caiu em decepção.
Helena, apavorada com a reação, apressou-se em explicar:
— Eu só queria conhecer o lugar… ele disse que todo mundo da empresa ia. — falou rápido, aflita. — A gente fez o pedido, mas ele precisou ir embora. Eu fiquei, tomei sozinha.
As palavras ecoaram no vazio. Heitor não respondeu de imediato. Apenas a fitava em silêncio, os olhos sem o mesmo brilho.
— Ele parecia uma boa pessoa… — continuou, quase implorando. — Por isso eu fui com ele. Queria tirar minhas próprias conclusões. Mas… agora, conversando com você… eu vejo. Eu não devia ter feito isso. Foi errado da minha parte.
Ela buscava no rosto dele uma reação, uma palavra, qualquer coisa. Mas ele continuava quieto. A ausência da resposta doía mais que qualquer bronca.
Helena se apertou contra ele, desesperada para consertar o erro.
— Eu fui com boas intenções… mas elas estavam erradas.
Heitor fechou os olhos por um instante, soltou o ar pesado. Levou os dedos às têmporas, massageando devagar, como se tentasse aliviar um peso que não passava.
— Isso… — a voz dele saiu cansada, grave. — É mais difícil do que imaginei.
O coração dela doeu. Helena ergueu a mão e pousou no rosto dele, com cuidado, forçando-o a encará-la.
— Não vai mais acontecer. — disse firme, o olhar castanho tremendo de arrependimento. — Eu prometo.
Heitor desviou os olhos, como se lutasse contra algo dentro dele. Mas então voltou a encará-la.
— Só… não saia com ele assim. Sozinha. — falou baixo, com mágoa. — Pareceu um encontro.
O estômago dela despencou.
— Não! — protestou na hora, aflita. — Eu só queria me enturmar, mostrar que não sou uma estranha no meio deles. Não foi um encontro, Heitor, nunca seria.
Ele respirou fundo, fechando os olhos por um instante, tentando se recompor. Quando abriu de novo, a expressão estava menos dura, mas ainda ferida.
— Certo, amor. — disse, baixo, resignado.
O jeito que ele falou — não brigando, mas machucado — foi pior que um grito.
Helena engoliu o choro, encostou a testa na dele, tentando reconquistá-lo pelo único caminho que conhecia: a sinceridade dos seus sentimentos.
— Eu te amo. — sussurrou. — E não quero que você duvide disso nem por um segundo.
Heitor cedeu. As palavras tremiam quando saíram, mas havia certeza por baixo de tudo. Ele segurou o rosto dela, encostou a testa na dela e a voz ficou mais baixa, como se as sílabas precisassem se poupar para não se quebrar.
— Eu também te amo, Helê — murmurou, voz rouca, firme, mas com um peso que denunciava o dia que ele tinha passado.
Aquelas três palavras foram um sal, um alívio. Ele inclinou a cabeça e depositou um beijo molhado e tímido na testa dela. Logo depois, os dedos grandes se afundaram no volume do cabelo dela, espalhando calor pela nuca; a carícia era tão íntima, tão dócil, que Helena fechou os olhos e deixou o corpo ceder. Era como se, por um segundo, nenhum erro coubesse ali — só o abrigo.
Ele se afastou o suficiente para olhar o rosto dela, e a curiosidade prática voltou, abrindo espaço entre a ternura.
— E depois da vitamina… o que você fez? — perguntou, com aquele timbre que sempre transformava pergunta em comando suave.
Helena respirou fundo. Precisava ser honesta, e ainda assim não criar mais intrigas.
— Fui andar no calçadão. — respondeu ela, controlada. Construiu uma frase que soasse simples, para não parecer que acobertava nada. — Eu estava caminhando, tentando clarear a cabeça, sabe? Aí eu… passei mal.
O olhar dele escureceu por um segundo, a preocupação puxando as linhas do rosto..
— Passou mal? — repetiu, a voz urgente.
Ela inclinou a cabeça, lembrando-se do rosto de Jonas, aflito e meio sem jeito, e disse:
— Acho que foi o calor. Fiquei tonta. Dei sorte — e sorriu fraco — porque encontrei o Jonas. Ele me reconheceu e… me ajudou.
— O Jonas? — Heitor perguntou, surpreso e com uma ponta de alívio.
— É, o Jonas. — Helena viu a tensão do corpo dele relaxar um pouco. — Ele me levou pra casa do pai dele. Tomei banho e um remédio… acabei dormindo no quarto de hóspedes. Por isso demorei tanto.
— Helena… eu passei o final do dia e a noite procurando por você.
O peito dela se apertou.
— Você tá numa cidade que não conhece, sozinha. E o celular… desligado. — ele passou a mão pelos cabelos, exalando frustração. — Eu fiquei andando sem rumo pelo Rio, achando que… sei lá. Que alguém podia ter feito alguma coisa com você.
Helena baixou o olhar, sentindo o peso esmagador da própria culpa. Ele não estava gritando, mas cada palavra doía mais do que um soco.
— Eu devia ter avisado. — murmurou, fraca.
Ele riu curto, sem humor, balançando a cabeça.
— Eu não tô brigando. — disse, sério. — Mas, pega a visão, você passou, eu não sabia onde você estava e se o Jonas não tivesse lá? Se você tivesse desmaiado ou algo pior? Aqui no Rio tem centenas de hospitais, tem um aeroporto internacional e nem todos os bairros são seguros como esse que a gente mora. Você é minha namorada e se Deus nos livre alguém tivesse te sequestrado?— a voz dele exalava preocupação e firmeza — Eu não sabia o que fazer — ele levou a mão nas têmporas e massageou — Talvez alguém soubesse onde você tava, mas e se não soubessem? Eu preocuparia seus colegas da Plano? A sua avó? Chamava a Polícia? — ele suspirou, cansado.
Ela fechou os olhos, respirando fundo.
— Eu tive sorte, por ter encontrado o Jonas. — completou, tentando se justificar.
— O Jonas… — repetiu, mais para si do que para ela. — Vou conversar com ele depois. Ele devia ter me ligado e te levado para o hospital. — passou a mão pelos cabelos frustrado — Que história é essa de levar a minha namorada sozinha para a casa dele?
Ele a puxou para mais perto.
— Helena, vamos fazer um acordo. — disse, olhando-a nos olhos. — Mesmo se a gente brigar, ficar com raiva, triste… o que for. A gente sempre vai se responder, sempre. Nem que seja só um “tô bem, mas não quero falar agora” ou “vou passar no supermercado”.
Ela assentiu em silêncio, mordendo o lábio.
— Isso não é só pelo nosso relacionamento. — a voz dele estava grave, quase didática. — É questão de segurança.
Helena engoliu em seco. Sentiu o peso do que ele dizia, porque era a mais pura verdade. Ela o olhou, o coração apertado, e conseguiu apenas sussurrar:
— Eu não vou mais fazer isso.
Heitor suspirou, o rosto ainda carregado, mas com um alívio discreto nos olhos.
— Ótimo. — murmurou, com a mão acariciando o braço dela. — Porque eu não sei o que eu faria se algo acontecesse com você.
Heitor soltou um riso curto, voltando a trazer a leveza.
— Ainda bem que o pivete tava lá — murmurou.
Helena sorriu e sentiu o peso no peito diminuir ao ouvir o tom brando dele. Heitor continuou.
— É um moleque irresponsável, mas eu o vi crescer. Sou apegado demais a ele e ao Isaac.
A conversa entornou para leveza, e ele não resistiu a perguntar, de uma forma que soasse leve:
— Ele disse alguma coisa esquisita? — perguntou, tentando soar descontraído.
Helena franziu o cenho, curiosa.
— Tipo o quê? — Ela respirou, guardando para si as perguntas bizarras de Jonas, sobre se já tinham transado, sobre memórias inexistentes. Era melhor não abrir aquele buraco; não agora.
Subiu um olhar divertido para ele.
— Você quer dizer se ele falou da sua ex? — Helena respondeu, com uma piscadela. — Porque se for isso, não. — Soltou uma risada — Da próxima vez eu pergunto pra ele.
Ele puxou a cintura dela mais pra perto, roçando a boca na dela de propósito.
— A única mulher que eu quero nesse mundo tá sentada no meu colo agora. E se alguém tiver dúvida, é só olhar pros meus olhos quando você tá por perto. — falou baixo, com aquela malícia que só ele sabia usar.
Helena tentou disfarçar o sorriso, mas perdeu quando ele roubou um selinho.
— Você é insuportável, sabia? — resmungou.
— Mas você gosta. — ele rebateu, sorrindo torto.
Heitor riu com ela, e a casa inteira pareceu respirar mais leve. A intimidade vinha em pequenas ondas: a risada, o toque, o jeito como ele admirava os olhos castanhos dela até sorrir e dizer, com uma mistura de orgulho e ternura:
— Você não tem ideia do quanto eu sou apaixonado por você.— ele disse com aquele olhar terno.
Ela roubou um beijo que foi esquentando, a mão dele firme nas costas dela, a deixando colada nele, e a outra apertando a coxa . Ela então sentiu o pau dele a pressionar por dentro do calção. Ela se afastou com dificuldade e o olhou nos olhos.
— Heitor… eu menstruei hoje. Esqueceu?
Ele suspirou triste, mas a expressão triste mudou em uma expressão safada e um sorriso largo mal intencionado.
— Mas, isso não impede de eu ganhar uma mamadinha né.
— Nem pense nisso.
— Ahhh, Helê! — ele gemeu teatralmente, passando a mão no peito como se tivesse sido ferido. — Depois de um dia desse, tu me nega isso?
Helena arqueou a sobrancelha.
— Isso me lembra. O que você quis dizer quando falou em “cuidar de mim”? — perguntou ela, agora séria, cruzando os braços.
O sorriso dele morreu, e ele respirou fundo antes de começar.
— Amor, é que existem infinitas possibilidades no mundo. — começou ele, com aquele tom meio romântico, meio decidido. — Principalmente para uma mulher inteligente como você. Eu só queria te dizer que você tem essas possibilidades e oportunidades. O que quiser fazer, está ao seu alcance. Caso queira ser piloto de corrida, instrumentista, focar em jardinagem ou em artes plásticas. Você pode. Pode se dedicar a isso, sem se preocupar com qualquer outra coisa.
Helena ficou olhando pra ele, absorvendo cada palavra com atenção.
— Você vai me bancar?
Ele sorriu, firme, cafajeste e apaixonado ao mesmo tempo.
— Não. Vou prover pra nossa família. Porque você é minha mulher, um dia vai ser minha esposa e no futuro se quiser, vai ser mãe dos meus filhos. E não importa se eu fosse CEO ou se tivesse qualquer outro emprego… eu faria de tudo pra te dar a melhor vida. Esse é o homem que eu sou.
Heitor colocou a mão na bochecha dela e acariciou a olhando.
— Minha função é que você não se preocupe com nada, tenha uma vida tranquila e feliz. — ele deu um selinho demorado na boca dela — É tudo o que eu quero.
— Não parece tão ruim quando você diz assim. — ela murmurou, sorrindo.
A voz dele veio cheia de orgulho e um toque de possessividade doce:
— Nunca faria nada de ruim pra você. Tenho muito orgulho do que você é. Se quiser continuar trabalhando, eu te apoio — o olhar intenso dele, a deixava hipnotizada — mas que seja porque te faz feliz. Não porque precisa.
— Eu vou continuar trabalhando.
Ele beijou a bochecha dela.
— Como quiser, meu amor.
Helena deslizou a mão, de propósito, devagar, até repousar sobre o volume do calção dele. Apertou de leve, fazendo um movimento lento com os dedos. Heitor congelou por um segundo, depois ergueu o rosto pra ela com aquele sorriso safado, escancarado e tão típico dele.
— Ahhh, caralho… — soltou, a voz grave, rouca. — É disso que eu preciso, Helê.
Ela mordeu o lábio, inclinando o rosto perto do dele, e sussurrou:
— Vamos pro quarto.
O sorriso dele se abriu ainda mais. Num movimento rápido, Heitor a pegou no colo, como se ela não pesasse nada. Helena soltou um riso abafado, envolvendo o pescoço dele.
— Te segura, gostosa. — ele brincou, o sotaque carioca que ela tanto amava escorria em cada sílaba. — Não te solto hoje nem com o mundo acabando.
No caminho, ele encostou a boca na dela várias vezes, roubando beijos curtos, molhados, entre risadas e o aperto das mãos dele na cintura dela. Quando chegaram ao quarto, Heitor olhou para trás e viu Mel andando atrás deles abanando o rabo. “Desculpa filhote, sem plateia” ele pensou e empurrou a porta com o pé e a fechou com força.
— Agora tu tá fodida. — disse, colocando-a em pé de frente pra cama, sem largar a cintura dela.
Helena se ajoelhou devagar, sem desviar os olhos dele, enquanto puxava o calção para baixo. O sorriso de Heitor se desmanchou em pura expectativa, a respiração pesada.
— Caralho… olha só você, na minha frente desse jeito… — murmurou, passando a língua pelos lábios, o sotaque carioca carregado de desejo. — Vou enlouquecer.
Ela envolveu a mão primeiro, ele estava tão duro, provocou de leve balançando o membro com a mão, antes de inclinar o rosto e o envolver com a boca quente.
— Ahhh, porra… — Heitor gemeu alto, a mão imediatamente indo para os cabelos dela. Não forçou, mas segurou com força. Extremamente excitado por a ver assim.
O ritmo começou lento, compassado. Helena o olhava de baixo, os olhos castanhos úmidos, fixos nos dele. Esse olhar fez Heitor segurar a cabeça dela, interrompendo o movimento, ou ele iria gozar ali agora. Ele fechou os olhos com força, tentando segurar. Estava tão gostoso, mas ele não podia passar essa vergonha.
— Puta merda, Helê… olha só o que tu faz comigo.
Ele soltou, a liberando para continuar com o movimento. Ela foi alternado a velocidade, deixando-o perder o controle. Heitor arfava, o corpo inteiro em tensão, soltando palavras entrecortadas:
— Isso… continua… caralho… que delícia…
A cada vez que ela acelerava, ele deixava escapar gemidos graves, roucos, abafados no fundo da garganta. Ela as vezes engasgava, os olhos se enchiam de lágrimas, mas não parava. Ele começou a se mover junto, os quadris respondendo ao ritmo dela, como se o corpo não conseguisse mais esperar.
— Olha pra mim. — ordenou, a voz rouca e trincada. Ele puxou os cabelos dela de leve, erguendo o rosto. — Quero ver esses olhos me engolindo todinho.
Helena obedeceu. E o olhar dela, firme, submisso e provocador ao mesmo tempo, atravessou Heitor como uma lâmina quente. Uma satisfação que quase o fez gozar no mesmo momento.
— Isso, porra… — gemeu, mais alto, sentindo o corpo estremecer. — Tu nasceu pra me enlouquecer.
O som úmido, o ritmo dela, a língua provocando nos pontos certos — tudo se misturava ao cheiro dele, à respiração ofegante, ao calor que parecia tomar o quarto inteiro. Helena se sentia orgulhosa de si mesma, agora não tinha mais tanta dificuldade em o ter na boca.
Heitor tremia, as pernas pesadas, e mesmo assim não parava de falar, arrastando o sotaque:
— Ahh, caralho… continua, Helê… não para… puta que pariu… tu é perfeita…
Quando ela acelerou de novo e mesmo com dificuldade de o engolir até a base, valia o esforço em o ver se perder. Ele deixou escapar um gemido mais alto, quase um rugido. O corpo dele inteiro se contraiu, e ele segurou forte o cabelo dela, não para dominar, mas porque estava prestes a se desfazer.
— Vou gozar… — avisou, a voz rouca, grave, trincada. — Ahhh, porra, vou gozar…
Ele jogou a cabeça pra trás, os músculos tensos, e deixou-se ir, a respiração entrecortada, gemendo alto o nome dela.
— Helena… caralho…
Ficou ali, ofegante, o corpo todo tremendo, as mãos ainda nos cabelos dela, como se precisasse se agarrar em alguma coisa para não despencar.
Quando conseguiu voltar a respirar, olhou para baixo, completamente rendido, um sorriso torto e malandro voltando ao rosto.
— Tu acabou comigo, mulher… — disse entre risadas curtas, ainda ofegante. — Caralho… eu sou seu. Todo seu.
Helena limpou a boca devagar, olhando pra ele com aquele ar vitorioso e sedutor.
— Eu sei. — respondeu com um sorrisinho maroto.
Heitor riu, se sentando na cama completamente derrotado e rendido. Ele estava ofegante, mas mesmo assim se inclinou e segurou com delicadeza pelo braço, a puxando para sentar no colo dele novamente.
— Nunca mais me deixa maluco de preocupação, Helê. — murmurou contra a boca dela. — Mas, porra… pode me deixar maluco assim sempre que quiser.
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