O CEO que Eu Paguei
135 Família, Mais que Nunca
O olhar de Celina permanecia perdido na janela. A cidade cintilava lá fora, mas ela não via nada além da confusão dentro de si. Helena. Não esperava muito dela — como poderia? Nascida em um mundo tão distante do deles, de um berço que Celina não considerava digno. Para ela, Helena jamais estaria à altura do filho.
E, se algum dia existiu uma pontada de dúvida, Helena fez questão de confirmar. Ter deixado Heitor da forma que ela deixou foi uma prova viva de que seus instintos estavam certos.
Ainda assim… havia algo.
E era isso que a deixava furiosa.
Algo naquela moça não permitia que Celina a odiasse por completo. Era como se houvesse uma familiaridade incômoda, um reflexo de algo que ela não queria enxergar. O sorriso de Helena, tão sincero, não combinava com a imagem que Celina queria cultivar dela. A forma como ela, mesmo constrangida, ainda buscava a aprovação… fazia o coração dela estremecer — ainda que relutante.
Celina suspirou fundo, apoiando os dedos finos na têmpora. A raiva estava lá, mas não era a muralha que desejava erguer. E a frustração maior vinha justamente dessa impotência: não odiá-la com a mesma intensidade que julgava necessário.
“Talvez eu ainda esteja sob a influência daquela cena… do rosto do meu filho marcado, e do pânico estampado nele diante da possibilidade de perder essa mulher.”
A ideia a perturbava. O amor do filho pela moça era inegável. Mas o preço disso… Celina não sabia se estava disposta a aceitar. Mesmo que não fosse ela a pagar, ainda assim respingaria nela.
No entanto, antes que pudesse mergulhar ainda mais nos próprios dilemas, outro peso veio à tona. Lorena.
Fechou os olhos com irritação, lembrando-se da ligação aflita da amiga. A voz ofegante, trêmula. Pediu que fosse vê-la “imediatamente”. Disse que não era grave, mas que precisava conversar. Celina conhecia Lorena bem demais para acreditar em minimizações. Aquilo tinha a ver com algo sério.
Ironia. Ela, que estava tomada pelos próprios fantasmas, agora se via convocada para cuidar da melhor amiga.
Era engraçado — e cruel — como a vida parecia tramar. As duas, cada uma do seu jeito, emaranhadas em problemas que não queriam admitir em voz alta. A de Celina com Helena. A de Lorena, ainda um mistério.
Celina se ajeitou no banco, entre o incômodo com a nora e a preocupação pela amiga, o mundo parecia pesar nos ombros.
E, no fundo, uma certeza martelava: aquela noite não estava sendo fácil.
O celular vibrou em seu colo. Celina ainda estava perdida nos próprios pensamentos, quando a tela acendeu. Assim que viu a foto, o coração deu um salto. Renato.
Ela respirou fundo, ajeitou os ombros e atendeu, disfarçando a voz séria:
— Alô.
Do outro lado, a voz grave e inconfundível a alcançou, cheia de firmeza, mas com aquele fundo de carinho que sempre a desarmava:
— Alô querida. — disse ele, direto, com o rastro de um sorriso perceptível até pelo telefone. — Já tava morrendo de saudade da sua voz.
Celina cerrou os lábios, tentando segurar a risada que ameaçava escapar.
— Renato. — retrucou, como quem queria manter a compostura. — Por que está falando assim?
— Porque é a verdade. — ele devolveu, num tom rústico, quase rude de tão verdadeiro.
Ela deixou escapar uma risadinha curta, balançando a cabeça.
— Você já está em casa? — perguntou, mudando de assunto.
— Não. Estou indo para São Paulo — ele respondeu de pronto. — Marquei uma reunião com uma terceira empresa… Plano & Forma.
O semblante dela mudou para curiosidade e leve tensão.
— Aconteceu alguma coisa?
— Não. — ele respirou fundo, a voz carregada de irritação contida. — Só preciso revisar o contrato. Parece que essa empresa se esqueceu para quem estão prestando serviço.
Ela ajeitou o cabelo, olhando pela janela a rua que passava devagar.
— Amanhã eu estou livre. Se quiser, posso pegar um voo para São Paulo e te encontrar no hotel ou na casa.
Houve um silêncio curto, até a voz dele retornar mais firme, mas com um sorriso audível atravessou a voz dele:
— Eu adoraria, mas não. Preciso de concentração para resolver isso.
Ela arqueou a sobrancelha, ofendida.
— O que quer dizer com isso?
— Você sabe muito bem o que eu quero dizer. — a voz dele desceu um tom, insinuando.
Celina respirou fundo e, por fim, deixou escapar uma risada, cúmplice e rendida.
— Está vendo? Ainda arranja tempo para me provocar.
— Sempre. — ele respondeu. — Mas prometo que vamos marcar um dia só para nós. Só passeio. Só eu e você.
— Está prometido. — ela murmurou. — E não ouse descumprir.
Ele riu outra vez, mas então mudou o tom:
— E acharam a moça?
Celina revirou os olhos.
— Sim. Ela voltou para o apartamento.
— Você a viu?
— Vi. — respondeu seca.
— E? O que achou?
Celina inspirou fundo, deixando o silêncio pesar. Então, com seu orgulho característico, disparou:
— Exatamente o que eu esperava.
Renato suspirou, quase resignado.
— Eu já esperava isso… — Renato suspirou do outro lado. — Principalmente depois da humilhação de hoje.
Celina franziu o cenho, surpresa e irritada.
— Humilhação? Do que você está falando, Renato?
— Como você não soube? — a voz dele veio carregada de incredulidade. — A Helena está trabalhando para o Fortenelle.
Celina quase deixou o celular escapar da mão.
— Trabalhando para o Fortenelle? — exclamou, a voz firme, chocada. — Como essa garota se atreve?
Renato prosseguiu, implacável:
— Ele orquestrou um almoço hoje. Convidou o Heitor. E sabe com quem apareceu? Com ela. Ao lado dele. Não só isso… mas depois do almoço, ela foi embora com o Fortenelle.
O peito de Celina subiu e desceu rápido, tomada pela fúria.
— Então ela mentiu para mim. — disse entre dentes, a voz gélida, venenosa. — Não passou mal coisa nenhuma. Estava… se oferecendo para aquele sujeito.
— Celina… — Renato interveio. — Eu não disse isso. Não sabemos se houve envolvimento.
— Ah, por favor! — ela retrucou, indignada. — Enganou o nosso filho direitinho. Aquela… prostituta.
Do outro lado da linha, o silêncio dele foi pesado. Então, a voz grave retornou, firme como pedra:
— Eu vou cuidar da Fort Group. Não vai ser mais um problema.
Celina apertou os lábios, olhos faiscando.
— O que você vai fazer?
— Estou planejando os detalhes. — disse ele, seco. — Mas pode ter certeza: não será um problema.
Ela encostou a cabeça contra o encosto do banco, soltando um suspiro longo.
— É inacreditável… — murmurou, quase para si mesma. — Realmente parecia que ela amava o nosso filho.
Renato respirou fundo do outro lado.
— Talvez ela ame.
— Então por que está se engraçando com o Fortenelle? — explodiu Celina, voltando a erguê-lo no tom de voz.
Houve uma pausa curta. A resposta dele veio com a calma lógica de quem já sabia lidar com as tempestades da esposa:
— Porque ela é jovem, Celina. Porque se deixou manipular. O Fortenelle é venenoso, sabe exatamente onde cutucar. E Heitor… você sabe, tem um temperamento forte. É um prato cheio para criar conflito.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos, mastigando as palavras dele.
— Então você acha… que ela não passa de uma tola?
— Eu acho que ela cometeu um erro. — ele respondeu firme. — E que não cabe a nós crucificá-la de imediato. O Heitor sabe quem ela é. Se ela não fosse importante, você acha mesmo que ele teria enfrentado nós por causa dela?
Celina cerrou os olhos, mas respirou fundo. A lógica dele, como sempre, começava a aplacar o fogo da raiva.
— Talvez você tenha razão… — disse por fim, num tom mais baixo, ainda relutante. — Mas eu vou ficar de olho nela. — endireitou o corpo, a voz ganhando dureza de novo. — Não vou permitir que essa menina destrua o meu filho.
Renato soltou uma risada curta, rústica, que atravessou a linha.
— Essa é a Celina que eu conheço. — disse, orgulhoso. — Pode vigiar o quanto quiser, meu amor. Mas lembra: quem decide é ele.
Celina suspirou, vencida pela razão dele, ainda que a contragosto.
— Veremos, Renato. Veremos.
Renato fez uma pausa, e a voz grave dele soou mais séria:
— Tenho que desligar. O embarque já está finalizando.
Celina ajeitou o colar no pescoço, como se quisesse prolongar o instante.
— Tudo bem. Boa viagem.
Houve um silêncio do outro lado. Então, quase ofendido, ele devolveu:
— Só isso?
Celina arqueou a sobrancelha, impaciente.
— O que quer dizer com “só isso”?
— Poxa, Celina…
Ela suspirou, revirando os olhos, mas não resistiu ao sorriso que despontou nos lábios. No fundo, já sabia exatamente o que ele esperava ouvir.
— Ai, ai, Renato… Boa viagem, querido. Vai com Deus. — sua voz suavizou, derretendo-se apesar da resistência. — Te amo.
A risada satisfeita dele veio como resposta imediata.
— Agora sim. Também te amo.
A chamada terminou, e Celina ficou alguns segundos segurando o celular, o coração acelerado. Tentou recompor a expressão, mas não conseguiu evitar aquele calor no peito. Só Renato tinha esse poder: desmontá-la inteira com duas ou três palavras.
Guardou o telefone na bolsa de couro e percebeu que o carro já diminuía a velocidade. Pelo portão de ferro trabalhado do residencial dos Medeiros que se erguia à frente, abrindo-se com solenidade. Logo, o veículo seguiu pela alameda iluminada.
O carro seguiu até parar diante da entrada principal. A mansão dos Medeiros, iluminada pela noite carioca, parecia ainda mais imponente sob as luzes suaves espalhadas pelo jardim, conferiam ao lugar uma atmosfera quase cenográfica. O motorista abriu a porta, e Celina desceu com a compostura de sempre, ajeitando o xale claro nos ombros. O sapato com salto baixo encontrou o mármore da entrada sem pressa, como se cada passo fosse ensaiado.
Uma empregada a aguardava e a guiou silenciosamente pelo hall até o jardim dos fundos. O som da água de uma fonte preenchia o ar, misturado ao perfume de dama-da-noite que parecia nascer da própria escuridão.
Quando atravessou a porta de vidro, Celina a viu.
Lorena estava sentada sozinha sob o pergolado florido, uma mesa de ferro à sua frente. A postura ainda era impecável, mas o semblante… não. O rosto estava tenso, os dedos entrelaçados com força sobre a superfície da mesa, o olhar perdido como se tivesse passado horas presa em pensamentos que não queria compartilhar. Assim que notou Celina, levantou-se de imediato — rápida demais, quase ansiosa.
O jardim principal dos Medeiros era um espetáculo em si mesmo. As trepadeiras subiam pelas colunas do pergolado coberto, formando um teto verde entrelaçado de flores brancas, que exalavam perfume suave sob a umidade da noite. Pequenas lanternas pendiam em pontos estratégicos, projetando uma luz dourada que desenhava sombras delicadas sobre a mesa de ferro forjado no centro. Havia serenidade ali, mas o coração de Lorena parecia descompassar todo aquele equilíbrio.
Celina caminhava com a postura impecável de sempre — cada passo calculado, cada gesto envolto em classe. Mas, ao ver a amiga de pé, esperando por ela, o impacto foi imediato: o rosto de Lorena estava inchado, os olhos vermelhos, como se tivesse chorado até não restar mais lágrimas. Não era comum. Não naquela mulher sempre tão orgulhosa, tão alegre,, tão dona de si.
— Lili… — disse, a voz levemente trêmula, ainda que tentasse disfarçar.
Celina sorriu por reflexo, o sorriso educado que usava em jantares de gala, mas por dentro algo a incomodava. Não era a primeira vez que via Lorena preocupada, mas havia uma energia diferente naquela noite, algo que a irritava sem motivo. Como se a simples visão da amiga despertasse nela uma impaciência estranha, fora de lugar.
— Lôlô… — respondeu, caminhando até ela com passos firmes, o som dos saltos ecoando no mármore do jardim. — Você me liga tão aflita e quando chego, encontro essa cara… O que aconteceu?
Abraçaram-se, mas enquanto a apertava, Celina sentiu novamente aquele incômodo inexplicável. Um peso no peito, uma contradição. Queria cuidar da amiga, queria saber o que a atormentava — mas, ao mesmo tempo, cada detalhe dela parecia ferir seus nervos de uma forma que não fazia sentido.
— Vem… senta comigo. — pediu Lorena, a voz baixa, quase um sussurro suplicante.
Celina estreitou os olhos, surpresa. Aproximou-se devagar e se acomodou à mesa. Mas antes que pudesse perguntar, Lorena tentou começar
— Eu não sei com quem mais…
A frase se perdeu. Os olhos encheram de lágrimas e, num gesto súbito, as mãos cobriram o rosto. O choro rompeu como um rio represado.
Celina, instintivamente, levantou-se. Passou um braço firme pelas costas da amiga e, com a outra mão, puxou-a para encostar contra sua barriga. Ficou ali, sustentando-a, acariciando com dedos lentos os cabelos castanhos ondulados de Lorena. A cena tinha algo de quase maternal, íntima de uma amizade que atravessava décadas.
— Shhh… — murmurou Celina, com suavidade. — Tá tudo bem, minha querida. Respira.
Ficaram assim por longos minutos. O choro de Lorena foi cedendo aos poucos, transformando-se em fungadas espaçadas, até que ela finalmente ergueu os olhos marejados para a amiga.
Celina, então, agachou-se ao lado dela, tomou-lhe a mão entre as suas e perguntou, com firmeza elegante:
— Lôlô, o que aconteceu? Está tudo bem com você? Com os meninos?
Lorena apenas fez que sim com a cabeça, ainda fungando. Limpou os olhos com a ponta dos dedos, tentando recompor-se.
Foi quando ambas perceberam a presença de uma empregada, parada um pouco distante com uma bandeja. O contraste da aflição íntima com o cerimonial da casa fez Lorena se ajeitar de imediato. Ela forçou um sorriso — aquele sorriso controlado que mulheres da alta sociedade sabem simular — e disse:
— Eu tinha pedido para fazerem pudim para nós duas. Sei o quanto você gosta.
Celina suspirou, recostando-se com leveza. A empregada serviu as porções, deixando os pratos sobre a mesa, e Celina apenas murmurou um “obrigada”, mantendo os olhos fixos na amiga.
Sentou-se em frente à amiga e a observou com atenção. Lorena mudou de assunto, como se quisesse apagar os rastros de sua vulnerabilidade.
— E você? Como está, Celina? Como foi o seu dia?
Celina ergueu as sobrancelhas. Notava as sardinhas delicadas espalhadas pelo nariz e pelas maçãs do rosto da amiga, a boca cheia e bem desenhada que se esforçava em formar um sorriso. Mas o olhar expressivo — mesmo vermelho e inchado — acompanhava cada movimento seu. Havia algo naquele sorriso que a irritava, sem que conseguisse explicar o porquê.
— O meu dia foi bom… até a namorada do Heitor sumir e só aparecer agora à noite. — respondeu revirando os olhos.
A colher de Lorena tremeu levemente. Ela apertou mais firme o cabo.
— A namorada do Heitor… esteve aqui. — disse, desviando o olhar. — Jonas a trouxe. Disse que não estava bem. Ficou um bom tempo dormindo em um quarto.
Celina a encarou e disse.
— Então a Helena falou a verdade. — disse pensativa.
— Helena… — murmurou Lorena, como quem mastigava o nome.
Celina suspirou.
— Me perdoe por ter trazido problemas para vocês. Mas agradeço de verdade por terem cuidado dela.
Lorena ergueu o rosto, séria.
— Não se desculpe. Ela não é um problema. Nunca seria.
Celina franziu levemente os lábios, descrente.
— É gentileza sua, Lôlô.
Provaram o pudim.
— Está uma delícia. — comentou Celina, sincera.
— Então vou ter que provar também. — disse Lorena, quase com doçura. Ela partiu um canto com a colher, circulando com a colher ao redor e virando o pequeno pedaço de lado antes de levar o pedaço à boca. Celina franziu as sobrancelhas de imediato. O gesto… era uma mania conhecida.
Observou a amiga em silêncio. As sardas espalhadas no rosto, a boca desenhada tentando sustentar um sorriso, os olhos expressivos ainda marejados — havia algo insuportavelmente familiar naquilo. Algo que começou a pressionar Celina por dentro.
Ela franziu as sobrancelhas.
— Está mesmo delicioso. — comentou Lorena, tentando soar animada, mas a melancolia pesava.
Celina a observava com mais intensidade do que gostaria. Sua mente parecia querer processar algo que ainda não sabia nomear.
— A… Helena. — disse Lorena de repente, um pequeno sorriso tímido no rosto. — Eu não a vi bem… e o perfil dela é fechado. Você teria alguma foto?
O brilho nos olhos dela irritou Celina de forma inexplicável. Ainda assim, respondeu:
— Claro. Vou te mostrar.
Celina estranhou o brilho nos olhos da amiga. Ainda assim, destravou o celular e abriu o Instagram de Helena. Tocou na primeira foto. Helena, em uma mesa de gelateria ali no Rio, os olhos castanhos iluminados, o sorriso jovem e seguro.
Abaixou o celular, levou a mão até o meio da mesa, pronta para entregar. Mas, quando ergueu os olhos… congelou.
O olhar, o nariz, as sardas, a boca, todo o rosto. O sorriso que começava nos olhos.
O movimento de entregar o celular parou ali.
Baixou novamente o olhar para a tela. Voltou para Lorena.
Era como olhar duas versões da mesma mulher .
Os traços estavam ali — repetidos, replicados, herança viva na moça da fotografia.
Um frio percorreu-lhe a espinha. Não havia ainda nome para aquela suspeita, mas o coração de Celina já sabia.
O celular ainda estava em sua mão, suspenso no ar. Lentamente, o voltou contra si, encarando mais uma vez a imagem de Helena. E, quando olhou novamente para Lorena, seus olhos não eram mais os mesmos: estavam afiados, inquisidores, com um brilho que raramente aparecia.
— Lorena… — seus olhos fixos nos dela, firmes, penetrantes. — Há algo que você precise me contar?
Lorena se encolheu na cadeira como se quisesse desaparecer dentro dela. Apertou os lábios, os olhos marejados tentando conter o choro.
Celina, por sua vez, afastou o corpo até encostar no espaldar da cadeira, as sobrancelhas franzidas e o olhar incrédulo fixo na amiga.
— Lorena! — exclamou, a voz entre a raiva e o desespero. A mão foi à testa num gesto quase teatral, como se precisasse segurar o peso da descoberta. Abaixou o rosto, a outra mão apoiada na coxa, respirando fundo. Não podia ser verdade. Não podia ter entendido corretamente.
A voz de Lorena saiu baixa, quase um sussurro quebrado:
— Você se lembra… do meu segredo que eu te contei na semana do meu casamento?
Celina manteve-se imóvel, o coração acelerado, mas o tom saiu frio, impaciente:
— Eu me lembro sim.
— Que eu tenho… uma filha…
O ar pareceu sumir entre elas.
Celina ergueu os olhos, incrédula.
— Eu… eu acho que é essa Helena. — Lorena concluiu, a frase tremendo, o pranto ameaçando explodir.
Celina endireitou-se na cadeira, a incredulidade dando lugar à clareza brusca:
— É claro que é essa Helena! — cortou, firme. — A menina é uma cópia sua, só que… com outra cor. — A voz carregava a obviedade, como se fosse impossível negar.
E então, num estalo, Celina compreendeu o que tanto a corroía: o motivo pelo qual não conseguia odiar Helena, por mais que tentasse. Era porque aquela jovem trazia o reflexo da própria melhor amiga.
Ela passou a mão pelo rosto, respirando fundo, tentando recompor-se.
— Como eu não notei isso antes? — murmurou, mais para si mesma. Depois ergueu o olhar e encarou Lorena no fundo dos olhos, o tom mais brando: — Desculpe, eu me exaltei.
— Lili… — a voz de Lorena quebrou de vez, o apelido escapando em meio ao choro. — Eu nunca pensei que a encontraria assim… aqui, na minha própria casa.
As lágrimas escorreram livres.
Celina estendeu a mão por sobre a mesa e apertou a da amiga com firmeza.
— Eu estou aqui com você. Está tudo bem.
Lorena soluçava, a voz trêmula, quase infantil:
— Ela se tornou uma mulher tão linda, Celina… tão perfeita… — os olhos marejados brilhavam de orgulho. — A minha filha voltou para mim. Depois de tanto tempo… eu achei que tinha a perdido para sempre… e agora foi ela quem veio até mim.
Celina apertou a mão da amiga mais forte. Havia em seus olhos uma mistura de choque, compaixão e um desconforto profundo — como se estivesse diante de algo maior do que podia processar.
— Você se falaram? — perguntou Celina, cautelosa.
Lorena balançou a cabeça, os olhos baixos.
— Não… eu a vi dormindo. Não tive coragem… — o timbre vacilava, carregado de arrependimento. — Eu preciso de ajuda, Lili. Pode me ajudar?
Celina arqueou as sobrancelhas, surpresa com a intensidade do pedido.
— Eu? Como?
— Me ajuda a me aproximar dela… — insistiu, quase suplicando.
Celina recostou-se na cadeira, levando a mão ao queixo. O coração ainda acelerado, mas a mente já começava a raciocinar como a senhora Monteiro que era.
— Ahh… isso, Lôlô, eu não sei… — respondeu com um tom arrastado, avaliando.
Lorena segurou sua mão com mais força.
— Ela namora o Heitor, você é sogra dela. Vocês já são próximas…
Celina suspirou fundo, fechando os olhos por um instante. A palavra “sogra” pesava como ferro.
Lorena, no entanto, sorriu pela primeira vez naquela noite — um sorriso frágil, mas cheio de esperança. Igual ao sorriso que Helena lhe ofereceu. Que irritante.
— Isso quer dizer que somos família mais que nunca, Lili.
Celina engoliu seco. Família. A palavra reverberou amarga. Para ela, não podia haver pior desfecho: Helena, aquela jovem de origem simples, preta, de criação interiorana, não apenas era a namorada do filho… mas agora também a filha da sua melhor amiga.
Um nó se formou no estômago. Celina respirou fundo, apoiando as costas na cadeira e cruzando as pernas. O olhar dela ficou distante, frio.
No entanto, a mesma mente que julgava calculava. Lorena era esposa do governador. Se a verdade viesse à tona, Helena deixava de ser apenas “a menina que não estava à altura de Heitor” para se tornar herdeira de um nome político poderoso. Isso melhorava um pouco as coisas.
Celina respirou fundo e voltou o olhar para a amiga. Lorena sorria, ainda frágil, como quem tinha acabado de se despir de um segredo guardado por décadas.
— Lôlô… — disse Celina, escolhendo cada palavra como uma peça no tabuleiro. — Eu vou te ajudar. Mas precisamos ter cautela. Isso não é algo que pode simplesmente sair daqui.
Os olhos de Lorena se encheram de esperança.
— Eu sabia que podia contar com você.
Celina sorriu de volta, mas o brilho nos olhos dela era frio, distante. Enquanto acariciava a mão da amiga, sua mente já girava em torno do que significava, para Heitor, para a Monteiro Inc., e para si mesma, ter Helena como peça central de um jogo que só estava começando.
Lorena enxugou os olhos com um lenço, respirando fundo. A voz dela ainda estava trêmula:
— Lili… você não pode contar sobre isso. Nem para o Renato. E muito menos para o Heitor.
Celina arqueou as sobrancelhas, surpresa.
— Eu conto tudo para o meu marido, Lorena. Você sabe disso.
— Por favor… só até eu conversar com a Helena. — a amiga implorava, segurando-lhe a mão com força, quase desesperada.
Celina fechou os olhos por um instante e suspirou. O pedido a incomodava — não era do feitio dela guardar algo de Renato. Mas, ao abrir os olhos, viu o rosto aflito da amiga, tão frágil que parecia uma menina pedindo socorro.
— Está bem. — respondeu por fim, seca. — Vou fazer isso por você.
Um sorriso úmido brotou no rosto de Lorena.
— Obrigada, Lili. Você não imagina o quanto isso significa para mim.
O silêncio caiu por um instante, quebrado quando Lorena se inclinou para a frente, ansiosa:
— Me conta dela… o que ela gosta? Como ela é com você? Ela fala de mim?
Celina ajeitou-se na cadeira, impaciente.
— Lorena… — disse, o tom já levemente irritado. — Eu não sei. Eu mal conversei com ela.
Lorena baixou os olhos, constrangida.
— É que… eu preciso tanto conhecer quem ela se tornou. E preciso que vocês duas sejam amigas, Lili.
Celina soltou um suspiro alto, de puro tédio, inclinando a cabeça para trás.
— Ah, ninguém merece… — murmurou, mexendo a colher no pudim como se buscasse paciência no doce.
Lorena sorriu, tímida, mas insistente:
— Você não pode ser má com a Helena. Precisa ser uma boa sogra, ouviu?
Celina ergueu o queixo com elegância, quase ofendida:
— Eu sou uma sogra maravilhosa.
Lorena riu, balançando a cabeça.
— Você sempre foi muito exigente com as garotas, Lili. Eu lembro bem…
— Isso não é verdade. — rebateu Celina, firme, ajeitando a postura.
— Ah, é sim. — Lorena ria mais agora, o olhar divertido, quase infantil. — Eu me lembro de cada uma que o Heitor apresentava, e você sempre encontrava um defeito. Sempre!
— Eu apenas tinha senso crítico. — respondeu Celina, com um ar superior.
— Crítico demais. — retrucou Lorena, rindo como quem cutucava de propósito.
Celina suspirou outra vez, balançando a cabeça, mas o canto da boca denunciava um quase sorriso.
— Você nunca mudou, não é? Sempre querendo me desarmar.
Lorena se levantou devagar e, sem aviso, a envolveu num abraço apertado. Celina ficou tensa por um segundo, mas logo retribuiu, ainda que de forma contida.
— Obrigada, Lili. — disse Lorena, encostando o rosto no ombro da amiga. — Obrigada por ficar ao meu lado mais uma vez.
Celina fechou os olhos por um instante, acariciando as costas da amiga. E, mesmo irritada com tudo o que aquilo significava, deixou escapar um sussurro:
— Eu sempre estarei, Lôlô. Sempre.
A noite já havia tomado conta do jardim dos Medeiros, e o ar úmido carregava o perfume doce das flores misturado ao leve frescor da grama recém-regada. Celina caminhava devagar pelo caminho de pedras, afastando-se da mesa onde deixara Lorena, como se precisasse de distância para respirar.
Os saltos ecoavam discretos, mas firmes, denunciando o compasso acelerado do coração que ela se esforçava em esconder até de si mesma.
Quando alcançou um recanto mais silencioso, parou. O olhar se perdeu no lago artificial, onde as luzes refletiam em espelhos quebrados pela superfície calma. A mente, no entanto, era puro turbilhão.
“Helena. Filha da Lorena.”
Celina levou a mão à testa, os dedos pressionando de leve como se pudesse organizar a confusão apenas com esse gesto. A lembrança do rosto da garota surgiu nítida. As sardas, a boca cheia, o jeito firme e orgulhoso até quando pedia desculpas. E, agora, tudo fazia sentido: não conseguia odiá-la porque estava diante de uma versão mais jovem da própria Lorena.
— Meu Deus… — murmurou, quase sem voz.
O peito se encheu de um misto de raiva e frustração. Não pelo que Helena era, mas pelo que representava. Heitor, seu filho, tão precioso, estava enredado em algo que unia duas famílias de maneira perigosa. E isso a irritava profundamente.
“Família. Mais do que nunca.”
As palavras de Lorena ecoaram como um veneno. Celina cerrou os dentes. Família era sagrada — mas família era também poder, reputação, nome. E agora, a filha escondida de sua melhor amiga, vinda de um passado obscuro, surgia não apenas como uma revelação, mas como peça central na vida do seu único filho.
A lógica gritava que deveria se afastar, cortar o mal pela raiz, abrir os olhos de Heitor e arrancar Helena da vida dele. Mas… havia algo que a paralisava.
A imagem de Helena rindo, com aquele sorriso que vinha não apenas da boca, mas dos olhos castanhos cheios de vida. O jeito como se encolhera de culpa mais cedo, ainda tentando impressionar a sogra que claramente a julgava. A maneira como agradeceu, sincera, até pela hostilidade disfarçada em gestos polidos.
Celina sentiu um aperto estranho. Um incômodo que não combinava com sua natureza crítica.
— O que você tem, Celina? — resmungou para si mesma, ajeitando a postura. — Você deveria odiá-la.
Mas não odiava.
E isso era o que mais a enfurecia.
Suspirou fundo, recompondo-se. Precisava pensar como sempre pensou: com estratégia. Se Lorena queria se aproximar, aquilo a colocava numa posição delicada. “Amigas” com Helena? A ideia parecia absurda. Mas talvez… fosse exatamente a única saída.
Ela ergueu o queixo, firme, como quem decide uma batalha silenciosa.
— Se for para proteger meu filho… eu vou jogar esse jogo. — sussurrou.
Virou-se para voltar, o perfume das flores ainda forte no ar. No fundo, sabia: por mais que tentasse, Helena não seria apenas um obstáculo. Ela era o ponto onde todos os caminhos se cruzavam.
E Celina não tinha escolha a não ser enfrentar isso — com toda a classe, frieza e inteligência que a vida lhe ensinou a ter.
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