O CEO que Eu Paguei
136 Somos Cinco
Paulo Medeiros deu um suspiro longo e pesado. O relógio já avançava pela madrugada, e ele sentia cada minuto refletido no peso nos ombros. Subiu as escadas devagar, tirando a gravata no caminho, afrouxando o colarinho da camisa. O corpo pedia descanso, mas a mente ainda estava agitada, tomada pelas decisões e despachos do dia.
Ao chegar diante do quarto, notou algo incomum: a luz ainda acesa. Lorena nunca ficava acordada até tão tarde. Ele franziu o cenho, curioso, e empurrou a porta.
O que viu do outro lado o desarmou.
Ela estava sentada na poltrona próxima à janela, os cabelos caindo em ondas sobre os ombros, o rosto iluminado pela tela do celular. Mas não era a luz fria que o encantou. Era o sorriso. Aquele mesmo sorriso que o havia conquistado desde o primeiro instante em que se viram — aberto, radiante, impossível de ignorar.
Sem perceber, Paulo sorriu também.
— Olha só quem ainda está acordada. — disse com suavidade.
Os olhos dela se ergueram, brilhando de um jeito diferente, quase febril.
— Oi, minha vida. — respondeu, levantando-se para envolvê-lo em um abraço.
Paulo a recebeu de bom grado, e, naquele momento, todo o cansaço do dia pareceu evaporar. O cheiro dela, o calor familiar daquele corpo contra o dele — era como voltar para casa, mesmo já estando em casa.
— Como foi hoje no trabalho? — ela perguntou, com carinho genuíno na voz.
— Turbulento. — ele admitiu, passando a mão pelos cabelos castanhos claros já com alguns fios grisalhos— Pilhas de papéis, decisões demais… o de sempre. E o seu dia?
Ela se afastou um pouco, mas sem soltar a mão dele. Havia um brilho em seus olhos que o deixou alerta.
— O que aconteceu? — perguntou, curioso, quase impaciente.
Lorena não respondeu de imediato. Puxou-o suavemente até o sofá no canto do quarto, como quem prepara o terreno para algo importante. O sorriso dela era contagiante, quase juvenil, como se tivesse voltado no tempo.
Paulo arqueou a sobrancelha.
— Um sorriso desses… você vai me matar de curiosidade.
Ela respirou fundo, a voz embargada de emoção.
— Paulo… eu vi a minha filha.
O mundo dele parou por um segundo. Os olhos arregalaram-se, e a resposta veio automática, instintiva, sem hesitar:
— A nossa filha?!
O sorriso dela se alargou, tímido e feliz, ao mesmo tempo em que uma mecha rebelde de cabelo caiu no rosto. Com um gesto delicado, ela a prendeu atrás da orelha.
— Sim, a nossa filha.
Ele a fitou, incrédulo, procurando confirmar se aquilo não era apenas um devaneio.
— Onde? — a voz saiu grave, carregada de urgência.
— Aqui. — Lorena disse, os olhos marejados. — Ela esteve aqui hoje, Paulo.
— Aqui? — ele se virou totalmente, os ombros tensos. — Como assim, aqui?
— Você não vai acreditar… — ela respirou fundo, o sorriso nervoso ainda preso no rosto. — Ela é namorada do Heitor Monteiro.
Paulo piscou várias vezes, tentando processar.
— O Heitor? Filho do Renato?
— Isso mesmo. — Lorena confirmou, quase rindo da ironia do destino. — Quem diria, Paulo… a nossa filha está com o filho do seu amigo de infância.
Ele deixou escapar um sorriso descrente, mas caloroso, como quem reconhece os caprichos do destino.
— É… parece que o universo gosta de brincar conosco.
A expressão dele, no entanto, logo se fechou em preocupação.
— E onde ela está agora?
— Com o Heitor. — Lorena respondeu baixinho, com ternura. — Provavelmente no apartamento dele.
Paulo suspirou, pesado.
— No apartamento dele? — a voz subiu, grave. — Lorena, não acha que ela é muito nova para…?
Ela riu, interrompendo.
— Nova? Paulo, ela tem 29 anos. É uma mulher feita.
— Ainda assim… — ele insistiu, carrancudo. — Aquele apartamento… é masculino demais para uma dama.
Ela arqueou uma sobrancelha, divertida.
— Não foi isso que você disse quando estiveram lá naquela comemoração com os Monteiro.
Ele pigarreou, desviando o olhar.
— Eu não sabia que minha filha iria frequentar aquele ambiente.
Paulo a olhou por um longo tempo, e então sua expressão mudou. Determinação.
— Amanhã mesmo vou chamar o arquiteto. Quero um quarto digno dela aqui em casa.
Lorena o encarou surpresa, o coração disparando.
— Paulo… você fala como se…
— Como se fosse minha filha também? — ele completou, firme, sem hesitar. — Porque é. Sangue do meu sangue ou não, se é parte de você… é parte de mim.
O sorriso dela tremeu, e as lágrimas finalmente escaparam, molhando-lhe o rosto. Ela apertou com força as mãos dele.
Ele puxou o rosto dela com delicadeza, beijando-lhe a testa.
— Então pronto. Está decidido. Não vamos mais perder tempo. Se o destino a trouxe de volta, vamos recebê-la como ela merece.
Lorena abaixou o olhar, a ponta dos dedos brincando nervosa com a barra do vestido.
— Eu ainda tenho que falar com ela.
Paulo virou o corpo de frente, surpreso.
— Não falou ainda? Por quê?
Ela suspirou fundo.
— Você sabe… ela foi criada pela família do genitor dela.
O semblante dele se fechou de imediato, a voz grave ecoando pela memória de tantas discussões passadas.
— Eu te disse que devíamos ter entrado na justiça.
Lorena sentiu o peso da culpa no peito.
— Eu era muito nova, Paulo. Não me deixaram pegá-la de volta.
— Nada que a justiça não resolveria. — retrucou, o tom mais duro. — Quando você me contou, eu devia ter sido mais insistente. Não devia ter deixado passar.
— Ela já estava grandinha… — murmurou, quase numa defesa frágil. — Eu achei que seria melhor para ela.
Paulo não conteve a irritação, mesmo tentando manter a calma.
— O melhor para ela era estar junto da família. Junto de nós.
Lorena abaixou a cabeça, a voz embargada.
— Paulo, já falamos sobre isso antes. Eu não quero falar disso novamente. Me machuca muito.
Ele respirou fundo, rendeu-se, e pousou a mão sobre a dela.
— Me desculpe, querida. — disse num tom baixo. — Eu só… nunca concordei com aquilo. E nunca vou concordar.
O silêncio ficou suspenso por alguns segundos, até que ele retomou, mais suave:
— O que importa agora é que ela está aqui. E independente do que digam… ela é uma Medeiros. Minha filha merece ter meu sobrenome.
Lorena ergueu o olhar, emocionada.
— Eu pedi ajuda para a Lili. Ela vai me ajudar a me aproximar da Helena.
Paulo arregalou os olhos, incrédulo.
— A Celina Monteiro?
— Ela mesma. — Lorena assentiu, firme. — Lili aceitou bem.
— Difícil de acreditar. — resmungou, sério.
— Não fale assim dela. — Lorena defendeu de imediato.
Ele ergueu as mãos em rendição.
— Eu sei, eu sei… Conheço a Celina e o Renato desde a infância. Por isso digo o que digo.
Lorena suavizou a voz.
— Celina é uma ótima pessoa, Paulo. Tem uma personalidade forte, mas enfrentaria o mundo por quem ama.
Paulo concordou com a cabeça.
— Isso é verdade. Mas não seria melhor a gente chamá-la aqui e conversar logo? Se ela está no Rio, eu não quero perder mais nenhum momento sem a minha filha.
Lorena desviou o olhar, apreensiva.
— Eu tenho medo, Paulo. Medo dela não me aceitar.
Ele segurou o rosto dela com firmeza, fazendo-a encará-lo.
— Ela nunca faria isso, amor. Aposto que o maior sonho dela é conhecer você.
Um sorriso tímido surgiu nos lábios de Lorena.
— Talvez seja… mas eu prefiro ir com calma. Preciso ter certeza, não quero que essa ferida antiga doa mais, quero que ela se feche.
Paulo a fitou, o coração pesado. Amava aquela mulher, e odiava vê-la fragilizada assim. Tudo nele gritava para protegê-la.
— Como ela é? — perguntou, mais baixo, quase ansioso.
O olhar de Lorena mudou, brilhando. Ela pegou o celular e mostrou algumas fotos. Paulo inclinou-se e, ao ver a imagem, arregalou os olhos.
— Nossa… — murmurou, surpreso. — Ela é a sua cara. Amor, é impossível alguém olhar para nós duas e não saber.
— Eu sei… — ela suspirou — Vai dar certo, eu sinto isso.
No fundo, ele não tinha tanta certeza, mas não ousou dizer. Apenas passou o polegar sobre a mão dela, transmitindo segurança. Paulo apoiou a mão no joelho, ainda pensativo.
— Mas… eu preciso ser honesto com você. — suspirou. — Eu não sei se o Heitor é o homem certo pra ela.
Lorena ergueu os olhos, surpresa.
— Por quê?
— Você sabe como ele é. — Paulo coçou a barba, contrariado. — Sempre teve esse jeito de conquistador. Nunca parou em namoro nenhum. E eu não suporto a ideia de ver a nossa filha se entregando de corpo e alma para alguém assim.
Lorena respirou fundo.
— Eu vi no perfil dele, ele faz postagens tão apaixonadas. É tão lindo de ver. Acho que ele está apaixonado por ela de verdade.
Paulo desviou os olhos, inquieto, o maxilar duro.
— Mesmo assim, se ele fizer a nossa filha chorar… — a voz falhou por um segundo, mas voltou firme. — Ele vai ter que se entender comigo. Eu sou o pai dela.
Lorena não conteve o riso, abafando-o com a mão.
— Você continua igualzinho, Paulo Medeiros. Primeiro a bronca, depois o abraço.
Ele suspirou, mas não resistiu quando ela se inclinou e beijou sua boca com carinho. Depois, ela encostou a testa na dele.
— Você já é pai, meu amor. Um pai maravilhoso pro Jonas e pro Isaac. E agora… um pai que a Helena merece ter.
As palavras o desmontaram. Paulo fechou os olhos, puxando-a contra o peito com força.
— Então pronto. — murmurou contra os cabelos dela. — Somos cinco agora. Você, eu, Jonas, Isaac… e a Helena.
Lorena sorriu entre lágrimas, e pela primeira vez em anos, sentiu que sua família estava completa.
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