O CEO que Eu Paguei

261 Se tiver alguma coisa, você vai achar


Por causa das descobertas daquela tarde, Heitor sabia que demoraria mais do que pretendia para sair da empresa. Na verdade, se dependesse apenas da inquietação que sentia, provavelmente atravessaria a madrugada ali. Quanto mais pensava no que Isaac havia contado e nos primeiros documentos que Compliance começara a cruzar, mais uma pergunta insistia dentro de sua cabeça: como ele não tinha visto? Ainda não sabia sequer se havia alguma coisa para ver durante o período em que estivera na filial, e Renato tinha razão ao dizer que primeiro precisavam descobrir quando tudo começara, mas aquilo já tinha se tornado pessoal demais para Heitor conseguir simplesmente esperar por um relatório pronto na manhã seguinte.

Pegou o celular e ligou para Helena.

Ela atendeu rapidamente.

— Oi, amor.

Só ouvir a voz dela já fez alguma parte da tensão diminuir.

— Helê, acho que vou demorar um pouco hoje. Chama o motorista para levar vocês pra casa, tá?

O silêncio do outro lado durou pouco.

— O que aconteceu?

Heitor fechou os olhos por um instante. Sabia que ela perceberia imediatamente.

— Apareceu um problema numa filial.

— Que problema?

— Fraude, provavelmente. Ainda estamos entendendo.

A voz dela mudou.

— Na Monteiro?

— É.

— Heitor...

— Calma. — Ele tentou deixar o tom mais leve. — Não aconteceu nada comigo. Só apareceu uma coisa que eu quero olhar com mais atenção. Quando chegar em casa eu te conto direito, pessoalmente.

— Mas é grave?

Heitor olhou para os documentos abertos sobre a mesa.

— Pode ser. Ainda não sabemos o tamanho.

Helena ficou alguns segundos quieta.

— Você vai passar a noite aí?

O jeito como perguntou fez Heitor sorrir levemente.

— Não.

— Heitor.

— Não vou, amor.

— Porque eu pedi para a governanta comprar as coisas. Eu ia fazer o strogonoff para você.

O sorriso dele aumentou. Então era por isso.

— Você vai fazer?

— Vou. Mas se você não vier, não vou fazer para ficar requentando depois.

— Eu vou.

— Que horas?

Heitor olhou o relógio e fez rapidamente as contas.

— Oito.

— Oito mesmo?

— Oito mesmo.

— Então tá. Eu espero.

Ele relaxou um pouco na cadeira.

— E fica tranquila. Eu só quero olhar uns documentos.

— Você vai achar.

Heitor franziu levemente o cenho.

— O quê?

— Se tiver alguma coisa ali para achar, você vai achar.

A frase foi dita com tanta naturalidade que Helena provavelmente nem percebeu o que fez.

Heitor ficou quieto.

— Amor?

— Tô aqui.

Olhou novamente para os documentos.

Alguns minutos antes, queria encontrar alguma coisa.

Agora tinha certeza de que encontraria.

Era ridículo o efeito que Helena conseguia provocar nele apenas acreditando. Heitor sempre fora competitivo, orgulhoso e movido por uma necessidade quase inconveniente de resolver tudo que colocavam diante dele, mas a confiança dela mexia num lugar ainda mais profundo. Gostava demais da maneira como Helena o enxergava. Quando dizia que ele conseguiria, alguma parte dele imediatamente concluía que fracassar deixara de ser uma opção.

— Então prepara meu strogonoff — disse com um sorriso. — Porque eu vou achar aqui.

Helena riu.

— Convencido.

— Você que acabou de falar.

— Eu falei que, se tiver alguma coisa, você encontra.

— Mesma coisa.

— Não é.

— Te amo.

— Também te amo. E não passa das oito.

— Não passo.

Desligou.

Heitor ficou alguns segundos olhando para o celular antes de deixá-lo sobre a mesa.

Depois chamou o Compliance.

A equipe já estava fazendo o levantamento formal, e Heitor não pretendia atravessar o trabalho deles nem transformar aquilo numa auditoria paralela improvisada, mas queria ajudar. Pediu acesso aos lançamentos dos últimos cinco anos relacionados à filial, com as notas e registros disponíveis no sistema. Não era a mesma coisa que estar fisicamente diante dos documentos originais, como fizera quando esteve lá, mas era o suficiente para começar a procurar padrões.

Quando os arquivos chegaram, começou.

Primeiro pelos valores.

Depois pelas descrições.

Depois pelos fornecedores.

Não demorou muito para perceber que trabalhar com duas telas seria irritante. Chamou a TI e pediu mais dois monitores. O técnico chegou algum tempo depois e encontrou a mesa do CEO sendo lentamente transformada numa central de investigação improvisada. Quando terminou, Heitor estava trabalhando com quatro monitores e o notebook aberto ao lado.

Aquilo melhorou.

Num monitor ficavam os lançamentos contábeis. Em outro, as notas digitalizadas. No terceiro, planilhas que Heitor montava enquanto avançava. No quarto, pesquisas de referência de preços, fornecedores e produtos. O notebook virou praticamente um bloco de apoio para anotações, Teams e e-mails.

Heitor começou a catalogar tudo.

Não olhava apenas o valor total da nota. Conferia item por item quando conseguia. Se aparecia determinado equipamento, pesquisava quanto aquele equipamento custava na época. Se o valor parecia alto demais, anotava. Se o fornecedor aparecia de forma recorrente, marcava. Conferia se o valor lançado no sistema correspondia ao valor da nota anexada. Em alguns momentos, chegou a suspeitar de alterações nos próprios documentos e passou a observar formatação, numeração, datas e qualquer pequena inconsistência que pudesse indicar alguma manipulação posterior.

Sabia que o compliance faria aquilo de maneira muito mais estruturada.

Mas Heitor precisava olhar.

Talvez por orgulho.

Talvez pela bronca do pai.

Talvez porque Helena dissera que ele encontraria.

Provavelmente pelas três coisas.

As horas passaram rapidamente.

Em alguns momentos, Heitor parava e tentava reconstruir mentalmente os dias em que estivera naquela filial. Reuniões com Gaspar. Conversas sobre custo. Projetos. Cortes que fizera. Fornecedores que questionara. Tentava lembrar de alguma compra que, na época, tivesse causado uma pequena estranheza e que agora ganhasse outro significado.

Nada vinha com clareza.

Aquilo o irritava.

Ainda assim, continuava.

Quando percebeu que já precisava sair se quisesse cumprir o horário combinado com Helena, sentiu vontade de ignorar o relógio.

Olhou novamente.

Depois para o notebook.

Podia levar.

Não era o ideal. Heitor sempre tentara separar cada vez mais a casa da empresa desde que Helena e Humberto tinham entrado definitivamente em sua vida, e abrir planilha no meio da noite era exatamente o tipo de hábito que vinha tentando abandonar. Mas sabia também que não conseguiria sentar no sofá fingindo que aquilo não existia.

Então faria o necessário.

Pegou o notebook, organizou algumas anotações e foi embora, já não havia quase ninguém mais na empresa.

No carro, a cabeça continuou trabalhando.

Heitor dirigia quase no automático enquanto tentava voltar no tempo. Lembrava de corredores, mesas, conversas, da maneira como Gaspar aparecia em alguns assuntos da equipe terceirizada mais do que ele talvez devesse. Naquela época, isso parecera apenas o jeito de um gerente excessivamente presente na operação. Talvez fosse só isso.

Ou talvez não.

Quanto mais perto de casa chegava, mais difícil ficava impedir Helena de invadir aquelas lembranças também.

Era inevitável.

Aquela filial, para ele, estava completamente contaminada por ela. Tentar lembrar de um dia qualquer acabava puxando o rosto de Helena em alguma reunião, uma mecha caída no pescoço, a expressão irritada quando percebia Heitor olhando demais, a maneira como ela evitava qualquer conversa que não fosse estritamente profissional enquanto ele inventava motivos para continuar por perto.

Heitor soltou o ar.

Renato tinha mexido numa ferida profissional que ele ainda não sabia exatamente como fechar.

Mas não resolveria aquilo dentro do carro.

Antes mesmo de entrar em casa, sentiu o cheiro do strogonoff.

Heitor sorriu.

O cheiro vinha da cozinha e parecia ter alcançado o hall inteiro. Só aquilo já fez o dia mudar de peso.

Quando atravessou a porta, Helena apareceu quase imediatamente.

Heitor mal teve tempo de colocar as coisas no lugar antes de receber um abraço tão apertado que fechou os olhos e a envolveu com os dois braços.

— Oi, amor. — Helena apertou mais. — Você demorou.

— Eu falei oito.

— São quase oito.

Heitor riu contra os cabelos dela.

— Então cheguei no horário.

Helena se afastou apenas o suficiente para olhá-lo no rosto.

— Você tá bem?

Ele ficou alguns segundos encarando-a.

Aquilo era casa.

Não o prédio, não os móveis, não a quantidade absurda de cômodos. Aquilo. Helena olhando para ele como se precisasse confirmar com os próprios olhos que estava inteiro.

— Tô.

Beijou sua testa.

— Cadê o Humberto?

— Dormiu faz pouco tempo.

— Nem me esperou?

— Ele tem uma agenda muito ocupada.

Heitor sorriu e deixou outro beijo no rosto dela.

— Senti falta dele.

— Amanhã ele te compensa.

Helena já parecia pronta para perguntar sobre a fraude, mas Heitor segurou sua mão e começou a andar em direção à sala de jantar.

— Antes você.

— Eu o quê?

— Quero saber como foi seu dia.

— Heitor...

— Depois eu conto o meu. Primeiro quero saber de vocês.

Helena conhecia aquela teimosia. Não insistiu.

Sentaram-se à mesa, e Heitor ficou genuinamente feliz quando ela começou a servir. O cheiro já tinha sido uma promessa; o primeiro prato confirmou tudo.

Pegou batata palha e colocou uma quantidade generosa por cima.

Helena olhou.

— Tudo isso?

— É só o necessário.

— Você vive reclamando quando eu misturo comida.

— Strogonoff é diferente.

— Conveniente quando te interesse, né.

Heitor experimentou.

Parou de mastigar por um segundo.

Olhou para Helena.

— Caralho.

Ela começou a rir.

— Tá bom?

— Helê… — pegou outra garfada. — Isso está absurdo.

Helena sorriu daquele jeito satisfeito que Heitor adorava provocar nela.

Enquanto comiam, ela começou a contar o dia.

E contou tudo.

Jonas. O celular novo. O chip. Amanda. As mensagens. O bloqueio. O desespero do irmão. A conversa entre eles. O jeito como Jonas ainda insistia que Amanda realmente o amava. A preocupação de Helena de que ele tentasse procurá-la pessoalmente.

Heitor foi ficando progressivamente mais sério.

— Ele comprou outro chip porque ela bloqueou o primeiro número?

— Comprou.

— Porra.

— Pois é.

Heitor passou a mão pela barba. Não esperava aquilo de Jonas. Sabia que o amigo era emocionado, sabia que tinha ficado completamente envolvido com Amanda, mas aquilo já começava a ultrapassar o sofrimento comum de um término.

— Eu posso passar lá depois.

Helena ergueu os olhos imediatamente.

— Não.

— Helê, uma conversa de homem pra homem talvez...

— Não pode.

— Por quê?

Ela respirou fundo.

— Porque ele me fez prometer que, se eu te contasse, você não iria falar com ele sobre isso.

Heitor ficou em silêncio. Então soltou uma risada.

— Ah, filho da puta.

Helena sorriu.

— O quê?

— Ele falou isso porque sabe que eu vou falar umas poucas e boas que vão fazer ele repensar a vida.

— Provavelmente.

Heitor balançou a cabeça e continuou comendo.

— Tá. Eu não vou atrás dele.

— Obrigada.

— Mas se ele vier falar comigo...

Helena estreitou os olhos.

— Heitor.

— Aí não fui eu que fui falar com ele.

— Não procura brecha.

Ele sorriu.

— Não estou procurando.

Estava e Helena sabia.

Ainda assim, deixou passar.

Heitor terminou o primeiro prato e imediatamente serviu outro.

Helena olhou.

— Segunda vez?

— Se eu tivesse que escolher minha última refeição hoje, seria isso.

— Hoje?

— Preciso deixar margem para você fazer alguma coisa melhor amanhã.

Ela riu.

Foi só quando Heitor já estava na metade do segundo prato que Helena voltou ao assunto que realmente queria ouvir.

— Agora me conta.

Ele sabia.

— A fraude.

— É.

Heitor mastigou, tomou um pouco de água e começou desde o almoço com Isaac.

Contou sobre o convite inesperado. Sobre a conversa. Sobre Ana Alice ter falado de Gaspar. Sobre Isaac ter conseguido acesso às provas que ela guardara. Conforme avançava, observava as reações de Helena.

Elas eram quase exatamente as mesmas que ele tivera.

Quando falou do envolvimento entre Gaspar e Ana Alice, Helena arregalou os olhos.

— Não acredito.

Heitor apontou o garfo para ela.

— Foi exatamente o que eu falei.

— Eu sabia que ela se atirava nele, mas achei que era igual fazia com todo mundo.

— Também.

— Ela dava em cima de praticamente qualquer homem bonito ou que tivesse poder.

Heitor levantou uma sobrancelha.

— Bonito ou com poder?

Helena percebeu o olhar.

— Não começa.

— Só estou tentando entender os critérios.

— Você se encaixava nos dois e sabe disso.

O sorriso dele apareceu imediatamente.

— Obrigado.

— Você é terrivelmente convencido. — falou ela revirando os olhos.

Heitor voltou ao prato muito satisfeito.

— Continua.

— Eu nunca imaginei que ela e o Gaspar realmente tivessem alguma coisa. Muito menos isso.

Então Heitor contou sobre o dinheiro.

Celular.

Roupas.

Perfumes.

Viagens.

Possivelmente carro.

Despesas lançadas pela filial.

Helena deixou o garfo sobre o prato.

— Ele fazia isso com dinheiro da Monteiro?

— É o que parece.

— Meu Deus.

— Ainda estão levantando. Não quero afirmar nada antes de confirmar.

Heitor continuou e chegou à parte que mais o incomodava.

A acusação de pressão e assédio.

Helena ficou quieta.

— Isaac disse que Gaspar começou a pressionar a Ana Alice quando ela terminou com ele para ficar com Isaac. Usava o que tinha feito por ela e o que sabia da relação dos dois para tentar fazer ela voltar.

Helena fez uma expressão estranha.

— Eu não sabia de nada disso.

— Nunca viu nada diferente?

Ela pensou.

Heitor não a apressou.

— Não dessa forma.

— Gaspar tratava ela diferente?

Helena inclinou a cabeça.

— Eu teria que pensar.

Heitor largou o garfo e prestou mais atenção.

— Pensa.

— Eu lembro de Ana Alice se atirando nele. Mas ela fazia isso com vários homens.

— Eu sei.

— Não, você viu uma parte. Ela fazia muito isso.

Heitor ficou quieto.

Helena começou a reconstruir as próprias lembranças.

— Se entrava algum homem bonito no setor, ela mudava. Se era alguém importante, pior ainda. Gerente, diretor, cliente... Ela gostava de chamar atenção.

— Isso eu percebi.

Helena fez uma pequena careta.

— Percebeu mesmo.

Heitor ignorou a provocação.

— Mas nunca viu Gaspar oferecer alguma coisa em troca?

— Não.

— Mudar escala?

— Não lembro.

— Facilitar alguma coisa?

— Também não.

Heitor assentiu lentamente. Era o mesmo que imaginara.

Então Helena acrescentou:

— Mas tinha uma coisa nela que eu lembro bem.

Heitor ergueu os olhos.

— O quê?

Helena ficou alguns segundos pensando antes de responder.

— A família dela. Principalmente o pai.

Heitor apoiou o garfo no prato, prestando mais atenção.

— Você conheceu o pai da Ana Alice?

— Conheci uma vez. A mãe dela estava internada por causa de uma cirurgia no joelho que infeccionou. A Ana estava chorando no trabalho, bem mal mesmo, e eu levei ela para casa.

Heitor tentou imaginar aquela cena. Ana Alice chorando não lhe despertava qualquer simpatia, mas permaneceu quieto.

— Quando chegamos, o pai dela estava na porta — Helena continuou. — Antes mesmo de a gente sair direito do carro, ele começou a gritar com ela porque ela tinha saído. O jeito dela mudou na hora, Heitor. Ela congelou.

Ele franziu o cenho.

— Como assim?

— Recuou. Ficou pequena. Não era nem um pouco a Ana Alice da empresa. — Helena mexeu devagar no copo enquanto a memória voltava. — Ele chegou a avançar na direção dela e eu desci do carro. Assim que percebeu que eu estava ali, virou outra pessoa.

Heitor estreitou os olhos.

— Outra pessoa como?

— Educado. Simpático. Pediu desculpa pela gritaria, falou que era coisa de família, me convidou para entrar e tomar café. Como se eu não tivesse acabado de ver o que aconteceu.

Aquilo já parecia muito mais significativo do que a descrição genérica que Heitor imaginara quando Helena mencionara uma família rígida.

— E você entrou?

Helena olhou para ele como se a resposta fosse óbvia.

— Claro.

Claro que entrara. Heitor queria dizer que era perigoso, mas não iria adiantar.

— Fiquei um pouco lá. Ele era daqueles homens que precisavam comandar tudo. Até a internação da esposa parecia uma operação que só podia acontecer se ele decidisse quem iria ao hospital e em qual horário. E a Ana concordava com tudo. Falava baixo, ficava com os ombros tensos... — Helena fez uma pequena pausa. — Eu lembro porque aquilo me chamou atenção justamente por ela ser completamente diferente no trabalho.

— Diferente quanto?

— Muito. Na empresa, Ana Alice era expansiva, dava em cima dos homens, falava o que queria, gostava de chamar atenção. Naquela casa parecia outra pessoa.

Heitor passou lentamente o polegar pelo cabo do garfo.

— Ela falou alguma coisa sobre ele?

— No carro, antes de chegarmos. Disse que tinha crescido na igreja e que o pai achava que chorar era fraqueza. Falou que todo mundo achava que ela era exagerada, mas ninguém sabia o que tinha por trás. Na época eu entendi mais como uma família muito controladora.

Helena ficou alguns segundos em silêncio.

— Eu até pensei que talvez aquele jeito dela no trabalho fosse uma forma de extravasar. Em casa precisava se controlar o tempo todo, então na empresa fazia exatamente o contrário.

Heitor assentiu devagar.

Aquilo fazia muito mais sentido.

Não transformava Ana Alice em outra pessoa e, definitivamente, não apagava nada que ela havia feito depois. Mas dizia alguma coisa sobre a mulher que existia antes de todas aquelas histórias chegarem até ele.

— Você achava que ele batia nela? — perguntou.

Helena pensou antes de responder.

— Eu não sei. Nunca vi. E ela nunca falou isso. O máximo que posso dizer é que, quando ele avançou, ela recuou como alguém que já conhecia aquele jeito dele. Mas eu não vou afirmar uma coisa que não sei.

Heitor gostou da precisão.

— Certo.

— Eu só sei que ela tinha medo dele. Ou pelo menos muito medo de desagradar. Isso eu vi.

Ele ficou quieto por alguns segundos, encaixando aquela informação junto às outras.

— E você nunca relacionou isso ao Gaspar?

— Nunca. Na época eu nem sabia que existia alguma coisa entre os dois. — Helena fez uma pequena careta. — Pra mim, Ana Alice dava em cima dele como dava em cima de qualquer homem bonito ou importante.

Heitor ergueu uma sobrancelha.

— Bonito ou importante?

— Para, Heitor.

— Estou só entendendo o perfil.

— Você se encaixava nos dois e sabe disso. Já disse.

O sorriso dele apareceu devagar.

— Então, pra você também tinha que ser bonito e importante?

Helena olhou para ele.

— Não.

Heitor fez uma pequena careta.

— Não?

— Não precisava ser bonito, importante, rico, nada disso.

Ele ficou esperando, claramente interessado demais naquela resposta.

Helena sorriu.

— Só precisava ser você.

Heitor não respondeu.

Apenas baixou os olhos para o prato e pegou outra garfada de strogonoff como se aquela frase não tivesse acabado de inflar seu peito inteiro. O sorriso ainda estava ali, pequeno demais para admitir qualquer coisa e grande demais para esconder de verdade.

Helena percebeu.

— Olha essa cara.

— Que cara?

— Toda feliz.

— Estou comendo.

— Sei.

Heitor continuou mastigando, muito satisfeito com aquela informação absolutamente desnecessária para qualquer investigação e extremamente necessária para ele.

Helena balançou a cabeça, ainda sorrindo, mas aos poucos ficou séria outra vez.

— Mas, olhando hoje... talvez essa necessidade dela de esconder as coisas da família tenha ajudado o Gaspar. Se ele sabia com quem estava lidando, sabia que ela teria muito medo de alguma história chegar até o pai.

Heitor parou de mastigar.

O sorriso desapareceu, não de forma brusca, mas porque a cabeça já tinha voltado para o problema.

Agora havia alguma coisa ali.

Não uma prova. Nem perto disso. Mas uma possibilidade coerente.

— Isso pode ser importante — disse.

— Pode. Só não sei se ele sabia como a família dela era.

— É justamente uma das coisas que precisamos descobrir.

Helena assentiu.

Heitor voltou a pensar em Clara.

Se Gaspar conhecia aquela vulnerabilidade, então a ameaça de expor o relacionamento podia ter um peso muito maior do que parecia à primeira vista. Não seria apenas o medo de um caso escondido vir à tona dentro da empresa. Para Ana Alice, talvez significasse levar aquela versão de si mesma justamente para dentro da casa onde passara a vida inteira tentando escondê-la.

Isso ainda não tornava Heitor mais simpático a ela.

Não apagava nada.

Mas mudava a forma como precisava olhar para a possível pressão exercida por Gaspar.

E, se ele havia usado dinheiro, vantagens ou aquele medo específico para manter Ana Alice sob controle depois que ela tentou sair da relação, alguém que acompanhara a equipe diariamente talvez tivesse percebido pequenas mudanças sem entender, na época, o que realmente estava acontecendo.

Clara voltava a ser a pessoa mais importante para a conversa do dia seguinte.

O arroz já tinha acabado havia alguns minutos quando Heitor percebeu que ainda restava bastante molho de strogonoff na panela. Olhou para aquilo, depois para o pacote de batata palha quase vazio sobre a mesa e tomou uma decisão que, naquele momento, pareceu perfeitamente razoável. Pegou o pacote e despejou todo o restante diretamente na panela.

Helena arregalou os olhos.

— Heitor!

— O quê?

— Você já comeu três pratos enormes.

— Não vou deixar isso aqui.

— Guarda para amanhã.

Heitor misturou a batata palha ao molho com a colher.

— Amanhã não vai estar igual.

— Amor, você vai passar mal.

— Não vou.

— Vai, sim. Você comeu demais.

Heitor já estava colocando mais um pouco no prato.

— Helê, é pecado deixar sobrar uma coisa dessas.

Helena começou a rir.

— Pecado é essa quantidade que você está comendo.

— Você fez gostoso demais, agora assume as consequências.

— Ah, claro. A culpa é minha.

— Totalmente.

Ele terminou absolutamente tudo.

Naquele momento, sentiu apenas satisfação. Estava alimentado, feliz, em casa, tinha acabado de comer uma das melhores coisas que Helena já fizera para ele e ainda olhou para a panela vazia com a sensação de dever cumprido.

O arrependimento veio quando levantou.

Heitor empurrou a cadeira para trás, ficou de pé e parou.

A comida finalmente pareceu chegar inteira ao estômago.

— Caralho.

Helena olhou para ele.

— O que foi?

Heitor colocou uma mão sobre a barriga.

— Acho que eu exagerei.

Ela ficou alguns segundos em silêncio, encarando-o com uma expressão que dizia tudo.

— Não fala.

— Eu avisei.

— Helena.

— Eu falei umas quatro vezes.

— Não precisa ficar feliz com a desgraça do seu noivo.

— Não estou feliz. Estou dizendo que avisei.

Heitor começou a andar devagar.

Muito devagar.

A sensação era de que havia concretado o interior do próprio abdômen. Estava pesado, estufado e, pela primeira vez naquela noite, profundamente arrependido da última porção. Talvez também de metade da terceira.

— Puta merda.

Helena começou a recolher algumas coisas da mesa, rindo.

— Bem feito.

— Que crueldade.

— Você estava comendo direto da panela no final.

— Porque você não fez arroz suficiente.

Helena virou imediatamente.

— Eu fiz arroz para uma família!

— Não foi suficiente.

— Porque você comeu como uma família!

Heitor tentou rir e se arrependeu até disso.

— Não me faz rir. Minha barriga tá doendo.

— Drama.

— Não é drama, não. Eu tô passando mal mesmo.

Tomou um banho esperando que a água quente ajudasse, mas saiu praticamente na mesma situação. Quando chegou ao quarto, olhou para a cama e percebeu que deitar completamente seria impossível. Tentou sentar. Também não gostou. Acabou indo para a poltrona de amamentação de Helena, reclinando o encosto e procurando uma posição em que não sentisse que o strogonoff pretendia ocupar também seus pulmões.

Helena entrou no quarto algum tempo depois e encontrou Heitor largado na poltrona, de samba-canção, uma mão sobre a barriga e os olhos quase fechados.

— Você não ia trabalhar?

Heitor abriu um olho.

O notebook continuava fechado sobre uma mesinha próxima.

— Não tenho condições intelectuais.

Helena começou a rir.

— Condições intelectuais?

— Meu cérebro desligou.

— Por causa de strogonoff?

— Meu corpo desviou todos os recursos disponíveis pra digestão.

— Para de inventar.

— É sério. — Heitor passou a mão lentamente pela barriga. — Tô igual uma anaconda.

Helena soltou uma gargalhada.

— Uma anaconda?

— Sabe quando ela engole um bicho inteiro e fica parada uns três dias fazendo digestão?

— Sei.

— Eu.

Helena riu ainda mais.

— Você é muito bobo.

— Daqui a pouco vai aparecer o formato da panela aqui.

Ela se aproximou, ainda rindo, e passou a mão pela barriga dele.

— Tá dura mesmo.

— Eu falei.

— Bem feito.

Heitor segurou a mão dela antes que se afastasse.

— Cuida de mim.

— Eu cuidei. Falei para você parar de comer.

— Isso era cuidado preventivo. Agora preciso de cuidado emergencial.

Helena revirou os olhos.

Heitor realmente tentou abrir o notebook mais tarde. Colocou-o no colo, olhou para a primeira planilha durante talvez dois minutos e percebeu que não tinha absorvido uma única informação. Fechou novamente. A fraude continuaria existindo pela manhã. Naquele momento, sua maior investigação era descobrir uma posição em que a barriga não incomodasse e ele conseguisse dormir.

Acabou ficando na poltrona por muito mais tempo do que pretendia.

Em algum momento da noite, acordou com Helena se aproximando. Ainda sonolento, viu que ela carregava uma bolsa de água quente enrolada numa toalha.

— Ajeita um pouco o corpo, amor.

Heitor obedeceu sem discutir.

Helena colocou a bolsa sobre seu estômago e ele soltou um suspiro quase imediato quando sentiu o calor.

— Nossa... isso.

— Esfomeado.

— Não começa.

— Eu falei.

— Você já falou umas vinte vezes.

— E amanhã vou falar de novo para ver se aprende.

Heitor segurou o pulso dela antes que Helena se afastasse e levou sua mão até o peito.

— Para de brigar comigo e cuida de mim.

— Eu estou cuidando.

— Então fica aqui.

Helena tentou manter a expressão séria, mas ele percebeu o sorriso.

— Você parece uma criançona.

— Uma criançona doente.

— Você não está doente. Você comeu demais.

— Uma criançona que comeu demais.

Helena riu e passou a mão pelos cabelos dele. Heitor fechou os olhos imediatamente. Gostava daquilo. Gostava até das broncas quando vinham acompanhadas daquela mão fazendo carinho em sua cabeça. Depois de um dia inteiro pensando em fraude, Gaspar, Ana Alice, notas fiscais e tudo que talvez tivesse acontecido debaixo do seu nariz, terminar a noite sendo cuidado por Helena fazia o mundo voltar ao tamanho certo.

Na manhã seguinte, acordou muito melhor.

Cheio ainda.

Definitivamente cheio.

A simples ideia de café da manhã não despertou nenhum interesse, o que para Heitor era a prova definitiva de que havia cometido um erro grave na noite anterior. Mas a dor tinha passado e, quando ouviu os sons de Humberto, esqueceu rapidamente do próprio estômago.

O filho já estava acordado.

Heitor se aproximou e encontrou Humberto numa animação impressionante para alguém tão pequeno e tão cedo. O bebê falava sem parar naquela língua particular que parecia fazer todo sentido para ele mesmo, batendo as mãos, sorrindo e soltando sons diferentes como se estivesse contando tudo que tinha acontecido desde a última vez que vira o pai.

— É mesmo? — Heitor respondeu, muito sério. — Caraca. E depois?

Humberto soltou uma sequência de balbucios.

— Não acredito.

Helena, ainda sonolenta, observava os dois.

— Vocês se entendem mesmo, né?

— Perfeitamente.

Humberto então se apoiou e movimentou o corpo de um jeito diferente. Heitor ficou atento imediatamente.

— Pera aí.

O bebê sustentou a posição e começou a girar o corpinho apoiado, mudando a direção para alcançar um brinquedo próximo.

Heitor abriu um sorriso enorme.

— Helê! Olha isso!

— Eu tô vendo, ele está ótimo nisso.

— Ele tá pivotando de novo!

O orgulho que tomou conta dele era completamente desproporcional à distância de poucos centímetros que Humberto conseguira percorrer.

— Meu garoto!

Humberto sorriu com a comemoração.

Heitor se abaixou, ficando quase na altura dele.

— Daqui a pouco você tá sentado, hein? Depois vai engatinhar. Aí acabou a paz dessa casa.

Helena riu.

— Principalmente a sua.

— Minha nada. Vou ensinar ele a me seguir.

Heitor ainda ficou um bom tempo brincando com o filho. Estava com saudade. No dia anterior, chegara depois de Humberto dormir e, embora tivesse sido apenas uma noite, para ele já parecia tempo demais. Só foi se arrumar quando percebeu que precisava realmente sair.

Vestido para o trabalho, voltou até Helena antes de ir embora.

— Vem cá.

Ela mal teve tempo de perguntar o que ele queria. Heitor segurou seu rosto e começou a enchê-la de beijos. Na testa, nas bochechas, no nariz, no canto da boca.

— Heitor! — Helena começou a rir. — Vai trabalhar.

Ele deu outro beijo.

— Tô indo.

Mais um.

— Você vai se atrasar.

Outro.

Foi quando Humberto soltou um balbucio alto e nitidamente irritado.

Heitor olhou para o filho.

Humberto reclamou novamente.

— Que foi?

O bebê agitou os braços.

Helena começou a rir.

— Ele não gostou.

— Problema dele.

Heitor voltou a beijá-la.

Humberto reclamou ainda mais alto.

— Para de ciúme da minha mulher, rapaz — Heitor disse, sem qualquer intenção de obedecer.

Deu mais dois beijos demorados no rosto de Helena apenas para terminar o que tinha começado e só então foi até o filho.

— Agora você.

Pegou Humberto e encheu suas bochechas de beijos também. O bebê tentou virar o rosto, resmungando, até começar a rir.

— Tá vendo? Todo mundo recebe.

Helena ajeitou a gola da camisa dele quando Heitor colocou Humberto novamente no lugar.

— Bom trabalho, amor.

Ele olhou para ela por um instante.

A investigação voltou à cabeça.

Mas agora estava descansado, sem dor e com a lembrança da frase de Helena da noite anterior ainda muito viva.

Se tiver alguma coisa ali para achar, você vai achar.

Heitor deu um último beijo nela.

— Te amo.

— Também te amo.

Ele ainda passou a mão pela cabecinha de Humberto antes de sair.

Dessa vez, quando seguiu para a empresa, a cabeça já estava completamente desperta.

E seu estômago continuava tão cheio que Heitor decidiu que talvez conseguisse passar o resto da vida sem olhar para outro strogonoff.

Ou, pelo menos, até Helena fazer de novo.

O restante do dia não deu a Heitor tempo para continuar remoendo a conversa com Renato.

A Monteiro Inc. seguia funcionando independentemente de vergonha, fraude ou crise familiar, e havia trabalho demais esperando por ele. A filial dos Estados Unidos estava entrando na fase final de implantação, com uma lista irritante de pendências que pareciam se multiplicar toda vez que alguém resolvia uma. Heitor participou de duas reuniões com a equipe internacional, revisou um cronograma, respondeu a uma sequência de mensagens do Jurídico e ainda precisou intervir numa discussão entre planejamento e operações sobre uma alteração de escopo que ninguém parecia disposto a assumir.

Fez o que sempre fazia.

Trabalhou.

E trabalhou bem.

Talvez até com um pouco mais de atenção do que de costume naquele dia.

Quando finalmente olhou novamente para a agenda, a reunião com Clara aparecia marcada para poucos minutos depois.

Heitor ficou alguns segundos observando o nome.

Clara Vilela — Alinhamento Operação / Plano & Forma.

O gerente de RH tinha feito exatamente como ele pedira. Nada que chamasse atenção.

Pegou o notebook, uma caneta e uma caderneta que mantinha sobre a mesa e caminhou até a sala de reunião. Poderia fazer a chamada da própria sala, mas preferia um espaço mais neutro. Além disso, não queria interrupções.

Quando entrou, Clara já estava conectada.

A imagem dela ocupava a tela do Teams. Estava sentada numa sala que Heitor reconheceu vagamente como uma das pequenas salas de reunião da filial de Minas. O cabelo estava preso, como quase sempre usava no trabalho, e havia uma garrafa de água ao lado do notebook.

Assim que percebeu que ele havia entrado, Clara endireitou um pouco a postura.

— Boa tarde, doutor Heitor.

Heitor colocou o notebook sobre a mesa.

— Boa tarde, Clara. Tudo bem?

— Tudo, sim. E com o senhor?

— Tudo certo.

Sentou-se e ajeitou a câmera. Clara ainda parecia ligeiramente tensa. Não de uma maneira exagerada, mas Heitor conhecia aquela postura. Ombros mais firmes, mãos juntas demais sobre a mesa, atenção excessiva.

Ela estava tentando descobrir por que o CEO da Monteiro Inc. tinha resolvido chamá-la pessoalmente.

Heitor decidiu não prolongar aquilo.

— Antes de qualquer coisa, parabéns pela carteira de moto.

Clara piscou. A tensão no rosto dela deu lugar à surpresa.

— O quê?

Heitor sorriu.

— A Helena me contou que você finalmente tirou.

Clara começou a rir.

— Meu Deus. Ela contou isso?

— Contou. Falou como se você tivesse passado numa prova da NASA.

— Aquela mulher é exagerada demais.

— Ela gosta bastante de você.

Clara ajeitou uma mecha do cabelo atrás da orelha, agora claramente menos rígida.

— Mas obrigada. Tirei mesmo. Demorei, mas saiu.

— Já comprou a moto?

— Ainda não. Estou pesquisando.

— Faz certo. Não compra no impulso.

Clara riu de novo.

— Vou tentar.

Heitor apoiou a caneta sobre a caderneta.

— E como vocês estão por aí?

— Na correria de sempre.

— Isso nunca mudou.

— Nunca.

A resposta saiu mais natural. Heitor percebeu que ela começava a relaxar.

— E você? Tudo bem mesmo?

— Tudo. Muito trabalho, mas tudo certo.

— A equipe ainda está praticamente a mesma?

Clara assentiu.

— Quase toda. Teve algumas mudanças, mas a base continua.

Heitor fez um pequeno gesto de concordância.

— A Helena ainda fala com vocês?

Clara abriu um sorriso.

— Direto. Principalmente comigo, com a Júlia e o Hugo. Ela manda foto do Humberto o tempo inteiro no grupo.

O sorriso de Heitor apareceu imediatamente.

Era impossível evitar.

— Ela manda pra todo mundo.

— E faz muito bem. Ele é lindo.

— Obrigado.

— Parabéns, de verdade. A gente ficou muito feliz quando soube.

— Valeu, Clara. — Heitor ainda sorria quando apoiou as costas na cadeira. — Inclusive, já que você fala com ela, eu te chamei principalmente para fazer um relatório completo.

Clara ficou séria por reflexo.

— Relatório?

— Sobre a Helena.

Ela demorou um segundo para entender. Quando percebeu, soltou uma risada.

— Ah, doutor Heitor...

— Quero saber se ela está falando mal de mim.

— Se eu responder isso, posso perder meu emprego dos dois lados.

Heitor riu.

— Inteligente.

— Aprendi a sobreviver.

— Então estamos bem.

O clima já era completamente diferente do início da chamada.

Clara continuava respeitosa, mas havia perdido aquela rigidez de quem esperava uma notícia ruim. Heitor aproveitou o momento para abrir a caderneta diante dele.

— Mas falando sério agora, eu te chamei por causa de algumas coisas da operação.

A mudança foi pequena, mas imediata. Clara assumiu a postura profissional novamente.

— Claro.

— Como eu coloquei no e-mail, estou revendo algumas questões relacionadas ao contrato da Plano & Forma antes de conversar com o Dudu.

Heitor percebeu a atenção dela aumentar. Era exatamente o que esperava.

— Algum problema com o contrato?

A pergunta veio rápida demais para ser apenas curiosidade.

Heitor levantou os olhos.

— Não.

Clara pareceu não relaxar completamente.

— Na verdade, estou pensando no contrário.

Ela franziu levemente a testa.

— Como assim?

— Talvez a gente aumente algumas demandas.

A reação foi visível.

Não uma comemoração, mas um alívio que Clara tentou esconder e não conseguiu totalmente.

Heitor continuou:

— Ainda não tem nada decidido. Quero entender primeiro como a estrutura está funcionando hoje, o que vocês estão absorvendo, onde estão os gargalos e se faz sentido colocar mais coisa no contrato ou se a gente só vai jogar trabalho em cima de uma equipe que já está no limite.

Clara assentiu imediatamente.

— Hoje está bem apertado.

Heitor pegou a caneta.

— Quanto?

Clara pensou um pouco.

— Depende da área, mas no geral a gente está trabalhando com menos gente do que deveria.

— Desde quando?

— Já faz bastante tempo.

— Vocês perderam pessoas?

— Sim. E algumas não foram substituídas.

Heitor escreveu uma palavra na caderneta.

— Quem?

Clara começou a contar mentalmente.

— Teve algumas saídas depois, mas duas vagas que fizeram diferença mesmo foram a da Helena e a da Ana Alice.

A caneta de Heitor parou por uma fração de segundo.

Tão pouco que Clara provavelmente não percebeu.

— Elas nunca foram substituídas?

— Não de verdade.

— Como assim?

— As funções foram redistribuídas.

Heitor ergueu os olhos.

Clara continuou:

— Quando as duas saíram, a gente reorganizou as demandas entre quem ficou. Algumas atividades foram incorporadas por outros analistas, outras eu absorvi por um tempo e algumas foram reduzidas. Só que depois o volume voltou a crescer e a equipe não voltou para o tamanho anterior.

— E isso foi comunicado à Plano?

— Foi.

— Ao Dudu?

— Também. — Clara fez uma pequena pausa. — Mais de uma vez.

O tom não era de reclamação. Era quase cuidadoso demais.

Heitor percebeu.

— Pode falar, Clara.

Ela respirou devagar.

— Eu sei que contrato é contrato. Não estou criticando a empresa.

— Qual delas?

Clara ficou ligeiramente desconcertada.

— Como?

— Você disse que não está criticando a empresa. A Plano ou a Monteiro?

Ela sorriu sem graça.

— Nenhuma das duas.

— Ótima resposta.

Clara riu. Heitor também.

— Mas eu te chamei justamente para entender. Então pode falar normalmente.

Ela assentiu.

— A questão é que a operação foi se adaptando. Quando alguém sai e não existe reposição imediata, a gente redistribui. O problema é que, se isso funciona durante alguns meses, começa a parecer que aquela pessoa nunca foi necessária.

Heitor gostou da maneira como ela colocou.

— E era?

— Era.

— As duas?

— Sim.

Clara não hesitou.

— A Helena principalmente tinha uma carga muito específica em risco e controles que foi espalhada. A Ana Alice também tinha uma parte importante ligada aos projetos de adaptação e acompanhamento operacional. A gente conseguiu manter, mas não da mesma forma.

— Isso gerou atraso?

— Em alguns momentos.

— Queda de qualidade?

Clara demorou um pouco mais.

— Não a ponto de eu dizer que entregamos mal.

Heitor percebeu imediatamente o cuidado dela.

— Mas?

— A equipe teve que correr mais para manter o mesmo padrão.

Ele anotou.

— Hora extra?

— Algumas.

— Banco de horas?

— Também.

— Sobrecarga?

Clara fez uma expressão pequena.

— Sim.

Heitor deixou a caneta sobre a mesa.

— Por que vocês não bateram mais forte nisso?

Clara ficou claramente mais cautelosa.

— A gente bateu.

— Com quem?

— Com a Plano. E algumas vezes com a gestão da filial.

Heitor apoiou os braços sobre a mesa.

— Gaspar?

Clara demorou talvez um segundo a mais do que deveria.

— Também.

Aquilo não passou despercebido.

Heitor não avançou imediatamente.

— E qual era a resposta?

— Dependia.

— Do Dudu ou do Gaspar?

Clara olhou para a tela por alguns segundos.

O receio tinha voltado um pouco.

Não o medo inicial de perder o contrato, mas outro tipo de cautela. Heitor reconheceu aquilo também. Clara estava escolhendo as palavras porque Gaspar era gerente da Monteiro Inc. e ela era uma supervisora terceirizada falando diretamente com o dono da empresa.

Heitor resolveu aliviar novamente.

— Clara, eu não estou tentando fazer você falar mal de ninguém.

— Eu sei.

— Quero entender como funciona de verdade. Organograma eu consigo puxar no sistema. Se eu quisesse saber só o que está no contrato, não precisava te ligar.

Ela assentiu lentamente.

— Certo.

— E essa conversa não é uma avaliação sua.

Clara respirou um pouco melhor.

— Tudo bem.

— Pelo contrário. Se eu estou pensando em aumentar demanda, eu preciso saber se vocês têm estrutura para receber. Não adianta eu sentar com o Dudu, colocar mais trabalho no contrato e descobrir seis meses depois que a equipe já estava operando no limite.

Clara pareceu finalmente acreditar completamente no motivo apresentado.

— Nesse caso, não temos.

Heitor quase sorriu.

Era a primeira resposta realmente seca dela desde o início da reunião.

— Não?

— Não com a equipe atual.

— Quantas pessoas faltam?

Clara pensou.

— Para voltar a uma estrutura confortável? Pelo menos duas.

— As duas vagas antigas.

— Seria o começo.

— Começo?

Clara deu um pequeno sorriso.

— O senhor falou que queria saber de verdade.

Heitor se recostou.

— Agora eu quero ainda mais.

Ela respirou fundo e puxou uma folha que estava ao lado do notebook.

— A operação cresceu desde a época em que o senhor ficou aqui. Não parece muito porque a filial continua pequena quando compara com as outras, mas o número de demandas internas aumentou. A gente absorveu atividades que antes ficavam espalhadas entre outros setores e alguns clientes aumentaram exigência de acompanhamento.

Heitor começou a anotar novamente.

— Então duas pessoas só recompõem o que vocês perderam.

— Exatamente.

— Não o crescimento.

— Não.

— Quantas para o crescimento?

Clara hesitou.

Heitor percebeu.

— Pode pedir, Clara. Não quer dizer que eu vou dar.

Ela riu.

— Assim fica fácil.

— Empresa é assim.

Clara olhou rapidamente para alguma coisa na própria tela.

— Eu diria quatro.

Heitor ergueu as sobrancelhas.

— Quatro além das duas?

— Não. Quatro no total.

— Certo.

— Duas para recompor e duas para distribuir melhor a demanda atual.

— Perfis?

Clara respondeu sem consultar nada.

— Um analista mais forte em riscos e controles, um de planejamento operacional, um perfil mais voltado para indicadores e melhoria contínua e alguém mais júnior para apoio, documentação e acompanhamento.

Heitor anotou os quatro.

— Isso já foi apresentado para o Dudu?

— Não dessa forma.

— Por quê?

Clara deu de ombros discretamente.

— Porque quatro pessoas é um aumento grande de custo.

— Você trabalha para a Plano. Devia querer aumentar o contrato.

Ela sorriu.

— Eu quero manter o contrato.

A resposta fez Heitor levantar os olhos.

Clara continuou, agora com um pouco mais de segurança:

— Aumentar demais sem conseguir justificar também é uma maneira boa de perder cliente.

Heitor ficou alguns segundos olhando para ela.

Aquilo era interessante.

— Então você prefere pedir menos?

— Prefiro pedir o que consigo defender.

— Mesmo que pudesse conseguir mais?

— Se a equipe não precisa, eu não vejo motivo.

Heitor girou a caneta entre os dedos.

— Você continua igual.

Clara pareceu surpresa.

— Igual?

— Nas reuniões. Sempre muito preocupada em não prometer mais do que consegue entregar.

Ela sorriu um pouco.

— Alguém precisa ser.

Heitor soltou uma risada curta.

— Justo.

Olhou para as anotações novamente.

Agora já tinha conseguido o que queria para o início da conversa.

Clara estava mais relaxada, falando de estrutura, defendendo a própria equipe e o contrato sem aquela sensação constante de que qualquer frase poderia custar seu emprego.

Era hora de começar a voltar alguns anos.

Sem pressa.

— Você falou que a Helena e a Ana Alice nunca foram realmente substituídas.

— Isso.

— Na época em que elas estavam aí, como funcionava exatamente a divisão da equipe?

Clara levou a mão ao mouse.

— O senhor quer a estrutura formal ou como a gente trabalhava no dia a dia?

Heitor parou a caneta.

A pergunta chamou sua atenção imediatamente.

— Tem diferença?

Clara fez uma pequena expressão que parecia dizer que aquela resposta não caberia em duas frases.

— Tinha.

Heitor apoiou novamente a caneta na folha.

— Então me conta primeiro como funcionava no dia a dia.

Clara recostou-se um pouco na cadeira. A pergunta parecia simples, mas ela levou alguns segundos antes de responder.

— Formalmente, eu respondia pela equipe da Plano. Distribuição de demanda, acompanhamento de entrega, avaliação, férias, banco de horas, esse tipo de coisa. A Monteiro passava a necessidade para a gente, eu organizava com o time e, quando tinha alguma mudança maior, alinhava com o Eduardo.

Heitor assentiu.

— E o Gaspar?

— O Gaspar era o gerente da filial.

— Isso eu sei.

Clara sorriu discretamente.

— Então... formalmente ele deveria falar comigo ou com o Eduardo quando queria alguma alteração mais relevante na equipe.

— Mas não era assim.

Não foi exatamente uma pergunta.

Clara olhou para a tela por um instante.

— Nem sempre.

Heitor apoiou a caneta na folha.

— Como era?

— Ele tinha um jeito muito direto de trabalhar. Às vezes falava com as pessoas sem passar por mim. Mudava prioridade, pedia alguma coisa, incluía alguém em reunião... Depois eu ficava sabendo.

— Isso acontecia com todo mundo?

Clara pensou.

— Em algum momento, sim.

— Em algum momento ou com frequência?

Ela soltou o ar pelo nariz, percebendo que Heitor não deixaria respostas genéricas passarem.

— Com algumas pessoas, mais.

— Quem?

Clara ajeitou a postura.

— Dependeu da época.

— Na época da Helena e da Ana Alice.

O nome das duas mudou alguma coisa no rosto dela.

Não muito.

Mas Heitor percebeu.

Clara desviou os olhos para o lado, como se procurasse lembranças antigas.

— A Helena não gostava muito quando ele fazia isso.

Heitor quase sorriu.

— Isso eu consigo imaginar.

— Ela reclamava.

— Com você?

— Comigo, com a Júlia, com quem estivesse perto.

Agora Heitor sorriu.

— Isso também consigo imaginar.

Clara riu.

— Ela sempre foi muito... direta.

— Pode chamar de brava. Eu não vou contar.

— Ela sabe que é.

Os dois sorriram, e a conversa ganhou alguns segundos de leveza antes de Heitor voltar para o ponto.

— E Ana Alice?

Clara não respondeu imediatamente.

Heitor esperou.

— Com a Ana era diferente.

A caneta dele voltou para a página.

— Diferente como?

Clara franziu um pouco a testa.

— É difícil explicar sem parecer que estou interpretando coisa que aconteceu há muito tempo.

— Então não interpreta.

Ela olhou para ele.

— Me conta só o que você lembra de ter acontecido.

Clara assentiu devagar.

— O Gaspar procurava a Ana diretamente com mais frequência.

— Para trabalho?

— Também.

A palavra chamou a atenção de Heitor.

— Também?

Clara percebeu.

— Eu não estou dizendo que havia alguma coisa entre os dois.

— Eu não perguntei isso ainda.

Ela ficou um pouco sem graça.

— Desculpa.

— Não precisa. Só continua.

Clara puxou a garrafa de água, bebeu um pouco e a colocou novamente sobre a mesa.

— Quando a Ana entrou, ela trabalhava normal como todo mundo. Recebia demanda, respondia para mim, participava das reuniões. Depois de um tempo, o Gaspar começou a envolver ela mais em algumas coisas da Monteiro Inc.

— Que coisas?

— Projeto de adaptação de filial, principalmente. Visita, levantamento, acompanhamento de implantação... algumas atividades que faziam sentido para a função dela.

— Então até aí não tinha problema.

— Não.

— Quando começou a ter?

Clara pensou.

— Quando eu comecei a descobrir as coisas depois que já estavam decididas.

Heitor permaneceu quieto.

— Por exemplo?

— Viagem.

A ponta da caneta tocou novamente o papel.

— Que viagem?

— Foram várias. Não lembro todas de cabeça.

— Viagem a trabalho.

— Sim.

— Quem autorizava?

— Pelo lado da Plano, precisava passar por mim ou pelo Eduardo, dependendo do tipo. Só que algumas vezes o Gaspar chamava a Ana diretamente, dizia que precisava dela em algum projeto e depois só comunicava.

— Comunicava a você?

— Às vezes a mim. Às vezes ela mesma chegava e falava que ia viajar.

Heitor ergueu os olhos.

— Ela simplesmente falava que ia?

Clara fez uma pequena careta.

— Teve situação assim.

— E você deixava?

A pergunta saiu mais dura do que ele pretendia.

Clara ficou imediatamente mais tensa.

Heitor percebeu.

— Não estou te acusando, Clara.

— Eu sei.

Mas o corpo dela dizia que tinha sentido.

— Só quero entender.

Ela respirou.

— Eu questionava. Mas o Gaspar era o gerente da filial da empresa cliente. Quando eu ligava para confirmar, ele dizia que tinha autorizado porque era necessidade da Monteiro Inc. Eu podia discutir com ele, mas se a própria Monteiro Inc estava dizendo que precisava daquela profissional numa viagem, eu não tinha motivo objetivo para proibir.

Aquilo fazia sentido.

— O Dudu sabia?

— Em algumas, sim.

— Em todas?

— Não sei.

Heitor anotou.

— O custo da viagem era da Plano ou da Monteiro Inc.?

— Dependia do projeto.

— E essas que o Gaspar autorizava direto?

Clara apertou os lábios.

— Acho que da Monteiro Inc.

Heitor levantou os olhos.

— Acha?

— Eu não via os lançamentos de vocês.

Certo.

Era exatamente uma das limitações que ele precisava lembrar.

Clara sabia quem viajava. Não sabia em qual conta Gaspar colocava hotel, passagem, alimentação ou qualquer outra despesa.

— Você consegue lembrar de algum destino?

— São Paulo com certeza. Uberlândia algumas vezes. Acho que teve Brasília. Talvez Curitiba, mas essa eu teria que confirmar.

— Dá para confirmar?

— Se os e-mails antigos ainda estiverem no sistema da Plano, provavelmente.

— Procura depois.

Clara assentiu.

Heitor fez outra anotação antes de continuar.

— Além de viagem.

Ela demorou um pouco.

— Equipamento.

— Que equipamento?

— Teve um celular.

A mão de Heitor parou.

Dessa vez Clara percebeu.

— Algum problema?

Heitor desviou os olhos para a caderneta.

— Continua.

Ela pareceu desconfiada, mas prosseguiu.

— A Ana apareceu com um aparelho novo que seria para trabalho. Eu não tinha solicitado.

— Que aparelho?

— Não vou lembrar modelo agora. Era um iPhone.

Heitor sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.

— Quem entregou?

— Eu não vi.

— Quem disse que era para trabalho?

— Ela.

— E o Gaspar?

— Depois confirmou.

— Como?

Clara voltou mentalmente àquela época.

— Acho que perguntei porque equipamento da equipe normalmente passava por mim. Ele disse que precisava que ela tivesse um aparelho melhor por causa de fotos, vídeo, acesso remoto... alguma coisa ligada aos projetos.

Heitor permaneceu imóvel. Isaac tinha mencionado o celular. Não era uma história que Ana Alice contara anos depois. Clara lembrava do aparelho.

— Você achou estranho?

— Achei fora do fluxo.

— Não estranhou ela ter um iPhone?

— Não. Estranho não ter passado por mim.

Heitor anotou uma linha inteira.

— Mais alguma coisa?

Clara ficou quieta.

— Clara.

— Estou tentando lembrar sem falar besteira.

Aquilo quase agradou Heitor.

— Faz isso. Não tenho pressa.

Ela olhou para cima alguns segundos.

— Teve um carro.

Heitor voltou os olhos para ela.

— Que carro?

— Eu não sei se isso tem relação com o que o senhor está perguntando.

— Ainda não estou perguntando nada específico.

Clara percebeu a contradição, mas deixou passar.

— A Ana começou a usar um carro durante um período.

— Carro da Monteiro Inc.?

— Eu achava que era.

— Por quê?

— Porque ela dizia que estava com o carro da operação.

Heitor ficou alguns segundos sem escrever.

— A operação tinha carro?

— Tinha.

— Quantos?

— Dois naquela época, se não estou enganada.

— E precisava de terceiro?

— Não.

A resposta veio sem hesitação.

Heitor ergueu os olhos.

— Tem certeza?

— Para a equipe da Plano, não. A gente praticamente trabalhava dentro da filial. Quando precisava ir para alguma coisa externa, organizava. Não justificava um carro exclusivo para uma analista.

Aquilo era muito próximo do que Isaac havia dito.

— Você questionou?

— Sim.

— Para quem?

— Gaspar.

— E?

Clara tentou lembrar.

— Ele disse que era temporário. Que ela estava acompanhando algumas demandas externas e precisava se deslocar.

— Quanto tempo durou o temporário?

Clara soltou uma pequena risada sem humor.

— Alguns meses.

Heitor escreveu.

— Você sabe que carro era?

— Não lembro modelo. Era branco.

— Placa?

— Não.

— Dá para descobrir?

Clara pensou.

— Talvez tenha e-mail ou registro de acesso na portaria. Se ainda guardarem coisa tão antiga.

Heitor fez mais uma anotação.

O padrão começava a surgir. Não precisava acreditar na versão inteira de Ana Alice. Ainda não. Mas existiam partes, celular, viagens e o carro. Coisas que uma supervisora terceirizada havia visto anos antes sem ter qualquer motivo para pensar que, um dia, alguém perguntaria.

Heitor deixou a caneta sobre a folha.

— Quando você questionava essas coisas, como a Ana reagia?

Clara respirou fundo.

— Dependeu.

— Clara.

Ela sorriu de leve.

— O senhor não gosta de “depende”, né?

— Depende.

Ela riu. Heitor também. O humor ajudou a tirar novamente a tensão.

— No começo ela explicava normalmente — disse Clara. — Depois começou a usar muito uma frase.

— Qual?

— “Já falei com o Gaspar.”

Heitor ficou quieto.

— Em que situação?

— Várias. Eu mudava uma prioridade, ela dizia que já tinha alinhado outra coisa com ele. Eu dizia que determinada atividade não precisava de viagem, ela falava que ele tinha pedido. Eu organizava alguma coisa de um jeito e descobria que ele tinha combinado diferente diretamente com ela.

— Isso aconteceu por quanto tempo?

— Um bom período.

— Anos?

— Talvez.

Heitor voltou a pegar a caneta.

— E você deixou continuar.

Clara ficou séria. Ele percebeu que tinha tocado num ponto sensível.

— Eu tentei resolver.

— Como?

— Falei com ele.

— Diretamente?

— Várias vezes.

— E o que ele dizia?

— Que eu estava burocratizando demais. Que a equipe precisava ser mais dinâmica. Que ele era o gerente da filial e, se precisava de alguma coisa, não tinha sentido passar por três pessoas para conseguir.

Heitor fez uma expressão pequena. Conseguia imaginar Gaspar falando aquilo.

— E você?

— Eu dizia que o problema não era pedir. Era eu descobrir depois.

— Brigaram?

— Algumas vezes.

— Você levou para o Dudu?

Clara hesitou.

— Algumas coisas.

— Não tudo.

— Não.

— Por quê?

Ela olhou diretamente para ele. Ali apareceu pela primeira vez algo diferente do receio. Uma espécie de cansaço antigo.

— Porque a gente era terceirizada, doutor Heitor.

Ele não disse nada.

Clara continuou:

— Eu podia reclamar que o gerente da filial estava pulando o fluxo. E reclamei algumas vezes. Mas existe um limite até onde uma prestadora compra briga com o gestor do cliente por causa de uma coisa que, olhando de fora, parece só jeito diferente de trabalhar.

Heitor apoiou os cotovelos sobre a mesa.

— Você tinha medo de perder o contrato?

— Eu tinha preocupação.

Ela escolheu a palavra. Heitor percebeu.

— É diferente?

Clara sorriu um pouco.

— Para mim, sim.

— Explica.

— Eu não ficava com medo de o Gaspar acordar num dia e mandar todo mundo embora. Mas eu sabia que ele opinava sobre a qualidade do serviço, sobre renovação, sobre aumento de escopo. Então eu tinha que saber até onde valia transformar uma divergência operacional numa guerra.

Heitor ficou alguns segundos em silêncio. Era justamente a dinâmica de poder que o compliance queria entender.

— Ele já usou o contrato numa discussão com você?

Clara franziu a testa.

— Diretamente?

— Sim.

Ela pensou.

— Não lembro dele dizer “se você não fizer isso eu rescindo o contrato”, se é isso que o senhor quer saber.

— Não necessariamente.

— Ele dizia coisas como “a Monteiro Inc. paga para vocês resolverem problema, não criarem”. Ou que existiam outras empresas no mercado.

Heitor ficou completamente imóvel.

— Isso acontecia quando você questionava alguma decisão dele?

— Algumas vezes.

— Inclusive decisões relacionadas à Ana Alice?

Clara demorou.

Agora ela percebeu.

Heitor viu claramente o momento em que as peças começaram a se encaixar dentro da cabeça dela.

A postura mudou. Os olhos ficaram mais atentos.

— Doutor Heitor...

— Fala.

— Essa conversa é por causa da Ana?

Ele poderia mentir.

Não quis.

— Em parte.

Clara ficou em silêncio.

— Aconteceu alguma coisa?

Heitor avaliou a resposta.

— Estamos revisando algumas informações antigas da filial.

— Sobre ela e o Gaspar?

A pergunta saiu baixa.

Heitor não respondeu imediatamente.

Clara respirou fundo.

— Então tinha alguma coisa.

— Eu não disse isso.

— Não precisa.

Heitor observou o rosto dela por alguns segundos.

— Você achava?

Clara apoiou as mãos sobre a mesa.

— Eu achava que existia alguma coisa diferente.

— Relacionamento?

— Talvez.

— Você viu?

— Não.

— Alguém te contou?

— Não de uma forma que eu possa afirmar.

— Então o que você viu?

Clara pareceu gostar da pergunta.

Não da situação, mas da possibilidade de separar as coisas.

— Eu vi tratamento diferente. Vi exceção. Vi ela conseguir coisas com ele que outras pessoas não conseguiam. Vi o Gaspar aparecer para defender decisões dela que normalmente nem chegariam nele. Vi os dois passarem bastante tempo juntos fora das reuniões.

— Sozinhos?

— Algumas vezes.

— Fora do expediente?

— Não sei.

Heitor anotou.

— Você nunca perguntou para a Ana?

Clara soltou uma pequena risada.

— Perguntei.

— E?

— Ela dizia que o Gaspar confiava no trabalho dela.

— Você acreditava?

— No começo, sim.

— Depois?

Clara olhou para a câmera.

— Depois eu parei de perguntar.

Heitor ficou em silêncio.

— Por quê?

Ela demorou um pouco.

— Porque ficou evidente que eu não ia receber uma resposta verdadeira.

Aquilo foi dito sem julgamento. Sem prazer por finalmente poder falar. Apenas constatação. Heitor passou a caneta entre os dedos.

— E a Helena? Percebia isso?

Clara soltou o ar devagar.

— A Helena percebia que a Ana tinha vantagens.

— Ela comentou?

— Algumas vezes.

— O quê?

Clara sorriu, quase divertida com a lembrança.

— Coisas que a Helena falaria.

Heitor teve vontade de sorrir.

— Agora fiquei interessado.

— Ela achava que a Ana era puxa-saco.

Heitor riu.

— Isso parece bastante com ela.

— Falava que a Ana tinha descoberto que era mais fácil pedir direto para o Gaspar do que seguir processo e que um dia aquilo ia dar problema.

O sorriso de Heitor diminuiu.

— Ela falou isso?

— Mais de uma vez.

— E você?

— Eu concordava com a parte do processo.

— Helena nunca falou em relacionamento?

Clara pensou.

— Não comigo.

— Assédio?

O rosto dela mudou.

— Não.

— Alguma reclamação de comportamento dele com mulher?

Clara ficou muito mais séria.

— Com a Helena?

— Com qualquer uma.

Silêncio.

Dessa vez demorou.

Heitor não interrompeu.

Clara finalmente falou:

— Eu precisaria pensar melhor antes de responder.

— Por quê?

— Porque teve situação em que algumas meninas não gostavam de ficar sozinhas com ele.

Heitor apoiou lentamente a caneta sobre a mesa.

— Quantas?

— Eu não sei.

— Clara.

— Não estou escondendo.

— Eu sei.

Ela respirou.

— Duas que eu lembro claramente.

— Funcionárias da Plano?

— Uma da Plano. A outra era de outra prestadora.

Heitor sentiu a atenção ficar completamente presa à tela.

— Quando?

— Anos diferentes.

— O que aconteceu?

Clara balançou a cabeça.

— Eu não sei.

— Elas te falaram alguma coisa?

— Uma falou que ele era invasivo.

— Invasivo como?

— Não explicou.

— E a outra?

— Pediu para eu não colocar ela em algumas reuniões sozinha com ele.

Heitor ficou imóvel.

— Você perguntou por quê?

— Perguntei.

— E?

— Ela falou que não se sentia confortável.

— Só isso?

— Só.

A voz de Clara ficou um pouco defensiva.

— Eu tentei conversar.

— Eu não estou dizendo que não tentou.

— Parece.

Heitor parou.

A resposta teria surpreendido muita gente dentro da Monteiro Inc..Clara provavelmente percebeu imediatamente o que acabara de fazer, porque ficou tensa.

— Desculpa.

Heitor a observou por um instante. Depois balançou a cabeça.

— Não. Você tem razão. Minha pergunta pareceu acusatória.

Ela relaxou só um pouco.

— O que você fez quando ela falou?

— Tirei ela das reuniões sozinha com ele.

— Comunicou alguém?

Clara baixou os olhos.

— Não.

— Por quê?

— Porque ela me pediu para não fazer nada.

— E você aceitou.

— Aceitei.

Heitor não gostou da resposta. Mas também não tinha certeza se, naquele momento, podia julgá-la.

— Hoje você faria igual?

Clara demorou.

— Não.

A resposta foi imediata o suficiente para que ele acreditasse.

— O que faria?

— Registraria e levaria para o RH da Plano.

Heitor assentiu.

— Certo.

Ficaram alguns segundos em silêncio. Clara parecia visivelmente desconfortável agora.

— Senhor Heitor, eu preciso perguntar uma coisa.

— Pergunta.

— A Monteiro Inc. está pensando em rescindir o contrato da Plano por causa disso?

Finalmente. Heitor entendeu de onde vinha parte importante daquela tensão desde o início.

— Não.

— Mesmo se tiver problema com o Gaspar?

— Clara, o Gaspar é funcionário da Monteiro Inc. .

Ela ficou calada.

— Se o problema for dele, nós vamos resolver o problema dele. Não vou punir uma prestadora porque um gerente meu ultrapassou limite.

A expressão dela mudou.

Alívio.

Dessa vez, enorme.

— Tá.

— E o que eu falei no começo continua valendo. Estou olhando expansão de escopo também.

Clara respirou.

— Entendi.

— Então não fique escolhendo resposta para proteger o contrato.

Ela sorriu sem graça.

— É difícil não fazer isso.

— Eu imagino.

Heitor olhou para as próprias anotações.

— Preciso que você faça uma coisa para mim.

— Claro.

— Procura os e-mails antigos relacionados às viagens da Ana, ao celular, ao carro e às mudanças de prioridade feitas diretamente pelo Gaspar.

Clara assentiu.

— Consigo procurar.

— Não apaga nada. Não encaminha para mim pelo seu e-mail pessoal e não comenta com ninguém da equipe.

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Ela ficou séria.

— Certo.

— O RH vai te mandar um endereço específico para você encaminhar o material.

— Tudo bem.

— E, Clara...

Ela olhou para ele.

— Não fala com o Gaspar sobre essa conversa.

Agora não havia mais nenhuma tentativa de manter aquilo leve. Clara permaneceu alguns segundos completamente quieta.

— Ele está sendo investigado?

Heitor poderia ter evitado. Mas já não fazia sentido fingir que aquilo era apenas uma revisão contratual.

— Estamos verificando algumas informações.

Ela engoliu em seco.

— Ele sabe?

— Não.

Clara assentiu lentamente.

— Então não vai saber por mim.

Heitor acreditou.

— Obrigado.

Ela ficou alguns segundos pensativa antes de acrescentar:

— Se eu achar alguma coisa que não tenha relação direta com essas coisas que o senhor pediu?

— Manda também.

— Mesmo que eu não saiba se é importante?

— Principalmente.

Clara assentiu. Heitor começou a fechar a caderneta, mas ela falou antes.

— Doutor Heitor.

— Oi.

— Se isso tiver alguma coisa a ver com a Ana Alice... eu realmente não sabia.

Ele parou.

Clara parecia incomodada de verdade.

— Eu sabia que tinha favoritismo. Sabia que ele interferia demais. Achava que talvez existisse alguma coisa pessoal entre eles. Mas se aconteceu alguma coisa pior...

Heitor observou o rosto dela.

— Eu sei.

— Eu era supervisora.

Ali estava a culpa. Heitor reconheceu porque sentira algo muito parecido poucas horas antes.

— E você não tinha acesso a metade das informações que nós estamos encontrando agora.

Clara não respondeu.

— Faz o que eu pedi.

Ela assentiu.

— Faço.

— E depois a gente conversa novamente.

— Tudo bem.

Heitor já ia encerrar quando se lembrou.

— E manda também aquela estrutura de quatro pessoas que você falou.

Clara piscou, surpresa pela mudança repentina.

— A de aumento da equipe?

— Essa.

— Tá bom.

— Com justificativa de demanda e impacto. Quero olhar antes de falar com o Dudu.

Um pequeno sorriso apareceu no rosto dela.

— Pode deixar.

— E não inventa número para me agradar.

Clara sorriu mais.

— Não vou.

— Ótimo.

Heitor fez um aceno.

— Obrigado, Clara.

— Eu que agradeço.

A chamada terminou.

A imagem desapareceu da tela.

Heitor permaneceu alguns segundos olhando para o próprio reflexo escuro no monitor.

Depois abriu a caderneta novamente. Celular, viagens, carro, interferência direta e duas mulheres que não queriam ficar sozinhas com Gaspar.

A conversa que deveria apenas ajudá-lo a entender a estrutura daquela equipe tinha acabado de confirmar que Isaac não estava trazendo uma história montada a partir das palavras de Ana Alice.

Havia coisas antigas ali.

Coisas que outras pessoas tinham visto.

Heitor pegou o celular.

Agora precisava falar com Compliance.



Assim que a chamada com Clara terminou, Heitor permaneceu alguns segundos olhando para a tela.

Depois pegou o telefone.

— Verônica.

— Oi.

— Chama o responsável do Compliance aqui para mim. Agora.

Ela não perguntou o motivo.

— Claro.

Heitor voltou para a caderneta. Foi relendo as próprias anotações enquanto esperava, riscando algumas palavras, fazendo setas entre outras. Quanto mais pensava naquilo, menos conseguia acreditar que todas aquelas situações não deixassem algum rastro dentro da Monteiro Inc.

Não demorou muito até baterem à porta.

O responsável por Compliance entrou com o notebook debaixo do braço.

— Você pediu para me chamar?

— Senta.

Heitor esperou que ele se acomodasse e contou o essencial da conversa com Clara. Não entrou nos detalhes pessoais sobre Helena, nem na conversa descontraída do início. Foi direto ao que interessava: as viagens autorizadas diretamente por Gaspar, o telefone que não tinha passado pela supervisão da terceirizada, o carro que a operação aparentemente não precisava e a interferência constante nas decisões relacionadas a Ana Alice.

O homem ouviu tudo sem interromper, fazendo algumas anotações.

— O carro me interessa — disse finalmente.

— A mim também.

— A Clara tem certeza de que não foi solicitado pela equipe?

— Absoluta. Segundo ela, existiam dois carros na operação e eram suficientes. Ana Alice apareceu usando outro por alguns meses e dizia que era para atividade externa.

— Temos que localizar essa locação.

— E as viagens.

— Já estamos cruzando.

Heitor apoiou os braços sobre a mesa.

— Encontraram alguma coisa?

O homem respirou antes de responder.

— Nada conclusivo.

A resposta não agradou.

— Nada?

— A equipe inteira está trabalhando nisso desde que saímos daqui. Os lançamentos existem, os documentos existem, as aprovações estão registradas. Até agora, olhando para o processo financeiro, não encontramos uma fraude evidente.

Heitor franziu a testa.

— E os arquivos do Isaac?

— Batem com registros internos em alguns pontos. Isso é importante. Mas uma coisa é demonstrar que determinada despesa existiu. Outra é provar que o dinheiro foi usado para uma finalidade diferente da registrada.

— O celular.

— Estamos procurando o ativo.

— O carro.

— Estamos levantando contratos de locação daquele período.

— Viagens.

— Também.

Heitor ficou alguns segundos em silêncio.

— E não tem nada errado nos pagamentos?

— Até agora, não.

— Fornecedor?

— Cadastrados.

— Valor?

— Compatível com as notas.

— Aprovação?

— Existe.

Heitor se recostou devagar. Aquilo o incomodava.

— Então o Gaspar era um gênio.

O homem sorriu de leve.

— Ou estamos procurando no lugar errado.

Heitor olhou para ele. Era exatamente aquilo.

— Continua.

— Vamos continuar.

— Quero tudo daquela época. Não só o que está relacionado à Ana Alice. Se ele fazia alguma coisa, pode ter usado despesa legítima para esconder.

— Já pedi ampliação da amostra.

Heitor assentiu.

O responsável por Compliance fechou o notebook.

— Assim que aparecer alguma coisa, eu volto.

— Não espera fechar relatório.

— Certo.

— Achou qualquer coisa estranha, me liga.

— Pode deixar.

Quando ele saiu, Heitor continuou sentado.

Nada conclusivo.

A expressão começou a irritá-lo quase imediatamente. Olhou novamente para os arquivos abertos no computador. Os documentos estavam ali.

Tinha certeza.

Não sabia explicar de onde vinha aquela convicção, mas alguma coisa tinha que estar ali.

Gaspar não podia ter comprado telefone, colocado carro à disposição de Ana Alice, bancado viagens e usado dinheiro da Monteiro Inc. durante anos sem que em algum momento tivesse deixado uma ponta solta.

Talvez pequena.

Talvez tão pequena que ninguém tivesse considerado importante.

Heitor apertou o botão do telefone novamente.

— Verônica.

— Oi.

— Cancela minha agenda pelo resto do dia.

Houve uma pequena pausa.

— Tudo?

— Tudo.

— Você tem a reunião das duas com—

— Cancela.

— E a das três e meia?

— Também.

— Posso remarcar para amanhã?

— Pode.

Verônica já conhecia o suficiente do chefe para não discutir.

— Certo.

— E não marca mais nada hoje.

— Tá bom.

Heitor desligou. Puxou o notebook para mais perto.

Se não tinham encontrado, ele encontraria. Começou pelos arquivos relacionados aos veículos.

A lembrança de Clara estava recente demais para ignorar.

Abriu contratos antigos de locação, pedidos internos, notas fiscais, comprovantes, planilhas de controle e documentos anexos. Alguns arquivos estavam digitalizados de maneira horrorosa. Outros tinham várias páginas sem qualquer necessidade, documentos repetidos, carimbos, autorizações, impressões de e-mail anexadas ao processo.

Era exatamente o tipo de coisa em que alguém podia esconder uma irregularidade contando com o fato de que ninguém teria paciência de olhar folha por folha.

Heitor tinha.

Naquele dia, principalmente.

O tempo passou sem que percebesse.

Uma ligação entrou. Ele recusou.

Verônica apareceu uma vez na porta perguntando se precisava de alguma coisa.

— Não.

— Vai almoçar?

Heitor olhou para o relógio e percebeu que já tinha passado muito do horário.

— Não estou com fome.

E realmente não estava. Ainda se sentia satisfeito e, naquele momento, comida era a última coisa em que conseguiria pensar.

— Quer pelo menos um café?

— Quero.

Ela trouxe alguns minutos depois.

Quando voltou para buscar a xícara, Heitor continuava exatamente na mesma posição.

Arquivos antigos começaram a se acumular abertos na tela. Ele criou uma planilha simples para organizar datas, fornecedor, valor, centro de custo e aprovação. Não queria substituir o trabalho de Compliance. Queria apenas enxergar.

Já passava das quatro da tarde quando Heitor voltou aos documentos relacionados aos veículos da filial.

A conversa com Clara tinha feito aquela despesa assumir outro peso. Ela fora muito clara ao dizer que a equipe não precisava de um terceiro carro e, mais importante, que nunca tinha solicitado aquela locação. Durante alguns meses, porém, Ana Alice usara um veículo sob a justificativa de que precisava se deslocar para acompanhar atividades externas da operação.

Heitor abriu o processo e, assim que viu o valor, sentiu uma lembrança antiga surgir.

Quatro mil novecentos e oitenta reais por mês.

Ele conhecia aquela despesa.

Não se lembrava daquela nota específica nem poderia dizer em que reunião tinha discutido o assunto, mas lembrava perfeitamente de ter se irritado com os gastos de veículos durante a temporada em Minas. Na época, uma das coisas que mais o incomodara naquela filial era justamente a quantidade de pequenas despesas que, quando somadas, ajudavam a explicar por que uma unidade que se sustentava nunca conseguia produzir lucro de verdade.

Carros, combustível, deslocamentos, pequenas contratações, serviços que pareciam custar um pouco mais do que deveriam.

Heitor tinha mexido naquilo.

Lembrava-se de sentar com Gaspar e perguntar por que uma filial daquele tamanho precisava gastar tanto com transporte. Gaspar justificara os valores falando de visitas a clientes, acompanhamento de projetos, deslocamentos para cidades próximas e equipes que eventualmente precisavam sair da unidade.

Heitor não aceitara todas as justificativas.

Mandara cortar algumas despesas.

A locação daquele carro estava entre elas.

A lembrança fez Heitor parar por alguns segundos diante da tela.

Ele tinha visto aquilo.

Tinha percebido que alguma coisa estava errada, só que, naquela época, interpretara o problema de outra maneira. Achara que Gaspar estava administrando mal o dinheiro da filial, autorizando gastos demais para uma operação pequena e pouco rentável. Não imaginara que pudesse existir algo escondido por trás de uma despesa aparentemente comum.

Agora sabia que Ana Alice usava aquele carro.

E sabia, pela própria Clara, que a equipe nunca precisara dele.

Heitor puxou o notebook para mais perto.

— Então vamos olhar você de novo.

Abriu a nota fiscal da locadora e começou a ler com mais atenção. A empresa prestava serviços para a Monteiro Inc. havia anos, o período da locação estava especificado e a descrição dizia que o veículo seria utilizado como apoio às atividades externas da filial. O valor também correspondia ao que aparecia nos registros contábeis.

Nada ali parecia irregular.

Era justamente isso que começava a incomodá-lo.

Se alguém perguntasse ao Heitor daquela época o que tinha acontecido, ele saberia explicar perfeitamente: a filial solicitara um veículo, Gaspar apresentara uma justificativa operacional, a despesa fora aprovada e, algum tempo depois, Heitor considerara o custo excessivo e mandara reduzir os gastos.

Era uma explicação simples.

E, durante anos, tinha sido suficiente.

Ele continuou passando pelas páginas. Encontrou a solicitação da filial, a aprovação e, depois, o boleto enviado pela locadora junto com a nota fiscal. Algumas folhas mais adiante começavam os documentos relativos ao pagamento.

Heitor passou por eles uma primeira vez.

Então voltou.

Havia um boleto ali também.

Ficou olhando para a tela, sem conseguir explicar imediatamente o que tinha chamado sua atenção. Os dois documentos pareciam exatamente iguais. Tinham o mesmo valor, o mesmo vencimento, o nome da mesma locadora e faziam referência à mesma cobrança.

Ainda assim, alguma coisa não estava certa.

Heitor abriu as duas páginas lado a lado.

Comparou o valor.

R$ 4.980,00 nos dois.

A data de vencimento também era a mesma.

Passou os olhos pelas informações impressas e, quando chegou à linha digitável, franziu a testa.

Aproximou o rosto da tela.

— Espera aí...

Pegou a caderneta que estava ao lado do computador e copiou os primeiros números do boleto que viera originalmente da locadora. Depois comparou com os números do documento colocado junto ao processo de pagamento.

Não eram iguais.

Heitor ficou alguns segundos olhando para o papel, certo de que tinha copiado errado. Conferiu novamente, dessa vez com mais calma.

Continuavam diferentes.

Passou para o próximo grupo de números.

Também não batia.

Foi aí que sentiu o coração acelerar.

Abriu ainda mais os dois documentos e começou a compará-los cuidadosamente. Para qualquer pessoa que percorresse aquelas páginas sem uma razão específica para desconfiar, parecia apenas que o mesmo boleto tinha sido anexado duas vezes ao processo. A cobrança era idêntica, o valor era idêntico, o vencimento era idêntico.

Mas não era o mesmo boleto.

O documento que a locadora havia enviado era um.

O documento que seguira para pagamento era outro.

Heitor ficou imóvel por um instante.

Então entendeu.

— Filho da puta.

Levantou-se tão rápido que a cadeira deslizou para trás.

— PORRA!

A comemoração escapou antes que ele pudesse pensar. Fechou a mão e socou o ar como se tivesse acabado de marcar um gol, dando dois passos pelo espaço estreito entre a cadeira e a mesa.

— Eu sabia! Eu sabia, caralho!

Começou a rir sozinho.

A reação era completamente inadequada para alguém que acabara de encontrar um possível desvio dentro da própria empresa, mas Heitor não conseguia evitar. Passara horas encarando aqueles documentos, ainda com a conversa de Renato martelando em algum lugar da cabeça, tentando entender como podia ter permanecido meses naquela filial e não ter percebido o que Gaspar fazia.

Agora começava a compreender.

Ele tinha percebido que alguma coisa estava errada anos atrás.

Tinha visto aqueles gastos e mandado cortar.

Só estava olhando para o problema errado.

Na época, sua preocupação era desperdício. Heitor enxergara uma filial pequena gastando quase cinco mil reais por mês em um carro que não lhe parecia necessário e concluíra que Gaspar estava administrando mal os recursos. Nunca tivera motivo para imaginar que precisava conferir se o boleto pago pela Monteiro era exatamente o mesmo boleto que o fornecedor tinha enviado.

Ele não estava procurando fraude.

Estava procurando custo desnecessário.

E Gaspar tinha se escondido justamente nessa diferença.

A empolgação começou a diminuir conforme a parte racional da cabeça de Heitor retomava o controle. Dois boletos diferentes eram um indício fortíssimo, mas ainda não eram prova suficiente. Ele precisava saber qual deles tinha sido efetivamente pago e, principalmente, para quem o dinheiro havia ido.

Sentou-se novamente, pegou o telefone e chamou Verônica.

— Pede para o responsável do Compliance voltar aqui e trazer alguém da Tesouraria.

— Agora?

— Agora.

— Certo.

— Obrigado.

Heitor desligou sem dizer mais nada.

Não havia motivo para contar a Verônica o que encontrara. Aquela investigação ainda envolvia poucas pessoas e continuaria assim enquanto dependesse dele.

Enquanto esperava, conferiu os dois boletos mais duas vezes. Os números continuavam diferentes e, quanto mais olhava, mais evidente ficava que alguém tinha se preocupado em fazer com que os documentos parecessem iguais.

Poucos minutos depois, o responsável pelo Compliance entrou acompanhado de um profissional da Tesouraria.

Heitor esperou os dois entrarem completamente.

— Fecha a porta, por favor.

Quando ficaram sozinhos, ele girou o notebook na direção deles.

— Acho que encontrei uma coisa.

O responsável pelo Compliance se aproximou imediatamente.

Heitor abriu a nota fiscal.

— Essa é uma locação de veículo da filial. Eu lembro dessa despesa porque fui eu mesmo que mandei reduzir os gastos com carros quando estive lá. Na época achei que Gaspar estava gastando demais para o tamanho da operação.

Passou para o boleto anexado junto à nota.

— Esse foi o boleto enviado pela locadora.

Depois abriu o documento encontrado na parte destinada ao pagamento.

— E esse foi o boleto colocado no processo que seguiu para o Financeiro.

O homem da Tesouraria aproximou a cadeira.

— O valor é igual.

— Tudo é igual à primeira vista — disse Heitor. — Valor, vencimento, referência. Agora olha a linha digitável.

O responsável pelo Compliance pegou a caderneta em que Heitor havia anotado os números e fez a comparação por conta própria.

A expressão dele mudou quase imediatamente.

— Não é o mesmo boleto.

— Não.

O profissional da Tesouraria pediu para ver os documentos lado a lado. Heitor abriu novamente e deixou os dois analisarem.

Depois de alguns segundos, o responsável pelo Compliance falou:

— Precisamos descobrir qual deles foi pago.

Heitor assentiu.

— Foi por isso que chamei a Tesouraria.

O profissional já havia aberto o notebook.

Heitor informou a data, o valor e o número do processo. Enquanto o homem procurava o pagamento diretamente nos registros bancários da Monteiro, Heitor se levantou outra vez. A impaciência não o deixava ficar sentado.

Levou alguns minutos.

— Achei.

Heitor voltou imediatamente para perto da mesa.

— Qual foi pago?

O homem comparou os dados do banco com as duas linhas digitáveis.

— O segundo.

Era justamente o boleto que aparecia apenas na parte do processo enviada para pagamento.

Heitor sentiu aquela satisfação retornar.

— E quem recebeu?

O profissional abriu os detalhes da transação.

O responsável pelo Compliance se aproximou também.

Os segundos seguintes pareceram demorados demais até que o homem da Tesouraria franziu a testa.

— Não foi a locadora. — respondeu o profissional da tesouraria.

O sorriso desapareceu do rosto de Heitor, não porque tivesse deixado de estar satisfeito com a descoberta, mas porque naquele instante aquilo deixou de ser apenas uma hipótese construída em cima de dois boletos diferentes.

— Tem certeza?

— Tenho. O boleto pago foi esse segundo, mas o beneficiário não é a locadora.

Heitor se inclinou sobre a mesa.

— Quem recebeu?

O homem abriu os detalhes da transação e leu o nome que aparecia no registro bancário.

— MFS Apoio e Serviços.

Heitor olhou para ele.

— Quem?

— MFS Apoio e Serviços.

— Que porra é MFS Apoio e Serviços?

O responsável pelo Compliance puxou o notebook para mais perto enquanto o profissional da Tesouraria consultava os dados do pagamento.

— É um CNPJ — disse ele depois de alguns segundos. — MEI.

Heitor franziu ainda mais a testa.

— Um MEI recebeu o pagamento de uma locadora?

— Foi o beneficiário desse boleto.

— Eu entendi o que aconteceu. Estou perguntando por quê.

O homem não soube responder.

Heitor voltou os olhos para os documentos abertos na tela. A nota da locadora era verdadeira. A despesa tinha sido registrada corretamente, o valor lançado pela Contabilidade correspondia ao que efetivamente saíra da conta da Monteiro e toda a documentação dava a impressão de que a empresa simplesmente pagara uma locação de quatro mil novecentos e oitenta reais.

Só que o dinheiro não tinha ido para a empresa que alugara o carro.

Em algum momento entre o recebimento da cobrança e o envio para pagamento, o boleto original fora substituído por outro com exatamente o mesmo valor. Para quem analisasse apenas a nota, o centro de custo e a saída bancária, tudo continuaria fechando. A Monteiro devia R$ 4.980 e pagara R$ 4.980.

O problema era que pagara para outra pessoa.

Heitor passou a mão devagar pela boca, sentindo aquela descoberta ganhar uma dimensão ainda maior quando se lembrou de que ele próprio já tinha colocado os olhos naquela despesa anos antes.

— Eu conheço essa locação.

O responsável pelo Compliance olhou para ele.

— Quando eu estava na filial, mandei cortar parte dos gastos com veículos. Esse carro entrou na discussão. Eu achei absurdo uma operação daquele tamanho gastar quase cinco mil reais por mês com mais uma locação quando já tinha carro disponível.

Voltou a olhar para a nota.

Naquela época, interpretara aquilo como mais um exemplo da maneira frouxa com que Gaspar administrava uma filial que mal conseguia produzir lucro. Questionara o valor, ouvira uma justificativa sobre deslocamentos e projetos externos e, não convencido, mandara reduzir a despesa.

Heitor tinha enxergado o gasto.

Tinha se irritado com ele.

Tinha feito alguma coisa.

O que nunca imaginara era que a questão não estivesse apenas no fato de aquele carro ser desnecessário.

— Foi por isso que eu não vi — murmurou.

O responsável pelo Compliance assentiu.

— Você estava analisando a despesa. Não o beneficiário do boleto.

— Eu estava procurando desperdício, não fraude.

E aquela diferença explicava muita coisa.

Não apagava a conversa que tivera com Renato. Heitor continuava sabendo que não trabalhara naquela filial com a mesma atenção que dedicara às outras. Continuava sabendo que Helena ocupara uma parte enorme da cabeça dele naquele período e que, talvez, se tivesse ido mais fundo, pudesse ter encontrado alguma coisa.

Mas havia uma distância considerável entre ter ignorado os números e não ter percebido um mecanismo criado justamente para manter os números aparentemente corretos.

Ele apontou para o nome que continuava na tela.

— Descobre quem é esse MEI.

O profissional da Tesouraria começou a pesquisar no sistema.

— MFS Apoio e Serviços...

Alguns segundos depois, fez uma expressão diferente.

— Ele já recebeu outros pagamentos da Monteiro.

Heitor virou o rosto lentamente.

— Quantos?

— Eu ainda não sei. Estou vendo mais de um aqui.

— Da mesma filial?

O homem continuou navegando.

— Sim.

Heitor se aproximou.

Na tela começaram a aparecer registros de outros anos. Valores pequenos, quase banais diante do tamanho da Monteiro Inc. Algumas centenas de reais em um mês, pouco mais de mil em outro, dois ou três mil em outra ocasião. Não havia nenhuma transferência gigantesca que, sozinha, gritasse desvio.

Havia pequenas quantias.

Muitas.

Heitor ficou olhando para a lista crescer.

— Desde quando?

— Preciso puxar o histórico completo.

— Puxa.

O responsável pelo Compliance se aproximou também.

— Pode ser um fornecedor local legítimo.

— Pode.

Heitor não descartou a possibilidade. Um MEI prestando pequenos serviços para uma filial do interior não tinha absolutamente nada de extraordinário.

O que não era normal era aquele mesmo MEI receber um boleto que, dentro do processo, aparecia como pagamento de uma locadora.

— Quero saber o que essa empresa faz, quem é o dono e tudo que já recebeu da Monteiro.

O profissional da Tesouraria assentiu.

Heitor olhou novamente para a sequência de pagamentos.

Alguns valores começaram a lhe provocar uma sensação incômoda de familiaridade. Não lembrava exatamente das quantias, mas lembrava do tipo de despesa. Pequenos serviços, compras emergenciais, manutenção, material de apoio. Justamente aquele monte de gasto miúdo que o irritara tanto quando estivera em Minas.

Aquilo fez seu semblante mudar.

— Abre um desses.

O homem abriu.

Heitor leu a descrição vinculada ao pagamento.

Serviço de manutenção.

Abriu outro.

Material de apoio operacional.

Mais um.

Pequenos reparos.

Heitor se recostou lentamente.

— Filho da puta...

O responsável pelo Compliance olhou para ele.

— Você reconheceu alguma coisa?

— Ainda não sei.

Mas começava a desconfiar.

Aquela filial sempre tinha sido cheia de pequenas despesas. Tão pequenas que, vistas individualmente, pareciam irrelevantes. E Heitor tinha passado boa parte de sua estadia justamente reclamando delas, perguntando por que custava tanto aquilo, por que tinham contratado aquilo outro, por que precisavam pagar determinada coisa quando poderiam resolver de maneira mais simples.

Chegara a cortar várias.

Agora aquele mesmo CNPJ começava a aparecer associado justamente a esse tipo de gasto.

Heitor voltou para o profissional da Tesouraria.

— Quero todos.

— Todos os pagamentos para esse CNPJ?

— Todos. Desde o primeiro.

O homem assentiu.

— E quero saber a qual despesa cada um deles foi conciliado. Nota, solicitação, quem aprovou, qual boleto estava originalmente no processo e qual efetivamente foi pago.

O responsável pelo Compliance já anotava.

— Vamos cruzar.

Heitor ainda observava o nome na tela.

MFS Apoio e Serviços.

Um pequeno fornecedor local, aparentemente banal, recebendo valores igualmente banais havia anos.

Talvez existisse uma explicação perfeitamente legítima para boa parte deles.

Mas uma coisa Heitor já sabia.

Aqueles R$ 4.980 não tinham nenhuma.

— E outra coisa — disse, olhando para o homem da Tesouraria. — Quero saber como isso passou.

O profissional ergueu os olhos.

— Como assim?

— Esse pagamento não aconteceu ontem. Se esse CNPJ recebe dinheiro da Monteiro há anos, alguém na Tesouraria já viu esse nome antes.

— Provavelmente.

— Então alguém precisa saber por que um MEI local aparece recebendo pagamento ligado a fornecedor que não é ele.

O homem pareceu pensar.

— Vou falar com a equipe.

— Não. Você vai descobrir.

A diferença de tom foi pequena, mas suficiente para deixar claro que Heitor não estava fazendo uma sugestão.

— Certo.

— Porque uma coisa é o Gaspar trocar um boleto uma vez e enganar alguém. Outra é isso aparecer repetidamente durante anos e ninguém perguntar por quê.

O chefe da Tesouraria ficou sério.

— Vou levantar.

Heitor assentiu.

— Faz isso.

Os dois começaram a recolher os notebooks, mas Heitor permaneceu olhando para os registros abertos na tela.

A satisfação de alguns minutos antes já tinha mudado de forma.

Ele continuava satisfeito por ter encontrado o primeiro fio, principalmente depois de passar o dia inteiro tentando entender como Gaspar conseguira esconder aquilo. Mas agora aquele fio tinha começado a puxar alguma coisa maior.

Não era apenas o que Gaspar tinha feito.

Era como a Monteiro Inc. tinha permitido que ele continuasse fazendo.

E Heitor queria essa resposta tanto quanto queria descobrir para onde o dinheiro tinha ido.

Antes que os dois saíssem, tornou a chamar:

— E começa pelos pagamentos pequenos.

O responsável pelo Compliance parou.

— Por quê?

Heitor olhou para a lista.

— Porque era aí que ele se escondia.

Apontou para os valores na tela.

— Quatrocentos reais, oitocentos, mil e pouco... ninguém olha duas vezes para isso numa empresa do tamanho da Monteiro Inc.. Eu mesmo olhava e achava que o problema era gasto inútil.

Fez uma pequena pausa.

— Quero saber quantas dessas porcarias que eu mandei cortar foram parar nesse MEI.

O responsável pelo Compliance assentiu.

Quando a porta finalmente se fechou, Heitor continuou alguns segundos diante do computador.

Agora sabia onde procurar.

E, pela primeira vez desde que Isaac aparecera com aquela história, começava a ter a sensação de que Gaspar não tinha sido tão invisível quanto parecia.

Talvez tivesse deixado rastros por toda parte.

A Monteiro Inc. só tinha se acostumado a não enxergá-los.