O CEO que Eu Paguei
262 Entre Mães
Celina acordou sorrindo.
Não foi aquele sorriso pequeno e preguiçoso que às vezes aparecia antes mesmo que ela abrisse os olhos direito. Acordou genuinamente feliz, ainda envolvida pela sensação do sonho que tivera, como se alguma parte dele tivesse atravessado a madrugada e permanecido dentro do quarto.
Ficou alguns segundos deitada, olhando para o teto enquanto tentava recuperar cada detalhe antes que começassem a desaparecer.
Helena tinha preparado um banquete para ela.
Um banquete inteiro.
Celina não sabia exatamente onde estavam. No sonho, parecia a mansão e ao mesmo tempo não parecia. Havia uma mesa enorme coberta de flores, pratos que ela adorava, doces delicados, uma quantidade absurda de gente ao redor e Helena no centro de tudo, linda, sorrindo para ela como se aquele dia existisse exclusivamente para celebrar sua sogra.
Não.
No sonho, Helena não tinha dito sogra.
Tinha dito outra coisa.
Celina franziu o cenho, esforçando-se para lembrar.
Mãe.
O sorriso aumentou.
Helena tinha erguido uma taça e feito um discurso. Celina já não conseguia reconstruir todas as palavras, mas lembrava perfeitamente do que sentira ao ouvi-las. Helena agradecia por tudo. Dizia que Celina a tinha ensinado a ocupar lugares que antes acreditava não serem para ela, que tinha encontrado naquela família uma mãe quando já não esperava encontrar outra, que se sentia protegida e amada.
Alguma coisa sobre ser uma Monteiro.
Alguma coisa sobre Humberto ter a melhor avó do mundo.
Celina levara as duas mãos ao rosto no sonho e começara a chorar de uma maneira absolutamente incompatível com sua dignidade.
Agora, acordada, soltou uma pequena risada ao lembrar.
Aquilo era ridículo.
Também era maravilhoso.
Virou o rosto para o outro lado da cama e encontrou o espaço vazio. Só então ouviu os ruídos vindos do closet: uma gaveta fechando, o tilintar discreto de metal, passos.
Renato.
Celina afastou o edredom e colocou os pés no chão. Calçou as pantufas macias ao lado da cama, ajeitou rapidamente os cabelos com as mãos e atravessou o quarto ainda sorrindo.
Encontrou o marido diante do espelho do closet.
Renato já estava praticamente pronto para sair. Vestia a calça escura de alfaiataria e uma camisa social branca que ainda estava aberta no punho enquanto ele colocava as abotoaduras. A gravata permanecia solta ao redor do pescoço. Os cabelos estavam penteados para trás, o rosto recém-barbeado e a expressão concentrada, como se encaixar duas pequenas peças de metal nos punhos fosse uma tarefa que exigisse a mesma seriedade com que entrava numa reunião de conselho.
Celina parou na entrada por um instante.
Gostava muito daquela expressão.
Sempre gostara.
Havia homens que ficavam mais bonitos sorrindo.
Renato não.
Quer dizer, Celina adorava o sorriso do marido, principalmente porque não era distribuído gratuitamente para qualquer um, mas havia alguma coisa naquela cara fechada e excessivamente séria que sempre produzira um efeito muito particular nela.
O tempo não tinha mudado isso.
Talvez tivesse piorado.
Os anos haviam colocado alguns fios grisalhos em seus cabelos, marcado discretamente o rosto e tornado sua presença ainda mais sólida. Renato continuava alto, com os ombros largos e aquele corpo que nunca fora construído para exibição, mas que Celina conhecia muito bem por baixo de cada camisa perfeitamente passada.
Ela gostava do formato dele.
Sempre gostara.
Da largura dos ombros, do peito e da cintura. Até das mãos, grandes demais para determinadas delicadezas e, ainda assim, surpreendentemente cuidadosas quando tocavam nela.
Celina apoiou-se no batente e ficou observando.
Renato percebeu pelo espelho.
— Bom dia. — a voz dela saiu alegre demais para aquela hora.
Ele olhou para o reflexo da esposa e um pequeno sorriso apareceu no canto da boca.
— Bom dia. Acordou bem animada hoje.
— Tive um sonho excelente.
Celina entrou no closet e foi diretamente até ele, abraçando-o por trás por alguns segundos. Renato soltou uma risada baixa e terminou de prender a abotoadura antes de pousar uma das mãos sobre as dela.
— Quero saber todos os detalhes.
— Vai saber.
Ela se soltou apenas para ficar ao lado dele enquanto Renato começava a ajeitar a gravata.
— Helena fez um banquete para mim.
Ele olhou para ela pelo espelho.
— Um banquete.
— Inteiro.
— Parece sério.
— Muito. Havia flores por toda parte. Não lembro de tudo, mas ela fez um discurso lindo.
Renato começou a fazer o nó da gravata.
— E o que ela disse?
Celina abriu um sorriso quase infantil ao lembrar.
— Me chamou de mãe.
A mão de Renato diminuiu o movimento por um instante.
Olhou para a esposa.
Celina percebeu e imediatamente recuperou parte da compostura.
— Era um sonho, Renato.
— Eu sei.
Mas o sorriso dele tinha se tornado mais suave.
Celina continuou, contando alguns fragmentos que ainda lembrava. Helena agradecia por ter sido recebida na família, falava sobre tudo que aprendera com ela, dizia que Humberto tinha uma avó maravilhosa. Quanto mais contava, mais evidente ficava que o sonho tinha mexido com ela.
Renato ouviu sem interromper, terminando o nó da gravata e ajustando-o contra o colarinho.
— Você chorou? — perguntou.
Celina olhou para ele.
— No sonho?
— Sim.
— Evidentemente que não.
Renato arqueou uma sobrancelha. Ela sustentou o olhar por dois segundos.
— Talvez um pouco.
Ele riu.
— Muito?
— Isso não é relevante.
— Para mim é.
— Eu estava emocionada.
— Claro.
Celina aproximou-se e ajeitou a gravata dele, embora estivesse perfeitamente reta.
— Não ria.
— Não estou rindo de você.
— Está, sim.
— Estou achando bonito.
Ela cerrou os olhos.
— Não use essa palavra comigo antes do café.
Renato soltou outra risada.
Celina terminou de passar os dedos pelo tecido da gravata e então recuou o suficiente para observá-lo inteiro.
Ficou alguns segundos em silêncio.
Renato percebeu.
— O que foi?
Ela inclinou levemente o rosto.
— Você está bem aceitável hoje.
A gargalhada dele saiu alta e inesperada.
— Obrigado.
— Não precisa se emocionar.
— Depois de mais de quarenta anos juntos, finalmente fui promovido a aceitável.
Celina sorriu.
Renato pegou o relógio sobre a pequena bandeja e o colocou no pulso. Ela acompanhou o movimento dos dedos, depois o tecido branco puxando ligeiramente sobre o antebraço quando ele fechou a pulseira.
Seu olhar subiu de novo.
O problema era aquele homem se arrumando com tamanha tranquilidade, como se Celina não estivesse ali.
Como se ela não tivesse acabado de acordar excessivamente feliz.
Como se a camisa branca não estivesse particularmente bem nele naquela manhã.
— Vai direto para a empresa? — perguntou.
— Vou.
— Muito cedo.
— Tenho reunião às sete e meia.
— Você sempre tem reunião.
— Porque eu trabalho.
Celina fez uma pequena expressão de tédio.
— Que hábito desagradável.
Renato sorriu enquanto pegava o paletó.
— Foi você quem casou comigo.
— Eu era jovem.
— E claramente mal informada.
Ela riu.
Renato passou por ela, mas Celina segurou a lapela do paletó antes que conseguisse vesti-lo.
Ele parou.
Olhou primeiro para a mão dela.
Depois para o rosto.
Celina ainda sorria.
— O quê? — perguntou ele.
— Nada.
— Celina.
Ela puxou levemente o tecido. Renato deu um passo involuntário na direção dela.
— Você está atrasado? — perguntou ela.
— Ainda não.
— Ótimo.
Ele estreitou os olhos. Conhecia aquele tom.
— Celina...
— O quê?
— Eu tenho que trabalhar.
— Eu também tenho coisas para fazer hoje.
— Então concordamos.
Ele tentou recuperar o paletó. Celina não soltou.
— Você está muito sério.
— São seis e vinte da manhã.
— Exatamente.
— Exatamente o quê?
Ela não respondeu.
Apenas olhou para ele.
Primeiro para o rosto, depois um pouco mais abaixo e novamente para o rosto.
Foi o suficiente.
Renato arregalou discretamente os olhos.
— Não.
Celina sorriu.
— Não o quê?
— Eu conheço essa cara.
— Que cara?
— Essa.
Ela puxou-o pela camisa dessa vez.
Renato ficou vermelho quase instantaneamente.
Aquilo sempre divertia Celina.
Depois de tantos anos, depois de tudo que já tinham vivido juntos, ainda existiam momentos em que conseguia fazer aquele homem sério, poderoso e perfeitamente capaz de encarar uma sala cheia de executivos sem alterar a voz ficar vermelho como um adolescente.
Era adorável.
E extremamente atraente.
— Celina, sinceramente...
— O quê?
— Eu tenho horário.
Ela deu outro pequeno puxão.
— Todo dia você tem horário.
— Hoje vai ser cheio.
— Todo dia é cheio.
— Tenho reunião às sete e meia.
— Já falou.
Renato tentou manter a expressão séria, mas Celina percebeu o pequeno movimento no canto da boca.
— E preciso sair agora se quiser chegar com calma.
— Então pare de discutir.
Ele a encarou.
— O quê?
Celina sorriu com a serenidade de quem acabara de apresentar uma solução perfeitamente lógica.
— Quanto mais você resistir, mais atrasado vai chegar.
Renato abriu a boca. Não encontrou resposta imediatamente.
Celina aproveitou. Segurou-o novamente pela frente da camisa e começou a puxá-lo para fora do closet.
— Celina.
— Sim?
— Isso é absurdo.
— Então venha logo.
— Eu estou indo trabalhar.
— Depois.
— Tenho sessenta anos, não quinze.
Ela virou o rosto enquanto continuava andando de costas.
— Então já deveria saber quando uma discussão está perdida.
Renato soltou uma risada incrédula. Ainda protestou alguma coisa sobre reunião, trânsito e agenda.
Celina não pareceu particularmente sensibilizada. A porta do closet fechou.
Algum tempo depois, Renato estava novamente diante do espelho.
Com outra camisa.
Celina encontrava-se sentada numa das poltronas do closet, as pernas cruzadas sob o robe, observando o marido terminar de fechar os botões com uma expressão de absoluta satisfação.
Renato ainda estava vermelho, não apenas um pouco. Vermelho de verdade.
Celina precisou morder a parte interna da bochecha para não começar a rir antes que ele dissesse qualquer coisa.
Ele terminou um botão e olhou para o reflexo dela no espelho.
— Sinceramente, Celina, não era hora para isso.
Ela ergueu uma sobrancelha.
— Você não parecia tão preocupado com o horário alguns minutos atrás.
Renato ficou ainda mais vermelho.
Celina perdeu a batalha e riu.
— Não ria. — disse ele encabulado.
— Eu não estou rindo.
— Está literalmente rindo.
— Porque você está parecendo um pimentão.
— Celina!
— Meu Deus, Renato. Depois de tantos anos você ainda fica vermelho?
Ele fechou o último botão com mais força do que o necessário.
— Você não me deu muita escolha.
Celina abriu a boca, genuinamente escandalizada.
— Eu não dei escolha?
— Não.
— Que absurdo.
Renato se virou finalmente para encará-la.
A cara fechada tinha voltado, ou tentava. O problema era o vermelho nas orelhas.
Celina achou aquilo maravilhoso.
— Você resistiu muito pouco para um homem sem escolha.
Ele estreitou os olhos.
— Eu estava tentando evitar um atraso.
— Evidentemente.
— Foi uma decisão logística.
Celina começou a rir outra vez. Renato pegou a gravata que havia deixado sobre a bancada.
— Pode rir.
— Decisão logística foi excelente.
— Eu sabia que não deveria ter falado.
— Vou lembrar disso durante o dia inteiro.
Renato bufou enquanto fazia novamente o nó.
Celina o observou por alguns segundos, ainda sorrindo, até que a brincadeira se transformou naquele carinho silencioso que existia entre os dois havia tantos anos.
Levantou-se da poltrona e caminhou até ele.
Dessa vez não puxou nada.
Apenas ajeitou delicadamente o colarinho da camisa nova e alisou o tecido sobre o peito dele.
— Ficou bravo?
Renato olhou para ela.
— Não.
— Está com cara.
— Essa é a minha cara.
Celina sorriu, era verdade. Talvez fosse justamente por isso que gostasse tanto dela. Passou os dedos pela gravata e deixou um beijo demorado na bochecha do marido.
— Tenha um bom dia.
Renato segurou sua cintura antes que ela se afastasse. Por alguns segundos apenas a olhou.
Então beijou sua testa.
— Você também.
Celina abriu um sorriso.
— Vou ter.
— Imagino.
Ele a soltou, pegou o paletó e caminhou para a porta.
Antes de sair, porém, parou.
Virou-se.
Celina ainda estava no mesmo lugar.
— E quero saber o resto do sonho hoje à noite.
A expressão dela suavizou.
— Eu conto.
Renato assentiu e saiu.
Celina permaneceu no closet por alguns segundos depois que ele desapareceu pelo corredor.
Então olhou para a camisa abandonada sobre a poltrona.
Sorriu.
Pegou-a com duas pontas dos dedos.
— Decisão logística — murmurou.
E começou a rir sozinha.
Quando desceu para o café da manhã, Celina já não trazia nenhum vestígio da mulher de pantufas que havia puxado Renato pela camisa pouco tempo antes.
Vestia uma calça clara de corte impecável e uma camisa de seda azul muito suave, os cabelos estavam arrumados e os brincos discretos o suficiente para aquela hora da manhã. Encontrou Tarsila na varanda lateral da mansão, acomodada diante da mesa posta, observando o jardim enquanto uma funcionária terminava de servir o café.
Tarsila fazia parte daquele grupo de amizades que Celina já não sabia dizer quando começara. Suas famílias se conheciam havia gerações, tinham frequentado as mesmas casas, os mesmos clubes e muitos dos mesmos eventos durante décadas. Algumas amizades eram escolhidas; outras pareciam simplesmente atravessar sobrenomes.
— Espero não ter esperado muito — disse Celina, aproximando-se para cumprimentá-la.
— De maneira alguma. Eu cheguei cedo.
Celina sentou-se diante dela.
— Então a culpa é sua.
Tarsila sorriu.
— Como sempre.
A conversa correu com a facilidade de quem não precisava procurar assunto. Falaram de conhecidos, de um jantar recente, dos filhos e dos netos até Tarsila mencionar a nora e deixar escapar um suspiro discreto.
Celina ergueu os olhos da xícara.
— Ainda estão tendo dificuldades?
— Um pouco. — Tarsila mexeu delicadamente o café. — Ela está passando por uma fase complicada e a família não está muito presente. Eu tento ajudá-la, mas tenho a impressão de que quanto mais me aproximo, mais ela se fecha.
Celina assentiu com a segurança tranquila de quem, curiosamente, agora se julgava bastante habilitada naquele assunto.
— Talvez você esteja tentando ajudá-la antes de ela sentir que pode confiar em você.
Tarsila a observou.
— E como se consegue isso? — perguntou Tarsila.
Celina passou um pouco de geleia sobre a torrada antes de responder, perfeitamente à vontade.
— Conhecendo a mulher antes de enxergá-la apenas como esposa do seu filho. Acho que esse é o erro de muitas sogras. Ficam tão preocupadas com o lugar que a jovem vai ocupar na vida do rapaz que se esquecem de descobrir quem ela é.
Tarsila a observou por cima da xícara.
— Você fala com uma segurança impressionante.
Celina sorriu.
— Helena e eu sempre tivemos uma convivência excelente.
A frase saiu com tamanha naturalidade que não havia espaço algum para contestação.
Na versão de Celina Monteiro para a sociedade carioca, não existira resistência, tensão, discussões ou qualquer outro detalhe menos elegante no caminho até ali. Helena entrara na família, as duas haviam se entendido e ponto final. Certas coisas pertenciam à intimidade de uma casa e não tinham motivo algum para circular por mesas de café.
— Na verdade, somos muito próximas — continuou, satisfeita. — Helena me considera como uma mãe.
Tarsila abriu um sorriso.
— Ela lhe disse isso?
— Disse.
O orgulho apareceu nos olhos de Celina antes mesmo que pudesse disfarçá-lo.
— É uma menina muito carinhosa comigo. E eu tenho um enorme carinho por ela também. Acho que, quando existe respeito dos dois lados, tudo se torna mais simples.
Tarsila soltou um pequeno suspiro.
— Então realmente preciso dos seus conselhos.
Celina ergueu a xícara.
— Naturalmente.
— Por onde começo?
— Parando de tentar resolver a vida dela antes de saber se ela quer que você resolva.
Tarsila arqueou as sobrancelhas.
— Isso vindo de você é surpreendentemente específico.
Celina pousou a xícara com delicadeza.
— Não vejo por quê.
— Nenhum motivo.
As duas sorriram.
Celina então explicou, sem se alongar demais, que Tarsila deveria evitar colocar o filho entre as duas, oferecer ajuda de maneira objetiva e não transformar uma recusa em afronta pessoal. Falava com a tranquilidade de quem parecia ter dominado aquele assunto a vida inteira.
Em algum momento da conversa, já perto do fim do café, Celina comentou com naturalidade que Helena e Heitor estavam procurando uma babá para Humberto e que ela própria já começara a ajudar na busca.
— Imagino que seja isso que fará esta tarde, então — disse Tarsila, levando a xícara aos lábios.
Celina teve um pequeno tique.
Foi quase imperceptível. Um breve movimento nos olhos, uma pausa mínima antes de tocar no guardanapo sobre o colo.
Não.
Não era isso que faria naquela tarde.
Sua agenda estava cheia o suficiente para ocupar as próximas horas sem dificuldade: havia uma reunião com duas coordenadoras de um instituto, uma ligação que vinha sendo adiada havia dias e alguns assuntos de patrocinadores que ainda precisavam de sua aprovação.
Mas a frase de Tarsila abriu uma possibilidade tão evidente que Celina levou alguns segundos para compreender como não pensara naquilo antes.
Claro que deveria passar a tarde com Helena.
A menina estava procurando uma babá.
Helena não conhecia absolutamente nada daquele mundo. Não sabia quais agências eram realmente confiáveis, quais famílias valiam uma referência, quais perguntas deveriam ser feitas numa entrevista ou como perceber, em poucos minutos, se uma profissional realmente tinha experiência com crianças ou apenas sabia dizer as respostas certas.
Provavelmente estava perdida.
Talvez até preocupada sem saber muito bem a quem pedir ajuda e Helena tinha aquele hábito inconveniente de tentar resolver tudo sozinha antes de admitir que precisava de alguém.
Celina sentiu uma pequena pontada de preocupação, seguida imediatamente por uma satisfação muito particular.
Ainda bem que ela existia.
— Sim — respondeu, retomando a xícara com toda a serenidade. — É exatamente isso que vou fazer.
Tarsila sorriu.
— Imaginei.
Celina também sorriu.
A decisão já estava tomada.
Não seria nada invasivo. Apenas passaria algumas horas com a nora, verificaria os nomes que tinham surgido, talvez ajudasse a organizar as entrevistas, orientasse sobre referências e explicasse alguns detalhes que Helena naturalmente não teria como conhecer.
Era ajuda.
Apenas ajuda.
E Celina sempre fora uma mulher muito prestativa.
O café terminou pouco depois. Ela acompanhou Tarsila até o hall, despediu-se com dois beijos e prometeu que combinariam outro café da manhã em breve. Assim que a porta principal se fechou, porém, Celina já estava com o celular nas mãos.
Fez primeiro duas ligações relacionadas às possíveis babás. Uma para confirmar uma referência que recebera naquela manhã, outra para uma conhecida que empregava havia anos uma profissional muito bem recomendada e que talvez soubesse de alguém disponível.
Depois ligou para sua assistente.
— Querida, preciso que reorganize minha tarde.
Do outro lado veio um pequeno silêncio.
Celina começou a caminhar lentamente pelo hall.
— A reunião do instituto pode passar para amanhã. A ligação com Orlando vai para quinta-feira e veja se consegue conduzir a questão dos patrocinadores sem mim. Se houver alguma coisa que realmente dependa da minha decisão, você me liga.
A assistente ficou preocupada, perguntou se estava tudo bem.
— Não aconteceu nada. Vou tirar a tarde.
A reação do outro lado fez Celina erguer as sobrancelhas.
— Francamente, não precisa tratar como um acontecimento histórico.
Esperou mais um pouco e soltou um suspiro divertido.
— Sim, eu sei que raramente faço isso.
Quando desligou, permaneceu alguns segundos olhando para a tela.
Sua assistente era excelente.
Na verdade, excelente demais.
Celina vinha percebendo havia algum tempo que colocava cada vez mais responsabilidades sobre ela e, se começasse realmente a reservar parte de sua agenda para Helena, a quantidade de coisas que precisaria delegar só aumentaria.
Talvez tivesse chegado a hora de rever aquele salário.
Um aumento considerável seria justo.
Dobrar talvez fosse um exagero.
Celina começou a subir a escada ainda pensando no assunto e, antes de chegar ao primeiro patamar, outra possibilidade apareceu.
Helena também precisaria de uma assistente.
Ela diminuiu o passo.
Não agora, naturalmente.
Mas em algum momento.
Se Helena começasse a acompanhá-la em eventos, instituições, almoços, projetos e compromissos sociais, não poderia continuar organizando tudo sozinha. Haveria convites, confirmações, reuniões, agendas, contatos, viagens, presentes, compromissos beneficentes e uma quantidade enorme de pequenas obrigações que pareciam simples apenas para quem nunca precisara administrá-las.
Uma boa assistente faria toda a diferença.
Precisaria ser discreta, muito organizada e suficientemente segura para trabalhar com Helena sem tentar mandar nela.
Celina chegou ao andar superior já imaginando o perfil ideal.
Então parou no corredor.
Renato diria que ela estava começando de novo.
Planejando a vida da nora antes mesmo de conversar com ela.
Celina apertou os lábios.
Não contrataria ninguém.
Evidentemente.
Ainda.
Mas não havia mal algum em começar a observar possíveis nomes.
Planejamento não era interferência.
Era apenas bom senso.
Celina esperou apenas alguns minutos antes de ligar para Helena.
Não queria parecer apressada.
Também não havia necessidade alguma de telefonar imediatamente depois de reorganizar metade da própria agenda.
Esperou o suficiente para considerar aquilo perfeitamente razoável, acomodou-se numa das poltronas da sala íntima e tocou no nome da nora.
Helena atendeu depois de alguns segundos.
— Oi, Celina.
A voz veio tranquila, acompanhada ao fundo por algum ruído pequeno que Celina reconheceu imediatamente como Humberto.
Seu sorriso apareceu antes mesmo que pudesse evitar.
— Bom dia, querida. Estou atrapalhando?
— Não. Estou aqui com o Humberto.
— Naturalmente.
Celina ouviu Helena dizer alguma coisa baixinho para o menino e ficou alguns segundos em silêncio, apenas escutando.
— Ele está acordado?
— Está. E decidiu que hoje não precisa dormir de manhã.
— Uma decisão péssima.
Helena riu.
— Também acho.
Conversaram por alguns minutos sobre coisas pequenas. Humberto havia acordado cedo, mamado bem, estava particularmente interessado em puxar tudo que conseguia alcançar e já tinha tentado arrancar uma mecha do cabelo da mãe duas vezes naquela manhã. Celina quis saber se ele continuava dormindo bem à noite, se a vermelhidão que aparecera perto do pescoço tinha desaparecido e se Helena ainda estava usando aquele creme que o pediatra recomendara.
Só depois de se considerar suficientemente casual perguntou:
— E o que você vai fazer hoje?
— Nada demais. Vou ficar em casa com ele.
Celina esperou.
— Talvez eu aproveite quando ele dormir para ler um pouco.
— Ler o quê?
— Uns livros em inglês. Estou treinando e já estou pegando um ritmo.
Celina abriu um sorriso.
— Isso é adorável.
Houve uma pequena pausa do outro lado.
— Adorável?
— Sim.
— Eu estudando inglês?
— Você estudando enquanto cuida de um bebê. Acho muito disciplinado.
Helena riu.
Celina deixou a conversa correr mais um pouco antes de chegar ao ponto que realmente lhe interessava.
Precisava fazer aquilo com delicadeza.
Sem parecer que estava convocando.
Sem dar a Helena qualquer sensação de obrigação.
— Já que não tem nada marcado... — começou com suavidade. — Você aceitaria almoçar comigo?
Do outro lado, Helena ficou em silêncio por um instante. Celina acrescentou antes que ela pudesse interpretar demais:
— Gostaria muito de ver Humberto.
Era verdade. Absolutamente verdade. Apenas não era toda a verdade.
— Hoje?
— Hoje.
— Não tem problema nenhum.
Celina precisou controlar o próprio sorriso.
— Excelente. — a palavra saiu um pouco mais satisfeita do que pretendia. — Venha para cá. Podemos almoçar com calma, você fica um pouco e eu aproveito para matar a saudade dele.
— A senhora viu ele essa semana.
— Helena, bebês mudam muito depressa.
— Em três dias?
— Consideravelmente.
Helena começou a rir.
Celina também.
— Então está bem — respondeu a nora. — Eu vou.
— Ótimo.
Celina já conseguia visualizar a tarde inteira.
Talvez pudessem conversar sobre a babá depois, naturalmente. Sem transformar aquilo no motivo da visita. Poderia mencionar os nomes que encontrara, mostrar algumas referências e perguntar como Helena estava pensando em conduzir a busca.
Tudo com muita naturalidade.
— Pode ficar a tarde também — disse. — Não precisa ter pressa para voltar.
Helena hesitou.
— Não quero atrapalhar suas coisas.
Celina franziu o cenho.
— Que coisas?
— Sei lá. A senhora sempre tem um monte de coisa para fazer.
— Eu sei organizar a minha agenda.
— Eu sei.
— Então não se preocupe. — Celina recostou-se na poltrona. — Você não incomoda.
A frase saiu simples. Mais simples do que talvez dissesse alguns meses antes.
— Venha. Almoçamos, eu fico um pouco com Humberto e você pode até trazer seus livros, se quiser.
Helena riu baixinho.
— A senhora está mesmo querendo que eu fique.
Celina sentiu o perigo imediatamente.
— Estou querendo ver meu neto.
— Ah, claro.
Havia alguma coisa no tom de Helena que fez Celina estreitar os olhos.
— O que significa esse “claro”?
— Nada.
— Helena.
— Eu só disse “claro”.
Celina decidiu não insistir.
— Então está combinado.
— Está.
Conversaram mais alguns minutos. Helena comentou que precisaria organizar a bolsa do bebê e provavelmente conseguiria chegar perto do meio-dia. Celina sugeriu que viesse no horário que fosse mais confortável, perguntou novamente sobre Humberto e encerrou a ligação apenas depois de ouvir mais uma pequena história sobre o menino ter descoberto naquela manhã que podia produzir barulho batendo um brinquedo contra a lateral do berço.
— Então até daqui a pouco.
— Até.
— E traga um casaquinho para ele. O ar-condicionado daqui às vezes fica frio demais.
— Eu levo.
— Muito bem.
— Tchau, Celina.
— Tchau, querida.
A ligação terminou.
Celina permaneceu com o telefone ainda junto ao ouvido durante um segundo.
Depois baixou a mão e sorriu. Não um sorriso pequeno. Abriu um sorriso de orelha a orelha.
Helena viria com Humberto para almoçarem e ficariam a tarde.
Celina levantou-se imediatamente.
A casa, que poucos minutos antes estava perfeitamente adequada para um dia comum, de repente lhe pareceu completamente despreparada para receber visitas.
Mesmo que a visita fosse a própria família.
Encontrou uma das funcionárias no corredor e a chamou.
— Marta, Helena vem almoçar com Humberto hoje.
A mulher sorriu.
— Que bom, dona Celina.
— Sim. Quero que preparem a varanda menor. Está um dia bonito e acho melhor do que a sala de jantar.
Pensou por alguns segundos.
— Mas não coloque nada muito formal.
A funcionária esperou.
Celina começou a enumerar.
— Flores claras. Nada muito alto no centro da mesa porque atrapalha a conversa. Pode usar aqueles vasos baixos de cristal. E tirem os arranjos muito perfumados, por causa do bebê.
— Claro.
— Veja também se a temperatura está agradável. Helena não gosta de deixar Humberto no ar-condicionado muito forte.
Continuou caminhando e Marta a acompanhou.
— Sobre o almoço...
Celina parou.
Aquilo exigia atenção.
— Nada pesado.
— Sim, senhora.
— Helena é muito exigente com a alimentação agora.
Não era exatamente exigente. Era cuidadosa. Mas, para Celina, naquele momento, a diferença não parecia relevante.
— Faça um peixe. Aquele robalo que recebemos ontem está bom?
— Está ótimo.
— Então robalo. Legumes, arroz, alguma salada. Pouco sal. Nada com molho pesado.
Pensou mais um pouco.
— E uma massa simples também.
Marta anotava mentalmente.
— Sobremesa?
Celina hesitou.
— Frutas. — fez uma expressão contrariada. — E alguma coisa de chocolate.
A funcionária sorriu.
— Para a dona Helena?
Celina olhou para ela.
— Para todos.
— Claro.
— Mas não exagerem no açúcar.
— Está bem.
Celina continuou:
— Quero tudo bonito, mas sem parecer que estamos recebendo cinquenta pessoas. É um almoço em família.
A mulher assentiu.
— E preparem aquele espaço perto da varanda para Humberto. Pode colocar o tapete maior, os brinquedos que ficam aqui e algumas almofadas.
— Sim, senhora.
— E veja se está tudo higienizado.
— Foi limpo ontem.
— Veja novamente.
Marta sorriu discretamente.
Celina percebeu.
— O quê?
— Nada, dona Celina.
— Muito bem.
Despediu a funcionária com um gesto e seguiu pelo corredor, já pensando em mais coisas.
Talvez algumas flores também na sala íntima.
Não.
Exagero.
A varanda bastava.
O almoço precisava parecer espontâneo.
Natural.
Como se ela não tivesse reorganizado uma tarde inteira, feito telefonemas, escolhido menu, preparado um espaço para o bebê e começado a considerar a posição dos vasos menos de dez minutos depois de desligar.
Era apenas um almoço com a nora e o neto.
Celina subiu para o quarto com uma leveza que não sentia havia algum tempo.
Quando entrou no closet, olhou para as roupas e percebeu que o conjunto que usara no café já não parecia adequado.
Não porque estivesse mal.
Estava impecável.
Mas passaria a tarde em casa, com Helena e Humberto.
Precisava de algo mais confortável.
Ainda elegante.
Naturalmente.
Começou a deslizar os cabides.
Encontrou um vestido leve, de tecido macio, adequado para o calor e suficientemente bonito para receber alguém sem parecer que tinha se produzido especialmente para isso.
Perfeito.
Separou-o.
Depois pensou em Helena chegando com o bebê no colo.
Sorriu outra vez.
O sonho daquela manhã voltou por alguns segundos à memória.
Helena diante daquela mesa enorme.
Chamando-a de mãe.
Celina afastou imediatamente a lembrança antes que se emocionasse de novo.
Aquilo era apenas um sonho.
Na vida real, Helena vinha almoçar.
Era mais do que suficiente.
E, se por acaso passassem a tarde inteira conversando enquanto Humberto brincava perto delas, Celina certamente não teria qualquer objeção.
Afinal, ela havia convidado a nora apenas porque queria ver o neto.
Naturalmente.
A partir das onze e meia, Celina perdeu qualquer capacidade razoável de fingir que não estava esperando.
Passou pela varanda duas vezes para conferir a mesa, embora já tivesse aprovado pessoalmente os arranjos. Pediu que afastassem um dos vasos porque, de determinado ângulo, poderia atrapalhar a visão de quem estivesse sentado na outra ponta, verificou a posição do carrinho que haviam deixado próximo à mesa e perguntou se o peixe já estava pronto, apesar de saber perfeitamente que ninguém naquela casa serviria um almoço frio sem desejar passar o restante da semana ouvindo sobre aquilo.
Às onze e quarenta e três, olhou o relógio.
Às onze e cinquenta, tornou a olhar.
Às onze e cinquenta e quatro, foi até uma das janelas do hall por uma razão que nem ela saberia explicar.
Aquilo estava ficando ridículo.
Helena vinha almoçar.
Só isso.
Não era uma recepção oficial, não era um jantar de gala e muito menos a primeira vez que a nora entrava naquela casa. Helena já estivera ali tantas vezes que alguns funcionários conheciam até suas preferências. Humberto também não era uma visita. Era seu neto.
Ainda assim, Celina nunca esperara tanto pelo meio-dia.
Quando finalmente ouviu o ruído de um carro entrando pela propriedade, seu coração deu uma pequena acelerada.
Ela imediatamente se afastou da janela.
Não ficaria parada no hall esperando.
De maneira alguma.
Isso daria a impressão de que passara a última meia hora aguardando a chegada deles, o que simplesmente não era verdade. Ou, pelo menos, não precisava parecer verdade.
Olhou ao redor e, numa decisão rápida, atravessou a sala em direção à biblioteca. Precisava estar fazendo alguma coisa quando Helena entrasse.
Ler.
Perfeito.
Celina entrou e foi rapidamente até a biblioteca, passou os olhos pelas estantes e puxou Dom Casmurro quase sem pensar.
Gostava particularmente daquele livro. Já o lera mais de uma vez ao longo da vida e sempre tivera uma relação divertida com a eterna discussão sobre Capitu que parecia incapaz de morrer, não importava quantas gerações se passassem. Além disso, havia uma vantagem adicional naquele título que lhe ocorreu assim que segurou o volume.
Machado de Assis era um homem preto.
Celina abriu um pequeno sorriso.
Helena gostaria disso.
Não porque Celina tivesse colocado um escritor preto na estante para impressioná-la. Aquele exemplar estava ali havia anos e Machado sempre fora um de seus autores brasileiros preferidos. Era justamente esse o ponto. Helena poderia perceber que existiam coisas naquela casa que talvez não esperasse encontrar. Referências que também pertenciam a ela. Celina achou aquilo especialmente satisfatório.
Sentou-se numa das poltronas, abriu o livro aproximadamente na metade e tentou assumir uma expressão de quem vinha lendo havia pelo menos vinte minutos.
Não chegou a terminar um parágrafo.
Ouviu vozes no hall.
Depois os passos de uma funcionária se aproximando.
Celina baixou um pouco os olhos para a página.
— Dona Celina?
Ela levantou a cabeça com uma naturalidade impecável.
— Sim?
— Dona Helena chegou com o Humberto.
— Ah.
Celina fechou o livro, marcando a página com um dedo.
— Muito bem. Já vou.
Esperou ainda alguns segundos.
Somente os necessários para que não parecesse que pretendia sair correndo.
Levantou-se, colocou o livro sobre a mesa lateral e caminhou até o hall com a calma que se esperava de uma mulher perfeitamente indiferente ao fato de estar esperando aquela visita desde antes das onze e meia.
Então viu Helena e abriu um sorriso antes mesmo de conseguir controlar.
A nora estava bonita de um jeito simples que Celina apreciava cada vez mais. Vestia uma calça de linho bege de cintura alta e uma blusa de tecido leve num tom verde suave, com mangas curtas e decote discreto. Nos pés, sandálias baixas. Os cabelos estavam presos num coque pouco elaborado, com alguns cachos escapando perto das têmporas, e ela usava apenas brincos pequenos e uma maquiagem tão leve que quase não parecia existir.
Nada extraordinário.
E, ainda assim, Celina imediatamente pensou que aquela cor lhe ficava muito bem.
Talvez um pouco mais escura.
Esmeralda.
O leilão voltou à sua cabeça por um segundo.
Depois ela viu Humberto.
O restante desapareceu.
O menino estava no colo da mãe com uma pequena camisa xadrez amarela e branca, uma bermudinha cor de areia e meias claras. O conjunto era tão delicadamente elegante que Celina sentiu uma satisfação quase pessoal, embora não tivesse sido ela quem o escolhera.
— Meu Deus.
Helena começou a rir.
— O quê?
Celina já se aproximava.
— Olhe para ele.
— Eu estou olhando para ele desde que saí de casa.
— Está tão elegante.
Humberto virou o rosto na direção da voz.
Reconheceu-a.
O sorriso que surgiu em seu rosto foi imediato.
Celina parou.
— Aaah! — o menino abriu ainda mais a boca e soltou um gritinho agudo, movimentando os braços com tanta animação que Helena precisou segurá-lo melhor.
— Viu a vovó? — Helena perguntou, rindo. — Ficou animado agora?
Humberto respondeu com outro som alto, uma mistura de vogal e pequeno grito de felicidade.
Celina sentiu o coração simplesmente derreter.
— Meu amor...
Esqueceu completamente qualquer intenção de manter uma entrada casual. Cumprimentou Helena primeiro, deixando um beijo carinhoso em seu rosto.
— Que bom que veio, querida.
— Obrigada pelo convite.
Celina já olhava novamente para o bebê, estendeu os braços.
— Venha com a vovó.
Helena nem precisou fazer movimento algum para convencê-lo. Humberto praticamente se inclinou na direção de Celina, ainda sorrindo, e ela o recebeu contra o peito como se tivesse passado semanas sem vê-lo em vez de poucos dias.
— Meu Deus, como você está bonito.
Beijou uma das bochechas.
Humberto respondeu com um som satisfeito e tentou imediatamente agarrar alguma coisa perto de seu pescoço.
Celina riu.
— Calma.
Deu outro beijo nele, depois mais um.
— Você sentiu saudade da vovó? Sentiu?
Humberto abriu um sorriso desdentado e balançou as pernas.
— Claro que sentiu.
Helena cruzou os braços, divertida.
— Ele confirmou?
— Evidentemente.
Celina passou os olhos demoradamente pelo rosto do neto. Às vezes era quase doloroso o quanto ele lembrava Heitor.
Havia momentos em que uma expressão surgia tão parecida que Celina voltava décadas no tempo sem qualquer aviso. O formato dos olhos, determinadas maneiras de franzir a testa, até aquele jeito de abrir um sorriso enorme quando estava satisfeito traziam o filho de volta em flashes tão precisos que chegavam a apertar seu peito.
Mas Humberto também tinha Helena, cada vez mais. O nariz, principalmente.
Celina já havia decidido aquilo.
— Seu nariz é da sua mãe — disse ao bebê.
Helena soltou uma risada.
— A senhora continua com isso.
— Porque é verdade.
Celina tocou delicadamente a pontinha do nariz dele.
Humberto, aparentemente convencido de que todos estavam conversando com ele, respondeu com uma sequência animada de sons.
— Aah... guh... ah!
Celina arregalou os olhos para ele.
— Exatamente.
Helena riu ainda mais.
— A senhora entendeu?
— Perfeitamente.
— O que ele disse?
Celina olhou para o neto com seriedade.
— Que concorda comigo.
Outro gritinho.
— Viu?
— Impressionante.
A conversa seguiu dali mesmo por alguns minutos, interrompida constantemente por Humberto, que parecia determinado a participar de tudo. Celina perguntava alguma coisa a Helena, o bebê soltava um som, e ela imediatamente desviava a atenção para responder a ele como se aquela contribuição tivesse sido perfeitamente compreensível.
Foi enquanto falava que percebeu a pequena mão fechando-se novamente em torno de seu colar.
— Ah, não.
Humberto puxou. Celina segurou sua mãozinha antes que conseguisse levar a joia à boca.
— Isso não.
Ele pareceu profundamente ofendido.
— É bonito, eu sei.
Outro puxão. Celina sorriu, orgulhosa.
— Pelo menos tem bom gosto.
Helena soltou uma risada.
— Ele quer colocar na boca.
— Uma coisa não exclui a outra.
Nesse momento, uma funcionária se aproximou para avisar que o almoço estava pronto.
— Excelente — disse Celina. — Vamos?
Seguiram para a varanda menor, onde a mesa estava preparada de maneira elegante, mas sem a formalidade que Celina reservaria a convidados. As flores claras permaneciam baixas no centro, a louça era delicada e a luz do início da tarde atravessava o jardim sem atingir diretamente a mesa.
Helena olhou ao redor.
— Está lindo.
Celina sentiu uma satisfação imediata.
— Está agradável.
Era uma forma mais elegante de aceitar o elogio.
Acomodou Humberto no carrinho ao lado de sua cadeira antes de se sentar. O menino ficou alguns segundos observando o novo ambiente com uma concentração extraordinária para alguém de quatro meses, os olhos passando pelas flores, pelas folhas que se moviam ao longe e pelos rostos das duas mulheres.
Quando o primeiro prato foi servido, ele decidiu que também precisava participar.
— Aaaaah.
Celina virou-se.
— Pois não?
Humberto mexeu as pernas.
Helena riu.
— Agora começou.
— Começou o quê?
— Ele passa o almoço inteiro fazendo isso. Parece que fica indignado porque todo mundo está conversando e ele não.
— Está correto.
— Claro que a senhora ia concordar.
Celina inclinou-se na direção do carrinho.
— Você tem todo direito de participar da conversa.
Humberto respondeu imediatamente.
— Guh!
— Exatamente.
Helena cobriu o sorriso com a mão.
A refeição correu daquela forma.
Era, na verdade, um almoço completamente comum, e talvez por isso Celina gostasse tanto dele.
Conversaram sobre o sono de Humberto, sobre uma conhecida de Helena que tinha acabado de mudar de apartamento, sobre um livro que ela estava lendo e sobre os estudos de inglês que mencionara ao telefone. Celina perguntou quais livros tinha escolhido, interessou-se genuinamente quando Helena explicou que queria ganhar vocabulário e sugeriu que procurasse alguns títulos na biblioteca antes de ir embora.
Em intervalos irregulares, Humberto acrescentava alguma coisa.
Um gritinho.
Um “ah”.
Uma longa sequência de vogais acompanhada de mãos agitadas.
Celina invariavelmente respondia.
— Não concordo.
Helena quase engasgou com a água.
— Com o quê?
— Com ele.
— Ele só falou “aaaah”.
— O tom foi bastante claro.
Poucos minutos depois, Humberto produziu outro som.
Celina assentiu.
— Agora sim.
— Mudou de opinião?
— Apresentou um argumento melhor.
Helena ria tanto que Humberto começou a sorrir também, aparentemente satisfeito com o efeito que provocava.
Celina observou os dois.
Helena inclinada um pouco na direção do carrinho, sorrindo para o filho.
Humberto olhando para a mãe com aquele rosto alegre.
E uma sensação quente se espalhou pelo peito de Celina.
Gostava daquilo.
Gostava muito.
Não havia fotógrafos, convidados, vestidos, instituições ou qualquer obrigação. Apenas sua nora, seu neto e um almoço numa varanda da própria casa.
Talvez estivesse ficando sentimental demais.
Não havia necessidade de analisar.
Continuou comendo.
Quando chegaram à sobremesa, porém, Celina começou a perceber uma coisa.
Helena não tinha falado da babá.
Nem uma vez.
Ela esperou.
Talvez o assunto surgisse naturalmente.
Não surgiu.
Helena comentou sobre uma amiga. Depois perguntou se Celina ainda pretendia participar de determinado evento na semana seguinte. Humberto reclamou por alguns minutos antes de se acalmar novamente. Falaram sobre livros.
Nada.
Celina levou uma pequena porção de sobremesa à boca e observou a nora discretamente.
Talvez Helena estivesse esperando que ela perguntasse.
Não.
Ela tinha prometido a si mesma que não faria isso.
Não transformaria o almoço numa intervenção.
Era perfeitamente possível que Helena ainda estivesse organizando as ideias. Talvez tivesse alguns nomes. Talvez tivesse falado com alguém. Talvez quisesse conduzir aquela busca sozinha.
Celina não gostou de nenhuma dessas possibilidades.
Principalmente da última.
Mas permaneceu em silêncio.
— Quer mais? — perguntou, apontando para a sobremesa.
— Não, obrigada. Estou satisfeita.
— Tem certeza?
— Tenho.
Celina assentiu.
Não falou da babá.
Helena também não.
Aquilo começou a incomodá-la um pouco.
Tinha cancelado uma tarde inteira.
Feito ligações.
Levantado referências.
Pensado em entrevistas.
E Helena permanecia ali, perfeitamente tranquila, terminando o almoço como se não houvesse uma questão importantíssima esperando para ser discutida.
Celina olhou para Humberto.
O menino a encarava de volta.
— Não olhe assim para mim — murmurou.
Helena ergueu os olhos.
— O quê?
— Estou falando com ele.
— Ah.
Humberto soltou um som comprido.
Celina estreitou os olhos.
— Você também não comece.
Helena caiu na risada.
Celina acabou sorrindo.
Muito bem.
Não tocaria no assunto.
Ainda.
Tinha uma tarde inteira pela frente.
E, afinal, fora Helena quem viera passar algumas horas com ela.
Ou, tecnicamente, Humberto.
Celina preferiu não examinar demais essa distinção.
Depois do almoço, as duas deixaram a varanda e foram para a sala de descanso, onde o ambiente era mais fresco e a luz da tarde entrava filtrada pelas cortinas claras. Celina acomodou-se em uma das poltronas enquanto Helena se sentou no sofá com Humberto no colo, e por algum tempo continuaram conversando sem qualquer pressa. O menino, que durante o almoço parecera disposto a participar de todas as discussões da família, começou pouco a pouco a perder o entusiasmo. Primeiro esfregou o rosto no peito da mãe, depois reclamou com pequenos sons impacientes e, quando Helena tentou distraí-lo com um brinquedo, virou o rosto como se aquilo fosse uma afronta pessoal.
— Está com sono — disse Helena.
Celina observou enquanto a nora ajeitava o bebê junto ao corpo.
Humberto mamou com a concentração séria que sempre divertia Celina, uma das mãozinhas apoiada sobre Helena e os olhos começando a pesar à medida que o tempo passava. Helena falava mais baixo agora, respondendo a alguma coisa que Celina dizia enquanto acariciava distraidamente os cabelos finos do filho. Havia uma tranquilidade naquele gesto que fazia parecer que ela fizera aquilo a vida inteira.
Celina olhou para a nora com atenção.
A maternidade lhe fizera bem.
Helena ainda carregava algumas mudanças da gravidez, naturalmente, mas Celina achava que seu corpo ficara ainda mais bonito depois de Humberto. Havia mais curvas, uma feminilidade diferente, alguma coisa mais madura na maneira como as roupas assentavam nela. Celina já pensara nisso algumas vezes e continuava convencida de que era verdade.
Não comentaria.
Existiam coisas que uma sogra simplesmente não dizia para a nora se desejasse continuar tendo uma convivência harmoniosa.
Além disso, Helena provavelmente responderia alguma coisa sobre ainda não ter voltado ao corpo anterior e Celina acabaria entrando numa discussão desnecessária sobre o fato de que não havia motivo algum para voltar exatamente ao que era antes.
Preferiu guardar a opinião.
Quando Humberto terminou de mamar, Helena o colocou sobre o ombro, esperou que arrotasse e começou a niná-lo devagar. O menino ainda resistiu por alguns minutos, como se dormir significasse perder alguma coisa muito importante, mas acabou cedendo. A cabeça tombou contra o ombro da mãe, as mãos relaxaram e a respiração ficou profunda.
— Dormiu — Helena murmurou.
— Finalmente.
Helena sorriu e se levantou com cuidado.
Humberto já tinha um quarto próprio naquela casa.
Celina considerara aquilo absolutamente necessário desde antes de ele nascer. Não fazia sentido o neto passar tantas horas na mansão dos avós sem ter um lugar inteiramente preparado para ele. O quarto ficava próximo aos aposentos que Heitor usara quando jovem, decorado em tons claros, com berço, cômoda, poltrona e tudo que poderia ser necessário caso Humberto passasse algumas horas ou mesmo uma noite ali.
Helena levou o menino até lá, e Celina foi atrás apenas até a porta. Ficou observando enquanto a nora o colocava no berço com delicadeza, esperava alguns segundos com a mão sobre seu peito e só depois se afastava.
— Ele fica lindo dormindo — Celina sussurrou.
Helena virou o rosto.
— Porque não está gritando.
Celina segurou uma risada.
As duas saíram devagar e Helena fechou a porta sem fazer barulho.
Voltaram para a sala principal e retomaram a conversa exatamente de onde haviam parado, como se aquele tipo de interrupção já fizesse parte natural das tardes delas. Helena sentou-se no sofá e só então percebeu o livro sobre a mesa lateral.
Celina percebeu que ela percebeu.
Seu olhar foi imediatamente para o rosto da nora.
Dom Casmurro. Machado de Assis.
Celina quase sorriu.
Esperou.
Helena olhou para a capa por um instante. Depois voltou os olhos para ela.
— Estou um pouco preocupada com o mês que vem.
Celina sentiu uma pequena decepção. Helena não comentou nada sobre o livro. Absolutamente nada.
Talvez tivesse apenas reconhecido o título. Talvez comentasse depois.
Celina decidiu não se importar.
— Por quê?
Helena se ajeitou melhor no sofá.
— Todo mundo fica falando desse salto de cinco meses.
— Ah.
— Parece que o bebê vira outra pessoa. Para de dormir, fica irritado, quer colo o tempo inteiro... cada pessoa que fala aumenta um pouco a tragédia.
Celina sorriu.
— Mulheres adoram assustar mães recentes.
— Eu percebi.
— Principalmente as que tiveram filhos há trinta anos e já esqueceram metade do que realmente aconteceu.
Helena riu.
Celina continuou:
— O Heitor também teve fases em que parecia ter decidido que dormir era completamente desnecessário. Depois passava.
— Quanto tempo?
— Não me lembro.
— Isso não ajuda.
— Porque, como acabei de dizer, já esqueci metade.
Helena riu outra vez.
Celina se inclinou um pouco na direção dela.
— Não fique sofrendo antes da hora. Humberto pode ter alguns dias mais difíceis, pode mudar o sono, querer mais colo. Ou pode passar por isso sem metade do drama que estão prometendo. Bebês não leem os mesmos manuais que as mães.
— Eu sei.
— E você vai perceber o que ele precisa.
Helena assentiu, embora ainda parecesse um pouco preocupada.
— É que agora a gente está começando a entrar num ritmo. Aí fico pensando que vai mudar tudo de novo.
— Vai.
Helena olhou para ela. Celina abriu um pequeno sorriso.
— Não vou mentir para você. Com criança, quando você finalmente acredita que entendeu alguma coisa, ela muda. Mas depois vocês encontram outro ritmo.
A expressão de Helena relaxou.
— O Heitor fala a mesma coisa.
— Então pelo menos uma coisa eu ensinei bem a ele.
Ficaram mais algum tempo conversando sobre Humberto. Helena contou sobre os horários que vinha tentando manter, sobre as sonecas que ainda variavam bastante e sobre como o menino tinha começado a demonstrar muito mais interesse pelo que acontecia ao redor.
Celina ouvia.
Respondia.
Esperava.
Nada.
Nenhuma babá.
Em determinado momento, começou a achar aquilo extraordinário.
Helena estava em sua casa havia horas. Tinham almoçado, conversado, colocado Humberto para dormir e discutido até um salto de desenvolvimento que ainda nem tinha acontecido e a babá continuava sem existir naquela conversa.
Celina tentou se convencer de que não estava incomodada.
Estava apenas curiosa.
Muito curiosa.
Talvez um pouco preocupada.
Decidiu que não perguntaria diretamente.
Não queria que Helena pensasse que Heitor havia enviado a mãe para supervisionar a busca ou, pior, que Celina pretendia tomar aquilo para si.
Precisava apenas conduzir a conversa.
Com delicadeza.
— É bom que vocês estejam começando a pensar em algumas mudanças antes dessa fase — comentou casualmente.
Helena olhou para ela.
— Que mudanças?
Celina fez um pequeno gesto com a mão.
— Rotina. Organização. Ter um pouco mais de ajuda.
Nada.
Helena assentiu.
— É.
Celina esperou.
Helena continuou:
— A gente está tentando organizar melhor algumas coisas.
Quase.
— Imagino que fique difícil fazer tudo sozinha com ele querendo cada vez mais atenção.
— Fica um pouco.
Celina manteve a expressão tranquila.
— Principalmente se você quiser voltar a ter algumas horas para você.
Helena ficou em silêncio por um instante. Celina sentiu que finalmente se aproximava.
— Eu e o Heitor estamos procurando uma babá — Helena disse.
Ali.
Finalmente.
Celina sentiu uma satisfação imediata e precisou se controlar para não demonstrar demais. Passara boa parte do dia esperando exatamente aquela abertura, convencida de que bastaria Helena tocar no assunto para que pudesse oferecer os nomes que já levantara, explicar como funcionavam as referências e, com toda a delicadeza que vinha tentando cultivar, assumir uma parte daquilo.
— Ah, estão?
A naturalidade de sua voz estava impecável. Helena assentiu, mas não pareceu particularmente animada.
— Estamos tentando.
Celina percebeu a diferença.
— Tentando?
Helena passou os dedos pela costura da almofada que tinha ao lado.
— O Heitor acha que vai ser bom. Eu também acho, racionalmente. Quer dizer... eu sei que vou precisar de alguém em algum momento. Mesmo que seja só algumas horas. Para fazer alguma coisa, sair, resolver minhas coisas sem precisar levar o Humberto para todo lugar.
— Claro.
— Só que… —Helena parou.
Celina esperou.
— Eu não quero. — a resposta saiu baixa.
Aquilo pegou Celina desprevenida.
— Não quer uma babá?
— Não. — Helena respirou fundo e tentou sorrir, sem conseguir muito. — Só que eu preciso.
Celina ficou mais atenta.
Até aquele momento imaginara uma insegurança comum, talvez falta de conhecimento sobre como contratar uma profissional. Agora percebeu que havia outra coisa por baixo daquilo.
— Uma coisa não precisa necessariamente anular a outra — disse com cuidado. — Você pode precisar de ajuda e ainda não se sentir confortável com a ideia.
Helena assentiu, olhando para as próprias mãos.
— É que todo mundo fala como se fosse tão normal.
— Para muita gente é.
— Para o Heitor é.
Celina quase sorriu.
Naturalmente era. Heitor passara boa parte da infância acompanhado por Cleuza e guardava dela uma lembrança tão familiar que dificilmente enxergaria uma babá como uma estranha entrando em casa.
Helena continuou:
— Ele fala da dona Cleuza como se fosse a coisa mais natural do mundo. E eu entendo. Ela cuidou dele, ele amava ela, a senhora confiava nela...
— Muito.
— Mas ele já sabe como é.
A voz de Helena começou a mudar.
Celina percebeu.
— Eu não sei. — houve uma pausa. — Eu nunca tive babá. Nunca conheci ninguém que tivesse. Quando uma criança precisava ficar com alguém, ficava com a avó, com uma tia que estivesse na cidade, às vezes com uma vizinha que a família conhecia há anos. Eu fui criada pelos meus avós.
Celina permaneceu em silêncio.
Sabia da história de Helena. Sabia quem a criara, sabia quanto da infância daquela menina tinha sido construído muito longe do universo em que Heitor crescera. Mas talvez nunca tivesse parado para pensar no que certas diferenças significavam em coisas tão pequenas e tão íntimas.
Para Celina, contratar uma babá exigia cuidado, naturalmente. Referências, entrevistas, confiança, observação. Mas o conceito em si jamais parecera estranho. Mulheres de seu círculo tinham babás havia gerações. Algumas já começavam a procurar ainda durante a gravidez.
Para Helena, significava entregar o próprio filho a uma desconhecida e isso era completamente diferente.
— Eu fico pensando nele com alguém que eu nunca vi — Helena continuou. — Uma pessoa que não conhece o jeito dele, não sabe quando ele está reclamando de sono, quando está com fome, quando só quer colo. E ele não fala, Celina.
Os olhos começaram a encher de lágrimas.
Celina sentiu o peito apertar.
— Helena...
— Se alguma coisa acontecer, ele não consegue me contar.
A primeira lágrima caiu. Helena passou a mão pelo rosto imediatamente, quase irritada consigo mesma.
— Desculpa.
Celina franziu o cenho.
— Pelo quê?
— Eu nem sei por que estou chorando. — outra lágrima veio e Helena soltou uma pequena risada constrangida enquanto tentava enxugar o rosto. — Que bobagem.
— Não é bobagem.
Celina respondeu tão depressa que Helena levantou os olhos e então chorou de verdade.
Não dramaticamente. Não houve soluços altos nem qualquer descontrole. Apenas aquele choro silencioso que parece acontecer apesar de quem está chorando, lágrimas descendo enquanto Helena tentava continuar falando normalmente.
— Eu não quero perder nada dele.
A frase fez Celina se mover. Levantou-se da poltrona e foi se sentar ao lado da nora no sofá.
— Você não vai perder.
Helena respirou fundo, mas as lágrimas continuaram.
— Eu sei que parece exagerado. Eu sei que ele vai crescer, que eu não posso ficar grudada nele vinte e quatro horas por dia, que eu também tenho uma vida...
— Helena. — Celina pegou uma das mãos dela. — Olhe para mim.
Helena obedeceu.
— Você não precisa me convencer de que é racional.
A nora ficou quieta. Celina apertou suavemente seus dedos.
— Você acabou de ter um filho. Ele tem quatro meses. É perfeitamente compreensível que a ideia de entregá-lo aos cuidados de alguém que você ainda não conhece lhe cause medo.
Helena abaixou novamente os olhos.
— Mas eu preciso conseguir.
— Vai conseguir.
— Como a senhora sabe?
Celina abriu a boca e parou.
Porque, de repente, lembrou-se.
Não como uma história distante, mas com a precisão desagradável de certas lembranças que pareciam esquecidas até alguém tocar exatamente no ponto certo.
Heitor tinha poucos meses.
Cleuza já estava escolhida havia algum tempo. As referências eram excelentes. Celina conhecia a família para quem ela trabalhara antes, conversara com a antiga patroa, observara Cleuza durante dias dentro de casa e sabia, racionalmente, que o filho estava seguro.
Mesmo assim, na primeira vez em que saiu deixando Heitor com ela, não conseguiu ir muito longe.
Celina soltou uma pequena respiração.
— Porque eu também não consegui.
Helena ergueu os olhos.
— O quê?
Celina percebeu tarde demais que havia falado.
Poderia recuar.
Deveria, provavelmente.
Não recuou.
— Na primeira vez que deixei Heitor com Cleuza, achei que fosse enlouquecer.
Helena parou de enxugar o rosto.
— A senhora?
A surpresa quase ofendeu Celina.
— Eu sou mãe, Helena.
— Eu sei. É que...
— O quê?
Helena pareceu procurar uma maneira diplomática de responder.
— A senhora parece tão segura com tudo.
Celina soltou uma pequena risada.
— Parecer é uma habilidade que se aprende.
A frase saiu antes que pensasse muito nela.
Helena ficou olhando.
Celina desviou os olhos por um instante e continuou, talvez porque já tivesse começado.
— Cleuza era excelente. Eu sabia. Tinha referências extraordinárias, experiência, era firme, atenta, gostava do Heitor... não existia uma razão concreta para eu me preocupar. Mesmo assim, no primeiro dia em que precisei sair sem ele, chorei antes de sair de casa.
Helena pareceu surpresa.
Celina apertou os lábios.
— Depois chorei no carro.
Um sorriso muito pequeno apareceu no rosto molhado de Helena.
— E quando cheguei onde precisava estar, fui ao banheiro e fiquei escondida lá por uma quantidade de tempo que prefiro não especificar.
Helena riu baixinho em meio às lágrimas.
Celina também.
— Eu queria voltar para casa. Ficava imaginando que ele tinha acordado procurando por mim, que estava chorando, que Cleuza não entenderia o que ele queria.
— Exatamente.
A resposta de Helena veio tão depressa que Celina virou o rosto.
Ali estava.
A mesma angústia.
Separadas por décadas, por dinheiro, por criação e por tudo que havia existido de diferente entre a vida das duas.
A mesma.
Celina sentiu alguma coisa dentro dela amolecer.
— Então não — disse. — Não acho que esteja exagerando.
Helena enxugou outra lágrima.
— E quando passou?
Celina pensou.
— Aos poucos. Primeiro eu saía por pouco tempo. Depois percebi que voltava e Heitor continuava perfeitamente bem. Depois comecei a confiar em Cleuza não apenas porque outras pessoas diziam que ela era confiável, mas porque eu própria a conhecia.
Fez uma pausa.
— E porque comecei a perceber que ela aprendia meu filho.
Helena ficou atenta.
— Isso fez diferença. Ela sabia quando ele estava cansado, quando estava irritado, quando queria atenção. Não porque alguém entregou um manual a ela. Porque convivia com ele.
Celina passou o polegar lentamente sobre a mão da nora.
— Você não precisa entregar Humberto para uma desconhecida e desaparecer durante oito horas no dia seguinte. Pode conhecer a pessoa primeiro. Pode ficar em casa enquanto ela está com ele. Pode observar. Pode começar com meia hora. Uma hora. Pode levar o tempo que precisar.
Helena respirou fundo.
— Eu só não queria me sentir assim — Helena confessou, enxugando o rosto com as pontas dos dedos. — Parece que todo mundo espera que eu fique feliz porque vou ter ajuda. Como se fosse óbvio eu querer alguém aqui para ficar com ele.
Celina permaneceu alguns segundos olhando para a nora. Aquela frase lhe trouxe uma lembrança tão antiga que quase estranhou ainda conseguir acessá-la com tanta nitidez. Heitor muito pequeno, Cleuza dentro de casa, todas as referências verificadas, tudo perfeitamente organizado e ela escondida em um banheiro porque não conseguia parar de chorar.
Naquela época, ninguém parecera compreender por que uma situação considerada tão comum lhe causava tamanho sofrimento.
Sua mãe, menos ainda.
— As pessoas esperam muitas coisas de uma mulher depois que ela tem um filho — disse Celina. — Quando deixei Heitor com Cleuza pela primeira vez, também não compreenderam por que fiquei daquele jeito.
Helena ergueu os olhos.
— Nem sua mãe?
Celina demorou um pouco antes de responder.
— Minha mãe não tinha muita paciência para determinadas sensibilidades.
Havia tanto contido naquela frase que Celina percebeu Helena se aquietar. A nora não perguntou o que sua mãe havia dito, nem tentou arrancar uma explicação. Apenas ficou olhando para ela por alguns segundos.
— Deve ter sido difícil.
Celina desviou os olhos.
— Foi há muito tempo.
— Mesmo assim.
A resposta simples fez Celina tornar a olhar para ela.
Helena não parecia particularmente curiosa. Não havia aquela expressão de quem esperava uma história ou uma confidência. Apenas uma atenção tranquila que, por algum motivo, tornou mais fácil continuar.
Celina passou os dedos lentamente sobre a pulseira que usava.
— Nossa relação já não era exatamente simples naquela época.
Helena hesitou.
— Por causa do seu Renato?
A pergunta veio cuidadosa, sem insistência, e Celina percebeu que Helena lhe deixava perfeitamente aberta a possibilidade de não responder.
— Em parte.
Helena permaneceu quieta.
Ela conhecia a história da igreja. Afonso fizera questão de contar, durante um almoço familiar, tudo que sabia sobre o sofrimento do filho, a véspera do casamento, os papéis, a igreja e Renato entrando praticamente no último instante para dizer diante de todos que ainda amava Celina.
Celina se lembrava muito bem da reação de Helena naquela ocasião. Os olhos arregalados, a mão levada à boca, o encantamento quase infantil diante de uma história que, contada tantos anos depois, realmente parecia muito mais bonita do que fora enquanto acontecia.
O que Helena não conhecia era o que existia ao redor dela.
— Você sabe que Renato e eu já tínhamos namorado antes — Celina continuou.
— Seu Afonso contou.
— Contou a parte divertida.
Um sorriso discreto apareceu em Helena.
— Ele parecia gostar muito daquela história.
— Maria Lúcia gostava ainda mais.
A lembrança suavizou por um instante o rosto de Celina.
Depois desapareceu.
— Meu pai ficou furioso quando descobriu que eu estava namorando Renato.
Helena franziu levemente o cenho.
— Por quê?
Celina suspirou.
— Porque, para minha família, ele não era uma escolha adequada.
— Mas os Monteiro já tinham a empresa nessa época, não tinham?
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Tinham. — Celina se recostou no sofá. — E já tinham dinheiro. Isso nunca foi o problema exatamente. Minha família era muito antiga, Helena. Muito tradicional. Havia uma importância enorme dada a nome, origem, relações construídas ao longo de gerações. Para meus pais, uma família podia enriquecer em vinte anos. História não se construía assim.
Helena permaneceu em silêncio por alguns segundos, com o cenho ainda discretamente franzido, como se tentasse acompanhar uma lógica que provavelmente lhe parecia bastante distante.
— Então eles não achavam que a família do senhor Renato estava... à altura?
Celina reconheceu o cuidado com que Helena escolhera as palavras.
— Basicamente.
Helena baixou os olhos por um instante, pensativa.
— Deve ter sido horrível para vocês.
A resposta surpreendeu Celina.
Esperava talvez alguma observação sobre seus pais, alguma reação diante da rigidez daquela lógica. Helena, porém, parecera interessada primeiro no que aquilo significara para os dois.
— Foi desagradável.
Um pequeno sorriso apareceu nos lábios da nora.
Celina percebeu.
Helena começava a conhecer seu vocabulário suficientemente bem para entender que “desagradável” podia esconder coisas muito maiores.
Celina continuou:
— Meu pai tentou impedir o relacionamento. Eu não aceitei muito bem.
Dessa vez Helena sorriu de verdade.
— Consigo imaginar.
Celina ergueu uma sobrancelha.
— O que isso significa?
— Que a senhora não parece alguém que aceitasse facilmente que decidissem isso por você.
A resposta não tinha provocação. Soava quase como um elogio. Celina deixou escapar um pequeno sorriso.
— Não aceitava.
Durante algum tempo, continuara vendo Renato apesar de tudo. Depois vieram outras coisas, desgastes, circunstâncias que não pretendia explicar naquela tarde, até que os dois terminaram.
— Depois conheci o homem que meus pais queriam para mim — disse. — Namoramos. Ficamos noivos.
Helena já conhecia o fim daquela história. Ainda assim, a maneira como se manteve atenta fez Celina perceber que ouvi-la diretamente dela provavelmente era diferente de escutar Afonso transformando tudo numa das grandes aventuras familiares dos Monteiro.
— E chegou o casamento.
Celina assentiu.
— Chegou.
— E o senhor Renato apareceu.
Um sorriso quase involuntário surgiu no rosto de Celina.
— Apareceu.
Helena também sorriu, mas não fez nenhuma brincadeira.
— Eu lembro do que seu Afonso contou. Que ele chegou todo desarrumado porque tinha trocado de roupa no carro.
Celina soltou uma pequena risada.
— A gravata estava horrorosa.
— Mas a senhora falou que ele parecia um príncipe.
Celina olhou para ela. Helena lembrava.
— Parecia. — a voz saiu mais baixa.
Por alguns segundos, Celina voltou àquela igreja.
Ao ruído das pessoas.
Ao pai se levantando furioso.
A Renato diante dela, completamente fora de tudo que normalmente era, dizendo que tentara respeitar sua decisão e não conseguira. Pedindo apenas que ela não se tornasse esposa de outro homem se ainda existisse dentro dela qualquer parte que o amasse.
Existia.
Muito mais do que uma parte.
— Eu sempre amei Renato — disse Celina.
Helena ficou quieta.
— Mesmo depois que terminamos. Mesmo quando tentei seguir minha vida. Talvez por isso, quando ele entrou naquela igreja, não tenha sido realmente uma escolha difícil.
— A senhora já sabia.
Celina assentiu.
— Acho que sim.
Helena sorriu.
— É uma história muito bonita.
— Vista de agora.
O complemento fez o sorriso de Helena diminuir.
Celina respirou fundo.
— Na época foi um escândalo.
— Imagino.
— Não acho que imagine.
A frase saiu sem dureza.
Celina simplesmente sabia que Helena não tinha como dimensionar aquele universo, aquela época, aqueles sobrenomes e tudo que sua decisão representara.
— Meus pais nunca me perdoaram.
Helena ficou imóvel.
— Nunca?
— Não.
— Nem depois?
Celina balançou a cabeça.
— Eles faleceram há muitos anos e nossa relação nunca voltou a ser o que era antes.
A surpresa apareceu com tanta clareza no rosto de Helena que Celina quase se arrependeu de ter dito.
— Eu não sabia disso.
— Pouquíssimas pessoas sabem de verdade.
— Eu achei que... — Helena parou, escolhendo as palavras. — Achei que depois do casamento as coisas tivessem se acertado.
— Não.
Celina respondeu de maneira simples. Talvez por isso aquilo parecesse ainda mais definitivo.
Helena ficou em silêncio por algum tempo antes de perguntar:
— E você é filha única?
Celina virou o rosto.
— Eu tenho irmãos.
Os olhos de Helena se abriram um pouco mais.
— Tem?
— Tenho.
— Eu nunca ouvi falar deles.
Não havia acusação na voz. Apenas uma surpresa que Celina compreendia perfeitamente.
Ela ajeitou o tecido do vestido sobre o joelho.
— Porque não temos convivência.
— Por causa do que aconteceu?
— Em parte. Nós já não éramos especialmente próximos quando tudo aconteceu. Depois que escolhi Renato, eu me afastei ainda mais da família. Eles seguiram a vida deles, eu segui a minha.
Helena permaneceu alguns segundos sem dizer nada.
— Vocês não se veem?
— Eventualmente. O Rio não é tão grande quanto parece, sobretudo nos mesmos círculos. Se encontramos uns aos outros, nos cumprimentamos, conversamos o necessário. Não existe hostilidade. — Celina fez uma pequena pausa. — Também não existe intimidade.
Helena assentiu lentamente.
— Deve ser estranho.
Celina pensou antes de responder.
— Já foi mais.
Décadas transformavam ausências em hábitos.
— Quando saí daquela igreja com Renato, eu sabia que algumas coisas mudariam. Talvez não soubesse exatamente quanto.
— E a família dele?
A pergunta fez a expressão de Celina mudar quase imediatamente.
— Maria Lúcia me acolheu.
Helena sorriu ao ouvir o nome, e Celina percebeu imediatamente que ela se lembrara das muitas histórias de Heitor sobre a avó.
— Muito?
Celina também sorriu.
— Como se eu já fosse dela. — a ternura na própria voz era impossível de esconder. — Ela não me fez sentir que eu tinha chegado trazendo um escândalo atrás de mim. Não me pediu explicações, não ficou me lembrando do que eu tinha feito, não me tratou como se esperasse que eu me arrependesse. Simplesmente me recebeu.
Celina baixou os olhos por um instante.
— E eu virei uma Monteiro.
Helena não respondeu imediatamente. Ficou olhando para ela de uma maneira que Celina não soube interpretar de início. Não parecia apenas surpresa. Havia alguma coisa mais quieta naquela expressão, uma atenção quase cuidadosa que a deixou estranhamente consciente do peso daquilo que acabara de dizer.
— A senhora nunca se arrependeu?
Celina olhou diretamente para ela.
— De Renato?
— É.
— Nunca. — nenhuma hesitação. — Nem nos momentos difíceis. Nem quando meus pais ainda estavam vivos e aquilo doía mais. Eu nunca olhei para Renato e pensei que teria escolhido diferente.
Helena sorriu.
— Dá para perceber.
Celina estreitou levemente os olhos.
— Como?
— Pelo jeito que vocês são juntos.
A resposta foi tão sincera que Celina perdeu qualquer vontade de se defender.
Helena continuou:
— O senhor Renato é muito fechado com todo mundo. Mas com a senhora ele é diferente.
Um pequeno calor subiu ao rosto de Celina.
— Renato sempre foi muito carinhoso comigo.
— É bonito.
Celina desviou os olhos.
Não estava acostumada a discutir o próprio casamento daquela forma.
E, de repente, percebeu o quanto já havia falado.
Pais.
Irmãos.
Maria Lúcia.
Coisas que raramente comentava até com amigas que conhecia havia décadas.
Sentiu-se excessivamente exposta.
— Não sei por que estou contando tudo isso.
A mudança na postura de Helena foi pequena, mas Celina percebeu. A nora pareceu compreender imediatamente que havia chegado a um limite.
— Não precisa continuar.
Celina olhou para ela.
Não havia cobrança na voz de Helena. Nem aquela curiosidade que às vezes fazia as pessoas dizerem que respeitavam um silêncio enquanto aguardavam claramente que ele fosse quebrado.
Depois de alguns segundos, porém, Helena acrescentou:
— Mas eu gostei de saber.
— Por quê?
Helena pensou antes de responder.
— Porque eu gostaria de conhecer a senhora melhor.
Celina permaneceu quieta.
— Você já me conhece.
— Conheço. — Helena sorriu de leve. — Mas conheço a senhora como mãe do Heitor, como avó do Humberto... conheço como é comigo agora. Não conheço muito de quem a senhora era antes.
Celina observava o rosto dela.
— E por que isso é importante?
Helena demorou pouco para responder.
— Porque eu gosto da senhora.
Celina não respondeu.
— E a senhora sabe praticamente tudo sobre mim. Sabe quem me criou, sabe da minha mãe, sabe de onde eu vim. Já me viu em momentos que eu gostaria que ninguém tivesse visto. — um sorriso pequeno apareceu. — Às vezes parece injusto eu nem saber que a senhora tinha irmãos.
Celina sentiu o peito apertar. Helena baixou os olhos por um instante antes de continuar:
— Não estou dizendo que a senhora tenha que me contar nada. Só... se algum dia quiser contar, eu gostaria de ouvir.
Aquilo era tão diferente das relações às quais Celina estava acostumada que a desarmou por alguns segundos.
Helena não queria arrancar nada. Não exigia intimidade em troca da própria.
Apenas lhe dizia que, se um dia Celina quisesse abrir aquela porta, encontraria alguém interessado do outro lado.
E talvez justamente por isso Celina sentisse uma vontade inesperada de abrir.
— Há algumas histórias que prefiro guardar.
— Eu entendo.
— E outras que talvez conte um dia.
O rosto de Helena se abriu num sorriso.
— Eu vou gostar.
Celina tentou recuperar um pouco da firmeza.
— Não se anime demais.
Helena riu baixinho.
— Está bom.
Por algum tempo ficaram em silêncio.
Celina ainda segurava a mão da nora e percebeu que as lágrimas haviam secado completamente. A conversa tinha começado por Humberto e por uma babá e, de algum modo, acabara levando as duas a uma parte da vida de Celina que ela jamais imaginara discutir naquela tarde.
Talvez aquilo também fosse uma forma de Helena entrar em seu mundo.
Não o mundo dos leilões, das fundações, das famílias antigas e das relações que Celina estava tão ansiosa para lhe ensinar.
Um mundo muito mais particular.
O dela.
Celina apertou suavemente os dedos da nora.
— Agora, quanto à babá...
A mudança no rosto de Helena foi discreta, mas a apreensão que havia diminuído durante a conversa pareceu retornar um pouco.
Celina percebeu imediatamente.
— Não vamos fazer nada que deixe você desconfortável.
— Eu sei que preciso tentar.
— Então tente. Não precisa conseguir amanhã.
Helena assentiu.
— Podemos conhecer as pessoas primeiro — continuou Celina. — Você conversa com elas, vê as referências, observa. Depois, se gostar de alguém, deixa que passe algum tempo com Humberto enquanto você está em casa.
— Sem eu sair?
— Evidentemente.
Os ombros de Helena pareceram relaxar um pouco.
— Eu acho que assim é melhor.
— Quando você estiver confortável, sai por pouco tempo. Meia hora. Uma hora. O que quiser.
Helena ficou alguns segundos pensando.
— E se eu demorar muito?
— Demore.
Ela ergueu os olhos.
— Mesmo?
— Helena, eu acabei de lhe contar que fiquei escondida num banheiro chorando porque deixei Heitor com uma mulher em quem confiava. Seria bastante incoerente exigir rapidez de você.
Helena sorriu.
— É verdade.
— Além disso, Humberto não está desamparado. Tem pais, avós e uma quantidade bastante grande de gente disposta a ajudar. A babá não precisa chegar porque você está sem saída. Pode chegar quando você estiver pronta.
Helena respirou fundo.
— Assim parece menos assustador.
— Ótimo.
Celina esperou um pouco antes de acrescentar, com cuidadosamente estudada casualidade:
— Eu consegui algumas referências.
Helena olhou para ela.
O silêncio durou dois segundos.
Então um pequeno sorriso surgiu.
— A senhora já estava procurando.
— Eu já tinha alguns contatos.
Pela expressão de Helena, Celina não identificou qualquer incômodo. Ao contrário, havia alguma coisa nela que pareceu finalmente mais tranquila diante da ideia.
— A senhora pode olhar comigo?
Celina sentiu uma alegria tão imediata que precisou tomar cuidado com o rosto.
— Posso.
— Porque eu realmente não sei o que olhar.
— Eu sei.
Helena soltou uma pequena risada.
— Isso eu imaginei. — Celina abriu um sorriso. — Então começamos quando você quiser.
— Pode ser hoje?
Por um segundo, Celina teve vontade de abraçá-la.
Controlou-se.
— Claro, querida.
E naquele instante percebeu que passara a manhã inteira esperando uma oportunidade de ajudar Helena a escolher uma babá.
Não imaginara que, antes disso, Helena lhe daria uma oportunidade muito mais rara.
A de deixar que a conhecesse também.
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