O CEO que Eu Paguei

263 Não Estar Em Todos Os Lugares


Heitor terminou aquele dia mais cedo do que vinha terminando os outros. Não porque faltasse trabalho, muito pelo contrário, mas porque percebeu que havia chegado ao ponto em que sua presença começava a atrapalhar mais do que ajudar. Compliance precisava investigar, o Jurídico precisava organizar o que já tinham, o Financeiro estava levantando documentos, a TI cruzava acessos e informações, e ele já havia feito perguntas suficientes para manter metade da empresa ocupada por algumas horas. Se continuasse andando de setor em setor atrás de respostas, acabaria pressionando as pessoas a lhe entregarem conclusões antes de terem certeza delas. Além disso, estava tão concentrado na fraude que começava a esquecer que a Monteiro Inc. continuava funcionando para além daquele problema. Havia obras, contratos, clientes, decisões da nova filial e centenas de outras coisas que não podiam simplesmente desaparecer porque Heitor Monteiro tinha decidido transformar uma investigação em questão pessoal.

Foi para a academia antes de voltar para casa. Precisava gastar energia de algum jeito e, principalmente, tirar o corpo de dentro do escritório, embora a cabeça continuasse lá. Entre uma série e outra, pensava no que ainda não fazia sentido. Quanto mais cavavam, mais apareciam pequenas coisas que, isoladamente, talvez não significassem nada, mas juntas começavam a revelar falhas que o incomodavam profundamente. Não era apenas descobrir quem tinha feito o quê. Era entender como aquilo havia conseguido acontecer dentro da empresa sem que os controles percebessem. Heitor sabia que encontrariam mais coisas. Na verdade, já começava a esperar por isso. E cada descoberta provavelmente apontaria para outra brecha, outro procedimento malfeito, outra confiança colocada no lugar de uma verificação. Não adiantava ficar furioso com cada falha individualmente. Seu trabalho agora era fazer perguntas para o sistema inteiro, inclusive as perguntas desagradáveis que poderiam terminar mostrando erros de pessoas em quem confiava, ou dele próprio.

Saiu da academia fisicamente cansado e mentalmente um pouco melhor. Tomou banho ali mesmo e dirigiu para casa decidido a não abrir o notebook assim que entrasse. Naquela noite queria fazer alguma coisa com Helena e Humberto. Nada elaborado. Talvez levá-los ao shopping, jantar fora, andar sem destino durante algum tempo e deixar sua maior preocupação ser Helena entrando em uma loja dizendo que só queria olhar e saindo vinte minutos depois com sacolas.

Assim que Heitor entrou em casa, ouviu o barulho apressado das unhas contra o piso antes mesmo de conseguir deixar as coisas sobre o aparador. Mel apareceu no corredor praticamente rebolando de tanta animação, a cauda indo de um lado para o outro com tanta força que parecia movimentar o corpo inteiro. Heitor abriu um sorriso imediatamente.

— Aí, sim! Alguém ficou feliz de me ver!

Mel veio direto para ele, esfregando o corpo em suas pernas enquanto Heitor passava as duas mãos por seu pelo. A golden levantava a cabeça, tentando alcançar seu rosto, e ele riu, agachando-se para abraçá-la de verdade. Enfiou o rosto por alguns segundos no pelo macio do pescoço dela e recebeu algumas lambidas completamente desorganizadas na lateral do rosto.

— Também tava com saudade de você, garota. Também tava.

Heitor se afastou apenas o suficiente para segurar o rosto dela entre as mãos. Mel continuava abanando a cauda, a língua para fora, satisfeita com toda aquela atenção.

— Agora me fala: cadê o resto da família? — perguntou naquela voz ridícula que só usava com ela e que jamais admitiria fazer se alguém comentasse.

Mel apenas inclinou ligeiramente a cabeça.

— Cadê a mamãe? Cadê o Humberto?

Como se realmente esperasse que a cachorra fosse buscá-los, Heitor levantou os olhos para o corredor.

Ninguém apareceu.

Ele ainda ficou esperando alguns segundos, acariciando distraidamente a cabeça de Mel, até estranhar. Normalmente, naquele horário, Helena estava por ali. Mesmo quando ficava em outro ambiente, bastava ele chegar para em pouco tempo ouvir sua voz ou vê-la aparecendo com Humberto. Naquele dia, porém, não havia sinal dos dois.

— Pô...

Levantou-se e começou a andar pela casa, com Mel seguindo seus passos. Olhou a sala, passou os olhos pelo jardim através das portas de vidro e seguiu mais um pouco, esperando encontrar Helena em algum lugar com Humberto. Nada.

Perguntou por eles a um dos funcionários e descobriu que ainda não tinham voltado.

Heitor pegou o celular quase imediatamente.

Helena atendeu depois de poucos toques.

— Oi, amor.

Só ouvir a voz dela fez um sorriso aparecer no rosto dele.

— Onde está minha família?

Helena riu.

— Boa tarde para você também.

— Boa tarde. Cheguei em casa, só encontrei a Mel e ninguém sabe me explicar onde minha mulher e meu filho foram parar.

— Estamos chegando. Calma.

— Está tudo bem?

— Está. Passei o dia com a sua mãe.

Heitor imediatamente se animou.

— Ah, é? E aí? Como foi?

— Foi ótimo. A gente conversou muito. — Helena soltou uma risadinha incrédula. — Eu não sabia que essa história de babá era tão complexa.

Heitor riu.

— Ih... Quero saber de tudo.

— Quando eu chegar te conto. Tem muita coisa.

— Quanto tempo?

— Uns quinze minutos.

— Tá. Vou esperar vocês. — Heitor começou a andar novamente pela sala, enquanto Mel o acompanhava. — E meu garoto? Como ele tá?

Helena riu antes de responder.

— Elétrico. Dormiu a tarde inteira.

— A tarde inteira?

— Praticamente.

Heitor abriu um sorriso.

— Então hoje ferrou.

— Exatamente. Está numa conversa aqui que você não tem ideia.

Como se tivesse escutado que falavam dele, Humberto soltou alguma coisa incompreensível ao fundo. Heitor riu.

— Tô doido pra ver ele. Bota no viva-voz, deixa eu falar com ele.

— Monteiro, a gente está chegando.

— Só queria conversar com meu moleque.

— Daqui a quinze minutos você conversa pessoalmente.

— Tá bom. — Ele aceitou, ainda sorrindo. — E minha mãe? Tá bem?

— Está muito bem. Eu adoro passar tempo com ela. A gente ficou conversando um tempão hoje.

Heitor ficou quieto por um instante, apenas sorrindo.

Havia alguma coisa naquela relação entre Helena e Celina que sempre mexia com ele. Talvez porque não fosse uma convivência educada construída apenas porque uma era sua mãe e a outra sua noiva. As duas realmente gostavam uma da outra. Helena procurava Celina sem precisar dele no meio, Celina tratava Helena com um carinho que ia muito além de tolerar a mulher escolhida pelo filho, e Heitor gostava profundamente de saber que duas mulheres mais importantes da sua vida haviam criado um vínculo que pertencia a elas.

— Fico feliz, amor.

— Eu sei.

— Então vem logo.

Helena riu e Heitor ouviu a risada do filho junto.

— Estamos indo.

— Te amo.

— Também te amo.

— Beijo.

— Beijo.

Heitor desligou.

Mel estava parada ao seu lado, olhando para ele.

Ele abaixou a mão e acariciou sua cabeça devagar, passando os dedos por trás das orelhas. Só então olhou ao redor.

Caralho, aquela casa era grande.

Sempre soubera disso, obviamente. Fora ele quem escolhera a propriedade, quem se encantara pelo tamanho do terreno, pela privacidade, pelo jardim enorme, pelos espaços que poderiam ser transformados em tudo que imaginasse. Seis hectares tinham parecido uma ideia maravilhosa quando comprara aquilo. Mas agora, parado ali apenas com Mel, Heitor precisava admitir que talvez tivesse se empolgado um pouquinho.

Sem Helena e Humberto, parecia haver espaço demais.

Sentia falta de Jonas andando pela casa como se fosse dele, abrindo a geladeira, aparecendo sem avisar e ocupando algum sofá. Sentia falta de Dona Olívia. Sentia falta do avô. Por algum tempo, aquela casa tivera tanta gente circulando que Heitor se acostumara com vozes vindo de lugares diferentes, gente se encontrando na cozinha, refeições cheias, conversas atravessando ambientes. Agora que algumas dessas pessoas já não estavam ali todos os dias, percebia o quanto gostava daquilo.

Talvez por isso cinco filhos continuassem lhe parecendo uma ideia excelente.

Heitor sorriu sozinho.

Conseguia imaginar perfeitamente aquela casa alguns anos no futuro. Humberto correndo por aqueles corredores com os irmãos, brinquedos espalhados onde não deveriam estar, crianças entrando e saindo do jardim, alguém chorando, outro gritando, Helena tentando descobrir quem tinha feito alguma coisa enquanto ele provavelmente protegia o culpado. Mal podia esperar para Humberto começar a engatinhar. Só de imaginar o filho descobrindo que podia sair atrás deles pela casa inteira, Heitor já achava graça.

Ele mesmo fora muito feliz na infância na mansão dos pais. Tinha lembranças maravilhosas daquele lugar, dos pais, dos avós, das pessoas que fizeram parte de sua criação. Mas existira uma coisa que desejara muitas vezes e nunca tivera: um irmão.

Durante anos, Jonas e Isaac acabaram ocupando parte daquele espaço. Talvez por isso os três tivessem se tornado tão próximos. Mas Heitor sabia que não era exatamente a mesma coisa.

Não queria que Humberto crescesse sozinho.

E não queria apenas dar um irmão ao filho. Queria uma família grande porque queria uma família grande. Queria olhar para uma mesa daqui a vinte anos e vê-la cheia de filhos falando ao mesmo tempo. Queria quebrar aquela hereditariedade dos Monteiro de ter um único filho, uma única criança carregando sozinha expectativas, patrimônio, nome e tudo mais que vinha junto.

Ainda estava feliz demais porque Helena aceitara ter outro.

Aquilo, por enquanto, já era uma vitória gigantesca.

Depois do segundo, conversariam.

Com calma.

Muita calma.

Heitor tinha certeza de que conseguiria convencê-la a aceitar pelo menos mais um. Cinco talvez exigisse uma capacidade de negociação que nem ele possuía, mas três lhe pareciam perfeitamente alcançáveis.

Só precisava ser inteligente.

Era uma estratégia de longo prazo.

Heitor ainda sorria com os próprios pensamentos quando Mel saiu correndo de repente em direção ao jardim.

— Caralho,ai aonde?

Ela desapareceu por alguns segundos e voltou triunfante com um graveto enorme atravessado na boca.

Heitor riu.

— Me dá isso aqui.

Foi até ela, pegou o graveto e lançou para o jardim. Mel disparou atrás dele como se aquela fosse a atividade mais importante de sua vida.

Heitor acabou indo para a entrada da casa e ficou por ali, jogando o graveto cada vez que ela voltava, olhando de tempos em tempos para o caminho por onde o carro apareceria.

Quinze minutos. Não era tanto tempo. Ainda assim, estava doido para ver os dois.

A luz dos faróis apareceu no começo da alameda e Heitor se animou na mesma hora. Mel também percebeu o carro se aproximando e começou a se agitar ao lado dele, olhando para a entrada, depois para Heitor, depois novamente para o carro, como se precisasse ter certeza de que ele também estava vendo aquilo.

— Calma aí. Espera o carro parar.

Heitor segurou Mel pela coleira enquanto o veículo se aproximava da entrada da casa. A cachorra mal conseguia manter as quatro patas no mesmo lugar, a cauda batendo de um lado para o outro, e ele ria enquanto tentava contê-la. Assim que o carro parou completamente, soltou.

— Agora vai.

Mel disparou.

Foi toda rebolante em direção ao carro, fazendo aquela festa exagerada que reservava às pessoas de quem gostava, e Heitor foi atrás com muito menos pressa, embora o sorriso em seu rosto denunciasse que a vontade era fazer praticamente a mesma coisa. Antes mesmo de chegar, ouviu Humberto lá dentro. O filho balbuciava alto, numa conversa animadíssima com alguém, e só aquele som fez alguma coisa gostosa se espalhar pelo peito de Heitor.

Abriu a porta traseira, Helena virou o rosto para ele e sorriu.

Heitor sorriu de volta, ficando alguns segundos apenas olhando para ela. Humberto estava preso à cadeirinha ao lado, mexendo as pernas com força ao reconhecer o pai e soltando sons cada vez mais altos, mas Helena já se inclinava para soltar o cinto do filho quando Heitor a interrompeu.

— Oi, amor — ela disse. — Deixa eu tirar ele daqui.

— Não.

Helena olhou para ele.

— Não?

— Quero meu abraço primeiro.

Ela olhou para Humberto, que continuava agitando as pernas, depois tornou a olhar para Heitor.

— Monteiro...

— Ele teve você o dia inteiro. Eu não.

Helena soltou um suspiro, mas o sorriso apareceu.

— Tá bom.

Heitor abriu espaço para ela sair e, assim que Helena colocou os dois pés no chão, puxou-a para si. Não foi um abraço rápido de chegada. Apertou-a de verdade, envolvendo seu corpo com os braços e sentindo Helena se acomodar imediatamente contra ele.

— Eu tava morrendo de saudade de você.

— Eu também estava.

Heitor afundou o rosto no pescoço dela e respirou fundo. Gostava tanto daquele cheiro que nem sabia mais dizer exatamente o que era perfume, creme, cabelo ou simplesmente Helena. Só sabia que reconheceria em qualquer lugar. Sentiu os dedos dela entrarem em seus cabelos, fazendo um carinho lento subindo pela nuca, e um arrepio correu por suas costas. Fechou os olhos por um instante, aproveitando.

Era impressionante como algumas horas podiam parecer dias quando sua cabeça passava tempo demais dentro da empresa.

Helena continuou fazendo carinho nele.

— Está tudo bem?

Heitor levantou um pouco o rosto.

— Tá.

— Mesmo? A gente quase não se falou hoje e você chegou cedo.

Havia preocupação nos olhos dela, e Heitor sorriu.

— Eu descobri onde estava a fraude.

Helena saiu dos braços dele tão depressa que Heitor levou um susto.

— Que foi? — disse ele confuso.

No segundo seguinte, ela praticamente pulou em seu pescoço.

Heitor riu e segurou Helena pela cintura, precisando firmar os pés quando ela se jogou contra ele. As pernas dela se prenderam ao redor de seu corpo por reflexo, e ele passou suas mãos por suas coxas para sustentá-la.

— Eu sabia! — Helena se afastou apenas o suficiente para olhar para ele. — Eu sabia que você ia conseguir!

O sorriso de Heitor aumentou.

Ela segurou o rosto dele entre as mãos.

— Eu falei que, se tivesse alguma coisa ali, você ia encontrar. Você é muito inteligente, Heitor. E quando coloca uma coisa na cabeça, você não descansa até entender. Você se esforçou muito nisso.

Heitor tentou receber aquilo com alguma dignidade.

Tentou.

Por dentro, seu ego já estava atravessando o teto da mansão.

Sentiu até o rosto esquentar um pouco e teve vontade de sorrir de um jeito completamente idiota, mas se controlou o máximo que conseguiu.

— Eu não podia decepcionar você.

A expressão de Helena mudou na mesma hora.

— Você nunca me decepciona.

Aquilo foi ainda melhor.

Heitor ficou olhando para ela, sentindo uma satisfação tão grande que nem sabia o que responder. Não era somente o elogio. Era Helena olhando para ele daquele jeito, com aquela certeza tranquila de quem realmente acreditava no homem que tinha à sua frente. Ele havia passado os últimos dias questionando como deixara aquilo acontecer dentro da própria empresa, revendo decisões, tentando descobrir onde os controles haviam falhado. Ouvir dela que confiava nele daquela maneira acertou justamente a parte que ele não vinha mostrando para ninguém.

Antes que conseguisse dizer alguma coisa, um choramingo indignado veio do carro.

Os dois olharam ao mesmo tempo.

Humberto tinha aparentemente chegado ao limite da paciência.

— Ah, pronto — Helena disse.

Heitor ainda a segurava. Ela deu dois tapinhas na mão dele, que permanecia firme em sua coxa.

— Pode me descer. O dever me chama.

— Ele aguenta mais um pouquinho.

Humberto reclamou mais alto.

— Não aguenta, não.

Heitor finalmente a colocou no chão. Helena mal havia ajeitado a roupa quando sentiu um tapa rápido na bunda.

Virou-se na mesma hora.

— Heitor!

Ele já estava com aquele sorriso de lado que a deixava ainda mais vermelha.

Helena baixou a voz.

— Todo mundo tá vendo!

— Helê, ninguém viu nada. — O jeito como falou não ajudou em absolutamente nada. Heitor ainda a olhou de cima a baixo, satisfeito demais consigo mesmo.

Helena apontou discretamente com os olhos para a frente do carro.

— O Carlos.

Heitor se aproximou dela, também diminuindo a voz.

— De lá não dá pra ver nada.

— Heitor...

Mel surgiu naquele momento exigindo a atenção que julgava merecer e começou a se esfregar nas pernas de Helena. Ela aproveitou imediatamente a distração e se abaixou um pouco para acariciar sua cabeça.

— Oi, meu amor. Pelo menos uma pessoa educada nessa casa.

— Beleza. Você fica com ela que eu vou pegar o outro neném.

Cumprimentou o motorista antes de se inclinar para Humberto.

— Fala, Carlos. Tudo certo?

O filho estava bravo.

Muito bravo.

O rostinho tinha ficado vermelho, o nariz franzido e ele resmungava numa sequência que parecia uma reclamação completa, embora ninguém além dele soubesse exatamente do quê.

Heitor sorriu.

— Fala, moleque! Que saudade que o papai tava de você!

Humberto franziu ainda mais o nariz.

Igualzinho a Helena.

Heitor quase derreteu ali mesmo.

— Não faz essa cara pra mim, não.

Soltou o cinto da cadeirinha e pegou o filho no colo. Humberto continuou resmungando, agarrando a camisa do pai enquanto parecia apresentar formalmente todas as suas reclamações.

— Calma aí, cara. O papai precisava de um momento com a mamãe.

Humberto respondeu com outro balbucio indignado.

— Eu sei. Um absurdo. Depois você reclama com ela também.

Heitor começou a beijar suas bochechas. Humberto ainda tentou sustentar a irritação, virando o rosto, mas Heitor esfregou o nariz em sua pele, fez barulho contra sua bochecha e deu mais uma sequência de beijinhos até o menino finalmente ceder.

O primeiro sorriso apareceu pequeno.

Depois veio outro.

— Aí! Sabia que você não ia ficar bravo comigo.

Humberto soltou um som alegre.

— Isso. Agora somos amigos de novo. — Heitor fechou a porta e olhou para Carlos. — Pode seguir, cara. Valeu. Eu assumo daqui.

— Claro, senhor Heitor. Boa noite.

— Boa noite.

O carro começou a se afastar enquanto Helena se aproximava. Ela pegou a mãozinha de Humberto e começou a brincar com seus dedos.

— Já esqueceu o escândalo?

O menino estava completamente transformado. Falava sem parar no colo do pai, sorridente, até perceber Mel logo abaixo. Seus olhos acompanharam a cachorra e as pernas começaram a se mexer imediatamente.

— Olha quem tá aqui — Heitor disse.

Mel se aproximou curiosa, e Humberto esticou uma das mãos na direção dela.

Os três ficaram algum tempo ali na entrada. Heitor agachou um pouco para aproximar Humberto de Mel, Helena segurou a mão do filho para que ele não arrancasse um tufo de pelo da cachorra e, durante alguns minutos, a grande descoberta daquele dia simplesmente deixou de ocupar o centro de sua cabeça.

Quando finalmente começaram a entrar, Helena passou o braço pelo dele.

— A gente tem que comemorar.

— O quê?

— Você ter encontrado a fraude.

Heitor olhou para ela.

— Verdade.

— O que você quer comer hoje?

Um sorriso lento apareceu no rosto dele.

— Você sabe.

Helena parou de andar, olhou para Heitor e estreitou os olhos.

— Eu estou falando de comida de verdade.

Heitor deu os ombros e fez uma expressão como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

— É muito injusto isso!

— O quê?

— Você pergunta o que eu quero, eu respondo o que eu quero e aí você simplesmente decide que minha escolha não vale.

Helena revirou os olhos.

— Meu Deus…

— Então não pergunta. Fala: “Heitor, escolha qualquer coisa dentro das opções que eu previamente aprovei”.

— Dramático.

— Eu só quero participar das decisões dessa família.

Helena começou a rir.

— Tá bom. Eu vi uma pizzaria nova no Instagram. Abriu há pouco tempo e as pizzas parecem deliciosas. A gente podia ir conhecer.

— Aí, sim. Excelente ideia. Eu já ia chamar vocês pra sair mesmo.

Humberto agarrou sua gravata naquele momento e puxou.

— Ei. Isso aqui não.

O bebê puxou novamente.

— Tá vendo? Nem meu filho respeita mais minha autoridade.

Ela riu e soltou a gravata dos dedinhos de Humberto.

— Então vamos nos arrumar. Vou dar banho nele.

— Eu dou.

Helena olhou para Heitor.

— Quer dar?

— Quero. Faz tempo que eu não dou banho nele por causa dos horários.

Aquilo era verdade. Nos últimos dias, Heitor saía cedo demais ou chegava tarde demais e algumas pequenas partes da rotina de Humberto tinham começado a acontecer sem ele. Não gostava disso. Sabia que era inevitável em alguns períodos, mas, sempre que podia, queria recuperar esses momentos.

Subiram juntos.

No banheiro, Heitor tirou a roupa até ficar de cueca e entrou debaixo do chuveiro com Humberto nos braços. O menino se animou assim que sentiu a água morna e começou a mexer o corpo inteiro.

— Isso aí é sangue carioca — Heitor disse, orgulhoso. — Gosta de água. Tá no DNA.

Helena, do lado de fora, riu.

— Ele gosta de banho, Heitor. Não significa que quer pegar onda no Arpoador.

— Ainda.

Humberto esticou a mãozinha para o jato. Tentou fechar os dedos ao redor da água e imediatamente abriu a mão, olhando para ela com uma expressão confusa.

Heitor começou a rir.

— Não dá pra pegar, cara.

Humberto tentou outra vez.

A água atravessou seus dedos.

Ele olhou para a própria mão, depois para o chuveiro e novamente para a mão, como se estivesse diante de um problema extremamente sério.

— Tá tentando entender a física da parada?

O bebê tentou mais uma vez.

Heitor beijou sua cabeça molhada.

— Relaxa. Daqui a pouco você descobre.

Depois do banho, entregou Humberto enrolado na toalha para Helena e permaneceu no banheiro para tomar o seu. Quando saiu, já encontrou o filho completamente vestido, deitado com uma das mãozinhas enfiada na boca e aparentemente muito satisfeito com a própria existência e Helena já tinha ido tomar um banho também.

— Vamos levar sua mãe pra passear hoje. Ela tá muito presa dentro de casa.

Humberto respondeu com uma sequência animada de sons, chutando o ar.

— Exatamente. Também acho.

Ele ficou um tempo sentado na casa conversando com o filho, até Helena terminar. Foi então terminar de se arrumar.

Heitor terminou de abotoar a camisa e estava diante do espelho ajeitando a gola quando ouviu um assobio vindo do closet.

Virou o rosto na mesma hora.

Helena estava encostada na entrada, olhando para ele.

Não para seu rosto.

Heitor acompanhou os olhos dela descendo pelo seu corpo e sentiu um sorriso aparecer devagar. Endireitou os ombros e estufou discretamente o peito, completamente satisfeito com a atenção.

— Tá olhando o quê, gatinha?

Helena levantou os olhos.

— Nada.

— Nada, é?

— Uhum.

Heitor virou o corpo de frente para ela.

— Gostou?

Ela riu ao perceber que ele estava se exibindo.

— Convencido.

— Não perguntei isso. — Heitor abriu um pouco os braços. — Gosta?

Helena continuou olhando para ele por mais alguns segundos.

— Amo.

Pronto.

Heitor sentiu o ego subir tão rápido que precisou morder o lado de dentro da bochecha para não abrir um sorriso ainda maior. Não respondeu. Não precisava. Apenas sustentou aquele olhar satisfeito enquanto terminava de ajeitar a bermuda. Puxou a camisa um pouco para cima, deixando a barriga à mostra, e imediatamente apareceu a tatuagem com o nome dela só lado, junto da faixa da cueca que escapava acima da bermuda.

Os olhos de Helena desceram outra vez.

Heitor viu.

Dessa vez o sorriso veio inteiro.

— Ah...

Helena levantou os olhos rapidamente.

— O quê?

— Nada.

Ele segurou a cintura da bermuda com uma das mãos e a desceu um pouco mais, sem nenhuma pressa, até deixar a cueca completamente à mostra.

Helena começou a rir na mesma hora.

— Heitor! — Ela levou a mão ao rosto, ainda rindo. — Você é muito bobo.

— Ué.

— Olha o que você tá fazendo!

— Você tava olhando.

— Eu estava olhando a tatuagem!

Heitor ergueu a camisa um pouco mais e olhou para o próprio abdômen como se estivesse analisando seriamente a justificativa.

— Sei.

— Estava!

— A tatuagem fica aqui. — Passou os dedos pelo próprio nome dela marcado na pele e então indicou, com toda a cara de pau, o volume na cueca. — Seu olho tava passeando bem mais pra baixo.

— Mentira.

— Helê, eu vi.

Ela começou a rir novamente, já vermelha.

— Sobe essa bermuda, Heitor.

Ele segurou a cintura dela, mas não fez nenhum movimento para obedecer.

— Se quiser, eu posso mostrar mais.

— Não!

A resposta saiu tão rápida que Heitor caiu na risada.

— Nem pensou.

— Porque eu sei exatamente o que você quer mostrar!

— Então não é falta de interesse.

— Heitor Monteiro!

Ele finalmente começou a subir a bermuda, ainda rindo.

— Tô só oferecendo um serviço pra minha mulher.

— Eu não solicitei serviço nenhum.

— Assobiou pro funcionário.

Helena ficou alguns segundos encarando-o antes de soltar outra gargalhada.

— Você é ridículo.

Heitor terminou de ajeitar a bermuda e foi até ela, já com aquele sorriso satisfeito que Helena conhecia muito bem.

— Mas você ama.

Ela colocou a mão em seu peito quando ele chegou perto.

— Infelizmente.

— Acabou de falar que ama.

— Estava falando do corpo.

Heitor parou, olhou para ela.

— Melhor ainda.

— Meu Deus...

Ele riu e passou um braço pela cintura dela, puxando-a para perto.

— Pode olhar à vontade, gatinha. É tudo seu mesmo.

Helena estreitou os olhos.

— Olha essa cara.

— Que cara?

— Essa aí.

— Não fiz nada.

— Parece um pavão.

Heitor riu.

— Minha mulher acabou de falar que ama. Quer que eu fique triste?

Helena balançou a cabeça e voltou para o closet.

Foi quando ela apareceu novamente alguns minutos depois que a brincadeira simplesmente saiu da cabeça dele.

Heitor parou.

Helena ainda ajeitava um detalhe da roupa e nem percebeu imediatamente que ele a observava. Quando percebeu, encontrou os olhos dele percorrendo seu corpo sem pressa.

— Que foi?

Heitor não respondeu.

Apenas foi até ela.

Helena já começou a sorrir antes mesmo que ele chegasse. Heitor passou uma mão por sua cintura e a outra encontrou seu quadril, puxando-a de uma vez contra ele.

— Heitor...

— Você tá linda. — a voz dele saiu mais baixa agora.

Helena colocou as mãos em seu peito.

— Obrigada.

Heitor ainda a olhou por um instante antes de abaixar o rosto e beijar sua bochecha. Depois passou o nariz devagar pela pele dela, chegando perto de sua orelha, enquanto a mão em sua cintura deslizava lentamente pelas costas.

Helena se arrepiou.

Ele percebeu. O sorriso surgiu contra a pele dela.

— Para — Helena murmurou, já sabendo exatamente o que aquele sorriso significava.

— Eu não fiz nada.

Heitor deu outro beijo, dessa vez próximo à mandíbula.

— Você tá fazendo.

— Tô te dando um beijo.

— Eu conheço seus beijos.

— Ainda bem.

Helena soltou uma risadinha, mas Heitor não a deixou se afastar. A mão que estava no quadril dela desceu, apertando sua bunda por cima da roupa e trazendo-a ainda mais para perto.

— Heitor!

— Que foi?

— A gente vai sair.

— Eu sei.

Ele beijou o canto da boca dela.

Helena tentou virar o rosto para não rir, e Heitor foi atrás, dando outro beijo em sua bochecha. Gostava daquilo. Gostava de sentir Helena em seus braços, do cheiro dela tão perto, da maneira como o corpo dela reagia antes mesmo que ela admitisse qualquer coisa. Passou a mão novamente pelas costas dela e a apertou contra si, aproveitando mais alguns segundos simplesmente porque podia.

— Amor...

— Hum?

— Eu ainda preciso terminar de me arrumar.

Heitor finalmente levantou o rosto.

— Já tá ótima assim.

— Para você, eu poderia sair de qualquer jeito.

Ele olhou para ela de cima a baixo.

— Dependendo do jeito, eu preferia que nem saísse.

Helena abriu a boca, indignada, e Heitor riu antes que ela conseguisse responder. Ela deu um tapa em seu peito.

— Safado.

— Você começou.

— Eu assobiei!

— Pois é. Mexeu comigo e agora quer sair impune.

Helena conseguiu escapar dos braços dele e passou ao seu lado em direção à cômoda.

Heitor acompanhou e, quando ela passou, deu um tapa firme em sua bunda.

Helena virou na hora.

— Heitor! Não faz isso!

Ele estava sorrindo.

— Você gosta.

— Não interessa!

Heitor se aproximou novamente, e Helena imediatamente apontou um dedo para ele.

— Nem vem.

Ele ignorou solenemente o aviso, segurou a mão que ela havia levantado e puxou Helena pela cintura outra vez. Ela acabou batendo contra seu peito, já rindo.

— Você não sabe ficar quieto?

— Com você andando desse jeito na minha frente?

— Eu estava andando normal!

— Então esse é o problema.

Helena tentou empurrá-lo pelo peito.

— Me solta, Monteiro.

— Dá um beijo.

— Não.

Heitor apertou mais os braços ao redor dela.

— Então vai ficar presa.

— Heitor!

— Um beijo.

Helena revirou os olhos, mas segurou seu rosto com as duas mãos e lhe deu um selinho rápido.

Heitor fez uma careta.

— Isso aí foi uma esmola.

— Era o que tinha.

— Quero direito.

— Você está muito folgado hoje.

Ele já estava inclinando o rosto novamente.

— Tava com saudade.

Dessa vez Helena não reclamou. Beijou-o com mais calma, e Heitor imediatamente levou uma mão até sua nuca, mantendo-a perto enquanto a outra continuava firme em sua cintura. Quando se afastaram, ele ainda deu dois beijos curtos nos lábios dela antes de finalmente soltá-la.

Helena respirou fundo e ajeitou a própria roupa.

— Pronto?

— Por enquanto.

— Deus me ajude.

Heitor riu e se virou para Humberto.

O menino estava no moisés, olhando para os dois com os olhos enormes.

— Não aprende com sua mãe, filho. Ela provoca e depois foge.

— Heitor!

Ele começou a rir.

— Helê!

— Oi?

— Vamos passar no shopping antes da pizzaria?

— Pra quê?

— Pra nada. Dar uma volta.

Helena apareceu novamente na entrada do closet, terminando de colocar um brinco.

— Você quer ir ao shopping sem querer comprar nada?

— Quero passear com a minha família.

Ela o observou por um instante e sorriu.

— Então vamos.

Heitor sorriu de volta.

Era exatamente aquilo que queria naquela noite.

Nada de planilhas, notas fiscais ou perguntas sem resposta por algumas horas. Só Helena, Humberto e alguma coisa absolutamente banal para fazer juntos.

Saíram de casa com Heitor dirigindo, mas, daquela vez, Helena não ocupou seu lugar habitual ao lado dele. Humberto estava elétrico desde que entrara no carro. Falava sem parar, mexia as pernas, puxava o brinquedo preso à cadeirinha e, a cada sinal vermelho, parecia genuinamente ofendido por continuar preso ali. Helena acabou indo no banco de trás com o filho, conversando com ele e tentando distraí-lo, enquanto Heitor vez ou outra olhava os dois pelo retrovisor.

Não demorou para Helena voltar ao assunto que tinha ficado pela metade.

— Agora me conta direito.

Heitor sorriu.

Sabia exatamente do que ela estava falando.

— Quer desde onde?

— Desde tudo. Como você descobriu?

E ele contou. Dessa vez sem resumir, sem tentar poupá-la dos detalhes técnicos e sem aquele cuidado que tivera por telefone. Explicou o que começara a chamar sua atenção nos lançamentos, os documentos que cruzaram, as informações que não combinavam, as perguntas que surgiram a partir dali e, finalmente, o ponto em que conseguiram enxergar por onde a fraude estava passando. Helena interrompia de vez em quando para perguntar alguma coisa, e Heitor gostava disso. Gostava principalmente quando ela entendia rápido e fazia uma pergunta que mostrava que estava acompanhando de verdade.

— Então vocês sabem como aconteceu — ela concluiu.

— Sabemos o caminho. Agora descobrir até onde foi, quem sabia, quem participou, quanto tempo durou e tudo mais é com o pessoal. Compliance, Jurídico, Auditoria... cada um vai fazer a parte deles. Eu vou acompanhar, lógico, mas preciso parar de querer fazer o trabalho de todo mundo.

— Finalmente.

Heitor olhou pelo retrovisor.

— Como assim “finalmente”?

— Você estava quase montando uma filial do Compliance dentro da sua sala.

— Eu estava ajudando.

— Você pediu quatro monitores.

— Isso não tem nada a ver.

Helena riu.

— Claro que não.

Heitor também sorriu.

— Agora eu preciso focar na nova filial. Já deixei coisa demais acumular por causa disso. A empresa não pode parar toda vez que aparece um problema.

— E você também não.

— Eu nunca paro, tu sabe disso.

Humberto soltou uma sequência alta de sons entre os dois, e Heitor olhou pelo retrovisor.

— Exatamente, filho. Finalmente alguém sensato nesse carro.

Quando chegaram ao shopping, não tinham pressa nem exatamente um plano. Era justamente o que Heitor queria. Andaram pelos corredores olhando vitrines, parando onde alguma coisa chamava atenção, enquanto Humberto observava aquele excesso de luzes, pessoas e movimentos com olhos curiosos.

Helena já não tinha mais qualquer constrangimento em sair de chinelo.

Heitor havia acompanhado aquela transformação com enorme satisfação. No começo, ela parecia considerar quase um crime sair daquele jeito para determinados lugares; naquela altura, já tinha entendido perfeitamente uma das grandes vantagens de morar no Rio: vestuário confortável.

Ele olhou para os pés dela enquanto caminhavam.

— Tá precisando de uma Havaianas nova?

Helena olhou para baixo.

— Essa está nova.

— Essa já tem tempo.

— Tem nada.

— Tem, sim. Faz mó tempão que não compro uma pra você.

Aquilo tinha se tornado uma pequena tradição entre os dois. Sempre que aparecia alguma coleção nova que Heitor achava a cara dela, acabava comprando um par com algum pingente que jurava combinar perfeitamente com Helena.

— Quando lançar coleção nova, a gente compra — ela decidiu.

— Fechou.

Continuaram andando até Humberto decidir que o carrinho havia se tornado uma afronta pessoal.

Primeiro resmungou, depois reclamou. Então começou a se esticar de um jeito tão indignado que Heitor desistiu.

— Vem cá, cara.

Pegou o filho no colo, e a revolta terminou quase instantaneamente.

— Ah, é isso? — Heitor perguntou. — Era só querer colo?

Humberto agarrou sua camisa e começou a olhar ao redor, satisfeito.

— Mal-acostumado — Helena comentou, sorrindo para o bebê.

— Ele sabe o que é bom.

Foi com Humberto no colo que passaram diante de uma loja de bebês.

Heitor diminuiu o passo.

Helena percebeu.

— Não.

— Eu nem falei nada.

— Conheço você.

— Só vamos olhar.

— Foi exatamente isso que você falou da última vez.

Entraram.

Heitor não entendia como alguém conseguia passar por aquelas roupas minúsculas sem querer levar metade. Pegou uma camisa pequena, depois um conjuntinho, depois encontrou uma calça que jurou que ficaria perfeita em Humberto. Helena não ajudava em absolutamente nada porque bastava encontrar alguma peça particularmente bonita para fazer aquela expressão apaixonada.

— Amor, olha isso.

Heitor olhava.

— Leva.

— Ele já tem roupa demais.

— Essa ele não tem.

— É uma camiseta branca.

— Não essa camiseta branca.

No fim, saíram carregando sacolas suficientes para destruir qualquer argumento de que haviam entrado apenas para olhar.

— A culpa foi sua — Heitor disse.

Helena parou.

— Minha?!

— Você ficou mostrando as coisas.

— Você comprou aquela jaqueta sem nem me perguntar!

— Porque tava bonita.

— E dois conjuntos iguais em tamanhos diferentes.

— Pra quando ele crescer.

— Heitor, ele tem roupa até quase um ano!

— Então tá resolvido.

Helena começou a rir e ele passou o braço por sua cintura enquanto continuavam andando.

Depois de algum tempo, pararam na praça de alimentação e dividiram um milk-shake. Heitor estava com Humberto no colo e tentou aproximar o canudo da boca do filho apenas para provocá-lo, recebendo imediatamente uma bronca de Helena.

— Nem inventa.

— Só estava mostrando.

— Ele não precisa conhecer milk-shake agora.

— Vai conhecer um dia.

— Hoje não.

Humberto começou a reclamar pouco depois e Helena reconheceu rapidamente o que ele queria. Procuraram um lugar mais reservado para ela amamentá-lo, e Heitor se sentou ao lado.

Helena se cobria muito bem. Ele sabia disso. Sabia também que não havia absolutamente nada demais no que ela estava fazendo. Ainda assim, seus olhos passearam pelo ambiente pela terceira vez.

Helena percebeu.

— Para.

— O quê?

— De ficar olhando pros lados.

— Tô olhando o movimento.

— Você está fiscalizando as pessoas.

— Não estou.

Helena lhe lançou um olhar. Heitor aproximou-se um pouco mais.

— Só tem muito engraçadinho no mundo.

— Ninguém está vendo nada.

— Eu sei.

— Então?

Heitor deu de ombros.

Não queria nem imaginar algum sujeito olhando para Helena naquele momento. Era um ciúme que ele próprio sabia ser irracional, principalmente porque ela estava tão bem coberta que mal se via o rosto de Humberto.

— Você é impossível — Helena murmurou.

— Só estou aqui quietinho.

Ela balançou a cabeça, mas sorriu. Quando Humberto terminou, voltaram a andar, e Heitor se lembrou de outra coisa.

— Quero comprar pijama.

— Compra.

— Pra nós três.

Helena olhou para ele.

— Não.

— Por quê?

— Heitor, não.

— Qual é o problema?

— Pijama combinando?

— Sim.

— Nós três iguais?

— Essa normalmente é a ideia de combinar.

Helena ficou visivelmente constrangida só de imaginar.

— Isso é muito brega.

— Vai ficar maneiro.

— Não vai.

— Vai, sim. Principalmente eu e o Humberto.

— Você quer mesmo fazer isso?

— Quero.

No final, Helena foi.

E, como Heitor já esperava, quinze minutos depois era ela quem estava mais envolvida na escolha.

— Esse não.

— Você falou que era brega.

— Continua sendo. Mas esse desenho é feio.

— Ah.

— Olha aquele.

Heitor começou a rir.

— Não era você que não queria?

— Já que vamos comprar, vamos comprar um bonito.

Acabaram encontrando um conjunto que tinha versões para os três, e a resistência de Helena praticamente desapareceu quando ela colocou lado a lado a peça de Heitor e a minúscula de Humberto.

— Meu Deus!

— O quê?

— Vocês vão ficar iguais!

Heitor abriu um sorriso.

— Foi o que eu falei.

— Vai ficar muito bonitinho.

— Eu ou ele?

— O Humberto.

— Sacanagem.

Helena riu.

Heitor estava distraído olhando outra opção quando sentiu a mão dela tocar discretamente sua parte íntima por cima da roupa, escondida pela bancada. Não foi apenas um roçar. Os dedos de Helena se demoraram por um instante e apertaram de leve antes de ela retirar a mão como se absolutamente nada tivesse acontecido.

Heitor parou no meio do movimento, ficou imóvel por um segundo e depois virou o rosto bem devagar.

Helena já estava examinando um dos pijamas, segurando o tecido entre os dedos com uma concentração tão exagerada que chegava a ser ofensiva.

Heitor estreitou os olhos.

— Helê.

— O quê?

Ela nem olhou para ele. Heitor continuou encarando-a.

— Que foi? — ela perguntou, ainda muito interessada no pijama.

— Você sabe.

— Sei o quê?

Agora ela olhou. A expressão era inocente. Os olhos, nem um pouco.

Heitor soltou uma risada baixa e aproximou-se dela.

— Você apertou e vai fingir que não fez nada?

Helena imediatamente olhou ao redor.

— Fala baixo!

— Ah, então sabe, né.

— Heitor!

Ele sorriu ainda mais. Helena ficou vermelha e voltou a atenção para a roupa nas próprias mãos, tentando encerrar o assunto.

— Se comporta.

Heitor chegou um pouco mais perto.

— Eu?

— Você.

— Coração, eu tava quietinho escolhendo pijama.

Helena mordeu o sorriso.

— Continua escolhendo.

Heitor inclinou o rosto até falar perto do ouvido dela.

— Você faz isso comigo no meio de uma loja e quem tem que se comportar sou eu?

Helena virou o rosto para ele, ainda corada.

— Foi só um carinho.

Heitor arqueou as sobrancelhas.

— Ah, foi?

Ela não conseguiu sustentar a própria expressão e começou a rir.

Heitor também riu, mas passou a mão discretamente pela cintura dela ao se afastar.

— Tá bom. Guarda essa coragem toda.

— Por quê?

Ele pegou outro pijama do expositor e analisou a estampa como se a conversa tivesse acabado.

— Porque quando a gente chegar em casa eu quero ver se você continua valente assim.

Helena ficou olhando para ele por um instante.

— Convencido.

— Você que apertou.

— Para de falar isso!

Heitor riu.

De repente, escolher pijamas combinando tinha se tornado uma atividade muito mais interessante.

A pizzaria ficava um pouco distante do shopping, mas Heitor não se importou. Humberto finalmente havia apagado no banco de trás depois de toda a agitação daquela tarde, e o carro seguia tranquilo pelas ruas, com a música baixa o bastante para não acordá-lo. Helena estava ao lado dele novamente. Heitor dirigia com uma das mãos no volante e mantinha a outra sobre a coxa dela, acariciando distraidamente com o polegar enquanto ouvia sobre o dia que ela havia passado com Celina.

— Eu não sabia que essa história de babá era tão complexa — Helena comentou, olhando para a rua.

Heitor riu.

— Minha mãe te assustou?

— Um pouco. — Ela sorriu de leve. — Mas ela é muito boa nisso. Parece que está contratando alguém para um cargo executivo.

— Conhecendo minha mãe, deve ter feito até análise de risco.

— Quase isso. Ela perguntou umas coisas que nem tinham passado pela minha cabeça. Fora que ela conhece um monte de gente.

Heitor continuou sorrindo. Para ele, aquilo era completamente normal. Desde que Helena comentara que queria voltar para a empresa, contratar uma babá havia entrado mentalmente na mesma categoria de qualquer outra providência necessária para organizar a nova rotina. Alguém de confiança ficaria com Humberto durante as horas em que os dois estivessem trabalhando. Ele próprio crescera assim. Tivera Dona Cleuza durante boa parte da infância, guardava lembranças maravilhosas dela e jamais havia enxergado sua presença como alguma coisa que diminuísse Celina em sua vida.

— Ela separou cinco mulheres — Helena continuou. — Todas já passaram pela agência, têm experiência, referências... algumas já trabalharam anos com a mesma família. Sua mãe acha que agora a gente deveria conversar com as cinco.

— Excelente.

Helena virou o rosto para ele.

— Excelente?

— Ué. Minha mãe já eliminou todo mundo que podia aparecer com referência duvidosa. Investigou e selecionou. Sobrou a final do campeonato.

Helena soltou uma pequena risada.

— Ela também falou da adaptação. No começo, a babá ficaria comigo e com o Humberto. Não é para eu simplesmente entregar ele para uma pessoa que ele nunca viu e ir embora. Ela vai acompanhar nossa rotina, ver como eu faço as coisas, aprender os horários dele, ficar perto de mim... Depois eu posso começar a deixar os dois sozinhos por períodos pequenos. Uma hora, duas... e vou aumentando conforme eu me sentir segura.

— Achei ótimo.

Heitor realmente achara. Na cabeça dele, aquilo resolvia praticamente todas as dificuldades que poderiam existir. Humberto teria tempo para conhecer a pessoa, Helena ganharia confiança e ninguém precisaria transformar a volta dela ao trabalho numa mudança brusca.

— Marca uma por dia — sugeriu. — Pra não ficar cansativo. Você escolhe os dias e os horários e passa pra Verônica. Ela ajeita a minha agenda.

Helena não respondeu.

Heitor continuou dirigindo e, durante alguns segundos, nem percebeu nada de estranho. Sua mão continuava sobre a coxa dela, e ele já pensava que poderiam fazer as entrevistas no final da tarde, talvez naquela mesma semana, quando sentiu Helena soltar o ar devagar.

Olhou rapidamente para ela.

Helena estava virada para a janela.

— Amor?

— Hum?

— Tá tudo bem?

— Tá…

Heitor olhou novamente para a pista.

— Não tá, não.

— Tá sim.

Ele apertou de leve a coxa dela.

— Helê, eu conheço essa carinha.

Ela continuou olhando para fora.

Heitor esperou.

— Eu não sei... — disse finalmente. — Acho que estou com medo.

O tom dela fez Heitor perder o sorriso.

— Da pessoa que a gente contratar?

— Não.

Ele esperou outra vez.

— De voltar a trabalhar.

Aquilo o surpreendeu.

— Mas você não precisa voltar agora.

Helena finalmente olhou para ele.

— Eu quero voltar.

— Eu sei. Mas não tem prazo, amor.

— Eu quero voltar para a empresa — Helena disse, mais baixo. — Quero trabalhar com você. Quero ter meus projetos, quero crescer. Quando fiquei trabalhando de casa, eu não sentia que estava conseguindo fazer isso. Eu estava trabalhando, mas não estava lá. Não participava das coisas do mesmo jeito.

— Então vai estar.

— Mas eu também quero ficar com ele.

Heitor olhou rapidamente para trás. Humberto continuava dormindo profundamente na cadeirinha, com a cabeça levemente caída para o lado.

— Uma coisa não tira a outra.

Helena voltou a olhar pela janela.

— Eu sei.

Mas ela não parecia saber. Ou, pelo menos, não parecia sentir aquilo.

Heitor tirou a mão da coxa dela e procurou sua mão. Helena deixou que ele entrelaçasse os dedos nos seus, mas permaneceu olhando para fora.

— Você pode fazer do jeito que quiser — ele disse. — Não precisa decidir tudo agora.

— Não é isso…

Heitor ficou quieto. Havia alguma coisa ali que ele ainda não estava alcançando.

— Então me explica.

Helena apertou seus dedos.

— Tenho medo de não ser presente.

Heitor franziu o cenho.

— Você?

A resposta escapou antes mesmo que pensasse. Parecia impossível.

— Amor, você é a pessoa mais presente na vida desse menino.

— Agora.

— E depois também.

— Você não sabe.

Heitor olhou para ela rapidamente.

Helena passou a língua pelos lábios e respirou fundo. Os olhos continuavam presos à janela. Heitor percebeu o brilho neles quando passaram sob a iluminação da rua.

Ela estava segurando o choro.

Aquela constatação finalmente fez alguma coisa dentro dele mudar.

Ainda assim, Heitor não tinha entendido completamente.

— Helê, uma mãe trabalhar é normal. — Sua voz saiu mais cuidadosa. — Minha mãe trabalhava, saía, tinha a vida dela. Eu cresci com a Dona Cleuza e adorava aquela mulher. Ela cuidou de mim durante anos. Eu ficava com ela, brincava com ela, ela sabia um monte de coisa sobre mim... mas nunca confundi as duas. Minha mãe era minha mãe.

Helena fechou os olhos por um instante.

Heitor continuou, achando que talvez aquela fosse justamente a lembrança de que ela precisava.

— Eu lembro da Cleuza com um carinho absurdo, mas quando minha mãe chegava, era diferente. Era a minha mãe chegando. Eu queria contar as coisas pra ela, queria ficar perto dela. Os momentos que eu tinha com ela eram...

— Eu não tive isso.

Heitor parou.

Helena falou tão baixo que, por um instante, ele só ouviu porque o carro estava silencioso.

Ela continuou olhando pela janela.

— Eu não quero que o Humberto se sinta como eu me sentia.

Foi naquele momento que ele entendeu que havia muito mais naquela conversa do que imaginara.

Heitor sentiu o peito apertar e, de repente, toda aquela conversa sobre agências, entrevistas, referências e períodos de adaptação pareceu pequena demais.

Aquilo não era sobre uma babá.

Era sobre Lorena.

Ele conhecia aquela dor. Talvez jamais pudesse senti-la exatamente como Helena sentia, mas conhecia as marcas que havia deixado. Conhecia as vezes em que ela tentara fingir que não se importava, a raiva que vinha misturada à vontade infantil de ainda ser escolhida, o quanto a aproximação recente com a mãe não apagava os anos anteriores.

Heitor diminuiu um pouco a velocidade.

Não soltou a mão dela.

— Amor...

Helena piscou algumas vezes, ainda olhando para fora.

— Eu sei que parece idiota.

— Não parece.

Ela finalmente virou o rosto para ele.

Havia lágrimas acumuladas em seus olhos, mas Helena ainda fazia força para não deixá-las cair.

— Eu só... — Ela respirou fundo. — Eu não quero que um dia ele esteja com outra pessoa e fique esperando por mim. Não quero que alguém descubra as coisas dele antes de mim e depois venha me contar. Não quero que ele precise de mim e eu não esteja lá. Não quero que ele ache que meu trabalho é mais importante do que ele.

Heitor sentiu os dedos dela apertarem os seus.

— Eu sei que não é a mesma coisa — Helena continuou rapidamente, como se precisasse se defender da própria comparação. — Eu sei que eu vou voltar para casa. Sei que é diferente. Mas eu fico pensando nisso e...

A voz falhou.

Heitor apertou sua mão.

Por alguns segundos, não disse nada.

Agora entendia de onde vinha o medo, mas havia alguma coisa naquela reação de Helena que ainda parecia maior do que a própria decisão de voltar ao trabalho.

— A gente não precisa escolher nenhuma das cinco agora.

— Heitor...

— Estou falando sério. A gente entrevista. Você conhece. Não precisa decidir nada hoje.

Helena limpou rapidamente uma lágrima que havia escapado.

— E se eu não conseguir?

Heitor olhou para ela por um instante antes de voltar os olhos para a pista.

— A gente descobre.

Ela apertou sua mão novamente.

Heitor não tentou dizer mais nada.

Continuou dirigindo com uma mão e segurando a dela com a outra enquanto o silêncio se instalava no carro.

Humberto dormia no banco de trás, completamente alheio à conversa dos pais, a chupeta mexendo de tempos em tempos e uma das mãozinhas descansando próxima ao rosto.

Helena olhou para ele pelo retrovisor. Depois voltou os olhos para a janela. Heitor sentiu os dedos dela permanecerem presos aos seus durante todo o restante do caminho.

Quando entraram no estacionamento da pizzaria, Heitor não procurou uma vaga perto da entrada. Seguiu até uma parte mais afastada, onde havia menos carros, estacionou e desligou o motor. O silêncio tomou conta do interior do carro quase imediatamente. Humberto continuava dormindo no banco de trás, a cabecinha levemente tombada para o lado, completamente alheio à conversa dos pais, e por alguns segundos Heitor apenas permaneceu ali, ainda segurando a mão de Helena sobre sua coxa.

Ela continuava olhando pela janela.

Desde que começara a falar da mãe, quase não havia olhado para ele.

Heitor observou seu perfil em silêncio. Helena respirou fundo uma vez, depois outra, como se estivesse tentando empurrar de volta para algum lugar tudo aquilo que havia escapado durante o caminho. Passou rapidamente o dedo abaixo de um dos olhos quando uma lágrima desceu e ajeitou o cabelo logo depois, num gesto quase automático de quem queria fingir que nada tinha acontecido.

— Vamos? — perguntou baixo.

Heitor não se mexeu.

— Vem cá.

— Eu tô bem.

— Eu sei. — Apertou de leve os dedos dela. — Vem cá mesmo assim.

Soltou o próprio cinto e se inclinou em sua direção. Helena ainda tentou sorrir, talvez dizer alguma coisa, mas Heitor passou um braço por suas costas e a puxou para ele antes. Ela resistiu por menos de um segundo.

Depois desabou em seus braços.

Heitor sentiu o rosto dela se esconder contra seu peito e a abraçou com força, encaixando uma das mãos em sua nuca. O primeiro soluço saiu tão abafado contra sua camisa que quase pareceu uma tentativa de escondê-lo.

Ele fechou os olhos.

Aquilo sempre acabava com ele.

Helena chorava como fazia quase tudo que a deixava vulnerável: tentando ocupar o menor espaço possível. Prendia a respiração para conter os soluços, apertava os dedos contra a camisa dele, escondia o rosto como se até a dor precisasse ser discreta. Heitor passou lentamente a mão pelos cabelos dela, da nuca até as pontas, voltou e repetiu o movimento.

— Não segura, amor.

Foi como se tivesse dado permissão para alguma coisa que Helena estava tentando impedir havia muito tempo.

Ela apertou a camisa dele e chorou de verdade.

Heitor a envolveu com os dois braços. Deu um beijo demorado no alto de sua cabeça e ficou ali, sentindo cada tremor do corpo dela contra o seu, com aquela impotência que ele odiava mais do que quase qualquer outra coisa.

Porque conhecia aquela história.

Conhecia muito mais do que os fatos.

Sabia que Helena havia sido profundamente amada. Dona Olívia e o avô tinham feito dela o centro da vida dos dois. Nunca lhe faltara casa, cuidado, proteção ou alguém esperando que voltasse. E Heitor sabia, principalmente, o tamanho do avô naquela história. Helena não falava dele apenas como avô. Quando contava sua infância, era ele quem aparecia nos lugares onde normalmente apareceria um pai: buscando, protegendo, ensinando, impondo limites, fazendo graça, dando segurança. A morte dele ainda morava nela de um jeito diferente de qualquer outra perda.

Helena tivera uma família.

Tivera amor.

Talvez justamente por isso aquela ferida fosse tão difícil de explicar.

Porque nada do que os avós fizeram conseguira matar a esperança infantil de que, algum dia, a mãe voltaria.

E ela tinha esperado.

Heitor sabia disso.

Por anos, Helena encontrara maneiras diferentes de esperar por uma mulher que continuava vivendo em algum lugar sem ela. Quando criança, não tinha a maturidade necessária para compreender as escolhas de um adulto. Só sabia que outras crianças tinham mães e ela não. Só sabia que existia alguém que deveria querer voltar.

E Lorena nunca voltou.

Não quando Helena ainda era pequena.

Não quando cresceu um pouco.

Não quando já tinha idade suficiente para começar a fingir que não esperava mais.

A vida tinha seguido até colocar as duas frente a frente muitos anos depois, adultas, cercadas por verdades que Helena jamais imaginara descobrir. Desde então ela vinha tentando lidar com aquilo, inclusive com ajuda profissional, tentando separar a mulher que conhecia hoje da mãe que esperara durante toda a infância.

Mas Heitor sabia que conhecer as razões de Lorena não devolvia os anos. E havia ainda outra crueldade naquela história.

Helena parecia com ela.

Dona Olívia fizera aquela comparação tantas vezes que Heitor sabia o quanto isso tinha ficado entranhado nela. Havia diferenças, claro, mas fisicamente Helena carregava no próprio rosto traços da mulher que passara a vida esperando.

Heitor imaginou quantas vezes Helena devia ter se olhado no espelho depois de descobrir toda a verdade e procurado Lorena em si mesma.

Talvez fosse exatamente por isso que a ideia de uma babá tivesse encontrado um lugar tão dolorido.

Não era a babá.

Nunca tinha sido.

Era o medo de Humberto esperar por ela.

Era o medo de algum dia o filho olhar para outra mulher quando precisasse de colo porque Helena não estava ali.

Era o medo absurdo, injusto, mas profundamente real, de carregar dentro de si alguma coisa da mãe que fosse além dos olhos, do rosto ou de qualquer outra semelhança que Dona Olívia apontara durante anos.

Heitor apertou Helena um pouco mais.

Seu peito doía.

Ele queria voltar no tempo.

Era uma vontade impossível e quase infantil, mas queria.

Queria conhecer aquela Helena pequena. Queria entrar na casa dos avós dela muitos anos antes, encontrá-la em algum daqueles dias em que ainda acreditava que a mãe apareceria e dizer que ela podia parar de esperar. Que não havia nada de errado com ela. Que não precisava ser mais boazinha, mais inteligente, mais quieta, mais bonita ou qualquer coisa que uma criança pudesse imaginar que faria uma mãe querer voltar.

Queria ter conhecido o avô dela também.

Às vezes sentia que devia alguma coisa àquele homem que nunca encontrara. O avô tinha cuidado da pessoa que agora era o centro da vida de Heitor. Tinha amado Helena quando ele sequer sabia que ela existia. Tinha estado ali em anos que Heitor jamais poderia alcançar.

Mas nem todo o amor dos avós havia conseguido impedir aquela menina de olhar para a porta.

E Heitor não podia fazer absolutamente nada por ela.

Podia proteger a mulher em seus braços hoje. Podia enfrentar quem a machucasse, podia cuidar dela, construir uma casa com ela, criar Humberto ao seu lado, envelhecer com ela se a vida permitisse.

Mas não podia voltar.

Não podia pegar aquela menina no colo.

Não podia fazer Lorena voltar.

Não podia impedir Helena de descobrir cedo demais que alguém podia amar uma pessoa e, ainda assim, não ficar.

Heitor sentiu os próprios olhos arderem e beijou novamente os cabelos dela.

— Eu te amo tanto, Helê.

Ela continuou chorando contra seu peito.

— Você é a pessoa mais importante da minha vida. Você sabe disso, né?

Helena assentiu sem levantar o rosto. Heitor passou a mão lentamente por suas costas.

— Eu queria muito que você nunca tivesse passado por isso.

O corpo dela estremeceu.

— Queria mesmo. Queria que alguém tivesse conseguido te poupar disso tudo. E eu sei que não adianta falar que passou, porque não passou. — Ele respirou fundo. — Não passa só porque você cresceu.

Helena segurou sua camisa com mais força.

— Eu não entendo por que ainda dói tanto — conseguiu dizer. — Faz tanto tempo.

Heitor afastou apenas o suficiente para enxergar uma parte de seu rosto. Passou os dedos delicadamente por seus cabelos, tirando algumas mechas que tinham grudado na bochecha molhada.

— Porque você esperou por ela, amor.

Helena fechou os olhos.

Heitor percebeu imediatamente que havia acertado justamente onde doía.

— Você era uma criança — continuou baixo. — Você não entendia por que ela não voltava. Acho que uma parte sua ficou esperando mesmo depois que você aprendeu a dizer que não precisava mais.

O rosto de Helena se desfez. Ela cobriu os olhos com a mão.

— Eu esperava mesmo.

A voz saiu tão pequena que Heitor sentiu alguma coisa se partir dentro dele.

— Eu sei.

— Por muito tempo.

Heitor puxou a mão dela para baixo e entrelaçou seus dedos.

Helena respirou de forma trêmula.

— Eu achava que um dia ela ia aparecer. — As lágrimas continuavam descendo. — Quando eu era pequena, eu pensava que talvez ela só não pudesse voltar ainda. Depois eu fui crescendo e... sei lá. Comecei a entender que ela podia. Ela só não vinha.

Heitor não encontrou nada que pudesse responder àquilo.

Então não tentou.

Apenas segurou sua mão.

Helena olhou para os dedos dos dois entrelaçados.

— E eu amava meus avós. Deus, eu amava tanto eles. — A voz falhou novamente. — Meu avô era tudo pra mim, Heitor. Tudo. Ele nunca deixou faltar nada. Minha avó também não. Eu tive uma infância boa. Eu fui amada. Então às vezes parece tão injusto eu ainda sentir isso... como se o amor deles não tivesse sido suficiente.

— Não fala isso. — Heitor disse tão baixo que Helena finalmente olhou para ele. — Não faz isso com você, Helê. Não transforma uma dor em culpa.

Ela chorava em silêncio.

— Seus avós te amarem não tinha como apagar o fato de que você queria sua mãe. Não era função deles apagar isso. Eles fizeram outra coisa. Eles ficaram.

A boca de Helena tremeu.

— Seu avô ficou. Sua avó ficou. Todos os dias. E você amar os dois desse jeito não significa que não podia olhar pra porta esperando mais alguém entrar.

Helena voltou a esconder o rosto no peito dele.

Heitor a abraçou imediatamente.

Ficaram alguns segundos em silêncio, até Helena falar novamente:

— Minha avó dizia tanto que eu parecia com ela.

Heitor fechou os olhos.

Ali estava.

— Eu sei.

— Desde pequena. Que eu tinha o jeito dela, o rosto dela... depois que eu descobri quem ela era, eu comecei a perceber também. — Helena puxou o ar. — Às vezes eu me olho e vejo ela.

Heitor passou a mão pela nuca dela.

— Amor...

— E se não for só o rosto?

A pergunta quase não teve som.

Heitor ficou imóvel.

Agora entendia completamente.

Helena se afastou um pouco, mas não conseguiu encará-lo.

— E se tiver alguma coisa dela em mim que eu não percebo? E se eu começar a trabalhar, começar a querer crescer, ficar ocupada... e um dia eu perceber que o Humberto cresceu e eu não estava lá?

— Helena.

— Eu sei que parece exagero.

— Não parece.

Ela finalmente olhou para ele. Heitor segurou seu rosto entre as mãos.

— Olha pra mim.

Helena tentou baixar os olhos novamente, mas ele acariciou suas bochechas com os polegares.

— Você não é a Lorena.

Ela fechou os olhos.

— Eu sei.

— Não. Escuta o que eu tô falando. Você pode ter o rosto parecido. Pode ter o olho, o nariz, o jeito de fazer alguma coisa, o que for. Você continua não sendo ela.

Uma lágrima escorreu e Heitor a secou.

— Ela fez escolhas que te machucaram. Isso aconteceu. E você não precisa fingir que não aconteceu só porque hoje consegue entender melhor quem ela é. E trabalhar não é abandonar o Humberto.

Heitor passou os dedos pelos cabelos dela.

— Vou te falar de novo, porque quero que tenha isso em mente. Se você quiser ficar em casa com ele, eu vou te apoiar. Se quiser trabalhar meio período, vou te apoiar. Se quiser voltar pra Monteiro e trabalhar comigo todos os dias, vou te apoiar também. Se daqui a seis meses mudar de ideia, muda. Não preciso que você trabalhe, Helê. Nunca precisei. Eu apoio sua volta porque sei que isso é importante pra você. Porque você gosta do que faz. Porque você tem seus planos. Porque eu vejo como seus olhos brilham quando você fala do seu trabalho.

Helena começou a chorar novamente.

— Só que nenhuma dessas escolhas muda quem você é pro Humberto. — Heitor inclinou a cabeça, tentando encontrar seus olhos. — Você acha que aquele moleque não sabe quem é a mãe dele?

Uma risada molhada escapou dela.

— Heitor...

— Tô falando sério. Eu chego em casa e ele fica feliz. Você entra no quarto e parece que acenderam uma lâmpada dentro daquele menino.

Helena apertou os lábios.

— Mas eu vou perder coisas.

— Vai.

Ela pareceu surpresa com a resposta.

Heitor não queria mentir para ela.

— E eu também perco. — Passou o polegar pela bochecha dela. — Tem coisa que ele faz enquanto eu tô trabalhando e você me conta depois. Vai ter coisa que ele vai fazer com a babá e ela vai contar pra gente. Vai ter coisa que ele vai fazer com a minha mãe, com a Dona Olívia, na escola... Um dia vai fazer coisa que não vai contar pra nenhum de nós dois.

Helena respirou fundo.

— Eu odeio pensar nisso.

Heitor sorriu com carinho.

— Eu também. Queria colocar ele no bolso e levar pra empresa.

Ela riu entre as lágrimas.

— Você colocaria mesmo.

— Fácil.

O sorriso desapareceu aos poucos, mas deixou alguma leveza no rosto dela.

Heitor voltou a acariciar seus cabelos.

— Só que tem uma diferença enorme entre não estar em cada minuto e ir embora, Helê.

Ela ficou quieta.

— Você vai voltar.

Heitor viu os olhos dela se encherem outra vez.

— Todo dia — continuou. — Você vai sair de manhã e vai voltar. Vai pegar ele no colo. Vai perguntar como foi. Vai dar banho quando quiser, vai colocar pra dormir, vai acordar de madrugada puta da vida quando ele resolver que três da manhã é um excelente horário pra conversar...

Helena riu chorando.

— Ele faz isso.

— Faz. E você vai continuar sendo a mãe dele quando estiver na empresa, quando estiver numa reunião, quando estiver viajando, quando estiver do lado dele. A babá não vai ocupar seu lugar porque o seu lugar já é seu.

Helena baixou os olhos.

— Eu só não quero que ele espere por mim como eu esperei por ela.

Aquela frase atingiu Heitor com tanta força que por alguns segundos ele simplesmente a olhou.

Então a puxou de volta.

Helena se encolheu contra seu peito e Heitor a abraçou com os dois braços, apertando-a como se pudesse protegê-la inclusive da própria lembrança.

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— Ele nunca vai esperar desse jeito.

Beijou sua cabeça.

— Porque você vai voltar.

Helena chorou novamente.

— E se um dia você sentir que tá perdendo mais do que consegue suportar, a gente muda tudo. Horário, rotina, trabalho, babá. O que for. Não tem regra. Não tem contrato dizendo que depois que você voltar pra empresa precisa continuar fazendo exatamente a mesma coisa pra sempre.

Heitor sentiu Helena assentir contra ele.

— A gente vai descobrir junto.

Ficaram abraçados por algum tempo.

Quando Helena conseguiu respirar melhor, Heitor ainda não a soltou. Continuou fazendo carinho em seus cabelos, às vezes passando a palma pela nuca, às vezes apenas mantendo a mão ali.

— E quer saber quem perdeu mais nessa história toda?

Helena fungou.

— Quem?

— A Lorena.

Ela se mexeu.

— Foi ela, Helê. Não você.

Helena ficou quieta.

— Você teve seus avós. Teve um avô que, pelo tanto que você fala dele, devia ser um senhor do caralho.

Helena soltou uma risadinha chorosa.

— Ele era.

— Eu sei. Queria muito ter conhecido ele.

Aquilo fez Helena apertá-lo um pouco mais.

— Ele ia gostar de você.

Heitor sorriu.

— Claro que ia. Sou muito agradável.

— Convencido.

— Mas ia.

— Ia.

Heitor beijou novamente sua cabeça.

— Você teve ele. Teve sua avó. E agora tem a família que você construiu. Tem o Humberto. Tem a Mel. Tem aquele bando de gente que entra na nossa casa sem pedir licença. Tem seu irmão aparecendo pra comer nossa comida...

Helena riu baixinho.

— E tem eu. Principalmente eu, porque eu sou difícil pra caralho de mandar embora.

— Isso é verdade.

— Então quem perdeu foi a Lorena. Ela perdeu aniversário, perdeu escola, perdeu você crescendo. Perdeu coisas que não voltam. Você não perdeu porque não era boa o suficiente pra ela ficar. Ela perdeu porque não conseguiu estar lá.

Helena voltou a chorar, mas daquela vez Heitor não tentou dizer mais nada.

Apenas ficou.

Depois de algum tempo, ela finalmente levantou o rosto. Os olhos estavam vermelhos, os cílios grudados e as bochechas molhadas. Heitor passou os polegares cuidadosamente abaixo deles.

Helena soltou o ar.

— Desculpa.

— Nem começa.

— Eu estraguei nosso passeio.

— Você não estragou porra nenhuma.

— Eu estava tão bem...

— E pode continuar bem depois. Uma coisa não cancela a outra.

Ela respirou fundo.

— É que fica preso aqui.

Levou a mão ao próprio peito.

— Eu não fico pensando nisso o tempo todo. Desde que comecei a conversar sobre isso na terapia, melhorou muito. Eu consigo entender um monte de coisa que antes... — Helena balançou a cabeça. — Mas às vezes acontece alguma coisa. Igual essa história da babá. Aí vem tudo junto. Eu tento explicar e começo a chorar e...

Parou.

Heitor esperou.

Helena olhou pela janela.

— Parece que eu volto a ser aquela menina.

Aquilo quase acabou com ele.

Heitor a puxou novamente antes mesmo de pensar.

Helena voltou para seus braços.

— Tá tudo bem — murmurou junto aos cabelos dela. — Eu sei.

— Eu odeio isso.

— Eu sei.

— Eu não quero ser assim.

Heitor se afastou apenas o suficiente para beijar sua testa.

— Você pode ser assim comigo.

Helena ficou imóvel.

Ele passou a mão por seu rosto.

— Você não precisa chegar pra mim com isso resolvido. Não precisa organizar primeiro, nem descobrir por que tá chorando antes de chorar. Se vier, você fala. Se não conseguir falar, chora. Se não quiser fazer nenhum dos dois, fica comigo quietinha.

Os olhos dela voltaram a se encher.

— Eu vou estar aqui.

Helena respirou fundo.

— Sempre?

Heitor sentiu o coração apertar.

Para qualquer outra pessoa, talvez aquela fosse uma pergunta pequena.

Para Helena, nunca seria.

Ele sabia o peso que existia por trás daquela palavra. Sabia que uma parte dela aprendera cedo demais que amar alguém não significava necessariamente que aquela pessoa permaneceria.

Por isso não respondeu de qualquer jeito.

Segurou seu rosto entre as mãos e esperou que ela olhasse para ele.

— Sempre.

Helena fechou os olhos quando Heitor beijou sua testa demoradamente.

Ele não podia prometer apagar o passado.

Não podia voltar no tempo e encontrar a menina que ela havia sido. Não podia devolver o avô que Helena ainda amava tanto. Não podia arrancar do rosto dela os traços que às vezes a faziam enxergar a própria mãe no espelho, nem apagar anos de comparações que tinham tornado aquela semelhança tão pesada.

Também não podia garantir que aquela ferida nunca voltaria a abrir.

Mas podia fazer uma coisa.

Podia ficar.

E, toda vez que aquela menina voltasse a aparecer dentro da mulher que ele amava, assustada com a possibilidade de repetir uma história que nunca escolhera viver, Heitor estaria ali para lembrá-la de uma coisa que talvez levasse muitos anos até que ela acreditasse por inteiro:

Helena não estava condenada a repetir Lorena.

Ela já tinha feito diferente.

Humberto nunca precisara esperar para descobrir se a mãe o amava.

Ele já sabia.