O CEO que Eu Paguei

253 Só Preciso de Você


Em Campos do Jordão, Afonso Monteiro encontrou algo completamente diferente do que imaginou.

Quando fez o convite para Olívia, pensou que passaria a viagem inteira mostrando a cidade. Conhecia Campos do Jordão como poucos. Tinha vindo ali dezenas de vezes ao longo da vida, algumas para descansar com Maria Lúcia, outras para fechar negócios, receber políticos, empresários ou simplesmente fugir do calor do Rio por alguns dias. Sabia onde serviam o melhor fondue, qual restaurante tinha a melhor vista e até qual rua ficava mais bonita quando a neblina descia no fim da tarde. Na cabeça dele, seria uma espécie de anfitrião.

Só que o corpo já não acompanhava mais os planos da cabeça.

Depois de quinze minutos caminhando pelas ruas inclinadas, as pernas começavam a reclamar. O quadril endurecia, os joelhos pareciam enferrujar com o frio da serra e o ar gelado fazia as articulações lembrarem a idade que ele insistia em esquecer. Depois do almoço, precisava voltar ao hotel para descansar um pouco. Não era sono e sim o corpo exigindo uma pausa, como um carro antigo que precisava esfriar o motor antes de seguir viagem.

O curioso era que Olívia também precisava.

E aquilo, por mais estranho que parecesse, aquilo o deixava feliz.

Nunca tinha pensado nisso antes, mas envelhecer ao lado de alguém da mesma idade era muito diferente de envelhecer cercado apenas por gente nova. Não precisava fingir disposição. Não precisava andar mais depressa para provar que ainda dava conta. Quando ele cansava, ela também cansava. Quando ela queria sentar, ele já estava procurando um banco fazia cinco minutos.

Era... confortável.

Todas as manhãs acontecia a mesma cena.

Olívia sentava na beirada da cama para calçar os tênis e ficava uma eternidade brigando com os cadarços. Primeiro respirava fundo. Depois se inclinava devagar. Então a coluna reclamava. Ela voltava a se endireitar, esperava passar a fisgada e tentava outra vez.

Afonso fingia que lia o jornal.

Nem levantava os olhos.

Sabia exatamente o que significava aquele esforço. Também odiava quando alguém aparecia correndo para fazer por ele aquilo que ainda conseguia fazer sozinho.

Independência era uma das últimas coisas que um velho possuía.

Mas havia momentos em que ele percebia uma mudança discreta no rosto dela. A mão escapava para a lombar, os olhos fechavam por um segundo e ela respirava fundo, tentando esconder a dor.

Aí não tinha jeito.

Ele largava o jornal sobre a mesa, apoiava as duas mãos na bengala e levantava resmungando.

— Ah, larga isso pra lá... dá isso aqui.

Ela continuava segurando o tênis.

— Num precisa, não.

— Precisa, sim.

— Eu dou conta.

— Dá conta uma ova. Desse jeito tu vai amanhecer sentada aí.

Ela bufava, entregando o tênis contrariada.

— Ocê é muito mandão, viu.

Afonso começava a dar o laço como se aquilo fosse a tarefa mais importante do dia.

— Descobriu isso hoje?

— E muito mal educado.

— Isso eu sempre fui.

Ela balançava a cabeça.

— Misericórdia...

Cinco minutos depois já estavam descendo para tomar café como se nunca tivessem discutido.

Era curioso.

Com os mais novos tudo era diferente.

Heitor, Helena, Renato, Celina... todos eram cuidadosos demais. Bastava Afonso mexer um pouco o corpo na cadeira que alguém já perguntava se ele queria ajuda para levantar. Puxavam cadeiras antes mesmo de ele chegar perto. Estendiam o braço em qualquer escada. Perguntavam se estava cansado, se queria descansar, se estava sentindo alguma dor.

Faziam tudo por amor.

Ele sabia.

Mas, às vezes, tinha a impressão de que o enxergavam como uma cristaleira antiga prestes a desmontar.

Olívia não.

Ela parecia entender, sem que ninguém precisasse explicar, onde terminava o cuidado e começava a humilhação.

Nunca perguntava se ele precisava de ajuda para abrir uma porta.

Esperava.

Se ele abrisse, ótimo.

Se não abrisse, simplesmente passava na frente e abria como se estivesse abrindo para ela mesma.

Sem piedade.

Sem pena.

Sem fazer cara de quem estava salvando um pobre velhinho.

Talvez porque também fosse uma.

Naquela manhã decidiram subir o Morro do Elefante.

Assim que a cabine do teleférico começou a ganhar altura, Afonso percebeu que Olívia estava dura feito madeira. Sentada ao lado da janela, segurava a bolsa com tanta força que parecia ter medo de ela fugir.

Ela olhou para baixo uma única vez e foi o suficiente. Voltou imediatamente o rosto para frente.

— Ave Maria...

Afonso mordeu o canto da boca para não rir.

— Qual é, Olívia... tá com medo?

Ela respondeu sem sequer olhar para ele.

— Num tô, não.

— Tá tremendo por quê?

— Frio.

Ele virou o rosto para a janela. O sol aparecia entre as nuvens.

— Frio? Tá fazendo mó calor, mulher.

— Frio de altura.

Afonso soltou uma gargalhada.

— Frio de altura... essa é nova.

Ela continuava olhando para frente.

— Ri não. Se esse trem despencar, nóis morre.

— Aí tu não passa medo nunca mais.

Olívia arregalou os olhos.

— Cruz credo, Afonso! Homem, ocê num tem juízo nenhum!

Quanto mais ela reclamava, mais ele se divertia.

Fazia muito tempo que não implicava com alguém daquele jeito. Era uma brincadeira boba, quase infantil, mas havia alguma coisa extremamente prazerosa em provocar aquela mulher.

Então ele olhou pela janela e parou de rir.

As montanhas desapareciam sob um manto branco de neblina.

Foi exatamente assim e na mesma hora, sem aviso. A lembrança simplesmente voltou.

Maria Lúcia também tinha ficado sentada na janela daquela cabine. Só que, diferente de Olívia, parecia uma criança. Passou o percurso inteiro maravilhada com as nuvens.

— Afonso... olha isso! — ela apontava para fora como se tivesse descoberto um mundo novo. — Parece que a gente tá voando!

Ele, ao contrário, não conseguia relaxar. Mantinha uma das mãos firme na cintura dela o tempo inteiro.

— Marilú, sai um pouco daí.

Ela ria.

— Num vou cair, não.

— Tu tá muito perto da janela.

— Ah, para de ser chato.

Sempre que a cabine passava pelas torres de sustentação e dava aquele pequeno solavanco, ela gargalhava.

Ele reclamava.

Ela ria mais.

Depois simplesmente se virava, segurava o rosto dele entre as mãos e o beijava ali mesmo, como se não existisse mais ninguém dentro da cabine.

E, por alguns segundos… realmente parecia que estavam nas nuvens.

Afonso piscou devagar.

A lembrança foi embora do mesmo jeito que veio.

Olhou novamente para Dona Olívia, ela continuava agarrada na bolsa.

Uma ideia completamente idiota passou pela cabeça dele, um sorriso torto apareceu no canto da boca.

"Vou dar um susto nessa velha..."

Esperou o momento certo e deslocou o peso do corpo com força para um dos lados da cabine.

Ela realmente balançou.

— AI, JESUS!

Olívia segurou o banco imediatamente.

Só que, no mesmo instante, Afonso sentiu uma fisgada violenta atravessar o quadril.

— Ai... cacete...

A dor foi tão intensa que arrancou todo o ar dos pulmões, o sorriso desapareceu. Ele levou a mão ao lado da cintura e fechou os olhos.

Olívia esqueceu completamente o medo da altura.

— Afonso!

Ela segurou o braço dele na mesma hora.

— Que foi? Que que aconteceu?

Ele respirou fundo, tentou responder e outra pontada atravessou o quadril.

— Fiz... um mal jeito.

— Eu sabia! — ela bateu de leve no braço dele. — Eu sabia que ocê tava inventando moda!

— Ah... eu só...

— Só nada! Ficou fazendo graça igual menino!

Ele tentou argumentar.

— A cabine...

— Num fala mais nada.

Ela continuou segurando o braço dele até o fim do percurso. Quando desembarcaram, Afonso ainda tentou recuperar a dignidade.

— Já passou. Vamos andar.

Ela nem respondeu. Foi perguntando para um funcionário onde ficava o posto de atendimento.

— Olívia, eu não preciso...

— Precisa, sim.

— Num enche.

— E ocê cala a boca.

Ele ficou olhando para ela durante alguns segundos.

Que mulher terrível, pior que ele.

Acabou desistindo de discutir.

Cinco minutos depois estava sentado em uma maca improvisada enquanto um enfermeiro examinava seu quadril.

Olívia permanecia ao lado, de braços cruzados, acompanhando tudo com a testa franzida.

Volta e meia perguntava ao rapaz:

— Tem certeza que num quebrou nada?

— Não, senhora. Foi só uma torção.

— Graças a Deus.

O restante do passeio daquele dia foi completamente por água abaixo.

Afonso passou o caminho inteiro de volta para o hotel reclamando que não precisava de médico, que aquilo era "só um mal jeito", que no dia seguinte estaria andando normalmente. Não adiantou. Assim que Renato ficou sabendo, parecia que o velho tinha quebrado a coluna.

Em menos de duas horas havia um médico, uma fisioterapeuta e dois funcionários do hotel praticamente à disposição dele.

— Tá de sacanagem... — resmungou ao ver a movimentação pela suíte. — Eu só dei uma torcida no quadril, porra. Cês tão achando que eu perdi uma perna?

Ninguém deu muita atenção.

Renato conhecia o pai bem demais e instruiu a equipe para não cair naquele teatro.

A fisioterapeuta, uma mulher paciente de pouco mais de quarenta anos, pediu que ele deitasse para avaliá-lo.

— Não vou deitar, não.

— Senhor Afonso...

— Senhor Afonso é o cacete. Tô muito bem.

Cinco minutos depois estava deitado reclamando de tudo.

— Tá apertando.

— Porque dói aí.

— Se dói, por que tá apertando?

A mulher apenas sorriu.

— Porque é meu trabalho.

Ele bufou.

— Trabalho estranho.

Apesar da rabugice, precisava admitir, ainda que só para si mesmo, que a mulher sabia o que fazia. Depois da primeira sessão, a dor diminuiu bastante. No fim da tarde já conseguia apoiar melhor a perna.

Jamais confessaria isso em voz alta.

Preferia morrer.

Mas, se não fosse aquela fisioterapeuta, provavelmente passaria a semana inteira mancando.

O que realmente o incomodava não era a dor.

Era a babá.

Renato montou uma verdadeira operação de guerra. Qualquer movimento que Afonso fazia era suficiente para aparecer alguém perguntando se precisava de água, remédio, travesseiro ou ajuda para levantar.

— Rapaz... vocês tão esperando eu morrer ou tão tentando acelerar o processo?

O segurança que permanecia discretamente do lado de fora da suíte apenas sorriu.

— Ordens do doutor Renato.

— Manda o doutor Renato catar coquinho.

A resposta foi recebida com outro sorriso educado.

Ninguém mais levava suas reclamações a sério.

A suíte em que estavam hospedados era ampla. Afonso insistira que cada um tivesse seu próprio quarto. Gostava da companhia de Olívia, mas já passou da idade de dividir o mesmo espaço durante a noite. Precisava do próprio silêncio. Ela também. Os quartos ficavam ligados por uma sala aconchegante, onde uma lareira permanecia acesa desde o fim da tarde. Nos apartamentos ao lado estavam hospedados a fisioterapeuta, um enfermeiro e dois funcionários enviados por Renato, como se ele fosse uma autoridade internacional em recuperação.

Sentado na poltrona próxima à janela, coberto por uma manta de lã que fingia odiar, Afonso observava Olívia sentada no sofá.

Ela falava ao celular.

Nem precisava prestar muita atenção para saber com quem era.

Isaac.

O rapaz ligava todos os dias.

Afonso achava aquilo curioso.

Em tão pouco tempo, aqueles dois haviam criado um vínculo que parecia existir havia décadas. Isaac a chamava para contar como tinha sido o dia, perguntava o que ela tinha comido, queria saber se ela estava aproveitando a viagem. E Olívia respondia tudo com a paciência de uma mãe.

Ou de uma avó.

Não.

Era de uma avó mesmo.

Porque era exatamente assim que ela falava com Helena.

Afonso desviou o olhar para as próprias mãos, estavam feias. Muito mais do que imaginava.

As veias saltadas, a pele fina, cheia de manchas, os dedos tortos pelo tempo. Durante tantos anos aquelas mãos assinaram contratos bilionários, levantaram prédios, apertaram mãos de presidentes e ministros, seguraram Renato quando ainda era um bebê e carregaram Heitor nas costas pela praia de Ipanema.

Agora tremiam para segurar uma xícara de café, suspirou baixo.

Devia ter dado mais valor às mãos jovens.

Seu olhar desceu naturalmente para o dedo anelar, a aliança continuava ali, era a mesma e ele nunca tirou. Nem no dia do enterro, nem depois e nem uma única vez.

Passou o polegar sobre o ouro já gasto pelo tempo.

Maria Lúcia.

Ainda conversava com ela em pensamento quase todos os dias.

Nunca entendeu por que Deus resolveu levar justamente ela.

Logo ela.

Se existia alguém bom naquele mundo, era sua falecida esposa.

Ele...

Bom, ele conhecia todos os defeitos que tinha.

Talvez Deus tivesse errado a conta.

Ela estaria feliz ali, gostaria daquele frio. Estaria enchendo Humberto de presentes completamente desnecessários e provavelmente enchendo Helena de cuidados bobos. E, muito provavelmente, já teria feito amizade com Olívia antes mesmo daquela viagem começar.

Sorriu sozinho.

Conseguia imaginar as duas conversando durante horas enquanto ele ficava de canto ouvindo as duas falarem sem parar.

A voz de Olívia o trouxe de volta.

— Tá bão, meu fio... Deus te abençoe. Amanhã nóis conversa de novo.

Ela desligou o telefone sorrindo.

Afonso não resistiu.

— Rapaz... nunca imaginei que tu fosse fazer amizade com o filho da Lorena.

Olívia ergueu os olhos devagar.

Ele conhecia aquela expressão, tinha acertado onde queria.

Sorriu discretamente, satisfeito.

— Ele é um bom menino.

— Sei.

— Tá passando por um momento tão difícil...

Afonso deu de ombros.

— Problema dele. Quem mandou se meter com aquela mulher?

Olívia ignorou completamente a provocação. Ficou alguns segundos olhando para a tela apagada do celular antes de falar.

— Eu tava pensando em passar um tempo com ele.

Afonso soltou uma risada, daquelas desacreditadas.

— Ah, para...

Ela continuou séria.

— Tô falando sério.

— Olívia... alguém da sua idade não dá conta desse tipo de coisa mais não.

Ela arregalou os olhos, so segundo seguinte, o celular voou na direção dele.

TOC!

Acertou bem no meio da testa.

— Caralho! — Afonso levou a mão ao lugar da pancada. — Ficou maluca, mulher?!

— Isso é pra ocê parar de falar bobagem.

— Então fala direito! — ele esfregava a testa enquanto resmungava baixinho. — Parece uma doida...

Olívia respirou fundo.

— Eu tava pensando em ficar uns dias no apartamento dele. Fazer uma comida, arrumar a casa... fazer companhia.

Afonso esqueceu completamente a dor no quadril, endireitou o corpo na poltrona.

— Nem pensar.

— Uai?

— Isso não é ideia, não.

Ela franziu a testa.

— E por quê?

— Porque a Helena precisa de você. Vai largar a tua neta por causa de um rapaz que tu conhece faz meia dúzia de dias?

Olívia balançou a cabeça.

— A Helena pode esperar um pouquinho. Ela tem o Heitor, tem a família toda perto dela. O Isaac tá sozinho.

— Sozinho nada. Tem pai, tem irmão, tem aquele bando de gente em volta dele.

Ela permaneceu calada.

Afonso continuou.

— Vou falar com o Heitor. Ele leva o rapaz lá pra casa. Pronto. Resolve o problema. Fica todo mundo junto. E o que pode acontecer? Ele vai se matar por causa de mulher?

Olívia abaixou os olhos. Quando voltou a falar, a voz saiu bem mais baixa.

— Quando meu filho... morreu... ele também tinha gente perto dele.

O silêncio caiu sobre a sala.

— Todo mundo gostava dele. Todo mundo ajudava. Mas aconteceu do mesmo jeito.

Afonso fechou a boca imediatamente.

Droga.

A frase que dissera poucos segundos antes voltou inteira à cabeça.

Queria poder puxá-la de volta.

Não podia.

Olívia respirou fundo antes de continuar.

— Eu num vou deixar nada acontecer com aquele menino.

Os olhos dela já estavam cheios d'água. Afonso permaneceu alguns segundos olhando para a lareira, pensando, escolhendo as palavras. Quando voltou a falar, o tom já não era o mesmo de antes. Era mais baixo e mais cuidadoso.

— Eu lamento muito pelo teu filho, Olívia. De verdade.

Ela permaneceu em silêncio.

— Mas... o Isaac não passou pelo que teu menino passou. O rapaz levou uma decepção amorosa. Tá sofrendo pra burro, eu sei. Só que uma coisa não é a outra.

Olívia não respondeu, continuou olhando para o fogo crepitar na lareira.

O clima na suíte ficou pesado.

A lareira continuava acesa, o fogo estalava de tempos em tempos, mas o silêncio parecia ocupar muito mais espaço do que o calor. Afonso odiava aquele tipo de situação. Nunca soube lidar com lágrimas. Negócios, brigas, processos, ameaças... aquilo tudo ele resolvia. Mas uma mulher em silêncio, com os olhos marejados, sempre o deixava completamente sem saber o que fazer.

Coçou a barba grisalha, pigarreou duas vezes e pegou o celular sobre a mesinha lateral.

— Vou ligar pro Heitor.

Olívia nem respondeu.

Afonso já conhecia o neto. Não importava o horário, se estivesse acordado, atendia.

A chamada durou poucos segundos.

— Fala, vô.

— Cadê o meu bisneto?

Do outro lado da tela, Heitor sorriu.

— Nem perguntou como eu tô.

— Tu já tá velho demais pra eu ficar perguntando isso. Cadê o moleque?

Heitor riu e virou a câmera.

Humberto apareceu imediatamente na tela, sentado no colo do pai, usando um macacão azul-claro e babando no próprio punho. Assim que viu o celular, abriu um sorriso enorme, daqueles completamente desdentados, e começou a balançar os bracinhos numa animação sem sentido.

Afonso sentiu o peito amolecer.

— Aí está o homem da família...

O menino respondeu com um balbucio completamente incompreensível.

— Tá falando com o vovô? Claro que tá.

Humberto deu outra risadinha.

Afonso levantou da poltrona apoiando-se na bengala e caminhou até Olívia.

— Vem cá... teu bisneto quer dar um oi.

Ela levantou os olhos.

— Meu?

— Ah... nosso... sei lá. Pega logo.

Olívia sorriu pela primeira vez desde a conversa sobre Isaac e recebeu o celular nas mãos.

— Oi, meu fi...

Humberto abriu outro sorriso enorme.

Ela começou a conversar com ele como se realmente estivesse entendendo cada balbucio.

— É mesmo?

— Ah, num acredito...

— Ocê fez isso tudo?

Afonso cruzou os braços observando a cena, o garoto ria sem parar e Heitor também. Helena apareceu atrás deles estava com algum brinquedo na mão.

Afonso prestava atenção em outra coisa.

Era um absurdo.

O menino era a cara do Heitor, a mesma testa, os mesmo olhos e o mesmo formato do rosto. Até quando ria parecia o pai.

Aquilo era quase uma afronta.

— Não puxou nada de mim... — resmungou baixinho.

Olívia tampou o microfone com a mão.

— Quê?

— Esse moleque.

Ela olhou novamente para Humberto.

— Uai... é parecido com o pai mesmo.

— Parece uma xerox.

Heitor ouviu.

— Tá com inveja, vô?

— Inveja uma ova. Tô indignado. Depois de quatro gerações, o primeiro bisneto resolve puxar justamente a família da Celina.

Heitor caiu na gargalhada.

— Ainda bem.

— Ainda bem é o cacete.

Olhou outra vez para o menino, era grande, muito grande.

Disso ele gostava.

Pelo menos o tamanho herdara dos Monteiro.

— Tu trata de fazer mais filho, ouviu?

Helena arqueou uma sobrancelha.

— Oi?

— Quero outro bisneto.

— Senhor Afonso...

— Até nascer um parecido comigo.

— Não se preocupa vô, já tá nos esquemas. — Heitor falou com um sorriso largo.

Helena começou a rir atrás da câmera, envergonhada.

— Monteiro, a gente já conversou sobre isso.

— Por isso estou confirmando para eles Helê. — Heitor deu uma piscada para a câmera.

Depois de mais alguns minutos de conversa, desligaram.

Olívia ainda sorria discretamente, Afonso aproveitou o momento e pegou o cardápio do hotel.

— Vamos jantar lá embaixo.

Ela levantou os olhos.

— Num precisa...

— Precisa, sim. Já fiquei preso aqui o dia inteiro. Se eu continuar olhando pra essa parede vou começar a conversar com ela.

Ela riu.

— Isso ocê já faz sozinho.

— Então anda.

Pouco tempo depois desceram pelo elevador.

Assim que saíram no corredor principal, Afonso percebeu um rapaz alguns metros atrás, discreto, terno escuro, fingindo olhar para o celular.

Afonso parou imediatamente e virou devagar.

— Rapaz.

O segurança levantou os olhos.

— Senhor Afonso.

— Tá fazendo o quê?

— Acompanhando o senhor.

— Quem mandou?

— Doutor Renato.

— Então volta lá e fala pro doutor Renato que eu não sou um condenado usando tornozeleira.

— São ordens dele.

— E eu tô dando uma ordem agora.

O rapaz permaneceu imóvel.

Olívia soltou um suspiro.

— Afonso...

— Não. Isso aqui já tá passando da conta.

Voltou a olhar para o segurança.

— Tu acha mesmo que alguém vai me sequestrar com esse quadril todo arrebentado?

O rapaz tentou esconder um sorriso.

— Senhor...

— Vai embora.

— Não posso.

— Pode.

— Não devo.

Afonso abriu a boca para responder.

Olívia segurou discretamente o braço dele.

— Deixa o moço trabalhar...

Ele olhou para ela, depois para o rapaz. Resmungou alguma coisa completamente incompreensível.

— Tá... mas fica longe.

O segurança assentiu.

Afonso saiu andando ainda bufando.

— Bando de babaca...

Quando chegaram ao deck reservado do restaurante, ele parou por um instante.

Uma mesa para duas pessoas havia sido preparada perto da varanda.

Uma toalha impecável de linho branco cobria toda a mesa. Lanternas de vidro protegiam pequenas velas, espalhando uma luz amarelada e suave pelo ambiente. Algumas luminárias discretas iluminavam apenas o suficiente para que a vista do bosque permanecesse intacta. As araucárias balançavam lentamente com o vento frio da serra, e o único som constante era o das folhas se movendo umas contra as outras. Em cada cadeira havia uma manta grossa de lã dobrada com perfeição e almofadas macias tornavam o ambiente ainda mais confortável.

Afonso olhou tudo aquilo durante alguns segundos.

Depois fez uma careta.

— Eu pedi um fondue. — olhou novamente ao redor. — Não um pedido de casamento.

Olívia nem pareceu ouvir. Os olhos dela passeavam pelo bosque iluminado.

— Afonso… — ela sorriu feito menina. — Que trem bonito… — continuou olhando ao redor. — Parece aqueles filme que passou lá na televisão uma vez.

Afonso acompanhou o olhar dela, era bonito mesmo. Mas jamais admitiria.

— Hm.

Ela caminhou devagar até a cadeira.

— Nunca imaginei um lugar desse.

Sentaram.

Um garçom aproximou-se discretamente oferecendo vinho branco.

Afonso recusou.

Olívia também.

Enquanto ajeitava a manta sobre as pernas, ela estreitou os olhos para o rosto dele.

— Uai...

Ele continuava olhando o cardápio.

— Quê foi?

— Sua testa.

— Minha testa tá onde sempre esteve.

— Tá com um galo.

Ele passou a mão distraidamente, sentiu o inchaço.

— Culpa tua.

Ela deu uma risadinha.

— Minha?

— Tacou um celular na minha cabeça.

— Ocê mereceu.

Antes que ele respondesse, ela chamou o garçom.

— Moço...

— Pois não, senhora?

— Cê pode me trazer uma faca?

Afonso congelou, olhou lentamente para o garçom, depois para Olívia, depois outra vez para o garçom.

"...uma faca?"

Sentiu um arrepio subir pela nuca. Na juventude já tinham tentado matá-lo mais vezes do que conseguia contar.

A lembrança veio inteira, um gerente desviando dinheiro da empresa, as provas sobre a mesa, o advogado ao lado do Afonso e o sujeito surtando. A faca aparecendo do nada e então a dor entrando no abdômen.

Maria Lúcia chegando desesperada ao hospital, completamente pálida, segurando sua mão enquanto os médicos preparavam a cirurgia.

Sorriu sozinho, gostava daquela cicatriz. Era coisa de homem.

Foi justamente depois daquele episódio que Maria Lúcia praticamente o obrigou a contratar um segurança. Dizia que o guarda-costas existia para protegê-lo enquanto ele protegia o guarda-costas.

O garçom voltou, entregou a faca.

Olívia levantou e Afonso acompanhou cada passo dela.

"...é hoje."

Nunca imaginou sobreviver a tantos empresários, políticos, bandidos e processos para acabar assassinado por uma senhorinha mineira de setenta e tantos anos usando um casaco de tricô.

Ela parou bem na frente dele.

— Fica quietim.

— Pra quê essa faca?

— Ocê já vai ver.

Ela apoiou delicadamente a lâmina fria sobre o galo da testa e começou a fazer leves movimentos, pressionando quase sem força.

Afonso franziu a testa.

— Quê diabo...

— Minha mãe fazia isso quando nóis batia a cabeça. Ajuda a desinchá.

Ele permaneceu imóvel, nem era a faca. Era a mão.

Fazia tanto tempo...

Tanto tempo que ninguém encostava nele daquele jeito.

Sem exame médico, sem fisioterapia, sem formalidade.

Só um toque.

Simples.

Cuidadoso.

Os olhos dele perderam o foco por alguns segundos.

Maria Lúcia fazia exatamente aquilo com Renato quando o menino voltava correndo do quintal depois de cair.

Sentava o filho no colo, pegava uma faca na cozinha e passava delicadamente sobre o galo enquanto fazia carinho nos cabelos dele.

Renato sempre reclamava.

Ela ria e dava um beijo na testa dele.

Afonso nunca entendeu por que aquilo funcionava.

Talvez nem funcionasse.

Talvez o remédio nunca tivesse sido a faca.

Talvez fosse apenas o carinho.

E fazia tanto tempo...

Tanto tempo que ninguém cuidava dele daquele jeito...

Enquanto mergulhava uma batata baby no queijo fumegante do fondue, Afonso falou como quem comentava sobre o tempo.

— Me diz uma coisa...

Olívia continuava soprando um pedaço de pão para esfriar.

— Hum?

— Por que você nunca casou de novo?

Ela ergueu os olhos, surpresa com a pergunta. Demorou alguns segundos para responder.

— Faz pouco tempo que meu veinho se foi... E, antes disso, eu tinha a Helena comigo. Depois que ela casou, veio essa confusão toda... Heitor, Isaac, Jonas, Humberto... nunca parei pra pensar nessas coisa.

Afonso colocou a batata na boca, mastigou devagar e deu de ombros.

— Que ridículo.

Olívia franziu a testa.

— Quê?

— Isso aí. Tenho certeza que teu marido não ia querer te ver sozinha até o fim da vida. Mulher precisa de homem.

Ela olhou para o bosque escuro além da varanda. O vento fazia as araucárias balançarem lentamente sob a iluminação discreta do hotel.

— Num sei se eu quero outro homem...

— Ah, para com isso. — ele espetou outro pedaço de carne. — Tu acha mesmo que teu falecido queria que tu passasse o resto da vida sozinha? Claro que não. Isso é uma tristeza danada.

Olívia permaneceu alguns segundos olhando as árvores. Depois voltou os olhos para ele. Havia curiosidade ali.

— E ocê?

— Eu o quê?

— Por que nunca casou de novo?

Afonso abriu a boca para responder, ela completou antes.

— Ninguém te aguentava?

Ele sentiu um calor subir pelo rosto.

Que desaforo.

Baixou os olhos para o prato, fingindo escolher outra batata.

— Porque eu sou homem de uma mulher só.

Olívia sorriu de canto.

— Uai… — pegou um morango e mergulhou no chocolate quente. — Será que ela num ia querer que ocê seguisse em frente?

Afonso parou, de verdade. A pergunta ficou rodando na cabeça por alguns segundos.

Maria Lúcia...

Ciumenta ela não era.

Ou pelo menos era isso que ele sempre gostou de acreditar.

Até lembrar daquela maldita carona, foi logo no começo do casamento.

A esposa de um conhecido havia ficado sem carro depois de uma festa, e ele simplesmente ofereceu uma carona até em casa. Coisa de cinco minutos.

Cinco.

Quando Maria Lúcia descobriu...

Dormiu duas semanas no quarto de hóspedes.

Duas semanas!

E ele atrás dela igual um condenado.

"Maria, pelo amor de Deus..."

"Foi só uma carona."

"Tu tá fazendo tempestade em copo d'água."

"Ridículo isso."

Ela cruzava os braços.

— Ridículo é tu por botar outra mulher dentro do teu carro, no meu banco!

— Ela tava sozinha.

— Chamava um táxi.

— Não tinha táxi.

— Então chamava o marido dela.

— O marido tava viajando.

— Problema dela.

Ele nunca venceu aquela discussão, nem chegou perto. Acabou prometendo, jurando, assinando embaixo que jamais daria carona para outra mulher enquanto fosse vivo.

Sorriu sozinho.

Olhou discretamente para Olívia do outro lado da mesa.

Se Maria Lúcia soubesse que ele estava em Campos do Jordão viajando com outra mulher...

Nossa Senhora...

Nem queria imaginar.

Provavelmente ressuscitava só para matá-lo.

A imagem fez escapar uma risada baixa.

Olívia percebeu.

— Tá rindo do quê?

Ele balançou a cabeça.

— Vivo, sim.

Ela esperou.

— Com outra mulher, não.

Olívia começou a rir, daquele jeito simples que ela ria, sem elegância e sem cerimônia.

Só ria.

— Meu veinho também num ia gostar disso, não.

— Tá vendo?

Os dois ficaram sorrindo durante alguns segundos.

Depois o silêncio voltou, não um silêncio ruim. Apenas confortável.

Foi Olívia quem falou primeiro, a voz saiu bem mais baixa.

— Eu nunca pensei que ia ficar sozinha depois que a Helena casasse.

Afonso levantou os olhos.

Ela observava as próprias mãos apoiadas sobre a mesa, os dedos já tortos pela idade e a pele marcada.

— Eu achei que ia ter morrido antes.

Ele respirou pelo nariz.

— Como sempre…

Ela levantou os olhos.

— Tu tava errada.

Olívia deu um sorriso pequeno, não de felicidade. De resignação.

— É… — ficou mexendo distraidamente na colher. — Eu pensava em ir morar com um dos meus filho.

— Qual deles?

— O de BH que mora sozinho...

Afonso nem deixou terminar.

— Outra péssima ideia tua.

Ela arqueou as sobrancelhas.

— Uai...

— Vai atrapalhar a vida do teu filho.

— Eu atrapalho tanto assim?

— Todo velho atrapalha.

Ela fez uma careta.

— Que delicadeza.

— Tô mentindo?

Ela não respondeu, porque sabia que não.

Os filhos tinham trabalho, netos, rotina e problemas.

A vida continuava andando.

A deles...

Era diferente.

Olívia suspirou.

— Então...

Olhou diretamente para ele, sem ironia, sem brincadeira. Só uma senhora cansada fazendo uma pergunta sincera.

— O que que eu faço, Afonso?

Afonso não respondeu imediatamente.

Pegou o garfo, mergulhou um pedaço de filé no queijo e ficou observando a fumaça subir lentamente antes de levá-lo à boca. Mastigou devagar, sem realmente prestar atenção no sabor. Os olhos estavam perdidos no bosque escuro além da varanda, onde o vento fazia as araucárias balançarem de um lado para o outro.

Ele passou a vida inteira resolvendo problemas, problemas de dinheiro, problemas de obra, problemas de funcionário e problemas de governo.

Sempre existia uma solução. Uma negociação. Uma pessoa. Um contrato. Um cheque.

Mas aquilo...

Aquilo não tinha solução.

Porque a velhice era diferente.

Era cruel de um jeito que nenhum adversário jamais havia conseguido ser.

Quando jovem, bastava trabalhar mais.

Quando adulto, bastava pensar melhor.

Quando velho...

Não havia o que fazer.

O corpo enfraquecia um pouco todos os dias. Os amigos morriam um atrás do outro. Os filhos criavam as próprias famílias. Os netos trabalhavam. O mundo mudava depressa demais. Até a empresa que ele construíra com as próprias mãos já não tinha espaço para um homem como ele.

Sabia disso.

Ninguém nunca teve coragem de dizer.

Nem precisavam.

Via nas reuniões, nos computadores, nas apresentações cheias de palavras em inglês só para ser chique, nos programas que ele não entendia, na velocidade com que tudo acontecia.

A Monteiro Inc. continuava sendo dele.

Mas já não precisava dele.

Aquilo doía.

Morava com Heitor e Helena, era verdade. Nunca lhe faltou carinho naquela casa. Heitor fazia questão de levá-lo para a empresa sempre que podia, Helena preparava o café exatamente do jeito que ele gostava e até Humberto, mesmo sem entender nada da vida, parecia abrir um sorriso diferente quando o via.

Mas Afonso sabia.

Um dia...

Não conseguiria mais acompanhar o bisneto.

Já estava difícil abaixar para pegá-lo no colo. Daqui a alguns anos, talvez nem isso conseguisse fazer.

O pensamento apertou o peito.

Envelhecer era perder pequenas coisas todos os dias e ninguém preparava um homem para isso.

Olhou novamente para Olívia.

Ela esperava a resposta pacientemente.

Talvez fosse a única pessoa no mundo que realmente entendesse o que ele estava pensando.

Porque também estava vivendo exatamente a mesma coisa. Ela também enterrara o marido e um filho, também via os filhos seguirem a própria vida, também precisava parar para descansar depois de uma caminhada, também escondia as dores para não preocupar ninguém.

Talvez fosse justamente por isso que aqueles quatro dias tinham sido tão leves. Não precisavam fingir juventude um para o outro. Não precisavam provar mais nada.

Afonso respirou fundo. Quando voltou a falar, a voz saiu baixa, muito diferente do habitual.

— Faz companhia pra mim.

Olívia piscou algumas vezes.

— Uai...

Ele continuou olhando para o bosque. Como se fosse mais fácil falar sem encará-la.

— Cansei de ficar sozinho.

A frase escapou quase como um desabafo. Ele mesmo estranhou ouvi-la saindo da própria boca. Passou décadas sem admitir fraqueza nenhuma.

Agora estava ali.

Quase noventa anos nas costas.

Confessando justamente a maior delas.

Olívia permaneceu em silêncio.

Afonso prosseguiu antes que ela pudesse interrompê-lo.

— Tu sabe o que é acordar de madrugada porque o joelho tá doendo.

Ela abaixou os olhos.

— Sabe o que é esquecer onde botou o óculos.

Ela sorriu discretamente.

— Sabe o que é precisar sentar depois de andar duas quadra.

Outra pequena risada.

— Sabe o que é todo mundo conversar contigo como se tu tivesse virado criança.

Finalmente olhou para ela.

— Eu não preciso explicar nada pra você.

Olívia continuava completamente imóvel. Ele respirou fundo mais uma vez.

— Não tô falando de casamento.

Ela arregalou os olhos.

— Nem de namoro. — fez um gesto vago com a mão. — Essas besteira.

— Afonso...

— Escuta primeiro.

Ela fechou a boca.

— Tu já ia acabar morando com um filho. Eu também não quero virar peso pro Heitor.

Ficou alguns segundos procurando as palavras aquilo era raro.

— A gente gosta de conversar. Gosta de passear. Briga o tempo todo. Depois esquece. Dá certo.

Olhou diretamente para ela, sem ironia, sem arrogância e sem aquele jeito mandão que carregou a vida inteira.

Apenas um velho cansado.

— Seja minha companheira.

Olívia demorou alguns segundos para reagir, piscou algumas vezes.

— Hã?

Afonso repetiu com a mesma naturalidade de quem acabava de sugerir a sobremesa.

— Minha companheira.

Ela continuava olhando para ele sem entender.

Até o rapaz que fazia a segurança “discretamente” na entrada do deck pareceu disçar olhando para o bosque, fingindo que não tinha ouvido absolutamente nada e então percebeu que estava sobrando e saiu do lugar.

.Afonso percebeu, resolveu ignorar.

— Não tô te pedindo em casamento. — fez um gesto despreocupado com a mão. — Só tô pedindo tua companhia.

Ela passou a mão devagar pelo próprio rosto, parecia completamente desnorteada. O coração dela batia tão rápido que ela tinha certeza que Afonso estava escutando, mas na verdade, não estava.

— Afonso… — ela deu uma risadinha completamente sem jeito. — A gente é velho demais pra isso.

Ele franziu a testa.

— Tá vendo?

— Quê?

— Tu continua dando bola fora.

Ela o encarou sem entender. Apontou discretamente o garfo para ela.

— Tua neta tá praticamente casada com o meu neto. — fez um gesto entre os dois. — O destino deu um jeito de botar nossas famílias dentro da mesma casa depois de quase setenta anos. — deu um pequeno sorriso. — Tu me rejeitou uma vez.

— Afonso...

— E olha onde vinhemos parar.

Olívia sentiu o rosto inteiro esquentar, seu rosto ganhou um tom rosado.

Meu Deus do céu… Ele ainda lembrava daquilo. Depois de tanto tempo.

Baixou os olhos imediatamente. Afonso, por outro lado, não demonstrava constrangimento algum.

— Mas… — respirou fundo. — Eu num amo ocê.

Afonso respondeu sem pensar. Porque já tinha pensado naquela resposta havia muito tempo.

— Eu não preciso de amor.

Fez uma pequena pausa. Os olhos permaneceram firmes nos dela.

— Preciso de você. Só de você.

O mundo pareceu parar por alguns segundos.

Olívia ficou completamente imóvel.

Afonso não percebia.

Na cabeça dele, acabou de fazer uma proposta extremamente sensata para dois velhos que já tinham vivido praticamente tudo o que havia para viver.

Na cabeça dela...

Afonso Monteiro acabou de fazer a declaração mais bonita que qualquer homem já lhe fizera na vida.

Ela levantou tão depressa que a cadeira quase caiu para trás.

— Eu...

Nem terminou a frase. Virou-se e saiu andando apressada em direção ao hotel.

— OLÍVIA!

Nada.

— Ô!

Ela continuou andando.

— Cacete...

Afonso tentou levantar rapidamente. Esqueceu completamente do quadril.

— Ai, porra...

A fisgada atravessou a cintura no mesmo instante. Precisou apoiar as duas mãos na mesa antes de conseguir ficar de pé. Mesmo mancando, saiu atrás dela.

— OLÍVIA!

Quando alcançou a saída do deck, ela já havia desaparecido. Ficou olhando para um lado e para o outro, completamente perdido. Foi então que ouviu uma voz atrás de si.

— Ela apertou o andar dos aposentos de vocês, senhor.

Afonso virou-se.

O tal "segurança" continuava parado no mesmo lugar.

Agora que o observava melhor, o rapaz tinha muito mais cara de estagiário do que de segurança.

Devia ter pouco mais de vinte anos.

Estava fazendo um esforço sobre-humano para não sorrir.

— O senhor quer ajuda?

Afonso arqueou uma sobrancelha.

— Ajuda?

— O senhor quer que eu corra pela escada e segure ela pro senhor?

Afonso ficou olhando para o rapaz durante alguns segundos. Depois apontou a bengala na direção dele.

— Tá maluco, rapaz?

— Eu só pensei em ajudar...

— Ajudar como? Vai sequestrar a velha?

— Não, senhor...

— Então deixa ela em paz.

O rapaz coçou a nuca, constrangido.

— Eu só pensei...

— Vai pro teu quarto, garoto. — apontou novamente a bengala. — E não sai mais de lá.

Resmungando sozinho, Afonso entrou no elevador. A porta já estava quase fechando quando ouviu o rapaz gritar do outro lado do saguão:

— BOA SORTE, SENHOR AFONSO! TÔ NA TORCIDA!

A porta quase fechou, quase. A bengala entrou no meio, impedindo o elevador de subir.

Afonso saiu do elevador fervendo e caminho até para bem na frente do rapaz.

— Escuta aqui.

— Sim, senhor.

— Nada de ser x9. Não conta nada pro Renato.

O rapaz abriu um sorriso enorme.

TAC!

A bengalada acertou em cheio a canela dele.

— AI!

O rapaz pulou segurando a perna.

Afonso continuava sério.

— Sem sorriso.

Ainda massageando a canela, o rapaz fez um esforço enorme para recuperar a compostura.

— Sim, senhor Afonso...

Afonso entrou novamente no elevador ainda resmungando. A porta mal havia se fechado e ele já começou a praguejar sozinho.

— Mulher doida...

Apoiou as duas mãos sobre a bengala enquanto o elevador iniciava a subida lentamente.

Não conseguia entender.

Fazia dias que pensava naquela conversa. Na cabeça dele, aquilo era a coisa mais lógica do mundo. Dois velhos, os dois viúvos, os dois praticamente morando na mesma casa, gostando da companhia um do outro. Qual era o problema? Não tinha pedido casamento. Não tinha falado em romance. Muito menos em substituir Maria Lúcia ou o marido dela.

Só tinha dito a verdade.

Precisava da companhia dela.

Só isso.

Bufou.

— Que foi que deu naquela velha?

Olhou para o teto espelhado do elevador, como se a resposta estivesse escrita ali.

— Será que passou mal?

Pensou por alguns segundos.

— Também... misturou uns quinze queijo diferente...

Fez uma careta.

— Deve tá com um piriri.

Assentiu sozinho, completamente convencido da própria teoria.

— Só pode.

Quando o elevador parou no andar da suíte, Afonso saiu apoiado na bengala, ainda sentindo o quadril reclamar a cada passo mais comprido. No corredor, uma das portas permanecia entreaberta. Em qualquer outro dia ele certamente teria parado ali mesmo para chamar a atenção das suas babás. Dessa vez passou direto. Nem disposição para reclamar ele tinha.

Seguiu pelo corredor no ritmo mais rápido que seu corpo permitia. Na juventude teria percorrido aquela distância em poucos segundos. Agora cada passo precisava ser calculado para não provocar outra fisgada no quadril.

Finalmente chegou à porta da suíte.

Girou a maçaneta.

Nada.

Franziu a testa.

Tentou outra vez.

A porta continuou imóvel.

— Ué...

Girou com mais força.

Nada.

Tentou uma terceira vez, já impaciente.

— Ah, qual é...

Sacudiu a maçaneta algumas vezes.

A porta estava trancada pelo lado de dentro.

Afonso ficou parado encarando a fechadura como se ela tivesse cometido uma ofensa pessoal. Depois bateu com os nós dos dedos.

— OLÍVIA.

Silêncio.

Bateu outra vez.

— Ô, OLÍVIA... ABRE AÍ.

Demorou alguns segundos até ouvir a voz dela do outro lado.

— Num entra, não.

Afonso piscou, olhou para a porta. Depois para a própria mão ainda segurando a maçaneta.

— COMO É QUE É?

— Num entra.

Ele começou a perder a paciência.

— Tá maluca, mulher? Esse quarto também é meu.

— Hoje, não.

Afonso soltou uma risada desacreditada.

— Hoje, não?

Esperou que ela abrisse a porta e dissesse que era brincadeira.

Nada.

Voltou a bater, dessa vez um pouco mais forte.

— Abre isso.

— Num vô abrir.

— E eu vou dormir onde?

Silêncio.

Afonso esperou alguns segundos.

— OLÍVIA?

Nada.

— Ô!

Nenhuma resposta, respirou fundo. Bateu mais duas vezes.

— TÁ OUVINDO?

Continuou apenas o silêncio do outro lado da porta.

Afonso ficou alguns instantes olhando para a madeira, completamente incrédulo.

Passou a mão pelo rosto devagar.

— Inacreditável...

Resmungou mais algumas coisas que nem ele mesmo entendeu e voltou mancando pelo corredor.

Passou diante da porta entreaberta do quarto ao lado. Lembrou-se, com profundo desgosto, de quem estava hospedado ali.

O médico.

Uma das babás enviadas por Renato.

Bateu duas vezes.

Poucos segundos depois, o rapaz abriu a porta.

Assim que viu Afonso parado ali com a mala de mão e a expressão fechada, arregalou discretamente os olhos.

— Senhor Afonso?

Afonso entrou sem esperar convite.

Olhou o quarto, depois olhou novamente para o médico.

Suspirou profundamente.

— Não comenta.

O rapaz abriu a boca para perguntar alguma coisa.

Afonso ergueu um dedo.

— Nem... uma... palavra.

O médico fechou a boca imediatamente.

Afonso caminhou até a cama, sentou-se devagar por causa do quadril e ficou alguns segundos olhando para o nada.

Depois balançou a cabeça, completamente inconformado.

— Expulso… — olhou para o médico. — Eu fui expulso do meu próprio quarto.

O rapaz mordeu a parte de dentro da bochecha para segurar o riso.

Afonso apontou a bengala para ele sem nem levantar a voz.

— Nem pensa.

O médico engoliu o sorriso na mesma hora.

— Sim, senhor.

Afonso recostou-se na cabeceira, cruzou os braços e soltou um último resmungo antes de apagar a luminária.

— Sem comentários...