O CEO que Eu Paguei
254 Por Mim, Tudo Bem
Olívia mal dormiu durante a noite. Tentou deitar de um lado, depois do outro, puxou o cobertor quando sentiu frio e tornou a empurrá-lo para os pés quando começou a sentir calor, mas nada adiantava. Bastava fechar os olhos para voltar àquela mesa, às luzes amareladas espalhadas pelo deck, ao bosque escuro atrás de Afonso e, principalmente, àquela conversa que ainda parecia absurda demais para ter acontecido de verdade. Em alguns momentos, chegava a pensar que talvez tivesse entendido tudo errado. Afonso podia ter querido dizer outra coisa, qualquer outra coisa, mas então as palavras voltavam exatamente como ele havia dito, sem deixar espaço para muita interpretação. Seja minha companheira. Não preciso de amor. Preciso de você. Apenas você. Olívia escondeu o rosto quente atrás das mãos e soltou um gemido baixinho de vergonha. Meu Deus do céu. Aquilo parecia coisa de filme de romance. Um homem que tinha se interessado por ela quando os dois ainda eram jovens reaparecia quase setenta anos depois, quando ambos já tinham vivido uma vida inteira, e dizia que ainda queria aquela mesma mulher ao lado dele. Se alguém contasse uma história daquelas para Olívia, ela provavelmente diria que era invenção. Coisa de televisão. E, no entanto, tinha acontecido com ela. Justamente com ela.
José nunca fora romântico daquele jeito. Seu veinho tinha sido um homem carinhoso, trabalhador, bom marido e um pai maravilhoso, mas nunca fora de fazer declarações. Olívia também nunca esperou que fosse. Durante toda a vida acreditou que aqueles homens que apareciam na televisão dizendo coisas bonitas, levando flores sem motivo e fazendo discursos apaixonados simplesmente não existiam no mundo real. Homem de verdade demonstrava amor de outro jeito. José perguntava se ela tinha comido, levantava cedo para resolver um problema antes que ela sequer descobrisse que ele existia, trazia alguma coisa do mercado porque lembrara que ela gostava, fazia questão de acompanhá-la quando precisava sair e, quando percebia que estava cansada, mandava sentar enquanto ele terminava o serviço. Nunca precisou dizer que não conseguia viver sem ela, porque Olívia sabia. Talvez por isso nunca tivesse sentido falta de romantismo. Só que agora, deitada naquela cama e lembrando da maneira como Afonso olhara diretamente para ela antes de dizer que precisava dela, começava a desconfiar de que aquelas coisas de filme mexiam um bocado com a cabeça de uma mulher, mesmo quando a mulher já tinha idade suficiente para saber que a vida não era novela.
O mais estranho era pensar que tudo aquilo talvez tivesse começado quando eram praticamente duas outras pessoas. Olívia já não se lembrava direito dos detalhes do rapaz que conhecera tantos anos atrás. O tempo tinha levado muita coisa. Algumas lembranças haviam perdido os rostos, outras tinham se misturado, e havia acontecimentos que pareciam pertencer à vida de outra mulher. O que permanecera com uma nitidez terrível eram as palavras cruéis que Afonso lançara contra ela e sua família depois de ser rejeitado. Durante anos, ela quase não pensou mais naquele homem, até que Henrique morreu e aquelas palavras voltaram como uma maldição. Foi assim que Afonso Monteiro permaneceu guardado em sua memória: não como o rapaz que um dia demonstrara interesse por ela, mas como o homem arrogante e cruel que desejara desgraça à sua família. Só que agora começava a perceber que, pelo menos para ele, aquela história talvez nunca tivesse desaparecido completamente. Afonso lembrava da rejeição. Lembrava dela. Lembrava de coisas que a própria Olívia mal conseguia reconstruir. Setenta anos tinham passado, ele conhecera Maria Lúcia, apaixonara-se, casara, tivera filhos, construíra uma família, envelhecera ao lado daquela mulher e, ainda assim, guardara Olívia em algum cantinho da memória. Não como o grande amor que nunca teve, ela não era boba a esse ponto, mas como alguém que fizera parte da história dele. E agora o destino, que às vezes parecia ter um senso de humor muito esquisito, colocara os dois debaixo do mesmo teto.
Será que ela poderia mesmo se envolver com Afonso? Só pensar naquilo já fazia Olívia sentir vergonha. Os dois eram velhos. Não velhos daquele jeito bonito que as pessoas diziam para agradar, chamando de "jovens de espírito". Eram velhos mesmo. Tinham dores, remédios, limitações, filhos adultos, netos e até um bisneto que os dois praticamente disputavam. Tinham sido casados com outras pessoas durante décadas e enterrado aqueles que realmente amaram. Como seriam vistos se, de repente, aparecessem envolvidos um com o outro? O que os filhos dela diriam? E os netos? Meu Deus, o que Helena diria? Olívia imaginou a expressão da neta ao descobrir que a avó estava... namorando? Era isso? Ela nem sabia como chamar. Só a palavra fez seu rosto esquentar novamente. Namorar Afonso Monteiro. Que coisa mais ridícula. Talvez nem fosse namoro. Ele tinha pedido que fosse sua companheira, e aquilo parecia ao mesmo tempo mais sério e ainda mais constrangedor. Apesar de toda a vergonha, porém, uma parte dela começava a pensar que talvez não houvesse nada de errado em dar uma chance a alguma coisa naquela fase da vida. José tinha partido. Maria Lúcia também. Os filhos seguiram seus caminhos, os netos estavam construindo suas próprias famílias e, gostando ou não, ainda havia vida pela frente. Talvez fosse permitido ter alguém ao lado durante o tempo que restasse.
O problema era que, entre todos os empecilhos que Olívia conseguia encontrar para aquela história, havia um muito maior do que a opinião dos filhos, dos netos ou de qualquer outra pessoa: ela não sentia nada romântico por Afonso. Não sentia. Podia passar a madrugada inteira tentando encontrar alguma coisa dentro do peito e continuaria chegando à mesma conclusão. Nunca teve vontade de beijá-lo, nunca ficou esperando que ele tocasse sua mão e não sentia aquelas coisas que lembrava de ter sentido por José quando ainda eram jovens. Além disso, Afonso era um homem extremamente enjoado. Mandão, arrogante, grosseiro, impaciente e dono de uma capacidade impressionante de dizer exatamente aquilo que não deveria ser dito. Também tinha sido muito maldoso ao longo da vida, e Olívia não pretendia fingir que algumas semanas de convivência apagavam tudo o que sabia sobre ele. Só que, de alguma forma que ela ainda não conseguia explicar, gostava da companhia daquele velho. Gostava de tomar café com ele, de discutir por bobagem, de caminhar devagar ao lado dele e até de ouvi-lo contar as mesmas histórias mais de uma vez. Afonso repetia muito as histórias agora. Às vezes começava uma e Olívia já sabia exatamente como terminaria, mas nunca avisava que tinha ouvido. Gostava demais da maneira como ele mudava quando falava da família.
Uma das histórias favoritas dela era a dos peixes. Afonso tinha um lago enorme em sua propriedade no Rio, cheio de peixes ornamentais dos quais se orgulhava como se tivesse criado cada um desde o nascimento. Segundo ele, havia exemplares tão bonitos e antigos que colecionadores de várias partes do Brasil iam até lá e tentavam negociar, mas ele nunca vendia. Alguns tinham doze anos. Olívia já tinha ouvido essa informação tantas vezes que provavelmente saberia contar a história inteira no lugar dele. Em uma época de frio no Rio, Afonso chegou em casa e encontrou Heitor ainda criança na varanda, completamente molhado, tremendo e cercado por um monte de toalhas. De início, achou que o neto tivesse caído no lago, mas, quando chegou mais perto, descobriu algo muito pior: Heitor havia tirado os peixes da água e enrolado cada um deles cuidadosamente nas toalhas porque estava preocupado que sentissem frio. Olívia sempre começava a rir antes mesmo de Afonso chegar nessa parte, principalmente porque ele ainda parecia pessoalmente ofendido décadas depois. Dizia que aqueles peixes eram valiosíssimos, que tinha gente atravessando o país para tentar comprá-los, e o neto quase matou todos de uma vez porque resolveu que peixe precisava de cobertor. Por sorte, Afonso conseguiu colocá-los de volta no lago a tempo e salvar todos, mas Heitor levou umas boas palmadas. Olívia sempre brigava com ele quando chegava nessa parte, dizia que o menino só estava tentando ajudar, e Afonso respondia indignado que "ajudar uma ova", porque qualquer criança com um mínimo de inteligência deveria saber que peixe precisava ficar dentro d'água. Ela gostava da história, mas gostava ainda mais de vê-lo contando. Afonso ria de verdade quando falava de Heitor pequeno, e por alguns minutos aquele homem tão duro desaparecia.
Ele também adorava falar de Renato. Contava que, quando o filho aprendeu a escrever, descobriu uma forma muito mais sofisticada de demonstrar raiva do pai: começou a deixar bilhetes pela casa. Afonso ainda lembrava de palavra por palavra e sempre repetia o seu favorito com um orgulho que Olívia achava engraçadíssimo: "Estou bravo com você. Não fale comigo. Boa noite." Renato conseguia expulsar o pai da própria vida e ainda desejar boa noite no final. Afonso ria toda vez que contava, dizendo que o filho sempre tinha sido educado até para mandar alguém para o inferno. Olívia percebia, nesses momentos, uma ternura que ele tentava esconder atrás das piadas. Afonso podia falar de empresas, dinheiro, política e todas as coisas grandiosas que tinha feito, mas nenhuma história deixava seus olhos tão vivos quanto aquelas bobagens dos filhos quando pequenos.
Com Suzana era diferente. Bastava mencionar a filha falecida para alguma coisa mudar nele. A voz ficava mais baixa e as histórias vinham acompanhadas de uma saudade que Olívia reconhecia imediatamente, porque certas dores não precisavam ser explicadas para quem também enterrara um filho. Suzana tinha mania de esconder as coisas do pai sempre que descobria que ele precisaria viajar. Sumiam chaves, documentos, sapatos, gravatas, qualquer objeto que, na cabeça de uma criança, pudesse impedir Afonso Monteiro de sair de casa. Maria Lúcia brigava com a menina, mandava devolver, e Suzana começava a chorar dizendo que, se o pai não encontrasse suas coisas, não conseguiria ir embora. Afonso sempre dizia que nunca conseguiu repreendê-la por aquilo. Podia estar atrasado, podia ter gente esperando, podia ser a reunião mais importante do mundo, mas acabava pegando a filha no colo e tentando explicar por que precisava viajar. Uma vez, depois de contar essa história, ficara algum tempo em silêncio antes de dizer que era feliz por Suzana nunca ter conhecido as partes ruins dele. Olívia não perguntou quais eram. Conhecia algumas. Talvez nem quisesse conhecer as outras. Mas nunca esqueceu da expressão dele ao dizer aquilo.
A história que mais a fazia rir, porém, era justamente uma consequência das viagens de Afonso. Renato e Suzana chegaram à conclusão de que a mãe precisava de um marido novo. Para as crianças, a lógica era perfeita: o pai vivia viajando, Maria Lúcia ficava sozinha e, portanto, precisava arrumar outro homem que permanecesse em casa. Resolveram, então, tomar providências por conta própria e começaram a entrevistar funcionários e amigos da família para descobrir quem poderia ocupar a vaga. Perguntavam se o candidato gostava de criança, se sabia cuidar de mulher e se estaria disposto a morar com eles. Afonso só descobriu a operação porque um conhecido resolveu provocá-lo e disse, na maior tranquilidade, que ele podia continuar viajando porque cuidaria muito bem de sua esposa enquanto estivesse fora. Mesmo décadas depois, Afonso ainda ficava possesso contando aquela parte. Dizia que o homem tivera coragem de falar aquilo olhando diretamente na cara dele. Olívia ria até os olhos lacrimejarem e sempre dizia que a culpa era dele por viajar tanto, enquanto Afonso insistia que estava trabalhando e não tinha culpa nenhuma se os próprios filhos tinham resolvido arrumar um substituto. Quanto mais indignado ficava, mais ela ria, até que ele também acabava rindo.
Era isso que confundia Olívia.
Afonso Monteiro continuava sendo aquele homem difícil que ela conhecia. Conviver com ele não havia apagado sua crueldade, nem transformado seu passado numa coisa bonita. Mas havia mostrado outras partes que ela nunca conhecera. O marido que amara Maria Lúcia durante uma vida inteira. O pai que guardava bilhetes de Renato. O homem que ainda sentia falta da filha morta. O avô que quase teve um infarto ao encontrar Heitor tentando aquecer peixes com toalhas e que, tantas décadas depois, contava a história rindo. Existia muito mais dentro daquele velho do que a lembrança terrível que Olívia carregara por tantos anos, e talvez fosse justamente isso que tornava tudo tão complicado. Ela não estava apaixonada por Afonso. Tinha certeza disso. Mas gostava dele. Gostava mais do que deveria. Gostava quando ele aparecia, gostava de conversar, gostava das histórias repetidas e até sentia falta das reclamações quando passavam algumas horas separados.
Olívia tornou a se virar na cama e ficou olhando para o quarto escuro. Talvez fosse por isso que aquelas palavras tinham mexido tanto com ela. Não porque amasse Afonso, mas porque, depois de perder José, nunca imaginara que voltaria a ser importante daquele jeito para homem nenhum. Era mãe, avó, amiga, alguém de quem os filhos e netos gostavam e precisavam, mas aquilo era diferente. Afonso não precisava que ela cozinhasse, limpasse, cuidasse dos remédios ou fizesse qualquer coisa por ele. Tinha dinheiro suficiente para contratar dez pessoas para cada uma dessas tarefas. Ele podia escolher praticamente qualquer companhia que quisesse. Ainda assim, sentado diante dela, simplesmente dissera que precisava dela. Olívia sentiu o rosto esquentar novamente e puxou o cobertor até quase cobrir a cabeça. Por mais que tentasse transformar aquilo numa proposta entre dois velhos solitários, a frase continuava soando igual dentro da cabeça.
— Preciso de você. Apenas você.
— Ai, meu Deus do céu... — murmurou, apertando os olhos.
Ela não ia dormir naquela noite de jeito nenhum.
Afonso Monteiro acordou cedo no dia seguinte, como fazia praticamente todos os dias havia décadas. Não precisava de despertador. O corpo simplesmente despertava antes do restante da casa, como se ainda obedecesse à rotina de um homem que passou a vida inteira começando o dia antes de todo mundo. Abriu os olhos devagar, estranhando por alguns segundos o teto que não reconhecia, até lembrar onde estava e, principalmente, por que tinha dormido no quarto do médico. A noite anterior fora um verdadeiro inferno. Quando o rapaz finalmente olhou direito para o vergão enorme na testa, quase entrou em pânico. Perguntou se Afonso tinha sentido tontura, enjoo, fraqueza em algum dos lados do corpo, dificuldade para falar, visão turva. Afonso respondeu que não sentira porcaria nenhuma além da pancada, mas aquilo não foi suficiente. O médico começou a falar em risco de traumatismo, sangramento e até AVC, e em poucos minutos estava praticamente tentando arrastá-lo para fora do hotel. Afonso resistiu o quanto pôde, reclamou, xingou, disse que não pisaria em hospital por causa de um galo na cabeça, mas o desgraçado parecia genuinamente preocupado. E quando um médico começa a parecer preocupado demais, até um homem como Afonso passa a considerar a possibilidade de realmente estar morrendo.
Acabou cedendo. Fizeram exames, uma ressonância e mais uma porção de coisas que ele considerou completamente exageradas. Enquanto aguardava os resultados, começou a sentir uma ansiedade que não admitiria nem sob tortura. De repente qualquer pequena pressão na cabeça parecia suspeita. A mão parecia mais pesada. A perna parecia estranha. Chegou a mexer os dedos várias vezes só para confirmar que todos obedeciam. O médico percebeu, é claro, mas teve a decência de não comentar. No fim, não havia nada grave, apenas o inchaço e o machucado causado pela pancada, mas o rapaz ainda insistiu em fazer um curativo e disse que queria observá-lo durante a madrugada. Afonso achou aquilo um absurdo. Dormir no mesmo quarto que um desconhecido já era desconfortável o suficiente; pior ainda era acordar no meio da noite e encontrar o sujeito praticamente conferindo se ele ainda respirava. Em determinado momento, abriu os olhos e viu o médico sentado na poltrona olhando na direção da cama, e quase mandou o homem para o inferno. Odiava aquilo. Odiava ser tratado como frágil. Odiava ainda mais saber que, por causa da idade, todos tinham razão em ficar preocupados.
Foi ao banheiro e fechou a porta atrás de si. Encontrou uma escova de dentes nova sobre a bancada, ainda embalada, provavelmente providenciada por alguém da equipe do hotel. A eficiência das pessoas ao redor dele continuava sendo impressionante. Sempre havia uma escova, uma camisa, um remédio, uma toalha, qualquer coisa que ele pudesse precisar antes mesmo de pedir. Escovou os dentes em silêncio e, quando ergueu os olhos para o espelho, fez uma careta. A faixa na cabeça tornava tudo muito pior. Parecia um velho que tinha acabado de perder uma luta de rua. Aproximou o rosto do espelho, observando o inchaço ao redor do curativo, e bufou. Não precisava daquilo. Já estava com o quadril ruim, agora tinha a cabeça enfaixada. Se continuasse daquele jeito, até o fim da viagem voltaria para o Rio desmontado em partes. Pelo menos esperava que Olívia tivesse parado com a besteira da noite anterior. Ainda não entendia o que tinha dado naquela mulher. Pensou alguns segundos e voltou à mesma conclusão de antes: provavelmente o fondue. Aquela mistura de queijo, carne, chocolate e vinho talvez realmente tivesse feito mal.
Quando saiu do banheiro, já havia roupas novas cuidadosamente dobradas sobre uma cadeira. Uma calça, uma camisa de malha, meias e até um casaco adequado para o frio. Afonso ficou olhando aquilo por alguns segundos antes de balançar a cabeça. As pessoas que trabalhavam para Renato eram assustadoramente eficientes. Vestiu-se devagar, mais por causa do quadril do que por qualquer outra coisa, e mal tinha terminado de abotoar a camisa quando o celular começou a tocar. Olhou a tela. Renato. Claro. No mesmo horário de sempre.
— Bom dia, pai.
Afonso sentou-se na beirada da cama.
— Bom dia só se for pra você. Essa tua equipe ainda vai acabar comigo.
Renato soltou uma pequena risada do outro lado.
— E a cabeça?
— Melhor.
— Qualquer coisa avisa o pessoal. O médico disse que—
— Eu já ouvi o médico umas cinquenta vezes.
— Pai, o que aconteceu afinal? O senhor caiu?
Afonso ficou em silêncio por um segundo. Nem morto diria que uma senhora mineira tinha arremessado um celular na cabeça dele porque ficou irritada.
— Trombei no alizar da porta.
Renato soltou o ar de forma cansada.
— Pai...
— Quê?
— O senhor tem que tomar mais cuidado.
— Eu sei, eu sei — cortou imediatamente. — Não começa.
Renato pareceu aceitar a derrota.
— Tá. Outra coisa.
— Lá vem.
— O senhor precisa parar de falar que o Heitor e o Humberto são a cara da Celina. Sabe como ela fica se achando quando o senhor fala isso.
Afonso abriu um sorriso satisfeito.
— É estratégia, Renato.
— Estratégia?
— Claro.
— Que estratégia?
— Falo isso pra incentivar a Helena a engravidar de novo. Nenhuma mulher gosta da sogra se achando.
Houve alguns segundos de silêncio do outro lado.
— Pai... isso não faz sentido nenhum.
— Faz, sim.
— Não faz. O Heitor realmente puxou muito a minha mãe e a Celina. E o Humberto, consequentemente, lembra as duas também. Mesmo que eu consiga ver um pouco da Helena nele.
Afonso fez uma careta.
— Bobagem. A Helena tem que ter outros filhos até sair um parecido com ela.
— Não funciona assim.
— Funciona se tentar bastante.
Renato riu.
— O mundo não funciona mais assim.
— Eu só tô pensando no futuro da família.
— Helena comentou com a Celina que depois que ela casar com o Heitor, eles pretendem arrumar mais um.
Afonso se animou imediatamente.
— E quando vai ser esse casamento?
— Ainda não marcaram.
— Como não marcaram? Nem a rainha da Inglaterra demorou tanto pra casar.
— A rainha da Inglaterra já morreu, pai.
— Tu entendeu o que eu quis dizer.
Renato riu novamente.
Ficaram mais algum tempo falando sobre a família até o assunto inevitavelmente chegar à empresa. Mesmo depois de tantos anos, Renato ainda tinha o hábito de reportar algumas coisas ao pai. Não tudo. Afonso já não ocupava cargo ativo havia muito tempo e sabia que aquela fase tinha terminado, mas Renato ainda comentava sobre decisões importantes, projetos, algumas movimentações e situações que considerava relevantes. Afonso gostava daquilo muito mais do que demonstrava. Era uma forma de ainda se sentir parte da empresa que tinha construído praticamente do nada. Gostaria que Heitor fizesse um pouco mais aquilo também. O neto assumira naturalmente o próprio espaço, tinha jeito para negócios e uma independência que Afonso admirava, mas às vezes parecia esquecer que o velho ainda gostava de saber o que estava acontecendo.
Heitor era seu único neto e já não era nenhum jovem. Durante anos, Afonso chegou a acreditar que morreria sem conhecer um bisneto. Aquela possibilidade o incomodava profundamente. Quando Heitor ainda namorava Marcela, ele inventava qualquer desculpa para aparecer no apartamento do neto. Uma vez encontrou o esconderijo dos preservativos e teve uma ideia que, até hoje, considerava excelente: furou vários. Não funcionou. Tentou novamente em outra ocasião. Também não funcionou. Aquilo o deixava indignado. Parecia que o universo inteiro conspirava contra ele. Chegou a dizer a Heitor que, estando noivos, não havia necessidade nenhuma de continuar usando preservativo. Heitor apenas concordava com a cabeça, como fazia quando queria encerrar uma conversa, e continuava exatamente igual.
Por isso, quando soube que Heitor estava envolvido com Helena, sua primeira reação foi péssima. Não gostou da ideia. Não gostou nada. Para ele, Helena era apenas uma funcionária terceirizada, discreta demais, sem garra aparente, o tipo de mulher que ficaria sentada em algum canto bonito da casa servindo de decoração. Afonso não queria aquilo para o neto. Foi contra o relacionamento e chegou ao ponto de iniciar uma votação para afastar Heitor da empresa. Quase conseguiu. Na época achava que estava fazendo o melhor para a família. Hoje via como tinha se enganado. Helena era muito mais forte do que parecia. Tinha personalidade, defendia o que acreditava e, acima de tudo, era uma pessoa extremamente ligada à família. Isso, para Afonso, valia muito. Não era importante para ele que Heitor fosse feliz num relacionamento. Nunca foi o tipo de homem que colocava felicidade acima de estabilidade, legado ou família. Mas o fato de Heitor ser feliz com Helena era um bônus excelente.
Além disso, Afonso tinha reparado em uma coisa muito importante.
Nunca encontrou preservativos na mansão de Heitor.
Nem um.
Também nunca viu anticoncepcionais entre os remédios de Helena.
Aquilo o deixava profundamente otimista.
Se os dois estavam realmente falando em ter outro filho depois do casamento, havia uma chance muito boa de ele ainda conhecer mais um bisneto antes de morrer. Talvez dois. Quem sabia três. Heitor ainda tinha saúde, Helena era jovem e eles claramente gostavam um do outro bastante o suficiente para fazer a parte boa do processo com frequência.
Afonso sorriu sozinho.
Aquilo o animava.
Talvez o próximo finalmente puxasse alguma coisa dele.
Afonso saiu do quarto tentando não parecer tão satisfeito com a manhã. Não que tivesse algum motivo específico para estar animado, dizia para si mesmo, mas talvez fosse simplesmente porque finalmente sairia daquele quarto infernal onde passara a noite sendo observado por um médico como se pudesse morrer a qualquer instante. Assim que puxou a porta atrás de si, ouviu outra maçaneta girar no mesmo corredor e, quase ao mesmo tempo, Dona Olívia apareceu saindo dos aposentos que deveriam ter sido dos dois. Ela fechou a porta, ajeitou a bolsa no ombro e, quando virou o rosto, parou imediatamente ao vê-lo. Os olhos correram direto para a faixa na cabeça de Afonso e a expressão mudou de uma vez.
— Meu Deus do céu... o que aconteceu com sua cabeça?
Afonso passou por ela como se nada fosse.
— Resolvi mudar de visual.
Olívia veio logo atrás, ainda olhando para o curativo.
— Tô falando sério, Afonso.
— Eu também.
Ele finalmente parou e olhou melhor para ela. A satisfação que sentia por estar fora do quarto desapareceu um pouco quando percebeu a cara da mulher. Olheiras profundas, cabelo preso de qualquer jeito e uma expressão que parecia ter atravessado a noite carregando saco de cimento.
— E que cara é essa? — perguntou, franzindo a testa. — Parece que envelheceu uns dez anos de ontem pra hoje.
Olívia fez uma careta.
— Tô cum fome.
Afonso soltou o ar pelo nariz.
— Então vamos comer antes que envelheça mais dez.
Começaram a caminhar lado a lado pelo corredor. Ele mantinha o passo mais lento por causa do quadril, mas já sentia muito menos dor do que no dia anterior. Olívia, como sempre, acompanhava sem perguntar se precisava de ajuda, o que já a colocava muitos pontos acima de todo mundo daquela equipe de Renato.
— E tua barriga? — perguntou Afonso depois de alguns metros.
Olívia virou o rosto.
— Minha barriga?
— Tá melhor?
— Minha barriga tá boa.
— Ainda bem. Quero dormir no meu quarto hoje.
Ela apertou os lábios.
— Aquilo num teve nada a ver com minha barriga.
Afonso arqueou uma sobrancelha.
— Acho bom mesmo.
Olívia olhou para ele como se quisesse responder alguma coisa, mas desistiu. Melhor assim. Afonso também não estava com disposição para entender outro ataque inexplicável daquela mulher logo cedo.
Desceram e, em vez de tomar café no hotel, decidiram atravessar algumas ruas até um café que Afonso conhecia havia muitos anos. O lugar tinha mudado bastante desde a última vez em que estivera ali, mas conservava as grandes janelas de vidro voltadas para as araucárias e aquele cheiro forte de café recém-passado misturado a pão quente que parecia grudar na roupa. Sentaram-se próximos à janela, e Afonso começou a olhar o cardápio com uma atenção quase ofensiva. Pediu café preto, ovos, pão, frutas e, depois de descobrir que havia uma vitrine inteira de tortas artesanais, decidiu provar seis sabores diferentes. Olívia arregalou os olhos quando o garçom confirmou o pedido, mas Afonso fingiu não perceber. Ele sempre acreditara que uma viagem só valia a pena quando se comia direito.
Enquanto esperavam, resolveu observar Dona Olívia por cima do cardápio.
Ela continuava com aquela cara estranha.
— Sonhou com quê?
Olívia pareceu surpresa.
— Quê?
— Essa noite. Sonhou com quê?
— Num sonhei, não.
— Tu sonha toda noite.
— Eu quase num dormi.
Afonso abaixou o cardápio.
— Ah. — assentiu devagar, como se tivesse acabado de resolver um mistério. — Foi consciência pesada.
Ela estreitou os olhos.
— Consciência pesada do quê?
— De me deixar trancado do lado de fora.
Olívia bufou.
— Num foi isso.
— Então foi o quê?
Ela ficou mexendo no guardanapo dobrado sobre a mesa. Demorou mais do que deveria para responder.
Afonso começou a desconfiar de que vinha algo ruim.
— Eu fiquei pensando no que ocê falou ontem.
— Que parte?
Ela lançou um olhar rápido para os lados.
— Da... companhia.
— Ah.
Afonso se recostou na cadeira, esperando.
Olívia respirou fundo.
— Eu queria ser só sua amiga.
Ele ficou olhando para ela.
Esperou o restante.
Nada.
— E?
— E eu num quero ser sua companheira.
Afonso continuou encarando. Olívia parecia nervosa. Ele tentou entender e não conseguiu.
— Mas amiga e companheira é praticamente a mesma coisa.
Ela piscou.
— Num é, não.
— É claro que é.
— Num é.
— Então qual é a diferença?
Olívia abriu a boca, fechou. Afonso esperou. Ela claramente não tinha resposta.
— Viu?
— Tem diferença, sim.
— Qual?
— Tem.
— Tá.
Ele deu de ombros. Não tinha energia para discutir semântica às nove da manhã.
— Por mim, tudo bem.
Olívia pareceu surpresa com a facilidade.
— Tudo bem?
— Tudo bem.
— Só isso?
— Tu queria o quê? Que eu chorasse?
Ela ficou vermelha.
— Num tô falando isso.
— Então pronto.
O garçom começou a trazer a comida, interrompendo a conversa por alguns instantes. Afonso abriu espaço para os pratos e imediatamente se interessou muito mais pelas tortas do que pelo assunto. A primeira era de maçã com canela, a segunda de nozes, havia uma de chocolate amargo, outra de frutas vermelhas, uma de limão e uma última que ele já nem lembrava o nome. Pegou o garfo e começou pela de nozes.
Olívia ainda parecia inquieta.
— E agora?
Afonso mastigou.
— Agora o quê?
— O que acontece?
Ele apontou o garfo na direção dela.
— A gente toma café.
Ela suspirou.
— Depois disso, Afonso.
Ele engoliu.
— Depois a gente continua o passeio. Ainda faltam três dias. Depois nós voltamos pra casa do Heitor.
Olívia ficou olhando para ele como se esperasse mais alguma coisa.
Afonso provou a torta de maçã. Era muito boa.
— Só isso?
— Olívia, tu tá esperando o quê exatamente?
Ela baixou a voz.
— Eu fiquei feliz com as coisa que ocê falou ontem.
Afonso parou o garfo no ar. Olívia continuou, ainda sem jeito.
— Só num quero que ocê fique falando esse tipo de coisa na frente dos outro.
Ele nem respondeu. Passou para a torta de chocolate. Aquilo estava ficando cada vez mais estranho. Na cabeça dela, parecia que a amizade dos dois era algum tipo de atividade clandestina.
Afonso mastigou devagar, olhando de lado.
— Por que tu tá fazendo isso?
— Fazendo o quê?
— Essa cara. Falando baixo. Parece que tem vergonha de mim.
Olívia arregalou os olhos.
— Eu num tenho vergonha de ocê.
— Parece.
— É que… — ela mexeu novamente no guardanapo. — Acho que ocê nunca teve amigo direito.
Afonso largou o garfo.
— Como é?
— Num fica bravo.
— Tu acabou de falar que eu nunca tive amigo.
— Eu falei "direito".
— Pior ainda.
Olívia tentou esconder um sorriso.
— Eu posso te ensinar.
Afonso ficou ofendido de verdade.
— Me ensinar a ter amigo?
— Uai.
— Olívia, eu sempre tive muitos amigos.
Ela fez uma expressão duvidosa.
— Sei não.
— Eu sou um cara popular.
— Afonso...
— Todo mundo quer ser meu amigo.
Olívia olhou ao redor, depois voltou a encará-lo.
— Num sei disso, não.
Ele apontou o garfo para ela.
— Tu precisa fazer um exame novo de vista.
— Minha vista tá boa.
— Tá ceguinha.
— Num tô.
— Ontem tava com piriri, hoje tá ceguinha. Essa viagem tá acabando contigo.
Olívia abriu a boca, horrorizada.
— Afonso!
Algumas pessoas nas mesas próximas olharam.
Ela imediatamente abaixou a voz.
— Fala baixo. Todo mundo tá olhando.
Afonso olhou ao redor e realmente estavam. Um sorriso maldoso começou a surgir devagar no rosto.
Olívia percebeu tarde demais. Ele ergueu um pouco mais a voz.
— Tomara que hoje tu não tenha outro piriri e deixe nós dois presos no hotel de novo!
— Afonso!
Agora três mesas já estavam olhando. Um casal mais jovem tentou esconder o riso. Olívia ficou vermelha até as orelhas.
— Para com isso!
Afonso começou a rir.
— Que foi? Tô preocupado com tua saúde.
— Ocê é um velho sem-vergonha!
— Tô só cuidando de você.
Ela cobriu parte do rosto com a mão enquanto ele ria ainda mais.
Afonso estava se divertindo como não se divertia havia muito tempo. Havia alguma coisa extremamente prazerosa em descobrir exatamente quais botões apertar para deixar Olívia constrangida, principalmente porque ela ficava com aquele sotaque mineiro ainda mais forte quando estava brava.
Foi então que ouviu um ruído, não do local, de dentro dele.
O sorriso desapareceu, Afonso ficou imóvel. E então veio outro barulho. Dessa vez acompanhado por uma movimentação muito suspeita no estômago.
Cacete.
Olívia continuava reclamando.
— E ainda fica rindo...
Afonso levantou uma mão.
— Espera.
Ela parou.
— Quê foi?
Ele não respondeu.
Mais uma contração e ainda mais forte. Afonso arregalou discretamente os olhos.
Não. Aquilo não estava acontecendo.
Olívia percebeu a mudança na expressão dele.
— Afonso?
Ele levantou tão rápido que esqueceu completamente do quadril.
— Ai, cacete! — apoiou uma das mãos na mesa, recuperou o equilíbrio e olhou desesperadamente ao redor. — Onde é o banheiro?
Olívia piscou.
— Uai...
— O banheiro, mulher!
O garçom apontou para o fundo do café.
Afonso pegou a bengala e saiu no ritmo mais rápido que conseguia, numa mistura esquisita de caminhada e corrida que provavelmente parecia ridícula para qualquer pessoa observando.
Atrás dele, ouviu a primeira risada de Olívia e depois outras. Quando chegou quase à porta do banheiro, ainda conseguiu escutar a voz dela:
— Uai, Afonso! Será que num foi o piriri?!
Ele fechou os olhos por um segundo.
Maldita velha.
— Vai pro inferno, Olívia!
Entrou no banheiro sob algumas risadas das mesas próximas.
O feitiço tinha virado contra o feiticeiro.
E, para completa humilhação de Afonso Monteiro, aquele dia de passeio acabou antes mesmo de começar. Passaram praticamente o restante dele no hotel, com Olívia aproveitando a lareira, o bosque e o café da tarde enquanto ele fazia repetidas e pouco dignas viagens entre a cama e o banheiro.
Talvez, no fim das contas, misturar seis tipos de torta no café da manhã não tivesse sido uma das decisões mais brilhantes de sua vida.
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