O CEO que Eu Paguei

255 Um Pouco Bastava


O vídeo de Paulo Medeiros havia atravessado a internet com a velocidade habitual das desgraças alheias. Quando Heitor o assistiu pela primeira vez, já havia cortes do pronunciamento espalhados por páginas de fofoca, perfis políticos, canais de comentários e grupos de mensagem, cada um escolhendo o trecho que melhor servia à própria narrativa. No vídeo original, Paulo estava sentado atrás de uma mesa, sozinho, gravata escura, expressão séria e nenhuma bandeira ou símbolo de campanha atrás dele. Falava devagar, sem improvisar.


Boa noite.

Nas últimas horas, começaram a circular imagens envolvendo membros da minha família e uma profissional que integra a equipe da nossa campanha.

Eu gostaria de falar diretamente com vocês antes que versões, especulações e informações ainda não verificadas ocupem o lugar dos fatos.

Houve, sim, um relacionamento de natureza pessoal entre meu filho Jonas e uma integrante da campanha. Segundo as informações que temos neste momento, Jonas acreditava que essa pessoa estava divorciada. Essa informação está sendo verificada e existem registros que serão devidamente preservados e analisados.

Não vou utilizar este espaço para expor conversas particulares, atacar ninguém ou transformar uma situação familiar dolorosa em espetáculo.

Também não vou usar minha posição para proteger meu filho das consequências das escolhas dele.

Jonas está, a partir deste momento, afastado de todas as atividades da campanha. A profissional envolvida também será afastada preventivamente enquanto os fatos são apurados.

Quero deixar uma coisa muito clara: qualquer informação sobre favorecimento profissional, interferência em contratação ou benefício decorrente desse relacionamento será igualmente apurada. Se houve qualquer irregularidade, ela será tratada como seria com qualquer outra pessoa desta equipe.

Há ainda outras pessoas envolvidas nessa situação. Existe um marido, existem crianças e existem famílias atravessando uma noite extremamente difícil. Elas merecem respeito.

Por isso, peço especialmente que crianças não sejam expostas, perseguidas ou utilizadas em disputas políticas.

Durante toda a minha vida pública, defendi que responsabilidade começa dentro de casa.

Não seria diferente agora.

Meu filho é meu filho. Eu o amo e estarei ao lado dele como pai.

Mas a campanha tem regras.

E elas também valem para ele.

Assim que tivermos informações verificadas, elas serão apresentadas com transparência.

Até lá, não alimentaremos especulações.

Obrigado.


Era um pronunciamento correto, talvez o melhor que pudesse ser feito naquela situação, mas a internet não estava particularmente interessada no que era correto. Algumas horas depois, já circulava a versão de que o governador Paulo Medeiros havia mandado prender um marido traído para que o próprio filho pudesse ficar com a amante. Heitor chegou a olhar aquilo duas vezes, impressionado com a distância que uma história conseguia percorrer entre um fato e uma legenda escrita por alguém atrás de uma tela.

A conversa reservada com ele e Helena havia sido muito menos elegante que o pronunciamento. Paulo estava chateado. Não exatamente com os dois, embora em determinados momentos fosse difícil perceber a diferença, mas com o tamanho que a situação havia adquirido e, principalmente, com o fato de Helena ter acrescentado uma agressão física a uma crise que já possuía elementos suficientes para ocupar a imprensa durante dias. O tapa em Amanda estava registrado, havia testemunhas e não existia estratégia de comunicação capaz de fazê-lo desaparecer. Por orientação jurídica, Helena precisou constituir um advogado próprio, que entrou em contato com a defesa de Amanda para tentar impedir que aquilo se transformasse em outra disputa pública. A conversa caminhou para um acordo e uma indenização. Helena quase explodiu quando soube, se arrependia apenas de não ter batido mais para valer a pena esse dinheiro. Para ela, pagar Amanda depois de tudo o que havia acontecido parecia uma inversão absurda das coisas, e Heitor precisou lembrá-la mais de uma vez de que o dinheiro não tinha absolutamente nada a ver com Jonas. Amanda não estava sendo indenizada por ter mantido um relacionamento com ele, muito menos recebendo qualquer espécie de prêmio. Estava sendo indenizada porque Helena havia lhe dado um tapa na frente de várias pessoas. Eram duas coisas diferentes, por mais que Helena detestasse admitir.

Paulo havia sido igualmente claro sobre isso. Não pretendia permitir que nenhum acordo fosse interpretado como pagamento por silêncio sobre o relacionamento, tampouco queria qualquer cláusula obscura que pudesse alimentar aquela leitura mais tarde. O assunto seria tratado como aquilo que era: consequência da agressão de Helena. E, dali em diante, cautela absoluta. Ninguém da família deveria falar com jornalistas, responder provocações, publicar indiretas ou tentar corrigir versões nas redes sociais. Nada de comentários. Nada de curtidas. Nada de compartilhar postagem de amigo defendendo Jonas. Até uma reação aparentemente inocente poderia virar manchete. Heitor seguiu as recomendações sem dificuldade. Na verdade, aquela era provavelmente a parte mais simples de toda a crise para ele. Entregou as próprias redes para a equipe, orientou seu pessoal a não responder nenhuma abordagem relacionada ao assunto e, paralelamente, chamou seus advogados. Ele e Helena estavam envolvidos demais para depender exclusivamente da estrutura jurídica de Paulo. Era melhor saber exatamente onde terminavam os problemas da família Medeiros e onde começavam os deles.

Jonas, por sua vez, acabou indo passar alguns dias na casa dos pais. A decisão partira principalmente de Lorena, que insistira que ele não deveria ficar sozinho naquele momento. O que Helena achou estranho, porque ela ficava em período integral em casa. Helena não confiava nela. Heitor já percebera isso muito antes de toda aquela confusão e agora via a desconfiança aumentar a cada ligação entre as duas. Ainda assim, Helena aceitava conversar com a mãe porque não tinha muita escolha. Jonas estava sem telefone e praticamente isolado, e Lorena se transformara no único caminho razoavelmente seguro até ele. Era por ela que Helena descobria se o irmão havia dormido, se tinha comido, se estava conversando ou se havia passado o dia inteiro fechado no quarto. Às vezes desligava satisfeita com uma informação banal; outras vezes ficava olhando para a tela apagada do celular como se Lorena tivesse deliberadamente omitido alguma coisa. Heitor não sabia se aquilo era verdade ou apenas Helena sendo Helena. Provavelmente havia um pouco dos dois.

Era justamente Jonas que a preocupava mais. Não a campanha, não as manchetes, não Amanda e, depois de passar a primeira explosão de raiva, nem mesmo a indenização. Helena estava preocupada com o irmão. Heitor a conhecia o suficiente para perceber isso mesmo quando ela tentava esconder a preocupação atrás da irritação. Ela andava pela casa com o telefone na mão, abria conversas que não podia responder, procurava notícias que havia sido expressamente orientada a não procurar e perguntava a Lorena sobre Jonas mais vezes do que gostaria de admitir. Em alguns momentos dizia que queria ir vê-lo. Em outros, dizia que talvez fosse melhor deixá-lo quieto. Heitor não insistia em nenhuma das duas opções. Apenas tentava impedir que ela transformasse ansiedade em alguma nova decisão impulsiva, porque, considerando os acontecimentos dos últimos dias, aquele já seria um avanço considerável.

— Isso vai passar — disse ele certa noite, quando encontrou Helena sentada na cama, olhando outra vez para o celular. — A equipe do Paulo é especializada nisso. Política é praticamente uma sequência de crises com intervalo para eleição.

Helena ergueu os olhos para ele sem achar graça.

— Meu irmão não é uma crise política.

— Eu sei.

E sabia mesmo. Aproximou-se, sentando ao lado dela. Para Heitor, havia uma diferença bastante clara entre o desastre público e o que estava acontecendo dentro daquela família. O primeiro podia ser administrado. Existiam assessores, advogados, pesquisas, estratégias, pronunciamentos e gente muito bem paga cuja profissão consistia justamente em descobrir como fazer uma tempestade durar três dias em vez de três semanas. O segundo era mais complicado. Jonas havia descoberto, de uma maneira particularmente brutal e pública, que boa parte do relacionamento em que acreditara estava sustentada por mentiras. Não havia assessor de crise capaz de resolver aquilo.

— Eu só queria falar com ele — Helena murmurou.

Heitor passou o braço por seus ombros.

— Então espera ele querer falar. Sua mãe está com ele e o Paulo também. Ele não está sozinho.

Helena permaneceu alguns segundos em silêncio.

— Eu não confio na minha mãe.

— Eu sei.

— Ela vai começar a colocar coisas na cabeça dele.

Heitor soltou um suspiro baixo.

— Helena, nesse momento, acho que já tem coisa suficiente na cabeça do Jonas para sua mãe não conseguir colocar mais nada.

Ela virou o rosto para encará-lo, e dessa vez quase apareceu um sorriso. Quase. Heitor considerou aquilo uma pequena vitória.

Nos dias seguintes, a casa deles ficou estranhamente silenciosa. Heitor manteve a própria rotina na medida do possível, conversou com seus advogados, respondeu o que precisava responder e deixou que a equipe de Paulo cuidasse do restante. Não assistia aos programas que comentavam o caso e evitava abrir qualquer matéria cujo título começasse com “entenda”. Já havia entendido mais do que gostaria. De tempos em tempos surgia alguma novidade, uma nova versão ou alguém que jurava possuir informações exclusivas sobre uma família que nunca havia conhecido, mas ele aprendera rapidamente que reagir a cada absurdo era exatamente a maneira de permanecer preso nele. Helena demorou um pouco mais para aprender.

O acordo relacionado ao tapa avançou sem espetáculo. Os advogados conversaram, os termos foram definidos e Heitor fez questão de acompanhar tudo. Não porque duvidasse dos profissionais de Paulo, mas porque Helena era sua noiva e, naquele ponto, proteger os interesses dela também significava impedir que sua raiva produzisse outro problema. Quando ela voltou a reclamar da indenização, ele apenas perguntou se preferia pagar aquilo ou passar meses discutindo judicialmente com Amanda enquanto cada audiência gerava mais vinte matérias. Helena não respondeu. Para Heitor, o silêncio significou que finalmente haviam chegado a algum lugar.

E foi assim que ele decidiu lidar com todo o resto também. Sem alimentar, sem fugir e, principalmente, sem permitir que aquilo ocupasse cada espaço da vida deles. Jonas ainda teria muito para resolver. Paulo teria uma campanha para salvar. Lorena faria o que Lorena fazia. Helena provavelmente ainda teria dias em que acordaria querendo atravessar a cidade para arrancar respostas de alguém. Mas Heitor não pretendia deixar que a história de Jonas e Amanda se transformasse na história deles.

Naquela noite, quando Helena recebeu uma mensagem de Lorena dizendo apenas que Jonas havia comido, tomado banho e finalmente dormido algumas horas, Heitor viu os ombros dela relaxarem pela primeira vez em dias. Ela colocou o celular sobre o criado-mudo e se deitou.

— Melhor? — ele perguntou.

— Um pouco.

Heitor apagou a luz.

Por enquanto, um pouco bastava.

No dia seguinte, quando Heitor finalmente chegou em casa, já era bem mais tarde do que pretendia. Assim que atravessou a sala, percebeu a ausência de Helena. Nos últimos tempos, quase sempre a encontrava por ali naquele horário, às vezes assistindo a alguma coisa, às vezes mexendo no celular, muitas vezes simplesmente esperando por ele enquanto Humberto dormia. Olhou em direção à escada, imaginando que ela tivesse ido para o quarto, mas um dos funcionários avisou que Helena estava no jardim. Heitor agradeceu e seguiu para lá, afrouxando a gravata enquanto caminhava. Encontrou-a sentada sozinha, enrolada em uma manta, olhando para o céu. A noite estava limpa e o terreno aberto permitia que as estrelas se espalhassem pelo horizonte de uma maneira que sempre fazia Helena ficar alguns minutos em silêncio. Mas havia alguma coisa diferente nela. Heitor percebeu antes mesmo que ela virasse o rosto. Ela estava pensando demais. E, depois dos últimos dias, ele já tinha aprendido a desconfiar quando Helena ficava quieta demais.

— Oi, amor. — aproximou-se por trás dela e se inclinou para beijar sua testa. — Não está com frio?

Helena levantou o rosto para ele e deu um sorriso pequeno.

— Eu peguei uma manta. — ajeitou o tecido sobre as pernas. — O Humberto dormiu. Você demorou muito hoje.

Heitor soltou o ar com força e se sentou ao lado dela.

— Nem me fala. Eu tinha que ter ido para os Estados Unidos acompanhar a obra. Como não fui, agora preciso participar de umas cinquenta reuniões com quem está fazendo isso por mim. Passei metade do dia vendo coisa que eu resolveria em vinte minutos se estivesse lá.

Passou o braço pelos ombros dela e a trouxe imediatamente para perto. Helena se acomodou contra seu peito, e Heitor fechou os olhos por um instante enquanto a apertava. Aquilo, pelo menos, era bom. Depois de um dia inteiro entre reuniões, telefonemas, advogados e problemas que pareciam se reproduzir sempre que alguém pronunciava o sobrenome Medeiros, sentir o corpo dela encostado ao seu fez alguma coisa dentro dele finalmente desacelerar. Beijou seus cabelos e respirou fundo.

— Senti tanto a sua falta hoje. — afastou-se apenas o suficiente para olhar para ela. — Você está bem?

Helena abaixou os olhos.

— Também senti saudade.

Heitor esperou.

— Então por que parece triste em me ver?

— Não estou triste em te ver.

— Ainda bem. Eu já estava preocupado, cheguei a pensar em te levar para o escritório e te deixar lá na minha sala com o Humberto.

Ela soltou uma risadinha sem vontade, e aquilo só confirmou o que ele já sabia. Heitor passou os dedos devagar pelo braço dela, esperando. Conhecia Helena o bastante para saber que, quando alguma coisa estava presa dentro dela, pressioná-la só faria com que se fechasse ainda mais. Alguns segundos se passaram antes que ela finalmente respirasse fundo.

— Eu estava pensando hoje... — começou. — Você sempre diz que nunca se envolveu com uma funcionária.

Heitor franziu levemente a testa.

— Sim.

Helena ergueu os olhos para ele.

— Então por que se envolveu comigo?

A pergunta o pegou completamente desprevenido. Durante alguns segundos, Heitor simplesmente a encarou. Estava tão perto que conseguia ver perfeitamente as sardas espalhadas pelo rosto dela, aquelas mesmas sardas que ele havia aprendido a procurar quando Helena tentava escondê-las com maquiagem. O olhar, porém, estava sério. Vulnerável de um jeito que não combinava com a pergunta aparentemente simples. Foi então que ele entendeu. Aquilo não era sobre política de empresa. Não era sequer sobre como os dois tinham começado. Era sobre Jonas e era sobre Amanda. Era Helena passando os últimos dias assistindo ao irmão desmontar a própria história e, em algum ponto daquela confusão, começando a mexer também nas certezas da própria vida.

— Bom... — Heitor deixou aparecer um sorriso de canto. — Primeiro porque a gente não se conheceu na empresa. Segundo porque você me deixou completamente louco por você antes de eu descobrir qualquer coisa e eu não conseguia mais te tirar da cabeça.

Aquilo era verdade. Heitor jamais esqueceria aquela tarde. Helena aparecera na vida dele como uma espécie de acidente, arrastara-o para um hotel no meio da rua, o provocara até deixá-lo completamente fora de si e, depois, tivera a audácia de deixá-lo sozinho naquele quarto, fervendo de desejo e de raiva. Durante toda a noite ele pensara nela. No rosto, na voz, na maneira insolente como o enfrentava. E então, quando voltou a encontrá-la dentro da empresa e Helena simplesmente se fez de desentendida, como se nunca tivesse visto aquele homem na vida, já era tarde demais. Heitor estava fascinado. Não importava se ela era funcionária, terceirizada, bombeira ou astronauta; naquele momento ele provavelmente teria encontrado uma solução para qualquer coisa só para ficar com ela.

— Então... — Helena hesitou. — Se aquilo não tivesse acontecido, a gente não teria ficado junto?

O sorriso dele desapareceu devagar.

Heitor poderia simplesmente dizer que teriam. Poderia responder imediatamente que sim ou qualquer uma dessas coisas bonitas que provavelmente fariam Helena se sentir melhor por cinco minutos. Mas ele nunca gostara de mentir para ela, principalmente quando percebia que a pergunta escondia alguma coisa importante. Passou a mão pelo braço dela e puxou a manta um pouco mais para cima, cobrindo seu ombro.

— Eu nunca menti para você, Helê. Eu realmente nunca me envolvi com nenhuma funcionária. Nunca olhei diferente.

— Nem terceirizadas?

Heitor fez uma pequena careta.

— Nenhuma mulher que tivesse qualquer coisa a ver com alguma empresa minha.

A mudança no rosto dela foi imediata. Os olhos de Helena se encheram de lágrimas e ela abaixou o olhar.

— Então a gente nunca teria se conhecido.

— Ei...

Ela levou as mãos ao rosto antes que ele pudesse terminar e começou a chorar. O peito de Heitor apertou na mesma hora. Ele a puxou para si sem pensar, envolvendo-a com os dois braços e sentindo Helena esconder o rosto contra ele. Não era um choro desesperado, era pior de outro jeito: parecia o resultado de vários dias segurando coisas demais. Heitor beijou seus cabelos e passou a mão lentamente pelas costas dela.

— Ô, amor... não chora. Não foi isso que eu falei.

— Foi, sim.

— Não foi, não.

— Você acabou de falar.

Heitor abriu a boca, fechou e olhou para o jardim por um instante.

— Tá. Tecnicamente foi.

Helena chorou ainda mais.

— Calma! Eu estou desenvolvendo o raciocínio.

Ela bateu uma vez no peito dele, e Heitor segurou a mão dela antes que viesse outra. Precisava consertar aquilo. Não com uma mentira, mas talvez com uma hipótese muito mais interessante. Pensou por alguns segundos e, de repente, percebeu que Helena estava errada.

— Quer saber? Não. Você está errada.

Helena afastou um pouco o rosto, ainda com lágrimas nos olhos.

— Como assim eu estou errada?

— Porque eu estou pensando agora no que teria acontecido. — Heitor ajeitou-se no banco. — Se você não tivesse me enfeitiçado naquele hotel, provavelmente a gente não teria se envolvido naquela minha vinda para a sua cidade. Até aí, tudo bem. Só que depois você teria sido escolhida para aquele projeto na FORT GROUP.

Helena piscou.

— E?

— E o Fortenelle teria levado você para aquele almoço com todo mundo e ficaria esfregando sua competência na minha cara.

— Heitor...

— Não, espera. Eu estou vendo tudo agora. — Ele apontou para algum lugar à frente, como se a cena estivesse acontecendo no jardim. — Eu ia descobrir que a Plano & Forma pegou uma pessoa que trabalhava em um projeto meu e colocou para trabalhar do lado do meu rival. Eu ia ficar muito puto.

O canto da boca de Helena se mexeu.

— Eu não trabalhava para você.

— Detalhe contratual.

— Não é detalhe contratual.

— Na minha história é.

Helena tentou segurar, mas acabou rindo baixinho. Heitor percebeu e continuou, agora muito mais interessado naquela versão alternativa da própria vida.

— Eu ia ligar para a Plano & Forma. Ia querer saber quem teve aquela ideia brilhante. Depois ia exigir que você viesse trabalhar na Monteiro Inc.

— Exigir?

— Solicitar com firmeza.

— Isso se chama exigir.

— Helena, deixa eu continuar. — Ele fez um gesto impaciente com a mão. — Provavelmente eles fariam alguma coisa. E, enquanto isso, eu ia querer descobrir por que o Fortenelle estava tão encantado com você. Ia investigar sua carreira inteira.

— Credo.

— Profissionalmente.

— Sei.

— E aí eu ia começar a jogar meu charme.

Helena finalmente se afastou do peito dele, limpando as lágrimas com os dedos enquanto uma risada escapava.

— Eu nunca cairia nessa.

— Claro que cairia. — Heitor deu uma piscadela e se aproximou dela. — Eu chegaria assim, bem tranquilo, falaria alguma coisa no seu ouvidinho...

— Nem chegaria perto do meu ouvido.

— ...e você ia derreter todinha.

Helena riu e o empurrou devagar pelo peito. Heitor segurou sua cintura, puxou-a de volta e beijou seu pescoço, satisfeito por ouvir aquela risada outra vez.

— Qual é, Helê? Fala a verdade. Você não resistiria. Eu sei como você gosta de olhar para o meu peitoral.

Ele endireitou as costas e estufou o peito de propósito. Helena olhou para a exibição ridícula e soltou uma gargalhada.

— Se você chegasse com essa atitude, eu nunca mais olharia na sua cara.

— Duvido.

Heitor deu um selinho nela.

— Agora sério. Eu realmente ia acabar conversando com você. Porque eu ia querer saber o que você tinha de tão especial.

Helena ainda sorria, mas pensou na hipótese.

— Eu não aceitaria ir para a Monteiro Inc.

— Aceitaria.

— Não aceitaria. Aquele projeto fui eu que fiz. Eu estaria trabalhando diretamente com o CEO da FORT GROUP. Não ia abandonar tudo porque outro CEO teve um capricho.

Heitor pareceu genuinamente ofendido.

— Como assim "outro CEO"? Eu também sou um CEO.

— Um CEO que nem teria me dado oi. Lembra?

Aquilo o fez parar. Heitor franziu a testa, encarando-a por alguns segundos.

— Bom...

— Ah.

— Não começa.

— Você sabe que é verdade.

Ele pensou melhor e acabou dando de ombros.

— Tá, talvez eu não tivesse te dado oi.

— Talvez?

— Eu estaria ocupado. Aquela filial teria sugado as minhas energias.

— Você nem olhava para ninguém.

— Eu olhava.

Helena arqueou uma sobrancelha.

— Para mim você olharia bastante depois.

Heitor abriu um sorriso lento.

— Porque você ficou muito mais interessante depois.

— Depois de me ver sem roupa, você quer dizer.

— Isso ajudaria bastante.

Helena voltou a empurrá-lo, rindo, e Heitor segurou os dois pulsos dela por um instante antes de soltá-los.

— Mas eu adoro um bom desafio — continuou. — Então tenho certeza de que eu daria um jeito de trazer você para a Monteiro Inc. E nisso a gente ia se apaixonar. Na verdade... — estreitou os olhos, analisando-a. — Você ia se apaixonar primeiro.

Helena soltou uma gargalhada.

— Eu?

— Você. — Heitor aproximou o rosto, sorrindo, até encostar a testa na dela. — Vai falar que não?

— Não! Porque você se apaixonou primeiro.

— Nãn-nãn-ni-nãn-não. Nessa versão, você ia se apaixonar primeiro. Tenho certeza. Como fez quando me viu na empresa, você ia trabalhar toda provocante só para mexer comigo. Principalmente porque nessa época você já estava toda soltinha.

Helena abriu a boca, indignada.

— Eu ia trabalhar superprofissional!

— Sei.

— Você que via coisa onde não devia.

— Eu?

— Você! Até me colocou para sentar na sua frente.

Heitor imediatamente desviou os olhos para o céu, assumindo uma expressão concentrada.

— Não lembro disso, não.

— Como não lembra?

— Minha memória não está alcançando esse acontecimento.

— Heitor Monteiro, você mudou a sua agenda inteira para ir naquela vistoria comigo!

Ele não conseguiu sustentar. Riu alto, jogando a cabeça para trás. Quando voltou a olhar para Helena, ela estava encarando-o com aquele rostinho indignado e sorridente que ele adorava. As sardas estavam mais visíveis sob a luz do jardim, os olhos ainda úmidos do choro de poucos minutos antes, mas agora vivos novamente. Heitor sentiu uma ternura tão grande que por um instante perdeu completamente a vontade de continuar provocando. Colocou as duas mãos ao redor do rosto dela, acariciando as bochechas com os polegares.

— Eu lembro que trabalhei muito naquela semana — disse, tentando manter a seriedade. — Depois marquei para entender como eram feitas as vistorias. Foi coincidência.

Helena revirou os olhos.

— Não inventa, Monteiro.

Heitor sorriu e abaixou o rosto, encostando a testa no pescoço dela. Helena ainda soltava pequenas risadas, e ele ficou ali por alguns segundos, abraçado a ela, sentindo o cheiro dos cabelos dela e o calor que escapava debaixo da manta. Aquela risada tinha feito falta. Mais do que ele havia percebido até ouvi-la novamente.

— Você é muito mentiroso — Helena murmurou.

— Sou nada.

— Você mesmo já confessou que mudou a agenda por minha causa.

— Isso não parece coisa que eu faria.

— Você mudou a sala do meu setor por minha causa.

— Foi pura coincidência geográfica.

Helena riu outra vez, passando a mão pelos cabelos dele.

Heitor fechou os olhos.

Era disso que sentira falta durante aqueles dias. Não apenas de Helena fisicamente perto dele, mas daquela Helena. Da mulher que discutia com ele por qualquer bobagem, que revirava os olhos quando ele se exibia, que conseguia transformar uma conversa séria numa disputa sobre quem havia se apaixonado primeiro. O que acontecera com Jonas a tinha atingido muito mais profundamente do que ela demonstrava. Heitor começava a perceber que não era somente o sofrimento do irmão que a abalava; ver uma relação construída sobre uma mentira havia mexido em lugares que Helena provavelmente nem sabia que existiam. De repente, ela parecia querer conferir as próprias certezas, como se precisasse ter certeza de que aquilo que tinha com Heitor continuava exatamente onde sempre estivera.

Ele ergueu o rosto e olhou para ela.

— Helê.

— Hum?

— Olha para mim.

Helena obedeceu. Heitor passou o polegar devagar por uma das sardas na bochecha dela.

— Eu não sei como teria acontecido se aquela tarde não tivesse acontecido. Posso inventar cinquenta histórias para você e, em todas elas, obviamente eu vou acabar te conquistando porque sou muito competente.

Helena soltou um risinho.

— Convencido.

— Mas eu sei uma coisa. — O sorriso dele diminuiu. — Se em algum momento eu tivesse parado para conhecer você de verdade... eu teria me apaixonado.

Ela ficou quieta.

— Não foi aquela tarde que fez eu amar você. Aquela tarde fez eu ficar louco por você. É diferente.

Os olhos de Helena voltaram a ficar úmidos, e Heitor fez uma careta imediatamente.

— Não. De novo, não. Eu acabei de resolver isso.

Ela riu no meio das lágrimas.

— Cala a boca.

— Você estava rindo. Não estraga meu trabalho.

Helena passou os braços pelo pescoço dele e o abraçou. Dessa vez foi ela quem o apertou primeiro. Heitor envolveu sua cintura e a trouxe para perto, deixando um beijo demorado em sua têmpora.

— Eu te amo — ela murmurou.

O peito dele aqueceu de uma maneira que ainda o surpreendia, mesmo depois de tudo que já tinham vivido.

— Eu também te amo, Helê.

Heitor sorriu e encostou a testa no pescoço dela, sentindo Helena ainda rir baixinho enquanto tentava empurrá-lo pelo ombro. Era tão bom ouvi-la rir que ele ficou ali por alguns segundos, sem nenhuma vontade de se afastar. Nos últimos dias, parecia haver sempre alguma coisa pesando sobre ela, mesmo nos momentos em que tentava agir normalmente. Heitor conhecia cada mudança no rosto de Helena, cada silêncio diferente, e aquele peso estava ali desde que tudo acontecera com Jonas. Agora, porém, sentia o corpo dela mais relaxado contra o seu, a mão ainda apoiada em seu ombro, e aquilo lhe trouxe um alívio que ele nem percebera que precisava. Levantou o rosto e passou o polegar devagar abaixo de um dos olhos dela, secando o restinho de lágrima que havia ficado ali.

— Helê, eu não seria feliz de verdade se não tivesse conhecido você.

Helena parou de rir e olhou para ele.

— Você ter me puxado para aquele hotel naquela tarde foi o destino dando um jeito de fazer a gente se encontrar. Se não fosse naquele dia, seria em outro. — Heitor acariciou o rosto dela, olhando para aquelas sardas que amava tanto. — A gente foi feito para ficar junto.

O sorriso de Helena surgiu devagar, muito diferente das risadas de alguns segundos antes. Era pequeno, emocionado, e Heitor viu os olhos dela brilharem novamente. Antes que pudesse reclamar que ela começaria a chorar outra vez, Helena passou os braços ao redor dele e o abraçou forte.

— Eu não imagino minha vida sem você — murmurou contra seu pescoço. — Eu não amaria ninguém que não fosse você.

Aquilo acertou Heitor em cheio. O sorriso apareceu imediatamente em seu rosto, enorme, impossível de esconder. Ele adorava quando Helena dizia aquelas coisas. Talvez porque ela não fosse uma mulher que passasse o dia distribuindo declarações grandiosas; quando dizia, ele sabia que vinha daquele lugar inteiro, absoluto, que existia nela. Heitor apertou os braços ao redor da cintura dela e deixou um beijo em seus cabelos, sentindo uma felicidade quase infantil crescer dentro do peito. Poderia ouvir aquilo todos os dias e provavelmente ainda reagiria da mesma maneira.

— Repete.

Helena se afastou um pouco.

— Não.

— Só mais uma vez.

— Você ouviu.

— Ouvi, mas queria que repetisse.

Ela riu.

— Convencido.

— Você acabou de dizer que não amaria ninguém além de mim. Tenho direito de ficar convencido pelo menos por uma década.

Helena balançou a cabeça, ainda sorrindo, mas o sorriso foi desaparecendo aos poucos. Heitor percebeu quando o olhar dela escapou para algum ponto atrás dele. Sabia que alguma coisa voltara à sua cabeça antes mesmo que ela falasse.

— Heitor... você acha que o Jonas vai ficar bem?

Ele respirou fundo. Ali estava.

— Claro que vai, Helê. — passou a mão pelo braço dela. — Quem nunca sofreu por amor? Principalmente homem. Porque, verdade seja dita, ninguém sofre por amor igual homem.

Helena piscou. Então começou a rir.

— Homem sofrendo? Pelo amor de Deus, né?

Heitor afastou o rosto, genuinamente ofendido.

— Que isso?!

— Vocês sofrem três dias, saem com os amigos para as baladas e pronto.

— Mentira. — Heitor apontou para ela. — Mulher que segue em frente. Homem nunca esquece.

Helena arregalou os olhos, divertida.

— Ah, não esquece?

— Nunca.

— Isso quer dizer que você já sofreu por amor?

— Claro que já.

O sorriso dela diminuiu imediatamente e Heitor percebeu o interesse surgir.

— Quando?

— Quando você me deu o fora.

Helena revirou os olhos no mesmo instante.

— Ah, pelo amor de Deus.

— Eu fiquei muito mal!

— A gente não tinha nada!

— É claro que tinha! — Heitor se endireitou, indignado. — Você estava tentando me iludir.

— Eu estava tentando te iludir?!

— Estava. Isso é coisa de mulher.

— Coisa de mulher?

Helena segurou a gravata dele e começou a afrouxá-la, provavelmente porque Heitor ainda estava vestido como se pudesse entrar numa reunião a qualquer momento. Ele deixou que ela puxasse o nó e retirasse a gravata de seu pescoço.

— Aquilo não foi sofrer por amor — disse ela. — Nem chega perto do que o Jonas está passando. Você já sofreu realmente por amor alguma vez?

A resposta brincalhona que Heitor preparava morreu antes de chegar à boca. E bastou pensar nelas para sentir uma memória desagradável atravessar seu peito.

— Já — respondeu, agora sem rir. — Quando você sumiu.

Helena parou de mexer na gravata.

Heitor lembrava bem demais daquela sensação. O desaparecimento, as horas sem saber onde ela estava, o medo transformando qualquer possibilidade ruim em certeza dentro da cabeça dele. Aquilo não tinha sido apenas sofrimento por amor. Tinha sido desespero.

— E quando eu achei que você tivesse me traído.

O rosto de Helena ficou vermelho quase imediatamente. Heitor viu e um sorriso de canto voltou aos poucos.

— Essas duas foram uma merda.

— Eu não te traí.

— Eu sei que não.

— E eu não sumi porque quis.

— Também sei.

A voz dele saiu mais baixa. Heitor passou os dedos pela mão dela e a trouxe até os lábios, beijando seus nós.

— Mas você perguntou se eu já sofri por amor. Sofri. E não recomendo.

Helena ficou olhando para ele durante alguns segundos. Havia carinho em seu rosto, mas também alguma coisa triste, talvez por lembrar de tudo aquilo. Heitor não queria voltar para aquele lugar naquela noite. Já tinham problemas suficientes no presente.

— Agora... — continuou, deixando o sorriso reaparecer. — aquela vez que você me deu o fora também foi bastante traumática.

Helena soltou uma risada desacreditada.

— A gente não tinha nem começado!

— Para você.

— Para ninguém!

— Eu já tinha planos.

— Que planos?

Heitor deu de ombros.

— Não lembro. Mas eram ótimos.

Helena riu novamente e ele aproveitou para puxá-la mais para perto. A manta escorregara de um dos ombros dela e Heitor tornou a ajeitá-la, cobrindo-a.

— E foi coincidência mesmo aquela vistoria — acrescentou, sério demais de propósito. — Eu estava extremamente interessado no procedimento técnico.

Helena estreitou os olhos.

— Você ficou olhando para a minha bunda.

Heitor abriu a boca, ofendido.

— Helena!

— Ficou.

— Isso é uma acusação muito grave contra um homem comprometido com a excelência operacional da própria empresa.

Ela soltou uma gargalhada, e Heitor sorriu imediatamente. Aquilo. Era exatamente aquilo que ele queria. Passou o braço pela cintura dela e a trouxe ainda mais para perto enquanto Helena puxava a manta, agora cobrindo parte das pernas dele também.

— Você nem sabia o que estava acontecendo naquela vistoria — ela continuou. — Ficava perguntando um monte de coisa que nem precisava saber.

— Eu sou curioso.

— Heitor!

— Faz parte de ser um bom gestor.

— Você perguntou a mesma coisa duas vezes!

— Eu estava validando a informação.

Helena riu e o empurrou no peito. Heitor segurou a mão dela antes que conseguisse afastá-la.

— Tá bom, tá bom. — suspirou. — Talvez eu tenha olhado.

— Talvez?

Ele pensou.

— Bastante.

Helena abriu um sorriso vitorioso.

— Eu sabia.

— Mas você também olhava para mim.

— Não olhava.

— Helê...

— Não olhava.

— Pelo amor de Deus. — Heitor inclinou a cabeça, encarando-a com um sorriso incrédulo. — Você acha mesmo que eu não percebia?

— Percebia o quê?

— Você olhando.

— Eu não olhava.

— Olhava.

— Não.

— Principalmente quando eu levantava.

Helena começou a rir outra vez.

— Olha o tamanho do seu ego.

— Não é ego, é memória. Minha memória é excelente.

— Sua memória é seletiva. Você não lembra que mudou sua agenda inteira para ir comigo, mas lembra de uma coisa que nunca aconteceu.

— Eu lembro perfeitamente de você olhando.

— Para de inventar.

— Você olhava para os meus braços.

— Porque você usava aquelas camisas apertadas!

Heitor ficou imóvel.

Helena também.

Durante dois segundos, nenhum dos dois falou. Então um sorriso extremamente satisfeito começou a aparecer no rosto dele.

— Ahhh!

Helena percebeu tarde demais.

— Não!

— Então olhava.

— Eu não falei isso.

— Falou.

— Eu falei que sua camisa era apertada.

— E como você sabia?

— Porque dava para ver!

— Porque você olhava.

— Heitor Monteiro...

— Confessou.

— Eu não confessei nada!

— Depois de todos esses meses, finalmente a verdade.

Helena puxou a manta e jogou sobre a cabeça dele.

Heitor começou a rir debaixo do tecido, tateando até encontrar a cintura dela. Assim que conseguiu segurá-la, puxou Helena junto, fazendo-a soltar um grito baixo e quase cair sobre ele. Os dois ficaram embolados debaixo da manta por alguns segundos, Helena tentando tirá-la do rosto enquanto reclamava que ele era completamente insuportável, e Heitor apenas ria, prendendo-a junto ao corpo para impedir que escapasse.

— Heitor, me solta!

— Confessa!

— Não!

— Então fica aí.

— Eu vou te bater.

— Você não aprendeu nada com os últimos dias?

Helena parou por um segundo. Heitor também.

— Essa foi ruim — admitiu.

— Foi péssima.

— Retiro.

Helena tentou segurar, mas acabou rindo novamente, e Heitor riu junto. Finalmente conseguiu afastar a manta do rosto e encontrou Helena muito perto dele. Tão perto que a brincadeira simplesmente perdeu força por conta própria.

Heitor ficou olhando para ela.

O sorriso de Helena foi diminuindo devagar, não porque a tristeza tivesse voltado, mas porque alguma coisa naquele instante mudou. A mão dela continuava apoiada sobre seu peito e alguns fios de cabelo haviam caído sobre seu rosto com a confusão da manta. Heitor os afastou lentamente, prendendo-os atrás da orelha dela. Seus dedos permaneceram por alguns segundos na lateral do rosto de Helena.

Como amava aquela mulher.

Às vezes o sentimento aparecia assim, no meio de absolutamente nada. Não precisava de uma ocasião especial, nem de uma grande declaração. Bastava olhar para ela rindo embaixo de uma manta no jardim e alguma coisa dentro dele parecia ficar grande demais para permanecer em silêncio.

— Eu te amo — disse.

Helena piscou, como se não esperasse aquilo no meio da brincadeira.

Então sorriu.

— Eu também te amo.

Heitor segurou o rosto dela e deixou um beijo demorado em sua testa antes de puxá-la novamente para seu peito. Helena se acomodou contra ele, apoiando a cabeça em seu ombro, e Heitor ajeitou a manta sobre os dois. O jardim voltou a ficar silencioso. O céu estava tão limpo, cheio de estrelas espalhadas até onde a vista alcançava, que ele finalmente entendeu por que Helena escolhera ficar ali em vez da sala. Durante alguns minutos nenhum dos dois falou. Heitor fazia carinho no braço dela por cima da manta, subindo e descendo lentamente, sentindo a respiração dela se acalmar.

Até Helena ficar quieta demais outra vez.

Ele olhou para baixo.

— Você ainda está pensando nisso, né?

Ela demorou um pouco para responder.

— Um pouco.

— No Jonas?

— Também.

Heitor franziu levemente a testa. Aquela resposta confirmou o que já vinha desconfiando desde que a encontrara ali. Passou a mão pelos cabelos dela.

— Então fala comigo.

Helena mexeu distraidamente os dedos sobre um botão da camisa dele.

— Não sei explicar.

— Tenta.

Ela respirou fundo.

— Acho que fiquei pensando em um monte de coisa depois de tudo isso. No Jonas, na Amanda... em como ele acreditava numa coisa e, de repente, descobriu que não era nada daquilo. — Helena ficou alguns segundos em silêncio. — Aí comecei a pensar na gente.

Heitor sentiu alguma coisa apertar dentro dele.

Não gostava daquilo.

Não porque temesse alguma descoberta, mas porque detestava imaginar que a história de Jonas tivesse conseguido alcançar justamente aquele lugar. O que existia entre ele e Helena era uma das poucas coisas em sua vida sobre as quais Heitor não possuía nenhuma dúvida. Saber que ela estava olhando para os dois através da ferida do irmão lhe causou uma espécie de incômodo protetor.

— A gente não tem nada a ver com eles.

— Eu sei.

— Sabe mesmo?

Helena levantou os olhos.

— Sei. Eu não estou achando que você vai fazer alguma coisa, Heitor.

— Então o que é?

Ela desviou o olhar novamente.

— Comecei a pensar que, se uma coisinha tivesse acontecido diferente, talvez a gente nem estivesse junto. Se eu não tivesse ido naquele lugar naquele dia. Se você não tivesse ido para a minha cidade. Se eu não estivesse trabalhando naquele projeto. Se...

— Amor.

— O quê?

— Você está tentando descobrir quantas maneiras existiam de a gente não se conhecer?

Helena fez uma pequena careta.

— Quando você fala assim parece bobo.

— Porque é um pouquinho.

Ela levantou a cabeça na mesma hora.

— Heitor!

Helena tentou sair de perto dele, indignada, mas Heitor segurou sua cintura e a puxou de volta, fazendo-a cair praticamente em seu colo.

— Me solta!

— Só quando admitir que vivia me secando.

— Nunca!

— Então vai ficar aqui.

— Heitor, está frio!

— Você pegou uma manta.

— Você é insuportável.

— Mas você me ama.

Helena parou de lutar apenas para olhar para ele.

— Um pouquinho.

O sorriso de Heitor apareceu imediatamente.

— Mentirosa.

Segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou. Dessa vez não havia provocação, nem vontade de fazê-la admitir nada. Heitor apenas a beijou devagar, sentindo Helena relaxar contra ele. Quando se afastou, manteve a testa encostada na dela. Os olhos de Helena permaneceram fechados por alguns segundos, um pequeno sorriso ainda em seus lábios. Heitor passou o nariz de leve pelo dela.

— Não fica procurando uma vida em que a gente não aconteceu, Helê.

Helena abriu os olhos.

Ele a encarou por alguns segundos. Talvez não pudesse provar que teriam se encontrado em qualquer circunstância. Talvez, em alguma realidade absurda, Helena realmente tivesse ido trabalhar para Fontenelle e passado o resto da vida sem olhar duas vezes para Heitor Monteiro. Mas aquela possibilidade não significava absolutamente nada para ele.

Porque não era a vida deles.

Heitor sorriu.

— Essa aqui já deu certo.

Helena ficou olhando para ele em silêncio. Então assentiu devagar.

— Deu.

— E muito.

Ela riu baixinho e voltou a se aconchegar contra ele. Heitor envolveu seu corpo com os braços e puxou a manta para cobri-la melhor, deixando o queixo apoiado sobre sua cabeça. Aos poucos sentiu Helena relaxar de verdade, sem aquela tensão escondida nos ombros, enquanto seus dedos faziam carinho distraidamente nos cabelos dela.

Heitor voltou a olhar para o céu.

Jonas ainda teria dias ruins. Talvez muitos. Helena ainda sofreria vendo o irmão sofrer, e Heitor sabia que não existia nenhuma frase capaz de poupá-la disso. Também não sabia quanto tempo aquela confusão levaria para desaparecer completamente da vida da família. Mas uma coisa ele sabia.

A história de Jonas podia fazer Helena questionar o amor, o acaso, o destino e todas as pequenas decisões que levavam uma pessoa até outra.

Só não permitiria que a fizesse questionar o que existia entre eles.

Heitor beijou os cabelos dela e apertou um pouco mais os braços ao redor de seu corpo.

Aquela era a vida que tinham e ele não precisava imaginar nenhuma outra.

Helena ainda permaneceu alguns segundos quieta contra ele, mas então ergueu o rosto e, antes que Heitor dissesse qualquer coisa, puxou-o pela camisa e o beijou. Não foi um selinho como os outros que tinham trocado durante a conversa. Foi um beijo demorado, daqueles que faziam qualquer pensamento desaparecer da cabeça dele com uma facilidade inacreditável. Heitor sentiu o corpo inteiro esquentar imediatamente. Talvez fossem os últimos dias, a tensão acumulada, as reuniões intermináveis, a preocupação com Helena e toda aquela confusão que parecia ter invadido a vida deles sem pedir licença. Talvez fosse simplesmente porque se tratava de Helena, ela tinha um talento impressionante para acabar com o raciocínio dele em poucos segundos. Heitor passou o braço pela cintura dela e a puxou para mais perto enquanto sentia os dedos de Helena encontrarem a barra de sua camisa e começarem a puxá-la para fora da calça.

Aquilo foi suficiente.

— Helê... — murmurou contra os lábios dela, embora não houvesse nenhuma intenção de fazê-la parar.

Helena sorriu antes de beijá-lo novamente, e Heitor soltou o ar pelo nariz, apertando-a contra si. Estava a mil. Era até injusto. Helena não precisava fazer praticamente nada para deixá-lo daquele jeito e, naquele momento, parecia especialmente disposta a se aproveitar disso. A mão dele desceu até as coxas dela, os dedos percorrendo por cima o tecido justo da calça, e Heitor deixou escapar um suspiro baixo. Já começava a se esquecer de todo o entorno quando um chorinho conhecido atravessou o silêncio da noite.

Os dois pararam.

Heitor fechou os olhos.

Não.

Helena afastou o rosto e ficou alguns segundos olhando para ele. O choro veio novamente pela babá eletrônica deixada ao lado deles, dessa vez um pouco mais insistente.

Heitor fez a expressão mais triste que conseguiu.

Helena olhou para aquele biquinho e um sorriso apareceu no canto de sua boca.

— Nem vem com esse biquinho, Monteiro.

— Que biquinho?

— Esse aí.

— Eu não estou fazendo nada.

— Está parecendo um cachorro que perdeu o osso.

Heitor olhou significativamente para ela.

— Tecnicamente...

— Heitor!

Ele riu, mas continuou segurando Helena pela cintura quando ela tentou se afastar.

— E nós temos só um filho — continuou ela. — Imagina se tivéssemos os cinco que você quer?

A frustração de Heitor desapareceu imediatamente.

— Gosto muito do fato de você sempre falar em cinco.

Helena franziu a testa.

— O quê?

— Você sempre fala "os cinco que você quer". Isso quer dizer que, em algum lugar aí dentro, está realmente considerando.

Helena soltou uma risada incrédula e pegou a babá eletrônica ao lado.

— Monteiro, eu já falei. Vou ter dois e olha lá. Se me fizer muita raiva, ficamos só com o Humberto.

— Isso é chantagem reprodutiva.

— É prevenção.

Helena se levantou, ajeitando a própria roupa, enquanto Heitor permaneceu onde estava e simplesmente se deitou no espaço que ela havia deixado, olhando para o céu com expressão derrotada. Antes que ela conseguisse dar o primeiro passo, porém, ele esticou o braço e segurou sua mão.

— Heitor...

Ele puxou de leve.

— Vem cá.

— Me solta, vai. Seu filho está chorando.

— Nosso filho.

— Quando está dormindo é nosso. Quando resolve acordar justo agora, é seu.

Heitor olhou para a babá eletrônica. O chorinho continuava, embora ele conhecesse Humberto o suficiente para suspeitar de que aquilo não era nenhuma grande tragédia.

— É choro de manha. Vem cá. Fica comigo.

Helena o encarou como se ele tivesse perdido completamente o juízo.

— Heitor! Para, vai. Ele está chorando!

Ela tentou puxar a mão, mas Heitor ainda a segurou por mais dois segundos, esperançoso de que o filho milagrosamente desistisse. Humberto não desistiu. Ao contrário, pareceu entender que precisava tornar seu sofrimento mais convincente e o chorinho ficou mais alto.

Heitor soltou um longo suspiro.

— Tá. Vou com você.

Levantou-se, colocou a camisa minimamente no lugar e foi atrás dela. Helena caminhava rápido pelo corredor, e Heitor a acompanhava alguns passos atrás, ainda pensando que, se tivessem sorte, Humberto voltaria a dormir em cinco minutos. Dez, no máximo. Se não tivessem tanta sorte, poderiam deixá-lo um pouco no moisés enquanto ficavam por perto. Existiam alternativas. Heitor Monteiro construíra empresas, negociara contratos milionários e resolvera problemas que envolviam gente em vários países; certamente seria capaz de convencer um bebê de que aquele era um excelente horário para dormir.

Sua confiança durou até entrarem no quarto.

Humberto chorava como se tivesse sido abandonado pela humanidade inteira.

O som apertou imediatamente o coração de Heitor. Era impressionante como qualquer irritação desaparecia no segundo em que ouvia o filho chorar daquele jeito. Helena chegou primeiro ao berço e o pegou no colo, trazendo-o contra o peito.

— Ei, ei, mamãe está aqui... — murmurou, embalando-o. — O que foi, meu amor?

Heitor se aproximou dos dois e passou a mão pela cabecinha do menino.

— Que aconteceu, campeão? Que sofrimento todo é esse?

Humberto continuou chorando, o rostinho vermelho e amassado, agarrado à roupa da mãe. Heitor ficou olhando enquanto Helena o embalava e falava baixinho, tentando descobrir se estava com fome, incomodado ou simplesmente havia acordado assustado. Havia poucas coisas capazes de deixar Heitor tão impotente quanto o choro do filho. Ele sempre queria resolver imediatamente. Queria descobrir a causa, corrigir, fazer parar. Só que Humberto ainda não parecia particularmente interessado em colaborar com o método de gestão do pai.

— Quer vir com o papai?

Helena olhou para ele.

— Espera ele acalmar um pouquinho.

— Ele quer vir comigo.

— Ele está agarrado na minha blusa.

— É que ele ainda não me viu.

Helena revirou os olhos.

Heitor continuou conversando com o filho, fazendo carinho em sua cabeça, até que o choro começou a diminuir. Primeiro virou um soluço indignado. Depois uma reclamação baixinha. Finalmente Humberto afastou o rosto do peito da mãe e olhou para Heitor.

Os olhos estavam completamente abertos.

Heitor já soube.

— Ah, não.

Helena também percebeu.

— Ele despertou.

— Não despertou, não. Está quase dormindo.

Humberto abriu um sorriso enorme.

Heitor encarou o filho.

— Traidor.

Helena começou a rir.

O menino, talvez satisfeito por ter conquistado a atenção completa dos dois, mexeu os braços e soltou um daqueles sons animados que faziam Heitor esquecer qualquer plano anterior. Ele estendeu as mãos.

— Vem cá com o papai.

Dessa vez Humberto foi sem protestar. Heitor o acomodou contra o peito e imediatamente recebeu uma mãozinha no rosto. Sorriu, segurando os dedos minúsculos antes que encontrassem seu nariz.

— Então era tudo mentira? — perguntou. — Aquele sofrimento todo era para chamar a gente?

Humberto respondeu com outro sorriso.

— Olha isso, Helena. Manipulador.

— Puxou o pai.

Heitor virou o rosto devagar.

— Não começa.

— Eu não falei nada.

— Eu ouvi, viu?

Helena sorriu enquanto ajeitava a roupinha de Humberto, e Heitor voltou os olhos para o filho. O menino estava tão desperto que qualquer esperança de fazê-lo dormir imediatamente começava a desaparecer. Mas, estranhamente, Heitor já nem se importava tanto. Humberto segurava um de seus dedos com a mão inteira, os olhos atentos ao rosto dele, soltando pequenos sons enquanto Heitor respondia como se estivessem mantendo uma conversa perfeitamente compreensível.

— Você sabe que estava atrapalhando uma coisa importante, não sabe?

— Heitor — Helena repreendeu, rindo.

— Ele precisa aprender sobre timing.

— Ele é um bebê.

— Por isso estou ensinando cedo.

Humberto abriu a boca num sorriso e Heitor sentiu o próprio rosto acompanhar automaticamente. Não conseguia evitar. Nunca conseguia. Passou o polegar pela bochecha macia do menino e sentiu aquela coisa conhecida apertar seu peito, só que de um jeito bom. Ainda havia momentos em que parecia estranho pensar que aquilo era sua vida. Aquela casa. Helena. Aquele bebê nos braços. Durante tantos anos, família tinha sido para Heitor uma ideia distante, alguma coisa que talvez acontecesse um dia, quando houvesse tempo, quando aparecesse a pessoa certa, quando sua vida profissional permitisse. Depois Helena chegara destruindo praticamente todas as certezas que ele possuía sobre como as coisas deveriam acontecer e, de alguma maneira, acabara lhe dando exatamente aquilo que ele nem sabia o quanto queria.

Levantou os olhos para ela.

Helena estava em pé diante dos dois, observando Humberto brincar com os dedos dele. Os cabelos estavam um pouco bagunçados por causa do vento do jardim e ainda havia alguma coisa no rosto dela daquela conversa que tinham tido lá fora, mas agora ela sorria. Heitor ficou alguns segundos apenas olhando.

Amava aquela mulher.

Amava o filho deles.

Amava aquilo de uma maneira tão profunda que às vezes chegava a assustá-lo. Porque havia uma vulnerabilidade enorme em amar duas pessoas daquele jeito. Helena já lhe ensinara isso das piores maneiras possíveis. Humberto apenas tornara tudo maior. Heitor, que passara boa parte da vida acreditando que precisava ter controle sobre tudo, agora tinha o coração andando pelo mundo dividido entre uma mulher imprevisível e um bebê que não sabia sequer dormir no horário certo.

E, ainda assim, nunca tinha sido tão feliz.

— O que foi? — Helena perguntou ao perceber que ele a encarava.

Heitor sorriu.

— Nada.

— Você está me olhando estranho.

— Estou só olhando a minha família.

A expressão dela mudou imediatamente, ficando mais suave.

Heitor estendeu a mão livre para ela.

— Vem cá.

Helena se aproximou e segurou sua mão. Heitor puxou-a para perto até conseguir passar o braço por sua cintura sem soltar Humberto. Beijou sua testa e depois olhou novamente para o menino, que parecia absolutamente satisfeito com o resultado da própria interrupção.

— Você tem muita sorte, sabia? — Heitor falou com o filho. — Sua mãe é maravilhosa.

Helena apoiou a cabeça no ombro dele.

— E seu pai é convencido.

Heitor olhou para ela.

— Eu estava sendo romântico.

— Pode continuar. Eu gosto muito. — Helena riu e beijou sua bochecha. — Eu te amo.

A vontade voltou imediatamente. Heitor virou o rosto e deu um beijo rápido nela.

— Também te amo.

Humberto soltou um barulhinho entre os dois, chamando a atenção novamente.

Heitor olhou para ele.

— Você também. Mesmo sendo um tremendo empata-foda.

— Heitor!

Ele começou a rir enquanto Helena dava um tapa leve em seu braço. Humberto sorriu junto, sem fazer a menor ideia do que estava acontecendo, e aquilo fez os dois rirem ainda mais.

Heitor apertou o filho contra o peito e envolveu Helena com o outro braço.

Talvez aquela não tivesse sido exatamente a continuação de noite que imaginara quando estava no jardim alguns minutos antes.

Mas, olhando para os dois, percebeu que não trocaria aquilo por nada.

Não demorou muito para o celular de Helena vibrar. Heitor estava distraído com Humberto no colo quando percebeu que ela havia pegado o aparelho e ficado completamente imóvel olhando para a tela. Bastou ver o nome para entender. Antes mesmo que Helena dissesse qualquer coisa, um sorriso enorme se abriu em seu rosto, daqueles que começavam nos lábios e chegavam aos olhos, mudando sua expressão inteira. Heitor sentiu o próprio peito aliviar junto. Sabia o quanto ela estava sentindo falta do irmão. Sabia porque passara os últimos dias vendo Helena perguntar por Jonas sem poder falar diretamente com ele, tentando se convencer de que respeitar seu espaço era a coisa certa enquanto claramente odiava cada minuto daquele afastamento. Para falar a verdade, até Heitor estava com saudade dele. Jonas podia ser um pé no saco quando queria, mas já fazia parte da vida deles havia tempo suficiente para que sua ausência fosse sentida.

— É ele? — perguntou, embora já soubesse.

Helena assentiu depressa.

— Ele está com o celular.

Abriu o áudio imediatamente, aumentando um pouco o volume.

— Oi, maninha. Valeu por respeitar meu espaço. Mas já estou cansado de ter tido taaanto espaço. Recebi meu celular hoje e gostaria que você e o Humberto viessem para cá amanhã passar o dia comigo. Tô com saudade.

Heitor nem precisou olhar para Helena para saber o efeito daquelas palavras. Mas olhou mesmo assim.

E aquilo aqueceu alguma coisa dentro dele.

Toda a tensão que parecia instalada no rosto dela havia desaparecido de uma vez. Helena soltou o ar como se estivesse prendendo a respiração havia dias, os ombros relaxaram e os olhos ficaram imediatamente cheios d'água, embora dessa vez ela estivesse sorrindo. Heitor percebeu que aquela talvez fosse a primeira vez desde o início de toda a confusão em que ela realmente acreditava que Jonas ficaria bem. Não porque Lorena havia dito que ele tinha comido. Não porque Paulo tinha uma equipe cuidando de tudo. Não porque Heitor passara dias dizendo que aquilo acabaria passando. Mas porque ouvira a voz do irmão. Jonas estava machucado, mas continuava sendo Jonas. E queria vê-la.

Heitor sorriu observando-a. Gostava de ver Helena feliz de uma maneira que às vezes parecia quase física; o humor dela conseguia alterar o dele sem pedir licença. E, depois de tantos dias vendo-a preocupada, aquele sorriso lhe deu um alívio que ele nem sabia que estava esperando.

Helena apertou o botão para gravar.

— Você me paga! Eu estava tão preocupada. Você realmente não queria falar comigo e nem me ver?

— Calma, Helê — Heitor riu. — O cara acabou de sair do isolamento e você já começou o interrogatório.

Ela mostrou a língua para ele.

Nesse momento, Humberto começou a bater repetidamente uma das mãozinhas contra o peito de Heitor, falando alguma coisa muito séria em uma língua que, de alguma maneira, Heitor começava a acreditar que compreendia.

— Eu sei — respondeu ao filho. — Também acho sua mãe exagerada.

Helena lançou um olhar para ele.

— Não coloca meu filho contra mim.

— Ele veio com opinião própria.

Humberto bateu outra vez no peito dele.

— Tá vendo?

Heitor pegou um dos mordedores que estava sobre a cômoda e entregou ao filho. Humberto agarrou o objeto com as duas mãos e levou à boca, completamente interessado, deixando uma quantidade impressionante de baba escorrer pelo queixo. Heitor olhou para a própria camisa. Já havia uma pequena mancha perto do peito.

Nem se incomodou.

Baba ele já tinha aceitado como parte permanente de suas roupas. Era infinitamente melhor que vômito.

O celular de Helena apitou novamente.

— Mandou outro.

Ela deu play.

— Eu... só não tava pronto para conversar. Mas agora eu tô.

A voz de Jonas estava diferente. Ainda cansada, um pouco baixa, mas muito melhor do que Heitor esperava. Helena também percebeu. Heitor viu quando sua expressão se suavizou.

— Então amanhã eu vou aí — respondeu ela imediatamente.

A resposta veio pouco depois.

— Te espero. Boa noite.

Helena ficou alguns segundos olhando para o celular depois que o áudio terminou. Heitor observou aquele sorriso voltar ao rosto dela e sentiu vontade de abraçá-la. Não fez porque tinha um bebê babando alegremente sobre seu peito, mas esticou a mão e apertou de leve sua coxa.

— Finalmente, né, Helê? — disse. — Amanhã deixo vocês dois lá quando eu for trabalhar.

Ela olhou para ele, e Heitor percebeu uma gratidão silenciosa naquele olhar que não precisava de nenhuma explicação.

— Finalmente. — Helena estendeu os braços. — Me dá ele.

Heitor entregou Humberto e ela imediatamente enfiou o rosto no pescoço do menino, dando um cheiro tão demorado e barulhento que o bebê começou a rir, se encolhendo nos braços dela. Heitor ficou olhando os dois com um sorriso. Gostava demais daquela cena. Gostava da maneira como Helena parecia esquecer o resto do mundo quando fazia Humberto rir, gostava da gargalhadinha do filho e gostava, principalmente, daquela sensação quase absurda de pertencimento que sentia quando olhava para os dois.

Então Helena ergueu os olhos para ele.

— Toma um banho, amor. Coloca uma roupa confortável. Vou fazer uma massagem em você.

Heitor abriu um sorriso de orelha a orelha.

— Ohhh! — levantou-se imediatamente. — Eu tô precisando. Principalmente nos pés.

— Então vai tomar banho e aproveita que eu tô de bom humor.

Eles haviam comprado um massageador havia algum tempo, junto com alguns óleos que Helena encontrara pela internet, mas a verdade era que nenhum dos dois tinha conseguido usar direito. Sempre aparecia alguma coisa. Trabalho, cansaço, Humberto, compromisso ou sono. Heitor se aproximou e passou um braço pela cintura dela, tomando cuidado com o filho entre os dois, antes de beijá-la demoradamente. Humberto soltou um som indignado no meio do beijo.

Heitor ignorou completamente.

Quando se afastou, Helena estava sorrindo.

— Eu faço em você depois.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Hm... só quero ver. Da última vez você dormiu.

— Hoje não.

— Você falou isso da última vez.

— Prometo, Helê. — deu outro beijo rápido nela. — Eu cuido de você hoje.

Heitor foi para o banho ainda sorrindo.

Só quando a água quente começou a cair sobre seus ombros percebeu o quanto estava cansado. O corpo parecia finalmente ter recebido autorização para reclamar. Os músculos das costas estavam tensos, as pernas pesadas e sua cabeça continuava funcionando como se ele ainda estivesse diante do computador. Preferia passar uma semana inteira atolado de trabalho no escritório a viver viajando para os Estados Unidos. A obra era importante e chegaria inevitavelmente o momento em que não poderia mais acompanhar tudo à distância, mas Heitor não queria deixar Helena sozinha com Humberto se pudesse evitar. Ela tinha ajuda, obviamente, mas não era disso que se tratava. Era seu filho. Era sua mulher. Ele queria estar ali.

Sabia também que aquilo não poderia durar para sempre. Havia viagens executivas que não poderiam ser adiadas, tanto para fora do país quanto pelo Brasil. Quando esse momento chegasse, porém, Humberto estaria um pouco maior e Helena provavelmente já teria retornado à empresa. Heitor gostava de imaginar os três viajando juntos sempre que fosse possível. A ideia imediatamente o animou. Conhecia tantos lugares incríveis pelo Brasil, cidades que visitara dezenas de vezes a trabalho e que nunca enxergara realmente como lugares para viver alguma coisa. Queria mostrá-los a Helena. Queria voltar a alguns deles carregando Humberto nos braços. Queria ouvir Helena reclamando de alguma coisa no aeroporto, provavelmente da quantidade de malas que ela mesma teria levado, enquanto ele fingiria que não havia avisado.

A vida tinha ficado estranhamente mais interessante desde que deixara de ser somente dele.

Terminou o banho, escovou os dentes e colocou uma samba-canção antes de pegar os óleos de massagem que continuavam praticamente lacrados. Quando voltou para o quarto, Helena já havia buscado o aparelho. Humberto estava acomodado numa almofada própria para bebê sobre a cama, com a chupeta na boca e a naninha sendo esfregada contra o próprio rosto.

Heitor parou para olhar.

Aquelas mãozinhas.

Não conseguia explicar o fascínio que tinha pelas mãos do filho. Eram tão pequenas que ainda lhe parecia absurdo pensar que pertenciam a uma pessoa que um dia seria um homem adulto. Aproximou-se e deu um beijo demorado na bochecha de Humberto.

— Dorme, rapaz. Facilita a vida do seu pai hoje.

Humberto apenas continuou olhando para ele.

— Ele está desconfiado de você — Helena comentou.

— Porque é inteligente.

— Eu ia dizer porque te conhece.

Heitor lançou um olhar para ela antes de se deitar.

— Engraçadinha.

Helena pediu que virasse de costas e Heitor obedeceu, acomodando o rosto de lado sobre o travesseiro de maneira que ainda pudesse enxergar Humberto. O menino também o observava, muito sério, com a naninha parcialmente sobre o rosto. Heitor sorriu para ele e então sentiu a primeira gota fria de óleo atingir suas costas.

— Porra, Helê!

Helena riu.

— Para de drama.

— Tá gelado.

— Em dois segundos esquenta.

Heitor ia responder alguma coisa quando sentiu a palma da mão dela deslizar por suas costas, espalhando o óleo sobre a pele ainda quente do banho.

A reclamação morreu.

O toque começou entre seus ombros e desceu devagar pelas costas, firme o suficiente para aliviar a tensão, lento o suficiente para fazer Heitor soltar o ar que nem percebera estar prendendo. A mão de Helena era quente. O contraste com o óleo frio durou pouco e, quando ela repetiu o movimento, Heitor fechou os olhos por alguns segundos. Conhecia aquelas mãos de tantas maneiras diferentes que seu corpo parecia reconhecê-las antes mesmo que ele pensasse a respeito. O toque dela tinha intimidade. Não era simplesmente alguém massageando seus músculos; era Helena. Sua mulher. A mesma mão que segurava a dele quando estavam deitados, que tocava seu rosto quando o beijava, que conhecia seu corpo tão bem quanto ele conhecia o dela.

— Isso está muito bom — murmurou.

— Eu nem comecei.

— Então continue.

Helena passou as duas mãos pelos ombros dele, pressionando os músculos antes de descer novamente. Heitor sentiu um arrepio percorrer sua pele e sorriu contra o travesseiro.

— Gostou, né?

— Muito.

— E você falou que esses óleos eram besteira.

— Eu estava equivocado.

— Ah, fala de novo.

— Falar o quê?.

Helena riu e então ligou o massageador. A vibração atingiu suas costas e Heitor soltou um gemido satisfeito, afundando ainda mais no colchão.

— Está bom?

— Está ótimo. — fechou os olhos. — Você vai ver quando chegar sua vez.

— Sei.

— Para de duvidar da minha palavra.

— Da última vez sua palavra dormiu em sete minutos.

— Hoje estou comprometido.

— Hum.

A máquina percorreu seus ombros, descendo lentamente pelas costas, e Heitor sentiu os músculos começarem finalmente a ceder. Mas era a outra mão de Helena que continuava roubando sua atenção. Enquanto segurava o aparelho com uma, usava a mão livre para acompanhar o movimento, os dedos deslizando pelo óleo, pressionando os pontos mais tensos, às vezes percorrendo devagar a lateral de suas costas antes de retornar aos ombros. Havia alguma coisa profundamente sensual na familiaridade daquele toque. Não precisava acontecer nada além daquilo. Bastava sentir os dedos dela percorrendo sua pele para que Heitor estivesse perfeitamente consciente de quem o tocava.

— Você está muito tenso aqui — Helena comentou, pressionando próximo ao ombro.

— Reunião.

— E aqui?

— Outra reunião.

Ela desceu um pouco.

— E aqui?

— Jonas Medeiros.

Helena riu.

— Coitado do meu irmão.

— Coitado de mim.

A mão dela deslizou novamente por suas costas e Heitor sentiu a pele se arrepiar. Helena percebeu.

— Está com frio?

— Não.

O jeito como respondeu a fez ficar em silêncio por um segundo.

Heitor abriu um olho e olhou para ela por cima do ombro.

Helena estava sorrindo.

— Não começa — avisou ele.

— Eu não fiz nada.

— Fez, sim.

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— Estou fazendo massagem no meu marido.

— Exatamente.

Ela riu e deu um tapinha leve em suas costas antes de continuar.

Heitor fechou os olhos outra vez, sorrindo.

Gostava daquilo. Não apenas do toque, embora gostasse muito dele, mas do cuidado. Sabia que Helena também estava cansada. Talvez até mais do que ele. Havia o turbilhão envolvendo Jonas, o desgaste emocional dos últimos dias e, por cima de tudo, o cansaço constante de cuidar de um bebê. Mesmo com funcionários, babá e toda ajuda que quisessem, Humberto queria os pais. Principalmente Helena. E ainda assim ela estava ali, massageando as costas dele porque percebera que ele também precisava de alguma coisa.

Heitor amava isso nela.

Helena podia ser explosiva, impaciente, teimosa e capaz de transformar uma discussão banal em uma audiência no Supremo Tribunal Federal, mas também tinha aquele jeito de cuidar que aparecia nos detalhes. Às vezes era um prato que mandava separar porque sabia que ele chegaria tarde. Às vezes era perguntar três vezes se ele tinha tomado determinado remédio. Às vezes era simplesmente colocar as mãos sobre suas costas no fim de um dia ruim.

— Seu corpo é muito bonito — Helena comentou de repente.

Heitor abriu um sorriso imediatamente.

— Eu sei, eu malho muito eles.

— Pronto. Estragou o momento.

— Pode continuar.

— Não vou elogiar mais.

— Pode falar dos ombros agora.

Helena apertou um deles com força.

— Ai!

— Esse?

— Helena!

Ela começou a rir.

Heitor também.

Em algum momento, porém, a conversa foi diminuindo. Helena passou para suas pernas e Heitor sentiu o corpo inteiro ficar cada vez mais pesado contra o colchão. Seus pensamentos começaram a vagar para o dia seguinte. Precisava revisar dois contratos. Um deles ainda estava com uma cláusula que queria reescrever pessoalmente. Havia uma reunião logo cedo, depois outra com a equipe responsável pela obra, precisava deixar Helena e Humberto na casa dos pais dela antes de seguir para a empresa...

Sentiu as mãos de Helena descerem pela panturrilha.

Pensou que precisava responder um e-mail.

A máquina desligou.

Depois vieram os pés.

Heitor soltou um suspiro tão satisfeito que ouviu Helena rir.

— Aqui estava ruim mesmo, né?

— Muito.

Os dedos dela pressionaram a planta de seu pé e Heitor sentiu alguma parte restante de sua consciência começar a desistir.

Precisava lembrar de fazer a massagem nela.

Tinha prometido.

Não podia dormir.

Da última vez ela havia reclamado por três dias.

Heitor abriu os olhos e viu Humberto no mesmo lugar, agora quase dormindo, a chupeta se movendo lentamente na boca enquanto a naninha cobria metade de seu rostinho.

Ele sorriu.

Sua família estava ali.

Heitor fechou os olhos apenas por um instante.

Só um.

A última coisa que sentiu foi a mão de Helena apertando suavemente seu pé.

Depois, não sentiu mais nada.

Dormiu.

Helena teria razão outra vez.

Mas Heitor só descobriria isso na manhã seguinte.