O CEO que Eu Paguei

21 Rumo ao Silêncio


O carro deslizava pela pista como se soubesse o caminho de volta sem que ela precisasse guiar.

Porque a mente de Helena estava em outro lugar.

O cheiro do perfume dele — amadeirado, quente, quase cruel de tão viciante — ainda impregnava o ar da cabine. E pior: estava grudado nela, no cabelo, na roupa, na memória do corpo.

Ela apertou mais o volante. Estava tensa. O maxilar rígido, os ombros duros, os pensamentos em turbilhão.

Ele tinha se aproximado demais.

Falado com aquela voz baixa demais.

Tocado com aquelas mãos grandes demais.

Beijado como se o mundo fosse acabar.

Ela girou o volante, encostou o carro no acostamento deserto de uma estrada marginal e puxou o freio de mão com força.

Respirou fundo.

Levou as duas mãos ao rosto e apoiou a cabeça no encosto. Depois inclinou o rosto pra cima, encarando o teto do carro como se alguma resposta fosse cair do teto.

Que merda estava acontecendo com ela?

Já tinha ficado com homens antes. Já tinha sentido atração, tesão, curiosidade, carência e impulso.

Mas aquilo?

Aquilo era como se um ímã vivesse entre suas pernas e o outro estivesse na boca dele. No cheiro dele.

Na forma como os olhos azuis dele a olhavam como se já tivesse decorado cada pedaço dela — e quisesse ainda mais.

O coração dela ainda batia rápido.

Só de lembrar da parede fria contra as costas, da língua dele encontrando a dela, das mãos segurando sua cintura com firmeza, da forma como o corpo dela reagia antes mesmo que ele encostasse.

— Que pegada... — ela murmurou, sussurrando pra si mesma.


Seu próprio corpo arrepiou de novo. Ela odiava isso. Odiava estar tão vulnerável.

Como ele conseguia ter tanto poder sobre ela?

Helena apertou os olhos e sentiu o ar ficando preso dentro do peito.

Ela queria fugir. Queria sair daquele carro e correr descalça até sumir da cidade. Mas, a cidade era sua casa. E também ele estava lá. No mesmo prédio. No mesmo andar. Na sala da frente.

No maldito ar que ela respirava.

“Se eu transar com ele… e depois ele espalhar?”, pensou, o estômago revirando.

Ele era o diretor. O nome dele estava no topo da empresa.

Ela era a contratada pela terceirizada. A última a entrar. A mais fácil de descartar.

Helena apertou os olhos com força.

Não era só medo.

Era pânico.

E se ele fosse como tantos outros?

E se tudo aquilo fosse um jogo?

E se, depois que ele conseguisse o que queria, ela virasse apenas uma piada de bastidores?

Ela não suportaria.

Lembrou da avó. Do quanto batalhou pra ter aquele emprego.

Dos currículos enviados, dos “ligamos depois” que nunca ligavam.

Do jantar que deixava de comer pra pagar a conta de luz.

Do orgulho que sentiu quando recebeu o primeiro crachá.

Ela não podia jogar tudo fora por causa de um homem.

Mesmo que esse homem tivesse olhos que a despiam inteira.

Mesmo que o corpo dela já tivesse se entregado antes mesmo que ela dissesse sim.

As lágrimas chegaram sem pedir licença.

Ela as limpou com raiva.

— Não. Eu não vou chorar.

Ela se endireitou, engoliu seco e limpou o rosto com a manga da blusa.

Helena voltou a dirigir com os sentimentos conflitantes e os pensamentos fora de ordem

Estava com medo. Estava confusa. Estava sozinha naquela estrada com o cheiro dele ainda colado nela.

E o pior de tudo… é que ela queria mais.

Queria ele mais uma vez.

E era isso que a enfurecia.

Como Heitor Monteiro conseguia fazer ela se sentir assim?

Helena estacionou a caminhonete no estacionamento, puxou o freio de mão com força e apoiou a testa no volante.

O cheiro dele ainda estava por todo lado. O banco, o ar, os dedos dela.

Ela fechou os olhos. E o gemido que soltara horas atrás voltou como um eco impróprio — só que o corpo respondeu de novo. Arrepiada. Quente. E furiosa com isso.

— Merda. — murmurou.

Desceu do carro como se fugisse de si mesma. Ela ainda sentia as mãos de Heitor, o corpo dele, os lábios e a língua, aquilo estava a desestabilizando. Olhou no retrovisor e viu o cabelo preso às pressas. Era só uma parada rápida para comprar algumas coisas para casa. Algo que a fizesse lembrar que o mundo seguia em linha reta, e não em espiral de desejo.

O supermercado era pequeno, de bairro. Familiar. Péssima escolha.

Passou direto pelas prateleiras, sem reparar muito. Puxou uma garrafa d’água com gás, uma embalagem de pão de queijo para assar e quase não percebeu quando ouviu:

— Lêlê?

Helena congelou.

Aquela voz.

Rafael.

Virou devagar, já sabendo quem era antes mesmo de confirmar.

— Oi Rafa…

Ele sorriu. O mesmo sorriso de quando dizia que ela era o mundo dele.

Camisa polo azul clara, calça jeans, tênis limpo. O mesmo corte de cabelo que ela mesma odiava, mas se acostumou a passar a mão depois do banho.

Rafael estava... igual.

— Nossa, você... — ele a olhou de cima a baixo, confuso, quase rindo — …tá a cara da vistoria mesmo.

Ela soltou um riso abafado pelo cansaço.

— Dia longo.

— Você sempre foi assim, né? Bruta por fora, mas... — ele parou. — Tá tudo bem?

Ela hesitou. Depois assentiu com a cabeça.

— Tá. E você?

— Vou indo. A vida tá... normal demais, eu acho.

Ele deu de ombros. Mas o olhar dele era inteiro nela.

— E a Dona Olívia? — perguntou.

— Continua firme. Dando trabalho, implicando com tudo.

— Imagina. — ele sorriu. — Ela ainda faz aquele mingau com canela enquanto usa as meias do Bob Esponja?

Helena engoliu em seco.

Era tão estranho alguém lembrar dela assim. De um tempo em que ela ainda era só neta e namorada. Quando ela ainda tinha o avô. E a vida era pacata e os sonhos de mudança não era nada além de sonhos.

Andaram juntos pelos corredores. Ela pegou duas caixas de leite. Ele pegou um pacote de café. Conversaram sobre nada por alguns minutos.

Mas o silêncio entre uma prateleira e outra parecia dizer tudo que eles já foram — e tudo que já não eram mais.

No caixa, depois de pagar ela estava empacotando as suas compras. Rafael, sem que ela percebesse, esticou o braço e entregou um pacote extra.

— Isso é da Dona Olívia — disse.

Sequilhos amanteigados. Os favoritos dela. Sempre foram.

Helena franziu o cenho, surpresa.

— Rafa… não.

— Deixa eu fazer isso. Ela sempre dividia comigo quando eu ia lá. Considera como um agradecimento retroativo.

— Não precisa...

— Mas eu quero.

O sorriso dele era o mesmo. A voz, gentil. O olhar, familiar.

Mas nada queimava. Nunca queimou nela.

Na saída, ele segurou a porta pra ela.

— Se cuida, Lêlê.

— Você também, Rafa.

Entrou no carro sem olhar pra trás.

E chorou.

Não por Rafael.

Mas porque agora sabia que a tranquilidade não bastava.

E o pior: sabia exatamente o que bastava.

E isso tinha olhos azuis, cabelos pretos como a noite, barba por fazer e um sotaque carioca que parecia ter morado na pele dela.