O CEO que Eu Paguei
22 Notificações Tardias
Após deixar o carro na empresa, Helena chamou um Uber para ir para casa.
O Uber parou em frente à casa ainda sem reboco, com cerca de grades de ferro pintadas de vermelho já meio desbotado pelo sol. Helena desceu com as sacolas nas mãos, suspirando como quem carrega mais do que o peso dos produtos.
Assim que empurrou o portãozinho de ferro, ouviu o barulho familiar das patas correndo e o latido inconfundível de Tótó que era, oficialmente, o dono da casa.
— Totó… não pula, caramba! — riu, tentando equilibrar as sacolas enquanto o cachorro caramelo tentava escalar sua perna como se não a visse há dias. — Já cheguei, trem!
Ele abanava o rabo como se o mundo fosse feito só daquele reencontro. Ela agachou e o abraçou com força, o rosto enterrado no pescoço peludo. O cheiro de casa. De afeto.
Entrou devagar, largando as sacolas na bancada da cozinha. A casa estava calma, o rádio da sala sintonizado numa estação qualquer tocando sertanejo antigo baixinho.
— Vó? — chamou. — Cheguei.
— Na cozinha? — veio a voz firme, mas um pouco arrastada da senhora.
— Sim.
Dona Olívia apareceu na porta com o chinelo fazendo barulho e o vestido floral solto até os tornozelos.
— Demorou hoje, hein?
— Vistoria — respondeu Helena, puxando a sacola do supermercado. — E um dia do cão.
— E trouxe coisa boa pelo menos?
Helena sorriu.
— Trouxe sim. Olha só o que encontrei.
Ela tirou o pacote de sequilhos e entregou com as duas mãos. Dona Olívia reconheceu de cara.
— Meus sequilhos! Mas, menina… — ela pegou, emocionada. — Cê sabe que eu adoro esses. Melhô coisa que aconteceu foi esse cartão do seu trabalho.
Helena sorriu, o valor do vale era bem alto, por isso ela conseguia dar luxos para si e a avó.
— Foi um presente enviado para a senhora.
— Presente? De quem?
Helena hesitou, depois respondeu casual:
— Do Rafael. Encontrei ele no mercado.
Dona Olívia arqueou a sobrancelha.
— Eita. E como ele tá?
— O mesmo. Gentil. Educado...
— E ainda com aquele cabelo que parece que ele mesmo corta?
— O mesmo.
Riram juntas. Por um instante, o peso do dia esvaneceu.
Helena se recostou na cadeira da cozinha, observando a avó abrir o pacote de sequilhos com delicadeza e pegar um.
— Menina… cês foram felizes um tempo, viu? Mas você fez certo. Nunca foi paixão, foi sossego.
— Eu sei.
— E o que você sente agora? — a avó perguntou, com aquele olhar de quem vê além do que se diz.
Helena desviou.
— Nem sei se é sentimento. Só sei que parece uma armadilha.
Dona Olívia não respondeu de imediato. Quebrou o sequilho ao meio, mastigando com calma.
— Então anda devagar, mas não foge demais. Às vezes o que arde também cura.
Helena ficou em silêncio, tocada.
Depois de um tempo, se levantou.
— Vou dar uma volta com o Totó. Ele tá doido pra sair.
— Tótó…sei…
Ela não respondeu. Pegou a coleira e a guia, o cachorro já pulando, e saíram juntos pela calçada, o céu começando a escurecer no horizonte com tons alaranjados.
As ruas do bairro estavam tranquilas. Era uma daquelas noites em que tudo parece mais calmo do que realmente é. Mas dentro dela, nada estava calmo.
Enquanto andavam, Helena pegou o celular para olhar a hora — e foi aí que viu a notificação:
@hm.monteiro solicitou seguir você.
Seu coração travou.
Era ele.
A foto de perfil mostrava Heitor sorrindo, vestindo uma camiseta amarela casual, o sol refletindo nos cabelos escuros. Ao fundo, uma fileira de carros esportivos.
Ele tinha aquele tipo de beleza irritante.
Helena clicou no perfil.
Coração ainda apertado.
Tinha um story ativo.
Ela abriu. Mesmo sabendo que ele saberia.
Uma mesa de bar. Copos de chopp meio vazios, porções de alimentos que ela nem conhecia, a trilha sonora era "...Enquanto cê não volta, eu tô largado às traças... Maldito sentimento que nunca se acaba...Ô ô ô, ô ô ô... A falta de você, bebida não ameniza... ô, ô ô ô... Tô tentando apagar fogo com gasolina..." — Largado Ás Traças, Zé Neto e Cristiano.
A legenda?
"Melhor do que isso só se eu estivesse com quem eu queria."
Helena ficou parada na calçada.
O Totó puxava a guia para frente, impaciente.
Mas ela estava ali, com o celular na mão e o peito cheio de um calor indigesto.
Porque a legenda parecia simples. Mas era tudo, menos isso.
Ela foi dar uma olhada no perfil dele.
@hm.monteiro
Bio: Discreto por escolha. Perigoso por natureza.
Golden Retriever, camisa tricolor e motor ligado.
📍Entre o Rio e o resto do mundo.
“Perigoso por natureza.”
Helena bufou, ainda parada na calçada, Totó cheirando uma moita de hibisco desinteressado.
— Ah, vá se foder — murmurou sozinha lendo o perfil.
Perfil verificado, óbvio. Seguidores? Muitos. Seguidos? Poucos. Helena rolou o feed com o polegar como quem não quer nada — mas queria.
Helena prendeu a respiração antes de rolar a primeira vez.
Não sabia o que esperava — só sabia que estava pronta para sentir o que fosse. E já estava sentindo.
Foto dele com o cachorro — sem camisa, claro: Ele agachado no gramado, suor na pele, sorriso leve. Um Golden Retriever gigantesco deitado no peito dele, lambendo o rosto com devoção.
Helena arqueou uma sobrancelha.
— Ah, ótimo. O combo completo. Homem sem camisa + cachorro + afeto gratuito.
Leu a legenda: Minha melhor amiga. Minha melhor companhia.
— Claro que é, né, Heitor? A única que te escuta sem reclamar.
Ela passou os olhos pelos comentários — emojis, elogios, provocações — e foi para a próxima. Nem reparou no nome que fechava a lista.
Foto dele com a camisa do Fluminense, selfie no camarote do estádio: Suado, sério, copo Stanley na mão. Atrás, o campo.
A legenda era seca: 3x1. Simples assim.
Helena revirou os olhos.
— Simples, só se for para você.
Olhou os comentários: amigos, torcedores, elogios de gente que claramente nem sabia o que era impedimento. Um emoji de fogo, um “me nota”, outro “quero ser seu gol contra”.
Seguiu no feed.
Foto dele na praia: Usando uma sunga verde escura.Ele caminhando na areia molhada, com pose de quem não sabe que está sendo fotografado — e óculos de sol que não escondiam o tamanho da marra.
E a legenda: Sol na pele, silêncio na cabeça. E a vista? Melhor que a do mar.
— A vista é você mesmo, né? Humildade zero.
Mas ela ficou tempo demais na imagem.
Desceu, voltou.
E só então percebeu que o bíceps parecia mais grosso.
Passou para o lado e as outras fotos na praia eram do mesmo naipe. Ela deu zoom, ele era irritantemente lindo e gostoso.
Desviou o olhar. Continuou.
Foto dele com uma mulher mais velha: Sentados na sala, ele no chão e ela no sofá com a mão apoiada no ombro dele.
Ela tinha cabelos loiros claros, olhos azuis e um sorriso doce.
Legenda: Ela me ensinou a não ser frouxo, a não ser injusto e a nunca levantar a voz com quem não merece. Obrigado, mãe.
Helena leu devagar. A legenda era bonita. Pensou “O carinho de mãe, como será que seria? Seria parecido com o da avó? Ele parece feliz, ele sempre teve um lindo sorriso.”
Por um segundo, se pegou imaginando aquela mulher passando a mão nos cabelos do filho, dizendo que ele precisava comer direito. Sem perceber que sorriu como se fosse cúmplice.
Passou adiante.
Foto dele com camisa preta, taça de vinho na mão: era noite, varanda com vista da cidade. Com o escrito na foto “ Bem-vindo 3.9.”
Legenda: Ainda inteiro. Mas muito mais perigoso do que antes.
Helena fez uma careta.
— Perigoso pra quem? Mal sabe colocar um capacete. Quase quarentão e posa como se fosse personagem de série.
Mesmo assim, ela aproximou a tela.
Estava bonito. Barba bem feita, camisa ajustada. O corte de cabelo era diferente, cabelo cheio e baixo. E aquele meio sorriso. O mesmo que ela conhecia ao vivo, ao toque.
Próxima foto.
Foto em um rancho ao Pôr do sol: Ele de costas, regata branca, braços apoiados nos joelhos. O céu aberto atrás, laranja em degradê.
Legenda: Vista braba mesmo.
Ela leu.
Leu de novo.
E então pensou:
— Você e essas suas frases de homem velho tentando ser novinho.
Mas não rolou ainda. Ficou olhando.
Ali, sozinha, com Totó já desiludido ao lado, sentiu uma pontada de coisa que não tinha nome. Uma saudade? Uma raiva boa?
Ela não soube dizer.
Mas rolou mas algumas fotos de viagens, academia, praia, amigos. Até parar em uma mais antiga.
Foto no escritório: A mais simples de todas.Heitor sentado, de lado, concentrado no notebook. A luz do abajur desenhava a linha do maxilar. A manga da camisa dobrada do jeito que ele gostava. O relógio no pulso. O braço firme. Os cabelos estavam um pouco maiores do curto padrão.
Legenda: Nem tudo que faço é bonito. Mas é sempre necessário.
E foi só aí que Helena parou. Leu os comentários — elogios normais, uns mais picantes. Mas então… viu.
@marcelatorres.rj: “Essa luz é minha favorita em você. Mas eu sou suspeita. 🌒”
Helena franziu o cenho.
Marcela?
Ela voltou devagar pelas outras fotos.
Cachorro. 💬 @marcelatorres.rj: Mel continua sendo a mais ciumenta da casa, né? 🐶🖤
Estádio.💬 @marcelatorres.rj: E pensar que fui obrigada a aprender o nome dos jogadores por sua causa... 😅
Praia. 💬 @marcelatorres.rj: A legenda é boa, mas essa sunga aí já tá dando close desde 2021, hein? 😏
Mãe.💬 @marcelatorres.rj: Dona Celina sempre foi um espetáculo. Manda um beijo pra ela por mim. ✨
Aniversário. 💬 @marcelatorres.rj: Parabéns, Heitor. Mais maduro, mais bonito e… ainda impossível. 🥂
Rancho. 💬 @marcelatorres.rj: Essa vista a gente conhece de cor, né?
Ela estava em todas.
Comentários carinhosos, íntimos, certeiros — como quem conhece as versões do homem que não cabem nas fotos.
— Mas que porra...
Aquela irritação sutil se misturou a algo mais fundo. Curiosidade com gosto de veneno doce.
E então, com o coração acelerado sem motivo nenhum, Helena clicou.
@marcelatorres.rj
A tela mudou.
E ali, com toda a elegância do mundo, estava ela.
Bonita. Chique. Esteticamente irritante.
Helena apertou os olhos e quebrou a cintura para o lado.
Porque agora, ela ia ver tudo.
E dessa vez... com atenção.
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