O CEO que Eu Paguei

148 Resistência e Rendição


Heitor andava de um lado para o outro na sala, vestindo apenas a gravata solta no pescoço. O rosto tinha aquela mistura de raiva e preocupação que Helena ainda não tinha visto.

— Helena, ou você vai por vontade própria comigo agora para o hospital ou eu chamo a ambulância para te levar! — a voz dele cortava o ar, firme.

Sentada no sofá, ela balançou a cabeça, aflita.

— Heitor, não!

Ele se virou de repente, os olhos azuis faiscando.

— Como não? Você quase vomitou suas tripas ali! — estava furioso, mas a fúria vinha do medo.

— Amor… — ela tentou suavizar.

— Nada de amor! — interrompeu, a respiração pesada. — Eu já devia ter te arrastado para lá há muito tempo.

Helena abaixou a cabeça, os dedos apertando o joelho com força.

— Heitor… por favor…

Ele parou. O peito subia e descia em ondas, as mãos foram aos cabelos, puxando-os para trás.

— Helena, eu tô preocupado. Tem algo acontecendo com você… com o amor da minha vida… e eu não sei o quê. — a voz dele falhou por um instante. — O que eu posso fazer é te levar até alguém que descubra.

As lágrimas escorreram antes que ela conseguisse segurar. Ao vê-la chorar, Heitor não resistiu. Caminhou até o sofá, sentou-se ao lado dela e a puxou com força contra o peito.

— Desculpa, Helê… não chora, por favor. — murmurou, beijando os cabelos dela. — Eu só quero o seu bem.

— Eu sei… — a voz dela saiu frágil. — É que eu tô melhorando, me dá só mais hoje.

Heitor suspirou, contrariado, os olhos fechados contra a testa dela.

— Você não estaria assim se já tivesse ido ao médico.

— É que misturou tudo… mas eu tô bem, juro.

Ele segurou o rosto dela entre as mãos, forçando-a a encará-lo.

— Não foge de mim, olha pra mim.

Helena tentou virar o rosto.

— Eu tô fedendo a vômito.

Ele riu baixo, mantendo o olhar firme.

— Eu não me importo com isso. Eu tô com você… independente do que aconteça.

— Eu quase vomitei em você. — ela murmurou, corada.

O riso dele se alargou.

— Foi mesmo… ia ser hilário.

— É claro que não! Que vergonha!

— Pelo menos eu já tô pelado. — respondeu, malicioso. — Era só tomar banho.

Helena riu, o coração mais leve.

— Você é um idiota.

Ele roçou o nariz no dela.

— Seu idiota. — e logo a expressão voltou a ficar séria. — Mas é sério, Helê. Vamos marcar um médico amanhã. Eu não vou conseguir ficar tranquilo sem saber o que você tem.

— Mas amanhã é meu exame demissional.

— Esses exames são rápidos. — rebateu. — De lá, vamos direto ao médico. Eu vou com você.

— Mas… amanhã você não tem aquela reunião importante com o novo cliente? — ela o lembrou.

Heitor respirou fundo.

— Vou remarcar.

— Não. — Helena apertou a mão dele. — É um negócio muito importante, Heitor. E agora eu também sou Monteiro Inc. Eu quero que tudo dê certo para a nossa família.

Ele sorriu diante da determinação dela, a raiva dissolvendo-se em ternura.

— Amanhã, no horário do almoço, tenho outro compromisso. Vou entregar um presente para o meu padrinho. Vai ser rápido.

Helena piscou, surpresa.

— Quem é o seu padrinho?

— Paulo Medeiros. — respondeu, como se fosse trivial. — O pai do Jonas e do Isaac. Durante o tour pelas filiais, comprei algo pra ele. Quero entregar.

Ele disfarçava bem, mas por dentro o estômago se revirava com a desconfiança que carregava.

— Eu quero conhecê-lo. — Helena disse, séria.

Heitor travou um instante, mas forçou um sorriso.

— Vai conhecer, gatinha. Mas… deixa essa parte comigo primeiro, tá?

Helena estreitou os olhos, firme.

— Você não está mentindo pra mim, está, Heitor?

Ele engoliu seco. O nó na garganta quase o impedia de falar.

— Eu vou levar o presente para ele… — começou devagar, mas o olhar vacilou. — Mas a verdade é que faz tempo que não vejo a esposa dele. Tanto tempo que nem lembro do rosto dela. Quero aproveitar… e ver como ela está.

Helena arqueou uma sobrancelha, desconfiada.

— E por que exatamente você quer vê-la?

Heitor puxou o celular do bolso e abriu o WhatsApp. Virou a tela para ela. A foto de perfil mostrava Paulo, Jonas e Isaac lado a lado, sorrindo em um casamento.

— Porque quero saber… se ela é parecida com eles.

Helena arregalou os olhos e, por um segundo, soltou uma risada nervosa.

— Você tá brincando, né? — disse, ainda sem acreditar. — Ela não é sua madrinha? Não conhece a mulher?

Heitor balançou a cabeça, sério.

— Não, amor. Meu padrinho conheceu ela quando eu já tinha uns dez anos. Ela se tornou a melhor amiga da minha mãe. A gente convivia, mas eu… nunca prestei atenção na aparência dela.

Helena o observou em silêncio, os lábios entreabertos, tentando decifrar onde ele queria chegar.

— Você acha que ela não é mãe deles? — os olhos castanhos de Helena se arregalaram.

Heitor balançou a cabeça, firme.

— Eu não tenho dúvidas de que ela é.

— Então o que seria?

Ele desviou o olhar, respirando fundo.

— Eu só tô curioso mesmo.

Helena cruzou os braços, desconfiada.

— E por que eu não posso ir junto, hein?

— Porque marquei de só passar lá para ver meu padrinho rapidinho. — explicou, escolhendo bem as palavras. — Não quero que você conheça eles na correria. Eu vou só deixar o presente.

Ela cerrou os olhos, medindo-o por alguns segundos, e então suspirou, rendida.

— Tudo bem. Mas aproveita e marca para a gente se conhecer. Quero agradecer a mãe dele pela hospitalidade quando fui lá.

Heitor arregalou os olhos.

— Então… você já a viu?

— Não. — Helena riu de leve. — Eu tava dormindo quando ela passou no quarto. Entrei na casa dela e nem agradeci. O que acha de me dar o número dela? Posso mandar uma mensagem, pelo menos.

— Claro, amor. — disse rápido demais, escondendo o nervosismo atrás de um sorriso. Pegou o celular, abriu o contato e compartilhou.

Helena olhou a tela e fez uma careta.

— Lorena? Aff, detesto esse nome. — revirou os olhos, mas em seguida sorriu. — Vou relevar, com certeza ela deve ser legal.

Heitor pigarreou, mudando de assunto.

— E a sua consulta. Pra quando posso marcar?

Helena virou o rosto contrariada.

— Amanhã, umas duas da tarde?

Ele ergueu a sobrancelha, atento.

— Por que essa resistência toda? Não gosta de ir ao médico? Eu vou estar junto.

— É que quando a gente vai no médico é porque a coisa tá séria. E não tá séria. — insistiu.

— Helena… — a voz dele soou grave, carregada de preocupação.

Ela suspirou.

— Eu tô melhorando. Mas amanhã eu vou com você.

Heitor finalmente relaxou os ombros, mas manteve o olhar sério.

— Ótimo. — fez uma pausa, e então completou: — Vou marcar numa ginecologista. Ela pede os exames… e a gente aproveita pra conversar sobre anticoncepcional.

Helena arregalou os olhos e o empurrou de leve.

— Anticoncepcional?!

Um sorriso malicioso surgiu no canto da boca dele.

— Amor, a gente mal usa camisinha mesmo. Quero aproveitar e abolir essa borracha das nossas vidas.

— Heitor Monteiro, isso nem é verdade! — ela retrucou, semicerrando os olhos.

Ele riu, levantando as mãos como quem se entrega.

— É, verdade. Usamos direitinho. — e baixou a voz, num sussurro atrevido. — Mas você sabe que sem é muito mais gostoso.

Ela manteve a expressão séria por alguns segundos, mas depois suspirou, vencida.

— Isso é verdade… — murmurou, desviando o olhar. — Podemos ver sobre isso.

Heitor comemorou como se tivesse ganho um campeonato. O sorriso largo, os braços erguidos no ar, uma risada de garoto escapando.

— Eu sabia! Sabia que você ia concordar, gatinha.

Helena balançou a cabeça, rindo baixinho.

— Você é impossível.

— E seu. — ele completou, puxando-a para um beijo demorado na testa, que selou a conversa.