O CEO que Eu Paguei

149 Mesa de Conflitos


Helena estava de pé diante dele, concentrada nos pequenos botões da camisa branca. Os dedos delicados subiam um a um, e Heitor não conseguia tirar os olhos dela. O jeito atento, o zelo em cada gesto. Minha namorada é tão linda, pensou, com o coração apertado de amor. Sou o homem mais sortudo do mundo.

Quando ela terminou, ele segurou o rosto dela entre as mãos, inclinando-se para lhe dar um selinho suave.

— Tem certeza de que não quer que eu vá com você nos exames? — perguntou, a voz carregada de preocupação.

— Não precisa, amor. — Helena sorriu, os olhos brilhando. — Eu já melhorei bastante, você viu?

Heitor suspirou, estudando cada traço dela.

— Ontem você não passou mais mal mesmo… e hoje também não. Mas tem certeza de que não está sentindo nada?

Helena sentia o corpo cansado, como se tivesse corrido uma maratona, e uma cólica leve insistia em incomodar. Mas ela não queria deixá-lo ainda mais aflito.

— Tenho. — respondeu com convicção.

Ele a fitou sério, como se tentasse decifrar além das palavras.

— O que acha de chamarmos minha mãe pra ficar aqui com você até eu voltar do escritório? Ou, melhor, você pode ir até a casa dela. Ainda não conheceu o lugar onde eu cresci.

Helena sorriu, balançando a cabeça.

— Amor, eu estou bem. E quero sim conhecer a casa onde você cresceu, mas com você ao meu lado.

Heitor passou a mão pelos cabelos, ainda contrariado.

— Eu vou estar em reunião. Mas qualquer coisa, pode me ligar que eu venho na hora.

Ela segurou o rosto dele entre as mãos e o obrigou a se acalmar, olhando direto em seus olhos azuis intensos.

— Foca no seu trabalho, Heitor. Eu vou estar bem.

Ele respirou fundo, derrotado pela firmeza dela.

— Então promete que, se algo acontecer, vai ligar pra minha mãe.

Helena sorriu, enternecida.

— Eu prometo.

— Eu vou dirigindo. Você fica com o motorista, certo? — reforçou.

Ela suspirou, emburrada.

— Certo, certo…

Os dois estavam prontos para sair quando ouviram um chorinho baixo. Viraram-se ao mesmo tempo.

Mel estava deitada perto da porta, emburrada, choramingando e olhando os dois de lado como se fosse abandonada.

Heitor e Helena se entreolharam e caíram na risada.

— Não acredito… — Helena murmurou, indo até a cachorrinha.

A funcionária, já pronta para acompanhá-la, comentou:

— Hoje ela tá manhosa, parece que pressentiu.

— Vai ser rápido, Mel. — Helena sussurrou, abaixando-se e afagando o focinho dela. — A mamãe volta logo.

A cachorrinha, no entanto, continuava com a carinha emburrada.

Helena suspirou, agachou, pegou-a no colo e a encheu de carinho até ver o rabinho balançando.

— Pronto, pronto… Já sei. Vou levar você comigo.

— Amor… — Heitor interveio, divertido. — Não pode entrar com uma cachorra na clínica.

— Ela não vai entrar. Vai me esperar no carro com o motorista.

Heitor suspirou, sorrindo, já rendido.

— Você mima ela mais do que a mim.

— Mas é claro. — Helena respondeu com naturalidade. — Eu sou a mãe dela.

Ele caminhou até as duas com passos largos. Primeiro, tomou Helena nos braços para um beijo apaixonado, profundo. Depois, se inclinou e afagou a cabeça dourada de Mel.

— Se divirtam, meninas.

Helena se agachou ao lado da cachorrinha, levantou a patinha dela e fez um movimento de tchauzinho em direção a Heitor.

— Tchau, papai.

Heitor riu alto, o peito cheio de orgulho e amor. Por um instante, esqueceu todas as preocupações: Helena e Mel eram o seu mundo inteiro.

A manhã de Heitor tinha sido uma maratona. A reunião com o novo cliente se estendeu além do esperado, cheia de números, cláusulas e projeções. Mas, no fim, o resultado compensou: três contratos fechados para a construção de condomínios de alto padrão. Mais uma vitória para Monteiro Inc., mais uma marca para o seu nome.

Assim que saiu da sala de reunião, afrouxou a gravata e pegou o celular. Viu as notificações na tela e o coração bateu daquele jeito especial: Helena.

Primeiro, uma foto da Mel encostada na janela, as orelhas caídas e o olhar atento para a rua. Depois de algumas horas, a mensagem curta:

"Foi tudo bem nos exames, oficialmente ex Plano & Forma.

Tô bem.

Indo para casa agora."

Heitor soltou o ar, sentindo a tensão se dissolver dos ombros. Sorriu, digitando rápido:

"Ok, amor. Terminei aqui também. 3 contratos fechados pelo seu homem 🙅🏻‍♂️"

Quase pôde ouvir a risada dela ao imaginar o emoji. A imagem aqueceu o peito dele, enchendo-o de orgulho.

Mas, no instante seguinte, uma nuvem pesada voltou a se formar em sua mente. O sorriso se apagou.

Lorena.

O jeito que Helena tinha falado sobre o nome na noite anterior ainda ecoava em sua cabeça como uma maldição.

Agora, não havia mais espaço para dúvidas. Precisava olhar nos olhos dela, confirmar com os próprios olhos aquilo que tanto temia.

Heitor guardou o celular, a expressão carregada e seguiu dirigindo até o residencial dos Medeiros.

No reflexo do vidro escuro do carro, seus olhos azuis tinham a mesma determinação fria que carregava em reuniões de guerra corporativa. Só que, dessa vez, a batalha era pessoal.

Heitor chegou ao residencial dos Medeiros com passos firmes, mas por dentro estava em guerra. O funcionário da casa o acompanhava pelo hall imponente, e cada detalhe luxuoso ao redor parecia distante — ele só conseguia pensar no que o aguardava.

O mesmo olhar…

O mesmo formato dos olhos, do nariz, da sobrancelha…

Helena. Jonas. Isaac.

O peito dele se apertou. Levou a mão ao rosto, tentando se recompor, mas o nome ecoava como sentença: Lorena.

Podia ser coincidência. Tinha que ser. Mas algo mais fundo, visceral, dizia o contrário.

Atraves­saram o hall até a sala de visitas. De costas, à frente da janela, estava uma mulher de cabelos longos e castanhos claros, ondulados, que caíam soltos sobre os ombros.

Heitor engoliu seco. O ar parecia rarefeito. Seus olhos azuis fixaram a figura com um receio que ele nunca sentiu em toda a vida. Uma das mãos se escondeu atrás do corpo, os dedos cruzados, em uma oração muda — pedindo a Deus que não fosse verdade.

— Boa tarde, primeira-dama. — a voz saiu firme, mas o coração disparava no peito.

A mulher se virou.

E, no mesmo instante, Heitor soube que sua prece não tinha sido ouvida.

Os músculos do pescoço enrijeceram, os olhos se abriram em espanto, e o canto da boca tremeu.

O rosto dela tinha marcas do tempo, sim, mas os traços… os traços eram inconfundíveis. O formato dos olhos, o desenho do nariz, as sardas espalhadas sobre o dorso do nariz e as maçãs do rosto. Até o jeito de sorrir — um sorriso aberto, luminoso, mas que nele causava calafrios.

Ela deu alguns passos em direção a ele, e até na forma de se mover havia algo perturbadoramente semelhante a Helena. Dona Olívia tinha razão. A estrutura corporal era diferente, a boca também… mas a herança estampada nos gestos, não deixava dúvidas.

— Heitor! Querido, quanto tempo! — Lorena abriu os braços para recebê-lo, a voz doce.

No reflexo do susto, ele deu dois passos para trás.

Lorena parou. Os braços caíram devagar, e o sorriso se apagou, dando lugar a uma preocupação sincera.

— O que foi? Está tudo bem?

A mente de Heitor girava. Choque, incredulidade, raiva contida. Ele nem sabia o que pensar, mas instinto nenhum dele permitia demonstrar fraqueza. Forçou um sorriso, frio, calculado, sua máscara de sempre.

— Desculpe, senhora. — disse, com o tom irônico que usava como escudo. — É que sou um homem praticamente casado agora. É minha reação automática quando alguma mulher se aproxima.

Lorena riu, e a risada dela não tinha nada a ver com a de Helena. Para Heitor, foi um pequeno alívio.

— Que gracinha, Heitor. Mas eu me considero a sua tia. Não precisa ter isso comigo — disse, com algo no olhar que ele não soube decifrar.

Imediatamente, ele corrigiu:

— É a amiga da minha mãe, esposa do meu padrinho e mãe dos meus amigos. Mas não é minha tia.

Além de ser a mãe da sua namorada, pensou, com toda certeza Lorena não podia ser chamada de tia.

Ela cruzou os braços, meio divertida:

— Não me quer como tia, é?

— Não tive a sorte de nascer na sua família de verdade. — respondeu, deixando escapar um pensamento que vibrou dentro dele: ainda bem.

Lorena não pareceu notar a sombra nas palavras dele.

— E a sua mãe, como está?

— Está bem. Contou que está organizando uma arrecadação beneficente em prol da alfabetização. Está animada.

Um sorriso leve surgiu nos lábios de Lorena.

— Celina realmente adora esse tipo de coisa. — falou, pensativa, antes de voltar a encará-lo. — E a sua namorada?

O coração de Heitor deu um pulo.

— O que tem ela?

— Como está o relacionamento de vocês dois? Você gosta dela?

Ele não hesitou:

— Está ótimo. Estamos morando juntos e eu amo ela. É a mulher da minha vida.

Lorena sorriu, avaliando-o com atenção.

— Fico feliz. Você realmente parece ser um homem apaixonado.

— Eu sou. — respondeu Heitor, com orgulho e firmeza.

Foi então que Paulo Medeiros surgiu na porta da sala. Heitor se endireitou, abrindo um sorriso automático. Adorava o padrinho, mas o olhar que Paulo lhe lançou foi duro, julgador.

— Heitor. Quanto tempo. — disse, com o peito estufado e a cara fechada.

— Pois é, padrinho. Tudo bem com o senhor?

— Estou ótimo. Soube que veio me visitar. — a voz soava ameaçadora, ou talvez fosse apenas impressão de Heitor.

— Sim. Fazia um tempo que não nos víamos e eu trouxe um presente de Fortaleza para o senhor. Entreguei para o funcionário.

— Vou dar uma olhada depois.

Paulo se aproximou e estendeu a mão. Heitor sorriu, animado, e correspondeu ao cumprimento. Mas o aperto foi tão firme que franziu o cenho.

— Está forte, hein, padrinho. Desse jeito vai acabar quebrando a mão de alguém. — tentou brincar.

Paulo esboçou um meio sorriso.

— Comecei a lutar boxe recentemente.

— Uau, que incrível! Depois me mostra alguns golpes.

A expressão de Paulo escureceu.

— Pode deixar.

Heitor sentiu o aperto na mão aumentar. O olhar firme do padrinho parecia pesar mais do que o gesto.

Lorena interveio, tocando o braço do marido.

— Não ligue para ele, Heitor. Paulo começou com isso, não sei para quê.

Ele suspirou, ainda altivo.

— Tem muito engraçadinho por aí. Eu tenho que estar pronto para resolver qualquer deslize.

Heitor teve quase certeza: o olhar firme e a frase foram direcionados a ele.

— É um esporte muito másculo, padrinho. — respondeu, sem perder o tom respeitoso.

— Não é só um esporte. É treino de combate.

Lorena revirou os olhos e, com elegância, puxou o marido para aliviar a tensão.

— Vamos todos almoçar.

Seguiram então para o salão de jantar, onde a mesa estava impecavelmente posta. Pratos alinhados, cristais reluzindo sob a luz natural que entrava pelas janelas altas.

Heitor, porém, caminhava com o olhar perdido. Não precisava de confirmação. Aquela era Lorena, a mãe de Helena.

O choque ainda tremia em cada fibra do corpo dele. Helena iria surtar quando soubesse. Provavelmente ficaria furiosa. E o que aconteceria com Jonas e Isaac? Ele não queria perder os amigos, mas sabia que isso já não dependia dele.

Essa era uma decisão que cabia apenas a Helena. O que ela resolvesse fazer, ele iria respeitar. Ele a apoiaria em tudo.

E, acima de tudo, sabia que não podia ter segredos dela. Por mais doloroso que fosse, ele contaria tudo.

O salão de jantar estava impecável: toalha de linho branco, taças de cristal refletindo a luz suave que entrava pelas amplas janelas, talheres alinhados com precisão. Os funcionários serviam discretamente, quase invisíveis, trazendo entradas refinadas.

Heitor se acomodou, mas o corpo estava rígido. Cada vez que olhava para Lorena, sentia o coração apertar, os traços dela estampavam Helena em detalhes dolorosos. Ainda assim, manteve o sorriso educado, o tom impecável, como se fosse apenas mais um almoço formal.

Lorena, por sua vez, parecia relaxada. Depois de provar um gole do vinho branco, inclinou-se levemente para ele:

— Heitor, me conte de Helena. — disse com doçura, quase casual. — Como ela está se adaptando ao Rio?

Ele respirou fundo antes de responder, disfarçando a tensão.

— Está se adaptando muito bem. — disse com orgulho. — É uma mulher incrível, inteligente, resiliente… e agora vai começar oficialmente na Monteiro Inc.

Os olhos de Lorena brilharam.

— Sempre achei que ela seria capaz de muito. Fico feliz em ouvir isso de você. — ela sorriu, e havia um calor verdadeiro no olhar.

Paulo, que até então observava em silêncio, apoiou os cotovelos na mesa e inclinou-se para frente, a postura imponente.

— E você, Heitor? — a voz soou firme, carregada de autoridade. — O que pretende da sua vida nos próximos anos?

Heitor endireitou os ombros. Finalmente, estava ansioso para contar.

— Expandir a Monteiro Inc. — respondeu sem hesitar. — Em três anos, pretendo abrir uma filial nos Estados Unidos. Já estamos estudando a melhor localização e analisando o mercado.

Paulo franziu levemente as sobrancelhas, impressionado.

— Ambicioso. — comentou, o tom grave. — Mas ambição sem disciplina vira vento. Você está preparado para sustentar algo assim?

— Estou. — Heitor sustentou o olhar. — É um projeto que venho estruturando há algum tempo. Não é um desejo vazio, é um plano.

O governador assentiu, satisfeito com a firmeza.

— Bom ouvir isso. Mas… — deu um gole de vinho antes de prosseguir — a vida não é feita só de negócios. Você já está namorando. Não pensa em se casar?

Heitor piscou, respirou fundo. A pergunta era estranha, mas respondeu com calma.

— Penso, sim. Helena é a mulher da minha vida. Não tenho dúvidas de que quero um futuro com ela. Casamento, filhos… tudo o que tiver direito.

Lorena sorriu, orgulhosa.

— Que bonito ouvir isso. Aposto que formam um lindo casal.

Paulo, no entanto, estreitou os olhos, avaliando cada gesto do rapaz.

— Palavras bonitas, Heitor. — disse, com uma seriedade que parecia atravessar o ar. — Mas lembre-se: casamento e família exigem mais coragem do que qualquer expansão internacional.

Heitor sustentou o olhar firme, sem vacilar.

— Eu sei. E estou pronto para os dois.

Um silêncio pairou por alguns segundos, carregado de significados. Então Paulo se recostou na cadeira, relaxando o corpo. Um meio sorriso surgiu em seus lábios.

— Veremos.

Os funcionários voltaram a circular, servindo o prato principal. Lorena retomou a conversa, leve e curiosa, mas a troca entre Heitor e Paulo permanecia no ar como uma batalha silenciosa de intenções.

Heitor ainda processava Lorena e a conversa com Paulo quando ouviu passos rápidos e a voz animada de Jonas.

— Heitor! Cara, por que não me avisou que vinha? — o rapaz surgiu no salão, com aquele jeito despojado que era só dele. Foi direto cumprimentar o amigo.

Heitor sorriu, tentando disfarçar o peso no peito.

— Não sabia que você estaria em casa.

— Claro que estaria se me avisasse, pô! — Jonas respondeu, rindo. — Dei sorte de te ver aqui. — puxou a cadeira e se sentou do lado oposto da mesa.

O clima pareceu relaxar por alguns instantes, até Lorena retomar o assunto que parecia prender sua atenção desde o início.

— Heitor… me fala, do que a Helena gosta?

Ele respirou fundo, permitindo-se sorrir ao pensar na namorada.

— Ela gosta de ver séries, de passear olhando vitrines, gosta de fazer skin care… inclusive começou a fazer em mim também.

Lorena sorria, os olhos brilhando de maneira quase dilatada, absorvendo cada palavra como se fossem tesouros espalhados.

Mas Jonas não se aguentou.

— Gosta de “brincar” com o Heitor.

O mundo parou por um segundo. Lorena arregalou os olhos, Paulo engasgou com o vinho, e Heitor lançou um olhar de pura desaprovação para o amigo. Jonas caiu na risada, como se tivesse acabado de soltar a piada mais genial do século.

Heitor pigarreou, tentando consertar a situação.

— Nós adoramos o tempo juntos.

Paulo pousou a taça na mesa com firmeza.

— Isso é inadmissível. Como pode fazer esse tipo de coisa sem casar com ela? Sem apresentá-la perante a sociedade como sua mulher?

Heitor deu um sorrisinho torto, como se ouvisse algo antiquado. Mas quando encontrou o olhar severo do padrinho, sentiu o gelo percorrer sua espinha.

— Nós vamos nos casar. — disse firme. — Eu penso em pedi-la em casamento, mas quero que seja perfeito para ela. Faz pouco tempo que oficializamos o namoro, não quero assustá-la.

Paulo riu seco.

— Nenhuma mulher decente se assustaria em ser noiva. Não está a levando a sério?

Heitor apoiou os cotovelos na mesa e respondeu com toda a convicção:

— Tudo sobre a Helena é sério para mim. A felicidade dela é a minha prioridade.

Paulo arqueou as sobrancelhas, cético.

— Não parece. Nem deu uma festa para apresentá-la como sua namorada. Hoje em dia todo mundo namora pela internet, mas ninguém assume ninguém.

O silêncio se instalou. Até Jonas, que sempre tinha uma tirada pronta, mastigava quieto, atento à tensão. Nunca tinha visto o pai tão bravo.

Paulo continuou, incisivo:

— E vai morar com ela naquele apartamento? É antigo, pequeno… apartamento de homem solteiro.

— Já disse a ela que vamos ter uma casa grande. — Heitor respondeu, firme. — Mas ela gosta do apartamento. Agora ele é nosso. E sim, está animada com a ideia de uma casa maior.

Paulo assentiu como se fosse óbvio.

— Claro que está. Helena é uma dama. Exige o melhor tratamento.

Heitor e Jonas trocaram um olhar cúmplice, erguendo discretamente as sobrancelhas.

— Isso é verdade. — Heitor concordou, sem perder o tom. — E é exatamente por isso que eu a trato como tal.

Mas Paulo não deu trégua.

— O corpo de uma mulher é um templo sagrado. Tem que haver respeito. Vocês deviam ter quartos separados até o casamento.

Heitor ficou incrédulo. Jonas também. O ar pareceu mais pesado.

Heitor pigarreou, improvisando com a mesma convicção que usava em reuniões de conselho:

— Concordo com o senhor. E é por isso que eu e Helena não temos relações. Nosso relacionamento é muito respeitoso. Ela dorme no meu quarto… e eu durmo na sala.

Jonas quase explodiu em uma risada, mas se controlou.

Paulo manteve o olhar sério.

— É um começo, mas não é o suficiente.

Lorena suspirou, exasperada.

— Paulo, os dois são adultos!

— Ela é uma menina, Lorena! — retrucou, a voz firme.

Heitor piscou, confuso. Paulo Medeiros nunca foi tão moralista. Paulo falava como um pai, como se estivesse defendendo a própria filha.

E então a ficha caiu.

Lorena era a mãe de Helena.

Paulo, seu padrinho, era casado com Lorena. Logo, ele era padrasto de Helena.

O mundo de Heitor girou. O pai de Helena estava morto, sim, mas Paulo estava bem vivo. E agora, Heitor entendia por que a hostilidade era tão pessoal.

Será que ele sabe? Pelo visto sim…

Heitor olhou para Lorena de novo. As semelhanças com Helena eram inegáveis, mas agora ele também enxergava as diferenças. E, acima de tudo, sentia a confusão se acumular em sua mente.

Se Lorena sabia que Helena estava com ele… por que não a procurou? Por que não disse nada?

Nada fazia sentido.

Mas uma coisa era clara: quando Helena soubesse, a decisão seria dela. E Heitor estaria ao lado dela, custasse o que custasse.

O clima na mesa mudou num estalo. Paulo pousou os talheres com firmeza, o olhar furioso voltado diretamente para o filho.

— Jonas Medeiros.

O tom grave fez Jonas sentir um arrepio subir pela espinha. O ar da sala pareceu mais pesado.

— Oi… pai… — respondeu, engolindo seco, sem coragem de encarar o olhar dele.

— Nunca mais quero ouvir essas insinuações. — a voz de Paulo ecoou grave. — Você nem parece homem!

O queixo de Jonas caiu. Ele, que sempre ouvira o pai incentivá-lo a aproveitar a juventude, namorar, brincar, de repente se via diante de um homem completamente diferente.

Paulo inclinou-se sobre a mesa, a expressão dura.

— Você tem que defendê-la, Jonas. — disse com uma veemência que não admitia réplica — Eu não espero menos de você. Ouviu?

Jonas piscou rápido, tentando entender. Estava confuso, chocado, o coração disparado. Era como se seu pai tivesse mudado de pele de um instante para o outro.

— O- ouvi sim. — gaguejou. — Desculpe… foi só uma brincadeira. Heitor nunca faria algo assim.

Paulo se recostou, finalmente relaxando os ombros.

— Ótimo. — respondeu curto, ainda com os olhos faiscando.

O silêncio voltou à mesa, mas não era leve. Jonas mastigava devagar, sem coragem de abrir a boca de novo. Lorena suspirou, desconfortável com a irritação do marido, tentou quebrar o clima ao pedir para os funcionários trazerem a sobremesa.

Heitor, no entanto, observava tudo em silêncio. O jeito de Paulo falar, a fúria repentina, a exigência de proteção… não eram palavras de um governador para o filho. Eram de um pai cobrando de outro irmão o dever de proteger uma filha.

A cada gesto, a cada olhar, as peças se encaixavam de forma perturbadora.

Heitor terminou o prato mais rápido do que gostaria, mas já não conseguia prolongar a refeição. Deixou os talheres repousarem no canto e respirou fundo antes de se pronunciar:

— Estava uma delícia. Foi ótimo almoçar com todos.

Lorena abriu um sorriso caloroso, inclinando levemente a cabeça.

— Fico feliz que tenha vindo, Heitor. A casa está sempre aberta para você. — a voz doce, mas firme, preenchia o salão. — Paulo fala muito de você, e os meninos também. É da família.

Ele sustentou o olhar dela por um instante, e o coração acelerou.

Mesmo tão parecidas — os olhos, o nariz, o jeito de sorrir — havia diferenças sutis. Quanto mais olhava, mais diferente elas iam se tornando. Ainda assim, a cada traço, ele via Helena refletida.

E isso era ao mesmo tempo fascinante e aterrorizante.

Heitor inclinou-se ligeiramente, agradecendo com toda a cortesia que aprendeu desde menino.

— Agradeço a hospitalidade, senhora. Foi realmente um prazer.

Paulo apenas observava, em silêncio, a postura altiva não deixando escapar nada além da autoridade natural.

Lorena, porém, mantinha aquele olhar fixo, curioso, quase como se procurasse algo nele.

Paulo limpou os lábios com o guardanapo, ergueu-se e encarou Heitor de frente.

— Na próxima vez, traga a Helena. Quero vê-la aqui.

Heitor respirou fundo, mantendo a compostura.

— Eu a trarei, sim. — respondeu com firmeza.

O aperto de mão com Paulo veio em seguida. Só que, agora, não era mais o padrinho afetuoso de outros tempos. O toque firme, quase agressivo, e o olhar duro lembravam a presença de um cachorro fila solto no pátio de uma fazenda, vigilante, pronto para atacar. E Heitor, diante dele, sentia-se como uma raposa intrusa tentando sobreviver.

Agora não era mais seu padrinho. Era seu sogro.

Antes que o ar ficasse ainda mais pesado, Jonas surgiu, jogando o braço pelo ombro do amigo e o puxando em direção ao hall. Assim que chegaram a um canto mais afastado, Jonas apoiou as mãos nos joelhos, ofegando de nervoso.

— Que porra foi aquela? — perguntou, com os olhos arregalados.

Heitor soltou o ar, cansado.

— Não sei.

— Que medo do caralho! — Jonas balançou a cabeça, incrédulo. — Nem parecia meu pai… parecia o pai da menina que você tá comendo.

Heitor fechou a cara imediatamente.

— Jonas, menos. Respeito com ela.

— Foi mal. — Jonas ergueu as mãos, coçando a cabeça em seguida. — Força de expressão. O que eu quero dizer é que ele nem parecia meu pai… parecia pai dela.

O coração de Heitor pesou como chumbo.

Olhou para o amigo, aquele que sempre foi só o pivete engraçado, parceiro de farra, irmão de consideração. Agora, não conseguia deixar de ver diferente: Jonas não era só seu amigo. Era seu cunhado.

A pressão em sua mente aumentou. Queria contar a verdade na hora, queria dividir aquele peso com Jonas. Mas sabia: antes de tudo, precisava contar a Helena. Só depois poderia reunir Jonas e Isaac para conversar.

A cabeça latejava. O relógio no pulso mostrou que ainda havia tempo antes da consulta marcada para Helena. O nó em sua garganta se apertou.

Essa conversa teria que ser hoje.

Seu coração doía só de imaginar. Helena ficaria devastada. Magoada. Irritada. Mas não havia como manter esse segredo. Não cabia a ele, e sim a ela.

Respirou fundo, já decidido.

Heitor se despediu de Jonas, já com a mente pesada. Caminhava para o carro quando ouviu a voz firme atrás dele.

— Heitor.

Ele se virou. Paulo descia os degraus da entrada com uma caixinha azul-turquesa nas mãos. O sorriso aberto e quase paternal em seu rosto não parecia em nada com o homem duro que havia sentado à mesa minutos antes.

— Oi? — Heitor arqueou uma sobrancelha, desconfiado.

Paulo se aproximou devagar, como se aquele momento tivesse sido guardado para os dois a sós. Abriu a caixinha, revelando o brilho de um colar de ouro amarelo e platina com diamantes, acompanhado de um par de brincos idênticos.

— Fiquei sabendo que Helena gosta de joias. Comprei esse conjunto para ela. O que acha?

Heitor observou com atenção. Ouro amarelo, cravejado de diamantes. Se não soubesse a verdade, juraria que Paulo Medeiros estava tentando conquistar a sua mulher. O detalhe incômodo era que aquele presente vinha do padrasto de Helena, e ainda assim, o ciúme queimou em seu peito como ferro em brasa. O que via, diante de si, era outro homem oferecendo a ele a prova de que podia presentear sua mulher com algo de altíssimo valor.

Um pensamento se formou, certeiro: precisava levar Helena a uma joalheria de verdade, escolher ele mesmo as peças mais bonitas, mais raras, mais caras que o seu dinheiro pudesse comprar. Nada nem ninguém poderia ousar ofuscar o que ele colocava nas mãos dela. Outro homem jamais daria joias mais marcantes do que as dele. Independente de quem fosse.

Ele respirou fundo, o olhar gelado.

— Ela adoraria. Mas por que o senhor daria isso à minha namorada? — sua voz saiu firme, sem hesitação.

O rosto de Paulo corou, um lampejo de nervosismo atravessando seus olhos antes de responder com tom quase arrogante:

— Porque tenho mais experiência que você.

— E daí? — Heitor não piscou. — A mulher é minha.

— Sou o governador do Rio, amigo do seu pai, seu padrinho. Estou apenas dando as boas-vindas a ela.

Heitor deu um meio sorriso frio e fechou a caixinha com um movimento firme da mão.

— Entendo. Mas acredito que não seja de bom tom a minha namorada receber presentes assim de outro homem.

O semblante de Paulo se desmanchou em tristeza. Havia algo mais ali, algo preso em sua garganta que Heitor não sabia decifrar. Ainda assim, o governador forçou um sorriso terno.

— Bom saber que ela vai gostar. — pausou e, em seguida, deixou o olhar endurecer. — Cuide bem dela. E não ouse pisar nesta casa sem ela novamente.

— Da próxima vez eu a trarei. — Heitor respondeu na mesma moeda.

— Bom.

O silêncio que seguiu foi pesado, quase sufocante. Os dois se encararam um pouco até que Heitor virou as costas e seguiu para o carro.

No caminho, um pensamento latejou com força em sua mente: além da conversa dura que teria com Helena, agora também precisava levá-la à Tiffany, e comprar algo ainda mais brilhante, ainda mais memorável. Nada, nem mesmo o governador, ousaria dar um presente mais grandioso à sua mulher do que ele.