O CEO que Eu Paguei

173 Repouso Forçado


O quarto era entediante.

Silencioso demais para um homem acostumado a mandar o mundo inteiro se mover ao seu comando.

Tinha uma televisão pendurada na parede — ligada na ESPN — mas nenhum jogo, entrevista ou reprise parecia capaz de prender sua atenção.

Do lado, um vaso de orquídeas brancas repousava dentro da lixeira.

Ele nem sabia dizer por quê. Talvez fosse uma metáfora para o estado atual dele.

Eram as flores favoritas dele, as orquídeas sempre lhe pareceram honestas. Não imploravam por atenção, a conquistavam.

O celular ainda não tinha sido devolvido.

Os advogados diziam que era pro bem dele.

Os médicos diziam o mesmo.

O pai só resumia com um olhar firme:

— Obedeça.

Respirava sem aparelhos agora, e aquilo já era um alívio.

Mas o barulho constante da máquina medindo os batimentos o deixava à beira da loucura.

Bip.

Bip.

Bip.

Era como se o hospital fizesse questão de lembrá-lo, a cada segundo, que ele ainda estava vivo — e preso.

O braço direito estava todo enfaixado, envolto em curativos e preso à tipoia acolchoada preta que o mantinha junto ao tronco.

O ombro doía como se o osso ainda estivesse rachado.

A rigidez era tanta que qualquer tentativa de erguer o braço acima do peito fazia o ar escapar dos pulmões.

Lembrava das palavras do médico, repetidas como uma ameaça:

— O senhor rasgou metade dos pontos internos quando tentou levantar, sr. Monteiro. Mais um movimento desses e volta pra mesa de cirurgia.

E como se não bastasse, o alerta final:

— Sem esforço físico. Sem levantar. E, pelo amor de Deus, sem stress emocional.

Stress emocional.

Ele riu — um som rouco, sem humor.

Era tarde demais. O estresse foi a primeira coisa que sentiu ao ver a publicação.

Depois que os advogados saíram do quarto, sua mãe notou que os pontos estavam sangrando.

Os enfermeiros correram.

Ele terminou com a tala reforçada, curativo duplo e uma nova máquina instalada no quarto para detectar sinais iniciais de infecção.

Agora estava sob o que chamavam de repouso absoluto.

Para ele, parecia prisão domiciliar.

Mas o que o destruía de verdade não era a dor.

Era a ausência dela.

De Helena.

Os médicos tentaram impedi-lo de vê-la.

“Risco de agitação emocional”, disseram.

Ele apenas respondeu, com o tom de voz que sempre fazia salas inteiras se calarem:

— Se não me deixarem ver ela, eu peço transferência de hospital.

Não era ameaça, era desespero disfarçado de autoridade.

A discussão foi feia.

A mãe interveio.

E, no fim, eles cederam.

Permitiram a visita.

Mas não disseram quando.

E era isso que o matava.

Esperar.

O relógio na parede parecia zombar dele.

Cada segundo era um lembrete de que ela ainda não estava ali.

Heitor passou a mão boa pelo rosto, respirando fundo.

O ombro latejava.

As costuras ardiam.

Mas nada doía tanto quanto a saudade.

Pensava nela o tempo todo.

Na voz cantada, no toque quente, no cheiro do cabelo, no sorriso…

E no bebê.

O filho deles.

Já fazia um tempo que não “conversava” com o bebê — coisa que Helena dizia que ele exagerava.

“Não estimula muito, Heitor, se nascer falador como você eu tô perdida.”

Ele sorriu sozinho, lembrando disso.

Olhou para o teto e murmurou, baixinho:

— Eu tô aqui, tá? O papai só tá um pouco machucado, mas tá aqui.

A própria voz o surpreendeu.

Parecia mais fraca, mais vulnerável do que queria admitir.

A cabeça doía de tentar raciocinar, mas o pensamento voltava sempre ao mesmo ponto:

Será que Helena viu a matéria?

Será que estava bem?

Será que chorou?

Ele odiava imaginar.

Odiava se sentir impotente.

Um homem como ele, acostumado a resolver tudo, agora dependia de enfermeiros até pra se levantar da cama.

Era humilhante.

Mudou o canal.

Estava passando Velozes e Furiosos.

Riu de si mesmo — ironia demais ver carros correndo quando ele mal podia se mover.

E então a porta se abriu.

Ele olhou instintivamente.

E prendeu a respiração por um segundo.

Helena entrou.

Por Deus… ela estava linda.

O cabelo estava bem cacheado, o rosto dela estava tão lindo, a pele brilhando e ela ainda estava com aquele batom marrom que ele adorava.

Usava um vestido preto com detalhes verdes que abraçava as curvas, um decote discreto com o colar da inicial deles, e um saltinho baixo que a fazia parecer ainda mais delicada.

Entrou devagar, tímida, como se tivesse medo de estar fazendo algo errado.

Ele sorriu.

— Uau… esse é o céu é? Se eu soubesse que era assim, tinha vindo antes.

Ela riu, e o som foi um alívio.

O bip da máquina acelerou.

Helena balançou a cabeça:

— Idiota. Você não vai pra lugar nenhum. Tá confinado a viver aqui pra sempre comigo.

— Por toda a eternidade, é? — a voz dele ainda soava rouca, mas a entonação estava apaixonada toda derretida.

— Por toda a eternidade. — respondeu ela, com um sorriso que nascia em meio às lágrimas.

— Não existe forma melhor de viver do que essa, Helê. — ele disse, sincero.

Helena cruzou os braços, parada no meio do quarto, e o olhou daquele jeito — aquele olhar que sorria primeiro pelos olhos.

Heitor esticou a mão boa, a palma virada pra cima.

— Vem cá, princesa. Não tem por que um monumento desses ficar tão longe.

Ela revirou os olhos, mas ele já sabia o desfecho.

Veio andando devagar, com aquele rebolado que o fazia esquecer até a dor.

Quando ela encostou na mão dele, ele a segurou com delicadeza — o toque favorito dele no mundo — e levou aos lábios, beijando como se aquele gesto curasse tudo.

Ela se inclinou, as mãos subiram até o rosto dele.

As palmas quentes, os dedos suaves.

Heitor fechou os olhos, sentindo o carinho dela pelo rosto. Depois abriu os olhos, os olhos dela estavam vermelhos e as lágrimas desciam descontroladamente.

Helena chorava, e isso o partia.

Ele não suportava ver as lágrimas dela.

— Desculpa. — sussurrou ela. — Eu tô tentando… mas...

Ele passou a mão boa pelas costas dela, puxando-a para perto, fazendo com que ela encostasse a cabeça no peito dele, mesmo entre fios e curativos.

— Desculpa eu — murmurou. — Aqui o wi-fi não funciona muito bem.

Ela riu entre o choro, fungando.

— Você é um idiota.

— Não estou sentindo nenhuma dor, Helê. — ele sussurrou, com aquele meio sorriso cansado. — Com você aqui, eu não poderia estar melhor.

Ela levou a mão ao peito dele, o olhar doce e dolorido, e encarou o braço na tipoia.

Ele notou — e tentou esconder o desconforto.

Odiava parecer fraco diante dela.

— Você tá linda — disse, com voz baixa. — Se arrumou toda assim pra mim, é?

— Foi sim.

— Aposto que não tem paciente mais sortudo que eu.

Ela respirou fundo, os olhos úmidos.

— Heitor… o que aconteceu?

Ele suspirou, cansado.

— Posso ganhar um beijo antes? Tô louco pra tirar esse batom seu.

Ela riu de leve, balançando a cabeça.

Heitor ergueu a mão esquerda e acariciou o rosto dela.

— Vem cá. — disse, num tom que misturava ternura e desejo contido.

Helena se inclinou, o coração apertado, e ele sentiu o mundo todo se aquietar no instante em que os lábios dela tocaram os dele.

A dor, a raiva, o hospital — tudo desapareceu.

Por um breve momento, só existiam eles dois.

O beijo durou o tempo exato de um respiro preso — intenso, suave e desesperado.

Helena ainda segurava o rosto dele entre as mãos, e Heitor, mesmo limitado, deslizou a mão boa pela cintura dela, sentindo o calor da pele sob o tecido leve do vestido.

O bip da máquina acelerou.

Ele riu baixinho contra os lábios dela.

— Viu? — sussurrou. — Até a máquina sabe que é você.

Helena respirou ofegante, os olhos marejados.

Heitor só queria que ela sentisse que era ele ali — vivo, presente, inteiro o bastante para segurá-la.

Ela não precisava se preocupar.

Quando o beijo terminou, ele depositou um selinho no canto da boca dela, um gesto de ternura que parecia um pedido mudo de calma.

Com cuidado, puxou a cintura dela para que se sentasse na beirada da cama, bem ao lado dele.

A mão dele escorregou até a barriga dela, os dedos se movendo devagar, reverentes.

— Oi, meu filho — disse, com a voz rouca e baixa. — Desculpa a demora, sua mãe prende toda a minha atenção… como você tá aí, hein?

Helena riu entre as lágrimas, um riso fraco, quase um soluço.

— Ele tá preocupado com você.

Heitor olhou para a barriga dela. Ainda não dava pra notar que havia um bebê ali.

Mesmo assim, o peito dele se encheu — um orgulho silencioso, misturado à culpa.

Um bebê tão pequeno não devia se preocupar com nada.

Mas o pai dele… já era outra história.

Helena levou a mão ao rosto dele, obrigando-o a encará-la.

Os olhos castanhos estavam marejados e firmes ao mesmo tempo.

— Heitor, para de graça… — a voz dela embargou. — Eu senti tanto medo. O que aconteceu com você?

Ele mexeu os dedos na barriga dela, buscando coragem.

Não podia mentir.

Nunca quis.

Mas agora, com aqueles curativos, com a imprensa lá fora e o caos armado, era só questão de tempo.

Melhor ela saber por ele.

Ele também sentiu medo, medo de algo ter acontecido com ela ou com o bebê. Mas, ele já estava

Respirou fundo.

— Eu me envolvi numa briga com o Fortenelle.

O silêncio pesou por um segundo — e depois veio o suspiro dela, entrecortado e dolorido.

Helena levou as duas mãos ao rosto e começou a chorar.

— Por que você fez isso? — soluçou. — Olha o seu estado, Heitor! E se você tivesse morrido? Como eu ia viver sem o amor da minha vida? E o meu filho… sem o pai?

Heitor sentiu o peito apertar.

A vergonha veio como uma onda.

Ele subiu a mão devagar e afagou os cabelos cacheados dela, o toque cuidadoso, como se temesse quebrá-la.

— Ei… — murmurou. — Não chora, Helê. Eu tô bem.

Deu um sorriso torto, tentando arrancar dela ao menos uma sombra de riso.

— Você não viu o outro cara, sabe. O Fortenelle saiu de lá pior do que eu. Seu homem ainda tem braço pra brigar, viu?

Ela o interrompeu, indignada:

— Heitor, falaram que você passou por cirurgia! Você tava na UTI!

Ele suspirou e a puxou com calma, acomodando-a no ombro bom, de modo que ela encostasse o rosto no peito dele.

Beijou a testa dela e ficou ali, com os dedos percorrendo os cachos devagar.

— Eu tô bem — repetiu baixinho. — Não queria ter te preocupado assim.

Fechou os olhos e encostou a testa na dela.

— Eu nunca te deixaria sozinha, tá? Confia em mim.

A voz dele tremia de emoção contida.

— Não existe nada que eu queira mais nesse mundo do que estar com você e com o nosso bebê.

Ele engoliu seco.

— Eu te amo, Helê… amo tanto que às vezes parece que respiro mais esse amor do que o próprio ar.

Helena chorava encostada no peito dele.

As lágrimas dela escorriam quentes, e ele sentia cada uma bater contra a pele.

Era um choro sofrido, quase de alívio, o tipo que corta mais do que qualquer ferida.

Heitor não sabia o que dizer pra diminuir aquela dor.

Então, apenas a abraçou mais forte — do jeito que o corpo permitia — e encostou o nariz nos cabelos dela, respirando o perfume familiar da mulher que era o seu lar.

— Eu tive a honra de ser o homem que você escolheu — disse, com a voz baixa, o timbre rouco. — O pai do seu filho.

Ficou em silêncio por um instante.

— E eu nunca perderia esse lugar na sua vida, Helê. Nem neste mundo, nem em nenhum outro.

Ela soluçou, tentando responder, mas as palavras não vinham.

Heitor passou o polegar pela bochecha dela, limpando as lágrimas.

— Tá tudo bem — murmurou. — Eu tô aqui. E vou continuar aqui.

Pousou um beijo nos cabelos dela.

— Sempre por você. Sempre pra você.

Passaram alguns minutos até que o choro dela se dissolvesse em silêncio.

Heitor manteve o braço ao redor de Helena o tempo todo, sentindo o corpo dela relaxar devagar contra o dele.

Tentou se mover um pouco para o canto da cama, pra que ela se acomodasse melhor.

O ombro gritou de dor.

A mandíbula travou.

Ele trincou os dentes, o rosto contraído — mas disfarçou, respirando fundo, como se nada tivesse acontecido.

Tudo o que queria era que ela ficasse bem ali, protegida e segura.

— Desculpa, amor… — murmurou. — Eu sei que você sofreu por minha causa.

— Heitor… — ela disse baixinho.

— Hm? — ele beijou a testa dela, tentando arrancar um sorriso.

Helena hesitou. A voz dela veio quebrada, trêmula.

— Aconteceu algo terrível…

O corpo dele ficou alerta.

O olhar buscou o dela, firme, preocupado.

— O que houve?

Ela desviou o rosto, apertando os dedos no lençol, e o peito dele gelou.

— Helena, fala comigo. O que aconteceu?

Ela escondeu o rosto contra o peito dele, tremendo.

— Helena… — ele insistiu, a voz baixa, mas tensa. — Eu preciso saber por que você tá sofrendo assim.

Os soluços dela ficaram mais altos.

Demorou alguns segundos até ela conseguir dizer:

— Estão falando… falando que o bebê não é seu.

Heitor ficou em silêncio.

Ela o olhou em pânico.

— Eu juro! Eu nunca estive com outro homem desde que a gente ficou junto. Nunca!

Por um instante, ele apenas a observou.

E então… riu.

Um riso rouco, surpreso — quase irônico.

Helena o olhou confusa.

— Qual a graça?

Ele balançou a cabeça, ainda sorrindo, com aquela tranquilidade que só ele sabia fingir.

— É claro que essa criança é minha. Eu nunca teria um pingo de dúvida disso.

Encostou o nariz no dela, o olhar cheio de provocação.

— O único homem nesse mundo que te pega forte e te faz implorar sou eu.

Ela o encarou, meio incrédula, meio sem fôlego.

— Heitor… acham que o bebê é do Antônio. Mas eu nunca tive nada com ele!

Por um segundo, o sorriso dele quase vacilou.

Quase.

O nome de Antônio queimou como ferro quente por dentro. Tudo aquilo era culpa daquele desgraçado.

Mas Heitor respirou fundo. A dor no ombro era nada perto da que sentia ao ver Helena chorando daquele jeito.

Nunca duvidou de Helena, nunca passou pela sua cabeça que aquele papinho do restaurante era realidade. Pensou que aquele delírio tinha sido arrancado com a força dos seus socos. Iria deixar seu pai cuidar de tudo enquanto se recuperava, mas quando viu a publicação…

Antônio não estava apenas tentando destruí-lo — estava atacando a mulher que ele amava.

E isso, para Heitor Monteiro, era inaceitável.

Ainda assim, manteve o tom leve, porque naquele momento ele não era o inimigo do Fortenelle — era o homem dela.

— Eu sei, Helê. Sei que tipo de mulher você é. — Ele passou o polegar nas lágrimas que escorriam. — Aquele pinto pequeno dele não daria conta de você. Você é exigente demais.

Ela arregalou os olhos, indignada.

— Heitor?! Como você consegue brincar com uma coisa dessas?

Ele deu um sorriso cansado, mas seguro.

— Porque é a verdade. — Sua voz soou firme, sem espaço pra dúvida. — Eu confio em você, Helê. Você é minha mulher. Eu cuido de você. E sei que não tem motivo nenhum pra me trair.

Helena balançou a cabeça, chorando baixo.

— Eu nunca trairia você. Nunca.

Ele segurou o queixo dela com delicadeza, forçando-a a encará-lo.

— Eu sei.

Os olhos dele suavizaram.

— Lembra quando a gente se assumiu pra empresa?

Ela deu um riso fraco.

— Quando VOCÊ nos assumiu pra empresa, quer dizer. Como esquecer?

Heitor sorriu de lado.

— Pois é. Eu disse naquele dia que nunca deixaria ninguém falar de você. E eu não volto atrás com palavra dada.

O olhar dele escureceu, a voz ficou mais grave.

— Todos aqueles que espalharam essas mentiras, que tentaram te atingir… eu vou destruir um por um.

No início, Heitor acreditou que a surra teria bastado.

Fortenelle devia ter entendido o recado — devia ter aprendido a ficar no lugar dele.

Mas não.

Ver o nome de Helena arrastado, as manchetes insinuando o impensável, as redes repetindo mentiras com prazer…

Aquilo era mais do que provocação. Era uma afronta.

Uma covardia.

Heitor sentia o sangue pulsar nas têmporas enquanto tentava manter a expressão neutra diante dela.

Por fora, silêncio.

Por dentro, o inferno.

O ódio era um rugido contido, enroscado no peito.

Um veneno circulando, queimando devagar, pedindo uma válvula de escape.

Mas ele não podia — não agora.

Não podia deixar Helena ver o quanto estava furioso, o quanto queria destruir Fortenelle com as próprias mãos.

Ela já estava frágil demais.

E ele jurou que nunca seria mais uma dor pra ela.

Então respirou fundo, tentou conter o tremor na mão boa e o impulso de levantar dali e resolver tudo do jeito que sabia.

Mas uma coisa ele prometeu a si mesmo, em silêncio:

Antônio Fortenelle podia ter começado a guerra.

Mas seria ele, Heitor Monteiro, quem a terminaria.

Helena suspirou, cansada.

— Você sai da morte e já quer ir pra cadeia? É isso?

Ele soltou um riso breve, sem humor.

— Não, amor. Eu só quero o que é justo.

Acariciou a bochecha dela, a expressão se suavizando de novo.

— Não se preocupa com nada. Eu tô aqui. E como falei… não pretendo ir pra lugar nenhum que não seja ao seu lado.

Helena ficou em silêncio por alguns segundos, respirando fundo, até que, com um pouco de hesitação, levou a mão até a tipoia dele. Tocou de leve nos dedos, como se tivesse medo de machucá-lo.

— O que aconteceu com o seu braço? — perguntou baixinho.

— O Fortenelle acabou me cortando com vidro. Mas não foi nada grave. — respondeu calmo.

Ela o olhou assustada.

— Esse foi o motivo da cirurgia?

— Sim, mas só por causa dos pontos. Foi uma cirurgia bem tranquila.

— Se foi tranquila, então por que ficou na UTI? Inconsciente?

Heitor arqueou a sobrancelha, com aquele ar provocador.

— Porque o pai da Heloísa tem um nome de peso… usaram a melhor tecnologia pra me tratar.

Helena estreitou os olhos.

— Mentiroso.

Ele sorriu de lado.

— Se tivesse sido grave do jeito que você tá falando, não teriam deixado você entrar aqui. E eu nem teria saído da UTI. Concorda?

Ela abaixou a cabeça, confusa.

— Ele te acertou só no braço?

— Braço, ombro e aqui na têmpora. — Ele apontou o pequeno curativo acima da sobrancelha. — Espero que fique uma cicatriz bem viril, sabe? Posso contar pros coleguinhas do nosso filho que briguei com um urso.

Helena acabou rindo, balançando a cabeça.

— Você é um ridículo mesmo. Tô tentando falar sério, mas você só brinca. E isso é tão sério.

Ele deu um sorrisinho.

— Então me atualiza do que aconteceu enquanto eu tava dormindo.

Ela suspirou, os ombros relaxando, e por um instante pareceu ter mil coisas pra dizer. Heitor observava atento, o olhar curioso e preocupado.

— Você perdeu o jantar.

Ele piscou, surpreso.

— E o que mais?

— Mais nada. Eu recebi a notícia e vim pro hospital. Fiquei em outro quarto enquanto você tava na UTI. Na primeira noite, Jonas, Isaac e o pai deles ficaram comigo.

Heitor ergueu as sobrancelhas.

— Então conheceu o Paulo.

— Sim… ele foi muito caridoso. Parecia me tratar como parte da família. Todo político é assim?

Heitor riu baixo.

Se ela soubesse.

— Qualquer político que conhecesse você, seria sim.

Ela sorriu de canto, tocando o rosto dele com ternura.

— Depois eu fiquei mais na companhia do Isaac. A gente tá tentando maratonar White Lotus.

Heitor arqueou uma sobrancelha.

— Não posso dizer que não sinto um ciuminho.

Helena se inclinou um pouco e o beijou — um selinho demorado, cheio de carinho.

— Você tá aqui agora. Junto de mim e do nosso filho. Só isso importa pra mim.

Ele sorriu contra os lábios dela.

— Ainda bem que cuidaram de você enquanto eu não podia.

Fez uma pausa.

— Você… tem mexido na internet?

Helena passou a língua lentamente pelo lábio inferior dele, distraída, e ele esqueceu por um instante de onde estava. Tentou mexer o outro braço, o que resultou numa fisgada forte. Fez uma careta.

— Desculpa! Eu te machuquei?

— Nãooo, de forma alguma. — disfarçou, tentando manter o charme. — Pode continuar…

Ela riu e desviou o olhar, divertida.

— Desde que vi as notícias, eu não liguei mais o telefone. Mas a cuidadora tá com a Mel. Ela não ficou sozinha.

Heitor levou a mão boa até o rosto dela, passando o dedão pelos lábios, o sujando de batom, depois o pousou no lábio inferior e o puxou de leve pra baixo. O olhar dele ficou fixo, hipnotizado.

O barulho crescente do bip nem o incomodava mais.

— Eu… não consegui encarar. — murmurou ela.

— Não precisa — disse, sem desviar os olhos. — Pode só… levar a mão por debaixo do lençol…

Helena arregalou os olhos.

— Heitor Monteiro, do que você tá falando?

Ele piscou devagar.

— Da mesma coisa que você.

Ela revirou os olhos, tentando esconder o riso.

— Eu não sei por que me preocupei tanto. Você parece estar ótimo. Olha o que tá insinuando!

— Uma coisa não tem nada a ver com a outra — rebateu, fingindo ofensa.

— Não vou te tocar aqui.

Ele suspirou teatralmente.

— Eu sou muito maltratado.

— Você tá num hospital, acamado, cheio de aparelho, o braço todo remendado… e pensando nisso?

— Posso estar todo ferrado, mas não tô morto. — respondeu ofendido. — Além disso, ninguém vai nem perceber se você usar a boca.

— Não. Definitivamente não!

Heitor coçou a cabeça, indignado.

— Tá bom, tá bom.

Ela começou a rir, e ele não conseguiu se segurar.

— Isso, ri da minha dor. Me nega o que é meu por direito. Nessas horas eu precisava de um ativista dos direitos dos homens.

Helena gargalhou mais alto, e ele riu junto — até sentir o ombro latejar e parar, sem graça.

— Eu queria saber o que aquilo tá fazendo ali. — Apontou para as orquídeas brancas na lixeira.

Helena olhou e abriu um sorriso largo.

— Você sabe de algo, é? — ele perguntou.

— Digamos que está onde deveria.

Ele arqueou a sobrancelha, intrigado. Pensou que podia ser alguma provocação de Viviane, então preferiu não perguntar mais.

— Ah! — disse de repente, com aquele brilho no olhar. — Lembra que falei que você podia escolher o nome do nosso filho?

— Lembro, sim. Eu até já tenho uma ideia.

— Antes de me contar, eu tive um sonho quase profético com o nome dele… se for menino.

Ela inclinou o rosto, curiosa.

— Tipo um nome bíblico?

— Melhor. Escuta só: Humberto. Soa bem, né? Humberto Monteiro.

Helena riu alto.

— Idiota. Quem te falou esse nome fui eu. Você tava na UTI.

Heitor franziu o cenho.

— Tem certeza disso?

— Absoluta.

Ele a olhou de lado, pensativo.

— Algumas coisas na minha cabeça ainda tão borradas… talvez por isso eu não lembre.

Helena sorriu de leve e encostou a testa na dele.

— Não tem problema. O importante é que você tá aqui.

Heitor fechou os olhos, respirando o perfume dela, e respondeu num sussurro:

— E é aqui que eu pretendo ficar.

Ele não sabia quanto tempo a dor iria durar, se o escândalo ia cessar ou se o mundo ainda os deixaria respirar em paz. Mas, naquele instante, com Helena nos braços e o filho crescendo dentro dela, o coração dele batia com um único pensamento: ainda estou aqui.