O CEO que Eu Paguei
174 O Brinde dos Velhos Lobos
A noite estava quieta na residência Monteiro. O relógio antigo na parede marcava 20h em ponto quando os faróis de um carro preto cortaram a entrada do jardim.
Renato ergueu os olhos do celular e sorriu, meio surpreso.
— Então você veio mesmo. — disse, abrindo a porta antes que o mordomo o fizesse.
Paulo desceu do carro sem o habitual aparato de seguranças. O paletó pendurado no ombro, o semblante cansado, mas o olhar ainda firme.
— Nesse assunto em específico, eu tive que vir. — respondeu. — Tem coisas que um homem simplesmente não consegue suportar de longe.
Renato assentiu com a cabeça, um meio sorriso no rosto.
— Eu sei exatamente do que está falando. Entra, vai.
Foram direto para o escritório. O cômodo cheirava a couro antigo, madeira antiga e lembranças. Renato acendeu o abajur, jogando uma luz morna sobre os quadros e os livros empilhados.
— Luiz! — chamou o mordomo. — Duas caipirinhas. Bem feitas, como as de antigamente.
Paulo arqueou uma sobrancelha, divertido.
— Caipirinha? Não acredito que você ainda bebe isso.
— A gente nunca larga o que foi bom, Paulo. — respondeu Renato, com um leve sorriso.
O mordomo retornou minutos depois com uma bandeja prateada. Duas taças de vidro, o gelo tilintando, cheiro de limão fresco no ar. Renato pegou as duas e entregou uma ao amigo.
Paulo olhou o copo, riu sozinho.
— Faz tempo que não vejo uma dessas.
— Foi a primeira bebida que a gente tomou, lembra? — comentou Renato.
Paulo piscou, rindo de leve. — Como esquecer?
Foi numa noite abafada de dezembro, no quintal dos fundos da casa da avó de Renato.
A garrafa de cachaça tinha sido “emprestada” do armário do pai dele — e o limão, colhido às pressas do pé perto do muro.
Misturaram tudo num copo de vidro arranhado, cachaça demais, limão de menos.
A primeira golada veio com uma careta.
— Isso é horrível — disse Paulo, tossindo.
— A gente vai acostumar — respondeu Renato, rindo, com os olhos brilhando de desafio.
O gosto era áspero e quente, mas havia algo de libertador ali.
O primeiro gole de álcool, o primeiro segredo dividido.
Por alguns minutos, sentiram-se adultos — até o cachorro começar a latir e quase entregar os dois.
Paulo deu um gole e riu.
— Horrível como sempre.
— E libertador como sempre. — completou Renato, brindando.
O silêncio que se seguiu era confortável, o tipo que só existe entre velhos amigos.
— E então? — perguntou Renato, recostando-se. — Como estão os meninos? E a Lorena?
— Estão bem. — disse Paulo, com um sorriso brando. — Jonas está estagiando no gabinete. Bon vivant, sabe? Um charme com as palavras, vive sorrindo. Bem diferente de mim ou de você.
Renato riu.
— E o outro?
— Isaac é o oposto. Metódico, disciplinado. Puxou a mãe. Lorena sempre foi assim, determinada, trabalhadora e obstinada.
Renato assentiu, pensativo.
— Eu lembro. Parece que foi ontem que você me procurou dizendo que estava apaixonado por uma das empregadas.
Paulo deu uma risada tímida.
— Ela me fisgou de jeito, Renato. Quando percebi, já era tarde demais pra fingir que não amava.
Renato sorriu, nostálgico.
— Parece o mesmo com o Heitor e a Helena.
Paulo levantou o olhar, curioso com o rumo da conversa.
— Ele está levando isso a sério?
Renato suspirou, apoiando o copo sobre a mesa.
— Nunca vi o meu filho tão sério com algo ou com alguém.
Paulo balançou o copo, observando o gelo girar.
— Mas o Heitor já foi noivo, não foi?
— Foi. — respondeu Renato. — Mas aquilo... foi mais vaidade do que amor. Quando descobriu que ela só queria o nosso sobrenome, acabou tudo.
— E ele amava a garota? — perguntou Paulo.
Renato fez uma pausa antes de responder.
— Eu achava que sim. Mas, comparado ao que vejo que ele sente pela Helena... — ele riu de leve. — Não, aquilo não era amor.
Paulo sorriu, satisfeito.
— Que bom. Ela merece alguém que a ame.
Renato arqueou a sobrancelha.
— Você fala como quem se vê nela.
Paulo soltou uma risada curta.
— Talvez porque me lembre de nós.
— Como quando pegamos o carro do seu pai e fomos rodar pelo estado? — provocou Renato. — Lembra?
Paulo riu alto.
— Como esquecer? O som alto tocando Led Zeppelin, e a gasolina acabou antes da metade da viagem.
— E quando meu pai descobriu? — disse Renato, rindo. — Achei que ia me matar.
— A minha mãe ficou um mês sem olhar na minha cara. — completou Paulo, balançando a cabeça. — Mas valeu a pena.
— Éramos como Mick Jagger e Jim Morrison. — brincou Renato. — Dois rebeldes.
— Que não foram muito longe quando as contas bancárias foram bloqueadas. — respondeu Paulo, e os dois caíram na risada.
O riso foi ficando mais baixo, até se transformar em silêncio confortável novamente.
Paulo observou o copo, pensativo.
— Eu quero que meus filhos vivam sem tanto peso, sabe? Que se permitam errar, curtir... viver.
Renato o olhou com carinho, compreendendo.
— Você sempre foi um bom pai, Paulo. Jonas puxou você, e Isaac puxou a Lorena.
Paulo assentiu, o olhar se perdendo no copo, como se houvesse algo que ele não pudesse dizer.
— E você… o Heitor puxou a Celina.
Renato riu, satisfeito.
— Ela era uma garota da zona sul, toda certinha, mas se derretia por mim.
Paulo gargalhou.
— Eu lembro e não era só ela viu! Você jurava que era amor divino. Disse que quando ela sorriu pra você, parecia que um anjo tinha descido do céu.
Renato ficou vermelho, tossindo.
— Falando assim, parece idiota.
— Idiota? — Paulo riu ainda mais. — E quando ela foi estudar em Nova Iorque? Você arrumou um “curso de inglês de verão” nos Estado Unidos só pra ir atrás dela!
Renato cobriu o rosto com a mão, rindo.
— Você não esquece nada, hein?
— E como esquecer quando o pai dela proibiu vocês de se verem e você me arrastou pra pular o muro da mansão dela? — Paulo segurava o riso. — O cachorro quase arrancou minha perna!
— Eu te avisei pra não colocar o bife na calça! — retrucou Renato, e os dois explodiram em risadas.
Quando o riso cessou, ficaram só os dois — velhos, ricos, cansados, mas com os olhos cheios de lembranças.
Paulo tomou o último gole da caipirinha.
— A gente se divertiu, Renato. E muito.
Renato assentiu, sorrindo de canto.
— E ainda vai se divertir.
Renato ergueu o copo, brindando.
— Aos garotos que fomos.
Paulo ergueu o dele.
— E aos homens que, mesmo cansados, ainda sabem quando é hora de lutar.
Os copos se tocaram.
O som foi leve, mas tinha o peso de uma promessa antiga.
Paulo pousou o copo vazio na mesa.
— E o Heitor? — perguntou, com voz calma. — Já saiu da UTI?
Renato assentiu.
— Saiu. Está no quarto, se recuperando. Agora quem está com ele é a Helena. — Deu um meio sorriso. — Com ela ali, ele vai se recuperar mais rápido do que qualquer remédio.
O mordomo entrou, silencioso, recolheu os copos e voltou com mais dois. Paulo agradeceu com um aceno discreto, pegando o seu.
— Helena não deveria se esforçar tanto, ainda mais grávida. — disse, balançando o gelo devagar.
— Helena é teimosa. — respondeu Renato, num tom quase afetuoso. — É o tipo de pessoa que se machuca, mas não recua.
Paulo assentiu, olhando o copo.
— Foi uma covardia o que os Fortenelle fizeram com ela. — disse em um tom ressentido.
Renato arqueou a sobrancelha.
— Foi, sim. Mas não esqueça que o Heitor também se machucou e foi literalmente.
Paulo levantou o olhar.
— Ele é um homem vivido, Renato. Fez o que qualquer homem de verdade faria, defendeu a honra da mãe do filho dele. Mas... — suspirou. — Essa publicação foi uma covardia sem tamanho.
— Concordo. — disse Renato, a voz ficando mais grave. — E é justamente sobre isso que eu queria falar com você.
Paulo se ajeitou na poltrona, atento.
Renato pegou o celular no bolso e o girou nos dedos antes de entregá-lo ao amigo.
— Lê isso.
Paulo colocou os óculos, passando os olhos pela tela.
“Na noite da segunda-feira, fui vítima de uma agressão física grave, atualmente sob investigação das autoridades competentes.
Desde então, tenho acompanhado, mesmo durante o período de internação, a disseminação de informações falsas, especulativas e de natureza difamatória envolvendo meu nome, minha família e pessoas que amo.
Por respeito à verdade e ao devido processo legal, não comentarei versões, insinuações ou narrativas construídas com o objetivo de manipular a opinião pública.
Os fatos serão esclarecidos pelas vias corretas — com provas, não com manchetes.
Qualquer pessoa ou veículo que optar por propagar mentiras, distorções ou ataques pessoais responderá judicialmente.
A minha prioridade, neste momento, é a recuperação física e a preservação da minha família.
A verdade não precisa de pressa. Mas chegará.
— Heitor Monteiro”
Paulo terminou de ler em silêncio, o copo esquecido na mão.
— Ele realmente está levando isso a sério. — murmurou.
Renato recolheu o celular de volta.
— Está. Sério até demais. E é isso que me preocupa. Tenho medo de que ele faça algo irreparável, algo que coloque tudo a perder.
Paulo balançou a cabeça devagar.
— O Heitor pode ter o sangue quente, mas não é imprudente.
— Dessa vez está sendo. — retrucou Renato. — Essa nota é direta demais. O tom é quase uma ameaça pública. Você sabe o que isso causa. As ações da Monteiro Inc. reagem em minutos.
Paulo girou o copo entre os dedos.
— A imprensa vai interpretar como deve: um homem ferido defendendo o nome da mulher que ama. A empresa pode se recuperar, Renato. Mas o bem mais precioso de um homem é a família.
Renato ficou em silêncio. Seu olhar se desviou para uma moldura sobre o aparador: uma foto antiga dele, Celina e Heitor, sorrindo do primeiro dia de Heitor na Monteiro Inc.
Paulo observou o gesto, compreendendo o que aquele silêncio queria dizer.
Renato apoiou o copo, pensativo.
— Você disse que queria ajudar, Paulo. Foi por isso que pedi pra gente conversar com calma.
Paulo cruzou as pernas, recostando-se na poltrona.
— Eu quero ajudar, sim. Mas não posso me envolver diretamente com o que aconteceu entre Heitor e o Fortenelle. É um conflito privado, e eu sou governador.
Renato ergueu uma sobrancelha.
— Então em quê você vai se envolver?
Paulo respirou fundo antes de responder.
— Em proteger a Helena. — disse, simples, mas com peso. — Ela precisa de um nome forte a amparando, alguém que mantenha os abutres afastados.
Renato franziu o cenho.
— Ela tem os Monteiro. É um nome forte o bastante.
Paulo o olhou de lado, o semblante se fechando.
Renato notou.
— Por que esse interesse tão pessoal, Paulo? — perguntou, estudando o rosto do amigo.
Paulo desviou o olhar por um instante, depois respondeu sem titubear:
— Porque ela é uma mulher em vulnerabilidade. E porque é próxima da minha família. Eu não deixaria nenhuma mulher sob o meu teto enfrentar esse tipo de covardia sozinha.
Renato o observou por alguns segundos, sem dizer nada. Então assentiu devagar.
— A sua ajuda é útil. E bem-vinda. — disse por fim. — Mas ainda acho essa história... estranha.
Paulo soltou um meio sorriso.
— Não tem nada de estranho em ser gentil com uma pessoa de bem.
Renato inclinou-se, relaxando um pouco.
— Ela é uma boa moça, sim. E tem sorte de ter você olhando por ela.
Paulo tentou disfarçar, mas o olhar desviou rápido demais. Renato percebeu. Ele o conhecia bem demais para não perceber.
Renato não insistiu. Apenas deixou o silêncio pesar, até que Paulo retomou o tom profissional:
— Eu posso garantir um canal discreto de informações. Tenho gente na Secretaria de Segurança e na divisão de crimes digitais. Eles podem rastrear o vazamento da matéria do SociedadeRJ, identificar de onde partiu, quem pagou e quem recebeu.
Renato assentiu, cruzando as mãos.
— E o que eu faço com isso?
— Você formaliza. — respondeu Paulo. — Usa o jurídico da Monteiro Inc. para transformar o que eu descobrir em prova. Eu abro as portas; você faz parecer institucional.
Renato deixou escapar um riso baixo.
— É um bom plano. Você evita deixar rastro político, e eu dou legitimidade empresarial.
— Exato. — confirmou Paulo. — Enquanto isso, eu mudo o foco da imprensa. Ações públicas, programas sociais, manchetes novas. Você aprofunda o cerco financeiro nos bastidores, devagar, limpo e sem deixar cheiro de retaliação.
Renato pensou por um instante, depois levantou o copo num gesto silencioso de acordo.
— Você desvia os olhos do público... eu derrubo o império deles por dentro.
Paulo ergueu o seu também.
— Um passo de cada vez.
Os copos se tocaram de leve — um som breve, mas firme.
— Aos homens que sabem jogar xadrez. — disse Paulo.
— E às famílias que valem a luta. — completou Renato.
O silêncio voltou a preencher o escritório, mas agora havia algo diferente no ar — um pacto selado entre velhos lobos.
O toque do telefone quebrou o silêncio do escritório.
Renato pegou o celular sobre a mesa.
— Gabriel?
A voz do relações-públicas veio urgente, ofegante.
— Senhor Monteiro, ligue a TV agora. Canal 5. É o Jornal da Noite.
— O que houve? — perguntou, o cenho franzido.
— É sobre o caso... o Fortenelle está falando.
Renato trocou um olhar rápido com Paulo, que imediatamente se endireitou na poltrona.
— Ele o quê?
— Entrevista exclusiva — insistiu Gabriel. — É melhor o senhor ver com os próprios olhos.
Renato encerrou a ligação, pegou o controle e ligou a TV embutida na estante.
O logo do Jornal da Noite girava em vermelho no canto da tela.
“Entrevista exclusiva — Antônio Fortenelle fala pela primeira vez após a agressão.”
O som do bip cardíaco ecoou assim que a imagem apareceu.
A câmera se aproximava lentamente do quarto hospitalar.
Luz fria, paredes pálidas, uma enfermeira ao fundo preparando remédios.
Antônio Fortenelle parecia o retrato vivo da tragédia: tala no nariz, o olho direito inchado e fechado, a sobrancelha costurada em dois pontos distintos. Estava irreconhecível, parecia uma abominação.
O curativo branco na testa contrastava com o tom roxo e avermelhado da pele.
Paulo ajeitou o corpo na poltrona, o rosto endurecendo.
Renato cruzou os braços, a expressão fechada.
O repórter falava em tom grave, compassivo:
— Boa noite. Estamos no Hospital Samaritano, onde o empresário Antônio Fortenelle, herdeiro da Fort Group, se recupera do que ficou conhecido como “o confronto entre dinastias empresariais.” Essa é a primeira vez que ele fala sobre o que aconteceu.
Corte.
A câmera fecha o plano. Antônio olha direto para o repórter.
A voz dele sai rouca, arrastada:
— Estou vivo... o que já é mais do que esperavam, eu acho.
Ele tossiu, o rosto se contraiu de dor; uma gota de sangue escapa de sua boca e ele limpa com a gaze.
— Doeu muito... ainda dói. Mas o que mais dói não é o corpo. É saber que tudo isso podia ter sido evitado.
Renato solta um suspiro pesado.
— Começou o espetáculo.
REPÓRTER: O senhor afirma que tentou conversar com o Sr. Heitor Monteiro. O que exatamente aconteceu naquela noite?
Antônio hesita.
A respiração sai lenta, como se cada palavra custasse um pouco de dor.
— Eu fui ao encontro dele pra conversar... como dois homens.— ele engoliu seco — Fui com respeito. Ele era o namorado da mulher que eu amei. Eu precisava falar sobre isso... e sobre o bebê.
A voz falhou, ele apertou os olhos, controlando as lágrimas
— Eu só queria conversar. Só isso.
Fechou os olhos, respirando com dificuldade)
— Mas quando mencionei a gravidez, ele... perdeu o controle.
Ele ficou um tempo olhando para baixo.
— Eu não tive tempo de reagir.
Levantou o olhar para o repórter.
— Ele partiu pra cima. E mesmo quando eu tentei me defender... ele não parava.
O silêncio da sala era interrompido pelo bip constante.
Renato cerra o punho sobre o braço da cadeira.
Paulo percebe o movimento de canto de olho, mas não diz nada.
REPÓRTER: Há rumores de que o senhor também reagiu. Foi legítima defesa?
Fortenelle olhou diretamente para a câmera, voz trêmula, mas firme
— Eu não sou santo. Eu tentei me proteger, sim.
Tossiu novamente.
— Mas eu jamais começaria algo assim. Ele é um homem muito mais forte do que eu. E... — a voz dele hesitou — ele já tinha me machucado antes.
Renato estreitou os olhos.
— Esse canalha.
REPÓRTER: Como assim?
Mal se dava para ver os olhos de Antônio com tamanho inchaço.
— Ninguém sabe... eu nunca contei isso publicamente. — ele levou a mão esquerda devagar até tocar a cicatriz sobre o olho direito.
— Essa cicatriz aqui... não foi acidente. Foi ele.
O repórter fica imóvel.
— Anos atrás, num desentendimento em um evento privado. Eu encobri. Disse que tinha sido acidente de treino. — olhou para baixo — Eu não queria destruir a imagem dele. — voltou a olhar para a câmera — Mas o Sr. Monteiro sempre teve um temperamento... perigoso.
Renato bufou.
— Perigoso é ele, que vive à sombra da mãe.
Paulo não respondeu. Só observava, os olhos duros.
REPÓRTER: O senhor mencionou a gravidez. O senhor acredita ser o pai da criança?
— Eu não sei. — ele sorriu de leve, com esforço — Mas se for... se for mesmo...
Ele deu uma pausa longa, a voz veio quebra e os olhos marejados.
— Eu sou o homem mais feliz do mundo. — ele tossiu e pediu desculpas por isso. — Não me importa escândalo, opinião pública, sobrenome.— olhou para o repórter —Eu só quero que essa criança tenha tudo. E, principalmente... tenha um pai. — o olhar foi diretamente para a câmera — Porque eu cresci sem um. E eu sei o que é viver sem isso.
O silêncio que se seguiu pareceu se arrastar.
Paulo apoiou o cotovelo no joelho e levou a mão à boca.
Os olhos estavam fixos na tela, mas a respiração dele mudou.
Quando Antônio pronunciou o nome dela, o olhar de Paulo se encheu de raiva.
REPÓRTER: A senhora Helena Ribeiro Campos, pivô da polêmica, permanece em silêncio. O senhor tem algo a dizer sobre ela?
— Não vou falar dela. — olhou para cima e respirou fundo — Prefiro guardar o que tivemos em respeito à memória do que vivemos.
O olhar voltou direto para a câmera, voz mansa.
— Ela é uma mulher boa. Confusa, talvez, mas boa. — baixou os olhos — Eu só espero que esteja bem… e que o bebê esteja saudável.
Paulo se endireitou na poltrona num movimento brusco.
O copo dele tilintou contra a mesa.
O olhar estava frio, mortal.
— Filho da puta. — murmurou, num tom tão baixo que pareceu um rugido contido.
Renato o olhou de lado, mas não o conteve.
Sabia que Paulo estava segurando algo maior do que raiva — era o instinto paternal.
REPÓRTER: O Sr. Heitor Monteiro publicou hoje uma nota em tom firme, dizendo que qualquer manipulação será processada. O que o senhor acha disso?
— Ele tem o direito de se defender. — Antônio sorriu de forma cansada e com a boca meio torta. — Mas quem controla a emoção... controla a opinião pública. Eu não preciso provar nada. Só falar com o coração aberto. Não preciso controlar ninguém. As pessoas sabem reconhecer a verdade quando veem dor de verdade.
Renato apertou o copo, tenso.
Paulo, com a mandíbula travada, murmurou:
— Esse puto está performando muito bem.
REPÓRTER: O senhor perdoaria Heitor Monteiro?
— Não existe perdão sem verdade. Quando ele admitir o que fez, talvez. — ele inspira com dificuldade — Até lá... tudo o que posso fazer é sobreviver.
REPÓRTER: Alguma mensagem final?
— Só quero paz. E quero que essa criança, onde quer que esteja, saiba que o pai dela... lutou pra estar aqui.
A câmera se aproximou lentamente do rosto machucado de Antônio.
Os olhos se fecharam, o som do bip tomou conta da sala.
Fade-out. E as letras apareciam na tela
“A entrevista repercutiu imediatamente.
A hashtag #JustiçaPorAntonio alcançou o topo dos assuntos mais comentados do país.
A Monteiro Inc. ainda não se pronunciou.”
Renato desligou a TV com um estalo seco.
O som cessou, mas o veneno daquelas palavras parecia ainda vibrar no ar.
Por alguns segundos, o escritório ficou em silêncio — um silêncio denso, cheio de raiva e incredulidade.
Renato se levantou primeiro.
Andou até o bar, serviu-se de um gole de uísque e virou tudo de uma vez, sem respirar.
— Ele acabou de colocar o meu filho como um monstro em rede nacional. — disse, entre os dentes. — Um monstro violento, ciumento e descontrolado.
Paulo, ainda sentado, esfregou o rosto com as duas mãos, os olhos vermelhos de contenção.
— E ainda teve a ousadia de usar o nome da Helena. — falou, a voz rouca de fúria. — A menina não tem culpa de nada.
A cadeira arrastou no piso quando ele se levantou.
— Chamou ela de confusa, de instável, de mulher perdida. Fez parecer que ela traiu. Que o filho é dele. — bateu o punho na mesa. — Isso não foi uma entrevista. Foi uma encenação arquitetada.
Renato o olhou com o copo na mão.
— É uma jogada de guerra.
— É uma covardia, isso sim. — retrucou Paulo, ainda tremendo. — A Helena tá grávida, vulnerável, com a saúde abalada… e esse bastardo faz o país inteiro achar que ela é cúmplice de alguma coisa.
Renato respirou fundo, tentando conter a própria raiva.
— Ele usou o silêncio dela. — disse, mais baixo. — Transformou em arma.
Paulo olhou para ele, surpreso pela precisão da frase.
— Pense. — continuou Renato. — Se ela não se defende, o público presume que é verdade.
Deu um passo à frente, apoiando o copo na mesa.
— Se ela fala, parece que está atacando um homem ferido.
— Ele não precisa provar nada, Paulo. Só precisa manter o mundo confuso.
— Enquanto ninguém tiver certeza de nada, ele vence.
Paulo respirou fundo.
— O público adora mártires.
— E odeia homens poderosos. — completou Renato. — Ele sabe disso.
Andou até a janela e olhou para o jardim iluminado. — Antônio virou o símbolo do “homem sensível vítima da força”.
Deixou o copo sobre a mesa.
— E meu filho... o vilão.
Paulo caminhou até o bar, servindo-se também.
A voz agora vinha fria, racional.
— Ele tá tentando derrubar o Heitor de dentro pra fora.
Girou o copo nas mãos.
— Se o público duvidar dele só quarenta por cento... já é o bastante pra causar estrago.
Renato virou-se.
— Estrago como?
Paulo enumerou, sem hesitar:
— A imagem da Monteiro Inc. arranhada.
— A imprensa fazendo especulação moral.
— Investidores repensando confiança.
— E, enquanto isso, o Fort Group posando de “empresa da razão, não da força”.
Renato ficou imóvel.
Paulo o fitou com seriedade.
— Ele não quer só destruir a reputação do Heitor. Quer tornar ele um risco institucional.
Renato fechou a cara.
— E vai descobrir o que é provocar um Monteiro.
— Calma. — alertou Paulo, mais contido agora. — Não é com raiva que a gente vence esse tipo de guerra.
Renato ergueu o olhar.
— Não me peça calma quando estão chamando o meu filho de agressor em rede nacional.
Paulo se aproximou, firme.
— E não me peça calma quando estão usando a Helena pra isso.
O ar pareceu estremecer por um instante.
Os dois se encararam — dois homens diferentes, mas com o mesmo fogo nas veias.
Renato foi o primeiro a ceder.
Deu um meio sorriso cansado.
— Então somos dois.
Paulo assentiu, lentamente.
— Ele quer a empatia pública, e vai tê-la... por pouco tempo. — disse. — A opinião pública muda de lado quando sente o cheiro da verdade.
— E nós vamos fazer ela sentir.
Renato apoiou as mãos na mesa, voltando ao tom de comando.
— A Fort Group construiu a própria cova hoje.
— O que você vai fazer? — perguntou Paulo.
— Expor as contradições dele. — respondeu Renato. — A entrevista foi um espetáculo? Então nós vamos desmontar o roteiro.
Paulo deu um leve sorriso — não de alegria, mas de quem reconhece um velho parceiro de batalha.
— Enquanto isso, eu cuido do resto.
Renato arqueou uma sobrancelha.
— O “resto”?
— Os bastidores. — respondeu Paulo, gelado. — Vou descobrir quem autorizou essa entrevista, quem plantou o repórter, e quem está bancando a repercussão.
Deixou o copo vazio sobre o bar.
— E quando eu souber, não vai sobrar ninguém pra dar o próximo furo.
Renato assentiu, satisfeito.
— Você continua sendo o mesmo filho da mãe implacável de sempre.
Paulo ajeitou o paletó.
— E você continua gostando disso.
O silêncio voltou, mas agora havia algo novo — propósito.
Dois homens que já tinham visto impérios caírem, e sabiam como reconstruir.
Renato virou-se para o retrato na parede: ele, Celina e Heitor anos atrás.
A raiva deu lugar a algo mais profundo — orgulho.
— Ele vai sair disso, Paulo. — disse, firme. — E quando sair, não vai ser apenas inocente. Vai ser inequívoco.
Paulo assentiu devagar, com o olhar firme.
— E Helena também.
— Ela? — perguntou Renato.
— Ela vai ser a virada da narrativa. — disse Paulo, confiante. — A mulher que amou o homem certo e foi arrastada pela mentira.
Deu um meio sorriso.
— Quando a verdade vier, o país inteiro vai ver o que ele tentou destruir.
Ele passou a mão pelos cabelos, pensativo, depois olhou fixamente para Paulo.
— Heitor já estava furioso antes disso. — disse, num tom baixo, grave. — Mas agora...
Fez uma pausa longa, o olhar distante, como se pudesse ver o que viria.
— ...quando ele souber dessa entrevista, não vai ter lugar na terra onde Fortenelle possa se esconder da fúria do meu filho.
Renato deu um meio sorriso sem humor, a voz descendo num tom quase profético:
— Infelizmente, Paulo… não vai haver salvação pra ele.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Paulo apenas assentiu, o olhar frio, sem contestar — porque no fundo, ele sabia que Renato estava certo.
Heitor… era o tipo de homem que não recuava quando alguém tocava no que era dele.
Mas, o que Renato não sabia era que Paulo não deixaria que ninguém, muito menos os Fortenelle, desrespeitassem a filha dele. Aquele ato não ficaria impune.
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