O CEO que Eu Paguei
258 Quem é você?
Humberto começou a chorar daquele jeito que Helena já conhecia. Não era fome e também não parecia dor aguda; era um choro cansado, irritado, como se o próprio corpo estivesse incomodando e ele não soubesse o que fazer com aquilo. O menino se contorcia no colo, esticava as perninhas e fazia força, ficando vermelho de tanto reclamar.
— O que foi, meu amor? — Helena murmurou, levantando-se com ele nos braços.
Levou Humberto até o trocador e deitou o filho com cuidado. Assim que levantou a roupinha, percebeu que a barriguinha estava mais estufada que o normal.
— Tá doendo aí? Quer fazer cocô? É isso?
Humberto respondeu com outro resmungo choroso, mexendo os braços como se estivesse tentando explicar.
Helena começou a movimentar devagar as perninhas dele, fazendo bicicletinha, e depois massageou a barriga em movimentos circulares. Conversava o tempo todo, mesmo sabendo que Humberto não entendia as palavras. Perguntava onde doía, dizia que a mamãe estava ali, que ia passar. E, de algum jeito, ela realmente sentia como se entendesse o que o filho tentava dizer.
Jonas apareceu na porta poucos minutos depois, atraído pelo choro.
— O que aconteceu?
A preocupação no rosto dele era imediata.
— Acho que a barriguinha dele tá doendo. Me ajuda já que tá aqui?
— Claro, pô.
Jonas se aproximou sem hesitar.
Helena mostrou o movimento.
— Fica repetindo isso com as perninhas dele. Vou preparar a banheira e ligar a água morna.
Jonas assentiu e assumiu o lugar dela.
Não era exatamente um leigo quando se tratava de bebê. Tinha convivido com Helena desde que Humberto nascera e passara tempo suficiente com o sobrinho para saber segurar, trocar, brincar e até reconhecer alguns choros. Fez o movimento com cuidado, conversando com Humberto numa voz mais baixa do que costumava usar.
Helena atravessou o banheiro preparando a banheira, mas o som do filho chorando atrás dela começou a apertar seu peito.
E então veio o pensamento.
Ela trabalhando, Humberto chorando daquele jeito e ela não estando ali.
Helena parou por um segundo com a mão na torneira.
Aquilo doeu mais do que deveria.
Imaginou outra pessoa percebendo primeiro que a barriga dele estava estufada. Outra pessoa fazendo a massagem. Outra pessoa ligando para dizer o que tinha acontecido.
Seus olhos começaram a encher de lágrimas.
Helena limpou rapidamente antes que Jonas percebesse.
Do quarto veio a voz dele:
— Helena, é a barriga mesmo. Ele soltou uma bomba aqui. Nossa senhora, preciso de uma máscara!
Ela soltou uma risada involuntária e voltou para perto deles.
O cheiro confirmou imediatamente.
— Nossa... tá horrível mesmo.
Jonas fez uma expressão dramática e começou a abanar o ar.
— Eu falei! Isso aí devia ser considerado arma química.
Helena riu enquanto começava a tirar a roupinha do filho.
— Para de exagerar.
— Eu tô quase vendo a luz.
Humberto ainda chorava, embora um pouco menos.
Jonas então olhou para Helena com mais atenção.
— Tu tava chorando?
Ela piscou rápido.
— Por quê?
— Seus olhos.
Helena desviou o rosto e pegou Humberto no colo.
— É que eu não gosto quando ele chora.
Jonas soltou uma risada curta.
— Se você chorar, ele vai chorar mais ainda.
— Isso não é verdade.
— É sim. Olha a cara dele. Ele olha pra você, te vê chorando e chora mais. Até eu tô ficando com vontade agora.
Helena olhou para Humberto.
O menino realmente a encarava enquanto reclamava, como se procurasse alguma coisa no rosto dela.
Talvez Jonas tivesse razão.
Ela respirou fundo.
Forçou primeiro um sorriso, mas aos poucos ele ficou natural.
— Tá tudo bem, meu amor. A barriguinha vai melhorar. Mamãe tá aqui.
Colocou Humberto na banheira, acomodando-o no suporte que o deixava quase sentado, e começou a jogar água morna devagar sobre seu peito com o chuveirinho.
O efeito veio aos poucos.
Humberto foi relaxando.
Soltou mais alguns gases e imediatamente pareceu mais aliviado.
Jonas fez outra careta.
— Eca.
Helena começou a rir.
— Para.
— Isso é nojento.
— É mesmo.
Jonas virou o rosto para ela, surpreso.
— Você admite?
— Claro. Sou mãe, não perdi o olfato.
— Ainda bem que é você então.
— Muito obrigada.
Mesmo reclamando, Jonas ajudou. Limpou a água da banheira quando precisou trocar, pegou toalha, separou roupa limpa e ainda ficou conversando com Humberto enquanto Helena terminava o banho. Depois de água morna, roupa fresca e colo, o menino finalmente cedeu ao sono.
Adormeceu rápido.
Helena ficou alguns minutos observando o peito pequeno subir e descer antes de aceitar sair do quarto.
Jonas acompanhou.
No corredor, ele soltou o ar.
— Acho que é por isso que bebê é tão fofo. Se não fosse, a família desistia exatamente nessa parte.
Helena riu.
— Isso porque você não viu o mecônio.
Jonas fez uma careta horrorizada.
— Não sei o que é, mas pelo nome já não quero saber.
— Melhor assim.
Desceram as escadas juntos.
E, à medida que se afastavam do quarto de Humberto, a leveza daquele momento começou a desaparecer.
Helena sabia o que vinha agora.
Jonas mandaria mensagem para Amanda.
A ideia deixou seu estômago apertado.
Ela tinha pretendido ligar para Heitor antes, contar tudo, ouvir o que ele achava, mas não conseguira. Agora teria que lidar com aquilo sozinha.
— Então... — começou, já na sala. — Você quer fazer isso lá fora?
Jonas olhou para ela.
— Vamos almoçar primeiro.
Helena franziu o cenho.
— Agora?
— Mas, antes, vamos ver uns memes.
— Jonas.
— Preciso tirar da cabeça o que o Humberto fez.
Helena soltou uma risada apesar de si mesma.
— Bom que já tá se preparando pra quando tiver seus filhos.
Jonas riu alto.
— Eu não tenho muita pinta de pai.
Helena olhou para ele com carinho.
— Acho que aqueles meninos discordariam.
O sorriso dele apareceu enorme e então diminuiu.
Quase imediatamente.
Helena percebeu.
Jonas ficou alguns segundos olhando para o chão antes de falar.
— Olha... eu sei que isso não faz muito sentido pra você.
Ela não respondeu.
— Mas pra mim aquilo foi real. — Ele respirou fundo. — Eu sei que ela mentiu. Sei. Só preciso saber se mentiu sobre tudo.
Helena sentiu os olhos encherem de lágrimas de novo.
— Jonas, eu só não quero que você se machuque.
— Eu sei.
— Mesmo que vocês ficassem juntos... você conseguiria confiar nela? — A voz começou a falhar. — Quem trai uma vez pode trair de novo. Como é que você viveria sem pensar nisso?
Jonas desviou o olhar.
— Eu sei. Mas o que eu tinha com ela não parecia isso. Ela gostava de mim de verdade. Eu sei que gostava.
— Como você pode ter certeza?
Os olhos dele também ficaram úmidos.
— Porque eu tava lá, Helena. Eu senti. Eu só preciso ouvir isso dela.
Aquilo foi demais.
— Por favor, não vai atrás dela.
Helena escondeu o rosto nas mãos e começou a chorar. Não conseguia mais segurar.
O medo que sentira vendo Humberto chorar voltou de outra maneira. Só que agora não era o filho. Era Jonas.
Tinha medo de algo terrível acontecer com o irmão. Medo de que ele procurasse Amanda e encontrasse o marido. Medo de uma briga. Medo de uma decisão idiota tomada num momento de desespero. Medo de perdê-lo.
E aquilo despertava uma dor especialmente cruel porque Helena passara praticamente a vida inteira sem saber dele.
Sem Jonas.
Sem Isaac.
Agora que os tinha, não queria perder nenhum.
Talvez fosse esse o preço de amar tanta gente.
Quanto mais vínculos criava, mais coisas existiam fora de seu controle.
Heitor.
Humberto.
Jonas.
Isaac.
Seus pais, seus avós, seus sogros e toda aquela família enorme que parecia ter crescido ao redor dela nos últimos meses.
Cada pessoa era também uma possibilidade de medo.
Helena nunca tinha pensado no amor daquele jeito.
Jonas se aproximou e a abraçou forte.
Helena passou os braços ao redor dele imediatamente e chorou contra seu ombro.
O abraço demorou.
— Não chora, por favor — Jonas murmurou. — Você é muito importante pra mim.
Helena o apertou ainda mais.
— É justamente por isso que eu confio em você pra falar essas coisas. — A voz dele estava baixa. — Eu amo a Amanda. Não posso fingir que não amo. Tem tanta coisa na minha cabeça... eu preciso falar com ela.
Helena continuou chorando.
Não queria ouvir aquilo.
Mas precisava.
Ficaram abraçados por algum tempo, até Jonas apoiar a cabeça no ombro dela.
— Helena...
— Hum?
— Você tá comigo nessa?
A pergunta doeu.
Helena odiava Amanda.
Odiava o que ela tinha feito com Jonas.
Odiava a mentira, a exposição, a confusão com Paulo, o marido, os filhos, tudo.
Não aceitava aquela mulher.
Não perdoava.
Talvez nunca perdoasse.
Mas amava Jonas.
E, naquele momento, isso pesava mais.
Ela queria o irmão de volta. Queria aquele homem leve, brincalhão, irritante, que implicava com todo mundo e ria alto. Se para ajudá-lo a chegar lá tivesse que suportar uma conversa que odiava, então suportaria.
— Pode contar comigo — respondeu, ainda tentando controlar os soluços.
Jonas se afastou para olhar para ela.
E então franziu o nariz.
— Que isso no teu pescoço?
Helena congelou.
Levou a mão até o local.
Sentiu a pele levemente úmida.
Quando afastou os dedos, havia base neles.
Foi então que lembrou.
As lembrancinhas de Heitor.
Provavelmente o cabelo molhado de Jonas, durante o abraço, tinha esfregado exatamente onde ela passara maquiagem para esconder.
— Nada.
Jonas estreitou os olhos.
— Nada?
Ele se aproximou e afastou os cabelos dela.
Helena tentou impedir.
Tarde demais.
Jonas arregalou os olhos.
— Tá de sacanagem comigo?
Helena sentiu o rosto esquentar.
— O quê?
— Que falta de respeito é essa?
— Jonas...
— Olha isso!
— Deve ser mosquito.
Ele virou o rosto lentamente para ela.
— Mosquito?
— É.
— Mosquito, Helena?
— Vai saber.
— Porra! Você é minha irmã! Eu não preciso saber o que acontece na tua intimidade!
Helena ficou ainda mais vermelha.
— Não aconteceu nada!
Jonas apontou para o pescoço dela.
— Como não aconteceu nada? Olha o tamanho desse roxo!
— Para de olhar!
— Tampa isso, pelo amor de Deus!
Helena quase ria, apesar da vergonha.
Jonas estava genuinamente indignado.
— O Heitor esqueceu que você tem homem na família?
Ela arregalou os olhos.
— O que você vai fazer?
— Vou trocar uma ideia com ele.
— Não vai!
— Vou sim.
— Jonas, pelo amor de Deus!
— Falta de respeito comigo.
Helena começou a rir, completamente sem jeito.
Lembrou imediatamente de Heitor dizendo que todo mundo sabia que ela tinha homem.
Pois é.
Todo mundo sabia.
Só que ninguém queria detalhes.
— Para de ser ridículo.
— Ridículo é ele deixar tua garganta parecendo mapa de guerra.
— JONAS!
Ela saiu andando antes que ficasse mais vermelha. Foi rapidamente até a sala, pegou sua bolsa e entrou no banheiro. Quando se olhou no espelho, soltou o ar.
A marca estava bem mais evidente agora.
Roxa.
Impossível de ignorar.
Helena fechou os olhos.
— Você me paga, Monteiro.
Quando Helena saiu do banheiro, Jonas ainda estava emburrado com ela. Continuava falando sobre a marca no pescoço como se tivesse acabado de descobrir um crime grave dentro da própria família, repetindo lições de moral que combinavam tão pouco com ele que chegavam a ser ofensivas.
— Eu tô falando sério, Helena. Isso aí é falta de respeito.
Ela revirou os olhos enquanto guardava a maquiagem de volta na bolsa.
— Falta de respeito com quem, Jonas?
— Comigo.
Helena parou e olhou para ele.
— Com você?
— É. Eu sou seu irmão.
— E?
— E que eu não tenho que ficar vendo essas coisas.
— Então não olha.
— Como que não olha? Tá no teu pescoço.
— Eu cobri.
— Mal.
Helena soltou o ar pelo nariz.
— Você está exagerando.
— Não tô.
— Tá, sim.
— Não tô.
— Tá.
— Não tô.
Helena cruzou os braços.
— Você quer mesmo continuar essa conversa?
Jonas hesitou por meio segundo e então apontou para ela.
— Eu só tô dizendo que o Monteiro podia se controlar.
— Você é a última pessoa no mundo que tem moral pra falar de controle.
Jonas abriu a boca.
Fechou.
— Isso é golpe baixo.
— E eficaz.
Helena passou por ele antes que o irmão encontrasse uma resposta melhor. Por alguns minutos, Jonas ainda continuou reclamando atrás dela, dizendo que um homem precisava ter “noção de convivência familiar”, e Helena precisou se segurar para não rir. Era ridículo. Principalmente vindo dele.
O almoço ajudou a mudar o assunto. Em algum momento, Jonas começou a falar da campanha de Paulo, dos adversários, de bastidores de debate e de algumas gafes que tinham virado piada dentro da própria equipe. Helena acabou entrando no clima. Riram de um candidato que tinha errado o nome de uma cidade durante uma entrevista, de outro que insistira numa estatística completamente errada e de um terceiro que perdera tanto a paciência num debate que praticamente brigara com o mediador. Por alguns minutos, parecia que tudo estava normal.
Depois do almoço, veio a sobremesa.
Quindim.
Helena olhou para o prato com aquela familiar estranheza que ainda sentia com alguns costumes do Rio. Não era um doce que tivesse crescido comendo, mas já havia se acostumado ao fato de que ali parecia surgir quindim em todo lugar.
Quando terminaram, Jonas se levantou com uma expressão diferente, quase conspiratória.
— Vem cá. Quero te mostrar uma coisa.
Helena estreitou os olhos.
— O quê?
— Se eu falar, perde a graça.
— Isso nunca termina bem.
Mesmo assim, foi atrás.
Jonas subiu as escadas e entrou num quarto que Helena não conhecia bem. Assim que cruzou a porta, olhou ao redor. Tudo era organizado demais, com móveis escuros, livros alinhados e aquela aparência de quarto que já tinha pertencido a alguém por muito tempo.
— De quem é?
Jonas abriu um sorriso.
— Do Isaac.
Helena parou.
— Jonas...
— Relaxa.
— Eu não vou mexer nas coisas dele.
— Ele já não tem direito nenhum sobre esse recinto.
— Como assim não tem direito?
— Abandonou a propriedade.
Antes que ela pudesse protestar, Jonas foi até uma cômoda, puxou uma gaveta inteira para fora e começou a mexer embaixo dela. Helena arregalou os olhos.
— O que você está fazendo?
— Espera.
Ele retirou uma espécie de tampa falsa na parte inferior do móvel.
Helena se aproximou, apesar de si mesma.
Havia um pequeno esconderijo ali com coisas aleatórias. Papéis, uma caixa, alguns objetos antigos e um caderno.
O sorriso de Jonas ficou imediatamente maldoso.
— Quer ver o caderno do drama?
Helena arregalou os olhos.
— É o diário dele?
— Não. É melhor. É um caderno onde ele escrevia as rebeldias adolescentes.
— Jonas, isso é pessoal.
— Saca só.
Ele abriu.
Helena já estava curiosa demais para ir embora.
Jonas leu o título em voz alta.
— “Coisas que nunca vou contar para ninguém.”
Helena levou a mão à boca.
— Não lê.
Jonas já estava lendo.
— “Eu ainda durmo com a porta aberta quando tem tempestade.”
Helena soltou uma risadinha.
— Para.
— “Já fingi que estava dormindo só pra não ter que cumprimentar visita do meu pai.”
Ela começou a sorrir.
— Jonas...
— “Eu gosto daquela música horrível que o Jonas escuta.”
Jonas levantou o rosto.
— Olha aí. Bom gosto escondido.
— Continua logo.
Ele arregalou os olhos.
— Ué? Não era pessoal?
Helena fez uma careta.
— Já começou.
Jonas sorriu, vitorioso, e voltou ao caderno.
— “Uma vez eu chorei porque o Heitor foi viajar e achei que ele não ia voltar.”
Helena imediatamente ficou mais atenta.
— Olha, tem até o Heitor...
— “Eu ainda tenho medo de ficar sozinho na mansão à noite.”
— Tadinho.
— “Eu escondi o controle do Jonas e deixei ele procurando por três dias.”
Jonas parou.
— FILHO DA PUTA.
Helena começou a rir.
— Bem feito.
— Eu quase comprei outro controle!
Ele continuou.
— “Eu quebrei o vaso do corredor e coloquei a culpa no cachorro.”
— Coitado do cachorro.
— “Eu sei a senha do celular do Jonas.”
Jonas fez uma cara séria.
— Isso aqui já é crime.
— Continua.
— “Eu já li o diário do Jonas.”
Jonas fechou o caderno.
— EU NUNCA TIVE DIÁRIO.
Helena começou a gargalhar.
— Então por que você ficou tão nervoso?
— Porque é mentira!
— Claro.
— Eu não tinha diário.
— Tá bom, Jonas.
— Não tinha!
Helena já estava rindo demais para responder.
Jonas voltou às páginas.
— “Eu pratiquei na frente do espelho como seria dar entrevista quando fosse adulto.”
Helena sorriu.
— Isso é a cara dele.
— “Eu não quero ser governador.”
Jonas ficou um pouco mais quieto.
Helena também.
A frase parecia simples, mas dizia alguma coisa maior. Mesmo assim, Jonas virou a página.
— “Eu já pensei em mudar meu sobrenome quando crescer.”
Helena sentiu o sorriso diminuir por um instante.
— Ele era bem novinho quando escreveu isso?
— Adolescente.
— Hum.
Jonas continuou.
— “Eu gosto quando o Jonas entra no meu quarto, mas finjo que quero que ele vá embora.”
O rosto de Jonas mudou.
Por um segundo, ficou quase bobo.
— Aí, ó. — Helena olhou para ele com carinho. — Você gostou.
— Não.
— Gostou.
— Cala a boca.
— Continua.
— “Eu fiquei acordado esperando o Jonas voltar de uma festa e nunca contei pra ele.”
Jonas não falou nada. Só virou a página.
— “Às vezes eu finjo que estou dormindo quando o Jonas vem ver se eu estou bem.”
Helena sentiu alguma coisa aquecer dentro do peito.
Aquilo era tão íntimo e tão simples que quase parecia errado estar ouvindo.
Ele continuou, mas a voz estava um pouco diferente.
— “Quando eu tinha oito anos, achei que o Heitor era nosso irmão de verdade e ninguém tinha me contado.”
Helena abriu um sorriso enorme.
— Ai, meu Deus.
Jonas começou a rir.
— Pior que fazia sentido.
— Vocês eram tão grudados assim?
— Pra caralho.
— Dá pra perceber.
Jonas virou mais algumas linhas.
— “Já tentei imitar a assinatura do meu pai.”
— Normal.
— “Tenho medo de falar em público, mas ninguém pode saber.”
— Essa eu não imaginava.
— “Eu ensaio discussões no banho e sempre ganho.”
Helena começou a rir.
— Isso eu faço.
— Todo mundo faz.
— Você faz?
— Eu ganho todas.
— Sozinho é fácil.
Jonas ignorou.
— “Já pedi desculpa pro Jonas enquanto ele estava dormindo porque acordado eu não ia conseguir.”
Dessa vez, ele parou.
Helena olhou para o irmão.
Jonas ficou alguns segundos olhando para a frase.
— Fofo — ela murmurou.
— Ridículo.
— Você tá emocionado.
— Não tô.
— Tá sim.
— Lêlê.
Ela sorriu e deixou passar.
— Continua.
— “Eu sei que o Jonas rouba minhas camisetas. Eu só deixo.”
Jonas pareceu ofendido.
— Eu não roubava.
Helena riu.
— Pegava emprestado sem devolver?
Ele continuou.
— “Eu ainda tenho aquele urso velho. Ele está dentro da caixa azul.”
— Ai.
— “Eu sempre choro quando assisto Lilo & Stitch.”
Helena levou a mão ao peito.
— Eu amo ele.
— Calma.
— Muito fofo.
— Tem mais. “Uma vez fiquei com ciúmes porque o Heitor levou o Jonas pra sair e não me chamou.”
Helena riu.
— Ciumento.
Jonas estava sorrindo também.
Então leu a última.
— “Eu queria ter outro irmão. Mas não igual ao Jonas. Um normal.”
Helena explodiu em gargalhada.
Jonas fechou o caderno com força.
— Acabou.
— Não acredito.
— Ingrato.
— “Um normal.”
— Eu ouvi.
— Coitado do Isaac.
— Coitado de mim.
Helena ainda ria quando Jonas começou a folhear novamente, claramente procurando alguma coisa específica.
— Pera. Tem mais um antes.
— Jonas, chega.
— Esse aqui é bom.
Ele virou algumas páginas como se já soubesse o que cada página continha.
Helena percebeu.
— Você já leu isso tudo várias vezes, né?
Jonas não respondeu.
— Jonas.
— Achei!
— Você é péssimo.
Havia um papel dobrado no meio de uma das páginas.
Jonas retirou.
Helena imediatamente ficou curiosa.
— O que é isso?
— Uma obra-prima.
Desdobrou.
No topo estava escrito:
“Maria Eduarda.”
Helena levou a mão à boca.
— Não.
Jonas já estava rindo.
— Sim.
Começou a ler.
— “Eu não sei se vou te entregar isso. Provavelmente não. Mas eu gosto de você.”
Helena abriu um sorriso.
— Ai, Jonas...
— Quietinha.
Ele continuou lendo a carta inteira.
Quanto mais lia, mais Helena sorria.
Era desajeitada, tímida, detalhista e tão sinceramente adolescente que doía de tão fofa. Isaac havia reparado em coisas pequenas demais: a borracha que Maria Eduarda pedia mesmo tendo uma, o jeito como ela mordia a tampa da caneta, a forma como dizia obrigada duas vezes, como percebia quando alguém ficava quieto demais. Quando Jonas chegou à parte em que Isaac admitia gostar de ficar perto dela mesmo sem conversar, Helena já estava sorrindo como uma boba.
Então vieram as opções.
“Você ficaria comigo?
[ ] Sim
[ ] Não
[ ] Talvez”
Helena soltou um som baixo.
— Isso é muito fofo.
Jonas já estava quase dobrado de tanto rir.
— Espera o final.
— “Se marcar não, por favor não mostra isso pra ninguém. Se marcar sim, também não mostra. Na verdade, não mostra de qualquer jeito.”
Helena começou a rir também.
— Coitado.
— E o melhor: “P.S.: Pode ficar com a borracha.”
Ela levou as duas mãos ao rosto.
— Eu não aguento.
— O Isaac era muito otário.
— Ele era fofo!
— Otário apaixonado.
Helena pegou o papel da mão dele e releu alguns trechos sozinha. Sabia que aquilo era errado. Sabia mesmo. Isaac provavelmente morreria de vergonha se descobrisse.
“Maria Eduarda,
Eu não sei se vou te entregar isso. Provavelmente não. Mas eu gosto de você.
Eu fiquei tentando pensar num jeito menos idiota de escrever isso, só que não consegui. Então vou escrever assim mesmo.
Acho que comecei a gostar de você naquele trabalho de História. Ou talvez antes. Eu não sei.
Você falou que a minha letra parecia receita de médico e eu fiquei com raiva na hora, mas depois fiquei pensando nisso o resto do dia. Não sei por quê.
Eu também gosto quando você pede a minha borracha. Eu sei que você tem uma. Eu já vi. Então eu não sei por que você sempre pede a minha, mas eu gosto quando você pede.
Isso ficou meio estranho.
Também gosto quando você pergunta qual era a página da lição, mesmo tendo anotado. E quando você chega atrasada e senta rápido, tentando fingir que ninguém percebeu.
Todo mundo percebe.
Eu percebo.
Na verdade, eu percebo um monte de coisas sobre você.
Tipo que você morde a tampa da caneta quando está pensando. Que você sempre fala “obrigada” duas vezes. Que você empresta suas coisas pra todo mundo e depois esquece com quem deixou. Que, quando você começa a rir muito, tenta parar olhando pra mesa, mas aí acaba rindo mais ainda.
E que você sempre pergunta se alguém está bem quando a pessoa fica quieta demais.
Você já fez isso comigo algumas vezes.
Eu sempre falo que estou.
Às vezes eu não estou.
Mas eu gosto que você pergunta.
Eu gosto quando você senta perto de mim também. Mesmo quando a gente não conversa. Acho que principalmente quando a gente não conversa, porque não fica estranho. A gente só fica ali.
Eu não sei se você gosta de mim desse jeito. Provavelmente não. Talvez você só seja legal comigo porque você é legal com todo mundo.
Eu pensei nisso bastante.
Mais do que eu queria.
Mas eu queria saber se você ficaria comigo.
Não precisa vir falar comigo sobre isso porque eu provavelmente vou morrer de vergonha. Então só marca um X.
Você ficaria comigo?
[ ] Sim
[ ] Não
[ ] Talvez
Se marcar “não”, por favor, não mostra isso pra ninguém.
Se marcar “sim”, também não mostra.
Na verdade, não mostra de qualquer jeito.
Isaac
P.S.: Pode ficar com a borracha.”
A carta não tinha marcas, nunca havia sido entregue. Depois, mesmo assim, acabou vendo o restante do caderno com Jonas.
Tentou justificar para si mesma que era uma espécie de reparação pelos anos que perdera como irmã mais velha. Não era uma justificativa boa.
Mas funcionava o suficiente.
Quando finalmente saíram do quarto, os dois ainda comentavam uma das listas do caderno, um ranking de pessoas da casa em que, por algum motivo, a aranha que vivia atrás de uma tomada aparecia acima de Jonas.
— Eu quero saber que aranha é essa — Helena disse, rindo.
— Aquela desgraçada ficou meses lá.
— E mesmo assim ele gostava mais dela que de você.
— Eu vou queimar esse caderno.
— Agora não pode mais. É patrimônio histórico.
— Patrimônio é o caralho.
Foi quando um funcionário se aproximou.
— Jonas, chegaram mais presentes.
Jonas olhou distraidamente.
— Ah, deixa lá na salinha. Depois eu vejo.
— Claro.
O funcionário se afastou.
Helena, porém, ficou olhando para o irmão.
— Presentes?
Jonas adotou imediatamente uma expressão inocente demais.
— É.
— Que presentes?
— Umas coisas.
— De quem?
— Ah... umas minas aí.
Helena levantou uma sobrancelha.
Jonas deu de ombros.
— Depois que aconteceu tudo isso, umas mulheres começaram a mandar coisa pra mim. Acho que querem me animar.
Helena ficou olhando.
— Acho que esse não é o plano delas, não.
Jonas fingiu surpresa.
— Não?
— Não.
— Por quê?
— Jonas.
— Tô perguntando.
— Você sabe muito bem.
Ele abriu um sorriso.
— Vai que elas só estão preocupadas com meu emocional.
Helena revirou os olhos.
— Claro. Solidariedade feminina.
— Bonito, né?
— Muito.
— O povo se importa.
— Principalmente as mulheres?
Jonas começou a rir.
— Curiosamente.
Helena balançou a cabeça.
Pelo menos aquilo era Jonas.
Saíram juntos em direção ao jardim, ainda discutindo se uma caixa de chocolate enviada por uma desconhecida podia ser consumida ou não.
Quando chegaram ao jardim, o celular novo e o chip continuavam sobre a mesa exatamente onde Jonas os havia deixado. O pouco de leveza que Helena conseguira recuperar nos últimos minutos desapareceu assim que viu os dois objetos. Durante o almoço, as brincadeiras e até a invasão vergonhosa ao esconderijo de Isaac, tinha conseguido empurrar para algum canto da cabeça o que ainda estava por acontecer. Agora não havia mais para onde fugir. Jonas também ficou mais quieto. Aproximou-se da mesa, pegou o aparelho e começou a colocar o chip enquanto Helena se sentava a poucos metros, observando cada movimento dele com um aperto no peito. Ela não gostava daquilo. Não confiava no que poderia sair daquela conversa e muito menos no estado emocional do irmão para lidar com qualquer resposta que Amanda desse. Mas havia prometido ficar ao lado dele. Então ficou.
Para Jonas, porém, a presença da irmã começou a desaparecer assim que a tela do celular acendeu.
Jonas terminou de montar o celular e ficou alguns segundos encarando a tela acesa. Tinha conseguido outro número justamente porque Amanda bloqueara o anterior, e só aquilo já deveria ser suficiente para fazê-lo parar. Qualquer pessoa com um pouco mais de orgulho teria entendido o recado. Jonas, porém, estava havia dias tentando entender o que diabos tinha acontecido com a própria vida. Em questão de horas, Amanda deixara de ser a mulher divorciada por quem estava se apaixonando para se transformar em uma mulher casada, com um marido que não apenas existia como parecia ter sido completamente apagado das histórias que ela lhe contava. Desde então, uma pergunta não saía de sua cabeça: o que mais tinha sido mentira? O casamento, ele já sabia. O divórcio. As histórias sobre o ex. Mas e eles? Os meses de conversa, os encontros, os beijos, as noites juntos, os passeios com Enzo e Théo, a maneira como ela o olhava quando estavam sozinhos... aquilo também tinha sido inventado?
Era essa possibilidade que o enlouquecia. Jonas já tinha se envolvido com muitas mulheres e nunca precisara perguntar a nenhuma delas o que significava em suas vidas. Se acabasse, acabava. Se não respondessem, procurava outra. Nunca tinha sido difícil. Amanda era diferente, e ele odiava admitir até para si mesmo o quanto era diferente. Sentia falta dela quando acordava, pensava nela durante o dia, pegava o celular por hábito para mandar alguma idiotice e lembrava que estava bloqueado. Sentia falta até dos meninos, o que talvez fosse a prova mais absurda do tamanho da merda em que tinha se metido. Não queria perder aquela mulher. Não queria que ela voltasse para o marido e retomasse a vida como se Jonas tivesse sido apenas um intervalo vergonhoso que precisava ser apagado.
Abriu a conversa e digitou.
Jonas: “Amandinha?”
Ficou olhando para a mensagem durante alguns segundos antes de continuar.
Jonas: “Sou eu.”
E, sabendo perfeitamente que ela provavelmente reconheceria o jeito dele antes mesmo da segunda mensagem, acrescentou:
Jonas: “Antes que me bloqueie de novo, fala comigo cinco minutos.”
As mensagens foram entregues.
Jonas ficou imóvel.
Então os dois riscos ficaram azuis.
Seu coração disparou de uma maneira tão ridícula que ele chegou a prender a respiração. Amanda estava ali. Tinha aberto a conversa. Por um instante, esperou que ela respondesse imediatamente, mas nada aconteceu. Um minuto passou. Depois outro. Quando chegou ao sexto, Jonas já mexia a perna sem parar e olhava para a tela a cada poucos segundos, irritado com a própria ansiedade. Helena estava por perto, mas ele praticamente se esquecera dela. Naquele momento existiam apenas ele, o telefone e uma mulher do outro lado que aparentemente precisava de seis minutos para decidir se escreveria duas palavras.
Ele não aguentou.
Jonas: “Foi você que me bloqueou?”
Dessa vez a resposta veio.
Amanda: “Fui.”
Jonas ficou olhando para a palavra.
Curta.
Direta.
Sem espaço para interpretação.
Sentiu alguma coisa apertar dentro do peito. Durante aqueles dias, tinha construído explicações melhores. Talvez Gustavo tivesse pegado o celular. Talvez alguém da campanha tivesse interferido. Talvez Amanda tivesse sido pressionada. Qualquer hipótese servia porque todas preservavam uma coisa: a ideia de que ela não tinha escolhido desaparecer da vida dele. Mas, ela tinha.
Jonas passou o dorso da mão pelos olhos quando percebeu que começavam a arder.
Jonas: “Por quê?”
Amanda demorou.
Amanda: “Porque eu precisava parar.”
Ele franziu a testa.
Jonas: “Parar o quê?”
A resposta demorou um pouco mais.
Amanda: “Isso.”
Jonas sentiu a irritação crescer.
Jonas: “Isso o quê, Amanda?”
Amanda: “Nós dois.”
Aquilo doeu de um jeito que ele não esperava. Jonas se levantou quase imediatamente, afastou a cadeira e começou a caminhar pelo jardim. Helena acompanhou o movimento com os olhos, ela perguntou alguma coisa, mas Jonas estava tão concentrado, quem nem ouviu.
Jonas: “Então é isso?”
Jonas: “Você volta pra sua vida e eu desapareço?”
Amanda visualizou.
Jonas: “Você passou meses falando comigo todo santo dia.”
Jonas: “Me colocou na vida dos seus filhos.”
Jonas: “Me fez acreditar que era divorciada.”
Jonas: “Eu tava pensando no que a gente ia fazer depois da campanha.”
Jonas: “Aí eu descubro que você tem marido e você me bloqueia.”
Ele parou por alguns segundos antes de escrever a pergunta que realmente importava.
Jonas: “O que eu fui pra você?”
Amanda demorou tanto que Jonas sentiu o estômago embrulhar.
Então:
Amanda: “Você sabe.”
Ele soltou uma risada amarga.
Jonas: “Não. Eu não sei mais porra nenhuma.”
A resposta veio quase imediatamente.
Amanda: “Não fala assim.”
Jonas: “Como você quer que eu fale?”
Jonas sentiu os olhos encherem novamente, mas continuou digitando.
Jonas: “Eu descobri que o cara que você dizia que era seu ex é seu marido.”
Jonas: “Descobri que enquanto eu tava pensando em você, você voltava pra casa pra ele.”
Precisou parar.
Só escrever aquilo já o fazia imaginar coisas que não queria imaginar.
Jonas: “Então me responde.”
Jonas: “Eu era o amante?”
Amanda demorou.
Amanda: “Eu nunca pensei em você dessa forma.”
Jonas apertou a mandíbula.
Jonas: “Mas eu era.”
Silêncio.
Amanda: “Era.”
Aquela resposta o atingiu com uma violência diferente. Não porque fosse novidade, mas porque vê-la admitida por Amanda tornava impossível continuar fugindo da realidade. Jonas fechou os olhos, passou a mão pelo rosto e respirou fundo. Sentia vergonha, raiva, ciúme e uma humilhação que nunca imaginara experimentar por causa de uma mulher.
Jonas: “Eu não quero isso.”
Amanda respondeu:
Amanda: “Eu sei.”
Jonas: “Não, acho que você não sabe.”
Ele voltou a se sentar, inclinando o corpo para a frente.
Jonas: “Eu nunca teria ficado com você se soubesse que você era casada.”
Dessa vez Amanda demorou.
Amanda: “Eu sei.”
Jonas: “Por isso você mentiu.”
Nenhuma resposta.
Jonas entendeu o silêncio.
Aquilo doeu ainda mais.
Jonas: “Caralho, Amanda.”
Amanda: “Eu sei.”
Jonas: “Para de falar que sabe.”
Amanda: “O que você quer que eu diga?”
Jonas respondeu sem pensar:
Jonas: “A verdade.”
Amanda ficou alguns segundos sem escrever.
Amanda: “Eu tive medo de te contar.”
Jonas: “Porque sabia que eu ia embora.”
Demorou.
Amanda: “Sim.”
Jonas soltou o telefone sobre a mesa por alguns segundos e levou as duas mãos ao rosto. Aquilo era quase pior do que descobrir que ela tinha simplesmente se esquecido de mencionar o casamento. Amanda conhecia Jonas o suficiente para saber que ele jamais aceitaria conscientemente aquele papel e, por isso, tirara dele a possibilidade de escolher.
Helena se aproximou um pouco.
— Jonas...
— Não agora.
A voz saiu baixa.
Ele pegou o telefone novamente.
Jonas: “Então você sabia.”
Jonas: “Sabia que se eu descobrisse que você dormia comigo e voltava pra casa pro seu marido eu não ia aceitar.”
Amanda: “Sabia.”
Jonas: “E continuou.”
Dessa vez a demora foi maior.
Amanda: “Continuei.”
Jonas sentiu uma lágrima escorrer e limpou rapidamente.
Jonas: “Por quê?”
Amanda começou a digitar.
Parou.
Voltou.
Amanda: “Porque eu não queria perder você.”
Jonas congelou.
Ficou olhando para aquela frase durante vários segundos.
Era exatamente o que queria ler e, ao mesmo tempo, uma das coisas que mais doíam.
Jonas: “E agora quer?”
Amanda: “Não.”
A resposta veio depressa demais.
O coração dele disparou.
Jonas: “Então por que me bloqueou?”
Amanda demorou.
Amanda: “Porque tudo explodiu.”
Outra mensagem.
Amanda: “Porque eu vi o que eu fiz.”
Amanda: “Com você. Com o Gustavo. Com os meninos.”
Jonas respirou fundo.
Amanda: “Eu não posso continuar tentando ter duas vidas.”
Aquilo fez Jonas se endireitar.
Jonas: “Então não tenha.”
Amanda ficou online.
Ele continuou.
Jonas: “Fica comigo.”
Amanda: “Jonas...”
Jonas: “Não.”
Jonas: “Você acabou de falar que não queria me perder.”
Jonas: “Eu também não quero perder você.”
Jonas: “Então fica comigo.”
Amanda demorou bastante.
Quando respondeu, a mensagem veio maior.
Amanda: “Eu tenho uma vida com ele, Jonas. Tenho dois filhos com ele. Tenho quase dez anos com esse homem. Eu sei que você não quer ouvir isso, mas o Gustavo não foi um marido horrível para mim. Ele não me tratava mal. Não me abandonou. Eu não estava infeliz dentro da minha casa esperando alguém aparecer para me salvar.”
Jonas sentiu o ciúme arder imediatamente.
Amanda continuou.
Amanda: “Eu fiz isso porque me apaixonei por você.”
Jonas abriu os olhos.
Voltou para a frase.
Porque me apaixonei por você.
Leu novamente.
Seu coração disparou de um jeito quase absurdo.
Digitou imediatamente:
Jonas: “Você tá apaixonada por mim?”
Amanda demorou.
Amanda: “Estou.”
Jonas precisou se sentar direito. Sentiu vontade de rir, chorar, levantar e atravessar a cidade. Tudo ao mesmo tempo. Amanda tinha acabado de admitir aquilo. Não “gosto”. Não “tenho carinho”. Não “foi importante”.
Apaixonada.
E, de repente, todo o resto pareceu ainda mais incompreensível.
Jonas: “Então eu não entendo.”
Amanda visualizou.
Jonas: “Se você tá apaixonada por mim, por que tá tentando me tirar da sua vida?”
Foi então que Amanda demorou novamente.
Quando respondeu, a conversa mudou completamente.
Amanda: “Porque eu tentei salvar meu casamento.”
Jonas sentiu o peito apertar.
Jonas: “Tentou?”
Amanda: “Eu e o Gustavo fomos para uma terapia de casal.”
Ele ficou imóvel.
Não gostou nem um pouco daquela informação.
Jonas: “Quando?”
Amanda: “Há alguns dias.”
Jonas: “E?”
Amanda demorou.
Amanda: “A terapeuta perguntou se eu ainda sentia alguma coisa por você.”
O coração dele acelerou novamente.
Jonas: “O que você respondeu?”
Amanda: “A verdade.”
Jonas: “Que verdade?”
A demora pareceu interminável.
Então:
Amanda: “Que ainda sinto.”
Jonas levantou os olhos da tela.
— Caralho...
Helena franziu a testa.
— O quê? Abaixa o celular, deixa eu ler também.
Ele nem respondeu.
Jonas: “Você falou na frente dele que ainda sente alguma coisa por mim?”
Amanda: “Falei.”
Jonas sentiu uma mistura absurda de orgulho, esperança e choque. Amanda podia ter mentido. Podia ter dito que aquilo terminara. Podia ter usado a terapia para apagar Jonas da história e tentar recuperar o casamento. Mas não fizera.
Jonas: “E o que aconteceu?”
Amanda demorou.
Amanda: “Ele levantou e foi embora.”
Jonas franziu a testa.
Jonas: “Da terapia?”
Amanda: “Sim.”
Outra mensagem apareceu.
Amanda: “Depois ele não voltou para casa.”
Jonas ficou completamente imóvel.
Jonas: “Como assim?”
Amanda: “Ele foi embora, Jonas.”
Amanda: “Não voltou mais.”
O coração dele disparou.
A primeira sensação foi tão imediata que Jonas sequer conseguiu sentir culpa por ela.
Esperança.
Gustavo tinha ido embora.
Amanda estava apaixonada por ele.
Por alguns segundos, tudo pareceu absurdamente simples.
Jonas: “Então acabou.”
Amanda respondeu imediatamente.
Amanda: “Não sei.”
Jonas: “Como não sabe?”
Amanda: “Porque ele sumiu.”
Outra mensagem.
Amanda: “Ele não quer falar comigo.”
Amanda: “Eu não sei onde ele está ficando.”
Amanda: “Eu não sei o que ele vai fazer.”
Jonas começou a digitar.
Jonas: “Melhor.”, apagou.
Mesmo desesperado por Amanda, percebeu que aquilo seria cruel demais.
Então escreveu:
Jonas: “Você tá sozinha com os meninos?”
Amanda: “Estou.”
Jonas: “Eu posso ir aí.”
A resposta veio na mesma hora.
Amanda: “Não.”
Jonas: “Por quê?”
Amanda: “Porque não.”
Jonas: “Amanda, ele foi embora.”
Amanda: “Eu sei que ele foi embora.”
Jonas: “Então deixa eu ficar com você.”
A demora dela começou a irritá-lo novamente.
Amanda: “Eu não posso.”
Jonas: “Por causa dele?”
Silêncio.
Jonas: “Amanda?”
Então veio:
Amanda: “Eu estou com medo de ter perdido meu marido de vez.”
A esperança que crescera dentro dele morreu tão depressa que quase doeu fisicamente.
Jonas ficou olhando para a mensagem, incrédulo.
Jonas: “Você tá com medo dele?”
Amanda: “Não.”
Amanda: “Estou com medo de ele nunca mais voltar.”
Jonas sentiu o maxilar se contrair.
Ali estava a parte que ele não queria aceitar.
Jonas: “Você quer que ele volte?”
Amanda demorou muito.
Amanda: “Quero.”
Jonas abaixou o telefone.
Sentiu os olhos arderem outra vez.
— Porra...
Helena voltou a tocar o braço dele, mas Jonas se afastou, não por raiva dela, apenas porque naquele momento qualquer toque parecia demais.
Voltou para a conversa.
Jonas: “Então pra que você acabou de falar que tá apaixonada por mim?”
Amanda respondeu:
Amanda: “Porque você pediu a verdade.”
Jonas: “E eu tô te dando uma saída.”
Amanda: “Não é uma saída, Jonas.”
Jonas: “É sim.”
Ele já digitava com as mãos trêmulas.
Jonas: “Eu amo você.”
Jonas: “Você tá apaixonada por mim.”
Jonas: “Eu gosto dos seus filhos.”
Jonas: “Ele foi embora.”
Jonas: “Então para de correr atrás dele.”
Amanda visualizou.
Jonas continuou, incapaz de se conter.
Jonas: “Eu não quero ser amante.”
Jonas: “Não quero você escondida.”
Jonas: “Não quero dividir você com ele.”
Jonas: “Eu quero você comigo.”
E, depois de alguns segundos:
Jonas: “Larga ele e fica comigo.”
Amanda não respondeu imediatamente.
Jonas continuou olhando para a última mensagem que havia enviado, como se aquelas cinco palavras resolvessem uma situação que, no fundo, ele sabia que era muito maior do que aquilo.
“Larga ele e fica comigo.”
Para Jonas, porém, era simples naquele instante. Não simples no sentido de fácil, porque nada daquilo seria fácil, mas simples no sentido de escolha. Amanda o amava. Tinha acabado de admitir. Gustavo tinha ido embora depois de ouvir da própria esposa que ela ainda sentia alguma coisa por outro homem. O casamento estava destruído, e Jonas não conseguia compreender por que Amanda insistia em correr atrás dos restos dele quando havia alguém do outro lado disposto a recebê-la inteira. Ele não queria encontros escondidos, não queria mensagens apagadas, não queria esperar que Gustavo saísse de casa para poder vê-la. Não queria ser encaixado nas sobras da vida de Amanda. Queria fazer parte dela de verdade.
O aviso de que Amanda estava digitando apareceu.
Sumiu.
Apareceu novamente.
— Ah, não... — Jonas murmurou, passando a mão pelos cabelos. — De novo não.
Helena permanecia sentada a poucos metros, observando-o andar de um lado para o outro pelo jardim. Jonas parecia incapaz de ficar parado. Sentava, levantava, olhava o telefone, caminhava até a piscina e voltava. Ela nunca o tinha visto daquele jeito por mulher nenhuma. Jonas sempre tivera uma facilidade irritante para transformar relacionamentos em coisas leves, quase descartáveis; agora estava ali, com os olhos inchados, o rosto molhado e a dignidade completamente esquecida porque uma mulher demorava três minutos para responder uma mensagem.
Finalmente o telefone vibrou.
Amanda: “Não é assim.”
Jonas soltou o ar pelo nariz.
Jonas: “É como então?”
Amanda: “Eu não posso simplesmente apagar dez anos da minha vida.”
Ele respondeu imediatamente.
Jonas: “Eu não pedi pra você apagar.”
Jonas: “Pedi pra parar de tentar voltar pra um casamento que você mesma acabou de dizer que não sabe se ainda existe.”
Amanda demorou um pouco.
Amanda: “Ele é o pai dos meus filhos.”
Jonas sentiu a irritação subir outra vez.
Jonas: “E vai continuar sendo.”
Amanda: “Você não entende.”
Jonas: “Então me explica.”
Dessa vez ela realmente explicou.
Amanda: “Eu engravidei do Enzo quando a gente ainda estava começando a vida. Eu e o Gustavo construímos tudo juntos. Não é só casamento. Não é só gostar ou não gostar de alguém. São os meninos, a casa, os anos, as dificuldades que passamos, as coisas que ele fez por mim. Eu destruí tudo isso, Jonas.”
Jonas leu devagar. Não gostava de vê-la falar daquele homem daquela maneira, principalmente porque começava a compreender uma coisa que o incomodava profundamente: Gustavo não era o vilão que Amanda tinha apresentado a ele. Não existia um marido cruel do qual ela precisasse ser salva. Existia um homem que ela tinha amado, com quem tivera dois filhos e construíra uma família. Jonas preferiria mil vezes descobrir que Gustavo era um filho da puta. Seria muito mais fácil odiá-lo.
Jonas: “Eu sei que ele faz parte da sua história.”
Parou antes de continuar.
Jonas: “Mas eu não vou competir com dez anos.”
Jonas: “Não tem como competir com isso.”
Jonas: “Eu só quero saber o que você quer daqui pra frente.”
Amanda demorou.
Amanda: “Eu quero minha família.”
Jonas sentiu o peito afundar.
Ficou alguns segundos sem responder, encarando aquelas quatro palavras até a raiva começar a substituir a dor.
Jonas: “E eu sou o quê?”
Amanda: “Jonas...”
Jonas: “Não. Responde.”
Amanda: “Você sabe o que você é pra mim.”
Jonas: “Não sei.”
Ele digitava rápido demais agora.
Jonas: “Porque cinco minutos atrás você falou que tá apaixonada por mim.”
Jonas: “Agora fala que quer sua família.”
Jonas: “Então onde eu entro?”
Amanda ficou online durante alguns segundos.
Amanda: “É isso que você não entende. Eu amo você e ainda assim não quero que meus filhos percam a família deles.”
Jonas ficou parado.
Leu uma vez.
Depois outra.
A palavra amo foi a única coisa que conseguiu enxergar por alguns segundos.
Ela nunca tinha escrito daquela maneira.
Não estou apaixonada. Não sinto alguma coisa.
Eu amo você.
Jonas sentiu o coração acelerar e imediatamente começou a digitar.
Jonas: “Fala de novo.”
Amanda não respondeu.
Jonas: “Amanda.”
Jonas: “Você acabou de falar que me ama.”
Amanda: “Não torna isso mais difícil.”
Ele soltou uma risada nervosa, quase indignada.
— Mais difícil? Ela fala que me ama e quer que eu faça o quê?
Helena arregalou os olhos
— Ela falou que te ama? Como assim?!
Jonas sequer respondeu. Já estava escrevendo novamente.
Jonas: “Você me ama?”
Amanda: “Amo.”
Ele fechou os olhos.
Aquela única palavra foi suficiente para fazê-lo respirar como se tivesse acabado de emergir debaixo d'água. Por mais destruído que estivesse, uma felicidade quase infantil atravessou seu peito. Amanda o amava. Não tinha sido imaginação dele. Não tinha sido apenas sexo, aventura, campanha ou uma mulher entediada procurando emoção. Ela o amava.
E justamente por isso a continuação o enlouquecia ainda mais.
Jonas: “Então para de falar como se eu tivesse que desaparecer.”
Amanda: “Eu não quero que você desapareça.”
Jonas: “Mas quer voltar pro Gustavo.”
Demorou.
Amanda: “Eu quero tentar consertar o que eu fiz.”
Jonas sentiu a mandíbula endurecer.
Jonas: “Dormindo com ele?”
Amanda ficou alguns segundos sem responder.
Amanda: “Não faz isso.”
Jonas: “Fazer o quê?”
Amanda: “Você sabe.”
Sabia.
E estava fazendo de propósito.
A imagem de Amanda voltando para a mesma cama de Gustavo o corroía de uma maneira quase irracional. Era absurdo sentir-se traído pelo marido da mulher casada, mas emocionalmente era exatamente assim que Jonas se sentia. Durante meses, Amanda tinha sido dele sem que ele soubesse que a dividia. Agora sabia. E saber transformava tudo.
Jonas: “Eu não consigo pensar em você voltando pra cama com ele e ficar de boa.”
Amanda: “Jonas, ele é meu marido.”
Jonas ficou encarando a mensagem.
Aquilo o atingiu em cheio.
Jonas: “Eu sei.”
Alguns segundos.
Jonas: “Não precisa jogar isso na minha cara.”
Amanda respondeu quase imediatamente.
Amanda: “Eu não estou jogando nada na sua cara.”
Amanda: “Estou tentando fazer você entender por que eu não consigo sair correndo daí pra ficar com você.”
Jonas: “Eu não pedi pra sair correndo.”, parou.
Na verdade, tinha pedido exatamente aquilo. Apagou o que começara a escrever em seguida e tentou outra vez.
Jonas: “Tá. Eu sei que tem os meninos.”
Jonas: “Eu sei que sua vida não cabe numa mala.”
Jonas: “Mas não usa eles pra me dizer que precisa continuar casada.”
Amanda visualizou.
Jonas continuou antes que ela respondesse.
Jonas: “Enzo e Théo continuam tendo pai se vocês se separarem.”
Jonas: “Eu nunca tentaria tomar o lugar dele.”
Essa frase custou mais a escrever do que Jonas gostaria de admitir.
Jonas: “Eu gosto dos meninos.”
Jonas: “Você sabe que eu gosto.”
Jonas: “Se você ficasse comigo eu nunca trataria eles como problema.”
Jonas: “Nunca.”
Amanda demorou um pouco.
Amanda: “Eu sei.”
Jonas: “Então?”
A resposta dela veio em partes.
Amanda: “Então que não é dinheiro.”
Amanda: “Não é casa.”
Amanda: “Não é você poder cuidar de mim ou dos meninos.”
Amanda: “O Gustavo é pai deles.”
Amanda: “Eles amam o pai.”
Amanda: “E eu fui a pessoa que colocou os dois no meio disso.”
Jonas abaixou um pouco o telefone. Aquilo ele não podia rebater.
Amanda continuou.
Amanda: “O Enzo está diferente comigo.”
Amanda: “O Théo fica perguntando quando o pai volta.”
Amanda: “Eles viram coisas que nunca deveriam ter visto.”
Amanda: “Eu fiz meus filhos guardarem segredo do próprio pai.”
Demorou alguns segundos antes da próxima mensagem.
Amanda: “Você entende a merda que eu fiz?”
Jonas passou a língua pelos lábios. A raiva diminuiu um pouco, não porque tivesse mudado de ideia, mas porque finalmente conseguia enxergar alguma coisa além da própria dor. Amanda não estava simplesmente escolhendo Gustavo. Estava olhando para os destroços que deixara e tentando desesperadamente empurrá-los de volta para o lugar.
Ainda assim, Jonas não conseguia aceitar ser o preço daquela reconstrução.
Jonas: “Entendo.”
Jonas: “Mas você não vai consertar o que fez fingindo que não me ama.”
Amanda visualizou.
Jonas: “E eu também não vou aceitar ficar esperando enquanto você decide se consegue voltar a amar ele do jeito que amava antes.”
Amanda: “Eu nunca disse que deixei de amar o Gustavo.”
Jonas ficou imóvel.
A frase foi pior do que ele esperava.
Muito pior.
Ele sentiu o rosto esquentar e os olhos arderem novamente.
Jonas: “Você ama ele?”
A demora de Amanda já era uma resposta. Mesmo assim, Jonas precisava vê-la.
Jonas: “Amanda.”
Jonas: “Você ama seu marido?”
Amanda: “Amo.”
Jonas levantou-se tão depressa que a cadeira quase caiu.
— Ah, vai tomar no cu!
Helena se assustou.
— Jonas!
Ele caminhou até a borda da piscina e ficou ali, respirando fundo, apertando o telefone na mão. Queria jogar aquela porcaria dentro da água. Queria bloquear Amanda antes que ela pudesse machucá-lo mais. Queria mandar uma mensagem dizendo que ela nunca mais o procurasse.
Não fez nenhuma das três coisas.
Porque a verdade mais humilhante daquela tarde era que Jonas estava completamente apaixonado por ela.
Voltou.
Jonas: “Então você ama nós dois.”
Amanda demorou.
Amanda: “Sim.”
Ele riu sem humor.
Jonas: “Que maravilha.”
Amanda: “Você acha que eu estou feliz com isso?”
Jonas: “Não sei mais o que você tá sentindo.”
Amanda: “Eu estou desesperada.”
Outra mensagem chegou.
Amanda: “Eu não durmo direito.”
Amanda: “Meus filhos estão mal.”
Amanda: “Meu marido foi embora.”
Amanda: “Você está sofrendo.”
Amanda: “Eu destruí todo mundo que eu amo.”
Jonas sentiu a raiva vacilar.
Amanda continuou.
Amanda: “Eu queria voltar no tempo.”
Ele ficou olhando para aquilo.
Jonas: “Pra não me conhecer?”
A resposta demorou bastante.
Amanda: “Pra não mentir.”
Jonas não esperava aquela resposta.
Amanda escreveu novamente.
Amanda: “Porque se eu falar que queria não ter te conhecido, eu vou estar mentindo outra vez.”
Aquilo acabou com qualquer resto de resistência que ele ainda tentava sustentar. Jonas sentou-se e abaixou a cabeça, sentindo as lágrimas voltarem. Helena percebeu, aproximou-se e pousou a mão em suas costas.
Amanda: “Eu amo você.”
Amanda: “E é justamente por isso que preciso parar de falar com você agora.”
Jonas imediatamente levantou a cabeça.
Jonas: “Não.”
Amanda: “Jonas.”
Jonas: “Não me bloqueia.”
Amanda: “Eu preciso.”
Jonas: “Você não precisa.”
Amanda: “Preciso.”
O desespero voltou com força.
Jonas: “Então pelo menos me dá notícia.”
Amanda: “Não posso.”
Jonas: “Pode sim.”
Jonas: “Não precisa me encontrar.”
Ele odiava cada palavra que escrevia, porque parecia estar negociando migalhas quando queria aquela mulher inteira.
Jonas: “Não precisa vir aqui.”
Jonas: “Mas não some.”
Amanda demorou.
Jonas: “Por favor.”
Helena viu aquela palavra aparecer na tela antes que Jonas enviasse e olhou para ele. Aquilo dizia mais sobre o estado do irmão do que qualquer lágrima. Jonas Medeiros estava implorando.
Amanda: “Se eu continuar falando com você, eu não vou conseguir tentar com ele.”
Jonas respirou fundo.
Ali estava a linha que ele não conseguiria atravessar.
Poderia esperar.
Poderia sofrer.
Poderia até aceitar não vê-la por algum tempo.
Mas não seria o homem escondido no telefone enquanto Amanda reconstruía a cama com Gustavo.
Jonas: “Então não fala comigo enquanto estiver com ele.”
Amanda ficou online.
Jonas: “Mas entende uma coisa.”
Jonas: “Eu não vou ser seu amante.”
Jonas: “Nunca mais.”
Jonas: “Se você escolher ficar casada, eu saio da sua vida.”
Os dedos dele tremiam.
Jonas: “Não porque deixei de te amar.”
Jonas: “Porque eu amo você demais pra aceitar metade.”
Amanda demorou tanto que Jonas pensou que ela não responderia.
Então chegou:
Amanda: “Eu sei.”
Mais alguns segundos.
Amanda: “Me perdoa.”
Jonas fechou os olhos.
Jonas: “Ainda não consigo.”
Amanda começou a digitar novamente.
Amanda: “Eu amo você.”
Jonas sentiu outra lágrima descer, mas dessa vez não a limpou.
Jonas: “Eu também amo você.”
Ficou alguns segundos olhando para a tela antes de acrescentar:
Jonas: “Mas quando você falar comigo de novo, eu quero que seja porque escolheu.”
Amanda visualizou.
Não respondeu.
Jonas esperou.
Um minuto.
Dois.
Jonas: “Pode falar pros meninos que eu sinto falta deles e que penso neles também?”
Assim que enviou, apareceu apenas um risco ao lado da mensagem. Jonas esperou alguns segundos, atualizou a conversa e tentou novamente entender o que já sabia. Amanda o havia bloqueado.
Helena já estava cheia daquilo.
Antes que Jonas pudesse fazer qualquer coisa, ela esticou a mão e tirou o celular dele. Não perguntou se podia. Simplesmente pegou. Durante toda aquela conversa, tentara acompanhar o que estava acontecendo, mas Jonas não parava quieto por um segundo. Levantava, sentava, andava até a piscina, voltava, escondia a tela sem perceber, digitava depressa demais. Helena tinha lido pedaços, ouvido algumas coisas que ele dissera em voz alta e entendido o suficiente para saber que a conversa não estava indo bem, mas só agora começou a ler desde o início.
E, a cada mensagem, ficava mais horrorizada.
Primeiro veio a incredulidade. Depois a raiva. Depois uma sensação tão ruim no estômago que Helena precisou voltar algumas vezes para ter certeza de que havia entendido direito. Amanda admitira que mentira porque sabia que Jonas iria embora se descobrisse que ela era casada. Admitira que estava apaixonada por ele. Dissera que o amava. Depois dissera que amava Gustavo também. Queria recuperar a família, queria o marido de volta e, ainda assim, dizia que não queria ter perdido Jonas. E Jonas... Deus do céu, Jonas. Helena continuava descendo a conversa e sentia o sangue esquentar a cada resposta do irmão. Ele pedindo que Amanda ficasse com ele. Dizendo que gostava dos filhos dela. Tentando convencê-la de que as crianças continuariam tendo pai mesmo com uma separação. Falando para uma mulher casada largar o marido e ficar com ele. Quanto mais Helena lia, menos sabia de quem estava com mais raiva.
E, por incrível que parecesse, estava com mais raiva de Jonas.
Talvez porque Amanda não fosse sua irmã. Helena já não esperava absolutamente nada daquela mulher. Depois de tudo que descobrira, Amanda poderia dizer praticamente qualquer coisa e Helena apenas acrescentaria à enorme lista de motivos pelos quais não gostava dela. Mas Jonas era diferente. Era seu irmão. Era o homem que ela conhecia, que amava, que poucas horas antes estava brincando com Humberto, fazendo o sobrinho gargalhar e reclamando dramaticamente do cheiro de uma fralda. Helena queria reconhecer aquele Jonas nas mensagens e não conseguia. Parecia outra pessoa. Um homem desesperado tentando encontrar uma brecha em qualquer frase que Amanda escrevesse, agarrando-se a cada “eu te amo” e quase ignorando todo o resto.
Quando chegou ao fim da conversa, Helena abaixou lentamente o celular.
Jonas estava chorando.
Não eram olhos marejados nem algumas lágrimas discretas que ele tentava esconder. Ele chorava como se alguma coisa dentro dele tivesse desabado de vez, curvado para a frente, passando as mãos pelo rosto sem conseguir se recompor. A raiva de Helena não desapareceu. Continuava ali, inteira. Mas vê-lo daquele jeito fez outra coisa se misturar a ela, uma dor antiga que Helena conhecia muito melhor do que gostaria.
Por um instante, lembrou-se do primeiro rapaz por quem tinha se apaixonado.
Estavam no ensino médio. Ele era da sala dela, tímido de um jeito que no começo Helena achava bonito. Os dois se gostavam, ficavam juntos, mas ele nunca queria assumir o relacionamento. Sempre havia uma desculpa, algum medo, alguma razão para esperar mais um pouco. Até que terminou com ela. Helena ainda se lembrava do tamanho daquela dor porque, naquela idade, não existia experiência suficiente para dizer que passaria. Parecia definitivo. Chorou durante quase um mês. Não queria comer, não queria sair, não queria voltar para a escola e encontrar aquele menino todos os dias como se nada tivesse acontecido. Doía fisicamente. Doía acordar, doía lembrar, doía imaginar que ele poderia ficar com outra menina. Fez o avô trocá-la de escola porque tinha certeza de que não suportaria continuar ali.
E ainda assim o procurara uma vez.
Uma única vez.
Helena se lembrava de ter ido até a casa dele com o coração disparado, disposta a engolir o orgulho e pedir que conversassem. Nem chegou a falar direito com o rapaz. A tia dele apareceu e começou a gritar com Helena, dizendo coisas que ela já não recordava palavra por palavra, mas cujo sentimento nunca esquecera. Que Helena queria mandar nele. Que precisava deixá-lo em paz. Que não tinha que aparecer ali. O rapaz observava a cena ao longe, sem fazer ou dizer nada.
Ela voltou para casa arrasada.
Mas alguma coisa mudou naquele mesmo dia.
Helena podia estar sofrendo. Podia amar aquele garoto com toda a intensidade desproporcional dos seus poucos anos. Podia passar mais um mês chorando se fosse preciso. Mas não merecia aquilo. Não pisaria novamente naquela rua. Não procuraria aquele menino outra vez. E não procurou. Dois meses depois, quando ele começou a tentar falar com ela, quando passou a procurá-la e pareceu finalmente disposto a assumir tudo aquilo que antes escondera, Helena já não queria. Sofreu, mas permaneceu firme. Tinha aprendido cedo demais que amar alguém não significava aceitar qualquer coisa para continuar perto.
Talvez fosse justamente por isso que olhar para Jonas a confundisse tanto.
Ela entendia a dor.
Entendia até o desespero.
O que não entendia era como ele conseguia continuar sustentando aquela situação depois de saber de tudo. Não passava pela cabeça dele que Amanda poderia fazer exatamente a mesma coisa com ele? Se enganara Gustavo durante meses, mentira para os dois e construíra duas vidas paralelas, por que Jonas parecia acreditar que, se fosse escolhido, tudo aquilo simplesmente desapareceria? Helena sabia que o irmão estava apaixonado, sabia que pessoas apaixonadas faziam coisas estúpidas, mas algumas mensagens eram difíceis de ler sem sentir raiva. Em vários momentos, parecia que Jonas estava pressionando uma mulher casada a abandonar o marido. Parecia que ele estava tentando destruir uma família.
Só que Helena também sabia que isso não era inteiramente verdade.
Aquela família já estava destruída.
Não tinha sido Jonas quem obrigara Amanda a mentir para Gustavo. Não tinha sido Jonas quem mandara Amanda apresentar os filhos ao amante sem que o marido soubesse. Também não fora Jonas quem criara aquele casamento quebrado. Amanda tinha feito escolhas. Muitas delas. E agora havia três adultos sofrendo pelas consequências, duas crianças no meio de uma confusão que jamais deveriam ter conhecido e Jonas sentado diante dela chorando por uma mulher que acabara de bloqueá-lo pela segunda vez.
Helena fechou os olhos por alguns segundos.
Precisava ter sabedoria.
Porque o que realmente queria fazer era segurá-lo pelos ombros e chacoalhá-lo. Queria gritar que existiam milhões de mulheres no mundo. Queria perguntar se ele tinha perdido completamente o juízo. Queria mandar que esquecesse Amanda, viajasse, conhecesse alguém, fizesse qualquer coisa que o tirasse daquela obsessão. Mas Helena sabia que nada disso adiantaria. Se alguém tivesse lhe dito aos quatorze anos, enquanto chorava até sentir dor no peito, que existiam milhões de outros homens no mundo, ela provavelmente teria odiado a pessoa.
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Aproximou-se e puxou Jonas para os braços.
Ele não resistiu. Jonas se deixou abraçar imediatamente, e Helena sentiu o corpo do irmão estremecer contra o seu. Passou a mão devagar pelas costas dele, depois pelos cabelos ainda um pouco úmidos, segurando-o com força. Estava brava com ele. Muito brava. Talvez quando ele estivesse melhor dissesse exatamente o que pensava daquela conversa. Mas agora ele era apenas seu irmão sofrendo, e Helena o amava demais para transformar aquele momento numa discussão.
— Vai passar — murmurou, mesmo sem saber quanto tempo demoraria. — Vai passar, Jonas.
Ela esperava desesperadamente que aquele bloqueio fosse o fim.
Esperava que Amanda tivesse, pelo menos dessa vez, firmeza suficiente para não desbloqueá-lo amanhã, depois de amanhã ou na semana seguinte. Mas então outra possibilidade atravessou a cabeça de Helena e ela apertou os olhos.
E se Jonas comprasse outro chip?
Conhecendo o irmão no estado em que estava, aquilo nem parecia improvável.
Helena continuou acariciando suas costas enquanto começou, silenciosamente, a fazer algo que provavelmente jamais imaginara fazer na vida: rezar pelo casamento de Amanda e Gustavo.
Que Gustavo voltasse. Que perdoasse Amanda. Que os dois fizessem terapia, resolvessem aquela bagunça e ficassem juntos. Que reconstruíssem a família. Que fossem felizes. Muito felizes. Ridiculamente felizes. Que tivessem mais filhos se quisessem, comprassem uma casa maior, adotassem um cachorro e comemorassem cinquenta anos de casamento. Helena aceitava qualquer coisa desde que Amanda saísse definitivamente da vida do irmão.
Talvez fosse cruel pensar assim quando Jonas chorava em seus braços.
Mas Helena não queria Amanda para ele.
E talvez, se Jonas visse que Amanda realmente escolhera Gustavo, se percebesse que não existia mais uma fresta por onde pudesse continuar alimentando esperança, finalmente fizesse o que Helena tinha conseguido fazer tantos anos antes.
Sofrer.
Chorar o quanto precisasse.
E depois ir seguir em frente.
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