O CEO que Eu Paguei

259 As Duas Coisas


A mente de Heitor estava a mil quando saiu do restaurante. Entrou no carro, ligou, chegou a dirigir alguns quilômetros em direção à empresa, mas percebeu que não conseguiria continuar daquele jeito. Estava com tanta raiva que apertava o volante com força demais, os músculos dos braços tensos e as mãos tremendo levemente. Xingou baixo, deu seta e parou no primeiro lugar seguro que encontrou. Ligou o pisca-alerta e permaneceu alguns segundos olhando para o painel, vendo as duas pequenas setas piscarem ritmadamente enquanto tentava fazer o próprio corpo acompanhar aquele ritmo e se acalmar.

Gaspar.

Heitor sabia que Gaspar tinha uma queda por Ana Alice. Não era segredo. Na verdade, havia percebido desde a primeira vez em que entrou naquela filial que metade dos homens parecia ficar um pouco mais idiotas quando Ana Alice passava. Ela sabia perfeitamente o efeito que causava. Gaspar nunca parecera diferente dos outros nesse sentido. O que jamais havia passado pela cabeça de Heitor era que aquilo pudesse envolver dinheiro da Monteiro Inc., vantagens profissionais, despesas fraudulentas ou qualquer tipo de chantagem.

Só de pensar no dinheiro sendo usado daquele jeito, a raiva voltava.

Pegou o celular, abriu a conversa com Isaac e enviou seu endereço de e-mail.

“Me manda tudo aqui. Tudo mesmo. Não seleciona o que você acha importante. Quero os arquivos completos. Vou reunir Compliance e Jurídico.”

A resposta veio pouco depois.

“Assim que chegar no apartamento eu mando.”

Heitor deixou o telefone sobre o banco do passageiro e encostou a cabeça no encosto.

Ficou olhando para frente.

Então uma pergunta desagradável apareceu.

Se não houvesse fraude, ele investigaria o resto?

Heitor franziu o cenho.

A pergunta o incomodou imediatamente.

Se Isaac tivesse chegado naquele almoço apenas dizendo que Ana Alice acusava Gaspar de assédio, sem dinheiro desviado, sem despesas falsas, sem celular comprado pela empresa, sem qualquer prejuízo financeiro para a Monteiro Inc., o que ele teria feito?

Provavelmente teria mandado Isaac parar de falar merda.

A constatação o irritou ainda mais.

Pensou no avô.

Não precisou pensar muito. Dependendo de como a história chegasse até ele, era perigoso o velho ainda dar um tapinha nas costas de Gaspar e um extra no fim do mês. Heitor amava o avô, mas conhecia perfeitamente o homem que ele era.

Depois pensou no pai.

Renato investigaria.

Sem espetáculo, sem julgamento antecipado e sem se importar se gostava ou não da mulher envolvida. Mandaria levantar os fatos, ouviria quem precisasse ser ouvido e tomaria uma decisão depois.

E ele?

Heitor fechou os olhos.

Ana Alice lhe causava repulsa.

Não era apenas ódio. Odiava Antônio Fortenelle também, mas conseguia falar sobre Antônio durante horas. Conseguia xingá-lo, rir dele, planejar como pisaria profissionalmente naquele desgraçado pelo resto da vida. Com Ana Alice era diferente. Havia alguma coisa nela que Heitor preferia manter muito longe da própria cabeça.

Principalmente por causa daquele quarto.

Ele respirou fundo e imediatamente se arrependeu de ter deixado o pensamento chegar até ali.

Ainda se culpava, às vezes.

Não de uma maneira que admitiria para alguém. Nem mesmo gostava de organizar aquilo em palavras. Mas, vez ou outra, pensava que deveria ter percebido que havia alguma coisa errada. Que deveria ter sido mais forte. Que talvez pudesse ter resistido ao efeito do que colocaram nele e não apagado. Era irracional, ele sabia. Mesmo assim, o pensamento aparecia.

Oséias havia contado sobre as fotografias.

Heitor tinha visto todas elas.

Nunca deveria ter visto.

A lembrança ainda provocava uma sensação desagradável em seu corpo. Ana Alice sentada em seu colo enquanto ele estava desacordado, ainda vestido, posicionando-se para as imagens. Não tinha acontecido nada. Era nisso que Heitor se agarrava. Nada tinha acontecido de verdade. Ninguém precisava transformar aquilo em alguma coisa maior do que era.

Preferia pensar que tinha simplesmente apagado por conta do remédio de gripe e o energético.

Era mais fácil.

Heitor balançou a cabeça com força, como se pudesse expulsar fisicamente aquelas imagens.

— Foda-se — murmurou.

Não mexeria naquela ferida.

Não tinha motivo.

Estava bem. Tinha Helena, tinha Humberto, tinha sua casa, sua empresa e uma vida que adorava. Não permitiria que Ana Alice ocupasse mais espaço dentro dele do que já havia ocupado. Muito menos daria àquela mulher o poder de transformá-lo num homem triste.

Pegou o celular novamente, mais por necessidade de fazer alguma coisa com as mãos do que por ter uma mensagem para responder.

Os processos também continuavam andando.

Mais devagar do que Heitor gostaria, naturalmente.

Antônio Fortenelle perdera praticamente tudo que realmente importava, mas ainda vinha de uma família muito rica. Havia patrimônio, investimentos, advogados caros e contatos antigos suficientes para tornar qualquer processo mais lento. Viviane não estava ajudando o filho, o que fazia uma diferença considerável. Antônio estava sozinho e dependia basicamente do que ainda possuía em investimentos e reservas próprias.

Por algum tempo, Heitor chegara a considerar simplesmente deixar aquilo se arrastar.

Deixar Antônio gastar.

Advogado atrás de advogado. Recurso atrás de recurso. Perícia, defesa, processo, mais defesa. Que queimasse lentamente tudo que ainda tinha tentando escapar das consequências.

A ideia lhe dera certa satisfação.

Mas mudara de opinião.

Queria Antônio fora da vida deles.

Principalmente da vida de Helena.

Não queria que sua mulher passasse anos acompanhando processo, recebendo atualização de advogado ou se perguntando se aquele homem conseguiria escapar. Não queria que Helena sentisse medo e muito menos que carregasse aquela sensação de impunidade. Por isso, tanto Heitor quanto Paulo pressionavam suas equipes jurídicas para que tudo avançasse dentro do possível, sem atalhos que pudessem prejudicar o processo depois, mas também sem permitir que a defesa transformasse cada etapa numa eternidade.

A fotógrafa que participara do atentado junto de Ana Alice já havia sido julgada.

Heitor fizera questão de descobrir tudo sobre ela.

E também fizera algumas ligações.

Não para todas as empresas do país, evidentemente. Nem teria como. Mas havia gente suficiente no círculo empresarial de Heitor para tornar o recomeço profissional daquela mulher um pouco mais difícil quando ela saísse. Talvez fosse vingativo. Provavelmente era. Heitor não tinha problema nenhum em admitir isso para si mesmo. Uma mulher que nem sequer o conhecia aceitara participar de algo daquela natureza por dinheiro. Se fora capaz de fazer aquilo com um desconhecido, quem garantia que não faria alguma coisa semelhante contra outra pessoa no futuro?

Curiosamente, porém, aquilo não havia sido tudo.

Depois de pensar bastante no assunto, Heitor também conseguira uma psiquiatra para atendê-la durante o período em que estivesse presa.

A contradição não lhe incomodava.

Queria que ela pagasse pelo que fizera e queria que entendesse por que tinha chegado até ali.

Uma coisa não anulava a outra.

Se aquela mulher saísse da cadeia anos depois entendendo a dimensão da roubada em que tinha se metido e nunca mais aceitasse prejudicar alguém daquele jeito, ótimo. Heitor ainda não queria vê-la trabalhando em nenhuma empresa que tivesse relações com a Monteiro Inc., mas pelo menos outra pessoa talvez não passasse pelo que ele passara.

Com Ana Alice, entretanto, era diferente.

O caso estava praticamente encaminhado. A demora vinha, em parte, do cuidado adicional que os advogados dos Medeiros exigiam em tudo que a envolvia. Depois da exposição política recente, qualquer passo precisava ser feito de maneira quase cirúrgica. Ninguém queria permitir que a defesa alegasse perseguição, interferência política ou abuso de poder.

Heitor apoiou os cotovelos no volante e massageou as têmporas.

Era justamente por isso que aquela nova história o irritava tanto.

Se desse espaço para a denúncia de Ana Alice, uma parte dele sentia como se estivesse validando aquela mulher.

Como se estivesse dizendo que acreditava nela e Heitor não acreditava.

Sinceramente, não acreditava nem um pouco que Ana Alice tivesse sido uma mulher inocente aliciada por Gaspar. Conhecia o comportamento dela. Tinha visto como agia. Tinha sido alvo dela. Para Heitor, era muito mais fácil imaginar os dois envolvidos voluntariamente, Gaspar fazendo merda com dinheiro da empresa para impressioná-la e, depois, a relação desandando.

Então investigaria a fraude.

Era simples.

Compliance levantaria as despesas, Jurídico cuidaria do restante, Gaspar responderia pelo que tivesse feito e pronto.

O assédio podia ficar de fora.

Heitor permaneceu alguns segundos olhando para o painel.

Não… Não podia.

Soltou um palavrão e passou as duas mãos pelo rosto.

Porque então apareceu Helena em sua cabeça. Depois sua mãe.

Pensou nas duas sentadas diante dele e imaginou precisar explicar que recebera uma denúncia de que um gerente da própria empresa havia usado sua posição para pressionar uma mulher subordinada, mas decidira não investigar porque não gostava da mulher.

Não conseguiu nem terminar a cena imaginária.

Helena ficaria decepcionada e sua mãe também. Mas pior do que isso era saber que elas teriam razão.

Heitor voltou a encostar a cabeça no banco.

— Que inferno.

Queria que Ana Alice explodisse.

Essa era a verdade.

Não queria ajudá-la, defendê-la, ouvi-la ou descobrir que, em algum momento daquela história, alguém também havia feito alguma coisa contra ela. Queria que ela cumprisse a pena pelo que fizera e desaparecesse da vida dele para sempre.

Mas uma coisa não tinha nada a ver com a outra.

Se Gaspar realmente havia assediado uma mulher sob sua autoridade, o fato de essa mulher ser Ana Alice não transformava aquilo em aceitável. Se Heitor enterrasse uma denúncia apenas porque odiava quem denunciava, não estaria protegendo a empresa. Estaria protegendo Gaspar.

E aquilo ele não faria.

Além disso, havia uma questão ainda pior.

Se Gaspar fizera com Ana Alice, quem garantia que ela fora a única?

Heitor abriu os olhos.

A pergunta mudou tudo.

Gaspar tinha poder naquela filial havia anos.

Quantas terceirizadas tinham passado por ali? Quantas funcionárias? Quantas mulheres dependiam de uma renovação de contrato, uma indicação, uma escala melhor, uma oportunidade?

Heitor pegou o celular outra vez.

Dessa vez, as mãos já não tremiam.

Mandou uma nova mensagem para Isaac.

Além das provas da fraude, manda tudo que tiver relacionado ao assédio. Mensagens completas. Não corta nada.

Ficou olhando para a tela depois de enviar.

Ainda não acreditava em Ana Alice.

Não precisava acreditar.

Era justamente para isso que servia uma investigação.

Ligou o carro novamente e desligou o pisca-alerta.

Quando entrou na pista, já sabia exatamente o que faria assim que chegasse à Monteiro Inc. Reuniria Compliance e Jurídico, restringiria ao mínimo o número de pessoas informadas e começaria pela preservação dos dados da filial antes que Gaspar sequer desconfiasse que alguém estava olhando para ele. Investigariam o dinheiro. Investigariam as vantagens. Investigariam a chantagem. E, por mais que Heitor odiasse admitir, investigariam também o assédio. Ele apertou o volante e acelerou.

Heitor entrou na empresa ainda com a cabeça presa à decisão que havia tomado no carro. Não gostava dela. Não gostava de absolutamente nada naquela história e, se pudesse escolher, jamais voltaria a ouvir o nome de Ana Alice. Mas, no instante em que atravessou a recepção e seguiu para os elevadores, aquilo já não importava tanto quanto deveria. Dentro da Monteiro Inc., ele não podia decidir quais denúncias mereciam ser apuradas de acordo com o que sentia por quem as fazia. Se Gaspar tivesse cometido fraude, descobriria. Se tivesse assediado Ana Alice, descobriria também. E, se não tivesse feito nenhuma das duas coisas, os fatos mostrariam isso.

Subiu rapidamente e encontrou Verônica em sua mesa. Assim que o viu se aproximar naquele passo acelerado, com a expressão completamente diferente daquela com que havia saído para o almoço, ela se ajeitou na cadeira e já foi falando antes mesmo que ele chegasse.

— Cancelei todas as suas reuniões da tarde.

Heitor diminuiu o passo apenas o suficiente para olhar para ela.

— Ótimo. Preciso do gerente de Compliance, do Jurídico e do RH. Agora. Vou esperar na sala de reunião da minha sala.

Verônica já pegava o telefone quando ele tornou a andar, mas Heitor deu dois passos e parou. Pensou por um instante antes de se virar novamente.

— Se meu pai estiver no prédio, chama ele também.

— Pode deixar.

Heitor entrou em sua sala e fechou a porta. Tirou o paletó enquanto atravessava o ambiente e o deixou sobre uma das cadeiras antes de seguir direto para o banheiro. Abriu a torneira, molhou as mãos e jogou água fria no rosto. Precisava entrar naquela reunião com a cabeça no lugar. Não como o homem que queria que Ana Alice explodisse, não como alguém que ainda sentia o estômago revirar quando lembrava do que ela havia feito, mas como o homem responsável por descobrir o que acontecia dentro da própria empresa.

Secou o rosto devagar e, quando baixou as mãos, encontrou o próprio reflexo no espelho. Ficou alguns segundos se encarando. Então seus olhos desceram quase involuntariamente para a aliança em seu dedo.

Pensou em Helena.

Se aquilo tivesse acontecido com ela, Heitor não aceitaria que ninguém decidisse se valia a pena investigar com base no quanto gostava dela. Não aceitaria desculpa, antipatia, reputação ou qualquer outra merda sendo colocada acima dos fatos.

Então também não faria aquilo com outra mulher.

Mesmo que essa mulher fosse Ana Alice.

Passou o polegar uma vez sobre a aliança, respirou fundo e saiu do banheiro.

Talvez Helena nunca soubesse que aquela decisão havia passado pela cabeça dele daquele jeito. Não importava.

Heitor queria continuar sendo o homem que ela acreditava ter em casa.

A conversa com os líderes foi complexa, embora muito mais silenciosa do que Heitor imaginara quando subiu para a própria sala disposto a colocar a empresa inteira de cabeça para baixo.

Isaac demorou pouco para enviar os arquivos. Assim que chegaram, Heitor conectou o notebook à tela da sala de reuniões e começou pelo que lhe parecia mais objetivo: comprovantes, despesas, lançamentos e algumas mensagens que ajudavam a explicar de onde aqueles gastos tinham surgido. Não mostrou tudo que recebera. Havia material pessoal demais no meio e, naquele primeiro momento, não era necessário. O suficiente já estava diante deles.

O gerente de Compliance aproximou a cadeira da tela e analisou alguns documentos com atenção, enquanto o diretor Jurídico fazia perguntas pontuais sobre a origem do material. O gerente de RH permaneceu mais quieto, ouvindo. Renato, sentado próximo à cabeceira, também não parecia interessado em antecipar qualquer conclusão. Lia o que colocavam diante dele e esperava.

— O original continua guardado? — perguntou Compliance.

— Continua. Isaac fez uma cópia e me mandou. Pedi para ele não mexer mais no que encontrou.

— Ótimo. A primeira coisa é cruzar isso com os registros da filial e confirmar o que realmente passou pela empresa.

Heitor assentiu, embora sua paciência estivesse longe de acompanhar o movimento.

— Se confirmarem essas despesas, quero o Gaspar afastado.

— Se confirmarmos, será uma das primeiras decisões — respondeu o Jurídico.

Heitor olhou outra vez para a tela. Algumas daquelas estruturas de lançamento eram familiares demais.

— Pelo menos parte disso existe — disse. — Reconheço como aquela filial organizava algumas despesas.

A frase saiu naturalmente, mas produziu um silêncio breve que não passou despercebido.

Ninguém disse nada.

Nem precisava.

Heitor conhecia aquela filial.

Talvez esse fosse justamente o problema.

Quando fizera o percurso pelas unidades da Monteiro Inc., deixara aquela por último de propósito. Não existia nenhuma razão estratégica para ter pressa em conhecê-la. Na opinião dele, era uma operação pequena, pouco relevante para o grupo e mantida aberta por pura insistência de Afonso. A filial se pagava, o que impedia que alguém a chamasse propriamente de prejuízo, mas lucro de verdade também não entregava. Durante anos, mais de um executivo defendera seu fechamento, e Heitor estivera entre eles. Se o capital, os contratos e a estrutura fossem direcionados para unidades mais rentáveis, provavelmente fariam muito mais sentido.

Afonso nunca deixara.

O avô encerrava o assunto sempre que aparecia e ninguém entendia por quê.

Por isso, quando chegou ao interior de Minas, Heitor pretendia fazer naquela filial o que fizera nas outras: passar alguns dias, conhecer a operação, revisar os principais números, conversar com clientes e gestores, verificar projetos e seguir para o Rio. Talvez, se encontrasse o que já esperava encontrar, voltasse ainda mais convencido de que deveriam finalmente convencer Afonso a fechar aquilo.

Só que Heitor já entrou na empresa distraído.

Na tarde anterior, resolvera conhecer a cidade e acabara vivendo uma das situações mais absurdas da própria vida. Uma desconhecida o confundira com outro homem, o levara para um hotel, quase transara com ele e depois simplesmente fora embora. Ainda deixara dinheiro sobre a cômoda e um nome falso.

Camila.

Heitor passara boa parte da noite procurando aquela mulher na internet. Tinha vasculhado Instagram, Facebook, LinkedIn e uma quantidade constrangedora de perfis de mulheres chamadas Camila, tentando encontrar o rosto que não conseguia tirar da cabeça.

Na manhã seguinte, chegou à filial pensando nela.

Gaspar apresentava setores, pessoas e processos enquanto Heitor fazia esforço para prestar atenção. E a primeira impressão da unidade não ajudara. Achara o ambiente informal demais, desorganizado demais para o padrão que esperava da Monteiro Inc. e saíra das primeiras conversas ainda mais convencido de que aquela filial precisava, no mínimo, de uma revisão séria.

Ele queria terminar aquilo rápido.

Então Helena entrou na sala.

Heitor ainda conseguia se lembrar do momento exato em que olhou para ela e reconheceu a mulher do hotel. Depois Clara a chamou pelo nome e ele descobriu, ao mesmo tempo, que Camila não existia e que a mulher que tinha passado a noite procurando estava trabalhando dentro da própria empresa.

Helena Ribeiro Campos.

A partir dali, aquela visita deixou de ser o que deveria ter sido.

Heitor trabalhou. Isso era verdade. Revisou gastos, analisou projetos, conferiu parcerias e clientes, cortou despesas que considerava desnecessárias e participou de reuniões suficientes para conhecer boa parte da rotina da unidade. Não tinha passado meses em Minas brincando de férias.

Mas também não adiantava mentir para si mesmo sobre a qualidade da atenção que dedicara àquilo.

Nas outras filiais, Heitor acordava pensando na operação.

Naquela, acordava pensando em Helena.

Pensava em como encontrá-la, em como fazê-la parar de fugir dele, em como conseguir mais alguns minutos sozinho com ela. Esticava reuniões quando sabia que ela participaria, se oferecia para acompanhar coisas que poderia perfeitamente delegar e encontrava justificativas profissionais muito convenientes para continuar naquela cidade.

Quanto mais Helena resistia, mais ele se envolvia.

E quanto mais se envolvia, mais dias acrescentava à estadia.

Uma visita que deveria ser curta virou semanas e depois meses, até Renato finalmente exigir que ele parasse de inventar razões para permanecer no interior de Minas e voltasse para a sede no Rio.

Na época, Heitor sabia perfeitamente por que estava ficando.

Só nunca tinha considerado que aquilo pudesse ter um preço profissional.

Agora considerava.

Olhou novamente para os documentos na tela.

Ele estivera naquela filial durante meses. Sentara em reuniões com Gaspar, recebera informações financeiras da operação, revisara despesas e questionara gastos. Tivera muito mais contato com aquela unidade do que planejara inicialmente.

Mesmo assim, aquilo aparentemente acontecera debaixo do nariz dele.

Talvez Gaspar tivesse escondido tudo bem. Talvez as despesas tivessem sido mascaradas de uma maneira que não despertaria suspeita numa análise comum. Heitor sabia que uma revisão administrativa não era uma auditoria e também sabia que não podia encontrar aquilo que não tinha motivo algum para procurar.

Mas havia uma pergunta muito mais desagradável.

Se Helena não estivesse naquela filial, ele teria olhado melhor?

Heitor conhecia a própria forma de trabalhar. Sabia como tinha passado pelas outras unidades, fazendo perguntas, confrontando números, procurando coisas que não faziam sentido simplesmente porque gostava de entender exatamente onde estava colocando os pés.

Em Minas, não fizera aquilo com a mesma profundidade.

Tinha olhado documentos enquanto pensava em Helena. Participado de reuniões esperando cruzar com Helena depois. Permanecido na cidade por causa de Helena.

E talvez tivesse passado por alguma coisa estranha sem enxergar porque, pela primeira vez em muitos anos, a Monteiro Inc. não era a coisa mais importante dentro da cabeça dele.

Ninguém naquela sala disse nada.

Mas Heitor percebeu o pequeno silêncio depois que reconheceu a estrutura daqueles lançamentos e soube que todos haviam chegado à mesma conclusão.

Ele estivera lá.

Por muito tempo.

E não tinha visto.

Heitor voltou os olhos para a tela, sentindo a irritação se misturar a uma coisa que gostava ainda menos de sentir.

Dúvida sobre si mesmo.

Heitor permaneceu alguns segundos olhando para os documentos na tela antes de voltar a atenção para o gerente de Compliance.

— Quero saber como isso passou.

O homem assentiu.

— É a primeira coisa que vamos levantar.

— Não estou falando só de confirmar os gastos. Quero entender como foram lançados, quem aprovou e por que não chamaram atenção. Eu mexi em despesa daquela filial. Se isso estava acontecendo naquela época, quero saber onde estava escondido.

Mais uma vez ninguém comentou o óbvio.

Heitor percebeu, mas preferiu assim.

O diretor Jurídico fechou uma das pastas que tinha diante dele.

— Primeiro precisamos descobrir quando esses gastos começaram. Pode ser que parte deles seja posterior à sua passagem pela filial.

Era uma possibilidade.

Heitor assentiu, embora não sentisse grande alívio com ela.

— Levantem tudo.

— Vamos levantar.

— E se confirmarem?

— Aí tomamos as medidas com o Gaspar.

Heitor recostou-se na cadeira.

— Quero ele afastado.

— Se houver confirmação suficiente, sim.

Heitor não insistiu. Já tinha entendido que ninguém naquela sala tomaria uma decisão com base apenas na raiva dele, e, no fundo, era exatamente por isso que os havia chamado.

O gerente de RH, que até então acompanhava a conversa em silêncio, passou os olhos por algumas anotações.

— E a outra parte?

Heitor sabia a que ele se referia.

— A Ana Alice.

— Sim. Se vamos apurar também a denúncia de assédio e pressão, precisamos entender como funcionava a relação do Gaspar com a equipe terceirizada. Não só oficialmente. Na prática.

Heitor passou a mão lentamente pelo queixo.

— Ele interferia bastante.

— Em contratação?

— Não sei.

— Escala?

— Também não sei até onde.

— Renovação de contrato? Troca de pessoas? Indicação?

Heitor balançou a cabeça.

— Eu lembro dele participando de muita coisa, mas não consigo separar agora o que era atribuição dele e o que ele simplesmente assumia.

Aquilo o incomodou um pouco mais.

Não era o tipo de resposta que Heitor costumava dar sobre uma operação em que passara meses.

O gerente de RH ficou pensativo.

— A Helena trabalhava nessa equipe.

Heitor ergueu os olhos.

— Trabalhava.

— Na época da Ana Alice também?

— Elas entraram juntas.

— Juntas?

— Mesmo dia. A Helena me contou isso há muito tempo. Ela conseguiu a vaga por indicação da Júlia e do Hugo, que já estavam na terceirizada. A Ana Alice entrou no mesmo processo.

O gerente de RH assentiu.

— A Helena nunca comentou nada sobre o Gaspar?

— Não.

Heitor respondeu sem hesitar, mas voltou mentalmente às inúmeras conversas que tivera com a esposa sobre aquela época.

Helena falara de praticamente todo mundo daquela filial em algum momento. Contara histórias de Júlia e Hugo, reclamara de decisões, de cliente, de projeto, de gente incompetente, de gente inconveniente. Gaspar aparecera algumas vezes porque era impossível trabalhar tantos anos naquela operação sem que o gerente da unidade aparecesse nas histórias.

Mas nunca daquela forma.

— Pelo menos nada parecido com isso — completou.

— Nunca falou de comportamento inadequado com alguma mulher?

— Não.

O gerente de RH fez uma anotação.

— Pode valer a pena perguntar.

— Eu vou perguntar.

Heitor pensou por alguns segundos antes de acrescentar:

— Mas acho difícil a Helena saber de uma coisa dessas e nunca ter falado.

— Mesmo antes de vocês estarem juntos?

Heitor soltou um pequeno sorriso.

— Antes de nós estarmos juntos, ela não teria me contado nem se o prédio estivesse pegando fogo e eu estivesse segurando o extintor.

O clima da sala aliviou discretamente.

Renato baixou os olhos para os documentos, escondendo mal um pequeno sorriso.

Heitor apontou para ele.

— Você sabe que é verdade.

— Sei. — respondeu Renato.

Heitor voltou para o gerente de RH.

— Mas ela teria falado com alguém. Esse é o ponto. Helena nunca foi de assistir alguma coisa que considera errada e ficar quieta. Se soubesse que Gaspar estava pressionando uma mulher por causa de relacionamento, teria procurado a própria terceirizada, o RH da Monteiro, alguém.

Renato assentiu.

— Concordo.

A afirmação simples bastou.

O gerente de Compliance apoiou os braços sobre a mesa.

— Isso não significa necessariamente que ela teria conhecimento. Dependendo da maneira como Gaspar agia, pode ter sido uma coisa muito restrita.

— Eu sei — respondeu Heitor. — Por isso vou perguntar, mas não colocaria muita expectativa nisso.

O gerente de RH voltou à tela do notebook.

— Tem alguém que provavelmente consegue nos dar uma visão melhor da equipe.

Heitor já tinha chegado à mesma conclusão.

— Clara.

O gerente ergueu os olhos.

— Você lembra dela?

Heitor quase achou a pergunta estranha.

— Claro que lembro da Clara.

Naquela época, Clara participara de várias reuniões com ele. Não era alguém que tivesse chamado sua atenção fora do ambiente profissional, mas Heitor lembrava bem da postura dela. Sempre chegava sabendo o que precisava apresentar, conhecia a equipe e, das pessoas que trabalhavam naquela terceirizada, era uma das poucas que desde o começo lhe parecera inteiramente adequada à posição que ocupava.

Na primeira vez que entrara no setor, inclusive, lembrava de ter pensado que pelo menos a supervisora parecia ter alguma compostura em meio à informalidade que tanto o incomodara. Clara fora quem conduzira boa parte das apresentações e, ao longo dos meses seguintes, eles acabaram participando de várias reuniões juntos.

— Ela ainda está lá? — perguntou.

— Está.

Aquilo o surpreendeu um pouco.

— Na mesma operação?

— Na mesma operação.

O gerente consultou outra informação.

— Oito anos agora. Entrou em melhoria contínua e depois assumiu a supervisão.

Heitor fez as contas mentalmente.

— Então ela já estava lá quando Helena e Ana Alice foram contratadas.

— Já.

— E acompanhou as duas durante todo o período.

— Sim.

Heitor se recostou novamente.

Aquilo tornava Clara muito mais útil do que qualquer lembrança fragmentada que ele pudesse tentar arrancar de Helena.

Ela conhecia a operação antes das duas entrarem, conhecia Gaspar havia anos e, como supervisora da terceirizada, provavelmente sabia muito melhor do que ele onde terminava a autoridade formal do gerente e onde começavam as interferências que nunca apareciam no organograma.

— Eu falo com ela.

O diretor Jurídico olhou para Heitor.

— Você mesmo?

— Por que não?

— Só estou perguntando.

— Eu conheço a Clara. Já tive várias reuniões com ela. Se ela receber uma chamada minha pelo Teams, vai ser muito menos estranho do que Compliance ou Jurídico aparecerem querendo conversar de repente.

O gerente de RH concordou.

— Faz sentido.

— E eu não preciso perguntar sobre a Ana Alice logo de cara. Posso conversar sobre a operação, sobre aquela época, sobre como a equipe funcionava.

Renato deixou os documentos que estava lendo sobre a mesa.

— Acho melhor.

Heitor virou o rosto para o pai.

Renato falou com a mesma tranquilidade que mantivera durante toda a reunião.

— Clara está lá há oito anos. Se você perguntar somente sobre Gaspar, ela vai organizar as respostas pensando nele. Se conversar primeiro sobre a operação, pode lembrar de situações que nem associa a isso.

Heitor ficou alguns segundos pensando.

— Concordo.

O gerente de RH acrescentou:

— Você pode começar pela época em que Helena e Ana Alice entraram. Perguntar como era a estrutura da equipe, quem respondia por quê, quais decisões passavam pela Clara e quais iam direto para o Gaspar.

— Isso.

Heitor olhou novamente para os documentos projetados.

— Quero saber se ele interferia mais na Ana Alice do que nos outros. Se dava alguma facilidade, mudava decisão, aparecia em assunto que normalmente seria da Clara. Não precisa nem existir uma denúncia para isso chamar atenção.

Compliance assentiu.

— Exatamente.

— Marca para amanhã — disse Heitor ao gerente de RH.

— Eu posso mandar o convite.

— Não coloca assunto estranho.

— Claro.

— Coloca só alinhamento de operação ou alguma coisa assim.

O homem anotou.

— Quer mais alguém na reunião?

Heitor pensou antes de responder.

— Não inicialmente. Se eu colocar três pessoas de Compliance numa chamada, ela vai entrar já tentando descobrir quem foi demitido.

O gerente sorriu.

— Justo.

— Quero conversar com a Clara como conversava antes. Ela me conhece. Se tiver alguma coisa estranha naquela época, talvez apareça naturalmente.

O Jurídico fez apenas uma ressalva:

— Se ela trouxer alguma acusação concreta, aí você para de aprofundar e passa para nós.

— Sem problema.

Heitor não tinha interesse em bancar investigador. Queria apenas compreender uma operação que, naquele momento, começava a lhe parecer muito diferente daquela que acreditara conhecer.

O gerente de Compliance fechou o notebook.

— Nós ficamos com os lançamentos. Assim que tivermos os primeiros cruzamentos, eu te aviso.

— Hoje.

— Se tivermos hoje, sim.

Heitor lançou um olhar para ele.

O homem corrigiu:

— Vou fazer o possível para ser hoje.

— Melhor.

Renato não interferiu.

Heitor se levantou e desligou a projeção. A tela ficou preta, levando consigo comprovantes, mensagens e números que haviam transformado uma tarde comum em um problema que podia alcançar anos da história daquela filial.

Enquanto os outros começavam a recolher as coisas, ele permaneceu parado por alguns segundos.

Era estranho pensar em Clara novamente.

Na época, ela simplesmente fazia parte daquele lugar. Uma supervisora competente com quem ele se reunia quando precisava falar da equipe terceirizada. Nada mais. Heitor sabia que ela era boa porque nunca precisara se preocupar muito com ela, e talvez justamente por isso tivesse guardado uma impressão positiva.

Agora descobria que Clara estivera ali antes de Helena, durante Helena e depois de Helena.

Oito anos vendo aquela filial por dentro.

Se havia alguém capaz de lhe dizer que tipo de gerente Gaspar era quando nenhum Monteiro estava olhando, provavelmente era ela.

Heitor pegou o notebook.

— Me manda o horário assim que a Clara confirmar.

— Pode deixar.

Assim que a porta se fechou atrás do último executivo, Heitor começou a recolher o notebook e os documentos que ainda estavam espalhados sobre a mesa.

— Senta mais um pouco.

A voz de Renato veio tranquila.

Heitor parou com a mão sobre o computador.

Não perguntou por quê.

Já sabia o motivo.

Durante alguns segundos, ficou de costas para o pai, olhando para a tela já apagada da televisão. Depois soltou o ar devagar, deixou o notebook onde estava e voltou para a cadeira. Dessa vez não se sentou ao lado de Renato, como normalmente faria. Escolheu a cadeira em frente.

Quase como fazia quando era mais novo e sabia que o pai tinha alguma coisa séria para conversar.

A sensação o incomodou imediatamente.

Renato esperou que ele se acomodasse. Não havia raiva no rosto dele. Também não havia aquela expressão dura que Heitor conhecera poucas vezes ao longo da vida, principalmente durante os conflitos envolvendo Helena e Celina.

Aquilo talvez fosse pior.

Renato estava apenas decepcionado.

Heitor baixou os olhos para as próprias mãos.

— Eu não quis falar isso na frente deles — começou Renato. — E não vou permitir que ninguém nesta empresa transforme isso numa discussão sobre a sua competência. Mas eu preciso falar com você como seu pai e como alguém que trabalhou ao seu lado durante praticamente toda a sua vida adulta.

Heitor permaneceu calado. Renato respirou fundo antes de continuar.

— Pelo jeito que essas despesas estão lançadas, você deveria ter percebido alguma coisa.

Heitor sentiu o maxilar endurecer.

Não respondeu.

— Talvez não tudo. Talvez você não olhasse para uma nota e descobrisse que Gaspar estava comprando presente para uma mulher. Não estou dizendo isso. Mas você tem experiência suficiente para perceber quando um padrão de gasto não combina com uma operação. Ainda mais uma operação pequena como aquela.

Heitor continuou olhando para as mãos.

Renato o conhecia bem o bastante para perceber que o silêncio não era desinteresse. Era constrangimento.

— Você começou nessa empresa assim que a FGV liberou seu estágio — continuou. — E eu me lembro porque sua mãe queria que você esperasse mais um pouco. Você não quis. Queria entrar logo.

Uma lembrança muito antiga atravessou Heitor. Terno barato demais para os padrões da família, crachá de estagiário pendurado no pescoço e uma quantidade absurda de vontade de provar que não estava ali apenas porque carregava o sobrenome Monteiro.

Renato prosseguiu:

— Eu nunca fui hipócrita com você, Heitor. Você sempre teve privilégios. Muitos. Você nunca precisou trabalhar com medo de ser mandado embora e não conseguir pagar uma conta no fim do mês. Nunca precisou escolher entre estudar e trabalhar porque precisava colocar comida dentro de casa. Teve os melhores professores que dinheiro podia pagar, aprendeu idiomas, viajou, conheceu executivos antes da idade em que a maioria dos jovens sabe sequer o que quer fazer da vida. Eu abri portas para você. Seu avô abriu outras. O sobrenome Monteiro abriu mais algumas.

Heitor ergueu os olhos por um instante.

Renato sustentou seu olhar.

— Mas você entrou por todas elas andando com as próprias pernas.

Heitor tornou a baixar os olhos.

— Eu sempre admirei isso em você.

Aquilo doeu mais do que uma bronca teria doído.

Renato se recostou um pouco na cadeira.

— Enquanto muitos filhos de amigos meus receberam todas as cartas boas do jogo e passaram a vida inteira reclamando da mão que tinham, você usou cada uma das suas. Quando podia estudar com um professor melhor, estudava. Quando podia aprender outro idioma, aprendia. Quando podia viajar, não passava suas férias apenas descansando; procurava curso, universidade de prestígio, empresas para conhecer. Você teve privilégio e nunca fingiu que não teve. Só fez questão de transformar esse privilégio em preparo.

Heitor engoliu em seco.

— Você passou por várias áreas da Monteiro durante a faculdade. Foi para obra quando não precisava ir. Ficou no meio de engenheiro, encarregado e peão porque dizia que não queria administrar sem entender o que acontecia depois que alguém imprimia o projeto. Passou por financeiro, planejamento, operações, contratos. Quando se formou, poderia ter pedido uma gerência. Não pediu.

Heitor quase respondeu que não teria adiantado pedir.

Renato pareceu adivinhar.

— E mesmo que pedisse, eu não daria.

Um pequeno sorriso sem humor apareceu no canto da boca de Heitor e foi embora rápido.

— Você virou analista de planejamento — continuou Renato. — E foi crescendo. Fez pós-graduação. Continuou estudando. Nas férias, enquanto seus amigos iam passar um mês em Ibiza, você enfiava curso de duas semanas em universidade no meio da viagem e depois reclamava comigo que o professor americano não entendia nada de empresa familiar.

Heitor baixou o rosto por um segundo.

Lembrava da discussão.

Renato também pareceu lembrar, porque um sorriso muito discreto passou pela expressão dele antes de desaparecer.

— Cinco idiomas. Experiência em áreas diferentes. Contato com operação de verdade. Aos vinte e sete anos, alguma coisa mudou. Você deixou de ser, dentro da empresa, apenas o filho do Renato e o neto do Afonso. As pessoas começaram a procurar o Heitor porque queriam ouvir o Heitor.

Heitor ficou imóvel.

— Seu avô dificultou sua vida mais do que eu acho que precisava. Você sabe disso. E nunca usou isso como desculpa. Brigava com ele, ficava puto, vinha reclamar comigo, depois voltava e fazia melhor.

Renato cruzou as mãos sobre a mesa.

— Aos trinta e um, você evitou o que poderia ter se transformado no maior desastre financeiro da história dessa empresa. Eu me lembro de olhar para você naquele período e pensar que finalmente tinha chegado a hora de começar a te preparar de verdade para assumir a Monteiro Inc.

Heitor desviou os olhos.

A garganta começava a ficar apertada de uma forma que ele odiava.

— Você sempre tratou essa empresa como prioridade. Até demais, algumas vezes. Mulher nunca faltou na sua vida, eu sei disso e sua mãe sabe muito mais do que gostaria. Só que nenhuma entrava aqui.

Renato tocou de leve a ponta dos dedos sobre a mesa.

— Você nem se dava ao trabalho de apresentar. Sempre dizia que não era hora. Que relacionamento sério ia tirar sua atenção, que queria estar pronto primeiro. Seu avô vivia falando de casamento, sucessão, filho, e você nunca cedeu porque sabia o que queria fazer antes.

Heitor permaneceu em silêncio.

— Aos trinta e seis, você me procurou.

Dessa vez ele ergueu os olhos.

— Eu lembro.

— Eu também. Você sentou na minha sala e me disse: “Pai, acho que agora está na hora de construir uma família”.

Renato deixou escapar um pequeno sorriso.

— Sua mãe quase abriu champanhe.

Heitor sorriu de leve, apesar de tudo.

— Ela abriu.

— Abriu mesmo.

O sorriso desapareceu dos dois quase ao mesmo tempo.

— Marcela apareceu depois. Vocês ficaram juntos dois anos. Ficaram noivos. Terminou mal. Você sofreu, ficou com o orgulho ferido, provavelmente se sentiu um idiota por não perceber antes o que ela queria de você.

Heitor não gostava daquela lembrança, mas não interrompeu.

— E mesmo assim você trabalhou. Não perdeu reunião. Não deixou projeto de lado. Não deixou a Monteiro pagar pela sua vida pessoal.

Renato respirou fundo.

— Aos trinta e nove anos, quando fizemos a transição definitiva e você assumiu como CEO, eu nunca estive mais orgulhoso de você.

Heitor apertou os lábios.

Não sabia mais onde colocar os olhos.

— As visitas às filiais eram parte disso. Não eram férias. Eram a última etapa para você conhecer com os próprios olhos aquilo que passaria a responder diretamente a você. E você fez exatamente como combinamos. Cronograma, relatório, revisão, reunião. Unidade por unidade.

Renato fez uma pequena pausa.

— Até Minas.

Heitor baixou os olhos outra vez.

Ali estava.

— Aquela filial sempre foi tratada como irrelevante — continuou Renato. — Por mim também. Ela se paga, não dá prejuízo, mas não produz lucro de verdade. Seu avô nunca deixou fechar e nós nunca entendemos por quê. Então eu consigo compreender que Auditoria tenha concentrado esforço em operações maiores. Consigo compreender que alguns controles tenham sido menos rigorosos ali do que numa filial que movimenta dez vezes mais dinheiro.

O olhar de Renato se fixou no filho.

— Mas você esteve lá por meses.

Heitor não respondeu.

— Meses, Heitor.

O tom continuava calmo. Não havia acusação, mas a decepção agora estava mais evidente.

— Você me ligava dizendo que tinha revisado os documentos. Disse que tinha voltado cinco anos nos registros daquela filial. Falou de gastos que cortou, de contratos que não faziam sentido, de parceria que precisava ser revista, de cliente que estava dando margem baixa. Eu ouvi tudo isso de você.

Heitor sentiu o rosto esquentar.

— Eu sei.

— Então me explica como não viu isso.

O silêncio se instalou entre os dois.

Heitor abriu a boca, mas nenhuma resposta veio imediatamente.

Porque não tinha uma boa.

Passou a mão lentamente pela barba antes de finalmente falar:

— Eu não sei.

Renato esperou.

— Eu vi aquelas notas, pai. Mais de uma vez. Vi o livro contábil, vi lançamentos, revisei fornecedor, despesa operacional. Eu lembro de ficar horas naquilo. Eu não entendo como não percebi.

Renato não respondeu e foi justamente o silêncio dele que fez Heitor erguer os olhos.

O pai sabia.

Heitor percebeu pela expressão.

Renato sabia exatamente por quê.

Os dois ficaram alguns segundos se encarando.

Heitor foi o primeiro a desviar.

— Não fala.

Renato franziu muito pouco a testa.

— Por quê?

— Porque eu sei o que você vai falar.

— Então talvez eu não precise falar.

Heitor passou a mão pelo rosto, incomodado.

— Eu trabalhava naquela filial.

— Eu sei que trabalhava.

— Não fiquei meses lá sem fazer porra nenhuma.

— Eu não disse isso.

— Parece.

Renato permaneceu tranquilo.

— Não, Heitor. Parece para você porque você está se defendendo de uma coisa que eu ainda nem disse.

Aquilo o calou.

Renato respirou novamente antes de continuar.

— Eu amo a Helena.

Heitor levantou os olhos.

— Hoje eu amo aquela menina como se fosse uma filha. Você sabe disso. Se alguém me perguntasse hoje se ela foi uma boa escolha para sua vida, eu diria que provavelmente foi uma das melhores que você fez.

Heitor não disse nada.

— Eu não pensava assim no começo. Eu tinha minhas dúvidas. Sua mãe tinha muito mais. A diferença é que eu preferi conhecer Helena antes de decidir quem ela era. E ela me mostrou. É uma mulher inteligente, trabalhadora, ama você, ama seu filho, respeita nossa família e, principalmente, não precisa do nosso sobrenome para saber quem é.

O rosto de Heitor suavizou por um instante.

— Então isso não é sobre culpar a Helena.

— Eu sei.

— É sobre você.

A expressão dele endureceu novamente.

Renato continuou:

— Você não era um garoto de vinte anos que se apaixonou pela primeira vez e esqueceu que tinha prova na segunda-feira. Você era um homem de quarenta anos, com uma história dentro dessa empresa, experiência suficiente para sentar em qualquer mesa daquele grupo e entender o que estava acontecendo.

Heitor se mexeu na cadeira.

— Eu não fiquei cego.

Renato ficou em silêncio.

— Não fiquei — repetiu Heitor. — Eu fiz meu trabalho. Você mesmo acabou de falar tudo que eu fiz naquela filial. Revisei os documentos, mexi em gasto, projeto, contrato. Eu só não estava procurando fraude.

— Eu sei.

— Os números fechavam.

— Provavelmente.

— Então não faz sentido falar como se eu tivesse passado aqueles meses correndo atrás da Helena e ignorando a empresa.

Renato inclinou levemente a cabeça.

— Eu não falei isso.

Heitor respirou fundo, irritado agora muito mais consigo mesmo do que com o pai.

— Mas é isso que você está querendo dizer.

— Não.

A resposta veio tranquila.

Renato esperou até que Heitor realmente olhasse para ele.

— Estou dizendo que você trabalhou abaixo do seu padrão.

Aquilo acertou Heitor em cheio.

Ele ficou calado.

— E talvez para qualquer outro executivo da Monteiro o trabalho que você fez ali tivesse sido suficiente — continuou Renato. — Para você, não foi.

Heitor apertou a mandíbula.

— Pai—

— Você quer que eu diga que não tinha como perceber?

Ele não respondeu.

— Eu não sei se tinha. Ninguém sabe ainda. Talvez amanhã o Compliance descubra que Gaspar começou a fazer tudo depois que você saiu. Talvez descubra que ele mascarou tão bem os gastos que nem uma auditoria teria identificado sem saber o que procurar. Se for isso, ótimo. Você vai dormir melhor.

Renato fez uma pequena pausa.

— Mas se descobrirmos que aquilo já estava acontecendo enquanto você estava lá, eu não vou te tratar como um homem incapaz de reconhecer que poderia ter feito melhor.

Heitor sustentou o olhar do pai.

— Eu nunca imaginei que existisse fraude naquela filial.

— Esse é exatamente o problema de fraude, filho. Ela não costuma mandar aviso.

Heitor ficou em silêncio outra vez.

Renato não mudou o tom.

— Você sempre foi bom porque nunca precisou que alguém te dissesse onde procurar. Você olhava alguma coisa, achava estranho e ia atrás. Foi assim que construiu sua carreira. Foi assim que salvou essa empresa daquele desastre aos trinta e um. Não foi porque alguém colocou uma pasta na sua mesa escrita “problema”. Foi porque você olhou números que aparentemente faziam sentido e percebeu que alguma coisa não fechava.

Heitor passou a língua pelos dentes.

Não tinha resposta para aquilo.

— Eu estava apaixonado — disse por fim, mas a frase saiu quase como uma justificativa involuntária. Heitor imediatamente se arrependeu. — Não estou usando isso como desculpa.

Renato o observou.

— Eu sei.

— E não significa que eu tenha ficado cego.

Renato permaneceu alguns segundos em silêncio antes de responder:

— Então não ficou.

Heitor franziu o cenho.

Esperava discussão.

Não veio.

Renato simplesmente juntou os papéis diante dele.

— Você não precisa admitir nada para mim hoje, Heitor.

Aquilo irritou Heitor mais do que se o pai tivesse insistido.

— Eu não tenho problema em admitir quando erro.

Renato ergueu os olhos.

Não havia ironia na expressão dele.

— Eu sei. É uma das coisas que sempre admirei em você.

Heitor ficou quieto.

Renato organizou a última folha e colocou sobre a pasta.

— Só tome cuidado para não transformar essa conversa numa discussão sobre se você trabalhou ou não naquela época. Eu sei que trabalhou. Você sabe que trabalhou. Isso nunca esteve em dúvida.

Ele se levantou.

Heitor permaneceu sentado.

— A pergunta é outra.

Renato pegou a pasta.

— Você trabalhou como Heitor Monteiro trabalharia se Helena Ribeiro Campos não estivesse naquele prédio?

Heitor não respondeu.

Renato também não esperou.

Caminhou até a porta, mas parou antes de abri-la.

— E, só para deixar uma coisa clara...

Heitor levantou os olhos.

— Eu não gostaria que você tivesse escolhido a empresa em vez dela.

A frase o surpreendeu.

Renato continuou:

— Sua vida é infinitamente melhor porque você encontrou Helena. A minha também. Então não olhe para trás e transforme aquela mulher no seu erro. Ela não foi.

Fez uma pequena pausa.

— O erro, se houve um, foi você achar que precisava escolher onde colocar toda a sua atenção.

Heitor continuou olhando para o pai.

— Um homem como você deveria ter sido capaz de fazer as duas coisas.

Renato abriu a porta.

— Descubra o que aconteceu com Gaspar. Depois a gente decide se essa conversa precisa continuar.

E saiu.

Heitor permaneceu sozinho na sala.

Por alguns minutos, não tocou no notebook, não pegou o celular e sequer se levantou.

Continuou exatamente onde estava, olhando para a cadeira vazia do pai e sentindo uma vergonha que não conseguia transformar em raiva.

Ser repreendido por Renato nunca tinha sido fácil.

Ser repreendido sem que Renato precisasse levantar a voz era muito pior.

Heitor continuou sentado depois que Renato saiu.

A porta se fechou com um clique discreto, e o silêncio da sala pareceu aumentar imediatamente. Durante alguns segundos, ele nem tentou se mexer. Ficou com os antebraços apoiados sobre a mesa, as mãos unidas diante do corpo e os olhos presos em algum ponto qualquer da madeira.

Seu rosto ainda queimava.

Aquela sensação era quase insuportável.

Heitor não se lembrava da última vez em que havia se sentido tão constrangido diante do pai. Preferia que Renato tivesse se irritado, levantado a voz ou dito alguma coisa injusta que ele pudesse rebater. Seria muito mais fácil sair dali puto do que permanecer sozinho depois de ouvir, com absoluta calma, uma série de verdades que não conseguia desmontar.

Ainda assim, havia uma coisa que continuava recusando.

Ele não aceitava que Helena tivesse sido um erro.

Nem mesmo naquela história.

Heitor passou as duas mãos pelo rosto e soltou o ar devagar.

Teria que lidar com Gaspar, acompanhar o levantamento de Compliance, conversar com Clara no dia seguinte e descobrir até onde aquele problema realmente ia. Se tivesse deixado alguma coisa passar anos atrás, teria que engolir o orgulho e lidar com isso também.

O que ele definitivamente não queria era contar aquilo para Helena.

Só de imaginar a conversa sentia um desconforto diferente.

Helena chegaria à mesma conclusão que Renato. Provavelmente ainda mais rápido. Conhecia Heitor bem demais para não perceber que, durante aqueles meses em Minas, ele tinha passado uma quantidade indecente de tempo pensando nela.

E Heitor sabia exatamente o que aconteceria depois.

Helena se sentiria culpada.

Ela estava tão animada com a possibilidade de voltar a trabalhar. Falava sobre projetos, sobre ter rotina de novo, sobre usar a cabeça para alguma coisa além da casa, da família e das próprias responsabilidades. Heitor adorava vê-la daquele jeito. Adorava quando ela começava a explicar alguma coisa do trabalho e acelerava a fala sem perceber, quando abria uma planilha e parecia esquecer que existia qualquer outra coisa ao redor.

Se descobrisse que ele estava sentado ali pensando que talvez tivesse trabalhado abaixo do próprio padrão anos antes porque estava obcecado por ela, Helena seria perfeitamente capaz de transformar aquilo num motivo para manter distância.

E ele não queria distância nenhuma.

Nem um pouco.

Na verdade, se dependesse exclusivamente dele, Helena trabalharia tão perto que bastaria Heitor levantar os olhos para vê-la.

Já tinha cogitado, mais de uma vez, mandar colocar uma mesa para ela dentro da própria sala.

A ideia durara pouco.

Primeiro porque não fazia o menor sentido uma analista ter uma mesa dentro da sala do CEO. Segundo porque Helena ficaria furiosa com a simples possibilidade de alguém interpretar aquilo como privilégio. E terceiro porque Heitor conhecia a si mesmo.

Não trabalharia porra nenhuma.

Ou trabalharia muito menos do que deveria.

Bastaria Helena aparecer de cabelo preso mostrando o pescoço e aquela expressão concentrada olhando para duas telas ao mesmo tempo para ele começar a inventar assunto. Perguntaria o que ela estava fazendo. Iria até a mesa. Encostaria na cadeira. Daria um beijo. Depois outro. Quando percebesse, teria passado vinte minutos incomodando uma mulher que provavelmente mandaria que ele voltasse para o próprio lado da sala.

Heitor sorriu sozinho pela primeira vez desde que o pai saíra.

Helena detestaria aquela mesa.

Provavelmente mandaria tirá-la no primeiro dia.

E talvez estivesse certa.

Esse era o ponto que precisava entender.

Não precisava parar de querer ficar perto dela.

Precisava apenas aprender que querer não significava largar tudo imediatamente.

Era ridículo pensar que, depois de tantos anos, ainda precisava aprender alguma coisa tão simples.

Heitor sempre fora intenso.

Nunca soubera gostar pela metade, trabalhar pela metade ou desejar alguma coisa sem transformar aquilo numa espécie de objetivo pessoal. Durante boa parte da vida adulta, toda essa intensidade tivera praticamente um único destino.

Monteiro Inc.

Era a empresa que ocupava seus pensamentos quando acordava, durante o almoço, no avião, nas férias e muitas vezes antes de dormir. Era nela que despejava ambição, competitividade, orgulho e uma necessidade quase doentia de provar que podia fazer melhor. Talvez por isso tivesse avançado tão rápido. Talvez por isso Renato tivesse tanto orgulho da trajetória dele.

Mulheres entravam e saíam.

A empresa ficava.

Até Helena.

Helena não entrou para disputar espaço com a Monteiro Inc.

Simplesmente tomou um espaço que ninguém antes tinha conseguido ocupar.

E tomou muito.

Heitor não tinha vergonha nenhuma disso.

Antes dela, era perfeitamente capaz de sair do escritório às onze da noite satisfeito porque tinha terminado alguma coisa importante. Hoje, se desse onze da noite e ainda estivesse ali sem necessidade, provavelmente ficaria irritado consigo mesmo por estar desperdiçando tempo que poderia passar com a noiva.

Antes, uma viagem a trabalho significava apenas trabalho.

Agora significava também calcular quantos dias ficaria longe dela, procurar passagem para voltar mais cedo e mandar mensagem quando entrasse no quarto do hotel porque queria ouvir a voz dela.

Antes, chegar em casa era apenas o fim do expediente.

Agora tinha Helena e Humberto.

Tinha a família esperando por ele. Tinha uma mulher, alguém que queria ouvir sobre seu dia, mesmo quando reclamava que ele falava de empresa demais. Alguém com quem ele queria jantar, deitar, rir, conversar e fazer absolutamente nada.

Heitor gostava daquele homem muito mais do que gostava do homem que vivia exclusivamente para trabalhar.

E não pretendia voltar atrás.

Helena não tinha diminuído sua ambição.

Em muitos aspectos, tinha aumentado.

Heitor gostava quando ela o admirava.

Gostava demais.

Gostava daquele olhar orgulhoso quando fazia alguma coisa importante, de ouvi-la dizer que ele era bom no que fazia, de perceber que Helena não enxergava apenas o sobrenome Monteiro, o dinheiro ou o cargo. Ela conhecia o homem por trás daquilo e ainda assim parecia genuinamente impressionada com algumas coisas que ele fazia.

Aquilo mexia com ele de uma maneira que conselho administrativo nenhum conseguiria.

Heitor queria ser bom por ele mesmo.

Mas também gostava muito de ser o homem que Helena olhava e pensava: esse é meu homem.

Talvez fosse exatamente por isso que aquela conversa com Renato tivesse doído tanto.

Se Helena soubesse que alguma coisa daquele tamanho podia ter acontecido diante dele sem que percebesse, talvez não deixasse de admirá-lo. Heitor sabia disso racionalmente.

Mas odiava até a possibilidade.

Baixou os olhos novamente para a aliança.

Não queria que Helena fosse a razão para ele trabalhar pior.

Queria o contrário.

Queria que ela fosse mais uma razão para trabalhar bem.

Soltou o ar devagar.

Estava entendido.

Quando Helena voltasse a trabalhar, ele continuaria procurando por ela.

Claro que continuaria.

Se passasse pelo corredor e soubesse que ela estava a duas portas dali, provavelmente entraria. Mandaria mensagem. Apareceria com café. Roubaria um beijo quando pudesse. Talvez inventasse alguma desculpa muito ruim para passar no setor dela e os dois saberiam perfeitamente que era desculpa.

Heitor não tinha a menor intenção de virar um homem distante e profissional demais só porque o pai acabara de lhe dar uma bronca.

Renato também não tinha pedido isso.

A diferença era simples.

Primeiro ele terminaria o que precisava terminar.

Depois iria atrás dela.

Heitor apoiou as costas na cadeira, sentindo finalmente o calor do rosto diminuir.

Era isso.

Não precisava escolher entre ser o homem que administrava a Monteiro Inc. e o homem completamente apaixonado por Helena.

Precisava apenas parar de usar um para negligenciar o outro.

Ele conseguia fazer as duas coisas.

Teria que conseguir.

Porque uma verdade não mudaria depois daquela conversa, depois de Gaspar ou depois de qualquer outra coisa que viesse pela frente.

Heitor sempre tinha sido um homem intenso.

Durante muitos anos, quase toda aquela intensidade se chamara Monteiro Inc.

Agora se chamava Helena.

E ele não via absolutamente nada de errado nisso.

A Monteiro Inc. continuava sendo sua responsabilidade, seu patrimônio, sua história e uma parte enorme de quem ele era. Ele continuaria administrando aquela empresa no nível que sempre exigira de si mesmo.

Mas já não vivia para ela.

Vivia uma vida que também tinha Helena no centro.

Gostassem ou não, teriam que se acostumar.

Heitor pegou o celular e abriu a agenda.

Tinha uma reunião com Clara para marcar.

Depois disso, trabalho.

E, quando terminasse, talvez desse uma passadinha no setor da noiva quando ela finalmente estivesse de volta.

Só para ver como estavam as coisas.

Profissionalmente, é claro.

Heitor sorriu sozinho.

Helena jamais acreditaria naquela desculpa.