Celina voltou a pensar na mensagem de Heitor quando já passava das oito da noite, embora, se fosse inteiramente sincera consigo mesma, admitisse que não havia parado de pensar nela desde que a recebera algumas horas antes. O primeiro áudio chegara no fim da manhã, enquanto discutia ao telefone os últimos detalhes de um almoço beneficente marcado para a semana seguinte, e fora tão característico do filho que ela precisara afastar o celular do ouvido para encarar a tela depois de escutá-lo.

— Mãe, você sabe se dona Cleuza ainda tá viva?

— Meu Deus, Heitor — murmurara sozinha, indignada.

O segundo áudio chegara quase imediatamente, como se ele próprio tivesse percebido a falta de delicadeza da pergunta.

— Calma, não aconteceu nada. É porque eu e a Helena estamos procurando uma babá pro Humberto e lembrei dela. Se souber onde ela está ou tiver contato de alguém da família, me fala.

Celina ouvira duas vezes.

Não por causa de Cleuza.

Por causa de Helena.

Eles estavam procurando uma babá.

Aquela informação, absolutamente corriqueira para qualquer outra pessoa, abrira diante de Celina uma quantidade tão grande de possibilidades que ela precisara se obrigar a voltar à conversa que mantinha antes. Ainda conseguiu discutir flores, lugares à mesa e a inconveniência de colocar duas determinadas senhoras perto uma da outra, mas uma parte de sua cabeça já estava muito longe dali.

Uma babá significava que Helena finalmente começaria a se desprender um pouco daquela rotina quase absoluta em torno de Humberto.

Não que Celina julgasse a nora por isso. De maneira alguma. Humberto ainda era muito pequeno, Helena passara por meses emocionalmente intensos e tinha se transformado numa mãe tão dedicada que às vezes parecia acreditar que o menino deixaria de respirar se ela se afastasse por mais de três metros. Celina compreendia. Quando Heitor nasceu, ela própria passara meses verificando o berço durante a madrugada para ter certeza de que o filho continuava ali, respirando, perfeitamente saudável, apesar de Renato insistir que bebês não desapareciam espontaneamente durante o sono.

Mas alguma hora uma mulher precisava voltar a ser também todas as outras coisas que era.

E, se Helena estava disposta a deixar Humberto aos cuidados de alguém por algumas horas, então talvez estivesse finalmente disposta a fazer outras coisas, não apenas outras coisas, seriam outras coisas com Celina.

O pensamento surgira tão depressa que ela quase sorrira no meio da ligação.

Primeiro, naturalmente, resolveria a questão que Heitor de fato pedira.

Ligou para Cleuza menos de meia hora depois.

O número ainda era o mesmo, coisa que Celina considerava perfeitamente plausível porque ela mesma mantinha contatos de pessoas com quem não falava havia vinte anos. Nunca compreendera aquele costume moderno de apagar números. Relações eram patrimônio. Uma pessoa podia desaparecer da sua vida por décadas e, subitamente, tornar-se exatamente quem você precisava encontrar.

Cleuza demorou a atender. Quando finalmente o fez, a voz estava envelhecida, mais rouca e lenta, e Celina precisou dizer o próprio nome duas vezes antes de ouvir um grito espantado do outro lado.

A conversa durou muito mais do que ela imaginara.

Cleuza estava com setenta e seis anos, dois joelhos que considerava “uma vergonha”, a coluna cada vez menos cooperativa e três filhas que, segundo ela, a colocariam num asilo se descobrissem qualquer tentativa de voltar a trabalhar. Continuava, porém, exatamente a mesma mulher firme e divertida que circulara durante tantos anos pela casa dos Monteiro sem jamais demonstrar qualquer intimidação diante do dinheiro, do sobrenome ou das ordens de Celina.

Falaram de Heitor, naturalmente.

Cleuza ainda se lembrava do menino impossível que tentava negociar castigos como se estivesse fechando contratos, inventava argumentos para não comer legumes e, desde muito pequeno, tinha uma consciência perigosamente precoce de que um sorriso bonito facilitava sua vida.

— Ele fazia aquela cara e achava que eu ia esquecer o que ele tinha feito — Cleuza contou, rindo.

— Continua fazendo.

— Com quarenta anos?

— Agora é pior. Tem dinheiro próprio, cargo importante e gente que obedece.

A gargalhada de Cleuza fizera Celina rir também.

Depois veio Humberto.

Quando soube que Heitor tinha um filho, a antiga babá se emocionou de verdade. Quis saber o nome, a idade, com quem parecia, se era tranquilo, se dormia bem e, naturalmente, quem era a mãe. Celina respondera sem qualquer hesitação.

— Helena. Minha nora.

E, pouco depois:

— É uma menina maravilhosa.

A frase saiu com tanta naturalidade que só percebeu alguns segundos depois.

Não sentiu necessidade alguma de corrigir.

Cleuza não podia assumir a função, evidentemente, mas prometeu perguntar. Conhecia mulheres mais novas, filhas de antigas colegas, algumas profissionais que haviam trabalhado com boas famílias durante anos. Celina agradeceu e desligou satisfeita.

Então fez mais algumas ligações.

Poucas.

Quatro, talvez.

Nada que pudesse ser chamado de exagero.

Humberto era seu neto. Não seria entregue a qualquer pessoa que aparecesse com uma carteira de trabalho e boas intenções. Celina queria referências impecáveis, experiência com bebês, primeiros socorros, discrição absoluta e, se fosse possível exigir, uma personalidade suficientemente firme para não se intimidar com Heitor. O filho entrava em determinados ambientes com aquela expressão de homem prestes a comprar o prédio ou demitir metade dele, e uma mulher insegura não sobreviveria uma semana.

Mas, quando terminou de resolver aquilo, seus pensamentos voltaram inevitavelmente para Helena.

E permaneceram nela pelo restante do dia.

À noite, enquanto retirava os brincos diante do espelho do closet, Celina já havia pensado no leilão do mês seguinte tantas vezes que começava a considerá-lo praticamente uma escolha óbvia.

Seria perfeito.

O evento arrecadaria fundos para a ampliação de uma ala pediátrica, o que talvez despertasse ainda mais interesse em Helena agora que tinha Humberto. O número de convidados seria grande o suficiente para apresentar pessoas importantes, mas não tão grande a ponto de transformar a noite num espetáculo cansativo de fotógrafos e rostos desconhecidos. Celina conhecia todos os envolvidos, sabia quem realmente trabalhava pelo projeto, quem apareceria apenas porque era bom para a imagem e quem deveria permanecer o mais distante possível da nora até que Helena estivesse devidamente avisada.

Talvez antes pudesse levá-la ao instituto.

Não ao leilão diretamente.

Ao instituto.

Uma tarde tranquila, sem imprensa, sem vestidos, sem nenhuma obrigação social. Helena poderia conhecer a ala, conversar com médicos, entender a campanha e perceber que aquele mundo que Celina frequentava havia décadas não se resumia a champanhe, joias e fotografias em revistas.

Embora, naturalmente, também houvesse champanhe, joias e fotografias em revistas.

Celina não via problema algum nisso.

Gostava da beleza daquele universo. Sempre gostara. Gostava de uma mesa impecavelmente montada, de vestidos extraordinários, de entrar num salão sabendo exatamente quem estava ali e qual era a história escondida atrás de cada sorriso. Não tinha vergonha daquele prazer e jamais fingiria ter. Mas reduzir sua vida social a isso sempre lhe parecera uma estupidez de quem não compreendia o funcionamento das coisas.

Durante décadas, Celina aprendera a transformar relações em resultados. Sabia quais empresários precisavam ser convencidos pela lógica, quais pela vaidade e quais simplesmente precisavam ter a esposa certa sentada ao lado durante um almoço. Sabia como reunir pessoas que se odiavam em torno de uma causa comum, como conseguir uma doação milionária sem jamais pronunciar diretamente a palavra dinheiro e como transformar um jantar aparentemente banal numa articulação capaz de financiar um projeto durante meses.

Era o seu mundo.

Gostava dele.

Era boa nele.

E queria Helena dentro dele.

A simples formulação daquele pensamento fez Celina sorrir para o próprio reflexo.

Havia tanto para mostrar àquela menina.

Helena ainda não tinha ideia de como as coisas funcionavam, e isso era justamente parte do encanto. Não crescera sendo levada a eventos pela mãe. Não aprendera desde adolescente quais sobrenomes abriam portas, quais famílias mantinham rivalidades que ninguém mais lembrava como começaram, quais senhoras aparentemente inofensivas controlavam fundações inteiras e quais homens poderosíssimos eram, na verdade, incapazes de tomar uma decisão sem perguntar primeiro à esposa.

Marcela soubera tudo aquilo quase desde sempre.

O pensamento veio sem amargura.

Celina vira Marcela crescer naquele ambiente. A mãe da menina era sua amiga havia anos e sempre a levava consigo aos eventos quando era possível. Marcela fora uma criança educada, graciosa, daquelas que cumprimentavam adultos olhando nos olhos sem parecer treinadas para isso. Conforme crescera, em vez de se cansar daquele universo, parecera gostar cada vez mais. Procurava Celina, sentava-se perto dela, perguntava sobre os institutos, os eventos, as pessoas. As conversas haviam se tornado cada vez menos entre uma mulher e a filha de uma amiga e cada vez mais entre duas pessoas que genuinamente gostavam da companhia uma da outra.

Celina se afeiçoara profundamente à menina.

Durante alguns anos, talvez tivesse imaginado Marcela como a filha que nunca tivera.

E sentira um orgulho quase ridículo quando ela passara numa universidade federal para estudar Arquitetura. Marcela poderia ter escolhido uma vida confortável, viver de sobrenome e aparições sociais, mas quisera estudar, construir uma profissão própria. Celina se lembrava perfeitamente de ter contado a notícia a Renato como se a aprovação fosse de alguém da própria família.

Quando Heitor finalmente parecera disposto a conhecer alguém seriamente, Celina pensara nela.

Esperara por anos.

Torcendo, inclusive, para que Marcela continuasse solteira até que o filho chegasse ao momento certo.

Depois os dois realmente ficaram juntos, e por algum tempo tudo parecia ter se encaixado exatamente como Celina imaginara.

Até deixar de encaixar.

Ela nunca tivera certeza de acreditar completamente na explicação de Heitor de que Marcela gostava mais do sobrenome do que dele. Não porque achasse o filho mentiroso. Heitor acreditava no que dizia. Mas Celina vira Marcela olhando para ele. Havia sentimento naquele olhar. Talvez não fosse o sentimento que Heitor precisava. Talvez a relação tivesse outras falhas que ele próprio não conseguira nomear. Talvez simplesmente não fosse suficiente.

De qualquer forma, deixou de importar no instante em que Celina viu Heitor olhando para Helena.

Aquilo nunca havia acontecido antes.

Celina conhecia o filho desde o primeiro suspiro. Conhecia seus entusiasmos passageiros, os envolvimentos, as mulheres bonitas que apareciam e desapareciam, conhecia até mesmo o carinho que ele tivera por Marcela.

Mas o olhar para Helena era outra coisa.

Heitor olhava para aquela mulher como se tudo ao redor perdesse um pouco a importância quando ela entrava.

Celina percebera cedo.

E odiara perceber.

Porque Helena, naquele primeiro momento, representava quase tudo que sua criação lhe ensinara a considerar inadequado para a alta sociedade. Era pobre. Não conhecia aquele mundo. Não tinha sobrenome. Não tinha os códigos. E, pior, Celina carregava preconceitos muito mais feios do que gostaria hoje de recordar.

A cor de Helena a incomodara.

A origem a incomodara.

O fato de Heitor estar disposto a desafiar família, reputação e expectativa por aquela mulher a incomodara ainda mais.

Levou tempo para admitir que o problema não estava em Helena.

Estava nela.

Celina não se tornara outra pessoa depois disso. Continuava acreditando em tradição, influência, educação, postura, família e todas as coisas que haviam estruturado sua vida. Ainda era elitista em muitas maneiras que provavelmente jamais desapareceriam completamente.

Mas Helena mudara alguma coisa fundamental dentro dela.

Porque, depois de conhecê-la de verdade, Celina não conseguia mais olhar para aquela menina e enxergar falta.

Via inteligência.

Via coragem.

Via lealdade.

Via uma mulher que amava seu filho de uma forma tão inteira que a assustava e, ao mesmo tempo, a tranquilizava como mãe.

E, em algum momento no meio de tudo aquilo, Helena deixara de ser a mulher que Heitor escolhera apesar das expectativas de Celina.

Passara a ser alguém que Celina própria escolheria proteger.

Alguém seu.

Sua nora.

Quase sua filha.

E agora a mulher que um dia julgara que Helena jamais deveria ocupar aquele mundo sentia uma vontade quase impaciente de vê-la exatamente no centro dele.

Não apenas aceita.

No topo.

Onde Celina acreditava que ela merecia estar.

Quando ouviu a porta da casa abrir no andar inferior, ainda estava diante do espelho com aquele pensamento na cabeça.






O ruído da porta principal abrindo no andar de baixo chegou abafado até o quarto.

Celina estava diante da penteadeira, terminando de passar creme nas mãos, quando ergueu os olhos para o relógio. Renato estava atrasado. Não o suficiente para causar preocupação, mas o bastante para que ela já tivesse conferido a hora algumas vezes e começasse a cogitar telefonar para perguntar se ele pretendia passar a noite na empresa.

Fechou o pote, levantou-se e saiu do quarto. O corredor do andar superior estava silencioso, iluminado pelos pontos de luz nas paredes e pelo lustre enorme que descia sobre o hall. Celina caminhou até o início da escada, pousou uma das mãos no corrimão e olhou por cima.

Renato estava lá embaixo.

Tinha acabado de entrar. Entregava as chaves a um dos funcionários com o paletó pendurado no antebraço e a gravata já frouxa no pescoço. Por alguns segundos permaneceu parado no meio do hall como se precisasse reunir disposição para continuar andando, e aquela pequena hesitação bastou para Celina perceber que havia alguma coisa errada.

Conhecia o marido havia décadas. Sabia distinguir cansaço de preocupação, irritação de decepção, silêncio de mau humor e aquele silêncio específico de quando alguma coisa da empresa continuava acompanhando Renato mesmo depois de ele atravessar a porta de casa.

Desceu.

O som dos saltos no mármore fez Renato erguer os olhos antes que ela alcançasse o último degrau.

— Finalmente.

Ele soltou o ar pelo nariz.

— Boa noite para você também.

Celina se aproximou e o examinou sem qualquer discrição. A camisa ainda estava impecável, os cabelos no lugar, mas havia um peso na expressão que nenhum terno bem cortado conseguia esconder.

— O que aconteceu?

— Foi um dia longo.

— Isso eu estou vendo.

Renato fez menção de seguir para a sala, mas Celina segurou-lhe o braço.

— Venha comigo.

— Pra onde?

— Seu escritório.

Ele olhou para ela com uma expressão cansada.

— Celina, eu acabei de sair de um escritório.

— E vai ficar apenas alguns minutos em outro. Ande.

Renato não discutiu. Talvez estivesse cansado demais ou talvez soubesse que discutir só prolongaria o caminho até onde ela queria levá-lo.

O escritório ficava numa ala mais reservada do térreo, distante das salas principais. Era um ambiente que tinha muito mais de Renato do que de Celina: madeira escura, estantes altas, fotografias antigas da família e da empresa, uma mesa ampla diante das janelas e dois sofás de couro que ele escolhera pessoalmente muitos anos antes. Celina entrava ali com frequência, mas sempre sentira que aquele cômodo guardava alguma coisa muito particular do marido, como se fosse a extensão doméstica da parte dele que passara a vida inteira dentro da Monteiro Inc.

Renato deixou o paletó sobre uma das poltronas e foi diretamente ao pequeno bar.

Celina fechou a porta.

— Agora me diga.

Ele serviu uma dose de uísque.

— Você poderia pelo menos me deixar beber antes do interrogatório.

— Pode beber enquanto fala.

Renato lançou-lhe um olhar e Celina foi se sentar no sofá, cruzando as pernas. Esperou que ele tomasse o primeiro gole, depois o segundo, até que finalmente viesse se acomodar ao lado dela. O corpo dele afundou no encosto de uma maneira que não era habitual, e Celina ficou ainda mais atenta.

— Aconteceu alguma coisa com o Heitor?

Renato girou lentamente o copo entre os dedos.

— Hoje apareceu um problema numa das filiais.

— Que problema?

— Fraude.

O rosto de Celina mudou imediatamente.

— Na Monteiro?

— É.

— Quanto?

— Ainda não sabemos.

— Como assim não sabem?

— Porque descobriram hoje, Celina. O Compliance está levantando tudo.

Ela franziu o cenho, mas percebeu que havia algo que ele ainda não dissera.

— E onde o Heitor entra nisso?

Renato demorou alguns segundos para responder.

— Foi ele quem trouxe o problema para a mesa. Recebeu algumas informações, chamou Compliance, Jurídico e RH. Eu estava na empresa e participei da reunião.

— Então qual é o problema?

Renato olhou para o uísque antes de responder.

— A filial é a do interior de Minas.

Celina entendeu imediatamente qual.

Aquela.

A filial em que Heitor passara meses.

A filial onde conhecera Helena.

— Ah.

— Pois é. — Renato recostou-se e ficou alguns segundos em silêncio antes de continuar. — Ainda não sabemos quando exatamente os gastos começaram e nem como foram escondidos. Pode ser que parte seja posterior à passagem dele. Pode ser que Gaspar tenha mascarado tudo de uma maneira que não apareceria numa revisão comum. O compliance vai descobrir.

Celina assentiu lentamente.

— Então não estou entendendo por que você chegou assim.

Renato soltou uma respiração pesada.

— Porque o Heitor reconheceu alguns dos lançamentos.

Ela franziu o cenho.

— Reconheceu como?

— A estrutura. O tipo de despesa. Ele mexeu naquilo quando esteve lá.

Celina permaneceu quieta.

Renato continuou, ainda sem elevar a voz, mas agora ela conseguia ouvir a decepção debaixo do cansaço.

— Ele passou meses naquela filial, Celina. Meses. Revisou contratos, despesas, fornecedores, projetos. Me ligava falando do que tinha cortado, do que precisava mudar, do que não fazia sentido. Chegou a voltar anos nos registros. Hoje ele estava sentado diante de algumas despesas e lembrou de ter visto parte daquilo.

Celina tornou a olhar para ele.

— E você acha que ele deveria ter percebido.

— Acho que alguma coisa deveria ter chamado atenção.

A resposta veio rápida demais para permitir dúvida.

Ela se endireitou.

— Renato, se passou pelo Heitor dessa forma, talvez estivesse muito bem escondido.

Ele balançou levemente a cabeça.

— Pode estar.

— Não “pode estar”. Provavelmente estava.

— Celina...

— Não, Renato. Você acabou de me dizer que nem sabe ainda como fizeram. Se o Compliance não sabe, como pode dizer que Heitor deveria ter percebido anos atrás?

Ele virou o rosto para a esposa.

— Porque eu conheço o nosso filho.

— Eu também.

— Então sabe exatamente o que estou dizendo.

Celina permaneceu olhando para ele. Renato apoiou o copo na própria perna, segurando-o com as duas mãos.

— Não estou dizendo que Heitor tinha obrigação de olhar uma nota e descobrir que um gerente estava usando dinheiro da empresa para comprar alguma coisa para uma mulher. Isso seria absurdo. Nem estou dizendo que ele não trabalhou naquela filial. Trabalhou. Fez mais do que muita gente faria.

— Então?

Renato ficou em silêncio por um instante.

— Então talvez esse seja o problema.

Celina estreitou os olhos.

— Não fale por enigmas comigo.

Ele soltou o ar.

— Para muita gente, o trabalho que Heitor fez ali teria sido suficiente. Para ele, talvez não tenha sido.

Aquilo fez Celina compreender melhor o peso que ele trouxera para casa.

Não era apenas o dinheiro. Não era apenas Gaspar.

Era Heitor.

O padrão que Renato esperava do filho porque passara décadas vendo aquele homem estabelecer um padrão quase absurdo para si mesmo.

— Você ficou desapontado com ele — disse.

Renato não respondeu imediatamente.

Depois assentiu.

— Fiquei.

Celina suavizou um pouco a expressão, embora o instinto de defesa permanecesse intacto.

— Querido...

— Eu fiquei muito desapontado.

A sinceridade fez com que ela se calasse.

— Não porque eu ache que ele seja incompetente. Justamente o contrário. Se fosse qualquer outro executivo, talvez eu nem estivesse pensando nisso agora. Mas o Heitor sempre foi o homem que enxergava uma coisa estranha onde todo mundo via normalidade. Ele construiu a carreira assim.

Renato olhou para frente.

— E ele esteve naquela filial por meses. Não foram três dias de visita. Foram meses.

Celina sabia perfeitamente por que.

Helena.

Não precisava que o marido pronunciasse o nome.

— Você acha que foi por causa dela.

Renato virou o rosto.

— Acho que Heitor estava apaixonado.

— Isso não responde.

— É a única resposta que eu tenho hoje.

Celina respirou fundo.

— Ele nunca tinha se apaixonado assim antes.

— Eu sei.

— Nunca.

— Eu sei, Celina.

Ela tocou o braço do marido.

— Aquela menina virou a cabeça dele de um jeito que nem eu achei que fosse possível. Mas isso não significa que ele tenha simplesmente parado de trabalhar.

— Eu não disse isso a ele.

— Mas pensou.

Renato ficou alguns segundos em silêncio.

— Eu pensei que talvez tenha trabalhado abaixo do padrão dele.

Celina fez uma pequena careta.

Não gostava.

— Acho injusto decidir isso antes de saber como a fraude foi feita.

— Também acho.

Ela o encarou, surpresa.

— Então estamos discutindo por quê?

— Porque uma coisa não elimina a outra.

Renato finalmente se virou mais para ela.

— Se amanhã o compliance me disser que aquilo estava escondido de uma forma que nem uma auditoria encontraria sem uma denúncia, a conversa termina. Eu vou ser o primeiro a dizer ao Heitor que fui duro demais.

Celina relaxou um pouco.

— E se não?

— Se descobrirmos que aqueles padrões já estavam lá, em despesas que ele viu mais de uma vez, vou continuar achando que ele deveria ter percebido alguma coisa.

Ela abriu a boca para retrucar, mas Renato tocou de leve sua mão.

— Não estou condenando nosso filho, Celina.

— Parece.

— Porque você entrou no modo mãe.

Ela retirou a mão, ofendida.

— Eu sou mãe.

— Eu sei.

— E você também é pai, caso tenha esquecido.

Um pequeno sorriso surgiu no rosto dele.

— Não esqueci. Foi exatamente por ser pai que conversei com ele depois da reunião.

Celina imediatamente ficou alerta.

— O que você disse?

Renato tomou mais um gole antes de responder.

— O que precisava.

— Detalhadíssimo.

— Você não precisa saber palavra por palavra.

— Eu gostaria.

— Eu sei.

Ela estreitou os olhos.

— Ele ficou chateado?

— Ficou envergonhado.

Celina soltou um suspiro e recostou-se.

— Ai, Renato.

— Não fiz isso para humilhá-lo.

— Eu sei.

E sabia.

Não gostava de imaginar Heitor saindo de uma conversa com o pai envergonhado, mas conhecia Renato suficientemente bem para saber que ele não pisaria no filho por prazer. Aliás, provavelmente a bronca havia doído justamente porque não houvera gritos.

— Eu disse que sempre tive orgulho da carreira dele — Renato continuou. — E continuo tendo. Disse que sei o quanto trabalhou para chegar onde chegou, mesmo tendo todos os privilégios que teve. Mas também disse que justamente por saber do que ele é capaz eu não vou fingir que qualquer trabalho feito por ele está bom só porque seria bom para outra pessoa.

Celina ficou quieta.

Aquilo soava muito Renato.

— E falou da Helena.

Ele lançou-lhe um olhar.

— Como sabe?

— Porque eu conheço vocês dois.

Renato sorriu de lado.

— Falei.

— O quê?

— Que não queria que ele olhasse para trás e transformasse Helena num erro.

A expressão de Celina se suavizou instantaneamente.

Renato continuou:

— Porque ela não foi.

Celina assentiu.

— Não. Nunca foi.

— Eu disse que a vida dele é melhor porque encontrou aquela menina. A nossa também.

Um pequeno sorriso surgiu nos lábios dela.

— É.

— Mas também disse que Heitor não precisava escolher entre amar Helena daquele jeito e trabalhar no padrão que sempre trabalhou. Ele deveria conseguir fazer os dois.

Celina permaneceu alguns segundos em silêncio, refletindo.

Não gostava inteiramente da conclusão. Mas conseguia entendê-la.

— Ainda acho que você está se adiantando.

— Talvez.

Ela virou o rosto.

— “Talvez”?

— Celina, eu não vou concordar com você só para poder ir dormir.

— Não estou pedindo isso.

— Está quase.

Ela fez uma expressão indignada, mas Renato sorriu.

— Eu concordo que pode ter sido muito bem escondido — disse, antes que ela pudesse protestar. — Concordo que talvez ele não tivesse como perceber. Concordo até que estou olhando para isso com o conhecimento que tenho hoje e isso torna tudo mais fácil.

Celina ergueu uma sobrancelha, satisfeita.

— Mas...

— Naturalmente existe um “mas”.

— Mas eu ainda fiquei desapontado.

O sorriso dela desapareceu um pouco.

Renato deu de ombros.

— Não consigo evitar.

Celina observou o marido por alguns segundos e então passou a mão devagar pelo antebraço dele.

— Você sabe que ele vai levar isso a sério demais.

— Sei.

— Vai passar a noite pensando.

— Provavelmente.

— E amanhã vai querer descobrir até quem forneceu a caneta usada para assinar as notas.

Renato soltou uma risada.

— Também provavelmente.

— Então acho que já sofreu o suficiente.

— Você decidiu?

— Decidi.

— Que sorte a dele.

Celina sorriu e aproximou-se um pouco mais.

— Alguém nessa família precisa protegê-lo de vocês dois.

— De quem?

— De você e dele mesmo.

Renato finalmente riu de verdade, e Celina percebeu o primeiro sinal de que o peso da empresa começava a ficar para fora daquele escritório.

Foi então que se lembrou novamente do assunto que vinha aguardando o marido chegar para contar.

E seu rosto se iluminou.

— Por falar no seu filho...

Renato fechou os olhos.

— O que foi agora?

Celina sorriu.

— Ele me mandou uma mensagem hoje.

— Se for outro problema, fica para amanhã.

— Não é problema nenhum.

Ela se ajeitou no sofá, e a mudança de energia foi tão evidente que Renato abriu os olhos novamente.

— Heitor e Helena estão procurando uma babá para o Humberto.

Renato piscou.

— Certo.

Celina ficou olhando para ele.

— Certo?

— Celina, por favor, não faça outra reunião comigo.

Ela soltou uma risada.

— Você não está entendendo.

— Isso hoje está virando um padrão.

Celina se aproximou um pouco mais, os olhos já brilhando.

— Helena vai ter tempo.

Renato demorou dois segundos.

Então entendeu.

E, pela primeira vez desde que entrara naquela casa, abriu um sorriso verdadeiramente divertido.

— Ah, não.

Celina sorriu ainda mais.

— Ah, sim.

Celina respondeu com tamanha satisfação que Renato soltou uma risada e balançou a cabeça. Havia chegado àquele escritório carregando a decepção com Heitor, o peso da reunião e uma quantidade de problemas que provavelmente ainda estariam esperando por ele na manhã seguinte, mas bastara mencionar a babá para a mulher ao seu lado mudar completamente. Os olhos estavam mais vivos, as mãos começaram a acompanhar as palavras e aquele sorriso que ele conhecia havia décadas apareceu no rosto dela, o mesmo que surgia quando Celina acreditava ter encontrado uma ideia particularmente brilhante e já começava a desenvolvê-la antes mesmo que alguém pudesse perguntar se concordava.

— Eu falei com a Cleuza — contou ela. — Está com setenta e seis anos. Evidentemente não vai trabalhar, mas prometeu procurar alguém. E eu também já falei com algumas pessoas.

Renato ergueu uma sobrancelha.

— Algumas.

— Quatro.

— Em uma tarde.

— Não faça parecer exagerado. É para cuidar do Humberto.

— Não estou dizendo nada.

— Mas está pensando.

— Isso eu ainda posso fazer sem autorização.

Celina fingiu não ouvir e continuou. Contou sobre a conversa com Cleuza, sobre as filhas ameaçarem interná-la caso inventasse de voltar a trabalhar e sobre duas indicações que já pareciam promissoras. Explicou que queria alguém com experiência, primeiros socorros, referências impecáveis e, de preferência, uma personalidade suficientemente firme para não se desmontar diante de Heitor. Renato concordou com essa última exigência mais depressa do que com todas as outras e Celina lançou-lhe um olhar ofendido em nome do filho, embora soubesse perfeitamente que ele tinha razão.

Mas logo a babá deixou de ser o centro da conversa.

— O mais importante é que Helena aceitou a ideia — disse, aproximando-se um pouco mais dele. — Isso significa que finalmente vai poder sair algumas horas sem achar que abandonou o Humberto à própria sorte.

— Você já decidiu que ela acha isso?

— Renato, aquela menina olha para o berço como se alguém fosse roubar o bebê se ela piscar por tempo demais. É evidente que acha.

Ele riu.

— Você fazia a mesma coisa com o Heitor.

Celina estreitou os olhos.

— Não fazia.

Renato ficou olhando.

— Talvez um pouco.

— Você acordava três vezes por noite para ver se ele estava respirando.

— Eu era responsável!

— Você chegou a me acordar porque achou que ele estava respirando devagar demais.

— Ele era um recém-nascido!

Renato não conseguiu segurar a risada. Celina deu um pequeno tapa no braço dele, mas também sorriu.

— De qualquer forma, ela está pronta para ter um pouco mais de liberdade. E eu não vou desperdiçar essa oportunidade.

— Isso soa ameaçador.

— Só para quem não me conhece.

— Eu conheço.

— Então sabe que não há ameaça nenhuma.

Renato decidiu não comentar.

Celina voltou ao que realmente importava.

— Tenho um leilão no mês que vem.

— Você me contou dele.

— Ele agora vai ficar bem melhor, tenho uma excelente ideia.

Ela começou a explicar de novo, agora com ainda mais detalhes. O instituto, a ala pediátrica, os médicos envolvidos, o valor que pretendiam arrecadar, quem já tinha confirmado presença. Falava depressa, puxando uma possibilidade da outra, e Renato percebeu que havia tempo não a via tão empolgada com alguma coisa que não envolvesse diretamente Humberto.

Enquanto Celina enumerava as pessoas que queria apresentar à nora, Renato passou o braço ao redor de sua cintura e a puxou para mais perto.

O movimento foi tão natural que ela mal interrompeu a frase.

Apenas se deixou levar.

Apoiou a cabeça no peito dele e continuou falando dali, perfeitamente acomodada, enquanto Renato mantinha o braço em torno de seu corpo e fazia um carinho lento com o polegar sobre o tecido do vestido.

Renato continuou ouvindo enquanto Celina falava, cada vez mais empolgada, sobre as pessoas que queria apresentar à Helena, os lugares aos quais pretendia levá-la e a quantidade aparentemente infinita de coisas que julgava necessário ensinar à nora.

Ele não disse nada.

Pelo que sabia, a disponibilidade de Helena provavelmente não seria tão grande quanto Celina estava imaginando.

Heitor já havia conversado com ele sobre a volta dela para a Monteiro Inc. Não entrara em muitos detalhes, mas o suficiente para Renato saber que não se tratava mais de uma possibilidade distante. O setor em que Helena ficaria estava, inclusive, passando por uma reforma que Heitor já havia autorizado. Quando estivesse pronta para retornar, teria uma estrutura adequada esperando por ela.

Renato poderia contar aquilo.

Talvez devesse.

Bastaria uma frase para fazer Celina recalcular mentalmente toda a agenda que já começava a construir.

Não falou.

Olhou para a esposa acomodada contra seu peito, os olhos azuis brilhando enquanto explicava por que Helena precisava conhecer certas pessoas antes de outras e por que determinado almoço seria melhor do que outro para começar, e decidiu que a informação podia esperar.

Celina estava feliz.

Não apenas satisfeita ou de bom humor. Feliz daquele jeito expansivo que fazia seu rosto parecer mais jovem, que colocava energia nas mãos enquanto falava e fazia um assunto puxar o outro sem que ela sequer percebesse quanto tempo havia passado.

Renato amava vê-la assim.

Sempre amara.

Talvez porque conhecesse também a outra Celina, aquela que escondia preocupação atrás de elegância, medo atrás de ordens e tristeza atrás de uma postura tão perfeita que quase ninguém percebia quando alguma coisa a atingia. A mulher que estava em seus braços agora não escondia nada. Estava simplesmente animada com a possibilidade de ter Helena mais perto e parecia já enxergar meses inteiros diante das duas.

Não seria ele quem estragaria aquilo naquela noite.

Além do mais, Helena trabalhar não significava que nunca teria tempo para a sogra.

Celina apenas teria que disputar espaço com a Monteiro Inc.

Renato quase sorriu ao pensar nisso.

Talvez fosse melhor deixar que descobrisse depois.

— A Marta precisa ser uma das primeiras — continuou Celina. — Helena vai gostar dela. É inteligente, prática, não tem paciência para conversa vazia. E talvez a Isabel também. Ela está naquele projeto de capacitação de mulheres há anos e acho que Helena vai se interessar muito.

Renato olhava para frente, ouvindo.

— A Cecília pode esperar.

— A assustadora?

Celina levantou a cabeça do peito dele.

— Eu já disse que ela não é assustadora.

— Você disse que a Helena provavelmente vai achar.

— Porque não conhece. Cecília é uma querida.

— Depois de quanto tempo?

Celina pensou.

— Uns vinte minutos.

Renato riu e ela tornou a acomodar a cabeça contra ele.

— E tem a Valdete, mas eu preciso decidir se vale a pena. A Valdete é excelente para arrecadar dinheiro, péssima para guardar opinião. Helena não precisa ouvir certas coisas logo no primeiro evento.

Renato passou os dedos lentamente pelo braço da esposa.

— Você já está montando uma proteção em volta dela.

Celina franziu o cenho, embora ele não pudesse ver.

— Não estou protegendo.

— Não?

— Estou preparando.

— Claro.

— É diferente.

Renato sorriu.

Celina permaneceu alguns segundos em silêncio antes de acrescentar:

— Talvez esteja protegendo um pouco.

A mão dele apertou suavemente sua cintura.

— Imaginei.

Ela soltou um pequeno suspiro e então voltou à empolgação quase no mesmo instante.

— Também já pensei no vestido.

Renato fechou os olhos.

— É claro que pensou.

Celina levantou a cabeça de novo.

— Não escolhi.

— Isso me tranquiliza muito.

— Estou apenas imaginando.

— Muito diferente.

— Renato, quer parar?

Ele abriu os olhos e encontrou a esposa quase indignada.

— Estou ouvindo.

— Então imagine comigo.

Renato se acomodou melhor no sofá, resignado.

— Estou imaginando.

Celina ficou satisfeita.

— Verde-esmeralda.

— Bonito.

— Você nem pensou.

— Pensei.

— Em dois segundos?

— Eu sei como é verde-esmeralda, Celina.

Ela bufou e voltou a se recostar nele.

— Não pode ser um vestido excessivamente armado porque Helena vai se sentir fantasiada. E se ela se sentir fantasiada, vai passar a noite inteira reclamando comigo.

— Provavelmente.

— Então uma seda. Caimento mais limpo. Comprido, naturalmente, mas sem cauda exagerada. Talvez um decote bonito, nada vulgar. Os ombros dela são lindos.

Renato sorriu ao perceber a concentração genuína com que a esposa descrevia aquilo.

— E o cabelo? — perguntou ele.

Celina imediatamente se animou ainda mais com o interesse.

— Preso.

Ele riu.

— Eu sabia que havia resposta.

— Mas não completamente. Helena tem aqueles fios que ficam enrolando perto do rosto quando prende o cabelo. Acho lindo. Deixaria alguns soltos.

A mão de Renato subiu lentamente até os cabelos dela, alisando os fios loiros com carinho.

— E joias?

— Pequenas.

— Você e pequenas joias na mesma frase é uma novidade.

Celina levantou a cabeça com expressão ofendida.

— Eu sei ter elegância.

— Nunca duvidei.

— Brincos de esmeralda, talvez.

— Pequenos.

— Renato.

Ele riu, puxando-a de volta quando ela ameaçou se afastar.

— Estou brincando.

Celina deixou que ele a acomodasse outra vez contra o peito, mas levou alguns segundos para recuperar a dignidade.

— Helena não precisa de muita coisa — disse depois. — O rosto dela já chama atenção.

Renato percebeu o orgulho na voz.

Não era apenas a avaliação estética de Celina, que sempre tivera um olhar quase profissional para roupa, postura e aparência. Havia afeto ali. Daquele tipo que fazia uma mãe achar que todos deveriam olhar para sua filha e perceber imediatamente o que ela via.

— Vai ficar bonita — comentou.

Celina sorriu contra a camisa dele.

— Vai ficar deslumbrante.

— Então bonita não serve.

— Não para a Helena.

Renato abaixou os olhos para a esposa e o sorriso cresceu.

Ali estava.

A mulher que, em outros tempos, olhara para aquela mesma menina e enxergara tudo o que considerava inadequado. Agora descrevia vestido, cabelos, joias e posição numa sala com a convicção de quem não apenas queria Helena presente, mas queria que todos percebessem sua presença.

— Você vai assustar a garota — disse.

— Não vou.

— Vai aparecer com vestido, joias, uma lista de quinze pessoas e um manual de comportamento.

Celina ergueu a cabeça.

— Primeiro, eu não faria um manual.

Renato esperou.

— Faria algumas anotações.

Ele começou a rir.

— Segundo, não pretendo jogar tudo em cima dela de uma vez. Sei que Helena não funciona assim.

— Aprendeu.

— Sim. — Celina tornou a se ajeitar, apoiando a palma da mão sobre o peito dele. — Ela precisa achar que as decisões são dela.

Renato arqueou as sobrancelhas.

— Celina.

Ela percebeu a própria frase.

— Não foi isso que eu quis dizer.

— Pareceu muito.

— Quero dizer que preciso dar espaço para que ela queira. Não vou obrigá-la.

— Melhorou.

— Porque se eu obrigar, ela vai dizer não só para me contrariar.

— Isso parece possível.

— É uma característica irritante.

Renato ficou em silêncio.

— E eu gosto — admitiu Celina, quase contrariada consigo mesma.

Ele sorriu.

Ela continuou:

— Helena tem uma personalidade muito forte. Não preciso tirar isso dela. Preciso ensinar a usar.

— Ela já sabe usar bastante.

— Em alguns lugares.

Celina ergueu os olhos para ele.

— Mas aquele mundo tem regras próprias, Renato. Você sabe.

Ele sabia.

Talvez não amasse aquelas regras tanto quanto a esposa, mas passara a vida inteira cercado por elas.

— Não quero que ela entre num salão e fique tentando descobrir quem é importante — Celina continuou. — Quero que saiba antes. Quero que olhe para cada pessoa e entenda com quem está falando. Não para se curvar. Para saber exatamente quanto espaço deve dar.

A mão dela se mexeu sobre o peito dele conforme falava.

— Quero ensinar quem é confiável, quem não é, quais famílias realmente têm peso, quais vivem apenas do nome que os avós construíram. Quero mostrar as mulheres que fazem coisas importantes. Helena vai gostar delas. Ela não tem paciência para gente vazia.

— Nem você.

— Eu tenho quando necessário.

— Isso é verdade.

Celina sorriu.

— E quero levá-la para os projetos. Não só para os eventos. Quero que ela conheça as crianças, as mulheres, os hospitais, as instituições. Quero que escolha aquilo com que se identifica.

Renato ouviu a voz dela mudar pouco a pouco.

A empolgação continuava ali, mas ganhava alguma coisa mais íntima.

— Quero que um dia ela tenha os projetos dela — Celina disse. — Que alguém ligue para Helena porque sabe que ela consegue reunir as pessoas certas. Que tenha influência própria. Que seja lembrada pelo que fez.

Renato passou a mão devagar pelos cabelos da esposa.

— Você está pensando bem longe.

— Eu sempre penso.

— Eu sei.

Celina ficou em silêncio por alguns segundos. Depois falou mais baixo:

— Quero que ela chegue ao topo.

Renato olhou para ela.

Celina não parecia estar fazendo uma figura de linguagem. Para ela, aquele era um objetivo perfeitamente razoável.

— Ao topo da sociedade? — perguntou ele, divertido.

— Onde mais?

Renato soltou uma pequena risada.

— Meu Deus!

— Não faça essa cara.

— Eu não fiz nada.

Celina se ergueu um pouco para encará-lo.

— E antes que diga qualquer coisa, não estou falando de Helena virar uma mulher fútil que só aparece em revista. Não é isso.

— Eu sei.

— Quero que ela tenha relevância. Quero que seja respeitada. Quero que entre num ambiente sabendo que ninguém ali tem mais direito do que ela de estar naquele lugar.

A expressão de Celina endureceu um pouco.

— Principalmente porque sei que algumas pessoas vão pensar o contrário.

Renato não precisou perguntar por quê. Ela mesma continuou.

— Vão olhar a origem. Vão olhar a cor. Vão procurar o que acham que falta nela.

O silêncio de Renato foi respeitoso.

Celina respirou.

— E eu conheço esse olhar. — disse Celina.

Ela conhecia porque o tinha usado. Aquilo nunca deixaria de fazer parte de sua história, por mais desagradável que fosse admitir.

— Então você vai ensinar como enfrentar — Renato disse.

Celina ergueu o queixo.

— Não.

Ele esperou.

— Vou ensinar como fazer essas pessoas se sentirem ridículas por terem pensado.

Renato gargalhou. Celina abriu um sorriso satisfeito.

— Essa é minha esposa.

— Claro que sou.

Ele puxou-a ainda mais para perto e beijou demoradamente o alto da cabeça dela. Celina fechou os olhos por um instante, recebendo o carinho, e a mão que tinha sobre o peito dele deslizou até a lateral da camisa.

Ficaram assim durante alguns segundos.

Renato era um homem pouco dado a demonstrações públicas exageradas. Não tinha a intensidade escancarada de Heitor, não precisava transformar cada sentimento em declaração e jamais fora do tipo que fazia grandes cenas românticas. Com Celina, porém, havia uma intimidade construída em tantos anos que o afeto aparecia nos movimentos mais banais. Na mão que buscava sua cintura sem pensar. No beijo em seus cabelos. Na maneira como sabia quando deixá-la falar e quando apenas segurá-la um pouco mais perto.

Celina conhecia aquela linguagem.

E gostava dela.

— Está sorrindo por quê? — perguntou.

— Porque você está impossível.

— Isso não explica o sorriso.

Renato olhou para ela.

— Faz tempo que eu não te vejo tão empolgada.

Celina ficou quieta.

Ele continuou o carinho em seu braço.

— Você gosta muito dela.

A frase era óbvia.

Mesmo assim, Celina demorou um pouco para responder.

— Gosto.

Renato esperou.

Ela percebeu.

— Muito.

O sorriso dele aumentou.

— Satisfeito?

— Bastante.

Celina estreitou os olhos.

— Não faça parecer uma grande revelação. Helena já sabe que gosto dela.

— Ela sabe que você “até gosta”.

Celina soltou uma risada, lembrando de quantas vezes usara aquela frase.

— Funciona.

— Para você.

Ela voltou a apoiar a cabeça contra ele.

— Ela é como uma filha agora.

Renato não respondeu imediatamente. Apenas apertou o braço em torno dela. Celina percebeu e ergueu os olhos.

— Não vá fazer essa cara emocionada.

— Não estou fazendo.

— Está.

— Só achei bonito.

— Eu não disse para ser bonito.

Ele riu.

— Claro que não.

— E não conte para Heitor.

— Você já falou isso.

— Estou reforçando.

— Ele vai perceber de qualquer jeito.

— Já percebeu.

Celina suspirou.

Provavelmente Heitor percebera muito antes de ela admitir. Talvez desde o dia em que entrara em casa e encontrara Helena dormindo em seu colo. Talvez antes.

— Vai ficar com aquele ar convencido — resmungou. — Como se tivesse conseguido alguma coisa.

— Ele conseguiu.

Celina levantou a cabeça.

— O quê?

— Colocou vocês duas na mesma família e sobreviveu.

Ela tentou segurar a expressão séria.

Fracassou.

Uma risada escapou.

Renato riu junto e a puxou novamente.

O peso com que entrara naquele escritório parecia cada vez mais distante. A fraude não havia desaparecido. A decepção com Heitor também não. Amanhã tudo estaria esperando por ele exatamente no mesmo lugar.

Mas naquela noite Renato permitiu-se ficar ali. Com a esposa encaixada contra o peito. Ouvindo-a explicar por que Helena deveria usar verde-esmeralda em um leilão para o qual ainda nem sabia que iria.

— E eu ainda acho que o cabelo preso é melhor — Celina retomou, como se a conversa jamais tivesse sido interrompida.

Renato olhou para o teto.

— Voltamos ao cabelo.

— É importante.

— Evidentemente.

— Você vai ver.

— Vou sim.

— Quando ela entrar naquele salão...

Celina parou por um instante, visualizando. O sorriso surgiu sozinho.

Renato abaixou os olhos para ela.

— O quê?

— Nada.

— Celina.

Ela apertou os lábios, mas não conseguiu esconder.

— Eu só consigo imaginar.

— Como?

Celina demorou alguns segundos para responder.

— Ao meu lado.

A simplicidade da frase mudou alguma coisa no olhar dele.

Ela continuou, mais devagar:

— Helena entrando comigo. Sem medo. Sem olhar para o chão, sem se perguntando se deveria estar ali. Apenas entrando.

Renato passou os dedos pelo braço dela.

— Vai acontecer.

Celina sorriu.

— Eu sei.

E sabia, não quando. Talvez nem exatamente como. Mas aconteceria.

Helena teria uma babá.

Teria algumas horas.

E, quando finalmente olhasse para a própria agenda e percebesse que havia espaço para alguma coisa além da casa, do noivo e de Humberto, Celina pretendia estar muito convenientemente por perto.

Sem pressionar, sem interferir e sem exagerar.

Renato olhou para a esposa aninhada contra seu peito e quase riu ao imaginar qualquer uma dessas três promessas sendo cumprida integralmente.

Preferiu não estragar a felicidade dela.

Passou o braço um pouco mais firme em torno de sua cintura e beijou sua testa.

Celina fechou os olhos, satisfeita.

— Verde-esmeralda — murmurou outra vez.

Renato sorriu.

— Verde-esmeralda, meu amor.