O CEO que Eu Paguei

279 Quem Está Sendo Testada?


Em algum momento entre um beijo e outro, Heitor pareceu se lembrar de que estavam na sala de televisão e se afastou apenas o suficiente para olhar em direção à porta.

— Espera.

Helena mal teve tempo de perguntar o que ele estava fazendo. Heitor atravessou a sala depressa, girou a chave na fechadura e ainda conferiu a maçaneta antes de voltar.

Ela começou a rir.

— Heitor...

— Temos funcionários, uma família que entra nessa casa como se ainda morassem aqui e um filho dormindo a três metros da gente. Estou sendo responsável.

— Responsável?

— Sim e muito.

Ele já estava sorrindo quando chegou até ela, e Helena nem conseguiu responder porque Heitor segurou seu rosto e voltou a beijá-la. Dessa vez sem a interrupção das fichas, das entrevistas ou das cinco candidatas que haviam ocupado a cabeça dos dois durante praticamente todo o dia. Helena passou os braços por seu pescoço e se deixou puxar para mais perto, sentindo-o relaxar aos poucos contra ela.

O celular vibrou sobre a mesa.

Helena ouviu.

Heitor aparentemente decidiu que não.

Continuou beijando-a como se aquele som não tivesse absolutamente nenhuma relação com ele. Uma das mãos permaneceu em sua cintura enquanto a outra encontrou espaço sob sua blusa, e Helena sentiu os dedos deslizarem devagar por suas costas. A pele se arrepiou inteira antes mesmo que ele chegasse ao fecho de seu sutiã.

Aquilo ainda a impressionava.

Heitor encontrou o fecho sem olhar e, com uma habilidade irritantemente treinada, abriu-o usando uma mão só.

Helena se afastou alguns centímetros.

— Como você faz isso?

Ele abriu aquele sorriso satisfeito que ela conhecia bem.

— Talento puro.

— Você tem orgulho disso?

— Tenho vários talentos dos quais me orgulho.

Helena empurrou seu peito, rindo, e ele tentou beijá-la novamente.

O celular vibrou outra vez.

Dessa vez ela olhou.

Heitor não.

E foi justamente aquilo que fez alguma coisa mudar na cabeça dela.

Helena queria continuar. Muito mesmo. O problema era saber que, se continuassem daquele jeito, dificilmente seriam apenas aqueles quinze minutos que Heitor dissera ter antes de precisar voltar. Conhecia o noivo. Conhecia a si mesma. E, principalmente, conhecia a semana que ele vinha tendo.

Todas as noites a mesma coisa. Reuniões que ultrapassavam o horário, mensagens chegando quando ele já deveria ter encerrado o expediente, o escritório da mansão ainda aceso tarde demais e Helena precisando aparecer na porta para lembrá-lo de que existia uma cama no andar de cima.

Mesmo naquele dia, que Heitor reservara para as entrevistas, a empresa não o deixara completamente em paz.

Ela queria que ele descansasse um pouco e queria cuidar dele.

Quando Heitor voltou a procurar sua boca, Helena colocou a mão em seu peito e o conteve.

Ele parou imediatamente.

Por um segundo, apenas a olhou. Então percebeu alguma coisa na expressão dela.

O sorriso safado apareceu devagar.

— Que foi hein?

Helena não respondeu.

Aproximou-se e beijou o canto de sua boca. Depois o maxilar, o pescoço, demorando-se ali apenas o suficiente para sentir a respiração dele mudar. Continuou descendo os beijos sobre a camisa, e Heitor recostou-se no sofá, acompanhando cada movimento com os olhos.

Passou a língua lentamente pelos próprios lábios.

— Porra Helê...

Ela levantou os olhos.

A expressão dele tinha perdido boa parte da provocação. Ainda havia desejo, obviamente, mas havia também cansaço. Helena só percebeu o quanto quando o viu daquela distância, finalmente parado, sem telefone na mão, sem uma candidata diante dele, sem alguma pergunta para responder.

Heitor levou a mão aos cabelos dela.

— Eu tava precisando muito disso.

Helena sorriu, sabia. E continuou cuidando dele.

Algum tempo depois, quando tornou a se levantar, Heitor ainda estava recostado no sofá, respirando mais fundo do que o normal. A mão que antes se mantivera entre seus cabelos agora descansava largada ao lado do corpo, e havia em seu rosto uma expressão tão satisfeita que Helena precisou conter o riso.

Limpou o canto da boca com tranquilidade enquanto ele continuava olhando para ela.

— Você é demais.

Helena sorriu.

— Eu sei.

— Não, sério...

— Eu sei, Heitor.

Ele passou uma mão pelo rosto.

— Preciso de uns minutos.

Aquilo a fez rir.

— Ótimo. Enquanto você se recupera, eu vou ligar para as referências.

Heitor disse alguma coisa.

Helena parou.

— O quê?

Ele repetiu, mas a frase continuou não fazendo sentido nenhum.

Ela começou a rir de verdade.

— Meu Deus. Eu estraguei seu cérebro.

— Um pouco.

— E pensar que você entrevista diretor.

— Agora não.

Ainda rindo, Helena voltou para o outro lado do sofá, pegou o celular e puxou para perto as três fichas que tinham sobrado.

— Denise primeiro?

Heitor fez um som que talvez significasse sim.

— Vou interpretar isso como autorização.

Ela encontrou o primeiro número entre as referências, ajeitou as folhas sobre as pernas e iniciou a ligação enquanto, ao seu lado, Heitor ainda tentava recuperar alguma dignidade.

Pelo menos por alguns minutos, o celular dele tinha parado de vibrar.

Helena colocou a primeira ligação no viva-voz. Já que Heitor ainda estava ali e, pelo estado em que se encontrava, aparentemente não pretendia voltar correndo para o trabalho nos próximos minutos, fazia sentido aproveitarem para ouvir juntos.

Ele permanecia recostado no sofá, muito mais relaxado do que estivera durante todo o dia. A gravata já estava frouxa, a expressão satisfeita ainda não desaparecera completamente e, quando Helena lançou um olhar para ele antes de apertar o botão da chamada, Heitor sorriu daquele jeito convencido que a fez revirar os olhos.

— Se comporta, Monteiro.

— Não tô fazendo nada.

— Exatamente. Continue assim.

A primeira ligação foi para uma das referências mais antigas de Denise, a mãe do menino de quem ela cuidara durante quase dez anos. Helena se apresentou, explicou que Denise participava de um processo para trabalhar com o filho deles e perguntou se poderia fazer algumas perguntas um pouco mais específicas. A mulher concordou imediatamente e, pela mudança em sua voz assim que ouviu o nome da antiga babá, Helena percebeu que aquela não seria uma referência protocolar.

— Se a senhora precisasse de uma babá hoje, contrataria a Denise novamente?

— Hoje? Sem pensar.

Helena olhou para Heitor.

Ele também tinha percebido.

Hoje.

— Por que hoje?

A mulher riu do outro lado.

— Porque teve uma época em que eu provavelmente teria respondido que não.

Aquilo fez Heitor se ajeitar um pouco no sofá.

A história que veio depois era praticamente a mesma que Denise havia contado naquela tarde, mas ouvir a outra parte produzia um efeito diferente. Depois de tantos anos na família, Denise começara a opinar demais. Primeiro foram pequenas coisas; depois vieram escola, atividades, horários e até uma viagem que os pais estavam planejando. Nada que tivesse colocado as crianças em risco ou provocado uma grande briga, mas suficiente para a mãe perceber que a fronteira entre carinho e autoridade começava a ficar confusa.

— Eu chamei ela para conversar — explicou a mulher. — Falei que amava o vínculo que ela tinha com meus filhos, mas que algumas decisões continuavam sendo minhas e do meu marido.

Helena lembrou exatamente do que Denise havia dito.

— E como ela reagiu?

Houve uma pequena pausa.

— Mal.

Helena ergueu as sobrancelhas. Ao seu lado, Heitor deixou escapar um sorriso curto.

— Mal como? — ela perguntou.

— Ficou magoada. Ficou mais quieta comigo por alguns dias. Tenho quase certeza de que chorou, embora tenha tentado esconder. Denise é muito coração. Às vezes isso é uma qualidade enorme, às vezes dá trabalho.

Helena sorriu.

Aquilo parecia Denise.

— E depois?

— Depois ela veio conversar comigo. Pediu desculpas. Mas pediu desculpas mesmo, sabe? Não foi aquela coisa de “desculpa se você entendeu errado”. Ela falou que eu tinha razão e que tinha ultrapassado um limite.

A mulher ficou alguns segundos em silêncio antes de completar:

— Foi depois dessa conversa que ela virou a melhor babá que meus filhos já tiveram.

Helena sentiu os dedos de Heitor encontrarem sua mão sobre o sofá.

Ele não disse nada. Apenas entrelaçou os dedos nos dela, levou sua mão até a boca e beijou seus nós enquanto continuava prestando atenção à ligação. Depois, ainda segurando-a, passou distraidamente o dorso da mão de Helena pelo próprio rosto.

— O vínculo continuou forte? — Helena perguntou.

— Muito. Meu filho já é adolescente e manda mensagem no aniversário dela. Denise foi à formatura dele no fundamental. Ela saiu da nossa casa porque chegou uma hora em que ele realmente não precisava mais de babá, mas não deixou de gostar dele porque o emprego acabou.

Helena sentiu aquela pequena inquietação conhecida.

Era bonito e assustador. Dez anos eram muito tempo. Tempo suficiente para uma pessoa participar de uma infância inteira.

Heitor apertou de leve os dedos dela.

Helena respirou e fez a última pergunta que decidira repetir em todas as ligações.

— Se fosse hoje... para cuidar de um bebê de cinco meses, a senhora contrataria a Denise?

A mulher não hesitou.

— Sim. Mas você precisa aceitar que seu filho vai gostar dela.

Helena ficou quieta.

Heitor virou o rosto para observá-la, mas não disse nada enquanto a ligação terminava.

Só quando ela desligou, Helena deixou o celular sobre a perna.

— Não gostei dessa última parte.

— Eu sei.

— Não porque...

— Eu sei, Helê.

Ela olhou para ele.

Heitor não estava rindo.

— Depois a gente conversa sobre isso.

Helena assentiu. Ainda tinham outra referência de Denise.

A segunda ligação mostrou uma versão um pouco diferente da mesma mulher. Era uma família mais recente, e a mãe descreveu Denise como extremamente respeitosa com os limites dos pais. Contou que ela perguntava antes de fazer mudanças importantes, não usava a própria experiência como argumento para atropelar decisões e, principalmente, nunca tentava prolongar artificialmente o próprio espaço quando a mãe chegava.

— Uma coisa que eu gostava muito nela — disse a mulher — é que ela nunca fazia meu filho escolher entre nós. Se eu chegava e ele vinha correndo, ela deixava. Não tinha aquele “fica aqui com a tia para a mamãe descansar”. Ela entendia que eu tinha chegado e pronto.

Helena nem precisou olhar para Heitor. Sentiu o polegar dele fazer um carinho sobre sua mão.

Aquilo importava.

— E alguma coisa que a senhora não gostava? — perguntou. — Algum defeito que acha que deveríamos saber?

A mulher pensou.

— Denise demora para dizer quando alguma coisa está incomodando. Você precisa perguntar. Às vezes ela tenta resolver tudo sozinha até ficar cansada, e só depois admite que um horário não está funcionando ou que precisa mudar algum combinado.

Não era perfeito.

Helena gostou disso.

Ao terminar a ligação, fez uma anotação ao lado do nome de Denise e permaneceu alguns segundos olhando para o papel.

— Confirmou bastante coisa — Heitor comentou.

— Confirmou.

— Inclusive o erro que ela contou.

— Isso eu gostei.

Heitor assentiu.

— Eu também. Se ela quisesse esconder, era a pior história possível pra contar numa entrevista sabendo que a gente ia ligar justamente pra essa mulher.

Helena concordou e puxou a ficha seguinte.

Patrícia.

A primeira referência dela respondeu com uma segurança que quase parecia ensaiada, embora claramente não fosse. Patrícia começara a trabalhar com a família quando o filho ainda tinha poucos meses e permanecera por quase quatro anos.

Quando Helena perguntou se deixaria o menino sozinho com ela novamente, a resposta veio imediatamente.

— Sem nenhuma dúvida.

A mulher explicou que Patrícia nunca fora especialmente expansiva. Não chegava fazendo festa, não falava com criança como se estivesse permanentemente apresentando um programa infantil e demorara um pouco para se soltar com a família. Ainda assim, com o tempo, o filho se tornara extremamente ligado a ela.

— Eu nunca tive medo de alguma coisa acontecer quando estava fora — disse. — Porque, se acontecesse, eu sabia que ela faria primeiro o que precisava ser feito e depois me ligaria.

Helena sentiu Heitor se mexer. Não precisou olhar para saber que aquela frase tinha acertado exatamente a parte dele que Patrícia conquistara durante a entrevista.

Mesmo assim, olhou. Heitor apontou para o telefone e fez um pequeno movimento com a mão, pedindo que ela aprofundasse.

— Chegou a acontecer alguma situação assim?

A mulher contou sobre uma queda. O filho abrira o supercílio enquanto brincava, e Patrícia avaliara o ferimento, chamara o motorista e saíra para o hospital. Avisara os pais já a caminho.

— Quando eu cheguei, ele estava sendo atendido. A camisa dela estava cheia de sangue e Patrícia parecia mais calma do que eu.

Helena lançou um olhar para Heitor.

Ele fez uma expressão mínima de eu falei.

Ela apertou a perna dele.

— E tinha alguma coisa que incomodava vocês nela?

Dessa vez a mulher precisou pensar.

— No começo, ela medicalizava um pouco as coisas.

Heitor franziu a testa e Helena também.

A mulher explicou que Patrícia viera de anos trabalhando em ambiente hospitalar e, no início, qualquer mudança de sono, alimentação ou comportamento a fazia procurar primeiro uma causa física.

— Às vezes criança está só num dia ruim — disse, rindo. — Precisou de um tempo para lembrar disso. Mas melhorou muito.

Helena anotou.

Aquilo fazia sentido com a mulher que tinham conhecido. Não chegava a preocupá-la, mas era algo que gostaria de observar.

A segunda referência respondeu justamente à dúvida que Helena ainda guardava.

Quando perguntou se Patrícia era carinhosa, a mulher riu.

— Ela não é melosa.

Helena sorriu.

— Eu percebi.

— Mas minha filha sabia exatamente que era amada por ela.

Helena parou de escrever.

A mulher contou que a família precisara mudar de cidade e que a menina chorara durante semanas depois da saída de Patrícia. Ainda mantinham contato, trocavam mensagens e, quando estavam no Rio, às vezes se encontravam.

Não era ausência de afeto.

Era apenas outra maneira de demonstrá-lo.

Helena sentiu alguma coisa se reorganizar dentro dela.

No fim, repetiu:

— A senhora contrataria a Patrícia novamente para cuidar de um bebê de cinco meses?

— De olhos fechados.

Quando desligou, Heitor não esperou.

— Essa mulher é muito boa.

Helena riu.

— Você está sendo nada parcial.

— É que eu sabia que estava certo.

— Monteiro.

— Duas coisas diferentes.

— Você já gostava dela antes da ligação.

— E agora tenho evidência adicional de que meu julgamento é excelente.

Helena bateu a ficha de Patrícia no braço dele.

— Convencido.

Heitor riu e roubou um beijo rápido antes que ela pegasse a última folha.

Lívia.

As referências dela eram diferentes desde o início. Não havia histórias de dez anos acompanhando a mesma criança nem décadas de profissão para resumir. As pessoas falavam mais sobre como Lívia chegava a uma família e aprendia seu funcionamento.

A primeira mãe tinha um bebê com refluxo e se lembrava daquele período como um caos. O filho dormia mal, ela e o marido estavam exaustos e, para piorar, começaram a discordar sobre praticamente tudo relacionado à rotina.

— E nós dois começamos a usar a Lívia — admitiu a mulher.

— Como assim?

— Eu mandava fazer de um jeito. Meu marido chegava e mandava fazer de outro. Cada um queria que ela seguisse a própria rotina.

Helena já imaginava o desastre.

— E o que ela fez?

A mulher riu.

— Chamou nós dois e falou: “Eu consigo seguir qualquer rotina que vocês escolherem. Só não consigo seguir duas.”

Heitor soltou uma risada baixa.

— Na hora eu fiquei com uma raiva dela — a mulher continuou.

Helena também começou a rir.

Era curioso. Quanto mais ligava, menos perfeitas aquelas mulheres ficavam e mais confiáveis as referências pareciam.

Denise tinha irritado uma mãe. Lívia também. Patrícia precisara aprender a deixar de enxergar sintomas em todo lugar. Nenhuma delas atravessara anos trabalhando dentro de casas e famílias sem atrito algum.

Talvez isso fosse muito mais útil do que ouvir três pessoas dizendo apenas que eram maravilhosas.

— Depois eu percebi que ela estava certa — continuou a referência. — Nós é que precisávamos decidir o que queríamos.

— E qual era a maior qualidade dela?

A resposta demorou pouco.

— Ela conhece a criança antes de tentar mudar a criança.

Helena olhou para Heitor.

Ele estava sério novamente, ouvindo.

— E o maior defeito?

— Ela pensa demais.

Aquilo surpreendeu Helena.

A mulher explicou que, principalmente no início, Lívia se cobrava muito. Às vezes mandava mensagem depois do expediente perguntando se determinada reação tinha sido normal, se deveria ter feito alguma coisa diferente ou se os pais preferiam que ela conduzisse uma situação de outra forma. Não era uma insegurança que a impedisse de agir; era uma necessidade de revisar as próprias decisões.

— Melhorou bastante com o tempo. Acho que precisava confiar mais no próprio julgamento.

Quando Helena fez a pergunta final, a mulher respondeu:

— Sim, eu contrataria. Desde que você não esteja procurando alguém que chegue achando que já sabe tudo sobre seu filho.

Helena anotou a frase quase inteira.

Heitor percebeu.

— Gostou dessa.

Ela cobriu o microfone por reflexo, embora a ligação já estivesse terminando.

— Muito.

A última referência era de uma família com uma criança um pouco maior, e foi ali que apareceu o lado de Lívia que eles praticamente não tinham visto durante a entrevista. A mãe falou de livros, brincadeiras, linguagem, autonomia e de uma paciência enorme para acompanhar a criança fazendo as coisas sozinha, mesmo quando seria muito mais rápido fazer por ela.

Helena gostou de ouvir aquilo.

Humberto tinha cinco meses agora e não teria cinco meses para sempre.

Quando perguntou sobre experiência com bebês pequenos, porém, a mulher foi bastante direta.

— Se você quer alguém com trinta anos de prática de bebê, não é a Lívia.

Helena ficou em silêncio. Ao seu lado, Heitor ergueu discretamente as sobrancelhas. Era exatamente a ressalva dele.

— Mas — a mulher continuou — se você quer alguém que, daqui a seis meses, vai conhecer seu filho como se trabalhasse com ele há anos, isso ela faz.

Helena olhou para a ficha.

Aquilo pesou.

Talvez porque resumisse exatamente o que tornava Lívia difícil de comparar com as outras. Patrícia chegaria sabendo muito mais. Denise já tinha vivido quase todas as fases possíveis dentro de uma família. Lívia chegaria sabendo menos sobre Humberto em termos de experiência acumulada — e talvez justamente por isso parecesse tão disposta a conhecê-lo antes de decidir quem ele era.

No final, Helena fez a mesma pergunta.

— A senhora contrataria a Lívia novamente para cuidar de um bebê de cinco meses?

Houve uma pequena pausa.

— Sim. Mas eu contrataria sabendo quem ela é. Ela não vai chegar na sua casa dizendo que já entendeu seu filho em três dias. Se é isso que você quer, escolha alguém mais experiente. Se você quer alguém disposta a aprender ele, eu escolheria a Lívia de novo.

Helena agradeceu e encerrou a chamada.

Dessa vez, nenhum dos dois falou imediatamente.

Ela deixou o celular sobre a mesa e olhou para as três fichas espalhadas sobre suas pernas. Denise já não era apenas a mulher calorosa que Humberto parecera adorar; era alguém que tinha ultrapassado um limite, sofrido quando fora confrontada e aparentemente aprendido com aquilo. Patrícia não era apenas competência e procedimento; havia crianças que tinham sentido profundamente sua falta. E Lívia não era simplesmente a candidata com menos experiência; talvez sua principal qualidade estivesse justamente na maneira como compensava aquilo.

Helena soltou o ar devagar.

— Isso não ajudou.

Heitor começou a rir.

— Ajudou pra caralho.

— Como?

— Agora o problema ficou melhor.

— Continua sendo um problema.

— Mas agora são três boas opções por motivos diferentes.

Helena virou o rosto para ele.

Heitor estava novamente afundado no sofá, relaxado, uma das mãos apoiada sobre a perna dela. Parecia satisfeito não apenas porque as referências tinham sido boas, mas porque, pela primeira vez naquele dia, eles tinham informação suficiente para parar de tentar decidir tudo por uma entrevista.

— E agora? — Helena perguntou.

Heitor olhou para as três folhas.

Depois para ela.

— Agora a gente conversa.

Helena olhou para as três fichas espalhadas sobre suas pernas e soltou o ar devagar. Tinham começado o dia com cinco candidatas, reduzido para três, ouvido referências excelentes e descoberto defeitos perfeitamente administráveis em todas elas. Em teoria, deveriam estar mais perto de uma resposta. Na prática, Helena tinha a impressão de que Denise, Patrícia e Lívia apenas haviam se tornado boas por motivos diferentes.

— Eu continuo sem saber — admitiu.

— Eu também.

Helena virou o rosto para ele, surpresa.

— Você?

— Ué. Você queria que eu tirasse uma vencedora de uma planilha?

— Um pouco.

Heitor riu e passou a mão devagar por sua perna.

— Não tem mais o que perguntar, Helê. Pelo menos não agora. Currículo das três é bom, referência é boa, entrevista foi boa. A gente pode ficar inventando pergunta até semana que vem que não vai descobrir como elas funcionam aqui dentro.

Helena tornou a olhar para os nomes.

— Então como a gente escolhe?

Heitor pensou por alguns segundos.

— Chama as três.

— Como assim?

— Uma por dia. Não pra outra entrevista. Pra passar algumas horas aqui com você e com o Humberto.

Helena se ajeitou no sofá, interessada.

— Tipo um teste?

— Eu não chamaria de teste. — Heitor fez uma pequena careta. — Parece que a gente vai esconder uma câmera e derrubar o moleque de propósito pra ver quem pega.

Helena riu.

— Heitor!

— Ué.

— Credo.

Ele sorriu antes de continuar:

— Faz como seria no começo se a gente contratasse. Umas três, quatro horas. Você fica aqui o tempo inteiro, mostra a rotina dele, deixa ela participar. Troca, brincadeira, sono... o que acontecer naquele período. E a gente paga normalmente pelo tempo dela.

Helena começou a entender.

Não seria mais uma situação montada em que Humberto apareceria durante vinte minutos e todos saberiam que estavam sendo observados. Seria uma pequena amostra da rotina real.

— E o que eu faço?

— O que você faria normalmente.

— Isso eu sei. Estou perguntando como avalio.

Heitor virou o corpo um pouco mais para ela.

— Não avalia.

Helena franziu a testa.

— Como assim?

— Pelo menos não desse jeito que você fez hoje. Não fica procurando quem segura melhor, quem troca mais rápido, quem sabe mais coisa. As três sabem cuidar de criança.

Ele pegou as fichas das mãos dela e colocou-as sobre a mesa.

— Vê com qual delas você consegue ficar no mesmo cômodo sem vigiar.

Helena ficou quieta. Aquilo era diferente.

— E tenta sair um pouco de perto.

— Sair de casa?

— Não. — Heitor balançou a cabeça imediatamente. — Ainda não. Vai tomar banho. Sobe pra trocar de roupa. Vem pegar alguma coisa aqui. Fica dez minutos no escritório. Qualquer coisa normal. A ideia não é testar elas, amor. É você perceber como se sente.

Ele tocou de leve o queixo dela.

— Se você subir e passar os dez minutos pensando que precisa voltar correndo pra conferir o Humberto, isso diz alguma coisa. Se em algum momento você perceber que esqueceu de conferir... também diz.

Helena respirou fundo.

Talvez aquela fosse a primeira proposta de todo o processo que realmente lhe parecesse capaz de produzir uma resposta.

— Eu gostei.

— Então faz.

— E quanto eu ofereço por essas horas?

A pergunta imediatamente levou Heitor para um terreno mais familiar.

— Paga proporcional ao salário que a gente ofereceu. Deixa claro que é remunerado e que ainda faz parte do processo. E explica que vai ser um período menor só pra vocês se conhecerem melhor. Se for contratada, continua como combinamos: seis horas no começo durante a adaptação e depois passa pras oito.

Helena assentiu mentalmente organizando tudo.

— Você vai conseguir ficar algum desses dias?

Heitor negou.

— Não. Preciso estar na empresa.

Ela já esperava.

— Na verdade, acho até melhor eu não estar.

— Por quê? — ele levantou a sobrancelha.

— Porque quem vai passar por essa primeira adaptação é você. Faz do jeito que te deixar confortável, não do jeito que você acha que eu faria.

Helena ficou em silêncio por alguns segundos. Heitor percebeu sua expressão e apertou sua mão.

— Ei. Fica tranquila.

— Eu tô tranquila.

Ele olhou para ela.

— Mais ou menos. — Helena fez uma careta quando respondeu.

Heitor sorriu e aproximou-se para beijar sua testa.

— Você é a mãe dele, Helê. E é a patroa delas. Se alguma coisa te incomodar, você fala. Não precisa ficar com medo de parecer exagerada, não precisa deixar ninguém fazer alguma coisa com o Humberto só porque acha que seria indelicado interromper. É nossa casa e é nosso filho.

Helena encostou a cabeça no ombro dele novamente.

— Eu sei.

— Então pronto.

Ficaram alguns segundos olhando para Humberto dormindo no bercinho. Helena ainda sentia ansiedade, mas agora ela vinha misturada a uma curiosidade que antes não existia. Talvez porque, pela primeira vez, conseguisse imaginar um próximo passo que não terminava com a obrigação de escolher alguém imediatamente.

Pegou novamente as três fichas.

— Então eu vou chamar a Denise primeiro.

Heitor assentiu.

— Depois a Patrícia. E por último a Lívia.

— Por mim, perfeito.

— Denise depois de amanhã, Patrícia na quinta e Lívia na sexta.

— Manda brasa.

Helena pegou o celular e começou a escrever a primeira mensagem. Explicou que ela e Heitor haviam gostado muito da entrevista, que queriam avançar para uma etapa prática remunerada e que a proposta seria passar algumas horas com ela e Humberto, acompanhando parte da rotina normal da casa. Depois adaptou o texto para Patrícia e Lívia, conferiu os horários e enviou.

A primeira confirmação chegou poucos minutos depois. A segunda veio logo em seguida. Quando a terceira apareceu na tela, Helena sentiu o estômago apertar.

As três tinham aceitado.

— Pronto — disse.

Heitor olhou para o celular dela.

— Pronto.

Helena respirou fundo e tornou a encostar nele. Ainda tinha o dia seguinte inteiro antes de precisar receber Denise em casa. Um dia para organizar o que fosse necessário, conversar com os funcionários e, principalmente, tentar não transformar aquelas poucas horas em outro interrogatório.

Depois de amanhã começaria de verdade.

E, dessa vez, não seria Humberto quem estaria sendo testado.

Talvez nem fossem as babás.

Talvez fosse Helena quem precisasse descobrir se conseguia, finalmente, soltar um pouquinho.