No dia de Denise, Helena acordou antes de Humberto.

Isso por si só já dizia alguma coisa.

Ficou alguns minutos deitada olhando para o teto, ouvindo a respiração tranquila do filho pelo monitor e tentando se convencer de que não havia absolutamente nada de extraordinário acontecendo. Denise chegaria às nove, ficaria até as três, Helena permaneceria em casa durante todo o período e ninguém esperava que, ao final daquelas seis horas, ela entregasse uma chave da mansão e anunciasse que estava contratada. Era apenas mais uma etapa. Uma experiência. Exatamente como Heitor havia explicado.

Ainda assim, às sete e pouco da manhã, Helena já estava conferindo uma rotina que conhecia de cor.

Quando Humberto acordou, ela fez tudo como sempre fazia. Amamentou, trocou a fralda, deixou que ele ficasse alguns minutos agarrado nela antes de começar o dia de verdade e depois o levou para o espaço onde costumava brincar. Fez o tummy time com ele no tapete, deitou-se no chão para conversar enquanto Humberto levantava a cabeça e tentava alcançar um brinquedo à frente, comemorou como se fosse um feito extraordinário quando ele conseguiu apoiar melhor os braços e recebeu em troca uma sequência de sons muito sérios.

— Eu sei. Você é muito competente.

Humberto respondeu alguma coisa incompreensível.

— Seu pai também acha.

Como se tivesse sido convocado pela menção, o celular de Helena vibrou.

Heitor:Acordaram?

Ela sorriu.

Tirou uma foto de Humberto no tapete e enviou.

Helena:Um de nós está trabalhando muito.

A resposta veio quase imediatamente.

Heitor:E você está fazendo o quê?

Helena:Supervisionando.

Heitor:Cargo importante.

Helena começou a digitar que Denise chegaria em menos de uma hora, apagou e escreveu apenas:

Helena:Ela vem às 9.

Dessa vez, Heitor demorou um pouco mais.

Heitor:Eu sei. Vai dar tudo certo. Faz do seu jeito.

Helena deixou o celular de lado.

Faria.

Às nove em ponto, foi avisada de que Denise havia chegado.

Quando entrou na sala, encontrou-a conversando com uma das funcionárias que a acompanhara até ali. Denise usava uma calça confortável, uma blusa simples e estava com os cabelos presos. Tinha deixado a bolsa ao lado da poltrona e segurava a xícara de café que lhe haviam oferecido como alguém perfeitamente acostumada a chegar a uma casa onde existiam funcionários, horários, protocolos e espaços que não lhe pertenciam.

Helena gostou disso.

— Bom dia.

Denise se levantou.

— Bom dia.

— Não precisava levantar.

— Eu sei — Denise respondeu, sorrindo. — Mas minhas pernas ainda funcionam.

Helena riu.

Era exatamente aquele jeito.

Não sabia explicar por quê, mas Denise lhe provocava uma familiaridade estranha. Não porque lembrasse alguém especificamente. Era o jeito de responder, talvez. A ausência de cerimônia sem falta de educação. Denise não falava com ela como “senhora Monteiro”, nem tentava se transformar imediatamente em amiga. Parecia apenas uma mulher que já tinha passado muito tempo dentro de casas de outras pessoas e aprendido a ocupar espaço sem invadi-lo.

— Tomou café?

— Tomei antes de sair. Mas me ofereceram outro e eu aceitei porque não sou boba.

Helena riu novamente.

— Se quiser comer alguma coisa...

— Helena, eu estou ótima.

— Tem fruta, sanduíche, bolo...

Denise estreitou os olhos, divertida.

— Você vai passar seis horas tentando me alimentar?

Helena percebeu que talvez fosse exatamente isso que estivesse fazendo.

— Provavelmente.

— Então vou me preparar psicologicamente.

Era automático para Helena. Podia morar naquela casa, ter funcionários e não precisar colocar pessoalmente um copo de água na frente de ninguém, mas não sabia receber alguém sem perguntar se queria comer, beber, sentar e se estava confortável. Aquela parte dela não tinha desaparecido quando sua vida mudara.

Humberto resolveu participar da conversa com um gritinho.

Denise olhou para ele.

— Bom dia pra você também.

Ele abriu um sorriso.

Helena sentiu aquela fisgadinha imediata.

— Ele lembra de você — disse, antes que a própria cabeça pudesse transformar aquilo em outra coisa.

— Ou gosta do meu rosto.

— Ele gostou de você naquele dia.

— Ele gosta de pessoas.

Denise não tomou para si nem mesmo aquele mérito, e isso fez Helena relaxar um pouco.

Passaram os primeiros minutos pela rotina. Helena mostrou onde ficavam as coisas de Humberto, embora Denise já tivesse deixado claro que preferia aprender conforme precisassem delas. No quarto, abriu gavetas, mostrou roupas, fraldas, produtos, explicou o que usava e o que evitava. Denise fazia perguntas objetivas e não interrompia para contar como outras famílias faziam.

Na cozinha, Helena abriu a geladeira.

— Ele só toma leite materno.

— Certo.

— Quando eu não dou direto, eu tiro. Fica aqui.

Mostrou os recipientes separados e identificados.

— Eu tento deixar organizado por horário, mas não sou completamente neurótica com isso.

Denise olhou para ela.

— Só parcialmente?

Helena começou a rir.

— Talvez bastante.

— Melhor assumir cedo.

Helena explicou como costumava armazenar, quanto Humberto geralmente aceitava e como preferia que fosse oferecido. Denise ouviu tudo e fez algumas perguntas sobre quantidade, intervalo e sinais de fome.

— E se ele não quiser?

— Não força.

— Ótimo.

— Às vezes ele mama pouco e depois quer de novo.

— Então a gente oferece de novo.

Simples.

Helena gostou daquela resposta.

Depois voltaram para o espaço onde Humberto brincava, e foi ali que Denise começou realmente a conhecê-lo.

Não tentou assumir.

Isso foi a primeira coisa que Helena percebeu.

Sentou-se no chão ao lado dela e observou Humberto no tapete. Perguntou quanto tempo ele costumava ficar de bruços, se já tentava rolar sozinho, de que lado tinha mais facilidade. Helena contou que faziam tummy time desde cedo, que ele já sustentava bem a cabeça e agora começava a descobrir maneiras de chegar onde queria sem ter coordenação suficiente para isso.

— Então começou a fase perigosa — Denise disse.

— Por quê?

— Porque ele já tem ambição, mas ainda não tem competência.

Helena gargalhou.

— É exatamente isso.

Como se tivesse entendido a ofensa, Humberto soltou um som alto.

— Tá vendo? — Denise apontou para ele. — Discordou.

Humberto bateu as mãos no tapete.

— Pode reclamar. Continua sem competência.

Ele sorriu para ela e Denise sorriu de volta.

Foi acontecendo sem esforço. Talvez fosse isso que mais incomodasse Helena.

Denise não fazia nada espetacular.

Não tinha uma brincadeira mirabolante, não usava uma voz diferente, não parecia determinada a conquistar Humberto. Apenas respondia a ele. Quando o bebê vocalizava, ela conversava. Quando desviava a atenção, Denise deixava. Quando tentava alcançar um brinquedo, ela não entregava imediatamente; aproximava só o suficiente para que ele ainda precisasse fazer algum esforço.

Humberto adorou.

Em menos de uma hora, já olhava para Denise esperando resposta depois de alguns de seus barulhos.

Helena sentiu a fisgada outra vez e odiou sentir.

Não havia absolutamente nada de errado acontecendo. Pelo contrário. Aquilo era o que ela queria. Tinha escolhido Denise justamente porque gostara da maneira como ela se relacionava com Humberto.

Então por que parecia diferente vendo acontecer dentro da rotina deles?

— Ele é muito comunicativo — Denise comentou.

— Desde pequeno.

— Pequeno? — Denise olhou para Humberto. — Você já foi menor do que isso?

Helena sorriu.

— Muito. E já falava do mesmo jeito. Só fazia menos barulho.

A conversa acabou seguindo por caminhos que Helena não esperava. Denise perguntou se havia muita família por perto, não por curiosidade sobre os Monteiro ou Medeiros, mas porque queria saber quem Humberto já reconhecia e com quem estava acostumado a ficar.

— Minha avó fica com ele — Helena explicou. — A mãe do Heitor também. Ele conhece bastante gente.

— Então ele já sabe que a mãe pode sair do campo de visão e continuar existindo.

Helena passou a mão pela perninha do filho.

— Mais ou menos.

Denise não insistiu.

Pouco depois, enquanto conversavam sobre crianças que cresciam cercadas por adultos diferentes, Helena comentou sem pensar muito:

— Eu fui criada pelos meus avós.

Denise olhou para ela.

— Foi?

— Fui. Morei com eles desde pequena.

Não explicou mais.

Não precisava.

Denise também não perguntou onde estavam os pais, por quê, quando aquilo começara ou qualquer uma das perguntas que tantas pessoas considerariam naturais.

— Avó cria diferente — disse apenas.

Helena sorriu.

— Cria mesmo.

— Tem coisa que deixa passar.

— Minha avó deixava.

— E avô?

O sorriso de Helena mudou.

— Meu avô fingia que não deixava.

Denise riu.

— Esses são os piores.

— Ele reclamava e cinco minutos depois fazia o que eu queria.

— Sabia.

A conversa seguiu.

E Helena gostou disso também.

Gostou de Denise não transformar uma informação simples numa investigação sobre sua infância. Gostou de poder mencionar os avós como qualquer pessoa mencionaria quem a criou e continuar falando de outra coisa.

Perto do horário em que Humberto normalmente mamaria, Helena pegou um dos recipientes de leite que havia separado.

— Quer dar?

A pergunta saiu antes que ela tivesse tempo de reconsiderar.

Denise olhou primeiro para ela, não para o leite.

— Você quer que eu dê?

Helena quase respondeu não.

— Quero.

Denise não comemorou, não disse que seria ótimo para Humberto se acostumar e não transformou aquilo numa vitória. Apenas lavou as mãos, sentou-se onde Helena indicou e recebeu o bebê quando ela o entregou.

Humberto foi sem reclamar.

Claro que foi.

Helena sentou-se perto, bem pertinho mesmo.

Denise testou a temperatura, ajeitou Humberto nos braços e ofereceu o leite. Ele pegou quase imediatamente, embora nos primeiros segundos ainda olhasse para Helena.

Ela sorriu para ele.

— Pode tomar.

Humberto voltou a atenção para Denise e tomou.

Helena acompanhou cada movimento.

A mãozinha fechada perto do peito. Os dedos abrindo aos poucos. A pausa para respirar. O jeito como Denise segurava o recipiente sem pressa e acompanhava o ritmo dele.

Ela sabia que estava olhando demais.

Sabia. Não conseguiu parar.

Em determinado momento, Humberto afastou a boca, fez um som e olhou para Denise. Ela falou alguma coisa baixinho. Ele sorriu.

Com leite no canto da boca.

Helena sentiu aquela fisgada novamente, mais forte.

Que absurdo…

Era um sorriso…

Seu filho sorria para o porteiro, para funcionários, para as avós, para desconhecidos simpáticos no elevador. Era um bebê extremamente sociável.

Mas aquilo era diferente.

Porque Denise talvez voltasse.

Talvez passasse a fazer parte dos dias dele. Talvez conhecesse aquele sorriso tão bem quanto Helena conhecia.

— Vou pegar uma coisa lá em cima — Helena disse de repente.

Denise ergueu os olhos.

— Tá.

Só isso.

Helena se levantou.

Deu três passos.

Parou.

O que exatamente ia pegar?

Não fazia a menor ideia.

Olhou para Humberto. Ele continuava mamando tranquilamente.

Denise nem percebeu de imediato que Helena não tinha saído. Estava concentrada nele, limpando com o polegar uma gotinha de leite que escorrera pelo queixo.

Helena deu mais um passo em direção à porta.

Não conseguiu.

— Na verdade, depois eu pego.

Voltou.

Sentou-se novamente.

Denise olhou para ela por um instante.

Helena esperou alguma coisa. Uma brincadeira, uma pergunta, talvez aquele olhar compreensivo que seria ainda pior.

Denise apenas assentiu.

— Tá bom.

E continuou dando o leite.

Helena quase poderia tê-la abraçado por isso.

Não queria explicar. Não queria dizer que sabia ser ridículo. Não queria contar que Humberto já ficara com suas avós, que conseguia deixá-lo com Celina, que racionalmente sabia que cinco minutos no andar de cima não significavam nada. Não queria transformar sua dificuldade numa conversa.

Só queria ficar ali.

Então ficou.

Depois da mamada, Denise colocou Humberto para arrotar, e ele retribuiu o cuidado babando generosamente no ombro dela.

— Ah, obrigada — Denise disse. — Muito gentil.

Helena começou a rir.

— Tem fraldinha ali.

Já estava se levantando para buscar.

— Eu pego.

— Não, fica. Está aqui do lado.

Helena entregou a fralda de boca antes mesmo que Denise terminasse de pedir.

Denise olhou para ela.

— Você é rápida.

— Eu sei onde está tudo.

— Percebi.

Havia humor na voz, mas nenhuma crítica.

Mais tarde, Helena pegou o celular.

Helena:Ela deu o leite pra ele.

A resposta de Heitor demorou alguns minutos.

Heitor:E?

Helena olhou para Denise, que estava no tapete com Humberto novamente.

Helena:Ele gostou.

Os três pontinhos apareceram.

Heitor:Isso é bom, amor.

Helena fez uma careta para a tela.

Helena:Eu sei.

Dessa vez a resposta veio imediatamente.

Heitor:Eu sei que você sabe.😝😝

Helena ficou olhando para aquilo.

Heitor a conhecia demais.

Guardou o celular antes que sentisse vontade de responder alguma coisa que não queria colocar em palavras.

O restante da manhã passou de uma forma quase irritantemente fácil. Denise acompanhou uma troca de fralda, deixou Helena mostrar como costumava fazer algumas coisas e perguntou antes de mudar qualquer posição ou pegar qualquer produto. Em outras, simplesmente fez o que precisava ser feito, com a segurança de quem já havia trocado centenas de bebês e não precisava transformar cada gesto numa demonstração de experiência.

Quando Humberto começou a ficar cansado, foi ainda mais evidente.

Ele esfregou o rosto uma vez.

Denise percebeu.

— Sono?

— Está começando.

Poucos minutos depois, Humberto perdeu o interesse pelo brinquedo e reclamou quando Denise tentou reposicioná-lo.

Helena já conhecia a sequência.

— Agora ele vai ficar bravo com tudo.

— Eu também fico quando estou com sono — Denise respondeu.

Humberto confirmou com um resmungo.

Denise riu.

— Estamos juntos nessa.

Ela não tentou inventar uma técnica nova. Perguntou a Helena como ele costumava dormir naquele horário e seguiu o que ela explicou. Quando alguma coisa não funcionou, perguntou. Quando Humberto procurou Helena com os olhos, não virou seu corpo para distraí-lo.

E, quando ele finalmente pediu a mãe com os braços, Denise o entregou imediatamente.

Sem um segundo a mais.

Helena recebeu o filho e sentiu o corpinho se acomodar contra ela.

Lembrava de Vera tentando mais uma vez antes de devolver Humberto. Lembrava da própria reação. E agora lembraria da facilidade com que Denise simplesmente abrira os braços e deixara o bebê voltar para a mãe.

— Ele já estava no limite — Denise comentou.

— Está.

Humberto enterrou o rosto no pescoço de Helena e reclamou baixinho.

— Eu sei, meu amor.

Denise começou a recolher dois brinquedos que tinham ficado no tapete.

Helena imediatamente se abaixou também, ainda com Humberto no colo.

— Deixa que eu pego.

Denise olhou para ela.

— Helena.

— O quê?

— Eu consigo pegar dois brinquedos.

— Eu sei.

— Então por que você está tentando pegar com uma mão e um bebê na outra?

Helena parou.

Denise estava sorrindo.

— Senta.

— Mas você está trabalhando com o Humberto, não arrumando...

— Eu vou guardar o brinquedo que eu tirei do lugar. Não estou fazendo uma faxina na sua casa.

Helena riu, vencida.

— Tá bom.

— Você tem dificuldade de deixar os outros fazerem as coisas por você, né?

A pergunta veio tão casualmente que Helena não se sentiu invadida.

— Um pouco.

Denise guardou o último brinquedo.

— Percebi.

Helena ajeitou Humberto contra o peito.

Talvez fosse por isso que Denise lhe parecia tão familiar. Ela não tinha o polimento distante de quem tratava cada frase como parte de uma entrevista de emprego. Também não tentava forçar intimidade. Era direta, prática, às vezes engraçada e parecia perfeitamente confortável em deixar um silêncio existir sem preenchê-lo.

Helena gostava dela.

Esse era o problema.

Gostava dela e Humberto também.

Quando o bebê finalmente adormeceu, Helena permaneceu com ele no colo por alguns minutos antes de colocá-lo no berço. Denise não sugeriu que fizesse diferente. Não pediu para tentar. Não explicou que seria bom Humberto aprender a dormir com ela.

Apenas esperou.

Helena voltou para a sala e encontrou Denise sentada, tomando água.

— Quer alguma coisa? — perguntou imediatamente. — Café? Tem almoço daqui a pouco, mas se estiver com fome...

Denise começou a rir.

— De novo?

Helena percebeu e riu também.

— É automático.

— Eu já vi.

— Eu gosto de receber bem as pessoas.

— Isso é diferente de tentar alimentar alguém a cada quarenta minutos.

Helena sentou-se na poltrona à frente.

— Na casa da minha avó ninguém entrava sem comer alguma coisa.

— Ah. Então agora tudo faz sentido.

— Eu avisei que fui criada por avós.

— Isso explica metade da sua personalidade.

— Metade?

— A outra metade eu ainda estou estudando.

Helena gargalhou.

E percebeu, talvez pela primeira vez desde que aquela história de babá começara, que estava se divertindo.

O celular vibrou novamente.

Heitor:Como vocês estão?

Helena olhou para Denise, depois na direção do berço onde Humberto dormia.

Pensou antes de responder.

Helena:Bem.

Apagou.

Escreveu de novo.

Helena:Muito bem.

Heitor respondeu com um coração.

Helena deixou o celular sobre a mesa e respirou fundo.

Ainda não conseguira sair do cômodo. Ainda tinha acompanhado uma mamadeira inteira como se Denise estivesse manipulando material radioativo. Ainda sentira ciúme quando Humberto sorrira para ela.

Mas também tinha passado uma manhã inteira vendo uma mulher que não tentava ocupar espaço algum além daquele que Helena lhe entregava. E, talvez justamente por isso, Denise parecia conquistar espaço sem precisar pedir.

Helena olhou para ela.

Denise tinha acabado de pegar novamente o copo d'água e estava completamente alheia à quantidade de pensamentos que existiam do outro lado da sala.

Helena sorriu sozinha.

Ainda faltavam algumas horas.

E, pela primeira vez, isso não pareceu assustador.




Quando chegou às três da tarde, Helena percebeu que não queria simplesmente acompanhar Denise até a porta e encerrar o dia com um “obrigada, qualquer coisa entramos em contato”. Depois de seis horas juntas, aquilo pareceria estranho demais. Humberto estava acordado outra vez, satisfeito depois do cochilo e entretido no tapete com um brinquedo que insistia em levar à boca, e Denise já começava a organizar as próprias coisas quando Helena a chamou.

— Você não vai embora sem tomar um café.

Denise olhou para ela.

— Isso foi um convite ou uma ordem?

— Um convite com pouca possibilidade de recusa.

— Ah. Então é uma ordem educada.

Helena riu.

— Exatamente.

Foram para uma área mais informal próxima à cozinha, onde Helena pediu café e alguma coisa para comer. Denise ainda tentou dizer que não precisava de tudo aquilo, mas desistiu quando percebeu que discutir provavelmente daria mais trabalho do que aceitar. Pouco depois estavam sentadas à mesa, com Humberto no bebê-conforto próximo delas, acompanhando a conversa por alguns minutos antes de descobrir os próprios dedos e decidir que eram mais interessantes.

Sem a estrutura da entrevista e sem a preocupação constante de mostrar a rotina do bebê, conversar com Denise era ainda mais fácil. Ela falava bastante quando estava confortável, mas não monopolizava a conversa. Contava alguma coisa, ria de si mesma, fazia uma pergunta de volta. Helena tinha aquela sensação estranha de familiaridade novamente, como se Denise pertencesse ao tipo de pessoa com quem ela crescera convivendo, muito antes de sua vida ter restaurantes caros, motoristas, uma mansão no Alto da Boa Vista e uma sogra capaz de selecionar cinco babás de alto padrão como quem organizava uma operação militar.

Foi em algum momento entre um gole de café e outro que Marina apareceu na conversa.

— Minha filha tem vinte anos — Denise contou.

Helena ergueu as sobrancelhas.

— Você tem uma filha de vinte anos?

Denise estreitou os olhos.

— Isso foi um elogio?

— Foi! Eu não imaginava.

— Então obrigada. Pode continuar.

Helena riu.

— Qual o nome dela?

— Marina. Está fazendo Psicologia.

Havia uma mudança pequena no rosto de Denise quando falava da filha. Não chegava a ficar sentimental; era mais uma espécie de orgulho que aparecia sem que ela precisasse anunciá-lo.

— Ela gosta?

— Muito. Agora tudo tem explicação psicológica lá em casa. Se eu reclamar que ela deixou uma caneca no quarto, daqui a pouco descubro que a caneca é manifestação de alguma coisa da infância.

Helena gargalhou.

— Coitada.

— Coitada de mim. Eu que a criei e agora pra mim chegar aos quarenta e cinco e ser analisada dentro da minha própria casa.

— E você deixa?

— Claro que não. Falo que, quando ela tiver diploma, a gente conversa.

As duas riram, e Humberto se assustou com o volume, olhando imediatamente para Helena. Ela se inclinou para tocar sua barriga.

— Está tudo bem. Sua mãe só está conversando.

Denise observou os dois por um instante e depois voltou ao café.

— Eu tive a Marina com vinte e quatro.

— Nova.

— Na época eu não achava. Hoje olho uma menina de vinte e quatro anos e penso: meu Deus, alguém deixou essa criança ter uma criança.

Helena sorriu.

— Acho que a percepção muda.

— Muda muito. Principalmente depois que você cria.

Denise contou sem transformar a história numa confissão. O relacionamento com o pai de Marina terminara quando a menina ainda era pequena. Ele nunca desaparecera completamente, mas também nunca estivera presente da maneira que Denise precisava. Havia fins de semana, alguns períodos melhores, outros piores, alguma participação financeira, promessas que às vezes se cumpriam e outras que não. Na prática, a maior parte da responsabilidade cotidiana ficara com ela.

— Então era você.

— Era eu e quem eu conseguisse convocar — Denise respondeu, rindo. — Minha mãe, minha irmã, uma vizinha que me salvou muitas vezes... esse negócio de “criei sozinha” também é meio injusto. Eu era a responsável, mas se ninguém tivesse me ajudado eu não sei como teria feito.

Helena entendeu aquilo imediatamente.

Talvez por isso não respondeu com pena.

— Família vai virando quem fica — disse.

Denise olhou para ela por um segundo.

— É.

Helena baixou os olhos para a xícara. Pensou nos próprios avós, especialmente no avô, em tudo que significara crescer sabendo exatamente quem estaria em casa quando ela voltasse. Não precisava explicar aquilo naquele momento. Denise também não parecia exigir explicações para entender uma frase simples.

— Quando comecei a trabalhar como babá, a Marina ainda era pequena — continuou Denise. — E durante muito tempo eu não tinha esse luxo de pensar “esse emprego combina comigo?”, “essa família tem a mesma filosofia que eu?”. Eu precisava pagar as contas.

Helena levantou os olhos.

Aquilo ela conhecia.

Talvez não aquela profissão, nem aquela maternidade, mas conhecia a diferença entre trabalhar porque se quer construir alguma coisa e trabalhar porque o dinheiro precisa entrar.

— Já fiquei em emprego que eu devia ter saído antes — Denise continuou. — Já aceitei hora a mais porque precisava. Já engoli coisa que hoje não engoliria. Quando você tem filho e sabe que depende principalmente de você, estabilidade pesa muito.

Não havia amargura na voz. Também não havia orgulho heroico.

Era apenas verdade.

— E como você fazia com a Marina trabalhando na casa de outras famílias?

Denise sorriu de um jeito diferente.

— Malabarismo.

Helena riu.

— Imagino.

— Minha mãe ajudou muito. Minha irmã também. Depois a Marina foi crescendo, escola ocupava uma parte do dia... mas teve fase difícil. E isso é uma coisa engraçada desse trabalho: você passa o dia cuidando do filho de alguém e chega em casa ainda sendo mãe.

Helena ficou olhando para ela.

Denise percebeu e apontou para Humberto.

— Não existe essa história de gastar toda a paciência no trabalho e chegar em casa sem precisar de mais. Criança não consulta sua agenda.

— Nem seu cansaço.

— Principalmente seu cansaço.

Como se tivesse sido chamado à conversa, Humberto soltou um gritinho e deixou o brinquedo cair sobre uma cadeira ao lado.

Helena automaticamente se inclinou para pegar.

Denise fez o mesmo.

As duas pararam.

Olharam uma para a outra.

— Pode pegar — Denise disse.

— Você está mais perto.

— Mas você já estava indo.

As duas começaram a rir.

Denise pegou o brinquedo e entregou a Humberto, que o recebeu sem qualquer gratidão e imediatamente voltou a colocá-lo na boca.

— Viu? — Denise disse. — Vinte anos depois e continuo trabalhando para gente que nem agradece.

Helena riu novamente.

Gostava dela.

Cada vez mais.

— A Marina nunca teve ciúme?

Denise pensou antes de responder.

— Já.

A sinceridade veio sem hesitação.

— Principalmente quando era menor. Teve uma época em que ela perguntou por que eu ficava tanto tempo com outras crianças.

Helena sentiu alguma coisa apertar.

— E o que você falou?

— A verdade. Que era meu trabalho. Que era assim que eu cuidava dela também.

Denise passou o dedo pela borda da xícara.

— Mas criança não entende que existem boletos, né? Então eu tentava fazer o tempo que era nosso ser nosso. Nem sempre consegui perfeitamente. Teve dia que cheguei cansada, teve coisa que perdi. Faz parte.

Helena não disse nada por alguns segundos.

Denise olhou para Humberto antes de continuar:

— Hoje ela entende. Aliás, entende até demais. Às vezes acha que eu devia cobrar mais, trabalhar menos, escolher melhor. Filha cresce e começa a dar conselho.

— E você escuta?

— Finjo que não. Depois faço escondido.

Helena sorriu.

Era fácil imaginar Marina e Denise juntas.

— Vocês são próximas.

Não era exatamente uma pergunta.

— Muito.

Denise sorriu, e dessa vez não fez piada.

— Ela é minha pessoa.

Helena sentiu carinho pela frase.

Não porque fosse bonita de propósito. Denise simplesmente a dissera.

Por alguns instantes, Helena olhou para a mulher sentada diante dela e percebeu como era diferente conhecê-la daquele jeito. Durante a entrevista, Denise era uma profissional de quarenta e cinco anos, experiente, com vínculos longos e boas referências. Naquele momento era também uma mulher que tivera uma filha aos vinte e quatro, fizera malabarismos com trabalho, mãe, irmã e vizinha, suportara empregos porque precisava de dinheiro e chegara em casa depois de cuidar dos filhos dos outros para continuar criando a própria.

Talvez fosse por isso que havia alguma coisa nela que Helena reconhecia.

As vidas das duas eram muito diferentes agora. Talvez sempre tivessem sido em vários aspectos. Mas Helena sabia o que era não olhar para trabalho como uma abstração bonita sobre realização profissional. Sabia o que era dinheiro ter peso. Sabia o que era uma família ser formada menos por aquilo que deveria ter sido e mais por quem efetivamente ficou.

Humberto tornou a derrubar o brinquedo.

Dessa vez, Helena e Denise olharam para ele.

Nenhuma se mexeu.

O bebê esperou. Fez um barulho indignado.

Denise tomou mais um gole de café.

— Agora você vai aprender que as mulheres dessa casa também têm direitos.

Helena começou a rir.

E Humberto, sem entender absolutamente nada, abriu um sorriso para as duas.