O CEO que Eu Paguei
185 Quando o Amor Não Basta
Lorena Ribeiro, entre 15 e 16 anos — 1995 e 1996
Era o dia tão esperado.
O dia em que Lorena conheceria os pais do seu príncipe.
Ela havia se preparado como para um baile. Escolheu um vestido preto curto, de alcinhas finas, que marcava bem sua cintura e deixava as pernas à mostra. As unhas feitas, maquiagem impecável, cabelo escovado com pontas viradas para fora. Nos pés, uma sandália de salto dourado — nova, comprada com o dinheiro que Henrique havia dado.
Henrique resmungou ao vê-la descer a escada da pensão onde morava.
— E precisa mostrar as coxas tudo assim?
— Precisa. — respondeu ela com um sorriso travesso — Tô conhecendo a nobreza, ué.
Ele soltou uma risada e a beijou na testa.
— Você vai amar meus pais. Eles vão te adorar.
Ela acreditava. Tinha que acreditar. Afinal, até hoje havia idealizado aquele momento.
Mas, conforme o carro se aproximava da casa, Lorena sentia a maquiagem pesar mais que o normal. Não era um bairro de classe alta. Nem média. Era uma rua com mato alto, muros baixos e casas que pareciam improvisadas.
— Henrique… — ela murmurou — cê pegou o endereço certo?
— Peguei, ué. Aqui é a casa dos meus pais.
Lorena engoliu seco.
A decepção estampou seu rosto antes que pudesse esconder. Henrique sorriu, feliz, como quem levava a mulher que amava para o lugar mais importante do mundo.
Quando pararam, ele desceu primeiro, deu a volta no carro e estendeu a mão.
Ela hesitou.
— Vem cá… — disse ele, a voz mansa — Vou te levar no colo pra não sujar seu sapato novo nessa terra.
Lorena nem conseguiu reagir. Já estava com os braços em volta do pescoço dele, sendo levantada como uma boneca cara. Quando a porta se abriu, uma senhora de sorriso largo e olhos marejados surgiu no batente.
— Meu filho! Bem-vindo! Ô meu Deus, olha só! Meu filho tá um príncipe, meu Deus! Traz a menina aqui, quero vê-lá!
A casa era pequena. Piso de cimento queimado vermelho, os móveis eram velhos e improvisados. Um ventilador de hélice presa na parede girava devagar, empurrando o calor de um canto pro outro. As paredes tinham marcas do tempo e quadros religiosos. Henrique colocou Lorena com delicadeza no chão.
— Amor, essa é minha mãe, Olívia. E mãe, essa é a Lorena.
— Seja bem-vinda, minha filha! Meu filho fala tanto de você que já te amo só de ouvir falar! Ele tá é apaixonado demais!
Olívia a abraçou com força. Era uma mulher de pele escura, coque bem preso e roupas simples — uma saia florida e blusa branca de um evento da igreja. O cheiro dela era de sabão de coco. Lorena tentou sorrir, sentindo o abraço quente demais para o seu corpo frio.
— Cê é linda! Parece uma atriz da Globo! Fica à vontade, viu? A casa é sua. Fiz um almocinho com muito carinho. Vem, senta aqui…
Antes que pudessem sentar, surgiu Zé. Alto, sorridente, de camisa social amassada e desbotada.
— Bem-vinda, Lorena. Você é linda mesmo. Meu filho é um cabra de sorte.
Henrique, deslumbrante de felicidade, pegou a mão dela.
— Eu sou mesmo.
Lorena apenas assentiu, sorrindo de lado. Não era isso que tinha imaginado. Não era uma casa de nobreza. Não era luxo, nem mesmo conforto. Era mais simples que a casa da fazenda onde crescera. E o pior: os pais dele eram mais simples que os dela. Isso lhe dava uma sensação estranha… como se tivesse regredido.
Mas não podia dizer nada. Não naquele momento.
Sentaram-se à mesa.
A toalha era de plástico, estampada com flores roxas. Os pratos eram de modelos diferentes. Alguns riscados, outros com lascas nas bordas. Os talheres… Lorena pegou o garfo e, ao notar a aparência embaçada, sentiu um embrulho no estômago. Engoliu a sensação. Não podia demonstrar. Mas pensou: Será que lavaram direito isso aqui?
Duas das cinco panelas no fogão estavam com os cabos faltando. Olívia trouxe a comida com um sorriso imenso no rosto.
— Tem arroz, feijão, quiabo com frango caipira que o Zé matou procê, macarrão de domingo e salada de tomate. Simples, mas feito com muito amor. Vamo comer?
— Tá ótimo, mãe! — disse Henrique, animado — O cheiro tá maravilhoso.
Ele estava radiante. Serviu o prato dela com cuidado, ajeitou o guardanapo no colo dela. Enquanto isso, os pais se olhavam com orgulho, como se tivessem criado o melhor filho do mundo.
Lorena forçou um sorriso, partiu o frango com o garfo torto, e disse:
— Tá muito bom… Obrigada.
— Ah, que bom que você gostou, minha filha! — disse Olívia — O Henrique nunca trouxe ninguém aqui, viu? Você é a primeira. Ele é fechado, mas por você… nossa, ele brilha!
Zé ria, mastigando com gosto.
— Esse menino vivia dizendo que ia arrumar uma mulher da cidade. E não é que conseguiu mesmo?
Henrique a olhou com carinho.
— Eu não arrumei qualquer mulher. Arrumei a mulher.
Lorena tentou não deixar a decepção aparecer no rosto. Estava sendo adorada. Reverenciada. Mas nada daquilo parecia suficiente. Nada daquilo batia com o que ela sempre sonhou. Ela queria talheres de prata, taças alinhadas, uma sogra com brinco de pérola. E estava ali… com a unha feita segurando um copo de requeijão com suco de caju em pó.
Ela sorriu.
E engoliu — junto com a comida — o gosto amargo da decepção.
Lorena estava sentada na beira da cama, a mão sobre o estômago. Não era fome. Era náusea de angústia.
Amava Henrique. Sabia disso. Sentia isso. Mas o que sentia não bastava. Não era isso que havia imaginado para si. Não era a casa dos pais dele. Não era a promessa de um lar no bairro Boa Vista, com vizinhos batendo panela na calçada e cheiro de feijão vindo de janelas abertas. Aquilo não era vida de rainha. Era vida comum. E ela não queria uma vida comum.
Henrique falava com orgulho: “Quando a gente noivar, eu e meu pai vamos levantar uma casa só nossa, do jeitinho que você quiser.”
Ele falava com brilho nos olhos. Mas Lorena… sentia o estômago embrulhar. Boa Vista era um bairro simples. Sem glamour, sem nome, sem futuro. Uma casa “do jeitinho que ela quisesse” feita por dois homens que não pareciam entender bem como fazer e dinheiro contado. Que tipo de casa era essa?
Era melhor terminar agora. Antes que o amor ficasse mais forte. Antes que virasse hábito.
Henrique chegou como fazia todos os dias.
Camisa limpa, o cabelo penteado com cuidado, o mesmo perfume que ela aprendeu a reconhecer de longe.
Quando Lorena apareceu na porta, ele sorriu — o mesmo sorriso terno, confiante e apaixonado.
Mas aquele sorriso não encontrou resposta.
Ela estava diferente. Olhos frios. Mãos unidas na frente do corpo. O coração, um vendaval.
Ele segurou a mão dela e beijou seus dedos — como fazia todos os dias.
Mas ao contrário das outras vezes, ela não o puxou para dentro.
— Boa tarde, meu amor. — disse, a voz suave. — Pronta pra dar uma volta?
Ela respirou fundo.
— A gente pode conversar um pouco aqui fora?
Ele franziu o cenho.
— Claro… aconteceu alguma coisa?
Andaram até a pracinha próxima, em silêncio. Lorena parou perto de um banco, olhou para o chão de pedra e falou, quase num sussurro:
— Henrique… a gente precisa conversar sério.
O sorriso dele se desfez.
— Tá. Tô ouvindo.
Ela demorou. O vento soprou leve, e o som das cigarras preencheu o espaço entre os dois.
— Eu pensei muito… sobre a gente. Sobre tudo. — ela começou, com voz trêmula — E cheguei à conclusão de que a gente é muito diferente.
Henrique piscou, tentando entender.
— Diferente? Lorena, o que você tá dizendo?
— Eu acho que… a gente não vai dar certo.
Ele riu sem humor, nervoso.
— Lorena, se eu fiz alguma coisa errada, me fala. Eu posso consertar, amor. Eu faço qualquer coisa por você.
— Não é isso, Henrique. — ela disse, baixando os olhos — Você não fez nada.
— Então por que tá acabando comigo assim? — a voz dele falhou — Eu te amo, Lorena. Você sabe disso.
Ela fechou os olhos, segurando o choro.
— Eu também te amo. Mas às vezes o amor não basta.
Henrique passou as mãos pelos cabelos, andou de um lado para o outro, como se tentasse respirar de novo.
— Eu tô juntando dinheiro, tô reformando a casa, tô planejando nossa vida… Achei que era isso que você queria.
Lorena mordeu o lábio com força.
— Eu vou terminar a escola e… vou pro Rio. É o meu sonho. Eu sempre quis isso.
— Então eu vou com você. — disse ele, rápido, desesperado. — Eu peço transferência, eu dou um jeito. Eu não quero te perder, Lorena.
Ela negou com a cabeça.
— Não. Eu preciso ir sozinha.
— Sozinha? — ele repetiu, sem entender. — Mas por quê? Eu te amo, menina… o que eu fiz pra você querer me deixar assim?
O som da voz dele doía.
Lorena segurou firme as próprias mãos, tentando manter a compostura.
— Você não fez nada. É só… que não vai dar certo.
Henrique deu um passo à frente, os olhos marejados.
— Me olha, Lorena. — pediu. — Me olha e fala que não me ama.
Ela levantou o rosto, e as lágrimas finalmente caíram.
— Eu amo. — disse, num sussurro. — Mas isso não muda nada.
Henrique ficou imóvel por um instante.
Depois soltou um riso curto, sem força.
— Então o que muda?
Lorena não respondeu.
Ele deu um passo para trás, respirando fundo, tentando se recompor.
— Você vai mesmo embora, então.
Ela assentiu.
Henrique baixou a cabeça, as mãos tremendo. Quando voltou a olhá-la, o olhar estava partido.
— Eu sempre achei que amor bastava. Que cuidar, respeitar, estar junto era o suficiente. — a voz dele saiu fraca. — Mas parece que pra você… não é.
Lorena tentou se aproximar, mas ele recuou um passo.
— Não, não chega perto agora. — disse, a voz embargada. — Se eu sentir teu cheiro, eu não consigo deixar você ir.
Ela chorou em silêncio.
Henrique ficou ali, de pé, lutando contra as próprias lágrimas, o maxilar travado.
— Eu só quero que você saiba… — disse, com dificuldade — que eu vou te amar, mesmo que você nunca volte. Mesmo que viva cem anos longe de mim, Lorena, eu ainda vou te amar.
Ela engoliu o choro e respondeu baixo:
— E é por isso que eu preciso ir.
Henrique assentiu lentamente. Depois virou as costas.
Ela o viu caminhar pela rua, o corpo tenso, a cabeça baixa — como se cada passo fosse um golpe.
E quando ele desapareceu na esquina, Lorena sentiu que o mundo, pela primeira vez, parecia menor.
O sonho dela era o Rio.
Mas o amor que deixava para trás…
esse ela levaria para sempre.
Mesmo depois que terminou com Henrique, ele continuava por perto.
Aparecia de vez em quando na porta da casa. Às vezes só deixava dinheiro com Camila, dizia que não queria que faltasse nada para Lorena. Outras vezes tentava vê-la, trazer algum doce que ela gostava, um caderno novo, um convite para ir ao cinema da cidade vizinha.
Teve dias em que ele chorou.
“— Eu não sei o que eu fiz, Lorena. Mas me deixa consertar.”
“— Me deixa voltar pra você.”
“— Você é a mulher da minha vida. Eu vou te esperar o tempo que for preciso.”
Ela ouvia. Sempre com o coração apertado.
Sentia falta dele, claro que sentia. Mas era melhor assim. Enquanto ainda havia tempo de salvar os dois da vida que ela não queria.
Mas o tempo…
O tempo teve outras intenções.
A primeira menstruação que não veio, ela achou que era estresse.
A segunda... o pânico começou a nascer.
Um teste de farmácia confirmou o que ela já sabia, mas se recusava a aceitar.
Estava grávida.
Ela ficou imóvel, sentada no chão do banheiro, encarando o vazio com um gosto amargo na boca. O mundo parecia ter parado.
Na cabeça dela, a frase repetia como um tambor surdo:
Isso não pode estar acontecendo.
E então começou a batalha silenciosa.
Fez o que ouviu por aí. Tomou remédios, chás abortivos, até na bacia de água ela sentou, nada. O feto não parecia se importar com a vontade dela. Resolveu ser mais radical, batia três vezes ao dia em sua própria barriga, tentou quedas que não fizeram mais do que a deixar toda ralada, pagou um garoto de outra escola para bater em sua barriga, além dos roxos nada aconteceu.
Foi quando ela fez o impensável, tomou quantidades pequenas de produtos de limpeza e até uma pequena dose de veneno. Ela quase morreu, mas o feto em sua barriga crescia como se nada estivesse acontecendo.
Chorou, caiu, suplicou para o próprio ventre que a libertasse.
A barriga continuava crescendo.
Implacável. Teimosa. Viva.
Ela entrou em desespero.
Naquele dia,cansada de tudo, foi até Henrique.
Bateu na porta dele sem avisar. Ele abriu.
E a olhou como se o sol tivesse voltado para o mundo.
— Lorena... — ele sussurrou, emocionado.
Ela não disse nada. Só ficou ali, parada. Os olhos vermelhos, a alma em ruína.
Henrique se aproximou devagar, com medo de assustá-la.
— Você tá bem? Você tá... tudo bem?
Ela respirou fundo, a voz falhou.
— Eu tô grávida.
Silêncio.
Henrique levou alguns segundos para entender.
A surpresa se desfez em algo mais — algo forte. Quase eufórico.
Os olhos brilharam.
— Você tá... grávida?
Ela assentiu.
Ele sorriu como se tivesse acabado de ganhar o mundo.
— Meu Deus… Lorena… a gente vai ter um filho?
Ela não aguentou. Desabou.
— Você estragou a minha vida! — gritou entre soluços — Você destruiu tudo! Eu não vou mais sair daqui, eu não vou viver nada do que sonhei! Eu tentei… tentei de tudo. E nada adiantou. Essa criança não vai embora!
Henrique ficou paralisado. A felicidade no rosto foi engolida por uma dor silenciosa.
— Lorena… não fala isso... por favor.
Ela cobriu o rosto, o corpo tremendo.
Henrique se aproximou. Tocou seus braços com cuidado.
Falou baixo, firme.
— Essa criança já é muito amada, Lorena.E você também é.Eu vou cuidar de vocês. Não importa como. Nada vai faltar. Nunca.
Ela não respondia, mas não recuava mais.
— Eu me matriculei na faculdade de Direito. — ele disse, tentando conter a emoção — Vou virar tenente. Já tô trabalhando e sustento a gente agora, mas quando eu subir, vai melhorar ainda mais. A gente vai ter uma vida digna. Eu prometo.
Ela só chorava.
Henrique a abraçou, mesmo sem saber se ela permitiria. E ela não impediu.
Apenas se deixou cair naquele peito que já conhecia tão bem.
Ele a segurava como se segurasse o mundo.
Ela estava em pedaços.
Mas Henrique a envolvia como se já soubesse:
que daquela dor nasceria alguém.
Alguém chamada Helena.
Nos meses que se seguiram, Henrique fez tudo o que podia — e mais um pouco.
Mandou construir uma casa. Não seria a mansão dos sonhos de Lorena, mas teria fachada branca moderna, janelas amplas, bancada de mármore e um quarto só para o bebê. Era a casa mais bonita da rua. Henrique se orgulhava disso.
Mas para Lorena… não era o bastante.
Ela queria uma vida de verdade. De revista. De novela. E aquele bairro comum, com calçadas rachadas e gente varrendo a porta às seis da manhã, não era o que havia imaginado. Henrique ganhava bem, mas “bem” era relativo. Ela queria marcas, móveis com assinatura, eletros de última geração. Um armário planejado da loja famosa custava mais do que a mobília inteira que Henrique comprou com sacrifício.
Ela não escondeu a frustração.
— Não era isso que eu queria... — disse, encarando os eletrodomésticos de “alto padrão” mas sem logo de grife.
— Eu fiz o melhor que pude, Lorena...
— Pois então seu melhor não é o suficiente pra mim.
Aquilo partiu Henrique em silêncio.
Dois dias depois, ele fez um empréstimo.
Entregaram os móveis novos com fitas plásticas ainda grudadas. Cozinha completa, fogão embutido, geladeira que fazia gelo automático, a última novidade no mercado. E mesmo assim... ela olhou tudo com um suspiro.
Henrique percebeu.
Mas não reclamou.
Ele trabalhava o dia inteiro, e à noite dirigia até a cidade vizinha para cursar Direito. Voltava de madrugada, dormia poucas horas, e começava tudo de novo. Nas folgas chamava o pai e até colegas de trabalho para o ajudarem na casa.
Mas aquilo durou pouco.
Lorena chorava com frequência.
— Eu tô sozinha aqui, Henrique. Você só aparece pra dormir. Você me deixou sozinha com tudo.
— Eu tô tentando construir um futuro pra gente…
— E o presente? Quem aguenta o agora?
Aquilo dilacerava o coração dele.
Então decidiu pedir ajuda.
— Mãe… fica com a Lorena durante o dia. Só até eu conseguir conciliar melhor tudo. Por favor.
Olívia aceitou com alegria.
E nos primeiros dias, Lorena até tentou ser cordial.
Mas a rotina a sufocava.
Olívia cozinhava para ela, afofava as almofadas, dizia para ela levantar as pernas para não inchar. Limpava tudo, mexia em tudo.
‘— Minha filha, senta um pouco. Vai te dar pressão…”
“— Quer que eu prepare um banho de sal grosso? Minha mãe jurava que ajudava com os inchaço.”
“— Tomei chá de canela quando tava grávida do Henrique e não inchou nada!”
Lorena sorria amarelo.
Mas por dentro… ardia.
Sentia-se invadida. Vigiada. Pequena.
Até que um dia, explodiu.
Olívia estava varrendo a casa, quando Lorena saiu do quarto com os olhos vermelhos.
— A senhora pode parar de mexer nas minhas coisas?!
Olívia arregalou os olhos.
— Uai… mas eu só tava limpando, minha filha.
— Eu pedi pra não mexer no quarto. A senhora dobra minhas roupas errado, tira as coisas do lugar, e ainda fica me dizendo o que fazer o dia todo como se eu fosse uma inválida!
— Eu tô tentando ajudar, Lorena…
— Ajudar? Pois não tá ajudando, só tá me sufocando! Essa casa é minha agora, não é mais a senhora que manda aqui!
Olívia parou. O rosto, antes cheio de doçura, agora trazia dor.
— Eu tô aqui porque meu filho pediu. Porque ele se preocupa com você, com o bebê. Eu tô aqui porque eu gosto de você, Lorena. Mas se não me quer aqui, eu vou embora agora mesmo.
— É melhor.
Olívia assentiu devagar, com o coração apertado.
Pegou a bolsa, os chinelos, e saiu pela porta sem dizer mais nada.
Quando Henrique chegou horas depois, encontrou a casa escura.
Lorena estava sentada no sofá, com as pernas esticadas e o olhar perdido.
— Cadê minha mãe? — ele perguntou.
— Ela foi embora.
— Por quê?
— Porque eu pedi.
Henrique passou a mão no rosto, como se não acreditasse.
— O que tá acontecendo com você, Lorena?
Ela não respondeu.
Só virou o rosto pro lado.
Henrique olhou ao redor, os móveis brilhantes, a casa nova — tudo o que ele fez, tudo o que ele deu.
Mas no centro de tudo, estava ela.
Inconsolável. Sozinha. Fechada.
E ele, apesar de tanto esforço…
ainda do lado de fora.
Diziam a Henrique que era tudo culpa dos hormônios.
— “Gravidez é fogo, rapaz. Elas choram, riem, gritam, tacam fogo em você e depois tão te abraçando. Aguenta firme.” — falavam os colegas da delegacia, rindo enquanto tomavam café na copa.
Mas Henrique não ria.
Ele só pensava em como Lorena chorava cada vez mais, e como cada lágrima dela parecia esvaziar um pouco dele por dentro.
Quando descobriu que ela não estava indo nas consultas pré-natais, largou tudo. Mudou o horário do almoço, revezou com colegas, perdeu plantões.
Ele quem passou a levá-la, mesmo que ela reclamasse.
Mesmo que dissesse que estava bem.
Mesmo que fechasse a cara o caminho inteiro.
A única parte boa eram os ultrassons.
O bebê era tímido. Ficava com as perninhas cruzadas. Nunca mostrava o sexo.
Henrique dava risada. Lorena fingia que não se importava.
Mas no fundo, os dois esperavam juntos.
E sonhavam — de jeitos diferentes, mas ao lado um do outro.
Henrique trancou a faculdade. Disse que voltaria depois.
Construiu o bercinho com as próprias mãos.
Ele pintou as mãos de Lorena, e ela as usou para fazer desenhos no bercinho, eles acabaram se sujando de tinta. Mas, riram bastante, mesmo com todos os problemas, eles se amavam e aqueles momentos eram especiais.
Ele pintou as paredes do quarto com tinta sem cheiro, comprou fraldas antes da hora, encheu o armário com roupinhas verde-água e amarelas.
Não sabiam o sexo.
Mas sabiam que o bebê seria amado.
Lorena parecia mais calma agora.
Ela não ia à casa dos pais dele, o que ainda machucava Henrique, mas ele respeitava.
Ela sorria mais. Tocava a barriga com carinho.
Parecia… feliz.
E então, numa madrugada abafada, a dor começou.
Foi tudo rápido. A bolsa estourou antes de amanhecer. Henrique dirigiu em silêncio, com uma mão no volante e a outra segurando a dela com força.
No hospital, tudo era barulho, pressa, vozes.
Mas quando o choro ecoou no quarto, Henrique ficou imóvel.
Um som.
Agudo, forte, insistente.
O som da filha deles.
O som da vida acontecendo.
Lorena chorava. Cansada, esgotada, com as mãos sobre o peito e os olhos marejados.
Henrique segurava a filha com mãos que já enfrentaram armas e algemas, mas que agora tremiam diante de um corpinho de três quilos.
— É uma menina. — disse a enfermeira.
Henrique olhou para Lorena. E sorriu como nunca.
— Vai se chamar Helena.
Ele se aproximou da cama, encostou os lábios na testa da companheira e disse com voz embargada:
— Bem-vinda ao mundo, minha filha… Helena Ribeiro Campos.
Lorena o olhou. E, pela primeira vez em muito tempo, sorriu de verdade.
Um sorriso suave. Quase tímido.
Mas sincero.
Henrique sentou-se ao lado da cama e ficou ali, horas, com Helena no colo.
Ela era tão pequena, tão chorona, tão… linda.
Eles estavam hipnotizados.
Babões.
Totalmente rendidos.
Henrique fazia caretas.
Lorena tentava ensinar a embalar.
Helena só queria colo.
E os dois estavam mais do que dispostos a dar.
Naquela sala de hospital, sob luz fria e cheiro de álcool, nasceu uma menina.
E com ela, nasceu uma família.
A história deles não foi perfeita.
Mas ali, com Helena nos braços, pela primeira vez, Henrique e Lorena sentiram que talvez — só talvez — o amor, ainda que imperfeito, tivesse vencido.
Tudo parecia bem.
Helena era, como dizia Henrique, o presente de ano novo que a vida deu pra eles.
Pequena, risonha, e cheia de manias. Já conseguia levantar a cabecinha quando ficava de bruços, fazia bolhas de baba e sorria sempre que Henrique falava com ela. Ele adorava.
A menininha dele.
Ele estava tão apaixonado na filhinha, ela parecia uma mini Lorena, mesmo pequena os traços da mãe eram bem definidos nela. O fruto do amor deles, era um bebê todo sorridente e manhoso, que vivia pedindo colo.
Enquanto ele se sentava no sofá com ela no colo, contava as sardinhas, até elas tinham o mesmo desenho da mãe. Lorena ficava toda boba também, a filhinha era tão fofinha.
Lorena, aos poucos, também parecia mais serena. Às vezes ficava horas apenas olhando a filha dormir, o rostinho sereno, os dedinhos tão pequenos.
Henrique acreditava que agora tudo daria certo.
Eles eram uma família.
Ele havia decorado o quartinho todo em tons de rosa, contrariando o enxoval verde e amarelo que compraram antes. “Agora é uma princesa”, dizia. E Lorena sorria — um sorriso bonito, mas distante.
As coisas estavam apertadas no momento, mas Henrique havia juntando para comprar um anel de noivado bem bonito para ela, iria até a capital escolher no início do próximo mês. Infelizmente como Lorena é menor de idade, ele teria que aguardar para se casarem quando ela completasse a maioridade, já que ela não queria de forma alguma falar quem eram seus pais.
A pediria em casamento em Monte Verde.
A cidade era linda — ruas de pedra, chalés cercados por pinheiros e o ar frio cheirando a chocolate quente.
Henrique já havia alugado um chalé aconchegante por quinze dias, tudo planejado para coincidir com suas férias.
Imaginava os dois caminhando pelas vielas iluminadas, rindo juntos e ela exibindo o casaco novo.
Monte Verde parecia um pedacinho da Europa escondido no Brasil — e ele tinha certeza de que Lorena iria amar.
Naquela noite, ele terminou o serviço mais cedo.
Passou na pizzaria da esquina e comprou a preferida dela — metade frango com catupiry, metade filé ao molho gorgonzola. Queria fazer uma surpresa. Já imaginava Lorena rindo, Helena dormindo, o cheiro de pizza e a sensação de que o mundo finalmente estava no eixo.
Mas, ao dobrar a esquina da rua, viu um táxi parado em frente à casa.
O estômago dele gelou.
Talvez fossem os pais dela — pensou, com certo alívio ansioso. Seria a primeira vez. Talvez ela tivesse mudado de ideia. Ainda bem que ele comprou pizza.
Apressou o passo, abriu o portão e entrou.
A porta estava entreaberta. E lá estava Lorena — de calça jeans e all star, o cabelo solto e os olhos marejados — segurando uma sacola cheia de roupas. Ele parou na porta, ainda com a caixa de pizza nas mãos.
Ela se virou num sobressalto. Não esperava que ele voltasse tão cedo.
— Lorena... o que tá acontecendo? — ele perguntou, confuso, a voz quase trêmula.
Ela desviou o olhar, apertou a alça da sacola.
— Henrique... eu... eu tô indo embora.
As palavras foram ditas num tom baixo. Reto. Sem curvas.
Henrique não entendeu. Ou não quis entender.
— Como assim “indo embora”? — ele tentou rir, nervoso. — Vai pra onde? Agora? E… e a Helena?
— Você pode ficar com ela. — disse, firme, mesmo com a voz embargada. — Vai ser melhor pra ela.
A pizza escorregou das mãos dele e caiu no chão.
Henrique se aproximou, a respiração falha.
— Você vai… deixar ela? Vai me deixar?
Ela assentiu, os olhos marejando.
— Eu amo ela, Henrique. Mas eu não tô pronta pra ser mãe. Eu não consigo… — a voz dela falhou.
— Você não pode fazer isso. Ela tem três meses, Lorena. Três meses. Ela precisa de você. Nós precisamos de você.
— Eu tentei. — ela sussurrou — Mas eu não quero essa vida. Eu não quero essa rotina, essa casa, esse bairro, esse futuro. Eu sei que você ama a gente. Mas eu não amo essa vida. Eu não amo o que eu tô virando aqui.
Henrique se afundou no sofá, sem força, como se o corpo já não sustentasse o peso.
— Você vai mesmo embora? Vai me deixar criando nossa filha sozinho?
— Homens fazem isso o tempo todo. — ela disse, fria. — Por que quando é uma mulher é pecado? Eu também tenho direito de ir embora!
— Eu não sou “homens”. Eu sou eu, Lorena. Eu sou o homem que te amou desde o primeiro dia. Que construiu essa casa. Que largou tudo. Que trancou a faculdade. Eu dei tudo por você.
Ela chorava, mas não parava.
— E eu vou te agradecer por tudo isso. Sempre. Mas não muda nada.
Henrique se ajoelhou à frente dela. Pegou suas mãos com força, mas com cuidado.
— Fica. Só mais um pouco. Espera eu terminar a faculdade, subir na carreira. Eu vou ser tenente. Comandante. Coronel. A gente vai ter tudo. Tudo o que você quiser. Só me dá tempo. Você quer o Rio? Vamos para o Rio. Só me dá tempo.
Lorena fechou os olhos com força. Chorava tanto quanto ele agora.
— Eu te amo, Henrique. Você foi o primeiro amor da minha vida. Mas eu não quero ser sua mulher. Eu não quero ser mãe agora. Eu tenho sonhos. E... e nesse sonho… você e a Helena não estão.
Ele soltou um som abafado. Não de raiva — mas de dor.
Ela puxou as mãos de volta, trêmulas.
— Se eu ficar… eu vou me perder. E vou acabar odiando você por isso.
Henrique ficou em silêncio.
O choro de Helena ficou mais forte, vindo do quarto.
Um som puro, inocente, cortante.
Henrique virou o rosto para o quarto, mas quando olhou de novo… Lorena já estava na porta.
Henrique ergueu os olhos, a boca entreaberta, o rosto destruído.
— Você vai mesmo… me deixar assim? Com ela chorando no quarto? Sem saber o que eu fiz pra te perder?
Lorena se virou. Limpou as lágrimas do rosto com raiva.
Ela hesitou na porta, mas não olhou para trás.
— Cuida bem dela. Você é bom nisso.
E saiu.
Henrique não foi atrás.
Apenas ficou ali, no chão da sala, com o cheiro de pizza e o som da filha chorando.
Desmoronando por dentro.
Porque agora ele sabia.
O amor deles era real.
Mas, para ela, não era suficiente.
E Lorena, mesmo indo embora, levou dentro de si uma certeza cruel, não importa o quanto ela corresse…
uma parte dela sempre ficaria ali, ao som do choro de Helena.
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