O CEO que Eu Paguei

186 O preço da ambição


Lorena Ribeiro, 16 anos — 1996


O táxi percorria pelas avenidas principais do Rio como se fosse um filme.

Lorena encostava a testa no vidro, os olhos atentos e famintos, absorvendo tudo. Prédios altos, pessoas bem vestidas, vitrines brilhando, o mar ao fundo. O motorista, simpático, puxava conversa enquanto fazia o "tour" que ela pediu.

— Tá conhecendo o paraíso, menina. Mas se dar mole, vira inferno fácil.

Ela riu, achando graça. Não ligava. Estava no Rio. Na Cidade Maravilhosa. Tinha o coração batendo no ritmo da liberdade.

— Me deixa em Copacabana.

— É pra já, princesa.

Ela pagou a corrida com o dinheiro que havia juntado durante os meses com Henrique, e ainda deu uma gorjeta generosa.

Alugou uma kitnet linda. Pequena, mas mobiliada e com vista parcial do mar se olhasse inclinando o pescoço da janela do banheiro.

Sorriu.

“Mês que vem, troco esses móveis.”

Foi até uma loja e comprou uma roupa social simples. Blusa branca, saia preta. E um perfume de marca. Um frasco pequeno, mas com cheiro de mulher rica.

Depois ficou um tempo olhando pela janela. O céu, o vai e vem das pessoas, o mar ao fundo. Era só o começo, mas ali estava ela. Começando sua nova vida.

No dia seguinte, arrumada, cabelo preso e maquiagem leve, saiu em busca de emprego. Foi confiante. Sonhadora.

Entrou nas lojas mais bonitas.

A primeira atendente foi simpática, mas firme:

— Ensino médio completo?

— Ainda não terminei, mas tô quase lá.

— Idade?

— Dezesseis.

Um sorriso polido. Um “vamos ligar” que ela já sabia o que significava.

Na segunda loja, a mesma coisa.

Na terceira, nem a deixaram terminar de falar.

No shopping de luxo foi ainda pior.

As lojas exigiam curso, idade mínima, experiência. Algumas nem a olharam nos olhos.

Uma gerente, apressada, disse:

— Tu é bonitinha, mas não tem perfil pra cá.

Quando voltou pra kitnet, o corpo doía. Mas o que doía de verdade eram os seios.

Pesados. Doloridos. Cheios de leite.

Foi ao banheiro, tentou aliviar, mas o desconforto era insuportável.

Sentou no sofá, o frasco do perfume caro ao lado, e chorou baixinho.

Pensou em Helena.

Se perguntava se estava mamando. Se estava bem. Se chorava muito quando acordava sozinha.

Lembrou do jeito que a filha a olhava enquanto mamava — olhos castanhos, redondos e confiantes. Lembrou do resmungo manhoso de quando ela queria colo.

Da boquinha procurando o peito no escuro.

Aquilo rasgou seu coração.

Lembrou de Henrique também, sempre se lembrava dele.

Do jeito que ele a abraçava pelas costas. Dos beijos que ele distribuía quando chegava do trabalho, da forma como elogiava até quando ela andava só de calcinha pela casa.

Lembrou do cheiro do pescoço dele.

Do cuidado. Da entrega.

Mas ela estava ali.

Vivendo o seu sonho.

Sozinha.

Mas livre.

Quinze dias.

Foi o tempo que levou para o dinheiro acabar.

Comia fora todos os dias. Café da manhã na padaria. Almoço em restaurante por quilo. À noite, lanche pronto.

Quando o aluguel venceu, tentou negociar com o dono da kitnet.

— Só mais uns dias, por favor.

— Mais do que isso eu não posso fazer, menina. É Copacabana, não é brincadeira, não.

E aí veio o susto.

Contas.

Água, luz, gás e condomínio.

Lorena nunca tinha visto uma conta na vida.

Não fazia ideia de que a água custava dinheiro. Nem que o gás tinha que ser comprado por fora.

Não dava.

Foi quando apareceu a oportunidade de ser garçonete num bar.

Não era chique, mas o pessoal gostou dela.

Bonita, simpática, com sorriso rápido e palavras afiadas.

Aprendeu rápido, servia bem, e mesmo sem experiência, estava contratada.

Sabia que era temporário.

Só até conseguir algo melhor.

Mas o trabalho… era um inferno.

Os homens mexiam com ela sem parar.

Tentavam encostar, chamavam de “princesa”, “delícia”, “novinha”.

No começo ela se assustava. Depois passou a desviar.

Aprendeu a se esquivar.

A andar com a bandeja na frente do corpo.

A rir e fingir que não escutou.

Mesmo assim… chorava todos os dias quando chegava em casa.

Sofria calada.

Tinha vergonha.

Às vezes ia ao postinho tirar o leite, com vergonha da dor.

Com vergonha do vazio.

As pessoas na cidade eram culturalmente muito diferentes.

Tinham pressa.

Perdiam a paciência por tudo.

Sorrisos se transformavam em brigas rapidamente.

Não era como na cidade dela.

Mas ela insistia.

O pagamento veio no final do mês.

Era metade do salário, pelos dias que tinha trabalhado.

Ela sabia que seria pouco.

Mas não sabia que seria tão pouco.

Olhou o envelope, sentada no banco do bar, com um nó na garganta.

Era um quinto do valor da kitnet.

O resto…

não sabia o que fazer.

Foi quando entendeu.

Ia precisar de outro emprego.

Lorena conseguiu outro emprego rapidamente.

Mentiu a idade com a mesma naturalidade com que sorria para os clientes. Agora, com experiência como garçonete, foi contratada em um restaurante mais organizado. Uniforme comportado, mesa numerada e patrão exigente. Era puxado, mas profissional. E ali, ninguém encostava nela.

Em pouco tempo, evoluiu. Aprendeu o menu, os atalhos da cozinha, a separar gorjeta em envelope. O pessoal gostou dela de cara. Era rápida, bonita, esperta e extrovertida.

Mas nada era simples.

Com dois empregos, o valor da condução dobrou. Os ônibus no Rio não perdoavam. Vivia correndo de um lado para o outro, carregando o corpo moído e o estômago vazio. Precisava economizar.

Resolveu tentar cozinhar em casa.

Comprou arroz, feijão, até uma carninha… e tentou. Mas a comida queimava, ou ficava sem sal, ou com um gosto que ela nem sabia identificar. Ela olhava pro prato e lembrava da Olívia — da sogra — mexendo a panela de feijão e cantarolando uma moda antiga, da mesa posta. De Henrique chegando trazendo marmita para ela comer e até mesmo cozinhando bife à milanesa aos domingos para ela.

E chorava.

Mesmo com dois empregos, o salário não dava nem para o aluguel da kitnet. Foi despejada com um aviso frio e curto.

Encontrou um barraquinho numa região afastada, esburacada e mal iluminada. Mas era o que cabia no bolso. E mesmo assim, o salário ia quase todo embora com aluguel, contas e condução.

Não tinha móveis.

Dormia por cima das roupas que ainda tinha, dobradas como um ninho improvisado. O corpo doía. O chão era gelado. E mesmo exausta, custava a dormir. Às vezes escutava gritos na rua e havia um homem muito estranho na rua que a olhava, ele já havia tentado entrar no barraquinho dela várias vezes.

Às vezes chorava baixinho, sem saber se era de saudade ou de medo.

Um dia, decidiu: precisava de um colchão. Só um.

Foi ao centro. Parou em frente a uma loja popular. E lá estava: o colchão mais simples, mais fino, mais barato. Ainda assim… inacessível.

Fez as contas no papel: um mês de salário. Sem gastar com mais nada.

Ficou parada diante da vitrine. Os olhos ardendo.

Ao lado, uma parede cheia de eletrodomésticos, os observou todos com tamanha nostalgia, não há muito tempo ela foi em uma loja parecida e quando virou o corredor viu os da linha Premium. Os mesmos que Henrique comprou pra casa deles. Brastemp Frost Free 380 litros da linha Clean/Master, o fogão de 6 bocas também da Brastemp e até o microondas de última geração da PANASONIC. Agora não conseguia nem comprar uma Esmaltec usada que eram seus dois salários inteiros por dois meses.

Ela perdeu o ar.

Chorou ali mesmo. Na calçada. Com a mochila nas costas e a alma no chão.

Chorou porque agora ela sabia.

Sabia que tinha sido cruel demais com Henrique. Que ele não era pobre. Que ele fez tudo por ela. Que ela nunca passou necessidade. Nem ela, nem a filha.

Não eram podres de ricos, mas viviam muito bem.

E mais que isso: tinham companhia. Amor. Um lar.

Ela chorou até faltar força. Até doer a garganta.

E então soube:

ela queria voltar pra casa.

Ver Helena.

Pedir perdão de joelhos.

Dizer a Henrique que estava errada, que tinha sido ingrata, e que agora… tudo o que ela queria era voltar a ser “nós”.

O problema era que não sobrava dinheiro pra nada.

Mal comia.

Comia escondida — as sobras deixadas nos pratos dos clientes, era rápida, antes que alguém visse.

O corpo enfraquecia. A vergonha crescia.

Mas a decisão estava tomada.

Começou a guardar. Um pouco por dia.

Sacrificou condução. Passava a pé por bairros inteiros. Pegava apenas dois ônibus: um para o centro, e outro para voltar. O resto… era no passo.

Andava com bolhas nos pés. Mas sorria.

“Mais um dia. Tô voltando.”

Durante os meses que se seguiram, conheceu muita gente boa.

Uma senhora da comunidade lhe deu um colchão.

Uma moça do serviço social, roupa de cama.

Uma vizinha, algumas roupas que foram da filha.

Uma família dona de um mercadinho a chamava para jantar.

E o dono da borracharia deixava era guardar as coisas na geladeira.

Ali, no meio do nada, aprendeu o valor das coisas. E mais: o valor das pessoas.

Sentia falta da filha.

De ver Helena crescer.

De ouvir o choro, sentir o cheiro de leite.

Sentia falta de Henrique. Do carinho. Do jeito dele dormir abraçado por trás.

Do jeito que ele dizia “cê tá tão linda hoje, adoro o cheiro do seu cabelo.”

O Rio era maravilhoso.

Mas também era realista.

E mesmo com tudo… ela gostou de ter estado ali.

Porque ali, ela descobriu quem era.

E o que havia deixado para trás.

Era hora de ir para casa.

Lorena desceu do ônibus com o corpo cansado e a alma em carne viva. Havia pegado dois ônibus para chegar ali.

O cheiro da cidade, as ruas de paralelepípedos, as calçadas estreitas — tudo era familiar… e ainda assim, estranho. O chão parecia o mesmo, mas ela sentia como se caminhasse pela lembrança de uma vida que não era mais dela.

Ela respirou fundo.

Nem sentia mais o cheiro do perfume caro que havia comprado no início, no ônibus que a deixou em BH, foi em um pensionato, lá tomou um banho e se vestiu, lutou contra o cansaço só para voltar bonita — como se aparência pudesse apagar meses de escolhas, pudesse varrer a culpa.

Como se cheiro de sabonete caro desfizesse abandono.

Ela tinha repetido mil vezes no caminho:

Eu volto. Ele vai abrir a porta. Ele vai me olhar. Eu vou chorar, pedir perdão, e tudo vai encaixar de novo.

Era nisso que ela se agarrava, como última tábua no mar.

Quando entrou no bairro Boa Vista, o lugar não parecia o que ela havia visto tempo atrás, mesmo que ele não tivesse mudado em nada.

As casas eram bonitas. Simples, mas bem arrumadinhas. Com jardins e famílias nas varandas.

Paz.

Tudo que ela sempre quis. Só não sabia até então.

E no meio de tudo aquilo — a casa deles.

A casa que ela desprezou.

A casa que ele ergueu tijolo por tijolo com esperança no futuro.

O lar que ela jogou fora como se fosse pouco.

Lorena parou na calçada, o coração preso na garganta.

Não conseguia respirar direito.

Era tão… linda.

Mais que qualquer kitnet com vista torta pro mar.

Mais que qualquer sonho embalado em piso frio e cheiro de praia.

Era a casa mais bonita do bairro, que qualquer um conseguia ver de longe lá do começo da rua.

Ela levou a mão ao portão como se estivesse tocando um fantasma.

E bateu.

Uma.

Duas.

Três vezes.

Silêncio.

Pegou a chave que nunca devolveu.

Abriu a porta.

O ar estava parado.

Cheiro de casa fechada, poeira fina cobrindo móveis que um dia ela reclamou não serem “de luxo”.

A vida que ela cuspiu estava ali… parada no tempo.

Cada passo doía.

O sofá onde ela descansava depois de dar de mamar para Helena.

A mesa onde ele deixava café pronto pra ela.

O quartinho de Helena estava vazio.

Nenhum pacote de fralda.

Nenhuma roupinha

Nenhum cobertorzinho.

E nenhum sinal de bebê.

Ela sentiu o estômago virar.

Entrou no quarto.

As roupas dele no armário.

Organizadas, dobradas, esperando uma rotina que nunca voltou.

Ela tocou a camisa verde.

A favorita dela.

Levou ao rosto.

O cheiro dele ainda estava ali.

E foi aí que ela desmoronou.

Não com grito.

Não com cena.

Foi silencioso e devastador, um soluço preso na garganta, o corpo curvado como se o chão tivesse puxado a alma dela pra baixo.

Ela se abraçou à camisa como quem segura um último pedaço do universo.

Por que eu fui? Deus, por que eu fui?

Não era drama.

Era arrependimento cru.

Era o peso de finalmente enxergar.

Ela ficou ali até o peito doer.

Até o rosto queimar.

Quando conseguiu levantar, saiu arrastando os pés.

Foi para a casa antiga onde ele morava antes deles irem para a casa nova.

Talvez estivesse lá.

Pelas contas dela, hoje ele estaria de folga.

Bateu.

Nada.

Bateu de novo.

A porta abriu. Carlos, o proprietário. Com um olhar pesado e cansado.

— Lorena?

Ela tentou sorrir, mas o rosto não obedecia.

— Oi, Carlos… o Henrique tá aí?

Ele engoliu seco. Olhou pra ela como quem olha um pássaro com asa quebrada sabendo que ele não vai voar de novo.

— Cê não soube…?

O silêncio antes da dor é sempre mais pesado que a própria dor.

— Souber o quê…?

A voz dela era fina. Quase infantil.

Carlos respirou fundo, como se as palavras pesassem.

— O Henrique faleceu, minha filha.

Lorena piscou.

A mente se recusou a entender.

— Não…

— Ele… não aguentou.

— Como…?

Ele desviou o olhar.

— Se foi, Lorena. Não aguentou a ausência.

O mundo fez um som surdo.

Ela tentou dizer alguma coisa, mas a boca não formou palavras.

Os dedos se abriram, a mão soltou a alça da bolsa.

O ar saiu do peito como se alguém tivesse arrancado pelas costas.

Carlos continuou, num sussurro quase piedoso:

— Nenhum homi não é de ferro. E ele te amava demais.

Lorena ouviu só pedaços.

Ele te amava... demais.

As pernas cederam.

Ela caiu — não como quem tropeça, mas como quem perde o chão inteiro.

Os joelhos bateram no cimento da calçada.

A mão buscou apoio e não encontrou.

O corpo se curvou, pequeno, quebrado.

E aí a dor veio.

Não em grito.

Mas em um som baixo, irreconhecível, como animal ferido.

Um choro de desespero, não de tristeza.

A culpa não chorava — gritava dentro dela.

Ela arranhou o chão com os dedos, como se pudesse acordar daquele destino.

Como se pudesse voltar os passos.

Voltar as escolhas, voltar os meses.

— Henrique… não… por favor… não…

Era só isso que ela conseguia dizer.

Como se ele pudesse ouvir.

Como se o tempo pudesse ter piedade.

Mas o silêncio era a resposta.

E naquele silêncio, Lorena entendeu:

Ela saiu para viver a própria vida e matou o homem que teria dado a dele por ela.

O primeiro amor dela…

não morreu.

Ela o deixou morrer.

E agora, nada — nem o perfume caro, nem a coragem, nem a Juventude inteira pela frente — poderia apagar o gosto amargo dessa verdade.

Carlos ainda estava chocado, mas mantinha o olhar protetor sobre ela.

— Quer ir até a casa do Inácio? Ele pode te ajudar…

Lorena fez que não com a cabeça, firme.

— Onde ele tá enterrado?

Carlos hesitou, mas logo assentiu. Pegou o carro, e Lorena entrou sem dizer mais nada. O caminho foi percorrido em silêncio — exceto pelo som do choro contido dela. Era um pranto cru, denso, que parecia vir de um buraco aberto no meio do peito. O tempo inteiro ela se perguntava:

“Por quê, Henrique? Por quê? Por que você me deixou? Por que deixou a nossa filha?”

Chegaram ao cemitério. Carlos a guiou entre os túmulos até um bem simples, mas repleto de flores. Não havia foto. Apenas uma placa de metal com letras gastas:

"Descanse em paz, amigo, filho e pai amado."

Lorena caiu de joelhos.

O choro dela rompeu qualquer contenção. Ela se debruçou sobre o túmulo, abraçando a lápide como se pudesse, com força, arrancar Henrique de volta do outro lado.

— Me perdoa… por favor… — soluçava, a voz quebrada. — Eu fui uma idiota. Eu… eu fui ingrata. Você só me amou. Me protegeu… cuidou de mim. E eu… eu te deixei sozinho… Henrique, por favor, volta… volta pra mim… volta pra Helena… eu te amo… eu te amo tanto… Ninguém nunca vai te amar como eu… Por que você não me esperou?

Ela chorava como se rasgasse a alma em cada lamento.

— Eu era pra ter voltado antes. Eu devia ter voltado antes… Desculpa… por favor, me perdoa…

A noite caiu. A madrugada chegou. E Lorena continuava ali, sentada no chão de terra fria, encostada na lápide, abraçada às flores. Vez ou outra murmurava “eu te amo”, outras vezes chorava em silêncio, sentindo-se a pior pessoa do mundo.

Quando o sol apareceu, seus olhos estavam inchados e o corpo doía. Mas ela se levantou. Ainda precisava ver sua filha.

Havia perguntado no dia anterior onde Helena estava, Carlos disse que na casa dos avós.

Quando chegou na porta da casa dos pais de Henrique, a casa era simples, uma típica casa do interior. Ela via no canto alguns materiais de construção e uma parede de tijolos com o interior rebocado.

Lorena hesitou. Seus dedos tremiam antes de bater.

A porta se abriu com um rangido leve. Era Zé. Ele arregalou os olhos ao vê-la.

— Lorena!?

Ela baixou a cabeça.

— Oi, Zé…

Os olhos dele se encheram de água. Ele passou a mão no rosto, depois puxou Lorena para um abraço forte.

— Menina… Ocê tá bem! Ocê voltou!

Zé chorava. Chorava como um pai que reencontra uma filha perdida.

— Aconteceu tanta coisa… Ainda bem que ocê tá bem!

Ele a segurou pelo rosto, depois pelos ombros, e sorriu entre lágrimas.

— Vem, entra.

Ela entrou, sem jeito. Quando virou para o lado, viu uma bebezinha engatinhando, com um sorriso sem dentes, olhos brilhando de alegria.

Lorena sentiu o coração dar um passo pra frente. Era Helena. Sua Helena.

A bebê engatinhava rápido, animada, balbuciando sons, até chegar nela. Lorena se abaixou e a pegou no colo com desespero e ternura. Cheirou os cabelos, beijou o rostinho.

— Helena… minha filha… meu amor… mamãe voltou.

Zé observava, limpando discretamente os olhos.

— Ela sentiu muito a sua falta. Chora de madrugada… mas é uma menininha boazinha. Forte, como o pai.

Sentaram-se. O silêncio pesava, até que Zé falou, com a voz rouca:

— Meu filho se foi, dona… Agora essa menininha só tem ocê. Eu vou limpar a casa pra ocês morarem lá. Cuidar de vocês duas.

Lorena olhava para Helena. A menina era linda, mas não parecia com Henrique. Só os olhos castanhos, talvez. Era mais parecida com ela — o que doía ainda mais. Henrique não estaria ali pra ver a filha crescer.

— Como aconteceu?

Zé suspirou. Seus dedos apertaram o joelho. Ele não conseguia falar sobre aquilo.

— Meu filho… amava ocê. Desde o começo. E amava essa bebezinha aqui mais do que tudo. Ele tava trabalhando em BH, tava crescendo lá. Mas voltou pra cá por nossa causa, minha e da minha velha. Queria reformar a casa. Comprar as coisa boa. Mas eu… burro… disse pra ele que um homem tem que construir com as próprias mãos. Ele vinha nas folga ajudar. Comprou panela nova, geladeira, fogão… tá tudo guardado ali.

Lorena olhou para o quarto aberto cheio de caixas.

— Minha mulher, teimosa, disse que só ia usar quando ele casasse. Que pai é quem cuida de filho. E não ao contrário. A gente ia guardar, se caso ocês precisassem, a gente ia dar. Tudo novinho.

Ele limpou o canto dos olhos e continuou:

— Henrique tava apressado pra casar. Queria te colocar no plano de saúde. Dizia que ocê merecia tudo. Ele… tava planejando pedir ocê em casamento num lugar muito bunito.

Lorena apertou a filha contra o peito, soluçando de novo.

— Eu não merecia ele…

Zé respirou fundo e a olhou com ternura.

— Ocê me lembra duma história… que meu pai contava pra nóis.

Lorena o olhou com os olhos marejados. Zé começou, em tom pausado e sereno, como se contasse à beira de um fogão de lenha:


“Tinha um homi lá nos mato, perto d’uma aldeia. Homi danado de sem sorte, ou pelo menos era assim que ele dizia. Plantava semente, vento levava. Plantava de novo, chuva arrancava. Quando ficava tudo quieto, o sol vinha e torrava tudo. Aí ele vivia se queixando, sabe? No começo o povo até escutava… depois já desviava dele, cansado da lamúria.

O homi começou a botá culpa em todo mundo: pai, mãe, mundo… até no Criador. Cismou que ia lá no fim do mundo perguntá pra Deus por que não nascia sorte pra ele.

No caminho, encontrou um lobo magro morrendo de fome, uma árvore quase seca e uma moça bonita mas sentindo um vazio no peito. Cada um pediu ajuda ou resposta. E ele? Só dizia que não tinha tempo: ele tava indo atrás da “sorte” dele.

Chegô lá no fim do mundo, conversou com o Criador. O Criador explicou tudo — até pros outros. Pro lobo: era fome. Pra árvore: tinha ouro nas raízes, era só cavar. Pra moça: precisava de companhia, amor. E pro homi? Que a sorte dele tava no mundo, só precisava enxergar quando ela passasse.

Pois ele voltou cheio de “pressa de achar sorte”, achou a moça, ela chamou ele… “Quer sê meu companheiro?” — e o besta disse que não podia perder tempo. A sorte bateu na porta e ele fechô.

Na árvore, mesma coisa: ouro ali, prontinho, ela oferecendo… ele recusou, disse que ia atrás da sorte.

Chegô no lobo, contou a resposta: que ele ia morrer de fome… a não ser que aparecesse um tolo pra ser comido. Pois adivinha? O lobo pulou e devorou o homi. Fim. Sorte ele nunca achô.

Porque pra tê sorte, minha fia… tem que enxergar a graça quando ela aparece, tem que ajudar os outros, tem que meter a mão na terra. Quem só reclama e espera milagre… a vida passa e engole.”


Zé terminou. A voz dele embargada como se também chorasse por dentro.

— E eu tô lhe contando isso — não é pra brigar com ocê, não. É só pra dizê que às vez a gente fica olhando pra longe demais, achando que a vida deve mais pra nóis… e acaba perdendo o que tá bem aqui, pertinho.

Lorena apertou Helena nos braços. O coração dela era o próprio homem da história. Ela foi atrás da sorte dela, sem saber que a sorte dela, sempre esteve ali.

E agora… agora Henrique tinha ido embora pra sempre.

— Eu não sei o que vou fazer sem o Henrique… — a voz de Lorena saiu fraca, embargada, quase um sussurro perdido entre os soluços.

— Ocê vai criar a filha de vocês. — respondeu Zé, com firmeza gentil, enquanto a pequena Helena mordia os próprios dedinhos e a encarava com aqueles olhinhos curiosos, grandes demais para um bebê tão pequeno.

Lorena ajeitou devagar o laço na cabeça da filha, mas o gesto era mecânico. Aquela criança era dela, e mesmo assim… não parecia o suficiente. Não agora. Ela a olhava com carinho, mas sem rumo. Tudo nela doía. Nada fazia sentido.

— Eu... eu não posso ficar... — confessou, com a voz trêmula, como se cada palavra sangrasse.

Zé arregalou os olhos, surpreso.

— Uai, não precisa se preocupar com dinheiro, não, minha filha. Tudo que o Henrique comprou tá aqui. E ele deixou um tanto bom guardado também. Eu ajudo com o que for preciso. Fico com a Helena para ocê trabalhar e estudar.

— Não é isso... — ela desviou o olhar. — Eu não posso ficar aqui sem ele. Dói demais meu coração. Cada canto, cada cheiro, tudo me lembra ele...

— E pra onde ocê vai então, criatura?

— Pro Rio. — disse, baixinho, como quem entrega uma culpa. — Lá eu... eu não sei, mas não é aqui.

Zé engoliu seco, sentindo o aperto na garganta.

— E vai levar a menina? — perguntou, com preocupação nos olhos. — ocê tem onde ficar? Vai viver do quê? Como vai cuidar do cês duas?

Lorena hesitou. Depois, enfim, olhou de novo para a filha e murmurou:

— A Helena vai ficar melhor com o senhor.

Zé respirou fundo, devagar. O peito pesava, mas havia alívio nos olhos.

— A menina é minha netinha. É o que restou do meu filho. Eu amo essa danadinha demais da conta... — disse, fazendo carinho na bochechinha da bebê, que soltou uma risadinha doce, sem entender nada do que se passava ao seu redor.

Lorena sorriu entre lágrimas. Era um sorriso triste, rasgado, quebrado. Olhou para Helena mais uma vez. Tão bonitinha... uma pena que não se parecia com o pai. Olhar para ela era como se encarar no espelho — o reflexo de uma vida que não queria mais viver. Um retrato do que perdeu, seu antigo eu.

O choro voltou, mais intenso. Zé tentou consolar, dando tapinhas nas costas dela como fazia com a própria esposa nos dias difíceis. E, como se sentisse a dor da mãe, Helena começou a chorar junto. Lorena tentou conter o desespero, mas já não conseguia mais segurar o que estava dentro.

Zé a abraçou com cuidado, como se abraçasse duas dores ao mesmo tempo.

— Vai passar, minha filha... vai passar.

Mas ninguém ali acreditava de verdade.

Zé voltou com uma caixinha de metal amassada. Abriu com cuidado. Lá dentro, notas dobradas, algumas velhas, outras novas — tudo guardado com zelo de quem suou por cada centavo.

— Aqui… — ele empurrou o dinheiro pra ela, a voz embargando — é o que deu pra juntar. Usa pra se cuidar. Não passa aperto, não. Cê ainda é nova, tem muita vida pela frente.

Lorena olhou o dinheiro, mas não estendeu a mão de imediato. Os olhos dela estavam vermelhos, cansados e inchados.

— Eu… eu não queria que fosse assim. — murmurou, quase sem ar.

— Eu sei. — Zé respondeu baixo. — Mas já que cê vai, leva isso. E leva minha bênção. Eu… eu não quero te ver jogada por aí, passando necessidade. Meu menino te amava, e eu… eu também tenho carinho por ocê, mesmo com tudo.

As lágrimas caíram mais forte. Zé colocou o dinheiro na mão dela com delicadeza, fechando os dedos dela ao redor das notas.

— Se cuida, meu bem. Pelo amor de Deus, se cuida.

Lorena assentiu, sem conseguir falar. Então olhou para Helena.

A menina estava sentada no chão, brincando com um pano, feliz. Ignorando o clima pesado — como só bebês conseguem ignorar tragédias.

Lorena se ajoelhou devagar na frente dela. As mãos tremiam.

— Minha filha…

Pegou Helena no colo. A menina agarrou o cabelo dela com a mãozinha, rindo, achando que era brincadeira. Lorena fechou os olhos forte, respirou fundo. Afundou o rosto no pescoço da bebê, cheirando aquele cheirinho de bebê.

— Eu te amo tanto… tanto… — sussurrou, a voz quebrando em mil pedaços. — É porque eu te amo que eu vou. Um dia você vai entender. Um dia você vai crescer, vai ser alguém grande, forte… vai ter uma vida linda… Não aqui. Não presa aqui como eu.

Helena soltou um resmunguinho, sem entender, mas encostando a cabecinha no peito da mãe. Procurando o cheiro, o calor. E isso quase matou Lorena.

Ela beijou a testa da filha uma vez. Depois outro. Depois outro, como se estivesse tentando gravar aquele toque na pele.

— Me perdoa… — sua voz falhava. — A mamãe… a mamãe precisa ir… eu preciso… eu não posso… — ela respirou fundo, soluçando — eu não posso ficar parada aqui. Eu vou ser grande, eu vou vencer, e quando eu vencer, eu volto. Eu volto pra te buscar. Você vai me ver chegar bonita, rica, poderosa. Você vai se orgulhar de mim, meu amor. Eu prometo.

As lágrimas caíam na cabecinha da bebê. Helena começou a chorar, esticando as mãozinhas pra mãe, como se sentisse que algo ali ia ser arrancado.

Lorena devolveu Helena ao colo de Zé com cuidado desesperado, quase arrancando o coração junto. Os braços dela tremiam.

— Cuida dela. Por favor… — disse, sem conseguir mais olhar a filha. — Não deixa faltar nada pra minha menina. Ela merece o mundo.

Zé engoliu o choro e segurou firme a neta.

— Vai com Deus, Lorena. E… nunca esquece: cê sempre vai ter um lugar aqui, tá? Sempre.

Lorena virou de costas antes que tivesse coragem de pegar Helena de volta. E antes de ir, sussurrou para si mesma, como uma promessa torta para o destino:

— Eu vou voltar melhor. E dessa vez… ninguém vai me parar.

Ela saiu cambaleando porta afora, e conforme ia se afastando, o choro de Helena ecoava atrás dela — um som pequeno, desesperado, que parecia puxar cada fio do peito de Lorena pra trás.

Mas ela não olhou pra trás.

Nem uma vez.

Porque se olhasse, não iria conseguir ir.