O CEO que Eu Paguei
220 Quando Nunca Foi Amor
Rafael:
Cara, não acredito que você me expulsou da sua casa como um cachorro!
Depois de tudo que a gente viveu... Você mesma dizia que mesmo depois do término ainda seríamos amigos. É assim que você trata seus “amigos”, Helena?
Rafael:
Eu só queria conversar. Nem isso você me deixou fazer. Nem me ouvir você quis.
Sério, tô muito decepcionado com você. Muito.
Rafael:
Engraçado lembrar de quando você dizia que não queria usar aliança, nem casar, nem ter filho.
Agora percebo que você só não queria isso comigo.
E o pior? Você foi escolher logo um cara escroto, exatamente o tipo de homem que você dizia odiar.
Cínica demais...
Rafael:
Você lembra do seu aniversário? Tava um temporal, o mundo quase acabando. Mesmo assim fui te ver, levei os livros de mistério daquela coleção limitada que você vivia falando.
Você nunca nem leu, né?
No fim, vi que nada do que eu fazia era suficiente pra você.
O que você queria mesmo era um carro caro e um cara com a conta bancária cheia. Você virou tudo aquilo que dizia desprezar.
Rafael:
E quando eu vi o cara com quem você tá agora, eu juro… senti repulsa.
O cara parece saído daqueles filmes toscos dos anos 2000.
Você sempre foi inteligente, como acabou com um troglodita desses?
O pior é que ele tentou me intimidar, veio até me segurar pelo colarinho. Que tipo de homem faz isso?
Rafael:
Eu sei muito bem o que acontece com cara assim, mas vou te falar: a vontade que eu tive foi de encher a cara dele de porrada. Mas me controlei.
Nem sei por quê.
Rafael:
(mensagem apagada)
Rafael:
(mensagem apagada)
Rafael:
Sério, como você conseguiu esquecer tudo o que a gente viveu tão rápido?
Você dizia que queria envelhecer comigo.
Que precisava de tempo pra focar na carreira, que não tava pronta pra outro relacionamento. E agora tá com aquele cara?
Então era mentira?
Rafael:
Agora você diz que não me ama?
Então por que ficou tantos anos comigo?
Pra quê me fazer perder tempo?
Você me iludiu, me enganou.
Brincou com o que eu sentia por você.
Dez anos atrás
Helena, 20 anos — Rafael, 24 anos
Helena dirigia com os ombros tensos e os dedos apertando o volante mais do que o necessário. Ainda estava com a permissão, e aquela era sua primeira vez dirigindo sozinha numa estrada escura. O carro não era dela — era do tio do Rafael. E eles estavam mentindo. Disseram que passariam a véspera de Natal com os amigos, mas o destino real era outro: um motel na saída da cidade. A primeira noite deles. A dela.
Ela olhava de vez em quando para Rafael no banco do carona, esperando — talvez — algum sinal de cumplicidade, um toque, uma frase doce. Mas ele estava rindo sozinho com o celular, completamente alheio à tensão dela.
— O Mauro mandou um "Feliz Natal" pra gente — disse Rafael, sem olhar para ela, os dedos voando pelo teclado. — O Caio e o Leandro tão tretando no grupo, Lelê. Você tinha que ver, tá hilário.
Helena forçou um sorriso, mas não respondeu. Aquilo era importante pra ela. Era a primeira vez deles, mas Rafael estava mais envolvido em memes e conversas paralelas do que com o momento que estavam prestes a viver. Ela engoliu o incômodo e perguntou, tentando soar leve:
— Rafa, pode procurar o nome do motel no Maps? Eu não sei bem como chegar lá.
— Já vou… — ele respondeu, rindo ainda mais. — Fica tranquila, Lelê. É na saída da cidade. É só seguir a estrada, a gente vai ver.
Ela ficou em silêncio. Continuou dirigindo, mas seu coração já começava a ficar apertado. Estavam quase saindo da área urbana, e ela não sabia qual entrada pegar. Estava escuro. Os faróis cortavam a estrada vazia, mas nada parecia claro. Sentindo-se insegura e desprezada, ela encostou o carro.
Rafael a olhou, confuso.
— Que foi?
— Vou ver no Maps — disse, pegando o celular. Tentava não transparecer o quanto estava magoada.
— Lelê… não precisa disso, sério. É só seguir reto.
— Eu não conheço aqui — respondeu, mais seca do que pretendia. — Não sei onde tenho que entrar.
— Me passa, vai. Eu te guio.
— Pode deixar. Eu mesma faço.
A estrada adiante parecia deserta e ameaçadora. Helena pensou no que contaram aos avós, nas justificativas inventadas, no medo de alguém ver os dois entrando naquele lugar. A vergonha queimava mais que o nervosismo. Por que ele não percebia isso?
Chegaram ao motel. Deram o nome dela, como combinado. Quando a cancela abriu, Helena sentiu o estômago revirar. Tudo parecia surreal. Ela não conseguia mais definir se estava feliz, nervosa ou apenas decepcionada.
Rafael saiu primeiro, animado, como se estivesse indo pra uma festa. Helena o seguiu, mais devagar. Queria que ele olhasse pra ela. Queria que ele dissesse algo doce, fizesse um carinho, tornasse aquele momento memorável. Mas ele só abriu a porta e entrou.
— Olha só, espelhos no teto! — comentou, rindo. — E o banheiro tem secador! Eu disse que você não precisava trazer o seu.
Helena entrou atrás dele. O ambiente era frio e impessoal, mesmo com as toalhas em forma de cisne. A porta ao lado da TV chamou sua atenção. Tudo parecia meio estranho, meio demais.
— A gente devia ter pegado o com hidromassagem — Rafael comentou.
— É nojento — ela respondeu sem pensar. — Uma moça no mercado falou que foi em um motel que a hidro tava suja.
— Nada a ver. O pessoal limpa. Fica tranquila.
Rafael ligou o ar-condicionado e a televisão. Foi direto para um canal pornô.
Helena sentiu o rosto esquentar na hora. Vergonha, constrangimento e desconforto.
Saiu do quarto. Abriu o porta-malas e pegou os dois tênis que havia comprado pra ele. Ele sempre reclamava dos tênis que gastavam rápido. Ela pesquisou, economizou e escolheu com carinho. Era Natal. E ela queria que ele se sentisse cuidado.
Quando voltou, Rafael estava sentado na cama trocando os canais.
— Rafa… tenho um presente pra você. Feliz Natal.
Ele olhou, surpreso.
— Uau! Da Oakley? Caraca, Lelê, você investiu, hein?
Ela sorriu, satisfeita. Finalmente algo que poderia fazer ele se sentir especial.
— Gostou?
— Adorei! — Ele se levantou e deu um abraço nela. — Tenho uma parada pra você também.
Helena ficou em expectativa. Ela havia falado do brinco com pedrinha verde o mês inteiro. Não precisava ser caro. Só precisava ser pensado.
Quando ele entregou o pacote, pelo formato, ela já sabia que não era.
Era um livro da Agatha Christie. Ela havia comentado sobre vídeos no meio do ano. Nada demais. Nem de longe algo que queria como presente de Natal.
— Aqui, Lelê. Feliz Natal!
Ela abriu em silêncio.
— Você sempre me dá coisa útil e eu dou essas paradas nada a ver, né? — ele riu, sem jeito.
Ela forçou um sorriso. Já tinha aprendido a não esperar nada dele. Rafael era apaixonado por ela, disso não tinha dúvida. Mas era um amor descuidado, inconsciente. Amor sem ação.
— Você tá muito bonita — ele disse, finalmente observando-a.
— Você também — respondeu, tentando não mostrar a decepção.
— Conseguiu horário no salão? A raiz já tava gritando — ele disse, pegando no cabelo dela. — Gosto assim, lisinho.
Helena engoliu em seco.
— Tava pensando em fazer a transição, na verdade… vi várias meninas fazendo no YouTube.
— Ih, Lelê… não mexe com isso, não. Seu cabelo é estranho, sabe? Não é cacheado de verdade nem ondulado. Fica com uma cara meio bagunçada.
Ela desviou o olhar.
— Vou pensar…
— Ótimo! — respondeu ele, sem perceber o desconforto.
Rafael então tirou da mochila uma sacola cheia de camisinhas.
— Comprei de vários sabores. Escolhe aí!
Espalhou tudo na cama, como se fosse divertido. Helena ficou vermelha, desconcertada. Acabou escolhendo a de morango.
Tiraram a roupa.
— Você tem um corpo lindo, Lelê. De verdade.
Ela apenas assentiu. O elogio parecia protocolar.
— Conseguiu ir na depiladora? Tá bem melhor que com a gilete.
— Fui sim! Gastei um bom dinheiro com isso — disse, pegando a mão dele.
Rafael fechou o semblante.
— Eu também gastei um monte com você. Urologista, tireoide, camisinhas…
Ela piscou, surpresa.
Era a sexta tentativa deles. Rafael tinha procurado médico para tentar encontrar uma explicação para a dificuldade de ereção, dito que era nervosismo. Mas Helena começava a se perguntar se o problema era ela.
— Me diz quanto foram as camisinhas que eu te passo o valor.
— Deixa. Você já pagou a pernoite. Vem cá.
O clima já tinha morrido. Mas ela gostava dele. Era seu primeiro namorado. Queria acreditar que era o certo.
Ficaram um tempo se acariciando, assistindo ao filme pornô. Quando ele perguntou se podia ser de quatro, ela recusou.
— Prefiro que seja romântico.
— Tá bom — respondeu ele, pouco empolgado.
Beijaram-se. Ela sentiu o corpo dele reagir, por um instante teve esperança. Mas na hora… nada.
Rafael tentou disfarçar, tentou de novo, mas não funcionava. Ficava cada vez mais nervoso. Ela, cada vez mais desconectada.
Ele pediu para fazer oral nela, tentou tocar, beijar.
Mas não funcionava. Nada ali funcionava.
— Para — ela pediu, baixinho, afastando a cabeça dele.
Ele a olhou, ofendido.
— Tô tentando, Helena.
Ela cruzou os braços, os olhos cheios d’água sem transbordar.
— Eu sei, Rafa… mas é que não tá legal…
Vestiram-se em silêncio. O quarto do motel, antes abafado e incômodo, agora parecia ainda mais frio — e não era pelo ar-condicionado ligado.
Rafael estava no carona, cabisbaixo, com cara de cachorro magoado. Helena dirigia com as mãos frias no volante, sentindo o rosto arder. O silêncio entre eles era mais alto do que qualquer discussão.
Ela nem sabia direito o que tinha feito de errado. Só sabia que... não estava bom. E por ter dito isso, agora parecia ser a culpada de tudo.
Na saída do motel, ela pediu para darem baixa. A funcionária do outro lado do guichê trancado, reagiu, surpresa.
— Mas vocês ficaram só cinquenta minutos. Aconteceu alguma coisa?
Helena engoliu seco, o estômago revirando.
— Já tá pago. Só libera a gente, por favor.
Então a mulher fez o que ela nunca imaginou que alguém faria: abriu a janela que dava o sigilo, esticou o pescoço e olhou Rafael e ela. Como se estivesse analisando. Como se ela... soubesse. Helena nunca se sentiu tão humilhada. E então a cancela se abriu.
No carro, ela tentou manter o foco, seguir direto pra casa da mãe dele, mas Rafael quebrou o silêncio:
— Me deixa na rotatória.
— O quê?
— Quero ir andando. Pensar um pouco.
— Não. Não vou te deixar sozinho, tão longe de casa.
Ele suspirou, contrariado, como se ela fosse um estorvo.
— Então… me leva na casa do Leandro. O pessoal tá reunido lá.
Ela engoliu o nó na garganta. Queria conversar, esclarecer, entender. Mas Rafael não queria falar. Nunca queria. E ela… ela não sabia como começar. Só sabia que queria estar com ele. Então respirou fundo e seguiu o caminho para a casa do amigo.
Chegando lá, desceram do carro como dois conhecidos. Nem mãos dadas, nem sorriso. E aquilo doía. Ela tinha idealizado aquela noite. Não era pra ser assim.
Caio abriu a porta com cara de espanto.
— Ué? Vocês não iam vir.
— Resolvemos passar com vocês — Rafael respondeu, forçando um meio sorriso e entrando como se nada tivesse acontecido.
Lá dentro, cada um foi para o seu canto. Rafael logo se misturou com os amigos. Helena, a única mulher ali, sentou sozinha no sofá e ficou mexendo no celular. Era como se estivesse invisível.
A única pessoa com quem trocava duas ou três palavras era o Mauro. Ele ao menos a tratava com naturalidade.
A noite passou entre Just Dance e FIFA. Helena riu um pouco nas danças, mas o coração continuava apertado. Quando todos voltaram a jogar videogame, ela se isolou no canto com o celular, abrindo o Facebook só pra parecer ocupada. Nenhum dos seus amigos estava online. Ela não tinha com quem desabafar.
Até que Rafael se aproximou.
— Tá tudo bem? — perguntou, parado diante dela.
— Tá — ela mentiu. — Quer ir um pouco lá fora?
— Bora.
Saíram para a entrada da casa. Ficaram em silêncio por um tempo, até ela criar coragem.
— Rafa… desculpa pelo que aconteceu.
Ele desviou o olhar.
— Helena, você tem que parar com isso.
— Isso o quê?
— Essa pressão. Esse negócio de "marcar dia pra transar". Não funciona assim. As coisas têm que acontecer.
Helena sentiu a garganta fechar.
— Rafael… você mora com sua mãe. Eu com meus avós. Seu quarto não tem nem tranca. Como que as coisas vão "acontecer", do nada?
Ele andava de um lado pro outro, gesticulando, incomodado.
— Eu tô falando que… isso me trava. Fico com medo de broxar de novo. Acho que é isso.
— O médico não disse que era a tireoide? Você já tá tomando os remédios.
— Tá vendo? Aí, ó. De novo. Me cobrando. Você é muito controladora, Lelê.
Ela ficou parada, incrédula.
— Eu não tô te cobrando. Tô tentando entender. Me importar com você. Te ajudar.
— E eu só quero que você pare. Que me dê espaço. Que pare de tentar controlar tudo.
Helena sentiu o peito afundar.
— Eu só quero fazer amor com você. A gente namora há um ano. Eu gosto de você, Rafael. Quero que isso funcione.
— Chega. Não quero mais falar disso.
Ela tentou sorrir, tentando manter o pouco que restava de clima.
— A gente pode ficar bem? É Natal...
Rafael suspirou e a puxou pra um abraço, meio automático.
— Tá. Vamos aproveitar o momento.
Depois de um tempo em silêncio, ele se afastou.
— Vamos tirar uma foto pro Insta?
— Claro — ela disse, limpando o rosto discretamente.
Ele entregou o celular.
— Usa o meu, a câmera é melhor.
Helena segurou a respiração e tirou algumas selfies dos dois.
Leandro apareceu na porta.
— Helena, posso roubar o Rafinha rapidinho?
— Claro — ela sorriu.
— Já volto — Rafael disse. — Posta as fotos no meu, pode ser?
— Uhum — ela assentiu, tentando ser gentil. — Posso ganhar um beijo?
Rafael sorriu de canto.
— Não tá merecendo.
— Só um.
— Quando eu voltar.
Deu um beijo na testa dela e entrou.
Helena ficou ali, parada. Namorar era… cansativo. Ela pensava muito na avó, que dizia que o amor se construía com o tempo. Que as coisas melhoravam. Mas… e se não melhorassem?
Ela abriu o Instagram dele. Postou uma das fotos. E, pela primeira vez, curiosa, clicou na aba de pesquisa. Queria entender o aplicativo que ela resistia em não baixar.
Se arrependeu.
A página estava cheia de vídeos de mulheres de lingerie. Poses provocantes. Todas brancas. Todas loiras.
O estômago dela embrulhou.
Rafael via esse tipo de coisa?
Ela abriu o navegador. Havia uma aba esquecida. Um vídeo pornô com uma mulher loira, peituda. Exatamente o oposto dela.
E então tudo fez sentido.
Era por isso que ele não a desejava. Ela não era o tipo dele.
Helena não chorou. Mas sentiu a dor no corpo inteiro. A dor de não ser suficiente.
Ela nunca foi apaixonada por Rafael. Mas gostava dele. Quando ele a pediu em namoro, achou que era o começo da história dela. Que a vida dela estava começando ali. Terminar com ele parecia fracassar. E ela não queria falhar.
Meses depois, tiveram a primeira vez. Na casa dele. A mãe na sala. Tudo em silêncio. Ele colocou a camisinha e a penetrou por trás. Rápido. Sem emoção. Sem olho no olho.
Mas ela deixou.
Porque aquilo legitimava o namoro. Tornava real.
Ela pesquisou depois e descobriu que o consumo de pornografia podia interferir na libido com a parceira. Talvez fosse isso. Talvez.
Mas a verdade é que eles nunca tiveram química. Nunca. Nem risada, nem beijo, nem desejo, nem conversa de homem e mulher.
Helena se recusou a usar aliança de compromisso. Porque usar aliança era dizer, pro mundo e pra si mesma, que era Rafael o homem da vida dela. E ela sabia que não era.
Mesmo assim, não terminou.
Rafael trabalhava no almoxarifado de uma loja de peças automotivas. Recebia aluguel de uma casa deixada pelo pai. Não queria crescer, nem mudar, nem sonhar. Estava confortável. E ela... não.
Helena fazia faculdade a distância. Estava juntando dinheiro pra tirar carteira de moto. Queria se mover, sair do lugar.
Eles não eram casal. Eram dois colegas de convivência..
Mas ela ficou.
Até o dia em que seu avô faleceu. E a morte bateu na porta, lembrando que a vida era curta demais pra ser vivida no quase.
Helena terminou.
E jurou pra si mesma que não tentaria mais. Não se esforçaria por amor. Que viveria com a avó. Que jamais seria pequena por amor de novo.
Esse era o plano.
E, naquele momento, parecia bom o bastante.
Atualmente… Rafael no aeroporto.
10 anos de história. E tudo acabou assim.
Rafael estava sentado em um dos bancos do saguão do aeroporto, o capuz do moletom jogado sobre a cabeça, o olhar perdido no movimento frenético ao redor. O celular em mãos, a tela iluminada pelo silêncio cruel das mensagens não visualizadas.
Mais de quarenta.
Quarenta mensagens que Helena ignorou.
Nem um “Oi”. Nem uma figurinha.
Nem um “vai embora”.
Ele já tinha perdido a conta de quantas vezes clicou no perfil dela — e suspirado ao ver aquele maldito “online”. Estava online, sim. Só não pra ele. Talvez para o outro. Para o pai do filho dela.
Foi um erro deixar de segui-la quando descobriu a gravidez. Uma atitude infantil, sim, ele sabia — mas era como se o coração dele tivesse se partido em pedaços naquele dia. A mulher que ele sempre achou que voltaria um dia... teve um filho com outro cara.
Mesmo assim, ele a amava. E se convencesse Helena a enxergar o que estava vivendo — aquele pesadelo com o tal do Heitor Monteiro — talvez ainda tivesse uma chance. Ele faria qualquer coisa. Até aceitar o filho dela. O filho de outro.
Ela só precisa me ver. Me ouvir.
Mas a esperança foi esmagada quando, entre o fluxo de passageiros, ele a viu.
E não estava sozinha.
Helena surgiu ao lado de Heitor Monteiro. Linda como sempre. Talvez até mais.
Mas o que doeu foi vê-la de mãos dadas com ele, puxando-o com carinho, como se fossem parte de um mesmo corpo.
Rafael ficou em pé no mesmo instante, o coração batendo acelerado, os punhos fechados.
Heitor o viu. E o encarou com desprezo.
Como se dissesse com os olhos: Ela é minha.
Rafael tentou manter a pose.
— Oi, Rafael — Helena disse com um tom sereno.
— Oi — respondeu, seco.
Heitor ficou em silêncio. Mas o silêncio dele doía. Era um silêncio de desafio, de superioridade descarada.
— Até que foi fácil te achar — ela comentou. — Imaginei que estaria perto do embarque. Acertei.
— Por que estão aqui? — Rafael respondeu ríspido. — E por que ele tá aqui?
— Eu posso ir onde eu quiser — Heitor disse, sem piscar.
Helena virou-se para o noivo, tentando acalmá-lo com a voz.
— Amor… conversamos sobre isso, lembra?
“Amor.”
Ela o chamava de “amor”.
Rafael engoliu a raiva.
— Podemos ir pra um lugar mais reservado? — Helena pediu, agora olhando pra ele.
Ele só assentiu.
Heitor parecia relutante, mas aceitou. Helena, tentando apaziguar, beijou a mão entrelaçada à dele. E Heitor sorriu pra ela.
Rafael teve vontade de gritar.
Ela nunca gostou de andar de mãos dadas comigo…
Ela nunca me beijou em público…
Seguiram os dois até uma sala privativa. Rafael não entendeu como tinham acesso àquilo, mas, claro, dinheiro compra tudo.
Dentro da sala, Helena soltou a mão de Heitor e virou-se para Rafael.
A voz dela era suave. Quente. E definitiva.
— Sei que veio de longe, fora da sua zona de conforto, pra me ver… — ela começou. — Muita coisa aconteceu. E rápido demais. E pela mídia, eu sei que pode ter parecido algo que não era.
Heitor a envolveu pela cintura.
Rafael sentiu o sangue ferver.
— Eu tô com o Heitor. E eu amo ele, Rafael. Amo de verdade.
Aquela frase bateu no peito dele como uma marreta.
Heitor sorriu.
— E o meu sentimento por ela é recíproco — completou.
Rafael quis rir de nervoso.
Quis dizer que Helena não gostava nem de demonstração pública… que isso tudo era uma farsa.
Mas ela continuou:
— A gente tem uma família juntos. Nosso filho… eu queria trazer ele, mas ainda não tomou todas as vacinas.
Ela o observava como se esperasse que ele compreendesse.
— Ele fez você vir aqui? Pra esfregar isso na minha cara? — Rafael perguntou, ferido.
— Claro que não! — Helena respondeu, ofendida. — Eu só queria deixar tudo claro. Eu e o Heitor somos noivos. Vamos nos casar. Ele me trata bem. Eu me sinto especial com ele.
— Porque ela é especial pra mim — disse Heitor, com aquele tom irritantemente calmo.
— Eu tô tendo uma vida melhor do que sonhei — Helena completou. — Agradeço os anos que dividimos, Rafael, de verdade. Mas meu presente… e meu futuro… é com o Heitor.
Rafael tentou sorrir. Mas doía.
Doía ver que ela estava decidida. Que não havia espaço pra ele.
— Posso falar com você a sós?
— Não. — ela disse com firmeza. — O que quiser dizer, pode falar na frente do Heitor.
Heitor sorriu. Se encheu de orgulho. Puxou Helena com carinho e a beijou no topo da cabeça.
Ela nunca me olhou assim.
— Por que… mesmo depois de tudo… você não quis ficar comigo? — Rafael perguntou, baixo.
— Porque a gente nunca foi compatível — ela disse com honestidade. — E você sabe disso.
— Você já me amou? Alguma vez…? — ele insistiu, esperançoso.
— Não. — ela respondeu. — Nunca te disse isso… porque não era verdade.
Foi como se o chão tivesse desaparecido.
Como se tudo tivesse sido um teatro. Uma grande mentira.
— E do nada você amou esse cara? — ele cuspiu, apontando para Heitor.
Heitor avançou um passo.
— Abaixa a bola aí — disse com a voz tensa.
Helena o conteve com a mão.
— Por favor, amor. Não.
Ela voltou a olhar Rafael, com calma.
— Desde o dia que eu vi o Heitor… eu não consegui mais parar de pensar nele. Ele me conquistou. E, quando percebi, eu já estava apaixonada.
Heitor sorriu com isso. Helena também.
— E o que vai fazer quando ele te trocar por uma mais nova? — Rafael retrucou, ácido.
— Escolha bem suas palavras — Heitor retrucou, firme. — Eu aceitei vir aqui pra apoiar a minha noiva. Mas não vou aceitar desrespeito.
— Ele nunca me trairia — disse Helena, convicta. — E se a gente não deu certo, Rafael… é porque, no fundo, eu já era dele. Mesmo sem saber.
Rafael cerrou os dentes.
— Ele é muito arrogante — disse entre os dentes.
Helena respirou fundo.
— Ele é meu. E isso basta.
Um silêncio.
Pesado.
— Podemos ir? — Heitor perguntou.
— Podemos. — Helena respondeu.
Ela olhou para Rafael uma última vez.
— Tchau, Rafa.
Ele apenas assentiu.
— Tchau, Helena.
E foi assim.
Foi assim que acabou.
Ele ficou ali. Parado. Sozinho.
Com o eco de todas as palavras que não conseguiu dizer.
Talvez ela nunca o tivesse amado mesmo.
Talvez, no fim, ele só tenha sido um capítulo fraco no livro da vida dela.
Mas Rafael preferiu acreditar que quem perdeu foi ela.
Mesmo que, no fundo, soubesse que era ele.
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