O CEO que Eu Paguei
157 Primeiro Trimestre
A manhã de Heitor havia sido um turbilhão de decisões. Mal havia tomado o primeiro café quando já estava mergulhado em discussões sobre a nova filial nos Estados Unidos: localização estratégica, incentivos fiscais, proximidade com clientes potenciais. O celular apitava com mensagens de Helena entre um ponto e outro, e mesmo com a cabeça ocupada, ele encontrava tempo para responder, a cima de tudo, ela era a sua prioridade.
No horário do almoço, a reunião foi com o setor de supply. Os números estavam irritando-o profundamente. A Monteiro Inc. sempre prezou pelos melhores materiais, padrão impecável, mas os preços que estavam pagando pareciam coisa de varejo. O sangue ferveu.
— Uma semana. — ele disse, firme, para o gerente de RH. — Quero redução de quinze por cento do setor. Caso contrário, vamos o substituir, já podem iniciar as entrevistas, os melhores selecionados quero entrevistar pessoalmente.
As palavras foram ditas friamente, mas não sem peso. Heitor sabia ser implacável quando se tratava da empresa — porque a empresa era mais do que negócios, era o legado da sua família, e agora também, o sustento do futuro do filho que vinha aí.
E enquanto se reunia, calculava, cobrava… ainda pensava em Helena. Nas mensagens dela, no episódio do Leblon que ela havia lhe contado na noite anterior. A raiva subia como um soco no estômago cada vez que lembrava. Foi exatamente por isso que havia dito que ela não podia andar sozinha por uma metrópole que ainda não conhecia direito. Ele conhecia bem o Rio. Sabia que até o bairro mais caro podia esconder riscos. A ideia de que ela poderia ter se machucado — grávida, vulnerável — deixava sua mente à beira da explosão.
Determinou que aquilo não se repetiria.
Chamou para o almoço um velho amigo, corretor de imóveis. Já havia cogitado erguer uma mansão exclusiva pela Monteiro Inc., mas o cronograma do projeto não o agradava. Quando a casa ficasse pronta, o bebê já estaria andando. Não, eles precisavam de algo agora. Algo grandioso, digno, seguro. Uma casa onde Helena pudesse sorrir tranquila, onde seu filho pudesse crescer feliz, cercado de conforto.
Passou as especificações de forma categórica: espaço amplo, áreas verdes, segurança de ponta, cômodos suficientes para hóspedes e, claro, para os filhos que viriam. Um lar completo, pronto para se tornar o coração da família Monteiro.
— Assim que tiver algo que valha a pena, me chama. — disse ao amigo, a voz grave, mas com um brilho nos olhos. — Marcamos as visitas, minha esposa vai comigo escolher. Quero me mudar em cinco meses. É importante. Trate como prioridade.
Heitor sabia que sua vida tinha mudado. E pela primeira vez em muitos anos, sentia prazer em carregar o peso. Se fosse necessário sangrar as mãos para dar o melhor à sua mulher e ao seu filho, ele o faria sem hesitar.
Ainda marcaram de fazer um churrasco junto das esposas. Após se despedir do amigo corretor, Heitor não perdeu tempo: pegou o telefone e ligou para a floricultura. Pediu um buquê de rosas mistas, vermelhas e cor-de-rosa, caprichado, como Helena merecia.
— Quero que seja entregue ainda hoje. No apartamento. — sua voz não deixava margem para erro. — É para a minha mulher. Já posso ditar o cartão?
Assim que desligou, apoiou-se na mesa, olhando ao redor do escritório. O tempo parecia escorrer por entre seus dedos. Os compromissos, as decisões, os contratos… nada disso pesava tanto quanto o quadro à sua frente. Na parede, o body branco e os sapatinhos minúsculos estavam emoldurados em madeira clara. Ele mesmo havia mandado preparar aquele espaço, pedindo um detalhe especial: uma faixa lisa ao redor da moldura, para que, no dia certo, pudesse escrever à mão o nome do seu bebê.
Seus olhos azuis se fixaram no quadro. O sorriso surgiu quase sem perceber.
— H... — murmurou para si. — Tem que ser com H. Heitor, Helena… nosso bebê também merece carregar essa marca.
Ficou ali, por alguns segundos, imaginando possibilidades, sonhando silenciosamente com um sorriso bobo na cara. O som do telefone interno quebrou o devaneio. Ele atendeu, voz firme.
— Sim?
— Senhor Monteiro, sua mãe chegou.
Heitor fechou os olhos por um instante, respirando fundo.
— Peça para ela entrar. E não deixe ninguém nos incomodar. — sua voz soou cortante. — Não quero nem que esperem na sala, entendido?
— Sim, senhor.
Desligou e afrouxou a gravata. Helena havia contato sobre como os “hormônios” a fizeram chorar quando atendeu a ligação de Lorena. Precisava de ajuda com o assunto.
Endireitou-se na cadeira, passando uma última vez as mãos pelos cabelos antes de encarar a porta.
Celina entrou no escritório com passos firmes e o olhar preocupado. E mesmo assim, ela era o tipo de presença que preenchia o ambiente sem precisar de palavras.
— O que houve? — sua voz soou direta, apreensiva. — Está tudo bem com a Helena? E com o meu neto?
Heitor se levantou, cruzando a sala rapidamente até ela.
— Está tudo bem, mãe. — respondeu, puxando-a para um abraço inesperado.
Celina, surpreendida, correspondeu com leveza, mas franziu o cenho ao se afastar.
— Como pode estar tudo bem? Você nunca me chama para vir aqui.
Heitor respirou fundo, segurando a mão dela com firmeza e guiando-a até as poltronas de couro próximas à janela. O sol batia suave, iluminando o rosto dele, deixando ainda mais evidente o semblante carregado de algo maior que preocupação.
Ele se sentou ao lado, apoiando os cotovelos nas pernas.
— Eu a chamei para conversar sobre outros assuntos.
— Quais assuntos? — Celina estreitou os olhos, já sentindo que a resposta não seria simples.
Heitor a encarou, os olhos azuis firmes, embora tensos.
— Vou ser direto. — respirou fundo. — Eu descobri quem é a mãe da Helena.
Celina não esboçou surpresa. O rosto dela permaneceu sereno.
— Isso é bom, não? Nesse período que ela vai passar… é importante que saiba.
Heitor balançou a cabeça devagar, a voz grave e carregada.
— Na verdade, é péssimo. Helena odeia a mãe dela. Odeia de verdade.
Celina arqueou uma sobrancelha, intrigada.
— E por quê? Achei que ela nem a conhecesse.
— A história é a seguinte… — ele respirou fundo, como se precisasse se recompor. — A mãe da Helena abandonou ela ainda bebê. O pai… não aguentou. Acabou se suicidando. Então, foram os avós que a criaram. Só que ela sempre foi muito cobrada para não repetir os erros da mãe, porque é muito parecida com ela. E isso é um peso enorme para ela.
Celina levou uma das mãos ao peito, um gesto raro de fragilidade.
— Que tragédia… Mas como descarregaram um fardo tão cruel em uma criança inocente?
Heitor suspirou fundo, como se o peso do segredo estivesse sufocando.
— É difícil mesmo de entender. Mas o problema, mãe… é que a mãe da Helena é a Lorena Medeiros.
Dessa vez, ele observou cada traço do rosto da mãe, esperando a reação. Mas o semblante dela permaneceu quase inalterado. Apenas um suspiro discreto escapou, denunciando que aquela não era uma revelação.
— Não está surpresa? — ele perguntou, incrédulo.
Celina cruzou as pernas devagar. Então ergueu o olhar firme para o filho.
— Não. Eu já sabia.
Os olhos de Heitor se arregalaram, o corpo se inclinou para frente.
— Desde quando?
— Faz um tempo. — admitiu, sem pressa. — Elas são muito parecidas. Tive um encontro com Lorena e, no mesmo instante, percebi as similaridades.
— E por que não me contou? — a voz dele saiu mais dura do que queria.
— Porque não cabe a mim essa decisão. — retrucou, calma como sempre. — A pergunta é: Helena sabe?
— Não. E nem deve. — Heitor se endireitou, os punhos cerrados. — A médica deixou claro que ela não pode se estressar. Por isso eu não contei.
Celina o observou em silêncio por alguns segundos, como se calculasse as próximas jogadas de um tabuleiro complexo. Por fim, falou baixo, porém firme:
— Heitor, como vamos esconder isso? Os Medeiros fazem parte do nosso círculo social. Mais cedo ou mais tarde, Helena vai cruzar com eles. Como vamos evitar?
— Só precisamos segurar até o bebê nascer. — disse com convicção.
Celina assentiu devagar, aceitando, mesmo contra o instinto.
— Tudo bem. Eu consigo fazer isso.
Heitor, porém, recostou-se na poltrona, exalando o peso de mais uma revelação.
— Só que tem mais uma coisa.
Celina inclinou levemente a cabeça.
— O quê?
Ele cerrou os lábios antes de soltar a bomba.
— Lorena já está em contato com a Helena.
Dessa vez, o rosto de Celina se transformou. Os olhos se arregalaram, a postura rígida ganhou uma tensão clara.
— Como assim?
— Ela pediu o número dela para agradecer por ter ficado na casa… e agora não para de mandar mensagens.
Celina levou a mão ao rosto, apoiando os dedos contra a têmpora, o olhar perdido por um instante.
— Por que fez isso, meu filho? — a voz dela saiu mais baixa, quase cansada.
Heitor ergueu os olhos, o maxilar travado.
— Não tive escolha. Eu não guardo segredos da Helena, e ela começou a desconfiar… até que eu a estava traindo.
Um silêncio pesado caiu entre os dois. Celina suspirou fundo, ajeitando-se na poltrona.
— Heitor… — murmurou, escolhendo cada palavra com cuidado. — Lorena quer se reconectar com a Helena. Agora que elas têm um canal direto, como vamos evitar?
Ele abriu as mãos, num gesto de rendição, e as deixou cair sobre os joelhos.
— Eu não sei… — admitiu, os olhos azuis carregados de frustração. — Mas se alguém consegue descobrir um caminho, esse alguém é a senhora.
Celina sustentou o olhar dele. O mesmo azul, firme, intenso, o mesmo tom. Por alguns segundos, mãe e filho se reconheceram no silêncio.
— Vou dar um jeito nisso. — disse, com a serenidade de quem já decidira. — Mas o mais importante é que… vamos ter que esconder a gravidez, pelo menos até o primeiro trimestre. Se a Lorena souber, vai querer se aproximar ainda mais. E nem mesmo eu vou conseguir evitar.
Heitor inclinou-se para frente, apoiando o rosto nas mãos, os dedos deslizando pelos cabelos como se tentasse encontrar ar em meio à confusão.
— Que confusão… — a voz grave saiu embargada. — Eu só queria fazer o chá de fraldas, o chá revelação… queria celebrar.
Celina se levantou sem pressa, o salto marcando o piso de madeira até parar atrás dele. Ela pousou a mão sobre o ombro largo do filho e, com delicadeza rara, inclinou-se e beijou o topo da cabeça dele.
— E vamos celebrar, meu filho. Mesmo que seja só nós, vamos fazer. Tudo bem?
O contato breve trouxe a Heitor a mesma sensação de quando era menino e se escondia no colo dela, achando que o mundo podia desabar que ela encontraria um jeito de manter tudo de pé.
— Vamos proteger a Helena. — Celina afirmou com firmeza, segurando o rosto do filho entre as mãos. — Somos a família dela. Estamos juntos nessa.
Heitor deixou escapar um sorriso pequeno, mas verdadeiro. Aquele sorriso que ele raramente deixava aparecer no mundo dos negócios. Ele fechou os olhos por um instante quando a mãe passou a mão pelos seus cabelos, num gesto quase infantil que o fazia sentir-se seguro.
— E falando em família… — Celina continuou, ajeitando-se melhor ao lado dele. — Você tem que falar com o seu avô.
O sorriso de Heitor morreu devagar.
— Mãe… quando falei com o meu avô sobre a Helena, ele não foi amistoso.
Celina soltou uma risada curta, sem humor.
— Heitor, seu avô não é amistoso com ninguém. Desde que sua avó faleceu, ele nem tenta mais fingir. Mas ainda assim, é o seu avô. É a nossa família.
Heitor olhou para baixo, mexendo nos punhos da camisa, pensativo.
— Ele ainda nem conhece a Helena. E se a tratar mal?
— Então você deve falar com ele antes de apresentá-la. — Celina respondeu, firme. — Prepara o terreno.
Heitor respirou fundo, como quem pesa cada decisão.
— Vou fazer isso.
— Leve seu pai com você. — completou Celina, o tom mais suave. — Ele está muito empolgado com o nosso neto. Você devia conversar com ele sobre esse momento que você está passando.
Os olhos de Heitor brilharam. Ele se recostou, respirou fundo e deixou escapar uma frase carregada de afeto:
— Eu amo meu pai. Ele é o melhor pai do mundo… e eu quero aprender com ele.
Celina sorriu, os olhos marejados de orgulho.
— Vai aprender com o homem certo. Nenhum outro foi marido ou pai melhor que o Renato.
— Eu sei. Eu quero ser para o meu filho como meu pai foi para mim.
Quando foi responder, algo na parede chamou sua atenção. Ela caminhou até o quadro novo, observando-o com cuidado. O body pequeno e os sapatinhos emoldurados estavam ladeados por um espaço vazio, reservado para o nome que ainda seria escolhido.
— Ficou ótimo, meu filho. — disse com a voz embargada, os lábios curvados em um sorriso que misturava nostalgia e emoção.
Heitor se aproximou, o semblante iluminado.
— Ficou, né? Eu também adorei! — o sorriso dele era largo, quase infantil. — Quando olho pra esse quadro, fico fantasiando o bebê correndo pela sala… as risadas enchendo o espaço.
Celina sorriu, tocando de leve a moldura.
— Você era assim. Adorava vir visitar o seu pai no trabalho. Seu pai até deixou um canto na sala para você brincar.
Heitor suspirou, os olhos fixos na lembrança que não se lembrava, mas que agora conseguia visualizar.
— Vou fazer isso com meu filho.
— Acha que é menino? — Celina provocou, arqueando uma sobrancelha.
Heitor pensou por um instante, e o sorriso voltou, maroto.
— Acho que é menina.
— Por quê? — perguntou curiosa.
— Li na internet que muitos enjoos querem dizer que é menina.
Celina riu, imaginando Helena bufando ao descobrir que Heitor se orientava pela internet.
— Tomara que seja mesmo. Quero enchê-la de vestidos e laços.
— Quero que ela se sinta uma princesa. — completou Heitor, os olhos brilhando de orgulho e ternura enquanto olhava para o quadro.
Celina, com o coração transbordando, passou o braço em volta do filho e o abraçou de lado. Ele se deixou envolver, fechando os olhos por um instante. Naquele gesto, não havia CEO, nem herdeiro, apenas o menino dela, agora prestes a ser pai.
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