O CEO que Eu Paguei
158 Dias de Glória, Dias de Luta
Depois de se despedir da mãe, Heitor afrouxou a gola da camisa, desabotoando os três primeiros botões. Precisava de ar. O encontro tinha mexido mais com ele do que gostaria de admitir. E, ainda assim, havia uma certeza clara: precisava manter Helena ocupada, feliz, cercada de coisas boas, para que Lorena não ocupasse nenhum espaço em sua mente.
Caminhou até a mesa lateral, onde repousava uma garrafa de whisky envelhecido. Serviu-se de um copo, girou o líquido âmbar com calma e se aproximou da parede de vidro. Do alto, contemplava o Rio de Janeiro em todo o seu contraste: caótico, vibrante e belo.
E sorriu. Sorriu feito um tolo.
Ele tinha tudo. Tudo que, por tanto tempo, nem soube que desejava. Uma mulher linda, que ele amava com uma intensidade que o desmontava. Um filho a caminho, pequeno demais para o mundo, mas já imenso dentro dele. Uma família se formando, não apenas no papel ou nas expectativas sociais, mas no coração.
Quando era menino, seu maior medo era não ser forte o suficiente para carregar o nome Monteiro. Agora, percebia que não apenas tinha fibra… como já estava moldando um legado ainda mais precioso: a sua família. Riu sozinho, balançando a cabeça. Que loucura.
No começo do ano, era só ele e a empresa. Viagens intermináveis às filiais, reuniões duras, metas sufocantes. Lembrava-se de como chegou naquela cidadezinha do interior, irritado, contando os dias para voltar ao Rio. E, de repente, aquela mulher deliciosamente irresistível apareceu, com um convite que ele nem pensou, apenas foi. E por causa daquele instante impensado, a vida inteira havia mudado.
Como foi que ela o chamou mesmo naquele dia? Nem lembrava. Não importava. Importava apenas o que veio depois. Estava no lugar certo, na hora certa.
Deu um gole na bebida quente, sentindo o ardor descer pela garganta e a sensação de orgulho se espalhar no peito.
Pensou no avô. Foi por causa dele que aquela filial perdida existia. Talvez devesse aumentar a verba do lugar, honrar de alguma forma o destino que o havia levado até Helena. "Santa filial", murmurou em pensamento.
Mas quando a lembrança dela veio à mente, seu coração se aqueceu de verdade. Helena. Como podia amar tanto uma única pessoa? Era um sentimento visceral, arrebatador, como se o mundo inteiro tivesse se reorganizado ao redor dela.
Heitor suspirou, quase sorrindo.
— Você me mostrou que eu nunca soube nada sobre o amor... até te encontrar. — murmurou para o reflexo no vidro, mas era para ela que falava.
Pensava no seu filho, e uma certeza crescia dentro dele: não queria perder nada. Queria acompanhar de perto cada semana da gestação, ver cada detalhe, cada mudança, cada pequeno avanço. Já conseguia se imaginar sentado ao lado de Helena em todas as consultas, olhando para a tela do ultrassom, vibrando como se fosse a primeira vez.
Será que seria parecido com ele? Ou com Helena? Um sorriso maroto escapou — se fosse menina com o rosto da mãe, ele ia passar mal de ciúmes. Ia ter que se preparar para um futuro de rapazes batendo à porta, e só de pensar nisso sua cabeça já doía. Mas logo olhou para o quadro com o sapatinho e o body, e seu coração derreteu:
— Quer saber? Eu adoraria que fosse uma menininha igual a ela.
Imaginou aquela pequena com os olhos castanhos de Helena, rindo pelos corredores da casa. Iria criá-la com todo o amor do mundo, todo o carinho que Helena nunca recebeu quando criança. Só de imaginar já sentia uma onda de ternura invadir seu peito.
De repente, um nome surgiu em sua mente. Forte, doce e lindo. Heloísa.
— Nossa… é perfeito. — sorriu sozinho, quase sem acreditar na empolgação que o dominava.
Pegou o celular na mesma hora e gravou um áudio:
— Amor, o que acha de Heloísa? Eu adorei esse nome! Veio na minha cabeça agora e grudou. Quero muito, muito, muito, amor! Vão ser Helê e Helô.
Não demorou e o celular vibrou com a resposta dela. A voz doce de Helena veio no áudio:
— Eu gostei também! É um nome forte e ao mesmo tempo fofo. Vou escrever para as opções. Já que você escolheu para menina, eu vou escolher para menino.
Heitor abriu um sorriso largo e respondeu rápido, a voz carregada de animação:
— Combinado, mas tem que ser um nome com H, OKAY?
Deu uma risada curta no meio da fala e emendou, brincalhão:
— Nada a ver com “homem com H”, viu? Quero dizer a inicial H, como as nossas.
Helena respondeu com vários emojis rindo, e mandou outro áudio com aquele tom leve que ele amava:
— Eu sei, né idiota. Pode deixar, eu tenho tempo para pesquisar e escolher.
Heitor riu sozinho, ouvindo a risada de Helena no áudio. Aquela gargalhada genuína tinha o poder de desarmá-lo sempre — parecia música, era o seu lar. Apertou o celular contra o peito por um instante, como se pudesse sentir a presença dela ali, misturada à lembrança recente do ultrassom e ao som acelerado do coraçãozinho que já pulsava dentro dela.
Virou-se para o quadro novamente, os olhos marejando sem que percebesse. O sapatinho, o body, aquele espaço vazio esperando um nome… agora Heloísa tinha se tornado mais do que uma ideia. Tinha se tornado possibilidade.
— Helê e Helô… Heloísa Monteiro. — repetiu em voz baixa, testando como soava. E riu feito um menino.
Queria acompanhar tudo. Cada semana. Cada pequeno avanço. Já tinha até pesquisado em sites de gestantes o que acontecia em cada fase — o tamanho, o peso, quando se formavam os primeiros traços do rosto. O coração dele vibrava só de imaginar ver Helena segurando a barriga, sabendo que lá dentro havia uma parte dele com uma parte dela.
Ele fechou os olhos por um instante. A mente, inevitavelmente, viajou para o futuro.
Se fosse menina… queria que tivesse o sorriso e a doçura da mãe. Iria protegê-la do mundo inteiro, com a força de um exército, se fosse preciso. Mas, no fundo, sabia que provavelmente seria ela quem o faria derreter — a pequena princesinha que iria conquistá-lo do mesmo jeito que Helena havia feito.
Se fosse menino… esperava que herdasse os olhos azuis dos Monteiro. Forte, seguro, com fibra para carregar o nome da família, mas com a ternura que ele mesmo só aprendeu depois de conhecer Helena.
Abriu os olhos, respirou fundo e digitou outra mensagem curta, mas intensa:
Heitor:
“Eu prometo que esse bebê vai ter tudo, Helê. Tudo o que você não teve, tudo o que eu nunca sonhei que poderia dar. Uma infância de verdade. Uma família de verdade.”
Ficou olhando a tela, esperando que Helena sentisse seus sentimentos. Não precisava de resposta imediata. O mais importante era que ela soubesse.
Heitor apoiou a testa no vidro, o Rio brilhando diante dele, e sorriu.
— Obrigado, vida… — sussurrou. — Obrigado por colocar vocês duas no meu caminho.
O celular vibrou em sua mão, e Heitor pegou de imediato, sorrindo como um idiota apaixonado. Será que Helena já tinha pensado em algum nome de menino? Será que viria a escolha perfeita para se opor a “Heloísa”?
Desbloqueou a tela apressado, mas o sorriso morreu no mesmo instante. O coração pareceu falhar uma batida.
Número desconhecido.
No WhatsApp, uma única mensagem:
Desconhecido:
"Boa tarde."
O ar ficou pesado, denso, como se o ambiente encolhesse. Heitor não precisou nem focar direito na foto do perfil para saber quem era. Reconheceria aquele rosto maldito em qualquer lugar.
Um frio tomou seu estômago, mas logo subiu, queimando como fogo por dentro. As bordas da sua visão ficaram turvas, o sangue correndo rápido demais em suas veias.Como Antonio Fortenelle ousava? Depois de todos aqueles anos, depois de tudo o que ele fez… como se atrevia a mandar mensagem para ele, e ainda no seu número particular?
A mandíbula de Heitor travou, os dedos se fecharam em torno do celular com tanta força que os nós ficaram brancos. A raiva era quase física, quase palpável. Queria esmagar o aparelho, sumir com aquela mensagem insolente.
Mas então, como se a voz dela ecoasse dentro dele, lembrou-se das palavras de Helena na noite anterior.
"Você devia fazer as pazes com ele… Não precisam ser amigos, mas podiam se acertar. Heitor, você é o melhor homem que eu conheço. Eu tenho muito orgulho de você. Eu te amo".
Ela acreditava nisso. Helena, com aquele coração ingênuo e puro, achava que ainda havia espaço para conciliação. E ele… ele tinha prometido protegê-la de tudo. Inclusive dos fantasmas do passado.
E Fortenelle… maldita sorte dele. Porque no fim, tinha ajudado Helena ontem, quando aquele sujeito a importunou. Esse fato que Helena o contou, caiu sobre Heitor como uma pedra.
Respirou fundo, as narinas inflando. O ódio não se dissolvia, mas se contornava num autocontrole frio. Ele não sabia se era capaz de perdoar Antonio. Talvez nunca fosse. Mas poderia, pelo menos, ouvir o que aquele homem tinha a dizer.
Com a respiração pesada e o maxilar ainda rígido, digitou devagar, cada letra carregada de rancor e contenção.
Heitor:
"O que você quer?"
O dedo pairou sobre o botão de enviar. Apertou.
E esperou.
Fortenelle:
"Quero conversar com você."
Heitor encarou a tela por alguns segundos, como se as palavras ardessem.
Fortenelle:
"Podemos nos encontrar?"
Os olhos de Heitor se estreitaram, a desconfiança saltando em cada músculo do rosto.
Heitor:
"Para qual finalidade?"
A resposta veio rápida, seca.
Fortenelle:
"Acho que é o momento de deixarmos nossos orgulhos de lado.
E termos uma conversa de homens."
Heitor largou o celular sobre a mesa e esfregou o rosto com as mãos. O sangue fervia em suas veias, mas a mente gritava o conselho de Helena. Respirou fundo, uma, duas, três vezes, tentando domar o vulcão que sempre surgia quando se tratava de Antonio Fortenelle.
Pelo bem dela. Pelo bem do filho deles. Por aquilo que estavam construindo juntos.
Pegou o celular de volta, o polegar pairando sobre o teclado. As palavras saíram duras, breves, sem espaço para mal-entendidos:
Heitor:
"Onde?"
Quase de imediato, a notificação surgiu. Antonio havia compartilhado a localização. Um restaurante com salas privativas para executivos, em um dos pontos mais reservados da Zona Sul.
Heitor fixou o olhar no mapa. Um peso no peito, mas também uma decisão clara: iria. Não por Fortenelle. Mas por Helena e pelo bebê.
O motor do Aston Martin branco ronronava firme enquanto Heitor atravessava a orla, em direção ao restaurante onde o aguardava Antônio Fortenelle. O céu do Rio estava tingido de laranja, e a brisa da tarde trazia o cheiro salgado do mar.
Girou o botão do rádio quase sem pensar, buscando apenas um fundo qualquer. Mas então, reconheceu os primeiros acordes.
Fazia anos que não ouvia aquela música.
“... Canto a minha vida com orgulho
Na minha vida nem tudo acontece
Mas quanto mais a gente rala, mais a gente cresce
Hoje estou feliz porque eu sonhei com você
E amanhã posso chorar por não poder te ver mais…”
Heitor apertou o volante com mais força, os olhos fixos na estrada. Era como se o destino tivesse decidido lembrá-lo, ali, no silêncio da cabine de vidro, do que realmente importava.
“O seu sorriso vale mais que um diamante
Se você vier comigo, aí nós vamo adiante
Com a cabeça erguida e mantendo a fé em Deus
O seu dia mais feliz vai ser o mesmo que o meu”
No final, importava a Monteiro Inc., as negociações, a guerra com Fortenelle. Mas sim Helena. E aquele pequeno coração que pulsava dentro dela.
“...A vida me ensinou a nunca desistir
Nem ganhar, nem perder, mas procurar evoluir
Podem me tirar tudo que tenho
Só não podem me tirar as coisas boas que eu já fiz pra quem eu amo
E eu sou feliz e canto, o Universo é uma canção
E eu vou que vou…”
O sinal fechou, e ele parou o carro. Do lado de fora, turistas caminhavam rindo, vendedores passavam com isopores nas costas. A vida corria no ritmo simples. No ritmo normal. Quantas milhões de pessoas existiam naquele mundo? Todas procurando a sua felicidade. Algumas nunca iriam encontrar, outras encontrariam e não a reconheceriam até a perder, e ainda assim, existiam pessoas como ele que tinham o privilégio de terem alguém para dividir aquela enorme felicidade.
“...História, nossas histórias
Dias de luta, dias de glória…”
Ele respirou fundo. Imaginou Helena em casa, talvez descansando, a mão pousada sobre a barriga. Imaginou o bebê. Uma mão minúscula agarrando o dedo dele. O primeiro choro. O olhar de Helena iluminado, cansado, mas cheio de amor. Ele embalando o bebê nos braços até ele pegar no sono.
O sinal abriu. Ele engatou a marcha, seguindo em frente.
“...Ô, minha gata, morada dos meus sonhos
Todo dia, se eu pudesse, eu ia estar com você
Eu já te via muito antes nos meus sonhos
Eu procurei a vida inteira por alguém como você
Por isso eu canto minha vida com orgulho
Com melodia, alegria e barulho
Eu sou feliz e rodo pelo mundo…”
Um sorriso discreto se formou nos lábios dele.
Por um instante, a tensão de encontrar Fortenelle pareceu menor. Como se nada, nem rivalidade, nem o passado, tivesse realmente poder sobre ele. Não quando pensava no que o esperava em casa.
“...Sou correria, mas também sou vagabundo
Mas hoje dou valor de verdade
Pra minha saúde e pra minha liberdade
Que bom te encontrar nessa cidade
Esse brilho intenso me lembra você…”
E, enquanto a cidade se desenrolava pela janela, o Cristo ao fundo, a areia da praia, o caos e a beleza do Rio, Heitor dirigia não apenas para resolver “pendências” do seu passado. Mas para o futuro.
Um futuro em que queria estar inteiro. Para ela. Para os dois.
Quando chegou, anunciou o nome na recepção. Um garçom elegante o conduziu por corredores discretos até uma sala reservada.
Ao abrir a porta, Heitor encontrou Antônio Fortenelle. Estava exatamente como se lembrava: odioso, arrogante até no silêncio. Mas havia algo diferente — o semblante sério, como se carregasse um peso invisível nos ombros.
Heitor atravessou o espaço sem desviar os olhos. O som firme de seus passos ecoou pelo piso, quebrando o ar carregado. A cadeira rangeu quando ele a puxou e se sentou oposto a Antônio Fortenelle. O olhar azul dele era cortante, frio, estava diante de um inimigo declarado. Fortenelle, no entanto, não tinha o semblante desafiador de antes. Estava sério, quase abatido, como se carregasse algo pesado nos ombros.
— Comece — disse Heitor, sem rodeios, o tom firme, quase uma ordem.
Antonio soltou um suspiro longo e abriu o cardápio, apenas para entregá-lo ao rival.
— Não vai pedir nada? — perguntou, a voz baixa, quase mansa. — A conversa vai ser longa.
Heitor apenas encostou o cardápio na mesa.
— Uma água com gás.
Fortenelle apertou a campainha e quando o garçom se aproximou, pediu o mesmo que Heitor. Acrescentou ostras frescas com molho de champagne. Heitor não moveu um músculo. O silêncio era tão denso que parecia que cada segundo arranhava a pele.
— Qual a finalidade desse encontro? — Heitor quebrou o clima, direto.
Fortenelle passou a mão pela barba, os olhos verdes com a cicatriz descendo da sobrancelha até a maçã do rosto o tornavam ainda mais intenso. Mas sua expressão era diferente daquela arrogância habitual. Estava… melancólica.
— Helena… ela conversou com você?
Heitor estreitou os olhos.
— Sim. Ela me contou.
Fortenelle esboçou um sorriso fraco, sem alegria.
— Que bom… que bom que ela falou com você.
— Somos namorados — a voz de Heitor saiu grave, firme, com uma nota de posse. — Nós falamos de tudo um com o outro.
Fortenelle assentiu devagar, como se reconhecesse algo ali.
— Isso é… muito bom. Muito mesmo.
Heitor respirava fundo, internamente repetindo para si mesmo: Calma, Heitor. Por ela. Pelo bebê.
Fortenelle se inclinou para frente, os cotovelos apoiados na mesa, entrelaçando os dedos. Olhou diretamente nos olhos de Heitor, e por um instante, parecia mais um homem quebrado do que um rival.
— Nós dois temos um passado, Monteiro. Mas com as últimas notícias… o passado precisa ficar no passado.
Heitor manteve o silêncio, apenas tamborilando os dedos na mesa.
— Somos homens adultos. CEOs. Vivemos o presente pensando no futuro. — Fortenelle respirou fundo, como se as palavras lhe custassem. — Eu errei com você. Muito. E… — ele engoliu em seco, baixando por um instante a cabeça, antes de erguer de novo o olhar. — Gostaria de pedir desculpas.
Heitor arqueou uma sobrancelha.
— Desculpas? — a palavra saiu como um corte.
— É. — Fortenelle respondeu com firmeza, mesmo mantendo o tom baixo. — Eu realmente lamento muito por tudo que fiz. Por cada provocação, cada golpe baixo, cada vez que tentei te diminuir. — O olhar dele se fixou na mesa por um segundo, antes de voltar a encarar Heitor. — Você pode não acreditar, mas eu reconheço que errei.
Fortenelle passou a mão pelo rosto, fechou os olhos por um instante. Quando voltou a olhar, não havia deboche, não havia sarcasmo. Apenas uma melancolia estranha para um homem como ele.
O silêncio caiu de novo. O garçom entrou novamente, colocou duas águas geladas sobre a mesa, cada copo com gelo e uma rodela de limão na borda. Serviu com discrição e se retirou, deixando o peso da sala intacto.
Heitor pegou o copo, mas não bebeu.
— Desculpas são só palavras, Fortenelle. — a voz dele era firme, controlada. — Vamos ver se consegue sustentá-las com atitudes.
Fortenelle não rebateu. Apenas inclinou levemente a cabeça, como quem aceitava a desconfiança.
— Eu sei que não vou apagar o que fiz. Mas… talvez eu possa provar que posso ser diferente.
Os dois se encararam, em silêncio, como se aquela sala fosse um campo de batalha invisível. Pela primeira vez, o orgulho não era apenas deles. Havia algo maior na mesa: Helena. E o bebê.
Heitor respirou fundo, o maxilar travado. O som daquela frase ecoava como uma ironia da vida. O rival de anos, o homem que sempre o cutucou, agora vinha com palavras de arrependimento. Parte dele queria levantar e ir embora, mas havia a voz de Helena na memória, suave e firme: “Se vocês fossem aliados, conquistariam muito mais. Foi o que eu disse para ele, e eu realmente acredito nisso”.
— Eu não posso te perdoar — disse Heitor, firme, apoiando os cotovelos nos braços da caldeira. — Mas posso tentar te tolerar.
Fortenelle inclinou a cabeça, um sorriso curto e cansado no rosto.
— Isso já é ótimo, Monteiro. — a voz dele soou baixa, quase um alívio. — Já é um começo.
Fortenelle pegou o copo de cristal e girou a bebida devagar, observando as bolhas subindo. Bebeu um gole, respirou fundo e olhou para baixo, como se organizasse pensamentos.
— Isso não está sendo fácil pra mim, Monteiro. — a confissão saiu rouca, sincera. — Mas com tudo que aconteceu, eu preciso tomar atitudes de homem. Atitudes que se esperam de mim a partir de agora.
Heitor não respondeu. Apenas levou o copo aos lábios e bebeu um gole curto. O olhar fixo nele, como se estivesse analisando cada músculo do rosto de Fortenelle.
— Você sempre foi intenso, né? — Fortenelle tentou, com um meio sorriso. — Até no jeito de me odiar.
Heitor manteve a expressão fechada, quase de pedra.
— Você não me deu motivo pra ser diferente.
Fortenelle assentiu, aceitando o golpe. Passou a mão pelo queixo barbeado e soltou um suspiro.
— Eu sei. E sei também que esse nosso histórico não vai sumir com meia dúzia de palavras. — a voz dele ficou mais baixa, quase num tom de confidência. — Mas eu tô tentando aqui… de verdade.
Heitor apertou o copo, os nós dos dedos brancos.
— Eu não tô aqui pra ouvir drama, Fortenelle.
Fortenelle ergueu as sobrancelhas, mas o sorriso fraco não se apagou.
— Não é drama. — ele deu um gole lento na água. — É… realidade. Eu sempre estive contra você. E, no fundo, acho que era porque eu sabia que você tinha aquilo que eu não tinha. — olhou fixo, sem piscar. — Eu escondia isso com arrogância.
Heitor não respondeu. Apenas ajeitou o corpo na cadeira, rígido, o maxilar travado.
— Eu sei que não adianta puxar assunto como se fôssemos velhos amigos. — Fortenelle tentou de novo, com um tom quase leve. — Mas… se me permite dizer, não achei que fosse ficar tão bem de branco. Parece um homem imaculado, um bom… homem.
Heitor piscou devagar, cada fibra dele pedindo paciência.
— Você não sabe até onde tá pisando, Fortenelle.
Fortenelle ergueu as mãos, rendido.
— Tá certo. Não vou forçar. Só… precisava que soubesse que não quero ser mais aquele idiota que sempre te provocava.
O silêncio voltou, pesado. Heitor mexia o gelo no copo, os olhos nunca deixando os de Fortenelle. Por dentro, sua mente gritava para levantar e ir embora. Mas por Helena… e pelo bebê… ele ficou.
Fortenelle girava o copo lentamente, o gelo tilintando. A voz dele saiu calma, mas carregada de um peso estranho:
— Eu sempre achei que você tinha tudo o que eu nunca tive, Monteiro. Família, respeito, herança, prestígio, amor… Mas agora… finalmente, eu tenho algo que é meu.
Heitor o encarou sério, respirando fundo.
— Você sempre teve suas próprias coisas, Fortenelle. Só nunca quis enxergar. — apertou os dedos contra o braço da cadeira, firme. — Bom pra você que finalmente acordou.
Fortenelle soltou um riso curto, quase satisfeito.
— Pois é… mas agora chegamos à parte complicada.
Ele ergueu os olhos verdes e fixou-os nos de Heitor. A cicatriz parecia mais marcada sob a luz da sala, cortando o rosto dele em duas verdades: uma fria, a outra sombria.
— O bebê da Helena… ele não é seu.
Heitor arregalou os olhos. O choque foi tanto que ele começou a rir — um riso nervoso, quase histérico. Mas logo o riso morreu, dando lugar a um silêncio mortal.
— Que tipo de piada é essa, Fortenelle? — a voz grave ecoou pela sala. — Isso não tem graça nenhuma.
Fortenelle , no entanto, permaneceu sério, quase terno.
— Monteiro… o bebê que Helena está esperando… é meu.
Heitor fechou os punhos sobre a mesa com tanta força que os nós dos dedos ficaram vermelhos. O peito dele subia e descia num ritmo violento, como um animal enjaulado prestes a atacar.
— O que você está insinuando? — a voz saiu baixa, rouca, mas carregada de ódio. Sua visão se turvava, tudo ao redor virando borrão. Só Fortenelle permanecia ali, como um alvo.
Fortenelle apoiou os cotovelos na mesa, tranquilo, quase blasé.
— Eu e Helena… tivemos relações.
Heitor levantou-se tão rápido que a cadeira tombou para trás com estrondo.
— CALE ESSA SUA BOCA SUJA! — ele bradou, apontando o dedo em riste, os olhos azuis faiscando prestes a pegar fogo.
Fortenelle, frio, não se moveu. Apenas ergueu as sobrancelhas, como quem já esperava aquela explosão.
— Monteiro… essa sua reação não muda o que já aconteceu.
— ISSO É IMPOSSÍVEL, SEU MERDINHA! — Heitor urrava, a respiração pesada, os ombros tensos como se fossem se romper.
Fortenelle inclinou-se para frente, os olhos verdes gélidos e cruéis.
— Helena te contou que nos conhecemos antes de ela ir pra FORT GROUP? — disse devagar, saboreando cada palavra. — Nós nos envolvemos. Você nunca achou estranho o entusiasmo dela em estar lá?
Heitor arfava, cada palavra de Fortenelle parecia gasolina jogada em chamas.
— Ela se arrependeu, claro… — continuou Fortenelle, a voz quase suave. — Mas pelas contas… essa criança pode ser minha.
— FORTENELLE! — Heitor gritou, a veia do pescoço saltada, o corpo inteiro vibrando de ódio. — VOCÊ ESTÁ JOGANDO UM JOGO MUITO PERIGOSO!
Fortenelle suspirou, como se carregasse um peso que não era dele. Então se recostou na cadeira, cruzando os braços, impassível.
— Eu vim aqui pra conversar como homens. Quero deixar as diferenças de lado por conta do bebê. Mas, se não resolvermos isso de forma civilizada, como cavalheiros… vou solicitar um exame de paternidade via meu advogado.
O silêncio da sala que precedeu o caos foi tão denso que parecia pulsar. Heitor já estava de pé, os olhos azuis turvos de fúria, respirando pesado como um touro prestes a investir. Fortenelle permanecia sentado do outro lado da mesa redonda de madeira, mas o maxilar travado e o punho cerrado denunciavam que ele não estava recuando.
Heitor apontou o dedo para ele, a voz grave estremecendo o ar:
— NUNCA MAIS OUSE FALAR DA HELENA. NEM DO MEU FILHO!
Fortenelle se inclinou para frente, o olhar verde em puro ódio.
— Seu filho? — a cicatriz no rosto dele parecia mais funda como se engolisse a luz. — Não seja ridículo, Monteiro. Você sabe que pode ser meu.
O som da cadeira sendo arrastada violentamente ecoou quando Heitor a chutou para trás e avançou. O chão pareceu tremer sob o peso dos seus passos. Antônio se levantou no mesmo instante, e os dois se encontraram no meio, como dois animais que passaram décadas esperando aquele embate.
O primeiro soco de Heitor pegou em cheio na boca de Antonio. O estalo seco reverberou no peito de ambos. Antonio cambaleou, mas antes que Heitor desferisse outro, agarrou o copo de cristal da mesa e o quebrou contra a lateral da cabeça dele. O estilhaço explodiu no ar, cortando a pele de Heitor, que grunhiu em dor, sentindo o sangue quente escorrer pela têmpora.
Ele não recuou. O sangue só o deixou mais furioso. Heitor segurou Antonio pelo colarinho e o arremessou contra a mesa. A madeira gemeu sob o impacto, copos tombaram, uma das jarras de água se espatifou no chão. Antonio revidou na hora, o punho socando as costelas do rival. O ar saiu de Heitor em um rosnado, mas ele respondeu com um cruzado de direita no olho de Antonio, fazendo sua cabeça virar violentamente para o lado.
— FILHO DA PUTA! — Antonio cuspiu sangue no carpete. A sua cicatriz parecia ter sido aberta.
Heitor não esperou resposta. Jogou o corpo inteiro contra ele, derrubando-os juntos no chão. Rolaram entre cadeiras, cada um tentando ficar por cima. Heitor, mais forte, conseguiu dominar, socando sem piedade, os punhos grandes descendo contra o rosto pálido de Antônio, que logo se manchou de vermelho.
Antonio, desesperado, tateou o chão e buscou qualquer coisa — a outra garrafa de água caída no chão. Pegou pelo gargalo e, com a força que tinha, estourou contra o ombro de Heitor. Os estilhaços se espalharam em faíscas, e a camisa social de Heitor se abriu em tiras, manchada pelo sangue que brotava dos cortes fundos. Heitor rugiu, recuando um segundo. Antonio aproveitou para se erguer e, mesmo mancando, avançou de novo, cravando o ombro magro contra o peito largo do rival.
Ambos bateram contra a parede. O gesso trincou com o impacto.
Ofegantes, olhos marejados de dor e ódio, trocaram mais golpes curtos, pesados, até a respiração deles se transformar em urros roucos. O sangue de Heitor escorria pela lateral do rosto, o de Antônio pingava do nariz e da boca, escorrendo pela camisa social branca que também usava. O corte aberto de seu olho manchou seu olho de vermelho.
Não havia técnica, não havia estratégia. Era só ódio. Décadas de rancor explodindo em cada soco, cada chute, cada agarrão. Heitor esmagava Antônio contra a parede, enquanto Antônio, mesmo mais fraco, revidava com a raiva de quem preferia morrer a perder.
Os nós dos dedos de Heitor estavam em carne viva, cada soco rasgava ainda mais a pele, o sangue se espalhava no rosto de Antônio e escorria também pelas mãos dele. Mas ele não parava. A raiva tinha apagado qualquer raciocínio, ele não enxergava nada além da necessidade de esmagar aquele homem embaixo de si.
Antonio cuspia sangue a cada pancada, mas havia um brilho enlouquecido no verde dos seus olhos. A dor não existia. Não para ele. O sangue que escorria de Heitor era como fosse um lembrete: Heitor não é invencível. Heitor não é um deus.
Ele soltou uma risada rouca, quase histérica, mesmo com a boca arrebentada.
— É só isso, Monteiro? É isso que você é? — cuspiu mais sangue no rosto dele. — Eu sempre tive chance contra você!
O insulto foi como gasolina no fogo. Heitor levantou o punho e desceu de novo, mas Antônio conseguiu segurar o braço dele com as duas mãos, sentindo os músculos grossos tremerem sob o esforço. Heitor urrava, tentando se soltar, enquanto Antônio, com o rosto inchado e cortado, empurrou com todas as forças e conseguiu virar o corpo, jogando Heitor para o lado.
Ambos rolaram pelo chão, derrubando a mesa inteira. A madeira rachou em duas, pratos e talheres se espalharam em meio ao sangue que coloria o chão.
Heitor se levantou primeiro, o peito subindo e descendo como um animal acuado. O sangue escorria da têmpora e pingava no colarinho aberto da camisa. Antônio, mancando, levantou logo atrás. Estava irreconhecível — nariz quebrado, olho roxo, dentes manchados de vermelho. Mas sorria, um sorriso torto, cheio de dentes sujos de sangue.
— VAMOS LÁ, MONTEIRO. — ele abriu os braços, cambaleante, o corpo magro firme no desafio. — ME MOSTRA QUE VOCÊ É O HERDEIRO PERFEITO... ME MOSTRA PORQUE TODO MUNDO PREFERE VOCÊ!
Heitor não pensou. Avançou de uma vez, o punho fechado disparando em linha reta. O direto atingiu Antônio com força, arremessando-o contra a parede. O impacto ecoou seco, mas ele não recuou.
Com um movimento desesperado, Fortenelle ergueu a garrafa quebrada que ainda segurava. O vidro reluzia sob a luz antes de rasgar o antebraço de Heitor. Tentou cravar no pescoço, no peito — mas a posição não lhe dava alcance. Então, numa fúria cega, passou a enfiar a ponta serrilhada no braço de Heitor, uma, duas, várias vezes.
O sangue jorrou quente, respingando nos dois, salpicando a parede atrás.
Heitor rugiu de dor, mas não recuou. Agarrou o pescoço de Antônio com uma das mãos, esmagando sua traqueia contra a parede. Antônio sufocava, mas a fúria o fazia resistir, e com um golpe rápido de joelho acertou o estômago de Heitor, que cambaleou para trás.
Eles estavam irreconhecíveis. Dois homens de quase quarenta anos, vestidos em roupas sociais agora rasgadas, sujos de sangue e suor, se batendo como se a vida inteira dependesse disso.
A sala parecia pequena demais para conter tanto ódio. O som de socos secos, grunhidos, móveis se quebrando e respingos de sangue dominava o espaço.
Por um momento, qualquer pessoa que entrasse acreditaria que um dos dois não sairia dali com vida.
O barulho da porta batendo contra a parede ecoou, mas nem Heitor nem Antônio perceberam. A única coisa que os dois distinguiam era a presença um do outro, como se o mundo inteiro tivesse se apagado. Dois touros em fúria, cegos pela raiva.
— MONTEIRO! VOCÊ NUNCA VAI CRIAR O MEU FILHO!!! — rugiu Antônio, a boca cuspindo sangue, os dentes manchados de vermelho.
— VOU TE MANDAR DIRETO PARA O INFERNO, FORTENELLE! — Heitor urrava, cada palavra cuspida.
Os seguranças entraram em peso, três, quatro homens fortes, e logo mais garçons apareceram, tentando afastá-los. Mas não era uma briga comum — era o ódio de 33 anos explodindo. Heitor arrastava dois seguranças pelo braço enquanto ainda tentava socar Antônio, que, mesmo magro e ensanguentado, parecia movido por uma força insana, empurrando três homens contra a parede só para avançar de novo.
Os dois grunhiam, se xingavam, vociferavam palavrões que mal se entendiam em meio ao barulho das porcelanas quebradas e o som seco de corpos se chocando. Era uma carnificina de ódio.
O rosto de Antônio já estava desfigurado, o nariz torto, o olho fechado pelo inchaço, mas os olhos verdes brilhavam como faróis de rancor. Heitor, com os nós dos dedos em carne viva, o sangue escorrendo dos cortes no braço e a respiração arfante, parecia uma besta prestes a tombar — mas ainda avançava.
— EU VOU TE MATAR, FORTENELLE! — a voz dele ecoava como trovão.
— VOCÊ NUNCA FOI MELHOR QUE EU! NUNCA!!! — Antônio berrava de volta, cuspindo sangue nos sapatos caros do rival.
Os seguranças berravam “PAREM! PAREM!”, mas nada chegava aos ouvidos deles. Os dois homens eram como cães que morderam e não sabiam soltar.
Então, Heitor sentiu.
Não foi a dor — a dor já não existia. Era o vazio. O calor da raiva, que o mantinha de pé, começou a se dissipar como fumaça ao vento, deixando apenas um corpo pesado demais para sustentar.
O braço, antes certeiro nos socos, agora tremia como se carregasse toneladas. Tentou erguê-lo, mas parecia de ferro, imóvel e inútil. O ombro latejava, o sangue escorria quente pela manga da camisa rasgada, infiltrando o tecido e grudando em sua pele. Sentia o líquido descer pelos dedos, escorrer até pingar no chão, formando manchas escuras no piso.
O peito arfava — mas o ar não vinha. Respirar parecia engolir pedras. O coração batia descompassado, forte demais num segundo, fraco demais no outro, como se fosse explodir ou simplesmente parar. Cada batida era um soco por dentro, um compasso irregular que o deixava mais tonto, mais distante.
E então veio o frio. Um frio estranho, profundo, que atravessava a pele e os ossos. Não era o vento, não era o ar-condicionado. Era interno. Como se, de repente, não estivesse mais no Rio, mas em algum lugar distante, vazio de calor e de vida.
A visão tremia em preto. Primeiro nas bordas, depois avançando como uma mancha de tinta, engolindo tudo. Rostos apareceram do nada e se tornaram borrões indistintos, vozes se transformaram em ecos distantes. Apenas vultos gritavam seu nome, mas não havia identidade em nenhum deles.
— Senhor Heitor! — alguém bradou, mas era uma voz sem dono.
Ele tentou erguer a mão, talvez para mandar parar, talvez para afastar o caos… mas nada aconteceu. O braço não se movia. Olhou para ele — não parecia mais dele. Nem o corpo obedecia.
Um pensamento cortou a neblina, simples, quase infantil:
"Preciso descansar... só um pouco. Só um minuto..."
Outro pensamento veio em seguida, insistente, quase doloroso:
"Helena. Tá me esperando para jantar. Não posso atrasar. Não posso..."
A respiração falhou de vez. O ar não entrava. Cada vez que tentava inspirar, o sangue escorrendo do ombro e do braço latejava mais forte, o calor escorria junto com sua força de viver.
Um frio intenso percorreu seu corpo. Como se não estivesse no Rio.
Os joelhos fraquejaram. O peso de seu corpo já não era dele.
Heitor Monteiro, o homem imponente de quase dois metros, o CEO que carregava empresas nos ombros, agora se dobrava como uma árvore partida ao meio.
Caiu para a frente. O impacto ecoou, pesado, arrastando consigo o silêncio.
A escuridão veio como um abraço inevitável.
O mundo sumiu.
Preto.
Silêncio.
Vitória de Antônio Fortenelle.
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