Celina estava deitada no colo de Renato, com as pernas esticadas sobre o sofá de linho claro, enquanto o marido passava a mão devagar pelos fios loiros já levemente prateados dela. A tela do celular exibia pequenas peças de bebê: bodies, sapatinhos e touquinhas.

— Olha esse aqui — disse Celina, inclinando o celular para ele. Era um macacãozinho branco com bordado delicado em dourado. — Perfeito para a saída da maternidade.

Renato sorriu, os olhos azuis marejando de orgulho.

— Vai parecer um anjinho. — Passou o dedo pela tela, escolhendo outro modelo. — Mas esse aqui também é lindo, Cel. Olha o detalhe do lacinho.

Ela riu baixinho.

— É muito feminino, Renato. E se for um menino?

Ele passou os dedos pela bochecha dela e apertou de leve.

— Então ele vai ser o menino mais estiloso do Rio de Janeiro.

Celina gargalhou, apertando de leve o braço dele.

— Você está muito moderninho.

— Moderninho nada. Esse vai ser o primeiro neto da nossa linhagem. — a voz dele saiu firme, mas cheia de emoção. — Quero que tenha tudo. Roupa boa, brinquedo bom, mas acima de tudo… amor. Muito amor.

Ela respirou fundo, tocada.

— Vai ter. O Heitor é um homem maravilhoso, e a Helena… é a escolha perfeita para ele. — deslizou o dedo pela tela e parou em um par de sapatinhos minúsculos de tricô azul-marinho. — Olha isso, Renato. Tão pequenininhos… lembra quando o Heitor calçava um sapatinho desse tamanhozinho? Agora é a vez do nosso neto.

Ele se inclinou, os dedos grandes pegando o celular das mãos dela para olhar mais de perto.

— Quando penso que esse pezinho vai correr pela casa, subir no meu colo... — a voz falhou um pouco. — É uma sensação que eu não consigo nem explicar.

Celina virou o rosto para encará-lo.

— Vamos ser avós, querido. — o sorriso dela era suave, mas os olhos estavam marejados. — E eu quero que a nossa casa seja o lugar mais seguro e feliz do mundo para esse bebê.

Renato beijou a testa dela, demoradamente, enquanto continuava a acariciar seus cabelos. — E vai ser. Porque esse bebê já tem a melhor avó que poderia ter.

Celina fechou os olhos por um instante, deixando-se embalar pelo carinho dele, com o coração aquecido por um futuro que já parecia tão vivo.

Renato ainda acariciava os cabelos dela quando o celular vibrou no bolso da calça. Ele atendeu sem olhar o número, a voz firme de homem acostumado a negócios, mas no instante seguinte sua expressão mudou.

— Senhor Renato Monteiro? — a voz era grave, calma, mas carregada de urgência. — Aqui é a equipe médica de emergência do Hospital Copa Star. Estamos ligando a respeito do seu filho, Heitor Monteiro.

Renato se endireitou no sofá, o coração disparando, mas manteve a voz firme:

— O que aconteceu com meu filho?

Do outro lado, o médico seguiu com profissionalismo:

— Senhor Monteiro, seu filho deu entrada em estado grave após um episódio de agressão física. Ele está inconsciente, apresenta sinais de choque hipovolêmico. Já sofreu uma parada cardiorrespiratória, foi reanimado com sucesso, mas o quadro ainda é instável.

Celina, deitada em seu colo, ergueu o rosto imediatamente. A mão dela agarrou o braço dele com força, tentando decifrar o que estava acontecendo apenas pela expressão do marido.

Renato apertou o celular contra a orelha, a respiração pesada.

— Choque hipovolêmico... quanto sangue ele perdeu?

— Uma quantidade significativa, senhor. Já acionamos o Hemorio para repor bolsas, mas o seu filho é AB negativo. Como sabe, é um tipo sanguíneo raro. Aceita apenas transfusões de fator negativo. Já temos algumas bolsas em andamento, mas pode haver necessidade de doadores compatíveis o quanto antes.

Renato fechou os olhos com força, a outra mão pressionando a testa. A voz falhou, mas ele conseguiu se recompor:

— Alguém da família pode doar? Meu sangue é A negativo. E o meu pai também, vou verificar com minha esposa o dela. Vamos imediatamente.

— Isso ajudará muito, senhor. Peço que venham o mais rápido possível. Quanto antes, melhor.

Celina o observava, pálida, a respiração curta.

— Renato…? — a voz dela saiu quase um sussurro. — O que está acontecendo? Quem é?

Renato a olhou, e ela viu algo que raramente via: medo. O homem que sempre foi firme, que carregava a família e o império nos ombros, agora estava com a respiração descompassada, mas ainda assim tentava manter o controle.

Ele respondeu ao médico, a voz grave, decidida:

— Estamos a caminho. Mantenham meu filho vivo até eu chegar.

— Estamos fazendo tudo que está ao nosso alcance, senhor.

Renato encerrou a ligação com mãos trêmulas. Por um segundo, ficou imóvel, apenas olhando o nada. Celina o sacudiu pelo braço, desesperada:

— Renato, pelo amor de Deus, fala comigo. O que houve com o Heitor?

Ele finalmente se virou para ela, engolindo seco, mas não conseguiu suavizar a verdade:

— Nosso filho... o Heitor... está no Copa Star. Ele perdeu muito sangue. — a voz dele quebrou. — Ele já teve uma parada cardíaca.

Celina levou as mãos à boca, um grito sufocado escapando.

Renato a abraçou forte, como se tentasse protegê-la do impacto, mas ele mesmo tremia. Ela estava com o rosto escondido contra o peito de Renato, os ombros dela sacudindo em soluços desesperados.

— Não, não, não… — repetia, a voz embargada. — Renato, ele estava bem… eu vi o Heitor hoje de tarde, ele estava bem! O que aconteceu com o nosso filho? Como isso aconteceu?!

Renato fechou os olhos por um instante, sentindo o mesmo pânico rasgar o peito. Mas não podia ceder. Não podia desmoronar junto. Ele precisava ser o pilar. Para ela. Para o filho deles.

Apertou o celular na mão, respirou fundo e discou.

A chamada foi atendida após dois toques.

— Renato? — a voz do velho era áspera, fria, sem delicadezas. — Que horas são essas?

— Pai… — Renato fechou os olhos, a voz embargando, mas forçando firmeza. — Preciso que o senhor vá para o Copa Star. Imediatamente.

Do outro lado, silêncio pesado.

— O que houve? — perguntou Afonso, seco, sem rodeios. — Quem diabos está chorando aí com você?

Renato respirou fundo, o nó na garganta o sufocando.

— É o Heitor. Ele está hospitalizado. Estado grave.

Mais um silêncio. Celina soluçava em desespero ao lado dele, as palavras perfuravam o coração dela ainda mais.

Afonso respondeu com a voz dura, mas sem hesitar:

— Estou a caminho.

A ligação caiu. Renato guardou o celular, virou-se para a esposa, tentando manter a calma na expressão enquanto o coração batia descompassado. Ele segurou o rosto dela entre as mãos, obrigando-a a olhar nos olhos dele.

— Celina… escuta. Preciso que me ouça, meu amor. — A voz dele era firme, mas baixa, como se buscasse trazê-la de volta à razão.

Ela soluçava, quase sem ar.

— Eu não sei… eu não sei o que fazer, Renato! Eu não sei!

Ele a abraçou forte, como quem segura alguém à beira de um abismo.

— Você sabe, sim. Respira comigo. — ele puxou o ar fundo, incentivando-a. — Respira. Agora me diz, qual é o seu tipo sanguíneo?

Ela piscou, confusa, o pânico embaralhando os pensamentos.

— O meu… o meu é… é B positivo. — chorava, quase perdida. — Mas isso ajuda? O que eu posso fazer, Renato?

Ele fechou os olhos, engolindo seco.

— O meu é A negativo. O do meu pai também é negativo. Nós podemos ajudar. Mas você… você não pode doar para ele, Celina.

Ela desabou, soluçando mais alto, batendo de leve no peito dele, como se fosse injusto.

— Então o que eu faço? Eu não posso perder meu filho!

Renato segurou as mãos dela contra o peito, firme.

— Você vai ser forte. Vai estar ao lado dele quando ele acordar. Você vai ser a mãe que o nosso filho precisa agora. — disse, a voz firme apesar do desespero nos olhos.

Ela o olhou como se buscasse forças no rosto dele, no homem que sempre esteve ao lado dela em tudo.

Renato entrelaçou os dedos dela nos dele e, sem soltar, a puxou para caminhar.

— Vem. Vamos para o hospital. — disse com determinação.

Os dois saíram apressados, quase correndo. Celina ainda chorava, os olhos vermelhos, mas Renato mantinha o braço firme nas costas dela, como se carregasse os dois. O medo era brutal, mas no fundo, ele sabia: o sangue deles era forte, Heitor ficaria bem, ele tinha que ficar.

O carro cortava o trânsito como se cada segundo valesse uma vida. Renato apertava o banco do motorista com a mão, a mandíbula dura, o olhar preso na estrada à frente. Celina chorava ao lado dele, perdida no próprio pânico. Renato, com a testa latejando de tensão, tentava confortá-la. Ele tentava acalmá-la com um braço envolto, e com a outra mão empurrava o motorista:

— Vai, Carlos — rosnou. — Mais rápido. Pega a Linha Amarela, entra pela saída do Leme, qualquer atalho. Anda!

O motorista obedeceu, acelerando o carro que cortava as ruas do Rio com precisão, mas o tempo parecia engasgar a cada semáforo. O ponteiro do relógio não se movia, o ar dentro do veículo era denso, quase sólido. Renato sentia o estômago revirar — medo, raiva, impotência. A mão tremia sobre o joelho, o maxilar travado.

Mil imagens se atropelavam na mente: o estado de Heitor, Helena recebendo a notícia, como ele contaria? O que ele contaria? Agora não era o momento, tinha que chegar no filho o mais rápido possível, depois ele se preocupava com o resto.

— Mais rápido, pelo amor de Deus! — rosnou, a voz rouca e tensa. — Se não sabe dirigir, eu mesmo pego esse volante!

O olhar desviou de volta para a esposa, e foi então que ele viu a cena mais triste de sua vida, desde a morte de sua mãe. Celina, ao seu lado, chorava. Chorava como ele nunca tinha visto — um choro de pura dor e pânico, as mãos trêmulas segurando um terço que sempre carregava no carro, o peito subindo em soluços abafados. Aquilo atravessou Renato como uma faca no peito.

Ele podia suportar tudo — negócios, guerras, perdas. Mas não aquilo. Ver a mulher da sua vida, a menina que um dia lhe prometeu amor eterno no jardim da escola, desabar daquele jeito o despedaçava por dentro.

Uma culpa antiga e silenciosa o tomou. Era o homem que devia proteger os dois — a esposa e o filho — e agora os via sofrer por algo que ele não podia controlar.

Renato respirou fundo, fechou os olhos por um segundo, e então pousou a mão sobre a de Celina, apertando-a firme.

— Vai ficar bem, meu amor… — disse, a voz falhando pela primeira vez em anos. — Nosso filho vai lutar. Ele sempre lutou… ele é um Monteiro.

A última palavra saiu quase como um juramento.

O celular vibrou no bolso. Renato puxou o aparelho com a mão que tremia menos do que já tremeu antes. Atendeu sem olhar para o número, com a impaciência de quem não quer mais notícias ruins.

— Monteiro — resmungou.

— Senhor Renato? — a voz do outro lado era tensa, prática: o relações-públicas da Monteiro Inc. — Aqui é o Gabriel. Desculpe ligar agora, mas… tem algo no ar. Não conseguimos segurar.

O sangue de Renato subiu. A voz do RP era medida, mas havia um fio de urgência. Renato cortou:

— O que houve, Gabriel? Esse não é o melhor momento.

Do outro lado, a voz hesitou.

— Houve… houve uma briga, senhor. Seu filho, o doutor Heitor, e o senhor Antônio Fortenelle foram vistos entrando em um restaurante privado. Primeiro Fortenelle, depois Heitor. Após algum tempo, ouviram gritos e barulho de luta. Seguranças intervieram. Há imagens.

Celina arregalou os olhos, apertando a mão do marido em busca de mais notícias, mas ele manteve o olhar fixo na frente, o coração martelando como nunca.

— Continue. — a voz dele saiu baixa, perigosa.

— Seu filho saiu gravemente ferido… foi levado ao Copa Star. O senhor Antônio Fortenelle foi encaminhado ao Samaritano. A imprensa já tem os vídeos da briga e da saída das ambulâncias.

Renato respirou fundo, sentindo a raiva queimar o peito. A voz veio como um trovão.

— Isso não foi uma briga de bar. Isso foi um atentado contra o meu filho! — esbravejou. — Um maldito atentado!

Celina se encolheu, assustada com a explosão do marido, mas ele não se conteve.

— Ouça bem. — a voz dele saiu gélida, firme, como um general em comando. — Quero que a assessoria assuma imediatamente o controle da narrativa. Não foi uma briga. Foi uma emboscada. Um ataque contra o herdeiro da Monteiro Inc. Entendeu?

— Sim, senhor. E senhor, precisamos montar um posicionamento.

— Acione os advogados agora, URGENTE, e que fiquem prontos para ação de contenção e para um comunicado oficial. Não quero especulação. Não quero acusação sem prova. E por ora: não confirmar nada para a imprensa sem meu aval. Entendeu? Registrem boletim de ocorrência contra Antônio Fortenelle. Quero o nome dele cravado como agressor primário. Foi legítima defesa do Heitor, e só isso.

— Já estamos em contato com a equipe jurídica e o time de crise, senhor. Também vou falar com o Samaritano e com o Copa Star para coletar informações oficiais.

— Quero tudo pronto até eu chegar no hospital. Não vamos permitir que transformem meu filho em vilão. Se tentarem… vão pagar caro.

— Sim, senhor Renato. Vamos executar todas as medidas cabíveis imediatamente.

Renato fechou os olhos, respirando fundo, tentando se controlar. Mas por dentro só ecoava uma certeza: Antônio Fortenelle tinha assinado sua própria sentença de morte.

No silêncio que se seguiu, o coração dele apertou. Helena. A imagem dela veio à mente. Grávida. Vulnerável. Sozinha. Se aquilo estourasse agora…

— Segurem a imprensa. — a voz dele saiu grave, baixa. — Segurem o máximo que puderem antes de soltar qualquer coisa. A última coisa que precisamos é que a Helena saiba da forma errada.

Do outro lado, apenas um “Sim, senhor” abafado.

Renato desligou, mas o aperto no peito cresceu. O carro avançava pelas ruas, mas ele já não via nada. Apenas o rosto do filho — e a promessa silenciosa de que ninguém, nem Fortenelle, nem quem ousasse se aproximar, sairia impune.

Celina olhava para ele com pânico e reprovação ao mesmo tempo; o filho deles, sangrando, e as câmeras agora transformando dor em espetáculo.

— Renato — ela sussurrou, a voz sumindo entre lágrimas. — Eles vão publicar… por que alguém faria isso?

Ele não respondeu de imediato. Olhou para a mão dela, a pele fina, as veias marcadas, e tentou ancorar ali sua sanidade.

— Porque hoje tudo vira notícia em um minuto — disse, querendo parecer isso que não era naquele instante: o executivo frio capaz de cortar fogo. — Mas eu não vou deixar que transformem isso em espetáculo. Nem vou deixar que ninguém diga mentira sobre o nosso filho.

Respirou fundo.

— Gabriel — disse ele, pegando o celular de novo — mantenha-me informado a cada cinco minutos. E peça para alguém do jurídico me ligar agora. Se houver vídeo viral, quero que preparem notificação judicial para retirada imediata por quebra de imagem e por causar tumulto. E acionem o departamento de segurança da empresa: identifiquem todos os presentes, clientes e funcionários do restaurante; quero nomes, contatos e declarações.

— Sim, senhor. Estou em contato com o jurídico neste exato momento.

Renato desligou. Só então desabou um pouco no assento, a máscara de controle finalmente cedendo. O rosto duro, sempre impenetrável, agora mostrava o homem por trás do poder: cansado, furioso, desesperado. Celina apoiou a cabeça no peito dele, as lágrimas silenciosas molhando a gravata já frouxa.

— Vamos trazê-lo de volta — murmurou Renato, mais para si do que para ela. — Vamos consertar isso. Nem que eu tenha que mover o inferno inteiro.

O motorista reduziu a velocidade ao dobrar a esquina da Figueiredo de Magalhães. O letreiro Copa Star apareceu em letras prateadas sobre o vidro espelhado. Mas algo estava errado: luzes piscando, flashes e vozes.

— Meu Deus… — Celina sussurrou.

Na entrada, uma multidão de jornalistas se aglomerava. Câmeras, microfones, drones sobrevoando, todos tentando captar qualquer imagem do “acidente entre os herdeiros bilionários”. Dois carros pretos da Monteiro Inc. já estavam parados à frente — a equipe de segurança particular havia chegado primeiro. Homens de terno escuro formavam uma barreira física diante dos repórteres, enquanto seguranças do próprio hospital tentavam manter a passagem livre.

— Ninguém entra sem autorização! — gritou um dos chefes de segurança, o crachá reluzindo sob a luz dos flashes.

— São eles! — alguém berrou, e em segundos o caos aumentou. Câmeras se viraram para o carro preto que acabava de parar.

Renato inspirou fundo, o olhar gelando. O instinto corporativo, o mesmo que o transformara em lenda, tomou o controle.

— Portas primeiro, depois Celina. Façam corredor. — ordenou com a voz firme, voltando ao modo comando.

Dois seguranças desceram do carro à frente, abrindo caminho. Outros quatro vieram de trás, formando uma linha de proteção. As portas se abriram quase em sincronia.

Celina respirou fundo. O pranto ainda queimava nos olhos, mas ela sabia: não podia aparecer chorando. Não agora. Abriu a bolsa, pegou os óculos escuros e os colocou, escondendo a vermelhidão. Penteou o cabelo rapidamente com os dedos e ergueu o queixo, um Monteiro não desmoronava em público.

Renato saiu primeiro, o terno amassado e a gravata desalinhada, mas a postura ainda imponente. As luzes dos flashes explodiram sobre ele como tiros de pólvora.

— Senhor Monteiro! Seu filho está em estado grave?

— Há confirmação de briga com Antônio Fortenelle?

— O império Monteiro vai se pronunciar?

Ele ignorou todas as perguntas. Passou pela multidão como um general atravessando o campo de batalha, frio, preciso e letal. Atrás dele, Celina seguia silenciosa, protegida pelos seguranças.

Quando alcançaram as portas de vidro do hospital, Renato olhou de relance para ela.

Ela buscava a mão dele naquele caos até encontrar.

— Fica comigo, meu amor. — disse, sem som, apenas movendo os lábios.

Os dois atravessaram o saguão sob o clarão branco das câmeras e o burburinho distante da imprensa. Lá dentro, o silêncio do hospital parecia outro mundo. Um corredor os aguardava — e, no fim dele, o destino da família Monteiro.

As portas de vidro se abriram com um sopro frio de ar condicionado, abafando o som dos flashes e da multidão do lado de fora.

O saguão do Copa Star era luminoso e silencioso — piso de mármore claro, recepção minimalista, mas luxuosa. A tensão no ar era quase palpável.

Assim que Renato e Celina cruzaram o tapete da entrada, duas recepcionistas se entreolharam. O reconhecimento foi imediato — não havia necessidade de identificação.

Uma delas se levantou apressada, o crachá da Rede D’Or balançando no peito.

— Sr. e Sra. Monteiro… por favor, por aqui.

Do final do corredor, surgiu um homem de jaleco branco, cabelos grisalhos e postura ereta. O crachá prateado refletia as luzes frias do hospital.

— Senhor e senhora Monteiro? — confirmou, com um aceno respeitoso. — Sou o doutor Eduardo Salles, diretor clínico. Seu filho já está sendo operado. Houve perda significativa de sangue e estamos preparando a transfusão. Precisamos da doação imediata.

Renato assentiu sem hesitar.

— Eu sou A negativo. — respondeu, já abrindo os botões da munhequeira da camisa. — Serve.

O médico confirmou.

— Sim, senhor. É compatível. Por aqui, por favor.

Celina tentou acompanhá-lo, mas o médico ergueu a mão — gentil, porém firme.

— Senhora Monteiro, por protocolo, apenas o doador e a equipe podem permanecer na coleta. É um ambiente controlado.

— Eu quero ficar perto. — a voz dela falhou. — Não vou tocar em nada. Só… quero vê-lo.

O olhar do médico hesitou por um instante. Reconhecia aquele tipo de amor — o que se recusa a ser contido.

— Temos uma sala de observação anexa. Pode ficar lá. — concedeu. — Ela será levada até você, senhor Monteiro.

Renato apenas assentiu. Não havia espaço para sentimentalismo.

A enfermeira apontou a maca:

— Por favor, deite-se aqui, senhor Monteiro.

Renato arregaçou a manga, deitou-se e estendeu o braço sem dizer palavra. O rosto firme, mas o maxilar travado denunciava o esforço para não tremer.

Do outro lado do vidro, Celina observava com as mãos unidas diante do peito.

Ela via tudo: o marido imóvel, o tubo conectado à veia, o sangue escorrendo pela linha transparente até a bolsa pendurada. O som dos monitores preenchia o ar com bipes compassados.

O enfermeiro trocou olhares discretos com o colega. Sabiam quem estava ali. Sabiam o que aquele gesto significava.

Renato respirava fundo, o olhar fixo no teto branco.

O sangue fluía — escuro, denso, vital. Cada gota parecia levar junto anos de contenção.

Aquela doação não era só biológica — era um ato silencioso de entrega de um pai a um filho.

Celina encostou a testa no vidro, as lágrimas escorrendo sem som.

O homem que sempre fora seu alicerce agora oferecia o próprio sangue para salvar o filho dos dois.

Minutos depois, o enfermeiro desligou o sistema.

— Terminamos. — disse, retirando a agulha. — Vamos monitorar a pressão.

Renato piscou, voltando lentamente à consciência do ambiente.

— Ele está na cirurgia, certo? — perguntou, a voz rouca.

— Sim. — confirmou o médico. — Há hemorragia interna e lesões musculares extensas, mas o doutor Amaral está conduzindo o procedimento. Ele perdeu muito sangue, mas chegou a tempo. Estamos estabilizando.

Celina tapou a boca, o som de um soluço escapando. O médico desviou o olhar, respeitoso.

— Posso entrar? — ela pediu, já se adiantando.

— Por alguns minutos. — respondeu o médico.

Ela entrou. Renato estava pálido, o braço enfaixado. O olhar fixo na parede.

Celina se aproximou, sentou-se na beira da maca e segurou a mão dele.

— Você foi tão corajoso… — murmurou, com a voz embargada. — Tão corajoso.

Renato respirou fundo.

— Eu devia estar lá, Cel. Devia ter impedido isso.

— Não diz isso. — ela cortou, apertando-lhe a mão. — Ele é forte. É o nosso menino.

Um outro médico surgiu à porta, postura firme.

— Sr. Monteiro, Sra. Monteiro. Sou o doutor Arantes, chefe de trauma.

Celina deu um passo à frente, o coração disparado.

— O Heitor… ele está consciente?

O médico hesitou, e a pausa bastou.

— Ele chegou inconsciente, com perda significativa de sangue. Está sedado, em cirurgia neste momento.

Celina balançou a cabeça, o choro contido voltando como espasmos. Renato segurou o braço dela com firmeza, como se ela pudesse desabar.

— Quais os ferimentos? — perguntou, no tom calmo e cortante de quem já ouviu relatórios impossíveis.

— Laceração profunda no ombro direito, múltiplos cortes no antebraço, provável fratura costal e choque hipovolêmico. — respondeu o médico, preciso. — Mas a equipe é a melhor do hospital. Ele está em boas mãos.

Renato apenas assentiu, o músculo da mandíbula saltando sob a pele.

Celina respirava com dificuldade. As palavras “sangue” e “cirurgia” ecoavam como martelos na mente.

Uma enfermeira se aproximou com um copo d’água.

— Quer sentar um pouco, senhora?

Mas Celina negou, os olhos fixos no médico.

— Eu quero vê-lo. Nem que seja por um segundo.

— Assim que ele sair do centro cirúrgico, eu aviso pessoalmente. — prometeu o doutor Arantes.

Ela engoliu em seco.

— Quanto tempo ainda vai demorar?

— Difícil precisar, senhora. Mas quando sair, ficará em observação intensiva por doze horas. Ninguém poderá visitá-lo nesse período.

O mundo pareceu parar.

Celina piscou várias vezes, incrédula.

— Doze horas? Mas ele vai acordar, não vai?

O médico hesitou antes de responder:

— Está recebendo todo o suporte possível.

Renato pousou a mão no ombro dela.

— Vamos esperar, Cel. — disse rouco, o tom firme, mas rasgado por dentro. — Ele vai sair dessa.

O enfermeiro os conduziu até o elevador.

O espelho refletia o contraste: uma mulher em prantos contidos e um homem tentando ser aço enquanto se partia por dentro.

— Renato… e se eu nunca mais ouvir a voz dele? — ela sussurrou.

Ele fechou os olhos, sustentando o peso do próprio medo.

— Não fala isso. Ele é nosso filho. Nosso menino. Ele vai voltar pra gente.

O elevador se abriu. O andar era silencioso, em tons neutros e perfumes suaves — luxo estéril que nada acalmava.

A enfermeira abriu a porta da suíte reservada.

Era ampla, com vista para o mar, sofá de couro, flores discretas, uma poltrona e uma cama de repouso.

— Qualquer necessidade, basta apertar o botão. O doutor Amaral enviará notícias assim que possível.

Quando a porta se fechou, o silêncio voltou como uma parede.

Celina caminhou até o centro do quarto e desabou. Cobriu o rosto com as mãos, e as lágrimas vieram fortes, descontroladas.

— Eu devia estar com ele… — soluçou. — Devia estar com ele, Renato…

Renato a abraçou por trás, silencioso. Puxou-a contra o peito, firme.

Ela chorava com força, o som abafado contra a camisa dele.

— Ele é meu bebê… sempre vai ser.

Renato a apertou mais forte. A mandíbula travada, o olhar fixo no nada. Dentro dele, tudo desabava.

A cada soluço de Celina, um pedaço dele se partia também.

Por fim, encostou o queixo sobre a cabeça dela e deixou uma lágrima escorrer, silenciosa.

— Eu daria tudo, Celina. Tudo. Se pudesse trocar de lugar com ele agora…

Ela ergueu o rosto, os olhos marejados.

— Então ora comigo. Só ora comigo.

Renato fechou os olhos. As mãos dela tremiam entre as suas.

Após um tempo, o quarto estava mergulhado em um silêncio pesado, quebrado apenas pelo som constante do ar-condicionado e do relógio na parede. Celina ainda estava sentada no sofá, o rosto apoiado nas mãos, quando um ruído discreto vibrou o ar.

Renato levou a mão ao bolso e tirou o celular. A tela acendeu com o nome:

Helena

Por um instante, ele apenas ficou olhando. O nome parecia brilhar com um peso que o paralisou. Celina levantou o rosto, os olhos marejados e aflitos.

— É ela…? — perguntou, a voz trêmula.

Renato assentiu em silêncio. O telefone continuava vibrando em sua mão.

— Atende, Renato. — ela sussurrou. — Ela precisa saber.

Ele respirou fundo, pesado, o olhar fixo na tela.

— Eu não posso contar isso pra ela agora. — murmurou, como se tentasse convencer a si mesmo. — Ela está sozinha… e grávida.

Celina levou a mão à boca. As lágrimas voltaram a escorrer.

— Então o que a gente vai fazer? — perguntou num fio de voz. — O que a gente faz, Renato?

O celular parou de tocar. Silêncio.

Renato apertou os olhos, como se o próprio som tivesse sido uma facada. Logo em seguida, o aparelho vibrou outra vez — notificações. Ele deslizou o dedo na tela. Quinze chamadas perdidas.

Mensagens sem abrir:


“O Heitor está com senhor?”

“Sabe do Heitor? Ele não me atende.”

“Vocês estão juntos? Não consigo falar com a Celina também.”

“Renato, por favor, me responde.”

“Alguém me diz o que tá acontecendo.”

“Eu tô com um pressentimento ruim.”

“Pelo amor de Deus, me fala dele.”

“Onde o Heitor está?


A garganta de Renato travou. Ele deixou o celular cair sobre o sofá, o som seco ecoando.

— Ela tá desesperada… — disse Celina, chorando baixinho.

Renato passou a mão pelo rosto, tentando respirar fundo. Olhou para o telefone por longos segundos, depois o pegou novamente.

— Eu vou ligar pra alguém. — disse, com a voz firme, mas o olhar distante.

— Pra quem? — Celina perguntou, quase sem ar.

Ele não respondeu. Deslizou o dedo pela lista de contatos, passando por nomes conhecidos: diretores, advogados, médicos e assessores. Parou em um. Era a única pessoa que ele confiava para aquilo.

O polegar pairou sobre o nome, e por um momento, o ar pareceu desaparecer da sala.

A tela mostrava:

Ligando para…