O CEO que Eu Paguei
141 Postura de Monteiro
Helena terminava de ajeitar o cabelo diante do espelho, a respiração um pouco presa no peito. O vestido caía bem, nada extravagante, mas talvez elegante o suficiente para agradar a sogra. Ainda assim, a ansiedade fazia com que suas mãos quisessem ajustar o tecido a cada minuto.
— Tu tá maravilhosa, como sempre. — A voz de Heitor veio carregada de ternura, mas também daquele sotaque carioquíssimo que sempre a desmontava.
Ela mordeu o lábio, insegura. E olhou para ele que estava
— Será que é bom o bastante pra impressionar sua mãe?
Heitor arqueou uma sobrancelha, se aproximando com aquele sorriso malandro e com o som dos chinelos contra o chão.
— Amor, minha mãe já tá impressionada só por você ser quem é. Mas… se fosse pra depender de roupa, tu já ganhou. — Ele a puxou de leve pela cintura, mas o toque foi interrompido pelo vibrar do celular no bolso.
Heitor pegou o aparelho, leu a mensagem e suspirou.
— É ela. Já chegou. Vou descer com você.
O coração de Helena acelerou. O encontro com Celina a deixava aflita. Queria que a sogra a enxergasse além das primeiras impressões, que não era o problema do dia anterior, que podia ser porto seguro para o filho dela. E, no fundo, algo mais profundo: desejava, talvez pela primeira vez, sentir a presença de uma figura materna por perto.
Eles desceram juntos. No hall, Heitor a abraçou forte, colando o rosto dela no peito.
— Não se preocupa. Se acontecer qualquer coisa, você me liga, e eu vou onde você estiver. — O tom firme era promessa e escudo.
Helena assentiu, escondendo um suspiro.
— Tá bom.
O chofer de Celina já estava parado na frente. Abriu a porta com deferência. E lá dentro, perfeita como uma capa de revista, estava Celina Monteiro. Um vestido azul-marinho impecável, joias discretas, maquiagem equilibrada e o cabelo loiro com mechas brancas solto sem nenhum frizz. Era o retrato da alta sociedade, da mulher que jamais saía de casa sem estar preparada para ser observada. Ela era linda, mesmo com a idade, Helena tinha certeza, era a mulher mais linda que já tinha visto em sua vida.
Ela sorriu para o filho.
— Heitor. Noite das garotas. Nem pense em vir junto.
Helena riu baixinho, olhou para o namorado.
— Que perigo, hein? Noite das garotas… — Heitor fingiu drama, piscando para Helena. — Juízo, viu?
Helena se inclinou, selinho rápido.
— Até mais tarde, amor.
O coração dele se derreteu todinho ouvindo aquelas palavras e um sorriso bobo surgiu nos seus lábios.
— Até mais tarde, Helê.
A porta fechou. O carro seguiu pelas ruas iluminadas. O silêncio entre sogra e nora durou alguns instantes — pesado, cheio de intenções e expectativas. Celina, porém, quebrou-o primeiro.
— Gosto do silêncio — disse Celina, após alguns segundos, o tom calmo. — Ele mostra quem consegue se sustentar sem palavras.
Helena engoliu seco. Podia sentir o peso do olhar da sogra sobre si, e a culpa voltou como uma fisgada: a lembrança de Heitor aflito, a mãe dele esperando, e ela… desaparecida. Forçou-se a endireitar a postura, respirou fundo e respondeu, simples:
— Eu não sou boa em falar muito. Mas sei ouvir.
Celina virou o rosto para a janela, como se registrasse a resposta. Depois voltou-se para ela com um meio sorriso contido.
— Heitor gosta de você. Isso, para mim, já é suficiente para me fazer olhar duas vezes. Mas… — o olhar endureceu — não pense que isso a torna imune às minhas reservas.
Helena assentiu devagar.
— Eu sei. Ele me disse que a senhora é exigente. Eu respeito e gosto disso.
Celina não conseguiu segurar o sorriso satisfeito. O silêncio voltou a preencher o carro. Só depois de alguns segundos Celina abriu a bolsa, retirou uma pequena caixa e estendeu para ela.
— Tenho algo para você.
Helena olhou surpresa.
— Para mim?
— Não seja tola, aceite. — Celina manteve a mão firme até que Helena pegasse.
Dentro da caixinha, um iPhone novo, vermelho, brilhante. O coração de Helena disparou. Abriu devagar, quase sem acreditar.
— Eu… eu não posso aceitar isso.
— Claro que pode. — Celina interrompeu, seca, mas não hostil. — Preciso que você esteja à altura das circunstâncias. Que não tenha problemas com algo tão banal quanto um aparelho telefônico.
Helena segurou o celular nas mãos, incrédula. Para ela, era luxo demais. Sempre achou desperdício de dinheiro aquele telefone.
— Eu nunca pensei em ter um desses… — murmurou, com honestidade.
Celina ergueu o queixo, avaliando-a.
— Eu escolhi a cor. Vermelho protege contra inveja e energias ruins. Senti que você vai precisar.
Por um instante, Helena não soube o que dizer. O peso de estar diante daquela mulher que parecia enxerga-la por completo a deixou sem ar. Finalmente, forçou um sorriso pequeno, mas sincero.
— Obrigada. De verdade. Vou cuidar dele.
Celina apenas inclinou a cabeça, como quem aceita o gesto. O silêncio voltou, mas dessa vez não era tão sufocante. Havia, no ar, algo mais leve. Não era aceitação. Mas era um começo.
O carro parou em frente à fachada iluminada da Hermès, com suas paredes de vidro e o letreiro dourado refletindo a sofisticação da marca. O chofer saiu rápido para abrir a porta de Helena, mas antes que ela se inclinasse para sair, a voz firme de Celina a interrompeu.
— Espere. — disse, sem pressa, o tom suave, mas impositivo. — Regra de etiqueta: eu sempre saio primeiro, e sou a última a entrar.
Helena arregalou os olhos, sem entender muito bem, mas assentiu em silêncio. Não estava acostumada àquele tipo de detalhe — cada gesto era uma aula nova que ela queria aprender.
Celina desceu primeiro, ereta, impecável em sua postura e no corte da roupa, e só então Helena a seguiu. Assim que seus saltos tocaram o chão, o impacto foi imediato: quatro funcionários uniformizados as aguardavam em frente à porta de vidro. O reflexo das duas se misturava ao brilho da loja, como se estivessem entrando em um outro mundo.
A gerente, uma mulher elegante de blazer preto e sorriso profissional, inclinou levemente a cabeça.
— Senhora Monteiro. É um prazer recebê-la novamente. — Seus olhos se voltaram para Helena, avaliando-a com discrição antes de abrir ainda mais o sorriso. — A loja está reservada exclusivamente para vocês hoje.
Dois passos atrás, uma vendedora aproximou-se, delicada, com a postura polida de quem conhecia os rituais da alta elite.
— Esta é Elisa, nossa consultora mais experiente. — anunciou a gerente. — Ela irá atendê-las pessoalmente.
Celina apenas acenou de leve, como quem confirmava uma ordem dada. Helena, por outro lado, sentiu o coração acelerar. Nunca havia entrado em um espaço onde tudo fosse preparado para ela — ou melhor, para elas. O silêncio respeitoso dos funcionários, o ar condicionado, a luz âmbar refletindo nos vidros: cada detalhe daquela gritava um status que ela nunca tivera contato. Algo bem diferente das lojinhas da sua cidade ou até mesmo da shopping que passeou com Heitor.
Enquanto avançavam para dentro da loja, Celina caminhava com passos firmes, como se fosse parte natural daquele cenário. Helena, ao lado dela, tentava disfarçar o fascínio, mas se pegou deslizando os dedos discretamente pelo exterior da porta, como quem precisa tocar para acreditar.
Celina notou. Não disse nada, mas um pequeno sorriso lhe escapou, quase imperceptível.
Naquele instante, Helena compreendeu: estava sendo apresentada a um universo que não era apenas de luxo — era de poder. E Celina Monteiro, em sua naturalidade altiva, era a guardiã desse território.
A sala reservada era ampla e iluminada por uma luz suave, que destacava o brilho discreto dos móveis em madeira clara e os cabides organizados como se fossem esculturas. Havia sofás de couro branco, uma mesa lateral com taças já prontas e garçons discretos servindo água com gás e espumante em silêncio absoluto.
Celina acomodou-se com naturalidade, como se fosse um ritual repetido mil vezes. Seus gestos eram lentos, controlados — uma rainha no reino. Helena, ainda incerta, hesitou antes de se sentar. Só quando Elisa, a consultora, estendeu discretamente a mão, indicando o assento ao lado de Celina, é que ela se permitiu relaxar um pouco.
Elisa, impecável no tailleur preto, olhou Helena de cima a baixo com a calma de quem sabia exatamente o que buscava. Não havia julgamento em seus olhos, apenas estudo.
— Helena — começou, a voz baixa e clara — gostaria de saber suas preferências. Cores que aprecia, cortes que costuma usar, tecidos que lhe agradam.
Helena pigarreou, ajeitando a barra do vestido como se buscasse apoio.
— Ah… eu gosto de tons mais neutros. Mas às vezes me arrisco no vermelho ou azul. Tecidos leves, que me deixam à vontade.
Elisa fez uma anotação mental, inclinou a cabeça em concordância e sorriu.
— Excelente. Vou trazer algumas peças que acredito que combinem com a senhorita.
Ela se afastou em passos longos, deixando sogra e nora em um silêncio denso. Helena alisava a própria mão, como se temesse errar até na postura. Celina a observava em silêncio, cada gesto, cada detalhe — avaliava, pesava.
Poucos minutos depois, Elisa retornou com uma arara cheia de roupas. Estendeu o primeiro vestido em direção a Helena, um tom verde profundo que fazia contraste imediato com os olhos e o cabelo da jovem.
— Experimente este.
Helena levantou-se devagar, trocou-se atrás do biombo elegante e reapareceu alguns instantes depois. Quando saiu, Celina arqueou discretamente a sobrancelha. A cor, de fato, parecia ter sido feita para ela.
— É… impressionante — murmurou Celina, controlada, mas com um lampejo de surpresa genuína nos olhos.
Helena, tímida no início, puxou o tecido da cintura e sorriu, ainda desconfortável.
— Eu nunca usei nada parecido… parece que… transforma a gente, sabe?
Celina apenas observou, a taça entre os dedos.
Aos poucos, Helena foi experimentando outras peças: um tailleur bege claro, um vestido preto de corte reto, lenços com estampas clássicas, shorts elegantes e blusas. A cada troca, a rigidez dela diminuía. Começou a se arriscar, até soltar um comentário atrevido:
— Esse aqui parece roupa de advogada durona. — e riu.
Celina, contra a própria vontade, deixou escapar um sorriso leve.
Quando Helena provou um blazer azul-marinho com detalhes discretos, girou diante do espelho e comentou:
— Esse me dá até vontade de entrar em reunião fingindo que mando em todo mundo.
Celina cruzou as pernas com elegância e respondeu com voz baixa:
— Se continuar nesse tom, não vai precisar fingir.
O entusiasmo da jovem crescia de forma contagiante. Havia nela uma energia crua, quase selvagem, que começava tímida, mas logo assumia o espaço com naturalidade. Celina a olhava, e de repente, flashes do passado a invadiram: lembrava-se de Lorena, na primeira vez em que a levou a uma loja de luxo. A mesma timidez inicial, o mesmo brilho nos olhos quando se viu refletida no espelho com roupas de alto padrão, o mesmo despertar súbito de confiança.
Ambas haviam feito a mesma transição — de meninas desconfiadas para mulheres que, em poucos minutos, já falavam com segurança, criticavam detalhes, avaliavam como se fossem donas do lugar.
Celina deixou escapar um sorriso terno. A confiança, afinal, era uma das qualidades que ela mais admirava.
Naquele instante, ao ver Helena girando diante do espelho com um vestido carmim, ela não via apenas a jovem do interior tentando impressionar. Via uma mulher que, apesar de tudo, começava a mostrar que podia pertencer àquele mundo. Assim, como a mãe dela
Elisa entrou novamente na sala exclusiva, trazendo mais duas opções em cabides. Um vestido bege de corte reto e um blazer estruturado. Helena, agora muito mais à vontade, ergueu as sobrancelhas ao ver o vestido.
— Esse não. — disse com firmeza, balançando a cabeça. — Muito antiquado.
Elisa piscou, surpresa com a resposta direta. Celina, porém, apoiou o queixo na mão e observou, intrigada.
— Não gosta? — ela perguntou, o tom polido, mas desafiador.
— Não. — Helena reforçou, sem medo. — Prefiro algo que seja elegante, mas que não me envelheça.
Elisa se retirou para buscar outras peças, mas Celina, com um brilho discreto nos olhos, levantou-se. Ela mesma foi até a arara e puxou um conjunto muito parecido com o que a consultora havia trazido antes — só que em outra cor, um tom de cinza claro. Voltou com ele nas mãos e apresentou.
— E esse? — perguntou, com aquele jeito dela, voz firme, quase uma ordem.
Helena parou, ajeitando a alça do salto que acabara de experimentar. Olhou o conjunto, ergueu o queixo e foi honesta.
— Também não gosto. — disse, sem vacilar. — Esse tipo de roupa não combina comigo, me prende demais. — Então puxou outro cabide, um blazer estruturado azul-marinho com corte mais moderno. — Agora esse… esse sim. Me deixa elegante, sem me engessar.
Celina encarou a escolha, avaliando. Uma pontada de respeito surgiu no olhar.
O tempo foi passando e a sala se transformou em um desfile particular. Helena experimentava vestidos, conjuntos de alfaiataria, camisas de seda e até shorts casuais. A cada peça, ficava mais confiante, mais falante.
Quando experimentou um short branco de cintura alta, girou diante do espelho e sorriu largo.
— Esse eu amei. Olha como alonga a perna e nem marca tanto as minhas coxas! — comentou, apontando para o próprio reflexo.
Celina não pôde deixar de sorrir.
— Está ótimo em você. É disso que precisa: roupas que mostrem quem você é, que digam algo antes mesmo de abrir a boca.
Helena, animada, pegou um maiô vermelho com detalhes que Elisa havia separado.
— Esse é lindo. Mas não sei se tenho coragem…
— Experimente. — Celina respondeu de pronto, a voz baixa, firme. — Coragem se cria e se alimenta.
Helena entrou no provador, voltou usando o maiô e uma saída de praia leve por cima. O contraste do tecido vermelho com a pele dela a deixou deslumbrante. Helena sorriu para o espelho, mexendo nos cabelos, e comentou:
— É… não é nada mal. Me sinto… poderosa.
— Exato. — Celina disse, cruzando as pernas. — E é exatamente assim que deve se sentir.
As interações foram se tornando mais suaves. Helena já não falava com timidez, mas com firmeza, sempre confiante nas próprias opiniões. Teimava quando não gostava de algo, exigia quando se apaixonava por uma peça. Celina, embora não admitisse em voz alta, começava a se agradar pela moça.
Celina fez um gesto discreto com a mão, chamando Elisa de volta.
— Higienize este vestido. Quero que ela saia daqui usando.
Helena arregalou os olhos, surpresa.
— Mas… por quê? Eu não posso ir com o meu vestido?
Celina se virou para ela com a naturalidade de quem dita leis.
— Porque seria um desperdício. Hoje é o dia perfeito para usar o que você escolheu. — Sorriu de leve, mas havia firmeza em cada palavra. — Além disso, roupas novas só mostram seu valor quando são vistas.
Elisa saiu para providenciar a peça, e logo Helena se viu diante do caixa. A funcionária apresentou o valor em voz baixa, mas Helena quase engasgou. Os números saltaram diante dos olhos — seu cartão não cobriria nem uma fração. Ela sentiu o estômago revirar.
Celina a observava com uma calma, já pronta para sacar o próprio cartão e a ajudar a jovem. Mas antes que o fizesse, Helena, com a mão trêmula e o coração acelerado, retirou da bolsa o cartão preto que Heitor havia lhe dado. Estendeu-o para a funcionária.
— Aqui está.
Enquanto o pagamento era processado, Helena engoliu em seco. Sentia-se horrível por aquilo, como se não fosse dela, como se estivesse usurpando algo. Mas a voz de Heitor ecoava na memória: “Eu quero que não falte nada pra você. É só isso. Você merece tudo.” Ainda assim, a culpa se misturava ao alívio de não precisar recuar diante da sogra.
Saíram da Hermès e seguiram para outras lojas de luxo. Dior, Chanel, Valentino. O tratamento era sempre o mesmo: portas abertas, sorrisos prontos, vendedores atentos como se servissem à realeza. Helena, apesar do estranhamento inicial, começou a se soltar, experimentando vestidos, acessórios, bolsas e óculos escuros. A cada compra, a pilha de sacolas aumentava.
No carro, já acomodadas, Celina finalmente quebrou o silêncio.
— Vamos fazer um combinado. — disse, cruzando as pernas e apoiando a mão sobre o colo. — Você não pode mais usar aquelas roupas que trouxe da sua cidade.
Helena a encarou, surpresa.
— Mas… por quê? Eu gosto das minhas roupas.
— Porque essa fase terminou. — A voz de Celina era calma, mas cortante. — Agora você está começando uma nova vida. Precisa se vestir de acordo com quem é hoje. Não importa se está indo a uma reunião, a um jantar, a padaria, a cozinha ou apenas a uma cafeteria casual. A sua imagem deve estar sempre impecável.
Helena respirou fundo, apertando as mãos sobre o colo.
— É estranho… sinto como se não me encaixasse nesse mundo.
Celina a observou em silêncio por alguns segundos, como quem analisa uma peça rara. Então respondeu, firme:
— Você não se encaixa mesmo. — disse sem rodeios. — Por isso precisa ser quem tem que ser. E, quando assumir esse lugar, o molde ao seu redor vai se formar. É assim que funciona a alta sociedade: ela se ajusta a quem tem força para ocupar espaço.
Helena ficou em silêncio, digerindo aquelas palavras. Entre o medo e a insegurança, havia também algo novo: um lampejo de possibilidade.
Celina encostou-se ao banco, satisfeita. Pela primeira vez, a menina parecia ter entendido.
O carro estacionou diante da galeria, um edifício de fachada minimalista e imponente, onde luzes quentes escapavam pelas vidraças e revelavam silhuetas sofisticadas em constante movimento. Homens de terno impecável, mulheres de vestidos elegantes, casacos de alfaiataria, saltos finos. Cada um parecia medir o espaço que ocupava como se fosse dono de parte dele.
Helena saiu do carro atrás de Celina, com o corpo ligeiramente retraído, e logo sentiu os olhares recaírem sobre ela. Era inevitável — rostos que não conhecia a examinavam de alto a baixo, como se perguntassem, em silêncio, quem era aquela jovem ao lado de Celina Monteiro. O peso daqueles olhares começou a sufocar. O instinto foi abaixar a cabeça, evitar confronto, passar despercebida.
Mas, antes que o fizesse, uma mão firme pousou sobre seu braço. Celina não precisou levantar a voz. Com um tom baixo, frio e carregado de autoridade, disse:
— Endireite essa postura.
Helena ergueu os olhos, surpresa. Celina se aproximou levemente de seu ouvido, o rosto sereno, mas os olhos cortantes.
— Um Monteiro nunca abaixa a cabeça. Para ninguém. É inadmissível você sentir vergonha de estar aqui. Vergonha de ser quem é.
As palavras caíram sobre Helena como água no aço quente. O coração acelerou, não de medo, mas de choque, sua sogra a estava a reconhecendo. Celina continuou, pausada, como quem dita um mandamento:
— Quem ousar questionar a sua presença deve ser colocado no devido lugar. O poder não pede licença, minha querida. Ele ocupa.
Por um instante, Helena ficou sem ar. Mas, ao invés de se encolher ainda mais, algo dentro dela se ergueu. Uma centelha que nem ela mesma sabia que tinha. Endireitou os ombros, ergueu o queixo, e quando deu o próximo passo, não foi como a Helena do interior, mas como alguém que entendia que, ao lado daquela mulher, também carregava o nome Monteiro — e tudo o que vinha junto com ele.
A mudança foi imediata. Os olhares continuaram, mas agora pareciam esbarrar nela, incapazes de atravessar a postura firme que assumira. Não era arrogância; era presença.
Celina a observou de soslaio, e, pela primeira vez em muito tempo, deixou que o orgulho escapasse em forma de um sorriso discreto. Algo naquela jovem lembrava a ela o que havia se esquecido — a força de quando tinha em sua mocidade, a sensação de conquistar espaços proibidos e transformá-los em território próprio.
Entraram juntas na galeria. O ambiente era amplo, iluminado por pontos de luz que destacavam telas abstratas, esculturas modernas, instalações provocativas. O burburinho de vozes elegantes enchia o ar, misturado ao tilintar de taças de champanhe. Helena caminhava ao lado de Celina, a cada passo sentindo menos o peso do julgamento e mais a adrenalina de estar ali.
Não era mais sobre o medo de não se encaixar. Era sobre a oportunidade de aprender — de caminhar ao lado da mulher que, apesar de dura e elitista, havia acabado de lhe dar a maior lição da noite.
Celina, percebendo a firmeza na respiração da nora, inclinou-se suavemente para ela e disse:
— Agora sim. Você tem presença. Não esqueça nunca: quem anda comigo não cai.
Helena olhou para ela, e pela primeira vez desde que entrou no carro naquela noite, acreditou de verdade nisso.
O salão estava cheio, cada grupo reunido em pequenos círculos de risadas contidas e comentários murmurados, todos vestidos como se a própria roupa fosse parte da exposição. Celina caminhava com passos elegantes e donos do espaço, como se cada olhar fosse apenas mais um reflexo do seu nome. Helena seguia ao lado, ereta, lembrando-se das palavras da sogra minutos antes — um Monteiro nunca abaixa a cabeça.
Não demorou para que fossem abordadas. Um casal de meia-idade, conhecidos de longa data de Celina, sorriu de maneira polida.
— Celina, querida. Que bom ver você.
Celina retribuiu o sorriso com elegância estudada.
— Este é Bartô, esta é Clarisse… — ela virou-se levemente, pousando a mão no braço de Helena. — E esta é Helena, minha nora.
A palavra ecoou como cristal quebrando. O casal sorriu mais largo, mas os olhos de Clarisse brilharam com ironia.
— Nora? Que novidade encantadora… tão jovem.
Celina manteve a expressão impassível, mas o olhar era frio como aço.
— Encantadora, sim. E extremamente capaz. Não é à toa que está ao lado do meu filho.
Bartô pigarreou, desviando o assunto, e Celina conduziu a conversa com a naturalidade. Família só pode ser criticada pela própria família. Seguiu adiante como se nada tivesse acontecido, o sorriso delicado de sempre de volta aos lábios.
Helena, sem notar a acidez por trás das palavras, apenas sorriu, agradecendo discretamente pela apresentação. Sentia-se protegida, mesmo sem entender exatamente de quê.
Pararam diante de uma tela imensa: um sol alaranjado se dissolvia no branco-azulado de uma geleira. Helena franziu o cenho, tentando decifrar.
Celina percebeu e, com uma ponta de provocação, perguntou:
— E então, Helena? O que você vê?
Helena respirou fundo, tentando ser sincera.
— Eu vejo… um sol se dissolvendo na geleira.
O sorriso curto de Celina se desenhou. Não de deboche, mas de constatação.
— Sim. É uma forma de ver.
Ela ergueu o queixo, os olhos fixos na pintura.
— Eu vejo que as coisas são como são, e nada pode mudá-las. Quem tenta mudar o inevitável, acaba mudando junto.
Helena ficou em silêncio, encarando o quadro outra vez. Nunca, em toda a sua vida, teria interpretado daquela forma. A arte para ela sempre fora algo distante, quase inútil… mas ali, pela primeira vez, sentiu que poderia ser mais. Que talvez a arte fosse uma lente — e que a lente de Celina Monteiro era feita de gelo e fogo, da dureza da realidade e da frieza das consequências.
Ela mordeu o lábio, absorvendo. Não ousou comentar nada. Apenas guardou dentro de si a frase da sogra, como quem guarda um ensinamento que ainda levaria tempo para entender.
Celina, percebendo o silêncio reflexivo da jovem, deu um passo adiante e murmurou:
— Nem tudo precisa ser entendido na primeira vez, Helena. Algumas coisas, a vida se encarrega de explicar.
E seguiram juntas pela galeria, como se a lição tivesse sido apenas mais uma peça da exposição.
Celina manteve o porte ereto, a expressão tranquila, como se tudo estivesse sob controle. Por dentro, no entanto, seus pensamentos fervilhavam. Nunca teria acreditado que gastaria uma noite inteira ao lado de Helena e sairia dali não apenas tolerando, mas pensando no que poderiam fazer nos próximos dias.
Era quase absurdo. Ela? Justo ela, que sempre julgara aquela menina como alguém deslocada, sem refinamento, sem preparo para o círculo que Heitor habitava. Ainda a desprezava, em certo grau — não pelas atitudes da moça, mas pelo sangue e pela origem. Isso era um peso difícil de engolir, um ensinamento que Celina carregava com teimosia.
Mas, entre um comentário espontâneo e outro, entre um olhar curioso e a forma determinada como Helena se posicionara sobre uma simples peça de roupa, algo despertara. Celina não podia negar: havia vigor ali. O mesmo vigor que sua sogra disse que era preciso para ser tornar uma Monteiro.
“Ela precisa aprender muito”, pensava. “Etiqueta, postura, escolhas… precisa ser lapidada em tudo.” Cada detalhe em Helena gritava inexperiência. Mas, pela primeira vez, Celina não via isso apenas como falha. Via como oportunidade.
Já se pegava imaginando: levá-la a mais galerias, ensiná-la a escolher vinhos, a frequentar eventos sociais com a cabeça erguida, a usar as palavras certas nas conversas certas. Transformá-la. Se Heitor realmente estava decidido a permanecer com aquela garota, então que fosse feita a sua vontade — mas ao menos, que ela não envergonhasse o nome Monteiro.
Ainda a julgava. Ainda a desprezava por dentro, em silêncio. Mas, paradoxalmente, sentia um gosto curioso em estar ao lado dela. Algo novo. Algo que fugia dos salões previsíveis e das conversas gastas.
No fundo, Celina já sabia: queria mais. Mais encontros, mais testes, mais chances de observar Helena sob diferentes luzes. Talvez para confirmar suas próprias desconfianças, talvez para satisfazer a estranha necessidade de ver até onde aquela jovem poderia chegar.
A tela diante delas parecia simples: um oceano turbulento em tons de azul e cinza, rasgado no canto por uma pequena boia vermelha, deslocada do centro.
— Para mim — disse Helena, inclinando levemente a cabeça — é como se a boia fosse uma esperança, mas perdida, distante do que deveria proteger. O oceano é imenso, desordenado… e ela está fora do lugar.
Celina observava em silêncio, o queixo erguido, os olhos perspicazes fixos na tela.
— Eu já vejo o contrário. — Ela cruzou as pernas, elegante, e apoiou a mão no braço da cadeira. — A boia não está perdida, está desafiando o óbvio. O centro seria previsível, esperado. Mas ela está ali, na periferia, onde ninguém imagina. Sobrevive por isso. — Os olhos de Celina deslizaram de volta para Helena, avaliando-lhe a reação. — Às vezes, estar fora do lugar é exatamente o que te mantém viva.
Helena sorriu de leve, surpresa pela perspectiva.
— Nunca teria pensado assim.
Foi então que Celina percebeu um movimento à distância. Reconheceu de imediato a figura alta, impecavelmente vestida, os cabelos loiros como um véu. O sorriso de Viviane Fortenelle surgiu primeiro, carregado daquela cortesia que mais parecia uma máscara de aço.
— Ora, ora… Celina Monteiro. — A voz soou clara, chamando atenção de quem estava por perto. Os olhos verdes brilharam ao se fixarem em Helena. — E com… Helena? Isso é peculiar.
Helena se virou e reconheceu-a no mesmo instante. O coração acelerou.
— Viviane! — disse com entusiasmo sincero. — Que surpresa boa te ver aqui.
Celina registrou o tom animado da jovem e, num reflexo instantâneo, endireitou a postura. O sorriso dela foi polido, mas havia veneno na cadência das palavras:
— Mas é claro que estamos juntas. — Pousou a mão sobre a de Helena com firmeza, quase em gesto de posse. — Ela é a namorada do meu filho. É natural que estejamos ao lado uma da outra.
O “meu” saiu como um corte lento e fundo.
Viviane arqueou as sobrancelhas, o sorriso estreitando-se em incredulidade.
— Então foi isso que o meu filho esqueceu de me contar… Namorada… do Heitor?
O nome ecoou como uma dúvida perigosa. Helena, meio sem saber como reagir, apenas assentiu.
Celina, no entanto, não perdeu a oportunidade. Ergueu a mão da jovem, deixando o anel de ouro branco brilhar sob a luz da galeria.
— Sim, namorada do Heitor. É… curioso que ele tenha esquecido de mencionar algo tão… significativo. — O olhar dela pousou direto no de Viviane, sem piscar. — Só o meu filho poderia proporcionar algo assim. Será que o ambiente corporativo a fez esquecer como se parece uma joia?
Viviane permaneceu em silêncio por segundos longos demais. O sorriso retornou ao rosto, mas seus olhos eram frios e calculistas.
— É um belo anel, sem dúvidas. — A voz saiu doce, mas carregada de conotação. — Mas, Celina… você sempre acreditou em símbolos. Eu, ao contrário, prefiro acreditar nas pessoas. Às vezes, mais do que joias, o que importa é… quem está ao lado.
O subtexto atingiu como uma estocada.
Celina manteve o rosto impassível.
— Por isso mesmo eu não tenho dúvidas. — O tom era baixo, certeiro. — Meu filho escolheu com inteligência. Sempre soube reconhecer o valor que outros ignoram.
Viviane não recuou. Virou-se diretamente para Helena, o olhar suave, quase maternal.
— Agora entendo por que Antônio fala tanto de você. — disse num tom que parecia simples demais para não carregar peso. — Você tem presença, Helena. Uma qualidade rara.
O golpe acertou em cheio. Celina sentiu, mas não deixou transparecer.
— Que interessante, Viviane. Parece que ainda não aprendeu a diferença entre admirar e cobiçar o que não lhe pertence.
Viviane ergueu o queixo, sorriso fixo.
— Diferente das outras famílias, não se nasce um Fontenelle, se tornasse um. E quando o destino escolhe alguém para estar ao lado de um Fortenelle, não costuma errar.
O ar pareceu pesar. Celina, no entanto, falava com plena convicção.
— Helena não precisa de destino algum, Viviane. — A frase saiu como aço envolto em seda. — Ela escolheu meu filho. E isso basta.
O silêncio entre as duas foi denso, cheio de lembranças do passado: as noites de riso, os eventos compartilhados, a amizade que ruiu no dia em que Antônio e Heitor se enfrentaram. Nada seria como antes.
Viviane, porém, não se deu por vencida.
— O destino tem uma forma engraçada de brincar com as escolhas, Celina. — O sorriso dela voltou, frio, mas afiado. — Vamos ver quem ri por último.
Celina respondeu apenas com um leve curvar dos lábios, sem tirar os olhos dela.
— Sempre foi boa em metáforas, Viviane. Mas hoje… Helena está comigo. — E apertou a mão da jovem, firme, como quem crava uma estaca no chão.
Helena, entre as duas, sentia a tensão atravessar o ar como lâminas visíveis. Estava sendo disputada como um símbolo, sem compreender toda a dimensão. Não sabia o que fazer no meio daquelas duas leoas.
Viviane, por fim, suavizou o tom, embora os olhos ainda faiscassem, voltou o olhar para Helena.
— Espero que esteja aproveitando essa noite, Helena. — E, após uma pausa calculada, completou: — Mal posso esperar pela minha vez de dividir esses eventos com você.
E se retirou.
Celina manteve o olhar fixo na direção por onde Viviane se afastou, os lábios cerrados num traço fino. Só depois de alguns segundos virou-se para Helena, os olhos azuis como o mar em fúria.
— Quero deixar algo claro, Helena. — A voz dela era baixa, polida, mas carregada de gelo. — Não admito gracinhas suas com os Fortenelles.
Helena arregalou os olhos, surpresa, quase ofendida.
— Gracinhas? Eu não tô com gracinhas, dona Celina.
— Está, sim. — Celina retrucou sem alterar o tom, erguendo o queixo. — Talvez não perceba, mas cada sorriso, cada aproximação… alimenta a narrativa deles. E eu não admito isso.
— Eu só a cumprimentei. — Helena respondeu firme, tentando segurar a compostura. — Ela foi educada comigo, e eu apenas retribuí.
Celina inclinou o rosto, os olhos semicerrados.
— Não se iluda. Viviane não dá ponto sem nó. — A mão repousou rígida sobre a bolsa de grife. — Eu sei que você está indo à Fort Group. E isso, Helena… isso é inaceitável para uma Monteiro.
O coração da jovem disparou.
— Eu disse para o Heitor que iria continuar a trabalhar.
— Que trabalhe. — Celina interrompeu com um gesto delicado da mão, mas a voz cortava como navalha. — Que cresça, que mostre sua competência. Mas não lá. Não com eles. Não com nossos inimigos.
Helena baixou os olhos, sentindo a pressão esmagar seu orgulho. Celina percebeu o silêncio e avançou mais um passo, firme:
— Ou você faz parte desta família de verdade… — o tom baixou, grave, carregado de significado — ou continua a ir até a Fort Group, alimentando as intrigas deles até se tornar uma deles. Não pode ter os dois.
Helena ergueu os olhos, castanhos de nervosismo e desafio, mas não respondeu de imediato. Aquelas palavras ecoavam como sentença. Celina, então, ajeitou o colar no pescoço, recompôs o sorriso elegante e completou, mais suave, como quem encerra um julgamento:
— Pense bem, Helena. Porque o mundo em que você está entrando não perdoa indecisões.
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