O CEO que Eu Paguei
142 A Nossa Família
Helena passou a noite em claro, virando de um lado para o outro, os pensamentos um turbilhão. As palavras de Celina ecoavam em sua mente, cortantes. As de Viviane também. A certeza de que Antônio estava interessado nela a incomodava mais do que queria admitir — não só pelo interesse em si, mas porque isso parecia colocar em risco tudo o que ela havia conquistado até ali. E em hipótese alguma poderia comentar algo do tipo com Heitor.
Ela se lembrava bem: no início, ele fora invasivo, arrogante, o típico homem acostumado a ter todos aos seus pés. Mas, aos poucos, se transformou em alguém amigável, quase solícito. Era uma tática, claro que era. Um jogo de aproximação. E se falou dela para a própria mãe, é porque realmente a queria.
Helena suspirou, exausta. Como se já não bastasse lidar com isso, pensava em Verônica. No lugar de Heitor, ela mesma não teria dúvidas: se fosse com outra mulher, esperaria que ele simplesmente a demitisse. Rápido, limpo, sem margem para dúvidas.
Foi nesse fio de pensamento que sentiu uma mão quente apertando seu seio. Helena arqueou as sobrancelhas e virou o rosto. Heitor estava deitado ao lado, o sorriso safado pintado nos lábios.
— Opa… — disse ele, com fingida inocência. — Achei que fosse o controle da TV.
Helena não conteve o riso, revirando os olhos.
— Não viaja, Monteiro.
Ele deu de ombros, mas os olhos azuis brilhavam em malícia.
— Seus peitos tão uma delícia, sabia?
— Tão como sempre. — rebateu de imediato.
— Não. — Ele abanou a cabeça devagar, lambendo os lábios. — Quando eu toco, tão bem mais suculentos… acho que até aumentaram um pouquinho.
Helena estreitou os olhos.
— Tá me chamando de gorda?
Heitor arregalou os olhos, indignado.
— O quê? Não, caralho! Tô te chamando de gostosa. — E soltou uma risada.
Ela cruzou os braços, fingindo emburrada.
— Idiota.
O sorriso dele não se desfez. Mas quando a encarou por alguns segundos, a expressão ficou mais séria, analítica.
— Tu tá mais mal-humorada hoje que o normal… — comentou. O olhar azul deslizou pelo quarto, parando na pilha de sacolas espalhadas pela mesa, sofá e bancada. — Ontem voltou cheia de compras, disse que tinha se divertido… mas tá pensativa. — A voz baixou, preocupada. — Minha mãe falou alguma merda pra você?
Helena balançou a cabeça devagar.
— Não. Sua mãe foi ótima. Eu me senti mais próxima dela, de verdade. É… é algo comigo mesma.
Heitor a estudou em silêncio por um instante. Depois sorriu de canto e abriu os braços, puxando-a para perto.
— Já sei. — O tom voltou a ser leve. — O que acha de irmos pra praia hoje?
Ela piscou.
— Praia? Mas é meio da semana, a gente trabalha.
Ele ergueu o celular, mostrando a tela bloqueada como se fosse prova suficiente.
— Eu já me dispensei. — Disse com naturalidade. — E acho que você devia fazer o mesmo.
Helena respirou fundo. A ideia de encarar Antônio e Viviane naquele dia parecia sufocante. Poderia mandar uma mensagem dizendo que estava indisposta, trabalhar de casa… e pronto.
Olhou para ele, que sorria feito um garoto prestes a cometer uma travessura.
— Sabe… parece uma boa ideia.
Heitor a puxou mais para perto, satisfeito.
— Sabia que você não ia resistir.
Heitor digitava no celular com a rapidez de quem já tinha tudo planejado.
— Vou chamar o Jonas e o Isaac.
Helena, ajeitando o cabelo em frente ao espelho, virou-se surpresa.
— O Jonas eu já conheci… mas Isaac? Quem é?
— Irmão mais novo dele. — Heitor sorriu de canto, sem levantar os olhos da tela. — Tu vai gostar.
— E eles não vão tá trabalhando? — perguntou desconfiada.
O riso debochado dele encheu o quarto.
— Aqueles manés não trabalham, Helê. — Guardou o celular no bolso e a olhou fixamente. — Mas quero que se dê bem com eles. São moleques, mas pra mim… — a voz suavizou — é como se fossem da minha própria família.
Helena o observou com carinho, mas hesitou um instante.
— O Jonas não pareceu ter gostado muito de mim.
Heitor inclinou a cabeça e deixou o sorriso escapar, mas sem humor.
— Jonas tem um coração grande… só que é inconsequente. — O olhar azul endureceu. — E não pode gostar muito de você mesmo, não. Inclusive já conversei com ele sobre aquele dia.
Helena se levantou e caminhou até ele, abraçando-o pela cintura, colando o rosto no peito dele.
— Amor… ele me ajudou. Não seja mal com ele.
O corpo dele reagiu antes das palavras. Heitor cerrou os olhos, sentindo o calor dela se esfregando nele. E quando Helena falou naquela voz doce, quase sussurrada, o homem todo se desarmou.
— Vou tentar, amor. — A confissão saiu grave, rendida.
Ela sorriu contra a pele dele e distribuiu um beijo suave no pescoço.
— Obrigada.
As mãos dele desceram devagar pela cintura dela, firmes, possessivas, e o sopro quente do seu fôlego roçou o ouvido dela.
— E o que acha… — murmurou rouco — de eu tirar esse seu shortinho agora… te colocar no meu colo… e você cavalgar em mim igual fez aquele dia no carro?
Helena fechou os olhos, arrepiada, um sorriso malicioso surgindo.
— Acho uma ótima ideia.
O dia parecia outro quando Heitor segurou a mão de Helena e a levou pela trilha fechada de mata, em direção ao mar. O cheiro de sal se intensificava a cada passo, e quando atravessaram a mata, o cenário se abriu: uma praia escondida, de águas cristalinas e só com algumas pessoas e ambulantes, cercada por costões que a protegiam da vista.
— Viu só? — Heitor sorriu, orgulhoso. — Aqui não chega turista. Só carioca raiz conhece.
Helena estava com o biquíni vermelho que contrastava com a pele marrom e realçava as coxas grossas. A saída de praia leve balançava com o vento, e os cabelos — aquele caos entre cachos e ondas — estavam lindos. O chapéu de aba larga dava um charme a parte, e as sardas no nariz e nas bochechas davam um ar fofo.
Mas nada se comparava ao jeito como ela sorria quando olhava para ele.
Heitor vinha do lado, descalço, o calção marinho e a camisa branca aberta revelando o peito malhado e o abdômen naquele quase definido. Os cabelos um pouco maiores , como ela gostava, estavam bagunçados pelo sal e pelo vento. E a barba por fazer… a barba estava um problema. Um problema que Helena queria resolver com os lábios.
Ele carregava a bolsa de praia, a toalha dobrada sob um braço, e ainda equilibrava a garrafa térmica com água. Os óculos escuros escondiam o olhar… mas o sorriso? Não.
Quando ele notou a forma descarada com que ela o encarava, ergueu uma sobrancelha por cima dos óculos e soltou:
— Vai continuar me secando assim é?
Helena limpou discretamente o canto da boca com as costas da mão e fingiu compostura:
— Não sei do que tá falando.
Heitor deu um passo mais perto, ele deixou o rosto próximo ao ouvido dela:
— Se você continuar me olhando assim, a gente volta ali pra trás. Eu te encosto nessa mureta e…
— E nada! — ela deu um leve tapa no peito dele — Aqui tem gente.
— A praia é pública. Mas você? Você é meu vício particular.
Helena sorriu, mas baixou o rosto, disfarçando o rubor das bochechas. Não era só o sol. Era ele.
Eles escolheram um canto, estenderam toalhas, Heitor desceu a mochila das costas e tirou a camisa. Estavam começando a relaxar quando vozes ecoaram pela trilha.
— Lá vêm eles… — Heitor murmurou, já reconhecendo.
Jonas surgiu primeiro pela trilha, já sem camisa, o óculos escuro preso nos cabelos ondulados. O sorriso fácil ainda estava ali, mas os olhos foram direto para Heitor. O tom debochado que sempre o acompanhava se apagou por um instante; no lugar, veio uma seriedade incomum. Aproximou-se mais contido, como um cachorro que, depois da travessura, volta de orelhas abaixadas em busca de perdão.
— Heitor… — murmurou, passando a mão pelo cabelo, respirando fundo antes de continuar. — Antes de qualquer coisa, eu queria pedir desculpas. — Lançou um olhar rápido a Helena, mas era claro que suas palavras tinham outro destino. — Aquele dia, quando eu levei ela lá em casa… eu vacilei. Não vai acontecer de novo. Foi mal, Helena. — concluiu, sem sustentá-la com os olhos; para Jonas, só havia valor na aprovação do “irmão” mais velho.
Heitor sustentou o olhar em silêncio, frio, até que Helena se adiantou, quebrando o clima.
— Tá tudo bem, Jonas. — disse com suavidade. — De verdade.
O semblante dele se abriu como se tivesse recebido um perdão duplo. Sorriu largo, aliviado, e já voltou ao tom mais leve.
— Então estamos zerados. — piscou, antes de virar-se para o caçula. — Isaac, essa é a Helena.
O caçula era mais alto que Jonas, usava uma camiseta dry fit e um calção amarelo listrado. Os cabelos castanhos claros, ondulados até a nuca, lhe davam um ar despretensioso, contrastando com as sardas que marcavam o nariz e as maçãs do rosto. Não tinha o físico definido dos outros dois, mas compensava na postura: firme, quase desafiadora, como quem fazia questão de não parecer menor diante deles.
Quando se aproximou, Helena percebeu o quanto estava sério — havia um certo ar marrento que quase a fez rir. Parecia determinado a mostrar que dominava o próprio espaço.
Isaac estendeu a mão — o gesto simples, mas firme, seguro.
— E aí. — disse, com sotaque carioca marcado, sem pressa. Os olhos percorreram Helena por alguns segundos, como se vasculhassem a memória. — Estranho… tenho a sensação de já ter te visto em algum lugar.
— Eu também tive isso no começo! — Jonas se adiantou, rindo e batendo no ombro do irmão. — Mas deve ser coisa da nossa cabeça.
Helena sorriu de canto, como se fosse óbvio.
— Talvez pelo Instagram do Heitor. — murmurou.
— Aaaaah! — estalou os dedos. — Pode crer. Aquele carrossel que ele postou no fim de semana. — Isaac assentiu, ainda intrigado, mas deixou o assunto morrer com um sorriso curto.
Heitor riu, contido, e se levantou. Recebeu Jonas com um abraço firme, marcado pelo tradicional tapa nas costas que selava a reconciliação. Em seguida, cumprimentou Isaac do mesmo jeito, com a mesma força que usava para tratar de igual. Os dois pareciam vibrar com aquele gesto simples, como se cada movimento fosse uma validação silenciosa.
Helena observava em silêncio. Estava claro nos olhos dos rapazes: a forma como se endireitavam, o entusiasmo que mal disfarçavam, a maneira quase orgulhosa de estarem ali. Para eles, Heitor não era só um amigo mais velho — era um exemplo, quase um irmão de fato.
Atrás deles vieram as meninas — duas jovens moldadas no padrão das redes sociais. Biquínis mínimos de grife, corpos esculpidos no mesmo molde, cabelos lisos caindo até a cintura. Helena as observou com curiosidade; de perto, parecia ainda mais claro o esforço de tantas garotas em serem cópias umas das outras — versões diferentes de uma mesma mulher.
A loira ajeitou os óculos escuros de grife e já ergueu o celular, a voz aguda preenchendo o ar.
— Genteee, olha esse mar! — falou para a câmera, fazendo pose. — Tô com um boy… querem saber quem é? Acompanhem os stories! — mandou um beijo dramático para a lente.
Num pulo rápido, Jonas tomou o celular da mão dela.
— Opa, opa, opa! — disse, com o sorriso malandro. — Tu já sabe como funciona. — apertou a tela e desligou o aparelho. — É proibido celular. Não viaja, gatona.
Ela bufou e fez biquinho.
— Nem ia filmar você, era só engajamento… — tentou recuperar o aparelho, mas ele desviava com risadinhas.
— Sei, sei. Conheço esse papo desde 2023. — Jonas riu, vitorioso,
E passou para as apresentações.
— Essa aqui é a Babi, minha… acompanhante de hoje. — anunciou, recebendo um tapa carinhoso dela, acompanhado de uma risadinha. — E essa… — apontou para a outra e começou a estalar os dedos, fingindo esforço para lembrar.
— É a Duda — completou o Isaac — Da minha facul.
— Essa mesma! — Jonas abriu um sorrisão, como se tivesse lembrado sozinho.
— Oii, Helena. — Babi disse, sorrindo com dentes perfeitos demais para serem naturais.
— Prazer. — Duda completou, segurando a mão do Isaac.
Heitor aproximou-se mais de Helena e, sem cerimônia, passou o braço pela cintura dela. Cumprimentou as meninas com um “oi” simples, sem dar abertura.
Isaac, por sua vez, não parecia alheio ao redor, ele observava em silêncio, atento a Helena — não de maneira invasiva, mas com a curiosidade genuína de quem estava tentando entender quem era a mulher que ocupava aquele lugar ao lado de Heitor.
Jonas voltou a quebrar o gelo, rindo:
— Caraca, Heitor, nunca imaginei te ver na praia de casalzinho. — cutucou, debochado. — Mas combina.
Heitor beijou a bochecha dela.
— Combinamos como praia e verão.
Jonas, rindo, voltou a provocar:
— Caraca, Heitor, nunca imaginei te ver na praia de casalzinho. — cutucou, debochado. — Mas combina, hein.
Heitor apertou Helena contra si e, antes que ela se explicasse, beijou-lhe a bochecha.
— Combinamos como praia e verão.
Helena riu, sem jeito, mas não conseguiu disfarçar a alegria.
O sol batia forte, e a brisa do mar deixava tudo mais leve. As toalhas estavam estendidas, o cooler aberto, as meninas convenceram Isaac a tirar várias fotos delas: uma deitada de bruços com o biquíni milimetricamente ajustado, outra em pé com o celular levantado, fazendo boomerang da onda batendo nos pés.
Jonas abriu uma cerveja e largou o desabafo de peito cheio:
— Cara, eu não aceito isso. Juro que não. Agora só tenho trinta minutos de intervalo. — Bateu a lata no ar, indignado. — TRINTA!
Helena ergueu a cabeça, surpresa.
— O quê? Trinta minutos só? Isso é desumano! — a indignação dela veio natural, os olhos arregalados.
Jonas abriu um sorriso satisfeito de ter ganhado uma aliada.
— Exato, Helena! Fala pra eles! — apontou para Heitor e Isaac. — Isso não é vida.
Heitor, deitado com os óculos escuros, soltou uma risada baixa, balançando a cabeça. Já conhecia aquele roteiro.
Helena virou-se para Jonas, séria, tentando entender.
— Tá, mas qual é o seu horário de trabalho?
— Das dez às quatorze. Terça e quinta. — respondeu sem piscar, como se fosse uma injustiça mundial.
Helena piscou, incrédula, e depois caiu na gargalhada.
— Você tá de sacanagem, né? — olhou para ele como quem checava se tinha entendido certo. — QUATRO horas, dois dias por semana… e ainda tá reclamando de intervalo?
— Claro que tô! — Jonas abriu os braços. — Quatro horas é puxado e com trinta minutos de intervalo não tenho tempo nem de beber uma água e relaxar!
Helena se jogou de costas na toalha, gargalhando.
— Ah não, gente, não dá. — levou a mão à testa, teatral. — Esse é o verdadeiro proletariado brasileiro sofrendo…
Ela começou a esticar o deboche, falando com tom professoral:
— Enquanto eu, humilde mortal, tenho que bater ponto todo dia, cumprir meta, lidar com planilha… — girou o braço no ar, como se fosse uma palestrante. — O Jonas, coitado, sofre com DOIS dias de trabalho por semana.
Heitor gargalhou alto, tirando os óculos pra limpar a lágrima que escapava.
— Amor, para… você vai matar o moleque de vergonha. — mas o riso só aumentava.
Isaac, que até então observava em silêncio, entrou na zoeira:
— Na moral, Jonas, se você quiser eu troco contigo. Faço teu horário e você assume o meu estágio no banco. — levantou a sobrancelha, rindo. — Quero ver aguentar das dez às dezesseis. Segunda a sexta.
— Nem morto! — Jonas retrucou rápido, como se fosse absurdo. — A vida é muito curta pra isso.
Babi entrou no papo sem nem entender direito:
— Ai, amor, não deixa falarem assim com você. — disse, colando no ombro dele. — O que importa é qualidade de vida.
— Isso! — Jonas bateu no peito, triunfante. — Qualidade de vida, ouviram?
Helena olhou para Heitor, incrédula, mas rindo junto.
— Não sei se eu dou risada ou se eu choro com isso. — disse, ainda deitada, rindo tanto que as bochechas doíam.
Heitor a puxou pela mão, com aquele sorriso de quem aproveitava cada segundo.
O grupo estava espalhado pela areia: cooler aberto com latinhas afundadas no gelo.
Isaac, mais discreto, estava sentado ao lado de Helena, os dois meio de canto. Mas bastava alguns segundos juntos para a conversa entre eles engrenar.
— Me diz uma coisa — Isaac começou, apoiando os braços nos joelhos, olhando de lado pra ela. — Não acredito que você também gosta de série policial.
Helena ergueu as sobrancelhas, animada.
— Claro que gosto. Pra mim, não tem nada melhor. Fico vidrada tentando descobrir quem é o culpado antes do episódio final.
Ele riu, balançando a cabeça.
— Igualzinho eu. E o pior é quando a série consegue me enganar… fico puto.
Helena abriu um sorriso cúmplice.
— Mas, ao mesmo tempo, você respeita, né? Tipo: “ok, roteirista, você venceu.”
— Exato! — Isaac deu uma risada curta e genuína. — E não me diga que você também é do tipo que pausa o episódio pra teorizar.
Ela deu de ombros, sem disfarçar.
— Já fiz até tabelinha em caderno. Nome, suspeitos, possíveis motivos…
Isaac bateu a palma da mão na coxa, rindo alto.
— Tá de sacanagem! Eu faço isso no bloco de notas do celular!
Os dois riram juntos, em sintonia, chamando a atenção de Jonas.
— Qual é a palhaçada aí? — Jonas gritou, fingindo ciúmes. — Se estão rindo, quero rir também.
Helena piscou, divertida.
— Segredo investigativo.
Isaac ergueu a lata de cerveja como se brindasse.
— Informações confidenciais.
— Ah, vão se ferrar, os dois. — Jonas reclamou, mas sorrindo.
A conversa seguiu sem esforço.
— Sorvete favorito? — Isaac perguntou de repente, como se fosse a pergunta mais séria do mundo.
— Baunilha. — Helena respondeu sem hesitar.
Ele arregalou os olhos, surpreso.
— Não é possível. É o meu também.
Ela riu, inclinando a cabeça.
— Todo mundo acha sem graça, mas eu acho clássico.
— Simples, suave e perfeito. — ele disse, como se fosse um lema de vida. — Eu sempre falo: baunilha é subestimado.
Helena riu de alguma piada que Isaac tinha feito e, quando ele se mexeu para pegar a garrafa d’água, o olhar dela caiu de lado. Notou uma pinta discreta na lateral da barriga dele e, sem pensar muito, comentou:
— Olha só… eu tenho uma pinta igual. No mesmo lugar.
Isaac parou, curioso, e virou-se para ela com um meio sorriso.
— Sério?
Helena tocou de leve o próprio lado, indicando o ponto abaixo da costela.
— Bem aqui.
Ele arregalou os olhos, divertido.
— Caraca! Que coincidência.
— Coincidência demais. — ela disse, rindo junto.
— Daqui a pouco vou descobrir que você também tem mania de separar M&M por cor antes de comer. — ele completou, balançando a cabeça, incrédulo.
— Pior que eu tenho!
— Ah, não. Agora temos muito em comum mesmo. — riu. — O mesmo sorvete, depois a série policial, e agora até pinta igual?
Pouco depois, Isaac comentou como se fosse óbvio:
— Mas, sério, quiabo… não dá. Só o cheiro já me dá ânsia.
Helena quase gritou de alívio.
— Graças a Deus alguém me entende! Minha avó sempre brigou comigo por não comer. Aquela textura é… horrorosa.
Isaac ergueu os braços para o céu.
— Finalmente uma aliada. Vou lembrar disso no próximo jantar de família.
Helena gargalhou.
— Obrigada, universo! Agora eu não vou mais ser a esquisita.
Eles se olharam e caíram na risada juntos de novo, com a naturalidade, como se fossem velhos conhecidos.
Do outro lado, Heitor estreitou os olhos por trás dos óculos escuros. Observava em silêncio, mas por dentro estava leve, quase feliz. Gostava de ver Helena à vontade, rindo e se entrosando com os meninos. Era tudo o que queria: que ela desse certo ali, naquele círculo que também era parte dele.
Jonas, claro, não perdeu a chance de se meter de novo:
— Além de serem sardentos. — soltou, rindo sozinho.
Heitor, que até então só observava, falou sem tirar os óculos escuros:
— As da Helena são lindas. — disse simples, a voz grave cortando a conversa. — No Isaac, nem fazem diferença.
Duda, tentando quebrar o clima, cutucou o braço de Isaac com um sorrisinho doce.
— Que nada, as suas também são lindas.
Isaac retribuiu com um sorriso curto, discreto. Jonas gargalhou, aproveitando a tensão que sempre gostava de provocar.
Helena então se inclinou, ainda rindo, e deixou um selinho rápido em Heitor, que retribuiu com um sorriso satisfeito. Então, ela pegou o protetor da bolsa e despejou um pouco na mão. Heitor, deitado de lado na canga, levantou a sobrancelha com aquele sorriso preguiçoso.
— Vai cuidar de mim, é? — ele provocou, oferecendo as costas.
— Cala a boca, Monteiro. Se não passar vai ficar igual um camarão de novo. — ela resmungou, espalhando o creme pelos ombros largos dele.
Ele soltou um suspiro exagerado.
— Isso, amor… bem devagar. — riu, só pra provocá-la.
Helena deu um tapa leve nas costas dele.
— Você é insuportável.
— E apaixonado. — completou, virando-se para frente quando ela terminou e puxando o frasco da mão dela. — Agora é a minha vez.
Antes que ela protestasse, Heitor já estava passando o protetor no braço dela, escorrendo até a bunda.
— Heitor… — ela o encarou com aquele olhar de quem queria brigar, mas o rubor no rosto a entregava.
— Amor, é só pra não queimar. — ele respondeu com a cara mais cínica do mundo, passando a palma quente deslizando na coxa dela.
— Tá passando onde não precisa. — ela retrucou, estreitando os olhos.
Ele deu uma risadinha baixa.
— Sempre precisa.
Nesse momento, Jonas surgiu com o celular na mão.
— Ihhh, olha os pombinhos! — falou alto, já tirando várias fotos. — Ô Isaac, olha isso, dá até vontade de vomitar.
— Cala a boca, mané. — Heitor riu, jogando areia no pé do irmão. — Vai procurar o que fazer.
— Tô registrando, pô! Vai que algum dia vocês terminam e eu vendo essas fotos pra Choquei. — Jonas disse, rindo, enquanto Babi ria com ele.
Eles engataram outra conversa animada — agora sobre as praias que Helena ainda queria conhecer no Rio. A sintonia era leve, fluida, quase automática. Heitor observava de soslaio, orgulhoso por vê-la se entrosando.
Logo Jonas apareceu correndo com uma bola de vôlei.
— Bora jogar! Quero ver se a namorada do Heitor é tão boa de jogo quanto ele.
Helena levantou as mãos, rindo nervosa.
— Eu sou péssima nisso, aviso logo.
Heitor se aproximou, abraçando-a de lado.
— Você não precisa ser boa, amor. Só deixa a bola no ar. Eu faço o resto.
— Parou, parou — Jonas entrou sério no meio. — Vamos tirar os times no dois ou um. Quero jogar com o Heitor, pô!
Heitor e Helena se olharam e sorriram juntos como cúmplices. As acompanhantes dos meninos não quiseram participar.
O resultado saiu, e Jonas bufou alto, quase jogando a bola no chão.
— Ah, não! — ele protestou. — Eu não acredito que fiquei com a ruim!
Helena se virou indignada.
— O quê? Como é que é, Jonas?
— Ué, você mesma disse que era ruim nisso! — Jonas rebateu, abrindo os braços. — Agora vou ter que carregar nós dois nas costas.
— Dois? — Helena encarou ele com as mãos na cintura. — Se eu sou ruim, você é pior ainda!
Isaac riu e bateu na mão de Heitor.
— Sorte minha, fiquei com o rei das areias.
Heitor ajeitou o óculos escuros no rosto e abriu um sorriso preguiçoso, irresistível.
— Rei é exagero, mas… não nego que sei brincar.
Helena, por um instante, ficou ali só olhando. O jeito dele se mover, relaxado e confiante, parecia coisa de filme. Jonas percebeu na hora.
— Ô, ô, ô! — cutucou o braço dela. — Para de babar aí, ô. Se concentra, parceira!
Helena arregalou os olhos, corada.
— Não tô babando, coisa nenhuma!
— Tá sim. — Jonas retrucou, rindo. — E você, Heitor, para de hipnotizar a minha dupla, pô!
Heitor abriu o sorriso de canto, malicioso.
— Ela pode olhar o quanto quiser. Eu não ligo. É tudo dela.
Helena bufou, cruzando os braços, tentando disfarçar o rosto quente.
— Aff, nada a ver…
O jogo começou e, como Jonas temia, a dupla dele estava levando uma surra. Heitor mandava cortadas certeiras, Isaac completava com jogadas rápidas, e cada ponto deles vinha acompanhado de provocações.
— Bora, Jonas! — Helena gritava, tentando se jogar na areia para salvar a bola. — Eu não vou desistir!
— Pelo amor de Deus, Helena, levanta a mão na hora certa! — Jonas já estava suado e ofegante. — A gente vai perder feio!
Heitor ria do outro lado, sem dó.
— Eu avisei, vocês deviam ter me ouvido.
Mas então veio a jogada improvável. Isaac levantou a bola, Heitor pulou para cortar, mas Jonas conseguiu defender no reflexo. A bola sobrou para Helena, que fechou os olhos e sacou de qualquer jeito. A trajetória saiu torta, mas caiu justo entre Isaac e Heitor, que se atrapalharam tentando salvar.
A bola bateu na areia.
— Ponto nosso! — Helena gritou, incrédula, antes mesmo de acreditar.
Jonas berrou junto, levantando os braços como se tivesse feito o gol da final da Copa.
— Caraca, a gente conseguiu!
Eles correram um para o outro e se abraçaram, pulando na areia.
— Ééé! — Helena ria, comemorando como criança. — Viu só? A gente pode!
Do outro lado, Heitor tirou o óculos escuros e olhou para eles, sacudindo a cabeça com um sorriso divertido.
— Vocês estão comemorando um ponto… como se tivessem ganho o jogo.
Isaac ria, limpando o suor da testa.
— Parece até que foi a vitória da vida deles.
— Foi! — Jonas respondeu sem pensar. — Porque a gente fez ponto em vocês dois!
Helena levantou a mão para mais um high five.
— Isso mesmo! E não foi qualquer ponto, foi um ponto histórico!
Heitor caminhou até a rede, apoiou-se nela e, olhando direto para Helena, disse com aquela voz grave que a fazia estremecer:
— Se você comemora assim só por um ponto, imagina o que eu posso fazer quando você ganhar o jogo inteiro comigo.
Helena virou o rosto rápido, mas o sorriso escapou. Jonas olhou a cena e suspirou, teatral:
— A gente não tem a menor chance, mesmo.
O jogo já durava mais do que deveria. Jonas gritava com cada ponto perdido, Isaac mantinha a postura mas não disfarçava o fogo competitivo, e Helena, mesmo sem jeito, estava rindo como criança.
Heitor pegou a bola, girou-a nas mãos e levantou o braço.
— Chega, acabou o jogo. Bora pro mar.
Na mesma hora, uma sinfonia de protestos explodiu:
— Ah, não! — Jonas protestou, cruzando os braços e franzindo o nariz, a boca torta num biquinho ridículo.
— Pô, tava ficando bom! — Isaac entrou na onda, copiando o mesmo gesto quase no reflexo.
— Nada disso, a gente tava quase virando! — Helena estava contrariada com uma carinha de brava.
Os três falaram juntos, e no fim, franziram o nariz exatamente da mesma maneira.
Heitor ficou imóvel.
Porra. Era a mesma cara.
Os três ali, quase em sincronia, com o mesmo jeitinho de pedir. O nariz franzido, o jeito de sorrir, a expressão de coitadinhos. Ele passou a mão pela barba, incrédulo.
— Caralho… — murmurou, olhando de um para o outro. — Vocês viram isso?
— O quê? — Helena perguntou, ainda animada.
Ele ergueu a sobrancelha, apontando com a bola.
— Vocês três fizeram a mesma cara. Igualzinha. Até o nariz enrugado foi idêntico.
Jonas gargalhou, dando de ombros.
— Ah, para, Monteiro, você tá viajando.
— Não tô, não. — Heitor falou sério, mas com um sorriso de canto. — Foi igualzinho, eu juro. Até arrepiei.
Antes que Helena respondesse, os três se juntaram na frente dele, olhos brilhando, encarando-o como se estivessem combinados.
Heitor recuou um passo, riu alto e passou a mão no cabelo.
— Tá de sacanagem… Agora vocês três tão fazendo o mesmo olhar. É bizarro.
Isaac cruzou os braços, tentando segurar o riso.
— Isso é só porque você não quer admitir que a gente tava te dando trabalho.
— Trabalho? — Heitor riu ainda mais, inclinando a cabeça. — Se isso é trabalho, então vocês precisam urgentemente treinar.
Helena fez biquinho, Jonas também. Isaac tentou resistir, mas cedeu segundos depois, repetindo a mesma expressão.
Heitor olhou os três lado a lado, iguais no gesto, e coçou o queixo, intrigado.
— Vocês são um trio esquisito, sabia? Mesmo olhar, mesma teimosia… parece até que são da mesma família.
— Que besteira, Monteiro. — Helena deu um empurrão leve nele.
Mas Heitor não riu dessa vez. Ele ficou observando os três por um instante a mais, como se alguma coisa ali cutucasse fundo. Uma semelhança que não tinha como ser coincidência.
Não. Não é igual.
Neles, aquilo era irritante. Jonas parecia um moleque birrento. Isaac, um playboyzinho querendo convencer o irmão mais velho. Nos dois, o “jeitinho” dava vontade de mandar calar a boca.
Mas nela… era diferente. Quando Helena fazia aquela cara, com aquele sorriso e os olhos brilhando, ele se sentia desarmado. Era o tipo de expressão que faria ele atravessar o oceano a nado, se fosse o pedido dela. Só dela.
Heitor soltou um riso abafado, balançando a cabeça. O coração acelerou num misto de irritação e encantamento.
— Caralho… vocês três tão me deixando maluco. — colocou os óculos escuros, escondendo os olhos. — Tá bom. Mais uma rodada. Mas só mais uma.
A reação foi imediata: Jonas vibrou alto, Isaac bateu palmas e Helena pulou rindo, batendo de leve no braço dele antes de correr para a areia.
Ele ficou parado um instante, vendo os três comemorarem juntos.
É bizarro. O mesmo sorriso, a mesma cadência na risada, até a maneira de se jogar para frente era parecida.
Heitor ficou olhando mais um instante, os três comemorando como se tivessem acabado de ganhar uma final de campeonato. Helena ria solta, os cabelos bagunçados pelo vento, o corpo leve como se pertencesse àquele lugar. Ele não resistiu. Puxou-a pelo braço em um gesto firme e colou a boca na dela num beijo demorado, intenso, que fez os protestos de Jonas ecoarem de fundo.
— Você é linda demais, Helê… — ele murmurou contra os lábios dela, os olhos semicerrados e cheios de desejo. — Tão linda que até esses pivetes aí estão tentando te imitar.
Helena riu baixinho, encostando a testa na dele antes de roubar outro beijo rápido.
— Para de graça, Monteiro. — disse divertida, os olhos brilhando. — Anda logo, vamos jogar mais uma. Tá divertido.
Ele soltou um sorriso, aquele que só ela conhecia, e segurou a mão dela com força, levando-a de volta para a areia.
— Tá bom, mas agora eu quero ver vocês darem conta de ganhar do rei das quadras. — falou alto, já provocando Jonas e Isaac. — Porque agora, o papai e a mamãe vão ensinar uma lição para as crianças.
Helena revirou os olhos e riu, voltando para o jogo com a mão entrelaçada na dele.
A areia quente ainda colava nos pés quando Heitor puxou Helena pela mão até a beira do mar. As ondas vinham suaves, espumando nos tornozelos dela. Helena parou, hesitante, mordendo o lábio e olhando para aquele azul sem fim.
— Eu nunca entrei no mar. — confessou baixinho, quase envergonhada.
Heitor virou-se para ela com um sorriso tranquilo, os olhos azuis refletindo a claridade.
— Então vai ser comigo. — apertou a mão dela, firme, passando toda a segurança que sabia dar.
Ela respirou fundo e deixou-se guiar. Cada passo era acompanhado por ele, que não soltava a mão dela em nenhum momento. Quando a água já batia no quadril, Helena parou, arregalando os olhos.
— Tá fundo demais, Heitor… — murmurou, nervosa.
Ele riu baixinho e puxou-a para frente, até que a água alcançou a altura do peito dela.
— Calma, Helê. — Ele se aproximou por trás, envolvendo a cintura dela com os braços. — Olha, eu tô aqui. Se a onda vier, eu seguro você.
Helena fechou os olhos por um instante, sentindo a espuma tocar a pele e o coração disparar. Mas o abraço dele era como uma âncora — firme, sólido, inabalável. Abriu os olhos e sorriu, tímida, encostando a cabeça no ombro dele.
— Até que é gostoso… — admitiu, surpresa.
— Eu disse que ia gostar. — Heitor beijou de leve o cabelo dela. — O mar é igual a você… parece assustador no começo, mas quando a gente mergulha, não quer mais sair.
Ela riu, empurrando o peito dele.
— Idiota. Eu não sou assustadora.
Uma gargalhada forte ecoou por perto. Jonas surgiu nadando, o cabelo todo grudado na testa, jogando água nos dois.
— Olha só, a casalzinho apaixonado! Vocês vão ficar aí só se agarrando ou vão brincar de verdade?
Helena riu e tentou se esconder atrás de Heitor, mas o irmão mais novo já planejava molhá-los. Heitor abriu os braços como quem se colocava de barreira, rindo.
— Vai com calma, Jonas! A novata ainda tá se acostumando.
Enquanto isso, mais distante, Isaac continuava estendido na areia ao lado das meninas, óculos escuros no rosto, corpo rosado pelo sol. Fingindo que não ligava para nada, mas de vez em quando erguia a cabeça para olhar a cena dos três, uma pontinha de sorriso escapando.
Helena, aos poucos, deixava o medo se dissolver na espuma. Ali, entre os braços de Heitor, o mar já não parecia tão ameaçador — parecia um abraço maior, infinito, que ela podia finalmente aproveitar.
De volta à areia, Helena estendeu a canga, ajeitou o biquíni e deitou de barriga para cima, fechando os olhos por alguns segundos para sentir o sol aquecer sua pele. Respirou fundo, quase relaxando.
Heitor, ainda molhado, passou a mão pelos cabelos e se abaixou ao lado dela.
— Vai ficar deitadinha agora?
— Só um pouquinho. — Helena respondeu, abrindo um olho para ele. — Vai lá nadar, se quiser. Eu não vou ficar aqui de olho em você, prometo.
Ele deu um sorriso rápido e roubou um selinho.
— Vou dar mais umas braçadas, já volto. — E foi em direção ao mar com aquela calma segura que parecia natural nele, mas não antes de voltar o olhar para ela.
Isaac se levantou em seguida, esticando os braços como se quisesse mostrar os “músculos” de propósito.
— Acho que vou mergulhar também. — Disse, lançando um olhar para a Duda que estava com ele.
Ela levantou imediatamente, ajeitando o cabelo e tirando os óculos de sol.
— Eu vou junto. — respondeu, animada.
Do outro lado, a acompanhante de Jonas chamou por ele.
— Amor, vamos lá? Quero tirar umas selfies perto das pedras.
Jonas abriu a latinha de cerveja com um tsss alto e respondeu sem se mover:
— Já vou, vai na frente. Só vou tomar essa aqui rapidinho.
Ela revirou os olhos, mas foi assim mesmo.
O silêncio confortável ficou entre ele e Helena, os dois observando de longe os outros se divertindo. Foi então que Helena avistou, no fim da faixa de areia, um homem empurrando um carrinho de milho, o cheiro quente chegando junto com a brisa.
Ela se endireitou num impulso, os olhos fixos no vendedor.
— Nossa… eu preciso de um milho. — murmurou, como se estivesse faminta há cinco dias. — Mas não é querer, é precisar. Se eu não comer, vou surtar.
Jonas virou o rosto devagar para ela, arregalando os olhos como se tivesse ouvido uma confissão estranha.
— Helena… você acabou de falar igualzinho uma grávida.
Ela gelou na mesma hora e olhou para ele com seriedade.
— Nunca mais. Não fala isso nunca mais. — rebateu, firme, enfurecida.
Jonas ergueu as mãos, rendido, mas não perdeu o tom provocador.
— Ué, não é culpa minha. Você falou com uma intensidade de novela das oito. “Eu preciso desse milho, senão vou surtar.” — ele imitou o tom dela, rindo sozinho. — Qualquer um acharia que você tá de três meses.
Helena pegou um punhado de areia e jogou nele, indignada.
— Idiota!
Jonas se sacudiu, gargalhando, e apontou para o carrinho que se aproximava.
— Tá decidido. Vou lá comprar um pra você. Não quero acordar amanhã com um “bonitinho no olho” porque você ficou desejando.
Helena arregalou os olhos, chocada.
— Jonas! — disse indignada, tacando o protetor dele com raiva. — Não tô gravida e não vou engravidar!
Ele ergueu as mãos, fingindo inocência, mas com um sorrisinho debochado.
— Calma, calma… é só modo de falar. Mas olha, do jeito que você ficou olhando esse milho, eu não ia arriscar não.
Helena bufou, mas o olhar dela voltou imediatamente para o carrinho, como se o estômago falasse mais alto que a honra. Suspirou, derrotada.
— Tá… mas só porque eu realmente preciso.
Jonas riu, balançando a cabeça.
— É, tá na cara. Você quer esse milho como se fosse a coisa mais importante da sua vida.
Helena cruzou os braços, tentando manter a pose, mas os olhos continuavam brilhando fixos no carrinho.
— Idiota…
Depois de comprar, Jonas voltou em passos largos com dois milhos quentes, brilhando de manteiga e cheiro de sal que pareciam estar deliciosos. Estendeu um para Helena e outro para a barriga dela, com o sorriso malandro de sempre.
— Trouxe um pra você e um pro Juninho — anunciou, como se tivesse resolvido o maior dos problemas mundanos.
Helena fez uma careta, cruzou os braços e fez bico, mas não conseguiu resistir, tomou os dois espetos de uma vez. O cheiro era irresistível; quando mordeu, a crosta estalou e a manteiga escorreu, doce com uma pitada salgada que imediatamente a fez fechar os olhos de prazer. Por um segundo todo o resto sumiu: a sogra, a Fort Group, as preocupações. Era só milho, quente e perfeito — e ela deixou que fosse indulgência sem culpa por alguns minutos.
Jonas, observando, deu uma piscadela e ficou meio em pé, olhando para o mar com as mãos nos bolsos.
— Vai ficar bem sozinha? Posso ir nadar mais um pouquinho, só mais uns quinze minutos?
Helena levantou a sobrancelha, limpou a manteiga da boca com a parte de trás da mão e devolveu a ele o olhar com a mesma malandragem.
— Olha, se você ficar aí enchendo o saco com essa cara boba e me provocando, eu juro que te arrasto até o fundo do mar e te afogo. — disse, em tom de ameaça.
Jonas riu alto e fez a expressão de quem realmente avaliou o risco.
— Tá ok, tá ok — respondeu, recuando com as mãos erguidas em rendição cômica — Vou nadar. Mas se eu sumir, não chore hein?
Helena lhe deu a língua e mordeu outra vez, num equilíbrio perfeito entre a irritação e a ternura. Quando Jonas se afastou correndo em direção à água, ela o observou com um sorriso torto: sabia que ele era imprevisível, mas naquele instante, vendo-o brincar no mar, achou impossível não gostar daquela família bagunçada da qual, de alguma forma, já estava começando a fazer parte.
Um tempo depois, Heitor voltou da água sacudindo as gotas que escorriam pelos ombros largos e o sol batendo no corpo molhado. Helena nem conseguiu disfarçar o arrepio quando ele se abaixou para beijá-la, gelado de mar contra o calor da pele dela. Ela riu, encolhendo os ombros.
Ele se jogou ao lado dela na canga, ainda pingando, e sem dizer nada pegou o chapéu que estava largado perto e enfiou na cabeça dela com delicadeza.
— O sol tá forte demais — murmurou — Vai te desidratar.
— E eu tô aproveitando. — Helena ajeitou o chapéu e sorriu. — Quero pegar uma marquinha.
Heitor a olhou de lado, os olhos azuis exalando um humor safado.
— Uma delícia, é o que você é. — Ele deslizou os dedos devagar pela coxa dela, o toque quente contrastando com as gotas geladas. — A sua cor é linda… sexy pra caralho.
Helena riu, meio sem graça, e cutucou o peito dele.
— Sexy tá você, Monteiro, todo rosa. Vai virar camarão.
Ele fingiu indignação, mas acabou cedendo quando ela o puxou pelo pescoço e o beijou com gosto. Ficaram ali alguns segundos, respirando o riso um do outro.
— Tá bem? Quer alguma coisa? — Heitor perguntou, atento.
Helena olhou em volta e avistou uma barraca simples de coco.
— Um coco. — disse, animada, e completou com um sorrisinho: — E parece que tem sorvete também.
Heitor deu uma risada curta, beijou a testa dela e se levantou.
— Já volto.
Não demorou para retornar com um coco gelado e um sorvete branco cremoso dentro de um coco partido.
— Olha só, gourmet pra você.
Helena arregalou os olhos.
— Nunca vi isso na vida. — Pegou o coco com sorvete e, encantada, começou a comer com colheradas. Depois enfiou uma na boca dele, rindo quando ele fingiu saborear exageradamente.
Enquanto ela se distraía, Heitor ficou observando, os pensamentos voltando à cena de mais cedo — os três, Helena, Jonas e Isaac, rindo e reclamando iguais. Aquele jeito pidão, até o franzir do nariz… era coisa que não dava pra inventar. A estranheza ficou martelando no fundo da mente.
— Ei. — A voz suave de Helena o trouxe de volta. Ela apoiou o coco no colo e sorriu para ele. — Obrigada por me trazer aqui. Eu precisava disso.
Heitor respirou fundo, deixou de lado o incômodo que o rondava e prendeu os olhos nos dela.
— Você merece muito mais que isso, amor.
— É sério, Heitor. — Ela ajeitou o chapéu, encarando o mar. — Às vezes ainda não acredito que tô aqui… com você, nessa vida que nunca imaginei.
Helena virou o rosto para ele.
— Como você imagina o futuro da gente?
Heitor entrelaçou os dedos dela e ficou um tempo olhando, como se estivesse pesando cada palavra.
— Eu imagino a gente junto em tudo, mas não só nos sonhos. Eu quero você no meu dia a dia, Helena. Quero a gente morando junto em uma casa, juntos na mesma rotina, até as brigas mais bobas. Quero levar você para viajar, conhecer os lugares que eu amo, mas também quero ficar em casa com você, deitado no sofá, sem nada pra fazer.
Ele sorriu de lado, aquele sorriso que desarmava.
— Quero te chamar de esposa.
Helena sentiu os olhos arderem, surpresa com a clareza da declaração.
— Forte isso, Monteiro.
Ele riu baixo, encostando a testa na dela.
— Forte é pouco. Você é a única certeza que eu tenho.
Helena ficou em silêncio por alguns instantes, observando Jonas e Isaac brincando mais adiante, as meninas rindo alto na areia, o sol dourando a cena como se fosse uma fotografia. Então respirou fundo e comentou:
— Sabe… olhando todo mundo assim, eu achei bem divertido. É ótimo ter uma família grande.
Heitor virou o rosto para ela, um sorriso sincero se formando.
— É sim. — Ele passou o braço pelos ombros dela, puxando-a mais perto. — E essa é a nossa família.
O peito de Helena se aqueceu. Ela se deitou contra o ombro dele, encontrando apoio naquele abraço firme, quase como se ali fosse seu lugar desde sempre.
— Eu nunca pensei que fosse sentir isso… — ela confessou baixinho. — Essa sensação de fazer parte, de estar no meio, de não estar sozinha.
Heitor beijou o topo da cabeça dela.
— Você nunca mais vai estar sozinha, ouviu? A gente é um time agora. O que for bom, a gente celebra junto. O que for difícil, a gente segura junto também.
Ela fechou os olhos, saboreando cada palavra, e murmurou:
— É bom demais saber que eu tenho alguém. Que eu tenho você.
Ele riu suave, ajeitando o corpo para apertá-la ainda mais contra si.
— E eu tenho você. É isso que importa. O resto… o resto a gente enfrenta.
Helena ergueu o rosto e o encarou, sorrindo com ternura.
— Eu te amo. Amo muito.
Heitor tocou o queixo dela com a ponta dos dedos, olhando nos olhos castanhos dela.
— E eu amo muito mais!
Ela sorriu, emocionada, e voltou a se aconchegar no ombro dele, ouvindo o barulho do mar misturado ao coração de Heitor batendo firme — como se marcasse o compasso da vida que estavam construindo juntos.
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